sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Religiosidade no Neolítico - II

Durante a constituição do modelo de cidade-Estado, que dominará o Mediterrâneo pelos próximos séculos [4000-3500 a.C em diante], veremos nascer criações fundamentais do ser humano. Apesar de constatar-se a domesticação de plantas selvagens do próprio local em regiões afastadas do Levante, as áreas ao redor do Crescente Fértil necessitavam do que era inicialmente produzido nessa área geográfica. A disseminação das culturas do sudoeste asiático “foi logo seguida pela de outras inovações que nasciam no Crescente Fértil ou perto dele, entre elas a roda, a escrita, técnicas de metalurgia, ordenha, árvores frutíferas e produção de vinho e cerveja.” 1

Nas cidades-Estado hieráticas, o mundo sagrado das divindades era muito mais do que um ideal a se aspirar, mas, antes disso, um protótipo, um arquétipo da vida na terra. Os próprios deuses haviam ensinado as técnicas de construção das cidades aos homens e, por conta disso, concebia-se que tudo no mundo era uma réplica frágil de alguma contraparte divina, ou seja, as pessoas e objetos da realidade sagrada tinham suas imitações no mundo material 2. Foi por volta do terceiro milênio AEC que surgiu “o profissional em tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo.” 3

As cidades de Ur, de onde veio o Patriarca Abraão, Kish, Erech, Nipur, Shuruppak, Sipar e Lagash foram os palcos privilegiados dessa nova forma de se enxergar a realidade. Do alto das maravilhosas torres-templos chamadas zigurates os sacerdotes podiam admirar o cortejo das sete esferas eternas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, a Lua e o poderoso Sol, os mensageiros da lei e ordem universais. O número sete torna-se objeto de especial reverência por conta das sete “estrelas” errantes das quais derivou a semana 4. Toda a cidade é uma cópia na terra da ordem do Cosmos e, de acordo com a concepção matemática de inspiração astronômica que dava suporte a essa consonância mágica, o universo (macrocosmos) unia-se à comunidade (mesocosmos) e esta, por sua vez, ligava-se ao ser individual (microcosmos) 5.

“Pois há uma lei, um rei, um Estado e um universo. E além dos muros de nossa pequena cidade-estado estão as trevas; mas dentro dela reina a ordem, planejada de toda a eternidade para o homem, suportada pelo pivô do rei, que em sua imitação sagrada da lua (…) é a lua terrena (…). Sua rainha é o sol. A sacerdotisa virgem que o acompanhará na morte e será a noiva em sua ressurreição é o planeta Vênus. E seus quatro primeiros ministros de Estado – os senhores das finanças e da guerra, o primeiro-ministro e o carrasco – encarnam os poderes, respectivamente, dos planetas Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno.” 6

Quando o rei ou a rainha morriam, eram acompanhados à sepultura por todos os membros que refletiam a ordem celeste. Nesse mundo arcaico o verdadeiro caráter dos seres não estava em sua personalidade individual, mas em sua representação arquetípica. O rei é o bom pastor e seus súditos seu rebanho; ou é o agricultor dos deuses (como Adão em Gênesis 2:15) que dá vida aos campos; também pode ser o mestre das artes, o portador da cultura (que nas mitologias é o aquele que traz o fogo, símbolo da sabedoria, à comunidade) que constrói a cidade 7.

Pode-se estranhar um rei lua ao invés de uma rainha, mas nesse perído (anterior à invasão acádia de 2500 a.C) na esfera do sagrado A era B, o masculino era feminino e a morte era indissociável da vida. A divindade Lua, ao contrário do Sol que era sempre o mesmo, exemplificava a lei universal do devir com seu crescimento, decrescimento, desaparecimento e renascimento. Ela era aquela que se situava para além dos pares de opostos da existência sensível, relembrando o mundo do mito antes do primeiro assassinato ou da primeira relação sexual. A serpente, o símbolo lunar junto do chifre do touro, mordendo a cauda na forma de Ouroboros, simbolizava o eterno retorno e os pares de opostos unidos, pois sua boca era como uma vagina recebendo o órgão sexual masculino. A sociedade da cidade-Estado hierática era matrifocal 8, mas o entendimento da importância do homem na procriação durante a época de sedentarização e domesticação de animais tornou-se mais evidente por meio da observação do desenvolvimento dos rebanhos.

“Em consequência desta situação encontramos a Deusa-Mãe acompanhada de um ser masculino, um filho ou um irmão que a acompanha nos ritos da fertilidade e com os quais se une. Nos mitos e ritos trata-se de um deus jovem que há de morrer para logo renascer. No entanto, é a Grande Deusa quem cria a vida e governa a morte, mas agora reconhece-se muito melhor a participação masculina na procriação. As núpcias sagradas (hierogamias) e outros ritos similares festejados durante o quarto e terceiro milênios expressavam estas crenças. Até que a deusa se tivesse unido ao jovem deus e houvesse tido lugar a morte e o renascimento deste, não podia recomeçar o ciclo anual das estações. A sexualidade da Deusa é sagrada.” 9

O consorte, filho de parto virginal ou irmão da Deusa era o “Filho Legítimo do Abismo”, ou “O Filho do Abismo que se Levanta” 10 ; aquele que representa a energia geradora que se autoconsome; o deus-touro com o chifre em forma de lua o qual entra no mundo subterrâneo e é resgatado por sua esposa, a deusa nua em forma de serpente que copula com a serpente monstro e renova as forças do mundo 11, após três dias de trevas. É Baal e Anat, “Ístar e Tammuz, Vênus e Adônis, Ísis e Osíris, Maria e Jesus.” 12

Esse deus da colheita é em muitos casos o deus da morte. Ao morrer e retornar à vida, personifica o processo universal no qual vida e morte estão inexoravelmente ligadas. O culto do deus morto é simbolizado pela carnificina porque a vida nunca vence completamente. O antigo mito sumério de Inanna, sua parte ctônica Ereshkigala e Dumuzi 13 deixa essa questão bem clara. Inanna desce ao submundo para usurpar a irmã Ereshkigala, rainha das profundezas e da vida. Fracassa, e os Sete Juízes subterrâneos (contrapartes ctônicas das sete esferas celestes) a condenam à morte. Volta à terra acompanhada de demônios que forçam Dumuzi a ocupar o lugar de Inanna por este ter traído a esposa. Doravante, passa seis meses com Ereshkigala, nos quais a terra sofre a estiagem, e seis com Inanna, quando os grãos brotam e a colheita acontece.

A agricultura não era uma atividade pacífica e sim uma batalha constante contra as intempéries, esterilidade, fome e seca. A mitologia neolítica é violenta e as forças sacras da morte precisavam ser vencidas para que o alimento pudesse ser produzido. A semente penetra a terra e morre para dar origem à vegetação, os “implementos agrícolas mais parecem armas, o cereal deve ser reduzido a pó, as uvas, amassadas até a extração de sua polpa antes de se tornarem vinho”. 14

A grande mãe não era generosa e gentil; ao contrário, suas raízes remontam à Grande Deusa, senhora dos animais e fonte da vida; a que dá à luz constantemente por meio da morte do marido Animal. Nascida do ressentimento inconsciente da mulher em decorrência dos perigos pelos quais o caçador precisava passar, exigia grande derramamento de sangue para sua manutenção. A mulher, apesar de assegurar a sobrevivência da tribo por ser a fonte de nova vida, precisava do “interminável sacrifício de homens e animais” 15 para sua alimentação e a das suas crianças. Sua evolução, a Deusa Mãe, também precisava da morte do consorte o qual, como os alimentos de origem agrária, era esquartejado e mutilado antes de ressuscitar com a colheita.

“O imaginário sexual do plantio não significa que os povos percebiam a agricultura como um caso amoroso romântico com a natureza. A própria reprodução humana era extremamente perigosa para mãe e filho. Do mesmo modo, lavrar os campos exigia trabalho árduo, estafante. No Gênese, (…), a perda da condição paradisíaca inicial é vivida como prática da agricultura. No Éden os primeiros seres humanos cuidavam do jardim divino sem fazer esforço algum. Após a Queda, a mulher passa a parir os filhos entre dores, e o homem a tirar o sustento da terra com o suor de sua fronte. (Gênese 3:16-19)” 16

No mundo antigo, a deusa era representada por um monte de terra o qual era o omphalos, o umbigo e ponto de início do mundo. Esse axis mundi era o centro dos quatro cantos do mundo, como a árvore da vida e os quatro rios da Gênesis (Gênesis 2:9-14), no qual a realidade divina e humana se encontravam.

“(…) é o centro do círculo simbólico do universo, o Ponto Imóvel da lenda do Buda, em torno do qual, pode-se dizer, o mundo gira. Sob esse ponto, encontra-se a cabeça — suporte da terra — da serpente cósmica, o dragão, que simboliza as águas do abismo — a energia e a substância divinas,criadoras de vida, do demiurgo, o aspecto gerador do mundo do ser imortal. A árvore da vida, isto é, o próprio universo, cresce nesse ponto. Está enraizada na escuridão e sustentada por ela; o pássaro dourado do sol está empoleirado em sua copa; uma fonte, poço inexaurível, borbulha a seus pés.” 17

Notas:

1 - DIAMOND, Jared. Armas,germes e aço. Os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 183
2 - ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Editora Schwarcz, 2008. p.18
3 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 126
4 - BOYER, Carl B. História da Matemática. . São Paulo: Blucher, 2001. p. 36
5 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 327
6 - idem, ibidem. p. 327
7 - idem, ibidem. p.331-334
8 - Apesar das crítica feitas à ideia de “matriarcado primitivo” de Johann Jakob Bachofen, não entraremos aqui no mérito da pertinência ou não do termo e das críticas ao mesmo. Todavia, os conceitos de sociedade “matrifocal” ou “matricêntrica” referindo-se a comunidades centralizadas na figura da mulher será utilizado juntamente ao termo “matriarcado”.
9 - MOREIRA, Ana Maria Mendes. A mulher, o divino e a criação. Colóquio internacional “A Criação”. Convento dos Dominicanos. Lisboa, 2001. Versão online http://triplov.com/creatio/moreira.htm
10- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 333
11- idem, ibidem. p. 337
12- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. Pgs. 123-124. São Paulo: Palas Athena, 2005.
13- BARBAS, Helena. (tradução). Descida de Inanna aos Infernos in: A saga de Inanna (antologia de poemas).http://www.helenabarbas.net/traducoes/2004_Inanna_H_Barbas.pdf
14- ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 45
15- idem, ibidem. p. 38
16- idem, ibidem. P. 44-45
17- CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22; CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22, idem, ibidem. P. 44-45

Autor: Leonardo Veloso Pin
Editor: Guilherme Balan
Fonte: Bule Voador

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