sábado, 13 de novembro de 2010

A razão de sua vida

Depois da dica do Gaius, eu fui procurar no oraculo virtual [Google] mais textos da Ailin Aleixo.
Achei este bem apropriado para este blog e para dar [no bom sentido] em homenagem à Qelimat:
Por que nunca assumimos a responsabilidade por nossas vidas?
Esse papo de Jesus é lindo mas não cola comigo. Minha religiosidade admite que só existe a luz por causa da sombra e, antes de serem incompatíveis, são inseparáveis. Não gosto do maniqueísmo. Sabe qual a minha carta preferida do tarô? O Diabo. Ele é algo sobre o qual as pessoas nunca chegarão a um acordo, assim como Deus. Mas, ao contrário d'Este, fica mais poderoso à medida que o tumulto à sua volta cresce.
O Diabo faz as pessoas pensarem, viverem, temerem. Não acredito no cara de rabo e tridente, e sim naqueles desejos que nos impulsionam. Daí entra Deus. Deus é nossa vontade de confiar, ter estabilidade, dormir na rede com o ventinho batendo no rosto. Deus é a calma, o maravilhoso equilíbrio que sempre buscamos mas que não saberíamos ser maravilhoso se não conhecêssemos o oposto. Sem as dualidades, a vida seria um marasmo sem fim.
Gibran Khalil, num de seus contos, narra o encontro de um padre com o Diabo.
"O padre aproximou-se e inclinou-se sobre o moribundo e viu uma face estranha, na qual se misturavam a inteligência e a astúcia, a fealdade e a beleza. O padre soltou um grito terrível e bradou, trêmulo: 'Deus me revelou tua face infernal para alimentar meu ódio por ti. Sê maldito até o fim dos tempos!'"
O demônio respondeu com certa impaciência: "Não sabes o que dizes, e não calculas o mal que cometes contra ti mesmo. Eu fui e continuo a ser a causa de teu bem-estar e de tua felicidade. Não foi minha existência a justificação da profissão que escolheste e meu nome, o lema de tua vida?"
Pois é: acredito em Deus, rezo e, do meu jeito, tenho muita fé. Mas creio que vivemos essa dimensão divina muito mais interiormente que em adesivos de carros, camisetas ou chaveiros.
Acredito no Diabo também. Nessas "tentações" que se interpõem em nosso caminho para nos mostrar o que é realmente importante. Por isso não nego minhas dualidades. Por isso acho que traição e amor podem coexistir e que ofender não significa, obrigatoriamente, odiar. Por isso temo destruir coisas que me são caras ao mesmo tempo que me aproximo do que, dizem, deveria me afastar. Mas não posso ser só metade de mim.
Adorei uma comparação que ouvi, entre um velho "amigo" meu e Satanás. É bem verdadeira. Ele ferra tudo por onde passa e mesmo assim continua sedutor. Mas ele não é Satanás, é só um humano sem semancol, sem apego. Só. Realmente tenho amargas lembranças dele - mas também foi muito importante. Ambas as coisas. Você já reclamou várias vezes que sempre se interessa pelas mulheres "erradas", mas não existe ninguém errado nem ruim, só ruim pra você. Ela pode ser ótima pra alguém que tenha as mesmas expectativas de vida, mas você não é essa pessoa - e mesmo assim se sente atraído por ela. Somos incoerentes, faz parte. E ninguém é culpado por isso, mesmo que a solução mais espontânea seja jogar a responsabilidade pra cima do outro, seja ele o Diabo, o ex-namorado ou o tempo.
Não creio que a simples introjeção de um conceito divino possa, de alguma maneira, me livrar de problemas cotidianos, de desejos. Aliás, seria péssimo! Quero paz, alegria, felicidade e também o frio na barriga, a surpresa, o descontrole temporário. Posso ser louca, mas acho que só tenho consciência das minhas discrepâncias e não tento ignorá-las me escondendo atrás de dogmas e púlpitos.
Autora: Ailin Aleixo
Fonte: Mulher Honesta
Trecho sublinhado por conta da casa.

Um comentário:

Qelimath disse...

Eu agradeço a lembrança e a reflexão sobre este importante papel representado pelo Diabo. É nesta figura que as pessoas lançam suas expectativas e consequentes desilusões. Como Iblis, o 'Diabo' somente reafirma a Perfeição.
A 'Bruxa' é aquela que faz seu próprio Destino, e só consegue a isto quando toma responsabilidade sobre seus pensamentos, palavras e ações.