quarta-feira, 9 de abril de 2014

Preconceito na Imprensa

Caros diletos e eventuais leitores, para variar um pouco sobre os assuntos favoritos desse pagão que vos escreve, eu gostaria de comentar a recente polêmica levantada pela nossa Imprensa, que ultimamente tem vivido mais de escândalos, sensacionalismo e tragédia do que de jornalismo.
Vamos aos fatos: um professor de filosofia, em uma prova aplicada a alunos do Centro de Ensino Médio 3 de Taguatinga, trouxe uma questão polêmica, ao citar a funkeira Valesca Popozuda como uma "grande pensadora contemporânea". A Imprensa adora colocar professores em uma sinuca de bico, haja visto a forma como foi explorado o escândalo com o prof. Eduardo Gualazzi.
Eu reproduzo aqui uma notícia com comentário do prof. Antonio Kubitschek, defendendo sua idéia:
"Para o professor, Valesca Popozuda pode ser considerada uma pensadora, pois, ele afirma que, de acordo com a filosofia antiga francesa, qualquer indivíduo que forma um conceito pode ser considerado um filósofo ou pensador. "Nesse sentido, Valesca é uma pensadora e só gera tanta repercussão por ser mulher. Se fosse o Mister Catra, nao geraria tanta polêmica", opinou."[Correio Braziliense]
Eu reproduzo uma notícia que resume o preconceito e a polêmica que suscitou essa pergunta na prova:
"Quando a classificamos como grande pensadora contemporânea, a rotulamos como alguém que de fato tem pensamentos sistematizados dentro dos princípios filosóficos ou científicos. A Valesca pode ser, sim, uma contestadora, visto que canta funk, e o funk é uma música de contestação, mas daí a classificá-la como grande pensadora contemporânea é equivocado", avalia a pedagoga e mestre em educação Francisca Paris, diretora de serviços educacionais da Saraiva."[Correio Braziliense]
Resumo da ópera: sobrou sensacionalismo e preconceito e faltou filosofia.
O que faz alguém um grande pensador? Um grande pensador não é apenas aquele que cursou ou frequentou uma faculdade de filosofia, mas certamente é um indivíduo culto, intelectual e que gosta de ler muito, mesmo que sejam textos pobres, superficiais, tendenciosos ou preconceituosos. Um grande pensador é aquele que vê o óbvio e tem a coragem de expressá-lo diante do público, contrariando o sistema, as patrulhas ideológicas e a ditadura da mediocridade. Um grande pensador é aquele que tem a capacidade e a liberdade de explorar, analisar, dissecar, conhecer, criticar e contestar, nas mais diversas disciplinas, os [pre]conceitos formados, mantidos e reproduzidos por uma sociedade. O dileto e eventual leitor que identificou esse pagão que vos escreve nessa definição ganhou uma torta de maçã.
Dentro dessa definição, por que a Valesca Popozuda não pode ser uma grande pensadora? Primeiro ponto: não devemos julgar a pessoa pelo seu "produto artístico". Que o funk tem um gosto estético, musical, poético e cultural no mínimo duvidoso, não há dúvidas. Valesca Popozuda não pode ser uma grande pensadora por que? Por ser mulher? Sexismo. Por não ter escolaridade? Academicismo. Por pertencer a uma classe social menos favorecida? Elitismo.
Capacidade de pensar, a Valesca Popozuda demonstrou ter ao comentar a matéria:
"...talvez se ele tivesse colocado um trecho de qualquer música de MPB ou até mesmo de qualquer outro gênero musical que não fosse o FUNK talvez não tivesse gerado tal problema sabia! Sim eu acredito nisso! E se a polêmica é apenas por ser uma música de funk? E se fosse MPB ou uma música americana que tanto é valorizada por nós? Será que daria a mesma polêmica?"[Divirta-se Uai]
Diante dos comentários irônicos e sarcásticos dos envolvidos, a Imprensa bem que podia aprender a pensar um pouco mais antes de sair utilizando um fato irrelevante para criar uma polemica desnecessária, unicamente para ganhar mais dinheiro com o escândalo, o sensacionalismo, o preconceito e a tragédia.

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