quarta-feira, 2 de abril de 2014

Flatulência de cátedra

Meus caros diletos e eventuais leitores devem estar ou felizes ou intrigados por este blog estar voltando a falar de temas congêneres, como sexo, política, filosofia e psicologia. Os caros leitores hão de concordar comigo que blogues com um tema e direção fixos acabam ficando chatos e monótonos. Bom, contentando ou não meus leitores, os que têm o costume de ler meus textos deve ter visto o fim de Joãozinho.
Rodrigo Constantino em sua coluna acerta de vez em quando, quando comenta com ironia sobre a esquerda caviar e quando comenta com severidade sobre o comportamento humano. Não foi o caso do artigo dele, como de muitos pela internet, fazendo alarde porque o professor Eduardo Gualazzi não pode fazer seu discurso elogiando a “revolução de 1964”.
Os mais exaltados [testas de ferro, marionetes] clamaram pelo “cerceamento do legitimo direito de liberdade de expressão”, os mais apaixonados clamaram contra o “predomínio do marxismo” nas universidades.
O texto é de uma excrescência sem igual, houve um golpe militar nos idos de 1º de abril de 1964, uma piada sem graça que durou até 15 de março de 1985. E uma vez que o professor frequentou e trabalha no meio universitário, esse argumento de que existe um predomínio do marxismo nas faculdades não cola mais. Nisso, até o Rodrigo Constantino concorda comigo. Que o Rodrigo teria problemas sérios em um regime tal como foi defendido pelo professor, não há dúvidas, pois certos setores da “direita” não veriam o “liberalismo” dele com bons olhos. Daí a razão de eu discordar do Rodrigo Constantino [e de muitos outros] ao tentar “defender” o direito de liberdade de expressão do sr Gualazzi.
Primeiro ponto: se o professor tem o direito de ter a liberdade de se expressar, há o direito [meu, seu, nosso] de discordar e criticar, principalmente quando não sobram razões para repudiar um texto tão escroto.
Segundo ponto: a garantia constitucional da liberdade de expressão não é absoluta, tem limites jurídicos e não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações que implicam ilicitude penal. [snip] um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica. [voto do STF]
Isto posto, vamos analisar o texto do professor Gualazzi.
Gualazzi descreve como ele definiu sua personalidade, nos idos de 31 de março de 1964, em 12 palavras a) aristocracismo; b) burguesismo; c) capitalismo; d) direitismo; e) euro-brasilidade; f) família; g) individualismo; h) liberalismo; i) música erudita; j) pan-americanismo; k) propriedade privada; l) tradição judaico-cristã. Vamos por partes, como diria Chico Picadinho.
Aristocracia – ou o governo dos melhores, em bom grego. Na Grécia Antiga eram poucos os aristocratas, eram pessoas de famílias nobres, possuíam muitas propriedades e tinham seu próprio exército. Nós estamos há milênios dessa sociedade e eu acho pouco provável que exista um grupo de pessoas, brasileiras natas, que preencham todos os requisitos para ser um aristocrata.
Burguesia – ou habitante de um burgo, vulgo cidade. O termo foi largamente [mal] utilizado no pensamento marxista, o que causa estranheza em ver o sr Gualazzi utilizá-lo como divisa e motivo de orgulho.
Capitalismo – ou modelo econômico centrado no capital. Este termo também foi largamente [mal] utilizado no pensamento marxista e o sr Gualazzi parece desconhecer aquilo que orgulhosamente defende.
Direitismo – ou ter uma opinião ou visão política de “direita”. Como todo campo humano, essa visão política tem diversas vertentes e opiniões, o conjunto do que o sr Guanazzi defende poderia muito bem ser considerado subversivo na época da ditadura militar.
Euro-brasilidade – uma designação ridícula e tão vaga quanto “pan-americanismo”. O Brasil é um país feito de tantos povos, de tantas origens que, promover o ufanismo à pátria sem considerar nossa mescla, chega a ser racismo.
Família – um conceito imposto e definido pelos senhores da sociedade. O conceito de família ora imposto é tão absurdo e arbitrário quanto impor uma “tradição judaico-cristã” em um Estado laico.
Individualismo – ou o elogio ao ego. Nesse quesito o sr Guanazzi teria problemas com a ditadura militar. Como em todo Estado Totalitário, apenas a opinião oficial e oficiosa é permitida, não há espaço para o individualismo.
Liberalismo – definitivamente neste quesito o sr Guanazzi poderia facilmente entrar na “estatística” de casualidades civis ocorridas na ditadura militar. Os direitos e as liberdades individuais forma sacrificadas desde o primeiro ato institucional.
Música erudita – coisa de gente que quer fazer pose de rica ou intelectual. Gostar de música erudita não deve excluir outras formas de músicas, como MPB, samba, rock.
Pan-americanismo – um conceito vago e sem sentido. Fez parte da ideologia nos anos de chumbo. O pan-americanismo foi uma tentativa de Integrar diversos países em um bloco. Funcionou até chegar ao México. Quando a ideia chegou aos EUA, evidente, a iniciativa murchou. A ditadura era militar, mas os EUA continuavam a ser o “Boss”.
Propriedade privada – neologismo desnecessário, segundo os críticos do socialismo, o que existe é propriedade. O Estado tem o dever de assegurar o direito à propriedade, bem como posse e usufruto. Nuances que passam despercebidas no discurso reacionário.
Tradição judaico-cristã – faz tanto sentido quanto “euro-brasilidade” e “pan-americanismo”. O Brasil é um país com tanta diversidade de cultura e tradições que clamar por privilégio ou monopólio para essa tradição judaico-cristã torna-se absurdo e arbitrário.
O texto continua, com mais sandices. O sr Guanazzi divide o mundo na dicotomia obsoleta, entre o “Capitalismo Direitista Liberal” e o “Socialismo/Comunismo Esquerdista Totalitário”. O autor não fornece nenhuma fonte ou referência para essa divisão política dualista e, diante de tantos regimes “capitalistas de direita” que foram totalitários, a análise demonstra ser falha, tendenciosa e desonesta. O autor comete o mesmo erro costumeiro dos críticos do socialismo, a saber, não se critica a teoria, a ideologia ou a filosofia, o foco da crítica concentra-se na desastrosa implantação do “socialismo real”. Por razões mais próprias dos países e das lideranças onde o socialismo foi implantado é que foi possível acontecer excessos, como também aconteceram excessos nos regimes “capitalistas de direita”, portanto a quantidade de mortos é irrelevante para uma análise imparcial.
O sr Guanazzi reproduz a paranoia e neurose que foi propagada na época, ideias e conceitos propagados pelos algozes que tomaram o poder pela quartelada. O autor ignorou os dados econômicos da época onde o Brasil fechava sua fatura anual com déficit interno e externo. O autor insere um conceito questionável e discutível, afirmando que os “revolucionários” implantaram uma infraestrutura e uma superestrutura que tornou o país imune a qualquer subversão do perfil histórico do país. O sr Guanazzi tem uma concepção bem estranha e equivocada do que deve ser o perfil histórico do Brasil e “subversão” era tudo ou qualquer coisa que não era sancionado ou permitido pela ditadura militar, inclusive os ideais mais básicos de um Estado Democrático de Direito.
Contando vitória sem mérito, o sr Guanazzi relembra que em nossa época contemporânea é perceptível a decadência ideológica, mas não por que o “capitalismo liberal de direita” venceu. Se hoje temos e desfrutamos de muitas conquistas sociais é porque houve a garantia de direitos, houve liberdade e houve influência da filosofia socialista. Paradoxalmente, o “sucesso” do capitalismo deve muito à assimilação de ideias do socialismo e isso certamente o Rodrigo Constantino irá negar.

10 comentários:

Bruno Ferreira disse...

li seu texto e ele está cheio de erro histórico.
Faltou pesquisa para fazer um texto decente.

Estude mais a história de seu país

http://www.radionereuramos.com.br/historiador-wander-pugliesi-fala-sobre-o-golpe-militar-de-1964/

Bruno Ferreira disse...

Faltou pesquisa e estudo para seu texto.

Você apenas repetiu o senso comum.

Eu li o que o professor escrevera e não há um só erro histórico ali.

Estude mais:

http://www.radionereuramos.com.br/historiador-wander-pugliesi-fala-sobre-o-golpe-militar-de-1964/

roberto quintas disse...

Você deve estar brincando, Bruno. Desculpe perguntar, mas o senhor tem diploma? Estudou história? Tem capacidade e liberdade de ter opinião própria? Senso comum é o texto do professor, no estilo reaça. O professor comete diversos erros de interpretação e leitura de fatos históricos. Como o senhor deve ter percebido, ser professor não é sinônimo de inerrância, como é patente no texto do Guanazzi.

roberto quintas disse...

Reveja suas fontes, Bruno. O Prof. Wander Pugliesi não é digno de sua profissão, visto que ele defende o revisionismo histórico do holocausto.

roberto quintas disse...

O caso parece bem pior, se não for psiquiátrico. O prof. Walter Pugliesi tem um inequívoco apreço pelo Nacional-Socialismo.

Bruno Ferreira disse...

Refute então se for capaz, não é só esse professor que diz isso.

Temos diversos livros sobre o assunto retratando o que esse professor diz.

É questão de Fatos, fatos esses que você ignora

roberto quintas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
roberto quintas disse...

Por favor, Bruno, "diversos livros" é um argumento muito fraco. Livros escritos por pessoas como Walter Pugliesi não são merecedores de crédito. História lida com fatos, não com opiniões pessoais. Os livros que o senhor cita são capengas, tendenciosos e desonestos, para dizer o mínimo. Eu apenas lamento que o senhor tenha caído no canto dessa sereia e não é capaz de separar delírio de fato.

Bruno Ferreira disse...

A diferença é que eu me informo, não vivo numa vida de mentiras e doutrinação.

O que o Professor estava lendo não tem erro histórico algum, se tiver eu o desafio a me mostrar os erros com fontes;

No mais, para se informar leia os livros que eu Li:

“Guia do Politicamente incorreto da História do Brasil”
“Ditadura e Democracia no País”
“História do Brasil — Império e República”
“1964- Uma revolução perdida”
“Toda a verdade sobre a Guerrilha do Araguaia e a Revolução de 1964”
“Livro - Ditadura à Brasileira: 1964-1985 A Democracia Golpeada à Esquerda e à Direita”
“1964 — História do Regime Militar Brasileiro”
“A REVOLUÇÃO QUE FALTOU AO ENCONTRO”
“A Revolução Impossível — A Esquerda e a Luta Armada no Brasil ”
“História Indiscreta da Ditadura e da Abertura, de Ronaldo Costa Couto”

Acabei de comprar esse Hoje:

"“Mentiram e muito para mim”

Assinado pelo autor.


Se preferir leia também

"COMBATE NAS TREVAS"

Livro escrito por militante do PCB que diz que as organizações de esquerda foram derrotadas porque avaliaram mal a conjuntura política que antecedeu o golpe. Que o partido avaliou mal a conjuntura. Avançou na marra sobre o governo João Goulart quando não tinha força para isso.


Eles afirmam que queriam implantar a DITADURA do proletariado no Brasil

roberto quintas disse...

Bruno, os livros que o senhor listou não corroboram a visão rancorosa, reacionária, paranóica, neurótica do prof. Guanazzi ou do prof. Pugliesi.
Ainda que houvesse esse plano, existe uma forma correta de se evitar um golpe, seja de direita, seja de esquerda. O que a quartelada militar fez foi instaurar um regime de exceção, um estado policialesco, onde qualquer suspeita era motivo para prisão arbitrária, tortura e execução sumária. Assim sendo, é o sr quem vive em um mundo de mentiras e doutrinas.