quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Apostolado profano II

Que tal isso para coçar suas barbas e fundir suas cucas: verbo é tudo que vem do verbal, mas também pode ser venial, até mesmo genial de minha parte, pois assim é que sou:
(aversão) Sou aversivo a todo clássico em todos os gêneros, como também em número e grau.
(conversão) Sou conversivo, não conversível a converter esses clássicos, a melhorar mesmo, sobre uma perspectiva mais sagaz.
(Inversão) Não é simples assim. É colocar a coisa toda dentro dessa sagacidade, não apenas inverter os significados.
(Perversão) Estamos acertados, bem me dizem se me chamam de pervertido, pois verter é o meu forte, antes mesmo de haver uma versão, é o que é a perversão!
(Reversão) Exatamente assim, sou o reverso de suas medalhas lapidares, pretendo mesmo ser mortalíssimo. Mato-me todos os dias e o que mais se pode dizer quando se trabalha?
(Subversão) Versão das profundezas, versos abissais, é a região que meu monstro verbal habita e eu nado e vocês nada de entender.
(Diversão) Ficamos combinados assim. Não sou subversivo, pois não há sistema ou Estado em literatura. Não sou reversivo, pois não vou reverter meus tempos aos seus, pretérito imperfeito. Não sou pervertido, pois não faço mais do que a inocência do original mereça. Divergência é tudo o que peço. E é isso que pretendo ser: divertido!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O resgate de Enki

Em termos humanos, os Deuses chegaram há alguns anos em Gaia, estabelecera-se, prosperaram. O conforto e a segurança deram a oportunidade para os Deuses ampliarem seus domínios e riquezas. Em pouco tempo, os Deuses esqueceram de seus valores e logo a necessidade de mais espaço, mais casas, mais mantimentos e mais riquezas fizeram com que Anu cobiçasse a conquista das florestas e terras além.

A cada primavera em Gaia, Deuses e Deusas uniam-se, isto nunca foi caso para criar problema ou escândalo. Apenas um farsante se oculta na transcendência. Apenas um castrado condena o prazer, o sexo e o amor. Os Deuses aumentavam sua prole, a espécie divina se espalhava. Mas nem todos estavam felizes. Ninlil cobiçava o poder de Ninmag e constantemente vinha incomodar Anu, reclamando do sumiço de Enki a cada seis meses do ano de Gaia. Em termos divinos, uma semana. Aventuras e relações paralelas eram coisas costumeiras e normais para os Deuses. O Amor era uma força antiga que era respeitada pelos Deuses e reverenciada por não ter começo, meio ou fim. Foi Ninlil quem inventou o ciúme e essa estranha mania que nós humanos temos em querer tornar quem amamos algo de nossa posse. Pior, nós inventamos os tabus, as fronteiras e as proibições que nos tem tornado tão pobres e indigentes no amor.

Anu não tinha tempo ou paciência para estas queixas menores de uma esposa ressentida, ele sabia muito bem que Enki deveria estar nos braços e pernas de outras Deusas, não era surpresa ou novidade o boato da corte que Enki estava convivendo com Ninmag. Mas o apetite de Ninmag pelo corpo de Enki estava começando a ser um empecilho para os projetos e os planos de Anu. Para achar e resgatar Enki, Anu teria primeiro que encontrar o local onde Ninmag habitava e isto certamente estava além de seus domínios.

Anu convocou uma assembleia de emergência onde, fingindo uma preocupação paternal, requisitou aos Deuses uma comissão para reaver Enki. Um pedido e tanto, visto que apenas Enki se disporia a tal risco. Cronos, vendo nisto uma oportunidade, avisou Rhea, sua esposa, de sua decisão, pegou seu escudo e espada, deixando-a aos cuidados das irmãs dela, Thetis, Phoebe e Selene. oh, povo do mundo, podem imaginar por que ou como um Deus pode desafiar e quebrar as inúmeras proibições e maldições feitas aqueles que saíssem da Cidade dos Deuses e entrassem na floresta sagrada! Por muito menos nós desafiamos e quebramos a lei divina de não matar! Cronos ao menos o faz por altos ideais como honra, virtude e coragem.

Cronos foi quem primeiro ousou adentrar na densa floresta, deparou-se maravilhado com a fauna e a flora. Cronos foi quem nos flagrou em algum canto de Gaia mas não nos deu muita importância naquele momento. Ele lembrou de que Enki lhe contou sobre como dominou as terras baixas, pedindo em oração silente ao Espírito que ali habitava por proteção e salvo-conduto. Cronos bufou, ele é um Deus guerreiro, mas se isto funcionou com Enki, poderia muito bem funcionar com ele.

- Eu invoco ao Espírito que habita a Floresta Negra e vos saúdo. Eu venho em paz, não em guerra. Eu tenho que cumprir esta missão. Eu não vim para invadir vosso domínio, mas para achar onde Ninmag habita e de lá retornar com meu irmão Enki. Para isso, eu devo passar por vosso território, então eu vos peço que apazigue as plantas e as feras para que não me ataquem. Eu não usarei minha espada contra vós se não usardes as vossas contra mim. Passarei tão rápido e despercebido como o vento e seguirei meu destino.

Segui-se um imenso silêncio em toda a floresta. O único som foi o de algo batendo, pulsando, aproximando-se de Cronos. Ali, para o terror e medo de Cronos, o Deus mais guerreiro e corajoso que existiu, apresentou-se o Deus da Floresta Negra. Cronos deixou seu escudo e sua espada caírem e ajoelhou-se diante de tanto poder e majestade.

- Cronos, meu filho! Tu e toda tua gente são bem-vindos, pois sou vosso igual. Tua missão tem um propósito maior e mesmo assim terás que pagar um terrível custo!

- Meu Senhor! Eu não vos conheço mas eu, Cronos, o Valente, não receio coisa alguma nesta vida, exceto o vosso poder.

- Cronos, meu filho, o Valente! Assim como uma força maior que tu o colocaste nessa missão, uma força maior te protege e te conduz. Chame a isto de Destino, se quiser. Tu te ajoelhas diante de mim porque todos nós somos governados por estas forças. Nem eu nem Deus algum pode obrigar ou constranger a ser existente para que se ajoelhe diante dele.

- Então vós podeis ajudar-me a achar onde Ninmag habita e resgatar meu irmão Enki?

- Além da Floresta Negra, além das montanhas que cercam a Cidade dos Deuses, há o Grande Mar. Eu posso te conduzir até a praia mas mais além não. Tu deverás transpor o Mar Negro até a Ilha Negra. Lá encontrará o santuário de Ninmag.

Cronos foi deixado na orla, sozinho, ao sabor da sorte. Ele é um Deus que conhece tudo de campanha, de estratégia, de movimentação de tropas. Enki saberia como percorrer a superfície deste imenso mar e chegar nessa ilha, mas não Cronos. De dentro das águas, uma estranha criatura marinha aproxima-se de Cronos, saúda-o e oferece ajuda.

- Salve Cronos! O teu destino é tão brilhante quanto sangrento. Eu posso te levar até a ilha de Ninmag.

- Tu não temes o poder de Ninmag, a Senhora dos Mares?

- Eu sou um dos muitos Espíritos que habitam estas águas e todos nós somos livres e autônomos, não temos um Senhor ou Senhora.

- E qual a tua paga?

- Quando tu estiverdes no santuário de Ninmag para resgatar teu irmão, tu podes trazer de volta meu báculo que Ninmag furtou.

Cronos foi levado até a ilha onde Ninmag tinha seu santuário e ali outra estranha criatura veio ajudá-lo. Conduzido por uma trilha, por entre pedras, precipícios, plantas venenosas e bestas ferozes, Cronos chegou incólume até a montanha e a entrada da caverna onde Ninmag estava mantendo Enki em cárcere.

- Qual é a tua paga?

- Nobre Cronos, livra-nos da dominação de Ninmag.

Cronos assinalou com a cabeça e entrou na caverna. O ambiente da caverna assustaria qualquer um, menos Cronos. O único espanto que ele teve deu-se quando encontrou seu irmão Enki, em um estranho abraço com Ninmag, penetrando e sendo penetrado.

- Quem ousa conspurcar meu santuário? Adiante-se, mostre-se, apresente-se, pois eu sou tua igual!

- Eu sou Cronos! Eu vim para levar Enki!

- Então tu morrerás aqui!

A intensa refrega entre Cronos e Ninmag fez com que a caverna estremecesse. Apesar de Cronos ter habilidade e experiência com batalhas, ele mal conseguia se defender dos ataques de Ninmag. Com um único golpe, Ninmag desarmou Cronos e estraçalhou sua espada e escudo, arremessando-o com violência contra a parede da caverna. O poder, a força e a fúria de Ninmag eram demais para Cronos que, aturdido, quebrado, sangrando, apenas podia esperar pelo golpe final. O que ele receava não era tanto o fim de sua existência, mas a derrota em uma batalha. Desesperado, a ponto de desmaiar, Cronos apanhou uma planta bulbosa que estava ali perto, apontou na direção de Ninmag e apertou a parte bulbosa da planta, lançando o pólen no rosto dela. A reação, imediata, inesperada, foi o entorpecimento e a queda de Ninmag.

Mesmo dolorido e sangrando, Cronos pegou e levou Enki de volta à Cidade dos Deuses. Enki protestou, apesar das boas intenções de Cronos e de sua missão ter um nobre propósito. Deu à criatura da ilha a planta como paga. Devolveu o báculo para a criatura do mar. Deu sua armadura ao Deus da Floresta.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Heterogênese VII

Causaria então uma grande admiração os lobos, os gatos, os mochos, os ratos e os morcegos e tantos outros seres, que uma fogueira não mereça mais atenção do que a noite que os cercam. Com a liberdade que lhes é peculiar, vão quando precisam, quantas vezes forem necessárias, perto do fogo, para secarem-se e, no mesmo instante, voltarem ao seu lar, na noite, sem tropeçar ou errar o caminho.

Pobre do tolo homem que, uma vez iluminado pela luz, voltar seus pés para a noite. Sua mente esclarecida não aceita a profundidade e a extensão da noite, mesmo diante da luz. Cega seus olhos, desconsidera ser possuidor de uma mente, de uma vontade e de liberdade, uma vez que animal também é.

Com a mesma tolice, com que trata sua luz, traça tratados e regras para legislar as trevas, achando que o oculto pode ser facilmente cercado por leis humanas mesquinhas, quando as Trevas eram anteriores a tudo, mais extensas que a luz, mais profundas que os olhos. De tábua em punho, volta cambaleante como exausta mariposa para seu lugar, a fonte de energia que necessita, volta para a luz e para a fogueira, trazendo seu traçado do oculto e das Trevas. Tantas são as coisas que lhe caem na cabeça, que tenho que dize-las uma por vez, mas são, muitas vezes, somadas e recaídas de uma só vez sobre este incauto e prepotente homem.

Primeiro: ao ver a chama do fogo, a verá mais brilhante do que se lembra, por um mero fenômeno fisiológico animal, porem tomando este fenômeno como advertência e ira divinas, se prostrara ao chão e se arrependera (se não se matar), esquecendo ou negando ou destruindo sua obra oculta, seu tratado das Trevas.

Segundo: desacostumado a viver e andar sem o auxílio de lanternas, seus pés o traem, podendo fazê-lo cair e morrer aos pés da fogueira, ou dentro dela, o que será tomado por seus companheiros como um sinal da misericórdia divina que castiga os impuros e preserva os justos do mal que estes carregam.

Terceiro: diante de uma narrativa tão fantástica sobre o oculto e as Trevas, os companheiros do pobre homem sentem-se ofendidos, ou seu deus negado, armam-se de tochas ou de tições como armas divinas e executam o infiel impiedosamente, sadicamente, tantas vezes quantas as neuroses primitivas assim achar necessárias.

Quarto: os companheiros deste, tão tolos quanto ele, acham que a obra do oculto e o traçado das Trevas operado por ele, tem um certo de verdade. Sob as orientações dele, iniciam brincadeiras com o oculto, acreditando nessas fantasias, que mudarão suas vidas, suas riquezas ou seu destino depois da morte. Na qual descobrirão, tarde demais, de se tratarem tão somente de brincadeiras infantis sem efeito algum.

Quinto: aceitando e operando com o que acreditam ser as leis das Trevas, cometerão despropósitos, que falam alto na moral humana, logo serão saqueados e destruídos por cruzados, provindos de outras fogueiras. Como fiéis da Luz, ficam próximos uns dos outros, para espantar as Trevas e o mal, como um exército de facção, reacionária e irracional.

Sexto: aceitando, porém operando longe das vistas dos seus familiares e cometendo abusos em nome das Trevas, pelas leis que os homens traçaram, os espíritos das Trevas envergonhados com a tolice dos homens, revelam-se aos seus olhos primitivos. Com espanto e horror, reagem, já que não correspondia nem um pouco com que suas tolas leis apregoavam. Logo fogem para a fogueira mais próxima, para arrepender-se e negar as Trevas. Não obstante, nunca pertencesse às Trevas ou às Luzes, apenas que, como animais mamíferos e pretensamente racionais, preferem a felicidade quente, iluminada e superficial das Luzes.

Sétimo: tendo, ainda assim, continuado com suas ignomínias em nome de algo que estão muito longe de conhecer, pouca atenção dando aos avisos dos espíritos das Trevas, como se fossem donos dos espíritos e do destino, sobre o qual recairá a consequência dos próprios atos. Eliminar-se-ão uns aos outros, pelas próprias mãos, movidas por sua loucura de controlar as Trevas. Deste fato tomarão conhecimento, ainda que tardio, seus antigos familiares, que se regozijarão em nome de deus, que fez cair sua divina justiça sobre os pecadores infiéis.

Oitavo: este serve para aquele que, resistindo a tudo isso e ainda continuar seus crimes, em nome do que não pode controlar. Eis que os espíritos das Trevas farão uma audiência, para julgar a este e sentenciar. Não o espírito, uma vez que ainda é pequeno, porém precioso para seu Pai. Ele o fará cair no jugo dos que sofreram, pela loucura cometida em nome do oculto. Saberá então que a existência de uma vida é tão preciosa e cara demais para ser privada. Mesmo os seres inferiores, ao seu grau de evolução, onde os homens gostam de se colocar acima, para esquecer que são tão animais e bestas, quanto outro animal qualquer, sujeito a virtudes e estupidezas da mesma grandeza.

Nono: movidos pelo ódio, por terem sido afastados do seio dos seus familiares, pelas doutrinas que acreditavam poder comandar as coisas ocultas e os seres das Trevas, começam as mesmas cruzadas e o mesmo terror, característicos do fanatismo dos profetas iluminados, coisa que em nada ajuda a humanidade e aumenta a infâmia contra as Trevas.

Décimo: abençoado seja por sua prudência e lembrança de não ser mais que um simples homem, tomará suas toscas leis das Trevas e as comparará com as leis das Luzes, dentre as já existentes, reveladas aos profetas iluminados. Constatará, surpreso, que não são diferentes, uma vez que ambas foram feitas pelo homem. Disso perceberá,embora confuso,não se abaterá, guardará a derrota da sabedoria humana diante do oculto, tanto das Trevas quanto das Luzes, pois Verdade alguma pode ser escrita impunemente, por qualquer autor que seja.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A dragonesa

Quando os Deuses não conseguiam se fazer ouvir nas assembléias convocadas por Anu, eles iam tentar a sorte nas audiências concedidas por Enki. O jovem Deus desfrutava do prestígio e da influência que os Deuses lhe davam, mas toda a agitação e burburinho cessou instantaneamente, prevalecendo um silêncio sepulcral, assim que chegou essa Deusa.

Certamente haviam Deusas nas audiências de Enki e, sem dúvida, cada uma tinha sua quota de beleza e poder que inspirava cortesia e respeito. Mas esta Deusa, ainda que tenha sido a última a chegar, foi se aproximando de Enki para ser atendida primeiro. Ela não parecia ser mais velha do que Ninlil, sua esposa, não obstante emanava uma majestade e uma sabedoria tão antiga quanto a de Antu. Sem dizer uma única palavra, deixou a todos prostrados de joelhos, em silêncio, enquanto prosseguia pelo salão até ficar diante de Enki.

- Enki, o Habilidoso! Assim te chamam os Deuses. Estás pronto para tuas contas?

- Quem és tu? Eu conheço a cada Deus e Deusa aqui presente, mas tu inspira mais respeito e temor do que todos.

- Tu me conheces muito bem, jovem Enki, embora não tenhamos sido devidamente apresentados. Devo dizer diante de todos nossos negócios pendentes, Enki?

A Deusa tinha firmeza, postura, dignidade, personalidade e poder. Para os padrões do mundo divino ela inspirava tanto o afeto materno quanto o sensual, mas para os padrões do mundo humano ela certamente inspiraria medo e terror.

Oh, povo do mundo que, com sua soberba e orgulho, tem se colocado no centro do universo e usurpado o trono dos Deuses! O sábio lhes diz que o que existe não serve para tua satisfação, as coisas são como são. Tudo que existe tem forma, mesmo os Deuses e que se saiba que apenas farsantes e vigaristas se ocultam na transcendência. O povo do mundo, vaidoso, gosta de imaginar e vestir os Deuses como pálidos reflexos de si mesmo e acabam tomando a figura como real. Os Deuses não são nossas sombras, nem nossos delírios, nem nossas projeções mentais. Os homens criam arquétipos para entender os Deuses, mas somos nós as sombras, os reflexos dos Deuses. Ainda que não gostemos do que vemos, os Deuses e Deusas manifestam a Verdade e, se nos chocamos, é porque nos negamos, nos recusamos a ver nossa essência ali repousada.

A perturbação que atingia Enki não era humana, mas divina. Aquela Deusa, por sua atitude e aparência, incendiava seu amor filial e seu amor erótico. Ela era tão alta quanto Antu, seu corpo esguio e curvilíneo era coberto com escamas em tons de vermelho, vinho e preto. Nas dobras e extremidades do corpo haviam belos e pequenos esporões. Nas mãos e nos pés, garras. Em sua cabeça, além do cabelo liso e negro, três chifres a coroavam. Era como um grande lagarto e fêmea, uma dragonesa.

- Diga o que quer, mas diga quem tu és.

- Eu sou Ninmag, filha de Nintu, neta de Mummu, descendente direta daquela que é mãe de todos nós, a Deusa que emergiu do Caos. O que eu demando é que cumpra tua promessa tornando-se meu consorte.

- O que dizes? Enki é meu marido!

- Irmãzinha, não desejo tirar tuas posses e honrarias. Pouco me importa que vivam juntos como casal. Teu precioso Enki será meu cortesão, dele gerarei meus filhos e a casa de Anu será nossa casa. Não te convém evocar teus direitos ou monopólio sobre o corpo e o amor de Enki, pois não existe senhorio e propriedade no amor e no relacionamento.

- Enki, o que significa isso? Tu me disseste que eu sou a tua amada, a única e a primeira.

- Irmãzinha, antes de tu Enki tocou e conheceu o meu corpo. Tu ainda és jovem, com o tempo há de aprender quais são teus reais direitos e descobrirás a função do consorte.

- Tu falas como se muitos anos tivesse, mas tua aparência é tão jovem quanto a minha. Por que nos trata como crianças?

- Irmãzinha, não se deve conhecer as coisas pelo seu aspecto externo. As coisas não são como parecem ser. Eu te chamo de irmãzinha, mas se tu evocares teus direitos de linhagem e herança, saiba que eu sou tua tia.

Enki estava visivelmente nervoso, se sentindo humilhado e acuado. Ele havia conquistado com muito risco e esforço o tão sonhado lugar na corte de Anu, algo que somente era assegurado graças ao seu matrimônio com Ninlil. Entretanto a tentação de ser o consorte de Ninmag enchia sua mente com idéias de poder e riqueza que o tornaria tão grande senão maior do que Anu. Estes sonhos teriam um fim manchado com sangue.

Ninlil não estava gostando do que via. Não tinha ela, junto com outros Deuses e Deusas, descido ao mundo chamado de Gaia e construído a colônia de Aldebaran? Ninmag não estava nem no grupo nem na caravana que havia escapado do Caos. Ninlil era uma Deusa jovem, mas por orgulho e vaidade negava-se a aceitar as verdades das coisas. Assim como nós, humanos, ela queria perceber o universo todo de sua perspectiva centrada em seu ego. A tragédia teria seu efeito devastador aumentado, pois tudo que Ninlil quis, naquele momento, foi aprender os segredos que Ninmag tinham, para seu uso futuro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Apostolado profano I

Aos que quiserem descobrir minha causa e a origem do que defendo, olhem-se no espelho e perguntem ao natural, se lá viu coisa igual. Poderão vociferar que desta arte abuso, por fragilidade de espírito, por falta de maturidade ou por caprichos emocionais. Mas se, por menos amor, se acreditam em tantas besteiras e se cometem tantas bobagens, que se dê ao menos a tais pretensos adversários, o direito de defesa.

Se vocês podem condenar uma pessoa pelo que fala, vós dizeis-me o erro da minha pronúncia. Mas atenta-vos! Poderei também denunciá-los. Pois falam por vós mesmos, não pelo sagrado que defendem, apenas pela ideia deste e pela conservação de seu poder. Toda vossa organização, um bando de fanáticos, igualmente supersticiosos, vive mais pelos símbolos do que pelos ensinamentos deixados. Devo dizer que estão mais próximos de estar a me justificar, que a provar sua certeza.

Tudo foi um erro desde o princípio. Como pode condenar o adultério, se mesmo esse mestre foi fruto de um? Não foi sua progenitora amasiada a outro homem, após ter tido com o Rei? Este mesmo Rei, não foi o que enviou o casal até uma região proibida? Podem garantir-me, que não foi ali que teu mestre aprendeu todos os truques que sabia? Que mérito pode haver se, tal sacrifício, já era sabido e constava em contrato? Apenas uma desculpa para nos conduzir ao conformismo.

Agora peço vosso testemunho. Não foi na verdade vossa igreja erigida por um militar romano? Esta é a igreja que defendem. Uma organização criada pelo homem, para substituir o Império Romano, com o apoio de dogmas de fé, mas da mesma forma agressiva. Mas em nenhuma das palavras, das que podemos admitir que vieram do vosso mestre, existe a ordem para tal organização, nem para a conquista armada, nem mesmo orienta para tantos dogmas, nenhuma palavra sobre tanta burocracia religiosa! Acumularam riquezas e poderes, perseguiram, assassinaram, injuriaram, enquanto os homens só queriam crescer! O pecado só existe onde há proibição. Proibição só existe onde há culpa. Culpa só existe onde há ignorância. A ignorância só existe onde há fanatismo.

O homem já está crescido. Está numa fase de pré-puberdade, deve estar livre para ver seus erros, desimpedido para corrigi-los. A tutela de vossa organização está dispensada. Precisamos mais do que esta consciência velha e enferrujada. Vivam por vossas custas, se são tão santos, cultivem vossos próprios víveres. Deixe a riqueza, do homem e desta terra, ao homem! Pois, se estas são tão materiais e conspurcadas de pecado, certamente não as merecem! Vivam em vossas vidas miseráveis, regadas de renúncia e abstinência. Porque nós, queremos e temos o direito de conhecer, experimentar e descobrir todas as sensações e prazeres da vida.

Para este novo tempo, para as novas consciências, uma crença não lhes faltará. Mas virão a descobrir uma, que terá dignidade e sabedoria. Com apoio à razão e à consciência individual, com orientações simples e sem burocracias mirabolantes Com a força e o poder que sempre lhes pertenceram. Pois sempre existiram, bem antes de tantos impérios, mas nunca interferiram, pelo respeito que sempre merecemos. Estes sim, sempre presentes em nós, em nossos espíritos e corações, como deveria ser um deus, apenas aguardando o dia que despertássemos!

Ao invés de nos fazer aceitar o sofrimento, nos ensinaram a lutar. Ao invés de nos fazer aceitar as fatalidades, nos ensinarão a prevenir. Ao invés de nos fazer aceitar o domínio, nos ensinarão a autonomia. Ao invés de nos fazer aceitar o dogma, nos ensinarão a raciocinar. Ao invés de nos fazer aceitar o pecado, nos ensinarão a experimentar. Ao invés de nos fazer aceitar a culpa, nos ensinarão a responsabilidade. Eles vivem nas trevas, de onde tudo veio. Eles vivem em nós, nós vivemos por eles. Não irão quebrar o vaso, pois conhecem bem o conteúdo. Não irão guardá-lo na adega, pois sabem bem como usá-lo. Não irão trocar seu vinho, pois lhes valem muito sua serventia. Não porão pesadas cargas, pois se importam muito com nosso crescimento.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Heterogênese VI

Finda as notícias, Lilith disse então aos ventos:

-Rejeitou-se a herança da estupidez de Adão, porque Caim foi conduzido pelas Trevas e com a vontade que possui, pelo uso do intelecto, concordou com o que via, o que revela que Caim, apesar da progenitura, é um dos nossos.
Será bem vindo sempre entre nós, quando necessitar de morada, por ter feito na geração de Adão, o que não poderíamos fazer senão indiretamente. Ainda esta noite, ele já tem lugar garantido no Reino de meu Pai. Tu, corvo, mais ainda, será como um dos reis, será o mestre da espionagem e da intriga, por quem àqueles que buscam desvendar as verdades mais obscuras e secretas será um protetor, colaborador e incentivador.

A partir de então, iniciou um embate mais forte entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, por causa da inveja que o Espírito das Luzes teve, ao ver que o Conselho das Trevas foi formado de seres que tinham se elevado até uma existência em espírito, antes que os seus. Mais ainda quando outros seres de outros planetas, semelhantes à Terra, foram se juntando, ao descobrirem a chave que permite entrar nos reinos dos corpos astrais. Tratou então, o Espírito das Luzes, de começar a criar seus homens santos, profetas e messias, tanto para converter os demais seres da terra a seu favor, quanto para elevar estes escolhidos às esferas de existência superior.

Para que toda a terra seguisse a estes escolhidos não seria, certamente, pelas ações benevolentes que tais acreditavam praticar. Pior seria que, os malefícios seriam atribuídos aos homens, aos espíritos e ao Conselho das Trevas, quando o mais razoável seria a própria consequência das ações humanas, incentivadas ou não pela loucura dos profetas iluminados. Estes, tão confusos entre si, que mal reconheceriam aos seus colegas. Cada qual,chamaria por um nome a seu modo, o Espírito das Luzes, de Deus único e verdadeiro, perseguindo tantos outros pela mesma ousadia, guerreariam entre eles mesmos pela confusão e loucura que acomete o fervor dos homens das Luzes, tal como mariposas em torno da chama.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Cidade dos Deuses

A obra de Enki impressionava, nunca houve nem nunca haverá algo igual. Quando os Deuses desceram da montanha, saindo de suas tendas, ficaram assombrados desde o capitel que foi estrategicamente colocado para a comitiva de Anu passar. Após a passagem, um amplo páteo, cuja extensão abarcava toda a montanha, com pedras polidas firmemente assentadas. Mais adiante, uma incrível engenharia canalizava os rios, represava os lagos e silos drenavam o excesso de água. Para concluir a reforma, Enki reforçou com uma muralha a serra que separava o vale do pântano do grande mar, com comportas para regular a vazão de água.

O pântano, depois da intervenção de Enki, não exalava mais o cheiro de morte nem tinha mais o cenário de decomposição. Onde era o pântano, Anu podia orgulhosamente nomear de Cidade dos Deuses, que ele iria tirar proveito para reafirmar seu poder, seria calculadamente repartido entre os Deuses. Não estava nos planos nem no projeto, mas Anu separou a Cidade dos Deuses em setores que seguissem a divisão que havia sido conduzida com êxito na montanha dos Deuses. De forma arbitrária, com uso de força, por chantagem, por influência familiar, não havia limites para Anu realizar seus objetivos.

Deu a Urano o setor que foi chamado de Hélade, deu a Saturno o setor que foi chamado de Albion, deu a Elohim o setor que foi chamado de Canaan e deu a Amon o setor que foi chamado de Kemet. Reservou para si e seus familiares a montanha dos Deuses e o grande pátio em volta dela, chamando-o de Campos Elíseos. Como antes, os melhores materiais Anu guardava para si e por concessão onerosa dividia o excedente entre os demais Deuses. Exceto Enki, um Deus jovem que ainda não tinha qualquer direito de linhagem ou nobreza, recebeu um décimo do que porporcionava a Anu e ganhava o dízimo dos outros Deuses. Como se não bastasse essa afronta, Anu lhe deu o setor que foi chamado de Sumer, aumentando ainda mais a raiva e a revolta dos Deuses contra Anu.

Durante a assembleia, onde Anu instituiu as divisões, as obrigações, as vassalagens, a corvéia e os direitos, Nana percebeu que Ninlil estava com um semblante diferente. Com a escusa de que iria buscar com ela mais vinho para pôr à mesa, fez a Ninlil a pergunta que sua curiosidade lhe apertava na garganta.

- Irmã, aconteceu algo contigo, pois não tens mais a face de menina, mas de donzela. Por acaso inauguraste teu templo?

- Oh, minha senhora Nana! Eu não sei se fico feliz ou embaraçada. Eu abri meu templo e devo estar com a graça do Deus…

- Embaraçada estás, sem dúvida! Venha, minha irmã, que é mister clamar pelos teus direitos de linhagem. Rápido, vamos a Antu, senhora de todas nós, para que possamos clamar a herança.

Tolo, efêmero e mortal leitor, que se empenha em coisas fúteis, acumulando patrimônio, vivendo em uma era onde a Razão se sobrepõe cada dia mais contra a Emoção, certamente não sabe, nem nunca se deu conta, de onde vem a fonte da riqueza. A ti será concedido mais misericórdia do que foi dada a Anu, que olvidou a quem pertence a majestade e o trono. Anu não possui a coroa, a coroa convive com ele enquanto assim desejar. Anu não tem força na armadura nem poder em sua espada se não tiver a unção sagrada dada por Antu. Nisto reside um mistério, homens, que não podemos ver de frente.

Voltemos aos jovens Deuses, os quatro que, com Enki, construíram a maravilhosa Cidade dos Deuses. A estes não foram dadas tantas honrarias, toda fama e riqueza seria dada a Enki e isto é justo, porque assim contrataram enquanto temiam por suas vidas às margens das terras baixas. Levaram apenas o coração das jovens Deusas, com quem viveriam como casais, em habitações simples, nas bordas mais afastadas, como que para se proteger das intrigas e disputas entre os Deuses, mas isto apenas providenciou o ninho para as tragédias que se seguiriam.

Mesmo Enki não estaria sempre com boa fortuna como parece estar. Sumer era seu jardim, ele tinha uma bela esposa e uma impressionante mansão com muitos servos sob suas ordens. E mesmo com tudo isso, mesmo com o reconhecimento que ele tanto buscava, sua admissão na corte de Anu, os elogios e aplausos, nada disso conseguia afastar o terrível sonho ou a soturna presença da Deusa desconhecida que o visitava desde a primeira noite que passou na Terra Negra.

Ainda não se sabe por que sonhamos nem como os sonhos são formados e seus significados são desconhecidos. Pesadelos, por outro lado, são uma estranha forma da nossa consciência ou de nos avisar ou de nos castigar. Para nossa sorte ou azar, sonhos e pesadelos se desfazem ao acordarmos. Nem isto Enki desfrutaria. Durante uma de suas audiências que ele concedia aos outros Deuses para ouvir seus pedidos e considerarem interceder por estes diante de Anu, Enki achou que estava sonhando acordado, ou pior, tendo um pesadelo acordado. Bem diante dele, causando intensa agonia, uma sensação mórbida, a figura e a presença da deusa desconhecida, que causava terror até aos Deuses que lá estavam e nunca haviam tido sonhos ou pesadelos com ela.