sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A crença dos mineiros bolivianos

Bizarra. Inusitada e sombria. São esses os adjetivos que consigo encontrar para sintetizar a atmosfera que reina a crença dos mineiros de Potosí.
Os mineiros que trabalham no interior da mina não firmam sua fé na cristandade coisa trivial e normal para nós. Esses homens que vivem no escuro quando nós estamos mirando o sol cá fora, tem “El Tio” como guardião.“El Tio” é guardião de seus trabalhos, guardião da Mina e guardião de suas vidas, protegendo-os dos perigos de estarem submersos terra abaixo.
Encontrei a figura do “El Tío”, “El Diablo”, esculpida em rocha bruta na maioria das galerias em que passei com meu grupo e guia. Posso dizer que isso é algo perto do assustador quando estamos submersos dentro de uma montanha  a 600/800 m.
“El Tío” é uma espécie de padroeiro dos mineiros e muito misticismo envolve seu nome. É o deus da Mina. Sua força está no poder de dar prata e retirar prata das mãos dos mineiros. Dar vida e retirar vidas. Prover e sistematizar. Entregar, emprestar e conduzir. Vi a figura de um deus pagão, extremamente voraz assim como os espanhóis foram um dia para a vida daqueles pobres. Senti um deus temperamental que os índios mineiros respeitam e o agrada em oferendas toda primeira e última sexta-feira do mês. Para minha sorte no dia em que me encontrava na Mina não eram datas de oferenda. Entretanto, para alguns, todo dia é dia e acabei presenciando cenas em que mineiros presentearam “El Tío” com álcool (álcool etílico mesmo), cigarro e coca, ora agradecendo ora solicitando auxílio.
Conversando com um mineiro dentro de uma galeria no interior da Mina, este me falou que “El Tio” também foi cultuado por alguns espanhóis na época da colônia. Há algumas imagens de um “El Tío” travestido de espanhol.
Meu novo amigo mineiro que eu acabara de conhecer, praticamente me obrigou a fazer uma oferenda para “El Tio”. Colocou-me medo na verdade. Disse-me que se não desse um cigarro para a imagem eu não sairia da Mina. Credo. Só pude pensar. Automaticamente, fiz o nome do pai e fui lá de boa fé e coloquei o cigarro na boquinha do bichinho esculpido na rocha. Quando voltei, ele estava rindo de mim e me ofereceu álcool etílico para tomar na tampinha da garrafa.
Enfim, uns cem números de rituais são feitos diariamente a “El Tio” pelos mineiros. Rituais para pedir proteção são os mais freqüentes. Outros para ganhar e encontrar prata.

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