sábado, 23 de janeiro de 2016

A "Roda do Ano" latina

Os pagãos modernos pelo mundo todo adotam o que se convencionou chamar de “Roda do Ano”, um calendário supostamente Celta que divide o ano em oito datas que os pagãos modernos se apropriaram da Wicca Tradicional.
Como um pagão moderno estudioso, eu percebi que essa “Roda do Ano” não é Celta e não possui qualquer relação com qualquer civilização de origem Indo-Européia. Muitos dos ditos “sabats” que os pagãos modernos celebram tem origem em datas festivas galesas, datas festivas germânicas e algumas são simples invenções modernas.
No entanto a base de nossa crença é o sagrado na natureza, no mundo. Então a “Roda do Ano” é mundialmente adotada pelos pagãos modernos, conforme as datas das estações locais e os solstícios e equinócios, que são eventos astronômicos, historicamente atestados como datas festivas celebradas por diversas culturas e povos.
Ao visitar o blog Chakaruna, eu fiz um achado que vem bem a calhar para os pagãos latinos: a existência de uma “Roda do Ano” latina e uma astronomia Tupi-Guarani.
Eu vou citar os trechos mais importantes:
O tempo é uma constante da natureza em que existimos e todas as civilizações do mundo desenvolveram sua maneira própria para compreender e ser relacionar com ele. A civilização Qolla, por exemplo, conta com dois calendários: o primeiro é o CALENDÁRIO AMAWTA, contendo as metáforas sobre a origem do tempo e suas respectivas idades; o segundo é o CALENDÁRIO QOLLA. Ambos, no entanto, têm referência astronômica e são calendários luni-solares.
Em sua versão ancestral, o calendário qolla sistematiza o ciclo solar, lunar e agrícola usando uma unidade de tempo chamada KUMI - um período de 20 anos, muito conhecida nos Andes e ainda hoje usada, sobretudo pelos mais velhos, que contam o tempo de 20 em 20 anos. O kumi é formado por cinco TAWA, e cada tawa tem quatro anos. Um tawa une-se ao seguinte por intermédio de um dia chamado JACH’A URU ou JUTUN P’UCHAY, que significa “O Grande Dia”.
O termo andino para significar o ano é MARAWATA. Mara significa “ano” na língua Aymara; em quéchua, mara é uma pedra especial, aquecida pelos raios solares e wata significa “reforço” ou “remendo”,com o sentido de sustentar algo. Portanto, MARAWATA significa “sustento do ano”. O marawata se expressa através da INTIWATANA (as amarras do Sol), um gnomo: uma coluna de pedra usada para acompanhar a passagem do ano através da sombra projetada pelo sol nas diferentes épocas. O campo dessa sombra é dividido em dois tirsu, que equivale a meio ano, e quatro taru, que é a quarta parte do ano. As estações do ano de acordo com o material lítico e as informações orais que nos chegaram, se traduzem em quatro PACHAS [indicada pelos quatro taru], que são:
 Juyphipacha (tempo do frio), começa em 04 de Maio e termina em 02 de Agosto. Em 04 de Maio acontece a FESTA DA CHAKANA, talvez a mais popular em todo Andes, sinalizada pelo Cruzeiro do Sul (Chakana) que atinge seu ponto mais alto no céu. No dia 21de Junho – solstício de inverno – acontece o INTIRAYMI ou a FESTA DO SOL. Essa festa começa a ser preparada a partir da lua nova antes de 21 de junho, e dura três dias antes e três dias depois solstício, ou seja, de 18 a 24 de junho.
 Wayrapacha (tempo do vento), começa no dia 3 de agosto e acaba em 1º de Novembro. No dia 21 de Setembro – equinócio da primavera – acontece a QHUAYARAYMI ou FESTA DOS JOVENS
 Jallupacha (tempo das chuvas), começa em 1º de Novembro e termina em 02 de Fevereiro. No dia 21 de Dezembro – solstício de verão – celebra-se o QHAPAXRAYMI ou A GRANDE FESTA DO SOL, festa da família.
Llamp´upacha (tempo do calor), vai de 2 de fevereiro a 2 de maio. No dia 21 de março – equinócio de outono – acontece o PAWKAR RAYMI ou FESTA DOS SÁBIOS, das pessoas mais velhas.
O ano qolla é composto por 13 meses lunares de 28 dias aproximadamente chamados PHAXIS, que começam sempre na Lua Nova. Em aymara, “phaxis” tanto significa “mês” quanto “lua”. Dessa forma, o ano tem normalmente 364 dias. Para equivaler ao ciclo solar, recebe um dia extra chamado MARAT’AQA ou WATAP’ITI, que significa “ruptura do ano”.
O Marat’aqa é considerado um dia fora do ano, um tinku – a ponte entre o ano velho e o ano novo.
Só bem depois, os dias foram recebendo nomes mais fixos e associados às cores do arco-íris – outro símbolo potente nos Andes:
Sábado - Chupuru - VERMELHO
Domingo - Wanturu - LARANJA
Segunda - Q’illuru - AMARELO
Terça - Ch’uxñuru - VERDE
Quarta - Laqpuru - CELESTE
Quinta - Larmuru - AZUL
Sexta - Qulluru – VIOLETA
Fonte: Chakaruna
Desse mesmo blog vem a informação mais crucial aos pagãos latino-americanos, que é a astrologia tupi-guarani, que ordena e organiza seu calendário pela constelação do Cruzeiro do Sul.
Eu vou citar os trechos mais importantes:
O Cruzeiro do Sul fica em plena Via Láctea, sendo a constelação mais conhecida dos indígenas do Hemisfério Sul, que a utilizam para determinar os pontos cardeais, as estações do ano e a duração do tempo à noite. As Plêiades ficam em segundo lugar, sendo utilizadas para calendário.
Segundo d’Abbeville, os tupinambá conheciam muito bem o aglomerado estelar das Plêiades e o denominavam “Seichu”. Quando elas apareciam no lado leste, ao anoitecer, afirmavam que as chuvas chegariam como chegavam, efetivamente, poucos dias depois. Como a constelação aparecia alguns dias antes das chuvas e desaparecia no fim para tornar a reaparecer em igual época, eles reconheciam perfeitamente o intervalo de tempo decorrido de um ano a outro. Da mesma maneira, atualmente para os tembé, que habitam o norte do Brasil, o surgimento das Plêiades anuncia a estação da chuva e o seu ocaso, quando elas desaparecem no lado oeste, ao anoitecer, indica a estação da seca. Para os guarani do sul do país, o aparecimento das Plêiades anuncia o verão, enquanto o seu desaparecimento indica a proximidade do inverno.
Fonte: Chakaruna
Nossos índios não eram ignorantes como nos fizeram crer. Eles foram capazes de fazer observações astronômicas e astrológicas. Os tupi-guarani tem até seus próprios sistemas de signos astrológicos. Então a sugestão que eu dou a todos os pagãos latino-americanos é que adotemos referências que têm mais afinidade com a natureza e as nossas origens e raízes neste continente.

Um comentário:

Joecir Palandi disse...

Muito interessante. Parabéns pela postagem. Os wiccanos brasileiros deveriam servir à Deusa orientando seus festivais segundo os ciclos da natureza brasileira. Afinal, não é a natureza uma manifestação da Deusa?
Abraço.