sábado, 27 de maio de 2023

Dicas da benzedeira

(No dia) 24 de Maio, celebra-se o dia de Santa Sara Kali, padroeira do povo cigano. Por isso, confira algumas magias desta poderosa entidade e melhore todos os aspectos de sua vida!

Santa Sara Kali, padroeira do povo cigano
Conhecida como "Negra Sara" ou "Sara la Kâli", Santa Sara Kali é cultuada por toda a comunidade espiritualista. De fato, são muitas as lendas de Santa Sara. Pois é, alguns acreditam que sua origem é egípcia, serva de Maria de Salomé, mãe de São João, parentes de Maria Madalena, e acompanhante dela em viagens.

Lendas de Sara Kali

Outra lenda diz que Santa Sara Kali era uma cigana escrava, e que estava em uma barca sem remos à deriva, junto com Maria Madalena, Maria Jacobé e Maria Salomé. Assim, no momento que as três Marias puseram-se a orar e chorar, Sara tirou seu lenço (diklô) de sua cabeça, chamou por Jesus Cristo (Kristesko) e prometeu que se todos se salvassem, ela seria escrava dele e jamais andaria com a sua cabeça descoberta sem o lenço, como um sinal de respeito.

Então, por um milagre, a barca atravessou oceanos, e chegou a Saintes-Maries-de-la-Mer, uma cidade francesa conhecida até hoje por esta história. Os pescadores locais acolheram todas elas (menos Sara, por ser escrava e negra). Então, um grupo de ciganos que estavam de passagem pelo local a acolheu, e ela foi cultuada por esse povo após sua passagem.

Filha de Jesus

Outra lenda conta que Sara pode ter sido filha de Jesus e Maria Madalena. Depois da morte do Filho de Deus, textos apócrifos dizem que as três Marias foram rumo ao Sul da França, chegando lá, assim, em 24 de Maio.

Para quem acredita em Santa Sara Kali, ela emana poder, energia, geradora de ação espontânea, enfática, possuidora de mitos e grandes mistérios.

Magia de proteção à Santa Sara Kali

Para a magia de proteção à Santa Sara Kali, você vai precisar de 01 galinho de alecrim, 1,5 água, perfume de alfazema e 01 rosa branca. Primeiramente, ferva a água, coloque o alecrim, ferva por 3 minutos, desligue. Então, acrescente 07 gotas de alfazema e as pétalas de rosa branca e depois, abafe por 30 minutos. Tome seu banho higiênico e, em seguida, despeje o preparo sagrado, da cabeça para baixo.

Banquete de Sara

O que você vai precisar para o banquete: 01 imagem de Santa Sara Kali (ou foto), 01 pão redondo, punhado de sal, 01 vela amarela, arroz cru, 01 bandeja e frutas variadas. Primeiramente, separe um local dentro da sua casa, de preferência uma mesa.

No centro, coloque a imagem da Santa em destaque. Bem perto da imagem, o pão redondo, que é furado no meio, onde colocaremos um punhado de sal a vela amarela. O pão por sua vez é colocado em uma bandeja cheia de arroz cru. Ao redor do pão são colocadas as frutas, por sua vez ao redor das frutas, os demais alimentos que a família deseja comer neste banquete.

A família senta ao redor deste banquete, e após o término do almoço (ou jantar), o pão será dividido entre a família., enquanto são ditas as seguintes palavras de bênçãos: 

"Que esta família seja abençoada com o sal, com o pão e com ouro". Lembre-se que no centro do pão, está o sal com a vela amarela acesa que continuará queimando até o final.

Texto: Cris Meinberg é Benzedeira da Terra do Bugio, Professora de Benzimento & Ancestralidade, Professora de Magia Cigana, Sensitiva em Alinhamento Energético, Missão de Vida e Abertura de Caminhos.

Fonte, com edição: https://www.terra.com.br/amp/vida-e-estilo/horoscopo/astrologia/dicas-da-benzedeira-conheca-as-magias-de-santa-sara-kali,53195fc412a0c63bc856d4a6f41723217nflszt2.html

Vergonha alheia

O dileto e eventual leitor deve ter estranhado eu ter publicado o comentário do Azarão. Veja bem, ainda que pareça, eu não tenho bronca com os cristãos, os ateus, os conservadores e os direitistas.
Eu não tenho um time do coração, mas se tivesse, seria estupidez e idiotice da minha parte em brigar com o Azarão por torcer pelo Corinthians. Ele tem sua forma de perceber e entender o mundo. Ainda que seja limitado e equivocado, ele pode expressar a opinião dele.
Azarão está comprando a fake news feita para combater a lei contra a fake news. E isso tem a ver com a liberdade de expressão e a regulamentação da internet (redes sociais e aplicativos de mensagens). As fake news, o discurso de ódio e os ataques às escolas são motivo suficiente, mas as Big Techs não querem perder dinheiro e evidente que tem gente interessada em seu "direito" de divulgar mentira e discurso de ódio.
Eu escrevi bastante sobre isso em algum lugar aqui. Eu até citei uma súmula do STF.
"A orientação fixada no acórdão foi a de que a garantia constitucional da liberdade de expressão não é absoluta, tem limites jurídicos e não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações que implicam ilicitude penal. No caso concreto, explicita o acórdão: 'O preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o 'direito à incitação ao racismo', dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica'".

Caro leitor, faça um esforço e pesquise.

Mas a liberdade de expressão é muito mal utilizada e os meios de comunicação digital é a pior maldição. Depois da massificação e da popularização, concebidas na cultura humana.

O Cristianismo morreu por causa disso, a Wicca (e a Bruxaria) estão nesse processo.
Então causa-me asco ver o surgimento desse canal chamado Witchtok. A necessidade de aprovação e de público é uma doença.

Sim, a busca por publicidade não é novidade, mas ao abrir mão do conteúdo e da história, aquilo que professamos se torna mais um produto de consumo de massa, um kitsch.

A história não pode ser maltratada nem forjada (deixe isso para os cristãos). Steven Posch faz muito isso (infelizmente) falando de regiões e reis lendários como se tivessem alguma conexão com o Ofício.
Meu querido Seth bem Qayin também fez uma enorme salada de pseudo-história. Mas é um direito dele, liberdade de expressão... Ou será que não?🤔

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Apologia ao Rock

A internet foi o meio de comunicação que trouxe tanto avanços quanto efeitos colaterais. Como algo feito e produzido pelo e para o público, criou sua própria linguagem, mas tem sido ponto de debate a regulamentação dela e de seus... filhotes.
Por exemplo, foi dado um outro significado para Troll.
Este, uma figura lendária, presente no folclore nórdico, pode ser equiparado ao Oni do folclore japonês.
Assim como a bruxa, figura lendária, o Troll tem sua existência negada.
A bruxa tem sido negada e apagada, pela Inquisição Científica, porque ainda é embaraçoso, que as vítimas da Caça às Bruxas, tenham sido assassinadas na Era Moderna, época da Renascença e do Iluminismo.
A figura da bruxa é resultado de inúmeras tradições orais, produtos de experiências reais de pessoas com essas figuras. Foi necessário a participação de autoridades clericais e seculares para que fosse criado o ambiente necessário para o medo e paranóia entre as massas.
Herdeiras de antigas crenças e práticas, assimiladas e sincretizadas com a crença (imposta) do Cristianismo, foram caçadas, presas e torturadas.
A figura do Troll pode ser um resquício de tradições orais que preservaram o contato do ser humano com seu parente, o Neandertal. Que se tornou uma figura lendária e mágica. Que recebeu uma repaginação pela cultura popular e pela internet.
Como outras figuras lendárias (múmia, vampiro, lobisomem) o Troll é o monstro que deve ser combatido, caçado e morto. Soa familiar?
Ninguém fez escândalo quando Hilda (personagem) apareceu nua em sua forma de Troll. Mas tem pior.
A produtora DreamWorks passou o Troll por um tratamento, para que se tornasse comercialmente rentável para os padrões da Disney e transformou a aparência disso para algo fofo, brilhante, colorido e musical.
Não satisfeito, fez dois filmes (até o momento), sendo que o mais recente aborda os diferentes estilos musicais.
Eu vou pular a cena (spoiler!) que mostra um personagem (macho? fêmea? irrelevante?) gerando um outro Troll a partir de uma mitose. O que incomodou foi a forma estereotipada que cada estilo musical foi retratado. Principalmente o Rock.
E a cena final (spoiler!) tem uma música, supostamente para mostrar uma conciliação, mas o resultado é uma pasta pegajosa e sem personalidade, uma música pop.
Bom, a protagonista é chamada de Poppy, que também significa papoula, planta de onde é produzido o ópio. Drogas? Não, obrigado 😏🤭.

Que tenhamos banheiros unissex

Notícia do DCM:

É atentatório ao Estado Democrático de Direito qualquer tipo de discriminação, inclusive pela orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas.

Assim entendeu o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo ao julgar inconstitucional uma lei de São Bernardo do Campo, que proibia a instalação de banheiros unissex ou compartilhados em estabelecimentos ou espaços públicos e privados no município.

Ao propor a ação, a Procuradoria-Geral de Justiça afirmou que a norma seria incompatível com preceitos da Constituição Federal, implicando ofensa aos princípios da dignidade da pessoa humana e à liberdade de orientação de gênero. A PGJ também disse que o Supremo Tribunal Federal vem atuando na proteção das minorias que sofrem discriminação, o que inclui as pessoas transexuais.

Segundo o magistrado, ao usar a expressão “sexo”, tal como fez a Constituição Federal, deve-se levar em conta não apenas a natureza física, mas também o gênero. Ele disse que a pluralidade dos seres humanos vai além da visão cisgênero, binária e heterossexual, e o autorreconhecimento e a autodeterminação sexual e identitária de gênero são um direito da personalidade e expressão máxima da liberdade, privacidade e dignidade da pessoa humana garantidos pela Constituição.

Fonte, citado parcialmente: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lei-municipal-que-proibe-banheiros-unissex-e-discriminatoria-e-ilegal-diz-tj-sp/

Como disse o sábio, nada de novo sob o sol. No ano de 1997 estourou a série Ally McBeal, não por mostrar o universo da justiça e dos advogados, mas pelo banheiro unissex.

Mas aqui é Brasil. País atrasado e preso em uma mentalidade colonial. As elites foram bem sucedidas em cultivar a aversão à política nas massas. Então é comum ver brasileiro votar em celebridade que, ao adentrar na vida política, torna-se o oposto do que era.
Como o ator Alexandre Frota. Renegou seu passado de cafajeste e gogo boy, virando um careta conservador de direita. Um misto de Marco Feliciano e MBL, achou que estava demonstrando sagacidade ao postar em 2017 um desenho mostrando como seriam os banheiros caso ganhasse o PT, o PSOL e o PC do B. Tomou invertida da galera e da autora do desenho.
Gente do conservadorismo, da direita, do fundamentalismo cristão, do reacionarismo e do fascismo tem ideias semelhantes e isso não é mera coincidência. Fake news e pânico moral. Idiotice e estupidez. Ser de direita parece dispensar o uso de cérebro 🤭😏.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Relacionamento e religião

Mais uma sessão de nostalgia.
Eu encontrei um texto que eu comentei e eu vou resgatar aqui.
Mas antes, pergunta rápida. Qual a prioridade do cristão?
Errou quem pensou em seguir a Cristo. O cristão sequer lê na íntegra a Bíblia. A prioridade do cristão é de perturbar a vida alheia.
Então tem um texto no Patheos de título "As 5 razões de Tim Tebow para não fazer sexo antes do casamento", escrito em 30/11/2015 por Dave Willis, pastor evangélico.
Assim como o jogador citado, Dave acredita que a Bíblia é um guia para a vida, incluindo sexo. Isso por si só é problemático, pois não faltam trechos desse texto sagrado que são tabus ou crimes.
Dave segue adiante para explicar os "5 ensinamentos-chave sobre sexo e relacionamentos na Bíblia".
1. O sexo não é apenas um ato físico; é um ato sagrado e espiritual também.
2. A monogamia vitalícia dentro do casamento é o melhor plano para o sexo.
3. O sexo (fantasia) em sua mente é tão importante quanto o sexo em seu quarto.
4. O “pecado” sexual está em uma categoria própria por causa da devastação que causa.
5. Você pode encontrar a cura de arrependimentos sexuais passados e/ou abuso sexual passado.

Meu comentário, resgatado e traduzido:
Concordo com o nº 1, mas a questão no cristianismo não é o sagrado do sexo, mas o pecado do sexo, do desejo e do corpo.
Discordo do nº 2, afinal, os patriarcas eram polígamos, portanto, a poligamia é mais como o plano de Deus.
Eu discordo totalmente do nº 3, já que os Evangelhos dizem que você é justificado por sua fé, não por atos [ou pensamentos].
Eu discordo do nº 4, ele simplesmente vai contra a razão nº 1 [contradição], se sexo é pecado, então Deus não deveria criá-lo.
O nº 5 não se sustenta, porque se uma pessoa optar por esperar, ela não terá "arrependimentos sexuais anteriores". Os abusos sexuais acontecem porque as pessoas carecem de educação sexual, algo que uma pessoa não terá se negar suas necessidades naturais, como acontece no cristianismo, fazendo mais estragos do que ter uma vida sexual saudável.

Como nota posterior, quando se fala em relacionamento (sexo) e religião, o Paganismo Moderno tem a melhor proposta.
Aqui existe inclusão da comunidade LGBT. Nós dizemos, orgulhosos, na Carga da Deusa, que "todos os atos de amor e prazer" são atos sagrados. Você pode escolher qual Deus ou Deusa você quer se relacionar e como será esse relacionamento.

Diadema em defesa da matriz africana

Nos últimos quatro anos, o Brasil vivenciou uma dolorosa realidade na esfera política, social e cultural. Durante esse período, testemunhamos uma preocupante tendência de supressão dos direitos constitucionais e dos direitos humanos, acompanhada por um alarmante incentivo ao racismo e à intolerância religiosa.

No entanto, apesar das perdas sofridas, também surgem inúmeros desafios que devem ser enfrentados para garantir, efetivamente, os direitos e alcançar a plena igualdade racial. A herança do preconceito racial e étnico ainda se faz presente nos dias de hoje, manifestando-se através dos altos índices de violência e do grave quadro de exclusão social. Essas desigualdades afetam diretamente a população afrodescendente e também os seguidores da Umbanda e das outras religiões de matriz africana.

Na cidade de Diadema, estamos empenhados em enfrentar essas questões por meio de leis que garantem a função do Estado laico e o direito ao culto e à crença. A Lei Ordinária Nº 3309, promulgada em 03/04/2013, estabelece o Dia de Combate à Intolerância Religiosa no município de Diadema. É importante ressaltar que essa lei abrange todas as religiões, mas reconhecemos que aquelas associadas ao racismo estrutural são as mais afetadas, uma vez que o racismo está enraizado nas estruturas sociais. Segundo essa perspectiva, o racismo não é considerado uma anormalidade ou "patologia", mas, sim, o resultado do funcionamento "normal" da sociedade. Nas palavras do ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, a sociedade é uma "máquina produtora de desigualdade racial".

Na cidade, buscamos assegurar o reconhecimento e a legitimidade daqueles que lutaram por uma sociedade justa, bem como o respeito ao líder religioso Zélio Fernandino de Morais, conhecido como o fundador da Federação Espiritista de Umbanda, atual União Espiritista de Umbanda do Brasil. Zélio teve um papel marcante na implantação e aceitação dos trabalhos dos Caboclos e Pretos Velhos no contexto social do início do século XX, e atualmente a Umbanda conta com aproximadamente 400 mil seguidores no Brasil.

Em honra à memória de Zélio Fernandino de Morais e ao seu importante papel na religião, foi criado o Decreto Legislativo Nº 7 de 12/08/2013. Esse decreto estabelece a concessão da Medalha Legislativa do Mérito à Cultura da Umbanda e das Religiões de Matrizes Africanas, denominada Medalha Zélio Fernandino de Morais. Essa medalha é destinada às pessoas que comprovadamente tenham prestado relevantes serviços à população, promovendo a liberdade de consciência, crença e o livre exercício dos cultos religiosos, além de atuarem na proteção dos locais de culto e no combate à intolerância religiosa.

Além disso, foi promulgada a Lei Ordinária Nº 3548 de 21/09/2015, que institui a festa dos Caboclos, Encantados e Boiadeiros no âmbito do município de Diadema. Essa lei reconhece a importância dessa celebração e estabelece a realização anual do evento no mês de novembro, proporcionando um espaço de expressão e visibilidade para essas tradições. A festa dos Caboclos, Encantados e Boiadeiros é uma celebração de grande significado histórico e cultural, enraizada nas tradições trazidas pelos africanos do território de Angola ao Brasil. Essa festividade remonta a um momento em que os africanos reconheceram os povos indígenas como donos das terras brasileiras, estabelecendo, assim, uma conexão com a cultura indígena.

Em fevereiro, celebramos o mês dedicado à Deusa da nação de Egbé, uma nação Iorubá na qual existe o rio Yemojá (Iemanjá), que ficou conhecida no Brasil como a rainha das águas e mares. Esse Orixá é respeitado e cultuado, sendo considerado a mãe de quase todos os outros Orixás. Em respeito à Nação Egbé e à tradição Iorubá, foi criada a Lei Ordinária Nº 3577 de 22/02/2016 no município de Diadema, estabelecendo a Festa de Águas de Iemanjá. Essa festa é comemorada anualmente na cidade em 2 de fevereiro.

Com o objetivo de manter viva a memória, foi criada a Medalha Legislativa de Mérito à Cultura das Religiões de Matrizes Africanas, denominada Medalha Pai Francelino de Shapanan, por meio do Decreto Legislativo Nº 3 de 04/03/2016. A trajetória desse líder religioso é de suma importância para os adeptos dessa religião. Em 1977, Francelino Vasconcelos Ferreira, também conhecido como Francelino de Shapanan, trouxe para São Paulo o culto aos Voduns, tal como se constituía em São Luís do Maranhão. A religião dos Voduns no Brasil é cultuada nos terreiros de candomblé, principalmente na nação jeje, onde ainda se preserva alguma lembrança da divisão por famílias.

A partir de 1987, Francelino de Shapanan, juntamente com Cássio Ribeiro, iniciou os preparativos para fundar a Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema – Fucabrad. Essa iniciativa teve um papel significativo na promoção e preservação das tradições religiosas afro-brasileiras em Diadema. Para reconhecer a importância da Fucabrad na cidade, prestamos homenagem ao Pai Cássio Ribeiro, presidente da instituição, concedendo-lhe o título de Cidadão Diademense através do Decreto Legislativo nº 006/2017. Essa honraria é uma forma de destacar sua atuação na defesa da religião em uma sociedade que ainda enfrenta diariamente a intolerância religiosa, com invasões a terreiros, discriminação em relação às vestimentas e práticas cultuais, entre outras questões.

Essa homenagem é essencial para ressaltar a importância de seu papel na religião na cidade de Diadema. É crucial, especialmente quando um dos templos de Umbanda mais antigos de Diadema, o Terreiro Vó Maria de Aruanda, fundado em 1974 e conduzido por Mãe Corina, enfrentou dias temerosos em janeiro de 2017. Na ocasião, a Guarda Municipal invadiu o terreiro, interrompendo uma festividade e exigindo o encerramento da cerimônia por volta das 21h. O terreiro continuou a receber ameaças por parte dos guardas municipais, que deixavam claro que o problema estava relacionado ao barulho dos tambores do Terreiro Vó Maria de Aruanda. Eles afirmavam que, caso os tambores fossem tocados e os vizinhos os denunciassem, o culto seria interrompido. Essa situação evidencia a intolerância religiosa, uma vez que não havia relatos de outras práticas religiosas serem interrompidas por utilizarem microfones e equipamentos sonoros durante seus rituais e cantos de louvor.

Diante dessas circunstâncias, foi criado o Movimento "Somos todos Mãe Corina", que recebeu adesão de diversos membros de movimentos pró-direitos de fé dos povos de terreiros. Eles se mostraram indignados e prontos para lutar contra os abusos intolerantes protagonizados pela segurança pública da cidade. Cássio Ribeiro, presidente da FUCABRAD – Federação de Umbanda e Cultos Afro-Brasileiros de Diadema, publicou uma nota de repúdio nas redes sociais, manifestando sua posição contra tais atos intolerantes.

Eu, como membro da FUCABRAD e vereador em Diadema, convoquei o comando da Guarda Civil Municipal (GCM) de Diadema para uma audiência pública. O objetivo era propor um diálogo entre a prefeitura e a comunidade dos terreiros da cidade, visando garantir o respeito e impedir a violação do direito de expressão de fé por parte do município.

Como uma medida importante para combater a intolerância religiosa em Diadema foi estabelecido um espaço sagrado significativo na cidade, conhecido como Ilê de Omolu e Iansã. Este é o único espaço público no estado de São Paulo onde os adeptos das religiões umbanda e de matriz africana podem realizar suas oferendas e práticas religiosas. Em virtude de sua natureza sagrada e histórica, o Ilê de Omolu e Iansã foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural de Diadema pela Lei Ordinária Nº 3756 de 06/07/2018.

É importante reconhecer a disparidade existente na representatividade das religiões de matriz africana em espaços públicos no Brasil. Enquanto personalidades de diversos segmentos são homenageadas com nomes de ruas, praças e monumentos, observa-se uma escassez de referências aos Orixás, Pais e Mães de Santos, que são fundamentais nas religiões de matriz africana.

No Distrito Federal, temos a Praça dos Orixás, que se tornou um local de referência para as práticas religiosas afro-brasileiras. Além disso, em Diadema, foi estabelecida a Praça Pai Marcio Zacaria de Xangô, delimitada pela Rua Parapuã e Avenida Conceição, por meio da Lei Ordinária Nº 4012 de 26/10/2020. Essas duas referências demonstram o avanço no reconhecimento e na valorização dessas religiões em espaços públicos, mas evidenciam também a persistência do preconceito e da falta de representatividade.

Diadema se destaca como a primeira cidade da Região Metropolitana a criar uma iniciativa significativa em prol dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. Por meio do Decreto Legislativo Nº 19 de 14/07/2022, foi estabelecida a Frente Parlamentar em Defesa dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. Essa frente parlamentar tem como objetivo principal acompanhar de perto as políticas públicas voltadas para essas comunidades em Diadema.

Através dessa frente parlamentar, será possível monitorar a execução de planos e projetos, promover discussões e sugerir proposições legislativas que estejam alinhadas aos interesses e necessidades dos Povos e Comunidades de Matriz Africana. Além disso, a frente parlamentar terá a responsabilidade de elaborar estatutos, protocolos de intenções e outros documentos que contribuam para fortalecer e garantir os direitos dessas comunidades.

Em Diadema, um importante avanço foi conquistado por meio da aprovação da Lei Municipal nº 4.317, de 24 de outubro de 2022. Essa lei tem como objetivo principal estabelecer os procedimentos para a preservação dos Bens do Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial no município, garantindo, assim, a valorização e proteção das expressões culturais presentes em seu território, como templos de práticas Umbandistas, Associações de Comunidade Tradicional, Casa de Baba Egun, Terreiros de Candomblé, Casas de Matrizes Africanas, Igrejas Católicas, Capelas, Ilê de Yansã, conforme conta no art. 2º paragrafo único Inciso I da lei.

É uma conquista significativa para a comunidade umbandista o reconhecimento do Dia de Ogum no calendário oficial do estado de São Paulo. O Projeto de Lei 1153/2011, aprovado em 2012, resultou na publicação da Lei Estadual 14.905, que oficializa essa importante manifestação religiosa. Com mais de 300 anos de história no Brasil, a celebração de Ogum possui profundo significado cultural e religioso, e é fundamental que seja reconhecida e valorizada pelo Poder Público. No município de Diadema, essa valorização foi concretizada através da Lei 031/23, que incorporou o Dia de Ogum ao calendário oficial da cidade.

No contexto da diáspora africana no Brasil, as Yabás desempenham um papel fundamental. Durante o período da escravidão, as senzalas eram habitadas por africanas e africanos de diferentes regiões, resultando em uma rica mescla de valores culturais que deu origem ao Candomblé. Essa religião é essencialmente matriarcal, com muitas mães de santo liderando seus terreiros e preservando as tradições africanas sob a influência da força feminina. Assim, a importância de cada Yabá, cujo significado é "Mãe Rainha", é acentuada, destacando as Orixás femininas.

No Brasil, as Yabás são celebradas no dia 13 de dezembro, além de outras datas específicas de acordo com o sincretismo religioso que tentou subordiná-las ao catolicismo, em uma tentativa de diminuir sua importância. No entanto, a existência das Yabás e seu protagonismo são inegáveis. Elas representam força, poder e sabedoria, sendo homenageadas pelas Orixás femininas Oxum, Iemanjá, Iansã (Oyá), Nanã, Obá e Ewá (Yewá). Para reconhecer a importância dessas figuras divinas e combater a intolerância religiosa, foram propostos dois projetos legislativos em Diadema. O Projeto de Lei 039/2023 busca instituir a Medalha Legislativa "Yabas - Mães Rainhas", com o objetivo de reconhecer e agraciar as mulheres que defendem as religiões de matriz africana e lutam contra a intolerância religiosa. Além disso, o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 015/2023 estabelecerá a concessão da referida medalha.

A cidade de Diadema, em breve, contará com o Centro de Referência Cultural das Comunidades Tradicionais de Matrizes Africanas, que está programado para ser oficialmente inaugurado em agosto de 2023. Esse centro representa uma conquista significativa e o mandato tem desempenhado um papel fundamental ao incentivar sua implantação. Para apoiar essa iniciativa, foram indicados recursos suplementares por meio de emenda para o ano de 2023. O valor destinado é de R$ 45 mil, que será utilizado para financiar atividades do Centro de Referência dos Povos Tradicionais e de Matrizes Africanas. Esses recursos têm como objetivo garantir a realização de formações, a difusão da cultura e o fomento das atividades culturais relacionadas às comunidades tradicionais de matrizes africanas.

A implantação desse centro representa um importante avanço para Diadema, pois proporcionará um espaço de valorização, preservação e promoção da cultura afro-brasileira e das tradições das comunidades tradicionais de matrizes africanas. Além disso, o centro será um local de encontro, troca de experiências e fortalecimento das identidades culturais, contribuindo para o combate ao racismo, à intolerância religiosa e para a construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

Estamos firmes no caminho certo em relação à prevenção da intolerância religiosa e ao respeito ao direito de culto e liberdade de fé. É fundamental compreender que a liberdade religiosa é um direito humano fundamental que deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente da sua religião ou crença. Nenhuma religião tem o direito de se sobrepor às demais ou de impor seus princípios sobre as escolhas individuais. É primordial reconhecer que todas as pessoas têm o direito de escolher e professar sua fé de acordo com suas convicções pessoais, sem discriminação ou restrições.

Fonte: https://revistaforum.com.br/debates/2023/5/12/diadema-uma-cidade-em-defesa-das-religies-de-matriz-africana-por-josa-queiroz-135829.html

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Eu, neta de uma bruxa

Lembro bem do dia em que fiquei sabendo que tínhamos uma bruxa na família. Eu estava passeando com os meus pais na Alemanha. Subimos um morro verde que dava vista para Winningen, um pitoresco lugarejo de vinicultura na margem do rio Mosela. Era uma peregrinação ao topo do Hexenhügel, a Colina das Bruxas, onde um soturno obelisco homenageia as 21 vítimas dos processos de bruxaria locais.

Para uma menina canadense que estava descobrindo a Europa, foi uma grande revelação. Minha mente se encheu imediatamente com imagens de horror. Passei o dedo sobre um nome gravado na pedra áspera: Margarethe Kröber, minha eneavó, a avó de nona geração. Ela morrera mais de 300 anos antes, decapitada e queimada na fogueira como feiticeira, em novembro de 1642.

Décadas mais tarde, ainda assombrada por essa história, eu tentei descobrir mais. "O caso dela é particularmente trágico", comentou-me Walter Rummel, especialista local absoluto no assunto. Segundo ele, Winningen é ímpar, por seus volumosos autos de processo, totalizando de mais de 8 mil páginas, serem não só extremamente detalhados, como excepcionalmente bem preservados.

Cotejados com registros tributários, cadastros da igreja e do comércio, os manuscritos abrem uma janela sobre o modo como os aldeões reagiram à ameaça de supostas bruxas em seu meio – e como alguns souberam aproveitar a situação em proveito próprio.

As caças às bruxas da Europa representam um capítulo complicado, e, devido a sua própria natureza, as concepções equivocadas abundam. Acrescentem-se literatura, política feminista radical, a ascensão de movimentos neo-pagãos como a Wicca, e as águas ficam ainda mais turvas.

Dos Irmãos Grimm a O mágico de Oz, a mitologia em torno da figura da bruxa se cristalizou no subconsciente cultural. Mas, para além das imagens tantas vezes tratadas como fato histórico – por exemplo, que na Idade Média as bruxas fossem queimadas na estaca; que parteiras e ruivas fossem os alvos mais prováveis; ou que as perseguições fossem um instrumento da Igreja patriarcalista para subjugar as mulheres – as circunstâncias eram muito mais complexas.

Na Europa do início da Era Moderna, uma constelação de fatores – sociais, políticos, religiosos e climáticos – montou o palco para três séculos de caça à feitiçaria. Em suas pesquisas sobre o período, o especialista Wolfgang Behringer concluiu que as grandes ondas de perseguição estiveram relacionadas à sensível deterioração climática, entre os anos 1306 e 1860, atualmente denominada "Pequena Idade do Gelo".

Devido a uma recorrência de epidemias e desastres naturais, as populações europeias encontravam-se sob enormes pressões sociais e existenciais, e começaram a procurar explicações.

"Partindo do princípio de que a perda de colheitas teve papel importante no desejo de caças às feiticeiras, constatamos que, em sua maioria, elas não foram iniciadas pelo Estado ou a Igreja, mas sim pelo populacho", no que Behringer descreve como uma "forma de protesto" partindo dos cidadãos.

A prática tinha menos a ver com religião do que com formas de assentamento, prossegue: "Praticamente não há caças às bruxas em sociedades nômades, ou se a população é esparsa. A estrutura de aldeia, em que os habitantes moram uns colados nos outros, se vigiam mutuamente e ficam desconfiados se alguma desgraça ocorre, é um cenário mais provável para caças às bruxas, uma vez que os processos por bruxaria costumam ter a ver com subsistência."

Segundo a historiadora Rita Voltmer, autora de diversos livros sobre o assunto, a personagem da bruxa foi repetidamente instrumentalizada e até romantizada por pioneiras feministas, como a americana Matilda Joslyn Gage (1826-1898), e mesmo por propagandistas nazistas, para reforçar o argumento de que a Igreja Católica seria a principal promotora das perseguições.

"Eles todos eram parte desse movimento que adotou a ideia da curandeira-sacerdotisa, de origem às vezes céltica, às vezes germânica, e de que as mulheres louras e ruivas, nossas ancestrais, eram deliberadamente perseguidas pela Igreja Cristã influenciada pelo judaísmo, que se propusera destruir a verdadeira raça germânica."

Atualmente é consenso entre os especialistas que as inquisições fizeram de 50 mil a 60 mil vítimas na Europa, entre 1450 e 1789. E, embora houvesse focos em diversos países, o triste fato é que cerca de 25 mil dessas mortes ocorreram no território da atual Alemanha.

Quase 80% eram mulheres, mas havia variações regionais pronunciadas: em locais como Islândia, Rússia ou a província da Normandia, a grande maioria dos acusados de feitiçaria ou bruxaria era masculina.

Na Alemanha, então parte do Sacro Império Romano, a perseguição de bruxas ganhou uma base legal com o código penal Constitutio Criminalis Carolina (ou Peinliche Gerichtsordnung), promulgado pelo imperador Carlos 5º em 1532, que contava a bruxaria entre os crimes graves.

A partir daí, a caça às bruxas podia se realizar em todo o império em nome da lei e ordem. Na Alemanha, contudo, dividida em numerosas entidades e submetida a pressões e conflitos religiosos provocados pela Reforma, o tecido social criou uma mistura especialmente letal.

Isso nos leva de volta a Winningen, onde, dos 24 homens e mulheres acusados de feitiçaria, apenas três conseguiram defender a própria causa e ser absolvidos, enquanto 19 outros foram executados e dois morreram na prisão.

Minha antepassada Margarethe provinha de uma família bem situada e casou-se com o juiz Zacharias Kröber, portanto ambos pertenciam à elite social da cidade. Registros escritos indicam que ela tinha uma natureza rebelde. Ao ser oficialmente denunciada como bruxa, estava casada há oito anos e tinha dos filhos pequenos.

Acontece que Margarethe não foi a única da família a morrer no Hexenhügel: de fato, a mãe dela foi a primeira moradora de Winningen executada por bruxaria. Posteriormente, sua tia, seu primo e, pouco a pouco, todas as suas irmãs e um cunhado tiveram o mesmo destino.

Era típico dessa região a classe mais alta ser tomada como alvo da caça às bruxas. Porém até mesmo o historiador Rummel concorda que é excepcional esse extermínio sistemático de toda uma geração de esposas da família Kröber: "Feitiçaria era a mais grave acusação possível e, como um reator, irradiava tudo e todos em volta."

Através dos autos dos processos, todos em ornamentada caligrafia do século 17, eu soube que contra minha eneavó pesava uma longa lista de acusações, incluindo participar de um sabá de bruxas, envenenar concidadãos e voar.

Durante anos, Margarethe zombara de todos os boatos em torno de si. Mas um dia foi presa, despida para revista, teve os cabelos raspados e foi interrogada. Ela negou todas as imputações, apelando para que o marido atestasse sua inocência.

Entretanto, numa guinada especialmente lancinante da história – e obviamente para proteger sua posição na comunidade – Zacharias a deixou à própria sorte, alegando que, se ela era uma cristã devota, seu corpo suportaria a tortura. Mais do que isso: devia simplesmente confessar, "porque tu sabes que és uma bruxa".

Fosse como fosse, para extrair-lhe a "confissão", a comissão de inquisidores não a poupou da tortura, recorrendo a instrumentos que causavam lesões por esmagamento, como a "bota", e a submetendo a "enforcamento invertido".

A partir daí, fica duro ler os autos do processo. Os gritos e o sofrimento ("clamat et torturam") são devidamente registrados. Tragicamente, para ela a única saída do tormento era mentir – um pecado mortal, do ponto de vista de uma devota do século 17.

Após dois dias de agonia, Margarethe foi transportada para o local de execução e forçada a implorar o perdão dos cidadãos lá reunidos para assistir a sua morte. Com sua culpa assim aliviada, foi-lhe concedida uma mortre "misericordiosa" por decapitação, antes de seu corpo ser incinerado.

A perversão final veio na forma de uma comilança generalizada: segundo os cadastros, 250 litros de vinho foram levados em carroça até o local da execução. Assim, toda a cidade se tornava cúmplice, enquanto os fornecedores se enriqueciam. A conta da "festa" ficou para o marido da morta.

Enfim: poder, dinheiro, inveja, ressentimento estavam por trás dos processos de bruxaria, que em Winningen sempre se dirigiram contra os escalões mais altos da sociedade.

O último inquérito local, em 1659, não terminou em execução, pois as famílias mobilizaram recursos para revidar as alegações. Era o princípio do fim: o povo simplesmente não conseguia mais crer que tanta gente assim pudesse ser culpada de feitiçaria.

A histeria de caça às bruxas começou a amainar com a reforma das leis relevantes. Na era do Iluminismo, ciência e razão suplantavam a superstição; havia menos escassez de alimentos; e o advento dos sistemas de seguros reduziu o risco de desastres.

A última suposta bruxa da Europa foi decapitada na Suíça em 1782, encerrando assim um capítulo sombrio da história ocidental.

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/eu-neta-de-uma-bruxa-queimada-na-fogueira/a-65481440