segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ofensa assimétrica

https://www.brasil247.com/blog/o-destronar-da-padroeira-do-brasil/

Só um comentário. O católico fala de ataque e afronta. Isso só vale para Nossa Senhora Aparecida? Porque eu vejo todos os dias ataque e afronta aos Orixás. Viva a hipocrisia!

Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.


A ironia fica justamente nessa assimetria: quando um símbolo católico é alvo de uma suposta afronta, surge imediatamente o vocabulário de “ataque”, “respeito” e “profanação”. Quando símbolos de religiões de matriz africana são atacados, muitas vezes o episódio é tratado como se fosse apenas “opinião religiosa”. E os registros oficiais mostram que essa violência contra terreiros e comunidades de axé não é uma abstração: o próprio governo federal reconhece que o racismo religioso atinge principalmente essas comunidades.

Aqui vai a crônica:

# A padroeira pode. Os orixás que se virem

Existe uma curiosa modalidade de matemática religiosa no Brasil.

Quando mexem com um símbolo católico, temos **“ataque à fé”**.

Quando mexem com um símbolo de religião de matriz africana, aparentemente temos apenas **“liberdade de expressão”**.

É uma matemática tão sofisticada que provavelmente exige pós-graduação em hipocrisia aplicada.

Recentemente, diante de uma discussão envolvendo Nossa Senhora Aparecida, apareceram os termos de sempre: afronta, desrespeito, ataque à fé, intolerância religiosa.

Tudo muito sério.

E deve ser mesmo.

Desrespeitar a fé alheia é um problema. Ridicularizar aquilo que outra pessoa considera sagrado pode ser uma agressão simbólica. E uma sociedade democrática precisa garantir liberdade religiosa para católicos, umbandistas, candomblecistas, espíritas, judeus, muçulmanos, ateus e para todo mundo que queira acreditar — ou não acreditar — em alguma coisa.

Mas aí aparece uma pequena pergunta inconveniente:

**Essa regra vale para todo mundo?**

Porque os orixás também têm estátuas.

Templo também é lugar sagrado.

Terreiro também é espaço religioso.

E Exu não deveria precisar apresentar currículo, RG e comprovante de residência para ter direito ao mesmo respeito que Nossa Senhora.

Só que a realidade brasileira é bastante menos elegante.

Há registros históricos e recentes de ataques a terreiros, depredação de símbolos religiosos, ameaças e agressões contra praticantes de religiões de matriz africana. Em 2026, por exemplo, o Ministério da Igualdade Racial voltou a tratar publicamente de casos de racismo religioso e violação da liberdade de culto.

E não estamos falando apenas de alguém escrever uma bobagem na internet.

Já houve templo atacado.

Imagem destruída.

Estátua de orixá depredada.

Cerimônia interrompida.

Gente ameaçada.

E até ataques físicos.

Em 2026, um terreiro de Jurema Sagrada no Recife foi alvo de tiros e pedradas durante uma celebração. Segundo relatos divulgados pela imprensa, um agressor teria gritado: **“macumba aqui não”**.

Mas aí surge o fenômeno paranormal:

**o indignado desaparece.**

Cadê o discurso sobre respeito?

Cadê a defesa da liberdade religiosa?

Cadê o cidadão que brada “não mexam com Nossa Senhora!” levantando uma faixa dizendo “não mexam com os orixás”?

Silêncio.

Um silêncio tão profundo que talvez seja possível ouvir Oxóssi perguntando:

— Ué, eu não tenho CPF?

É curioso como algumas pessoas descobrem subitamente a importância da tolerância religiosa quando a religião atingida é a delas.

Aí descobrem que símbolos possuem significado.

Que imagens representam histórias.

Que objetos podem ser sagrados.

Que destruir um símbolo religioso pode ser uma forma de violência.

Excelente descoberta!

Agora só falta aplicar o conhecimento universalmente.

Porque liberdade religiosa não significa:

**“Respeite a minha religião e faça o que quiser com a dos outros.”**

Isso não é liberdade religiosa.

É **plano de assinatura premium da liberdade religiosa**.

A versão básica protege somente quem já tem maioria.

E existe ainda uma modalidade especialmente brasileira: defender Nossa Senhora Aparecida como símbolo que merece respeito e, cinco minutos depois, chamar o orixá de “demônio”, “macumba” ou “coisa do mal”.

É quase como defender a liberdade de expressão enquanto se tenta silenciar o vizinho.

A contradição seria engraçada se não tivesse consequências reais.

O próprio poder público reconhece que as religiões de matriz africana estão entre as principais vítimas da intolerância religiosa no país.

Portanto, talvez a pergunta não seja:

**“Devemos respeitar Nossa Senhora Aparecida?”**

Sim.

A pergunta deveria ser:

**“Por que o respeito termina justamente quando atravessa a porta do terreiro?”**

Porque, se a sua defesa da liberdade religiosa só funciona para a sua religião, não estamos diante de um princípio.

Estamos diante de um privilégio.

E privilégio, quando perde a fantasia de universalidade, costuma ficar bastante feio.

Então façamos um acordo.

Respeitem Nossa Senhora.

Respeitem Oxum.

Respeitem Iemanjá.

Respeitem Ogum.

Respeitem Exu.

Respeitem os encantados, os caboclos, os ancestrais e todas as pessoas que encontram nesses símbolos uma forma de compreender o mundo.

E, principalmente, respeitem **o direito de cada pessoa ter seu sagrado sem precisar pedir autorização ao sagrado do vizinho**.

Porque, no final das contas, talvez a verdadeira afronta não seja alguém questionar uma imagem.

A verdadeira afronta é exigir respeito para a própria fé enquanto se considera que a fé dos outros merece desprezo.

Aí não é defesa da religião.

É simplesmente aquela velha e conhecida hipocrisia brasileira.

Com direito a incenso, discurso inflamado e, dependendo da ocasião, uma santa no colo.

Só não pode colocar um orixá na mesa.

Aí já é demais.

Criado com ChatGPT.

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