segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Boas intenções, motivos equivocados

Foi divulgado no jornal virtual Extra uma matéria assinada por Og Sperle, intitulada "Intolerância religiosa contra wiccanos - preconceito ou ignorância".
Na Wicca Brasil eu fiz um comentário suscinto:
"Há um dado incorreto. Não havia wiccanos na época da Inquisição".
Pois nestes dias eu li uma "explicação" do autor na Sociedade Wiccca, diante das críticas de Herne:

"Santa Inquisição contra a Wicca???

Quando digo na matéria que a intolerância religiosa faz parte da história da Wicca, não quiz dizer que foram os wiccanos, perseguidos neste período, e isso fica bem claro na última linha deste mesmo parágrafo, quando digo: 'Nós, wiccanos, somos herdeiros espirituais destes que foram assassinados em nome de uma divindade que pregava o 'Amor'.

E por que dizer 'história da Wicca'?

Bem, cansamos de ler que as origens da Wicca, remontam do período paleolítico, além, é claro, Tambem nos pegamos, volta e meia falando sobre nossos irmãos bruxos e bruxas que forma queimados no período da inquisição. Enfim...
Hereges como cristãos adoradores de divindades pagãs???

Desculpe Herne, mas este trecho deve ser de outra matéria. Em momento algum escrevi isso. No texto esta escrito: 'Ela foi inicialmente instituída para combater os chamados 'hereges': grupos religiosos que praticavam a adoração às divindades pagãs, bem como seus sincretismos e rituais agrários...'

'Paganus' ainda existentes (e mortos) na época da Inquisição???

Paganus (latim), um adjetivo que significa originalmente 'rural', 'rústico' ou 'do campo'. Como substantivo, paganus foi usado para significar 'habitante do país, morador'. Após o Imperador Constantino ter reconhecido o Cristianismo como religião do Estado, a mesma se espalhou lentamente no campo, diferente do que aconteceu nas cidades, e logo a palavra "paganus" se tornou sinônimo de alguém que não era 'cristão', e deu origem ao moderno significado de 'pagãos'."

Diante disto, eu devo fazer algumas análises e críticas:
No primeiro parágrafo, o autor tenta consertar o equívoco histórico que cometeu ao dizer que wiccanos foram perseguidos na época da Inquisição ao indicar o parágrafo posterior como argumento, mas isto não se sustenta, pois no caso, o argumento deveria vir primeiro e não deveria ter sido colocado como parte da história da Wicca a perseguição da Inquisição.
No segundo parágrafo, o autor regurgita o absurdo de que a Wicca é uma religião que tem sua origem no paleolítico. Este tipo de desinformação tem sido desonestamente pregada [e esta é a palavra mais certa] por pseudo-sacerdotes e pessoas ligadas ao dianismo que querem enfiar goela abaixo a crença de uma Antiga Religião da Deusa Mãe, um disparate que tem por base as fantasias de Marija Gimbutas, devidamente refutado no tópico "A origem do mito moderno da Deusa Mãe".
No terceiro parágrafo, uma curiosa "explicação" que na verdade reitera o que foi afirmado, de que os hereges são 'grupos religiosos que praticavam a adoração às divindades pagãs, bem como seus sincretismos e rituais agrários'. Hereges eram grupos de cristãos que seguiam crenças, práticas e doutrinas que eram diferentes da autorizada pelo poder Secular e Eclesiástico. Apenas depois, quando começou a aparecer as acusações de haver cultos de bruxaria e bruxas, é que os tribunais seculares e clericais lidaram com esse problema como se fosse heresia.
No quarto parágrafo, lidamos de novo com a questão reducionista da etimologia da palavra. O sentido da palavra não pode ser reduzido ao estudo de sua etimologia, mas ao seu conteúdo e contexto histórico. Vale a pena reler o meu texto entitulado "Conceitos e contradições sobre o Neopaganismo".

3 comentários:

Qelimath disse...

Oi querido,

Exatamente o que ando questionando nestes dias: por que há, em especial aqui no Brasil, toda esta salada entre "pagãos", "neopagãos" e "bruxas"? Aqui tudo virou sinônimo... Depois eu é que faço salada!!!

Draku-Qayin vel Sabatraxas (a.k.a. Adriano Carvalho) disse...

Pois é Beto...

Pior foi ver o autor dando murro em ponta de faca... sabe, errar é um direito de qualquer ser humano... sem problema... quando o erro é apontado, é tão mais bonito assumir o erro e agradecer pela informação correta... coisa que esse povo não faz, se acham "infáliveis"...

Abç

Iony disse...

Bravissimo Beto! O povo por aqui adora comprar essas verdades incontestaveis q ninguems abe de onde veio e de tanto se repetir os preguiçosos acabam acreditando cegamente. Não mudou nada, só se mudou o nome da religião pq a escravidão e a cegueira é a mesma.E vai vc questionar os argumentos paleoliticos!Heresia!!!!