quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Religiosidade no Neolítico - I

O céu continuaria a ser um símbolo do sagrado bem depois do período Paleolítico. Mas um progresso inicial mostrou que a mitologia falharia se falasse de uma realidade transcendente demais. Se um mito não permite que as pessoas participem de algum modo do sagrado, ele se torna remoto e escapa de sua consciência. A certa altura (…), as pessoas de diversas partes do mundo, isoladas entre si, passaram a representar o céu. Começaram a contar histórias sobre um “Deus Celeste” ou “Deus das Alturas”, que criou sozinho o céu e a terra, a partir do nada. Esse monoteísmo primitivo quase certamente data do período Paleolítico. Antes de começarem a adorar uma série de divindades, os povos de muitas partes do mundo reconheciam apenas um Deus Supremo, que criara o mundo e administrava os assuntos humanos do alto.

Esse Deus Supremo, que era a Causa Primeira de todas as coisas, não podia ser representado por imagens e não possuía templos ou sacerdotes, por ser sublime demais para as inadequadas categorias e culto humano. Por essa razão foi desvanecendo-se aos poucos até ser substituído por divindades menores e mais acessíveis, pois o mythos é paradigmático e precisa fazer-se presente e estar voltado à vida das pessoas para que possa florescer. No período Paleolítico as mitologias dominantes eram a do “valente xamã – cujo poder era atrair os animais para a queda” quer dizer, por meio dos rituais, o feiticeiro, meio homem, meio fera, encantava os animais para tornarem-se passíveis de serem caçados, como podemos constatar pelas pinturas de Trois Frères – e a do Mestre Animal, muito bem representada pelo ritual do culto ao urso e à rena e que estaria relacionado à magia que evitava “ser surpreendido pela vingança sangrenta” do espírito do ser o qual teve o sangue derramado durante a caçada ou luta. Porém, percebemos uma mudança clara na mitologia a partir de quando as sociedades passaram a cultivar o próprio alimento.

Podemos constatar o culto à fertilidade nas crenças Paleolíticas ao observarmos as diversas estatuetas femininas datadas do Aurignaciano e do Paleolítico Superior, como a “Vênus impudica”, a qual apresenta uma grande abertura vaginal; ao mesmo tempo temos as imagens masculinas toscas, cujo único detalhe seria o pênis ereto. Normalmente as “Vênus” Paleolíticas possuem certas partes da anatomia representadas de modo exagerado – abdômen (possivelmente por estarem grávidas, mas alguns estudiosos acreditam que se trata apenas um símbolo de abundância numa época na qual os recursos eram escassos), seios, quadris, coxas, nádegas e vaginas. Além disso não apresentam definições faciais, apesar de exceções como a Vênus de Brassempouy, que seria uma das primeiras representações da face humana. Esse culto à Grande Mãe teria surgido por conta dos mistérios primais do nascimento e da menstruação, que seriam manifestações naturais de poder. Por essa razão, os ritos femininos estariam relacionados à ideia de perigo misterioso, exemplificado pelo estranho fenômeno vaginal, a qual seria um portal ligando o mundo ao mistério com o poder de trazer nova vida à nossa existência. O uso do ocre nos rituais antigos mostra a importância do ciclo menstrual para o mito ancestral. Tanto que sua força ainda pode ser constatada na Gênesis bíblica na figura de Adão (adam em hebraico que vem de adamah, terra,dam, sangue e adom, vermelho), o hermafrodita, feito da terra vermelha feminina e do sopro do céu masculino (Gênesis 2:7).

Todavia, apesar da importância da fertilidade e dos úteros físico, (qual permite o nascimento carnal), e simbólico, (representado pelas cavernas e submundo, relacionado ao nascimento ritual) – o mesmo que seria experimentado por Jesus em seu túmulo quando abandona sua carne em nome de uma vida espiritual -, o Paleolítico era o mundo da caça, atividade essencialmente masculina. A divindade que passeava pelo céu, essência do transcendental e da alteridade, era o grande caçador “Sol”. Ele é o leão, cujo rugido espanta os rebanhos e o grande boi lunar, a grande águia, cujas garras capturam a ovelha; ele é a esfera luminosa cujos raios ao alvorecer dispersam os “rebanhos” do céu noturno, as estrelas, é o pássaro que caça a cobra lunar. Mas, felizmente, os rebanhos e a lua animal sempre regressavam na noite seguinte, pois o eterno céu, os astros e estrelas serviam como pano de fundo estável para a vida ordinária, que transcorre sob o domínio da morte, da vicissitude, da sucessão interminável de eventos e do ciclo das estações.

E enquanto o homem caçava instruído pelos “Ancestrais” – os seres arquetípicos os quais ensinaram aos humanos suas atividades cotidianas e que tornavam as mesmas sagradas, do sexo à arte da caça -, as mulheres eram responsáveis pela coleta de raízes, bagas e larvas. Essa atividade permitiu-lhes desenvolver o cultivo de plantas e tornarem-se as responsáveis pela produção de alimentos e as únicas responsáveis pela geração e criação dos filhos. Segundo Karen Armstrong, “Dessa maneira conquistaram poder e prestígio tanto econômico quanto social, e o sistema matriarcal tomou forma”. Essas primeiras agricultoras não surgiram espontaneamente. Suas técnicas foram resultado da acumulação de várias decisões ao longo dos séculos sobre a utilização de tempo e esforços. As coletoras anteciparam diversos elementos da arte agrícola, como tratar a terra queimando-a, estimulando o desenvolvimento do vegetais que brotavam depois; colher os tubérculos, separando esses dos caules e pontas e replantando os últimos; e arar o solo, ao cavar para extrair as raízes.

Foi com o início da agricultura que as principais formas míticas do passado estruturaram-se; principalmente aquelas as quais podemos encontrar em diversas passagens do Velho e Novo Testamentos bíblicos. A grande serpente e a donzela, as divindades lunares e solares, o deus assassinado que desce ao submundo para retornar em seguida, a Deusa Mãe – a terra fornecedora que, como o céu, foi personalizada – uma divindade nova que manteve as características da sangrenta Grande Mãe Paleolítica, a que era ao mesmo tempo o bem e o mal, etecetera. Foi no mundo Neolítico que grande parte da estrutura mitológica Euroasiática tomou forma, com sua cristalização ocorrendo durante a formação das cidades-estado hieráticas há 5500 anos na região da Mesopotâmia.

Algo que devemos ter em mente quando estudamos a passagem da experiência mítica de sociedades caçadoras coletoras para as agrícolas é que, diferentemente do animal, se alguém cortava uma planta e jogava fora o ramo morto, ela brotava novamente. A poda estimulava o crescimento das plantas em vez de matá-las, a semente mudava de forma e parecia precisar morrer para permitir o nascimento do vegetal. A questão do renascimento após a morte, que vai permear muitas religiões encarnacionistas, desenvolve-se no mundo do agricultor. Ao contrário da atividade da caça – que trazia grande peso psicológico a quem precisava matar animais que tinham expressões faciais, gritavam de dor e derramavam o mesmo sangue vermelho do caçador – a agricultura não necessitava do derramamento de sangue. Entretanto, os rituais ligados a ela eram sangrentos e terríveis, sendo sacrificados tanto bichos quanto homens, pois pensava-se que deuses, humanos e animais estavam inextricavelmente ligados. Eram compostos da mesma substância divina, não havendo diferença em quem deveria ser oferecido em holocausto.

O confronto com a morte resultava no crescimento espiritual, na aceitação da mortalidade; o êxtase dos ritos religiosos levava o fiel à automutilação em diversas ocasiões; a morte daqueles oferecidos em sacrifício mutilados e enterrados como plantas servia para renovar as forças da criação e fornecer campos férteis. Era uma "forma de reciclar as forças esgotadas que mantinham o mundo vivo. Havia uma firme convicção de que vida e morte, criatividade e destruição estavam inextricavelmente interligadas. As pessoas achavam que sobreviviam apenas porque outras criaturas davam a vida por elas, e assim reverenciavam a vítima animal por seu auto sacrifício. Como não podia haver vida sem essa morte, alguns imaginavam que o mundo surgira em função de um sacrifício realizado no começo dos tempos".”

O mistério da Lua, o grande disco de prata que toma o lugar do poderoso Sol durante a noite, com sua morte e ressurreição perpétuas durante a mudança dos ciclos lunares, intrigava as pessoas do passado. Parecia haver alguma relação com a interdependência entre vida e morte, sexo e assassinato, que sustentam a existência. A coincidência do ciclo menstrual com o da Lua ajudou a tornar essa divindade um dos símbolos da religião da Grande Deusa, juntamente com a cobra, o falo, que, assim como o astro prateado, também parece ter o poder de renovar-se ao trocar de pele. A serpente relacionada ao astro feminino tornou-se um símbolo (tão vilipendiado pelo Tenach da sociedade patriarcal hebraica) da mulher na mitologia, como podemos constatar, por exemplo, pela escultura da “Deusa Minóica das Serpentes” de 3600 anos. Apesar de ter sido subjugada pelos deuses masculinos dos invasores semitas e indo-arianos, sua presença ainda hoje ecoa nas mitologias da Eurásia.

A produção de alimentos iniciou-se por volta de 8500 AEC na região mediterrânea do Crescente Fértil e tinha, entre outras funções, o objetivo de garantir um estoque para o caso de carência de plantas e animais silvestres. Um dos fatores de seu crescimento, juntamente ao da domesticação de animais, foi a melhora do clima na área no final do Pleistoceno, a qual permitiu uma expansão da oferta de cereais silvestres passíveis de domesticação. Ao mesmo tempo houve uma redução na oferta de gazelas selvagens, que eram uma fundamental fonte de carne para os caçadores-coletores da região.

“Um outro fator a pesar contra os caçadores-coletores foi o desenvolvimento cumulativo de tecnologia das quais a produção de alimentos iria depender – tecnologias para coleta, processamento e armazenamento de alimentos silvestres. Que uso os fazendeiros poderiam fazer de uma tonelada de grãos de trigo, se não tivessem antes pensado em como colher, como descascar e como armazenar essa quantidade. Os métodos, implementos e meios necessários surgiram rapidamente no Crescente Fértil depois de 11000 a.C., e foram inventados para dar conta da abundância de cereais subitamente disponíveis”.

Temos na região do Oriente Médio e Egito o desenvolvimento da cultura Natufiana no período chamado de Protoneolítico (por volta de 8.500 a 5.500 a.C.). Esse povo foi o primeiro do Mediterrâneo Oriental a estabelecer vilarejos permanentes, utilizando-se da “promissora e altamente significativa colheita de grãos ou capim que se somara às provisões da caça” 4 , formadas pelas cabra e ovelha juntamente a dois dos principais animais da mitologia Euroasiática, o boi e o porco. Cabra, ovelha e porco foram domesticados no sudoeste Asiático por volta de 8.000 AEC.

Entre 5.500 e 4.500 AC, durante o Neolítico Basal, os fundamentos de uma economia agropecuária já estavam bem desenvolvidos. Os cereais da zona mitogenética do Oriente Médio eram o trigo e a cevada. As artes da tecelagem, da cerâmica (surgida no Japão há 14 mil anos e na Ásia Ocidental por volta de 8.000 a.C.), carpintaria e construção de casas desenvolvia-se a pleno vapor até que entre 4.500 e 3.500 a.C. No Neolítico Superior a cerâmica começa a ser enfeitada com desenhos geometricamente organizados nos estilos conhecidos como Halaf, Samarra e Obeid. As formas abstratas geometricamente organizadas eram um tipo inédito de arte até aquele momento, que surgiu exatamente quando o mundo da aldeia agropastoril concretizou-se. Essa sociedade com organização mais complexa foi responsável por uma mudança profunda e substancial que influenciaria a vida do homem nos milênios seguintes: a diferenciação das funções sociais.

No mundo da caça essa diferenciação era totalmente dispensável – a não ser aquela em relação ao sexo, como já vimos, e idade – pois cada um era conhecedor de toda a herança cultural e técnica do próprio grupo social que, dessa forma, era composto por indivíduos equivalentes. Com o aparecimento das sociedades mais complexas, surge a tendência à especialização. Uma pessoa adulta a partir daí constituía-se num órgão necessário do corpo social e possuía um certo conhecimento técnico ou habilidade especial. Tinha, dessa forma, de suportar a convivência com outras que tinham capacidades, conhecimentos e ideais diferentes sem os quais ela, entretanto, não poderia sobreviver.

“A súbita aparição, no Neolítico Superior, de uma forma de arte composta geometricamente, em que elementos díspares eram unidos como um todo harmônico, parece-me indicar que algum problema psicológico dessa ordem já tivesse começado a aparecer.”

Nesse período, é feito um amálgama de diferentes mitologias. Dos ofídios das selvas ao touro das estepes, os diferentes animais da tradição mitológica são fundidos em criaturas fantásticas como leões com cabeças de águias e touros com caudas de peixes. Esses motivos mitológicos básicos são representados na sofisticada cerâmica da época: o touro, a pomba, a cabra, o carneiro, o porco e a deusa são representados por estatuetas e desenhos na região diametralmente oposta àquela onde as Vênus do Paleolítico foram encontradas, sendo ambas separadas apenas pelo mar Negro.

Estatuetas femininas em osso, pedra, marfim ou argila e cerâmicas pintadas foram encontradas nos estratos arqueológicos de 4.500 AEC e dão pistas a respeito das crenças Neolíticas. As figuras esculpidas ou desenhadas são representadas nuas, muitas vezes grávidas e em alguns casos segurando uma criança. Também foram descobertas, nesse mesmo estrato, figuras com o motivo da cabeça do touro-lua, o qual morre e ressuscita e fertiliza a deusa-terra 6 , o animal mais nobre e poderoso do rebanho sagrado, que emprenha as vacas leiteiras e puxa o arado, o qual abre e semea a terra ao mesmo tempo.

“Além disso, os primeiros complexos de templos do Oriente Próximo de Fato, os primeiros na história do mundo, reforçam a evidência do deus-touro e da deusa-vaca como principais símbolos de fertilidade do período. Datados grosso modo entre 4000-3500 a.C., três desses complexos de templos foram escavados no sul da Mesopotâmia, em Obeid, Uruk e Eridu; dois um pouco para o norte, em Khafajah e Uqair, respectivamente ao norte e ao sul de Bagdá; enquanto um sexto, bem longe dali, em Tell Brak, no vale do Khabur no nordeste da Síria, sugere uma ampla difusão daquela forma, comum na região sírio-cilícia (chamada Táurea). Sabe-se que dois desses seis complexos foram dedicados a deusas: o de Obeid, a Ninhursag e o de Khafajah, a Inanna — as divindades dos outros são desconhecidas. E três dos complexos (em Obeid. Khafajah e Uqair), cada um cercado por dois altos muros, eram de forma ovalada, projetada, ao que parece, para sugerir a genitália feminina.(…) Mosaicos multicoloridos encontrados entre as ruínas em Obeid revelam um grupo de sacerdotes em sua sacra tarefa de ordenhar as vacas sagradas, tirando e armazenando o leite, e sabemos, por numerosos documentos escritos posteriormente, que a forma da deusa cultuada naquele templo, Ninhursag, a mãe do universo e de todos os homens, deuses e animais, era em particular a padroeira e guardiã dos reis, que ela alimentava com seu leite santificado — na verdade, o leite dos animais através dos quais ela atuava aqui na terra.”

Autor: Leonardo Veloso Pin
Editor: Guilherme Balan
Fonte: Bule Voador

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