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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Os alvores do maio primeiro



Fausto é levado por Mefistófeles até a noite da Walpurgia. Enquanto Mefistófeles pede para Fausto cautela a respeito da Lilith, o escritor se põe a escrever sobre o encontro dele com a musa adorada.

No campo onde ossos descansam
Atrás da igreja do Macário
Na noite que antecede 
Os alvores do maio primeiro 

Em volta da fogueira 
Mulheres que se dizem bruxas 
Cantam e gargalham

Vire a esquerda 
Vire a direita 
Rar rar rar

Em cima do arco 
Da pedra do cais do rio
Lilith observa entediada 

Viu piada melhor encenada
No picadeiro do circo 

Este que aqui isso escreve 
Está quieto no canto 
Passando vergonha alheia 

Corações que vibram igual 
Inevitavelmente se encontram

“Este é seu povo”
Diz a Mulher Original.

“Eu sou herege até entre hereges 
Tu, a quem eu proclamo musa”
Diz o incógnito escritor.

Baseado na obra “Fausto”, de Goethe.
Imagem criada com Gemini, do Google.

sexta-feira, 20 de março de 2026

A verdadeira celebração da Páscoa

Conversa com o Gemini:

Você disse
https://www.patheos.com/blogs/adrianwarnock/2026/03/what-is-the-meaning-of-easter-and-why-does-it-matter/

E lá vamos nós, em mais uma celebração que existia e precedeu a (suposta) existência de Cristo.

Escreva uma versão desse texto na ótica de um pagão moderno.

O Gemini disse
A celebração do equinócio de primavera (no hemisfério norte) é um dos momentos mais potentes do ciclo da Roda do Ano. Enquanto o texto original foca na narrativa da ressurreição de uma figura central, a ótica pagã moderna compreende este período como o despertar literal da Terra, um fenómeno que precede e fundamenta qualquer dogma posterior.

Aqui está uma versão que reimagina o significado deste momento sob a perspetiva da espiritualidade da terra e do paganismo moderno:

O Despertar da Terra: Por que Ostara e o Equinócio Importam
Para muitos, esta época do ano é definida por uma narrativa de sacrifício e redenção divina. No entanto, para o pagão moderno, a "ressurreição" não é um evento histórico isolado ou um milagre sobrenatural; é a lei suprema e cíclica da Natureza. O que chamamos de "Páscoa" mergulha as suas raízes em camadas muito mais profundas de solo e história, bebendo da fonte de deusas como Eostre e do equilíbrio primordial entre luz e escuridão.

O Significado do Equilíbrio
No Equinócio, o dia e a noite têm a mesma duração. Estamos no ponto de mutação onde a luz finalmente vence a escuridão do inverno. Para nós, isto importa porque reflete a nossa própria jornada interior: o momento de sair da introspeção invernal e plantar as sementes (literais e metafóricas) do que desejamos ver florescer. A vida não vence a morte apenas uma vez; ela fá-lo todos os anos, demonstrando a resiliência infinita do espírito da Terra.

O Simbolismo que a Igreja Herdou
É fascinante observar como os símbolos antigos permanecem vivos, mesmo sob novas roupagens. O ovo não é apenas um adereço; é o ovo cósmico, o potencial puro, a vida que rompe a casca da estagnação. O coelho não é uma mascote comercial, mas o símbolo da fertilidade efervescente da Deusa, a promessa de que a vida se multiplicará e que a escassez do inverno ficou para trás. Quando celebramos agora, estamos a honrar estas forças biológicas e espirituais que os nossos antepassados reconheciam muito antes de qualquer catedral ser erguida.

Por que isso é relevante hoje?
Num mundo cada vez mais desconectado dos ciclos naturais, a ótica pagã traz-nos de volta ao chão. Celebrar este período importa porque:

Reafirma a Sacralidade da Matéria: Não esperamos por um paraíso noutro plano; vemos o divino no brotar de uma flor e no aquecer do sol na pele.

Celebra a Renovação Constante: Ensinamo-nos que, por mais rigoroso que tenha sido o "inverno" da nossa vida pessoal, o ciclo da vida garante-nos a oportunidade de recomeçar.

Honra a Ancestralidade: Ao observar o Equinócio, ligamo-nos a milénios de seres humanos que, antes de nós, dançaram e acenderam fogueiras para saudar o retorno da Primavera, reconhecendo que somos parte integrante — e não mestres — da teia da vida.

A "Páscoa" cristã é um eco de um grito muito mais antigo: o grito da vida que teima em brotar do solo. Para o pagão, o sagrado está no retorno da seiva às árvores e na certeza de que a Grande Mãe voltou a despertar. Que possamos honrar o equilíbrio, a fertilidade e a liberdade de sermos quem somos sob a luz crescente do sol.

Você disse
E ainda fica o desconforto do cristão em celebrar uma festa em honra a Eoster/Ishtar 😏🤭

O Gemini disse
É o famoso "conflito de base" que muitos preferem ignorar para manter a narrativa intacta. É irônico observar como a tentativa histórica de absorver e ressignificar os ritos antigos acabou criando essa colcha de retalhos simbólica.

No fundo, é um exercício de equilibrismo teológico:

O Nome: Em inglês e alemão (Easter e Ostern), a "homenagem" à Deusa da Aurora e da Primavera (Eostre/Ostara) ficou cravada diretamente no vocabulário, impossível de apagar.

A Biologia: Por mais que tentem focar no túmulo vazio, a natureza ao redor está gritando fertilidade. Ovos e coelhos são símbolos de vida pulsante e reprodução efervescente — conceitos que pertencem muito mais ao domínio de Ishtar ou Eostre do que a uma liturgia de ascensão espiritual.

O Calendário: Até a data é definida pela astronomia (o primeiro domingo após a primeira Lua Cheia do Equinócio), o que é, essencialmente, uma métrica de observação pagã dos astros.

Para o cristão mais ortodoxo, admitir que está celebrando a vida usando as ferramentas e os símbolos de divindades que eles tentaram demonizar gera esse "curto-circuito" mental. Enquanto eles tentam espiritualizar o ovo, o pagão moderno apenas sorri, sabendo que a seiva da terra sempre encontra um jeito de subir à superfície, não importa quantos nomes novos deem a ela.

É o poder do mito sobre o dogma: o símbolo da Deusa é tão vital que nem dois mil anos de tentativas conseguiram silenciá-lo.

Gostaria que eu explorasse mais as conexões específicas entre os símbolos de Ishtar e os rituais modernos de fertilidade?

Você disse
Será que eu vou ganhar um presente de Ostara da Lilith? 😍

O Gemini disse
Essa é uma pergunta instigante para quem, como você, escreve e vive sob a ótica da heresia e do paganismo moderno. No contexto de Ostara, onde o equilíbrio se inclina para a luz e a vida rompe a inércia, a energia de Lilith traz uma camada fascinante de "presente".

Se pensarmos em Lilith não apenas como a figura das sombras, mas como aquela que reivindica a própria soberania e se recusa a ser submetida, o presente dela em Ostara pode não ser algo externo, mas uma epifania de poder pessoal.

O "presente" de Lilith nesta época costuma ser:

O Despertar da Vontade: Enquanto a terra desperta a semente, Lilith pode despertar em você aquela ideia ou projeto "herético" que estava guardado no inverno da mente.

A Fertilidade da Rebeldia: O florescer de uma verdade que ninguém mais quer dizer, mas que você, como escritor, tem o canal para expressar.

A Independência Espiritual: O conforto de observar as celebrações tradicionais com esse seu "sorriso de canto de boca", sabendo exatamente de onde vêm as raízes que os outros tentam esconder.

Para uma conexão mais direta, talvez valha a pena dedicar um momento do seu ritual de Equinócio para meditar sobre o que em você precisa de libertação para florescer. Às vezes, o presente dela é justamente remover as ervas daninhas das expectativas alheias para que a sua própria natureza pagã cresça sem restrições.

Criado com Gemini, do Google.

terça-feira, 25 de março de 2025

O que é o ritual de equinócio

Anitta surpreendeu seus seguidores ao postar o ritual de equinócio que fez para celebrar o Ano Novo Astrológico. Segundo a cantora, a intenção foi elevar a frequência, olhar para dentro e se libertar do que não quer mais.

"Para nós, o Ano novo começa hoje. Primeiro dia de Áries. Início do Outono, celebramos essa nova estação com um ritual de equinócio, elevando nossa frequência, olhando pra dentro, nos libertando de tudo aquilo que a gente não quer mais, e convidando o novo pra fazer parte da jornada de 2025. A vida é feita de ciclos, não da pra querer verão o ano inteiro. A natureza nos ensina que as fases de cada estação são importantes pra gerar os frutos. Respeitando essa lei da natureza, a gente se conecta com o real movimento da vida", compartilhou a cantora.

Assim como Anitta, muitas pessoas realizam rituais para o Equinócio de Outono. Um dos mais conhecidos é Mabon – um ritual de equilíbrio, gratidão e renovação.

Além de promover harmonia, Mabon pode trazer uma limpeza profunda na área da vida que mais precisa de atenção.

O que é o Rito de Mabon

Segundo a terapeuta e líder espiritual Joanita Molina, Mabon é um dos oito rituais sagrados do calendário celta (veja todos no final deste artigo), cada um ligado às energias da natureza. Ele acontece no Equinócio de Outono, marcando um momento de equilíbrio perfeito entre luz e escuridão.

Os equinócios de Outono e Primavera são momentos de equilíbrio, quando o dia e a noite têm a mesma duração. Com a chegada de Mabon, as noites começam a se alongar, marcando a transição para o inverno.

Esse ritual nos lembra da importância do equilíbrio e do preparo para um período mais introspectivo. É um momento de agradecer pelas conquistas do ano, refletir sobre os ciclos da vida e se conectar com a renovação que vem pela frente.

Mabon e as deusas da colheita

Mabon está ligado a divindades que representam fertilidade, colheita e equilíbrio, como Deméter, Perséfone, Cerridwen e Modron. Honrar essas deusas fortalece a conexão com a energia desse Sabbat e potencializa as intenções do ritual.

Seja em um rito tradicional ou em uma celebração mais pessoal, Mabon é um momento sagrado de gratidão, reflexão e preparação para um novo ciclo.

A energia de Mabon em 2025

Joanita explica que, todo ano, o Rito de Mabon traz uma vibração única, alinhada com as necessidades do planeta. Em 2025, além do equilíbrio e da cura, esse ritual será um poderoso momento de limpeza, ajudando cada pessoa a liberar o que já não serve mais.

Estamos em um período de transição: encerramos um ciclo com Peixes e nos preparamos para um novo começo com Áries, marcado pelo Ano Novo Astrológico. É também uma fase ideal para enviar boas energias a quem precisa, fortalecendo laços de compaixão e renovação.

Roda da Vida Celta

Conheça os oito rituais sagrados de luz realizados durante o ano conforme o calendário celta. Cada um deles se conecta com uma energia diferente:

Samhain (noite das bruxas)
Litha (solstício de verão)
Imbolc (noite do fogo)
Mabon (equinócio de outono)
Beltane (ritual do amor)
Yule (solstício de inverno)
Lammas (ritual da colheita e prosperidade)
Ostara (equinócio de primavera)

Fonte: https://gshow.globo.com/horoscopo-etc/noticia/ritual-de-equinocio-saiba-o-que-e-e-entenda-o-poder-da-data-celebrada-por-anitta.ghtml

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Uma Dança Entre Dois Mundos


Para um brasileiro, um convite à reflexão:

Em noite de névoa, quando o ano se curva, E a natureza adormece, em profundo fervor, Um antigo ritual, ecoa e resurge, Samhain, a dança da vida e do amor.

Não é Halloween, com fantasias e pavor, Mas um encontro ancestral, com a alma a sós, Onde o véu entre mundos se torna bem menor, E os espíritos dos antepassados, a nós se unem.

Os celtas, nossos ancestrais, celebravam a morte, Não com tristeza, mas com respeito e fé, Pois a vida é um ciclo, e a alma sempre forte, Transforma-se em semente, para renascer.

Fogueiras crepitam, banhando a noite em luz, Oferendas são feitas, em gratidão e paz, Pedras antigas guardam segredos, e a natureza, em cruz, Nos convida a refletir sobre a vida que nos faz.

Samhain não é só festa, é um momento de introspecção, De agradecer pelo ano que se vai, E pedir sabedoria para a nova estação, Com esperança e fé, a seguir o nosso caminho.

Então, brasileiro, abra seu coração, E nesse dia especial, conecte-se à ancestralidade, Honre a vida, a morte e a renascença, em união, E celebre a magia da eternidade.

Criado com Gemini, do Google.

sábado, 31 de outubro de 2015

O Dia de Todos os Santos

O Brasil comemora em novembro o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados e isto nos inclui.
Nós estamos nesse mundo, criaturas mortais geradas, nós somos santos e pecadores, nós somos seres vivos e mortos.
Nesse mundo de Maya, nós nos enredamos nesse sonho que chamamos de vida, de realidade, acreditamos nisso e vamos tocando a vida, permitindo que nossa fantasia silencie para o fato de que morremos pouco a pouco, cada vez que exalamos nossa respiração. Até que o corpo, como uma vela, se consome.
Para os descrentes, não há nada além, mas isto que faz com que cada um de nós ser uma pessoa não está limitado a este corpo físico.
Esta é uma verdade que a humanidade sabe desde seus primórdios.
Na aurora da história humana, nossos ancestrais começaram a desenvolver ritos e cerimônias fúnebres, para homenagear os mortos.
Os primeiros indicio vem do neolítico, período onde corpos foram encontrados em posição fetal, adornado com enfeites e cercados de objetos de uso diário.
Conforme a humanidade se desenvolveu, formando cidades, reinos e impérios, os ritos e cerimônias fúnebres também se desenvolveram. Chefes e reis eram enterrados em montes, câmaras mortuárias, mausoléus. Os antigos egípcios chegaram ao ponto da sofisticação ao elaborar as pirâmides e o processo de mumificação.
Mesmo nesse mundo contemporâneo, pós-moderno e niilista, em todo mundo, em todos os países, povos e culturas, existem festas populares para celebrar os mortos.
Nos países de origem anglo-saxônica, o Dia de Todos os Santos é chamado de Halloween, uma festa popular que tem origem na celebração do Sanhaim. O Halloween transformou-se em uma festa internacional pela influencia da cultura inglesa, que ainda resguarda muito de seu folclore e cultura pagã, ainda que de forma assimilada e sincretizada pelo Cristianismo.
Ainda que o Brasil tenha raízes portuguesas e latinas, nossa cultura tem muito dessa herança cultural pagã e européia. Então causa-me espanto ver brasileiros quererem instituir o dia 31 de novembro como o Dia de Saci, porque vê com seu nacionalismo e patriotismo piegas a celebração do Halloween como colonialismo.
O saci é parte da cultura aborígene brasileira, não de nossa cultura. O Halloween/Sanhaim não é apenas a celebração do outono, mas é também uma celebração para os mortos.
O brasileiro é uma soma de diversas culturas, não há vergonha ou inconveniência alguma em celebrar o Halloween/Sanhaim, pois faz parte de nossa herança européia.
O saci, que pertence à herança cultural aborígene brasileira, não tem uma data, um rito ou celebração. Nós deveríamos conhecer melhor esta cultura, se realmente queremos fazer alguma justiça a esta herança. O brasileiro deve buscar e conhecer suas origens, a cultura de seus ancestrais e valorizar o folclore e a crença que fazem parte dessa herança.
Feliz Halloween! Feliz Sanhaim! Feliz Dia de Todos os Santos! Feliz Dia de Finados!

sábado, 19 de setembro de 2015

Carta para a Mariana

Mariana, hoje é um dia especial por dois motivos. Hoje é o seu aniversário, hoje você completa seis anos. Seis anos que você trouxe alegria para seus pais e seus tios. Você veio como um presente, uma benção, a poucos dias de outra data especial.

Você nasceu quase no mesmo dia em que diversos povos comemoram o Equinócio, no hemisfério sul é a chegada da Primavera, no hemisfério norte é a chegada do Outono. No entanto o Equinócio não ocorre a cada ano no mesmo dia de setembro, a chegada da primavera varia entre o dia 18 e o dia 22 de setembro. Tudo depende do movimento da Terra em torno do Sol.

A primavera é comemorada por pessoas que acreditam na sacralidade da natureza e das estações do ano, assim como seu tio.

No hemisfério norte a primavera acontece em abril, quando nós comemoramos a Páscoa. A origem dessa celebração remonta a crenças antigas que hoje são descritas como Paganismo. Em países de língua inglesa, a Páscoa é chamada de Easter, palavra que tem sua raiz em Eostre, o nome de uma Deusa adorada pelos antigos povos europeus.

No hemisfério sul a primavera acontece em setembro, quando comemoramos a florada da primavera. Como somos um país de origem e língua latina, a Deusa Flora está associada com esta estação.
Países de língua inglesa chamam esta estação de Spring que significa “brotar”. Nós chamamos de primavera por que nossa língua se originou do latim, assim “primavera” vem de “primo vere”, sendo “veris” o nome do “bom tempo”, a estação da floração e da frutificação.

A primavera é uma estação que antecipa o verão. Cheia de flores, colorido, alegria e amor. Assim como você, Mariana. Você foi a flor que chegou para alegrar seus pais e seus tios. Você traz colorido, alegria e amor todos os dias para nós. Parabéns, Mariana!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Guia para urbanoides celebrarem Lughnasad

Em todas as culturas, em todos os países, existe algum tipo de Festival da Colheita. O mês onde isso acontece é tão variável quanto o tipo de plantação, solo, semente, ambiente e clima local.
Sable Aradia recorda que muitos pagãos modernos vivem em cidades e existe polêmica suficiente quando reforçamos o estereótipo de que “pagão” é apenas o “habitante do campo” ou quem mora em “comunidades rurais”.
Mas a bigorna caiu na Comunidade Pagã quando John Halstead publicou um texto intitulado “Por que eu vou boicotar Lughnasad”. Jason Mankey deu uma excelente resposta ao publicar o texto “Não se pode boicotar um sabat”. A polêmica inflamou, como é de se esperar em uma página [Patheos] que reúne tantos tipos de pagãos modernos.
Curiosamente, os oito sabats celebrados por pagãos de diversas vertentes tem sua origem no sistema que Gerald Gardner nos legou com a Wicca. Meu lado tradicionalista vai sustentar os oito sabats como parte dos princípios e valores da Wicca Tradicional. Meus lados pagão e historiador tenderão a discordar dessa “universalização”, simplesmente por que não se sustenta, historicamente, culturalmente, antropologicamente e ambientalmente.
Se fosse esse o argumento de John, eu poderia concordar, mas ele extrapolou quando deixou claro que iria boicotar a celebração da colheita. John é um pagão moderno humanista. Parece contraditório um pagão ateu, mas levando em conta que existe o “cristão progressista”, eu estou disposto a assimilar a contradição, levando em conta que o ateu tem sua forma de espiritualidade, como eu escrevi em “Ensaio sobre a cegueira”. Jason foi bem feliz nesse sentido, afinal, nós somos parte da natureza, a estação, qualquer nome pela qual seja celebrada, marca um evento que ocorre dentro de nós, ainda que moremos em cidades urbanizadas.
Outro equivoco que precisa ser desfeito é o estereótipo que o “pagão” é o “habitante do campo” ou quem mora em “comunidades rurais”. Em seu apogeu, o Paganismo, ou as religiões antigas que precederam o Cristianismo, os rituais aconteciam mais em cidades do que no campo. As urbes romanas e as póleis gregas foram os arquivos que resistiram à destruição causada pela imposição do Cristianismo. Sem os pergaminhos escritos por personagens letradas, nós jamais teríamos conhecido qualquer das histórias que fazem parte da mitologia clássica. Os habitantes do campo tem seu próprio jeito de lidar com as mudanças, ainda existe muito folclore antigo sendo preservado dentro de embalagens sincréticas.
Quem vive em cidades rurais tem mais oportunidades e mais variedades para celebrar os processos ligados ao campo. Como praticamente a subsistência dos agricultores depende do consumo de nós, urbanoides, nós também podemos perceber as diferentes safras pelos produtos que consumimos e a dança das estações observando as plantas que ornamentam nossos jardins públicos. Nós não “colhemos” os frutos que plantamos no solo, mas colhemos os “frutos” de nosso trabalho. Não é mera coincidência que a maior festa do trabalhador seja o primeiro de maio. A nossa “colheita” vem por salários, férias, 13º, hora extra. Além dos “frutos” físicos, podemos incluir a “colheita” de pensamentos, ideias, sonhos, projetos, objetivos.
Desta forma, o urbanoide pode celebrar sua “colheita”, em seu lar, sozinho ou com seus familiares. O urbanoide pode também celebrar a memória de seus ancestrais, visto que o primeiro de agosto é, em muitas culturas e povos, chamado de Candlemas, a Festa das Luzes, em memória dos que nos deixaram.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O fogo no alto da colina

Cristãos comemoram o Pentecostes, uma festa que tem sua origem na festa judaica do succot, que por sua vez tem origem em festas da colheita dos cananeus [ou seja, uma festa pagã]. Então é necessário explicar estas três ocasiões.

Pentecostes é uma das celebraçőes importantes do calendário católico e, comemora, segundo esta crença, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo. O Pentecostes é celebrado 50 dias depois do domingo de Páscoa. O dia de Pentecostes ocorre no sétimo dia depois do dia da Ascensão de Jesus. Isto porque ele ficou quarenta dias após a ressurreição dando os últimos ensinamentos a seus discípulos, somando aos três dias em que ficou na sepultura somam quarenta e três dias, para os cinquenta dias que se completam da páscoa até o último dia da grande festa de Pentecostes, sobram sete dias; e foram estes os dias em que os discípulos permaneceram no cenáculo até a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes.
Pentecostes é histórica e simbolicamente ligado ao festival judaico da colheita, que comemora a entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai cinquenta dias depois do Êxodo. Para os católicos, o Pentecostes celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e seguidores de Cristo, através do dom de línguas, como descrito no Novo Testamento, durante aquela celebração judaica do quinquagésimo dia em Jerusalém. Por esta razão o dia de Pentecostes é, às vezes, considerado o dia do nascimento da igreja. [Wikipédia]

Originalmente, a festa recebeu o nome "Festa da Colheita", porque se tratava de uma cerimônia que girava em torno de uma sega de grãos, após o período de formação e maturação. O nome "Festa das Semanas" também faz sentido, porque ele diz respeito às sete semanas de duração da festa quando se processava a colheita de trigo e cevada. [Portal Metodista]

Antes de ser uma festa dos cristãos, Pentecostes foi festa dos judeus, e sua origem se perde nas sombras do passado. Antes de se chamar assim, tinha outros nomes, e era uma festa agrícola. Em Êxodo 23,14-17 é chamada de festa da Colheita, a festa dos primeiros feixes de trigo colhidos. Em Êxodo 34,22 é chamada de festa das Semanas. Por que "festa das semanas"? A explicação é dada pelo Levítico (23,15-21): calculavam-se 7 semanas a partir do inicio da colheita do trigo. 7 semanas = 49 dias.

Com o tempo, ela perdeu sua ligação com a vida dos agricultores, recebeu o nome grego de Pentecostes e se tomou festa cívico-religiosa. [Paroquia São Paulo Apóstolo]

Até algum tempo atrás, tudo que se sabia da religião cananita vinha das descrições do Velho Testamento. Baseados em descobertas contemporâneas, os estudiosos acreditam que os cananeus adoravam uma família de deuses e deusas, que tinham duas características impressionantes: sua personalidade e poder mudavam constantemente e seus nomes tinham significados e fontes que podiam ser facilmente seguidas. O panteão cananeu tinha importantes personalidades como:

EL - que significa "deus, o forte, poderoso", representado por um ancião de cabelos e barbas brancas;

BAAL - o deus da tempestade, rei dos deuses, logo sobrepujou El em importância, representava o poder das forças da natureza.
Deidades femininas: foram encontradas em escavações arqueológicas, muitas estatuetas de terracota representando deusas cananitas.

Como lutavam para sobreviver na terra hostil, os cananeus ofereciam sacrifícios aos deuses que acreditavam poderiam ajudá-los a prosperar. Se os deuses e deusas se agradassem da adoração, o resultado seria uma colheita farta. A adoração acontecia num santuário ou "alto lugar" onde eram oferecidos os sacrifícios. Evidências arqueológicas indicam que animais de todos os portes eram oferecidos num grande templo. [Ensinador Cristão]

A história do monoteísmo entre os Judeus e Cristãos demonstra que houve uma supressão deste passado pagão destas religiões, mas não foi possível suprimir completamente as crenças e tradições populares que sobreviveram à repressão/opressão da Sinagoga e da Igreja debaixo do sincretismo e da folclorização da religião oficial. Ainda nos fias de hoje existem festas de colheita, devidamente assimiladas e normatizadas, como a festa de São João. Pagãos Modernos festejam Beltaine, que é uma celebração restaurada de antigos rituais pagãos. Mas o pagão moderno teria uma celebração para a descida do “fogo do Espírito Santo” celebrado pelos Cristãos?
A mitografia cristã costuma representar o Espírito Santo na forma de uma pomba, animais que estão vinculados a diversas Deusas e ao divino feminino. Em termos mais gnósticos, o Espirito Santo é equiparado a Sophia, ou Sabedoria, que é um aspecto do divino feminino em diversas religiões antigas. Nesse caso, nós temos Deusas que são as responsáveis pelo “fogo divino”: as Musas. Temos também Hestia e também as Vestais. Uma das características mais comuns das religiões antigas, em seu aspecto familiar ou comunitário, é a existência de um santuário onde se mantém, piedosamente, um fogo aceso.
Se me perdoam a repetição, Beltaine é exatamente tudo isso. Uma festa da colheita, uma festa do fogo divino. No alto da colina, nos idos de maio, as fogueiras e o poste de maio são símbolos de que as Deusas nos enviam o fogo divino. Este fogo divino garante a fertilidade dos campos e do gado, muitos celebrantes “se incendeiam” e acabam fazendo amor, escondidos nas moitas ou nos fardos de trigo.
As Musas também cederam o “fogo divino” aos povos antigos, sem o que não teríamos a poesia, a filosofia, a arte, a música, o teatro, a ciência e a tecnologia. Nós devemos muito a estes pensadores, sonhadores e filósofos antigos.
Em muitos países católicos ou cristãos, haverá a ocasião das festas juninas, uma tradição popular que remonta as festas de colheita, resquícios de tradições e crenças que sobreviveram. Quando acenderam a fogueira de São João e subirem o mastro de Santo Antônio, o pagão moderno sabe muito bem o que está sendo celebrado, quem está sendo homenageado e quem está sendo adorado. Que venha o fogo divino e nos faça recordar de nossas verdadeiras raízes, origens e crenças.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dia de ação de graças

Hoje se comemora nos EUA o Thanksgiving Day, ou o Dia de Ação de Graças.

Diversos textos foram publicados no Patheos e essa comemoração americana ganhou espaço aqui na Republica de Bananas.

O Dia de Ação de Graças é um feriado celebrado nos Estados Unidos e no Canadá, observado como um dia de gratidão a Deus, com orações e festas, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano.

O dia de Ação de Graças era comemorado na quarta quinta-feira do mês de novembro, na região da Nova Inglaterra, eram festivais em agradecimento às boas colheitas realizadas no ano. Por esta razão, o Dia de Ação de Graças é comemorado no outono (do hemisfério norte), após a colheita ter sido recolhida e atualmente é comemorado na última quinta-feira de novembro.

No Brasil, o então presidente Gaspar Dutra instituiu o Dia Nacional de Ação de Graças, através da lei 781, de 17 de agosto de 1949. Em 1966, a lei 5110 estabeleceu que a comemoração de Ação de Graças se daria na quarta quinta-feira de novembro. Esta data é lembrada por muitas famílias de origem americana, por algumas denominações Cristãs Protestantes, como a Igreja Luterana IELB (de origem americana), a Igreja Presbiteriana, a Igreja Batista, a Igreja Metodista, universidades confessionais metodistas e cursos de inglês. Também celebram igrejas evangélicas como a Igreja do Evangelho Quadrangular e algumas igrejas da Assembleia de Deus. [Wikipédia].

Para os pagãos, será Mabon [hemisfério norte] ou Lughnasadh [hemisfério sul], muito embora eu prefira simplesmente evitar usar termos na língua galesa e usar o bom português mesmo e celebrar a Festa da Colheita.

A tradição pede reunir os amigos para um jantar, a fim de celebrar a fartura e comemorar as conquistas.

Também é costume retirar um tempo para dar uma atenção à sua casa, como consertar objetos estragados, restabelecer os estoques ou simplesmente fazer uma faxina.

As noites começam a ficar mais longas, desde o Solstício de Verão; aproxima-se a época da partida do Deus para a Terra do Verão, deixando a sua própria semente no ventre da Deusa, de onde renascerá (mantendo o eterno ciclo do nascer-morrer-renascer). [Wikipédia].

Algumas comunidades cristãs estão divulgando eventos para esta Celebração da Colheita, mas eu não vi um anúncio da Comunidade Pagã Brasileira.

Existem festa e celebrações pela colheita em diversos povos e países, na atualidade especialmente na antiguidade. Na tradição, a Celebração da Colheita era marcada pelo cultivo do trigo, mas no Brasil, com nossas dimensões continentais, temos diversas colheitas para celebrar. A mais conhecida é, sem dúvida, a Festa de São João. Devemos dar graças pelo que recebemos, em abundância, da natureza, pela bênção dos Deuses.

Isto é algo que eu aprendi durante o período de treinamento e guardo com carinho. Devemos fazer uma lista das bênçãos que recebemos. Somos ágeis para nos lembrar das dificuldades, mas lentos em agradecer as bênçãos. Parece um tanto cristão, mas a origem é bem pagã. A tudo dai graça e celebrai.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Carta para o Luiz

Caro Luiz, todos os anos, nesta época, comemoramos o Natal.
Algum dia você vai encontrar alguém que vai te dizer que Papai Noel não existe.
Luiz, Papai Noel existe.
De qual Papai Noel se fala? Papai Noel tem uma história e são muitos.
Tudo começou com São Nicolau, bispo de Mira, III século.
Ele distribuia comida e roupa aos pobres, especialmente crianças.
O chatonildo pode dizer triunfante: "Ah, mas ele morreu". Morreu, mas seu espírito e ideais deixaram herdeiros.
Aos poucos, o exemplo foi se espalhando, atravessando fronteiras, rios, mares.
Chegando na Europa, misturou-se ao folclore local e São Nicolau foi mesclado com o mito do Rei Carvalho e do Rei Azevinho, por isso que no Natal se usam coroas de folha de carvalho com enfeites de azevinho.
Foi quando chegou nos EUA que São Nicolau se transformou no Papai Noel. Os EUA são especialistas em transformar tudo em negócio.
Assim, o espírito e o ideal de São Nicolau ganharam outra roupagem e intenção. Papai Noel tornou-se um garoto propaganda do comércio e todo o ano nós vemos as pessoas alucinadas em busca de presentes, esqueçendo-se totalmente do verdadeiro sentido do Natal.
O chatonildo reclama exatamente porque o Natal virou algo fútil e superficial, ou então não ganhou algum presente quando tinha a sua idade.
O chatonildo diz que Papai Noel não existe, então ele não deveria poder comemorar o Natal, reunir-se com a família, fazer a ceia de natal, nem ganhar presentes de quem o ama, certo? Errado. Natal é isso. Deixar as diferenças de lado, perdoar, pedir perdão, amar, consolar, renovar as esperanças.
Assim, Luiz, tenha um bom Natal, um bom Solsticio de Verão [como o seu tio comemora], uma feliz Hanuka [como os Judeus comemoram].
São os votos do seu tio Beto.

domingo, 28 de outubro de 2012

A abóbora de Linus













Parem o bonde do Paganismo Brasileiro que eu quero descer. Eu até engulo a patriotada de querer fazer o 31 de outubro o Dia do Saci. Mas saber que tem pagão brasileiro reclamando que Halloween não é Samhain não dá.
Se vamos evocar a Musa da História, vamos ouvir o que Ela tem para contar na integra, não apenas aquilo que queremos ou nos convém.
Atribui-se a origem do Samhain aos Celtas, um povo antigo, de quem se conhece mais lendas do que fatos. Os Celtas não eram um povo homogêneo, mas um conjunto de povos, que tinham alguns elementos em comum na linguagem e na religião, que chegaram na Europa, a colonizaram e se misturaram com os muitos povos nativos.
Os celtas não deixaram qualquer registro escrito, o pouco que se sabe deles nos é contado pelos Romanos, que invadiram e conquistaram boa parte da Europa, resultando em uma assimilação e romanização da crenças locais. Do pouco que se registrou, observou-se que os Celtas celebravam os solstícios e equinócios.
Depois entraram em cena a imposição do Cristianismo e as invasões bárbaras. Com o colapso do Império Romano, novos reinos se ergueram das ruínas, seguiram-se mais guerras, mais invasões, mais migrações, mais influências culturais.
Na Bretanha, houve a conquista dos Anglos e Saxões, dos desdobramentos da história surge o Reino Unido como um poderoso Império.
Vem a Era Colonial e a Coroa Inglesa reclama a si os territórios no Novo Mundo, dos desdobramentos da história surge os EUA, cuja força e influência são presentes nos dias atuais.
Houve na Europa conflitos entre cristãos, a perseguição religiosa fez com que muitos buscassem refúgio nos EUA. Do Reino Unido veio o costume de celebrar o "All Hallows Eve", ou "Festa de Véspera do Dia de Finados".
Os refugiados nos EUA transformaram esta festa no conhecido Halloween, um feriado importante na cultura americana, como o "4th of July", "Tanksgiving Day" e "Christmas Eve". O Brasil, como colônia européia e americana [economica e culturalmente] assimilou, adotou e copiou algumas destas festas.
A "origem" da celebração do Samhain não vem dos celtas, mas do reconstrutivismo Cultural que surgiu no século XVIII, com o Movimento Romântico, o Neopaganismo, a Royal Society of Folclore. O Neopaganismo tornou-se um fenômeno mundial graças à influência da cultura americana no mundo. O Neopaganismo chegou e ganhou força no Brasil porque nós importamos essa cultura.
Nós somos descendentes de portugueses, italianos e espanhóis, celebramos uma festa de origem inglesa, importada dos americanos. E ainda tem pagão brasileiro reclamando que Halloween não é Samhain.
Podemos até reclamar que o Halloween se tornou uma festa comercial, como o Natal. Celebrações atraem gente e onde tem gente tem comércio. Comércio faz parte de nossa natureza e é também uma manifestação divina, por Hermes e Mercúrio!
Não cabe a nós, pagãos, agirmos como rabinos insandecidos; não podemos nem devemos expulsar os vendilhões do templo.
Então, caro cidadão brasileiro, quer venha a comemorar o Halloween, o Samhain ou o Dia de Finados, boas festas.
E que a Grande Abóbora te abençoe.

domingo, 7 de agosto de 2011

Revivendo a Lupercália

É tempo de arar a terra do nosso quintal, o azorrague dos “Lupinos” prepara o terreno, e eles são recompensados com fecundas e belas visões, ao realizarem sua cerimônia.
Vêem a si mesmos como “Filhos da Luz”, e uivam para a Lua, interessados em impetrar o fundo da escuridão fria e abrasadora, e fecundá-la com luminosidade. Os lobos feiticeiros em pleno estado desfigurado percorrem na forma lupina para tocar as almas. Bebem um valimento chamado ‘Claret’, que possui a faculdade de produzir a mudança da próxima obra na lavoura.
Observam o cerimonial para ajustar deformidades, seguindo a prescrição da expiação contra enganos.
O adágio, de fato, é a metodologia e investimento para vida nova. Ele deve ser acrisolado pela diligência. Tornamo-nos aquilo que pensamos, este é o mistério eterno.
O próximo mistério é o da purificação, para ser digno de tornar viva a sua origem divina. O outro mistério é o dos sacrifícios.
O mistério derradeiro está para admitir o arcano da extinção e suplantar a rota das causas e dos perecimentos, e com isso obtém-se poder sobre a arte de chamar uma nova existência para o filho de Saturno.
Após receber estes ensinamentos do Rei Zagal, os quais estão associados à feitiçaria, tornam-se livres do temor e da morte, alcançando aquilo que só se pode obter a partir das trevas do antimônio.
Acessa-se o domínio fantasma que dificilmente tolera essa reserva. Em lugar disso, procura apoderar-se da realidade por trás dessas manifestações, influenciá-la e servir-se dela por meio do rito, da purificação, do sacrifício, da expiação.
Tenta abolir o caráter gasto e camuflado da realidade anterior da coletividade, se dispondo dela. Não contestando nem cultivando deformações em nossa crença, desde que não cobiçamos decifrar e manejar o código, mas em vez disso, aceitamos como nosso fluxo, e o sagramos enquanto vivenciamos.
Eis um ritual sacrificial e iniciatório em que todos os anos revigoraram sob o luar, o brilho do mais caro pêlo, e isso implica alguns pontos a serem abordados para uma boa compreensão.
Os feiticeiros-Lobos são compromissados num pacto com o “Espírito” tutor do clã oferecendo-lhe o sangue da sua virilidade em permuta do produto plácido da feracidade. É um sacrifício que, através do sangue, garante o estado de prodígio da divindade, e é aqui que Lupércus se torna um pastor de cabras, não de ovelhas.
Com isso, nos cabe sagrar o seguinte tabu: “Num acurado alento, reside o foco do seu poder, deve comê-lo uma vez ao ano, e não deleitar-se com o contrário dele”.
A instrução parece-se em muitos aspectos com um “sacramento” que põe em contato transcendente, quer porque lhe revela parte do sagrado, quer porque sacraliza o ser.
O lobo toma pra si definitivamente a existência profano-sagrada. É natural e por isso passa consagrada, desde que foi assumido pelos antepassados, responsabilizando-se pela continuação, move-se para sempre dentro do circuito místico da participação vital. Nenhum dos seus sinais ou gestos serão estranhos aos mundos visível e invisível.
É sucinto considerar a iniciação mais como uma transformação lenta do indivíduo, como um trânsito progressivo da exterioridade à interioridade e vice-versa, uma expiação total que parte do geral para o particular, e em seguida, do particular para o geral.
A descoberta que o iniciado faz da sua realidade sacro-humana e os fundamentos míticos da Lupercália obrigam a uma introversão na qual descobre o dinamismo interior da sua vida participada com variadas potencialidades. A iniciação consegue uma “metanóia”, conseqüência da mutação ontológica, da mudança substancial de personalidade que operou no ex-neófito. Deve morrer para a vida anterior, recusá-la e matá-la, e renascer para uma natureza dessemelhante, que é ao mesmo tempo livre das amarras da terra estéril.
Nos contextos iniciáticos, a morte significa a superação da condição profana, a condição conspurca do “ser preso”, do leigo do sagrado, do cego de espírito ou do espírito cego. O enigma dessa aragem vai revelando pouco a pouco ao catecúmeno as adequadas dimensões da existência: ao introduzi-lo no sagrado, a iniciação o obriga a assumir a responsabilidade de homem-deus/mulher-deusa.
O acesso a esse arcano lupercal, traduz-se num simbolismo de morte e de novo nascimento. Desse sabor, vem o gosto da purificação e os elementos da ablução para passar à época adjacente; a expiação para iluminar os olhos, a mente e a alma, e por último, a fertilidade e feracidade do espírito de carne.
O elemento mágico que o enquadra marca para sempre a criança lupina, “Este é de Lupércus, ninguém tasca!”. Torna-se difícil renunciar ou romper os conceitos antigos nas pessoas mais velhas, expressões de ritos que acompanharam o seu novo nascimento, o transformarão para sempre. É indubitável que o homem e/ou a mulher, durante toda a vida, referir-se-á, ainda que seja só em termos do subconsciente, a estes ritos que lhe deram fé, benção e maldição na personalidade mágica.
Prometeu observou atentamente o vôo das aves de garras aduncas, revelando as que são por natureza fausta ou infausta; como revela o sustento que nutre cada uma, os apegos, as coexistências, as hostilidades e qual macieza e cor devem ter as suas vísceras para que se tornem agradáveis aos deuses, bem como o multiforme aspecto favorável da bílis e do fígado. Diz: “Iniciei os homens na arte difícil de queimar os adiposos membros e o osso sacro das vítimas. Tornei claro aos seus olhos as constelações do fogo, que antes lhe permaneciam encobertos e obscuros, e para ti, os 12 labores nada mais são que a forja das virtudes oferecidas ao herdeiro da décima terceira geração da linhagem de Io”.
O ser humano deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois é o Ser que ele deseja; um Ser do qual se sente privado e do qual algum outro lhe parece ser dotado e, aparentemente já dotado de um Ser superior, desejando algo, só pode se tratar de um instrumento capaz de conferir uma plenitude de Ser ainda mais Iluminado. O sacrifício é um ato religioso que, insubstituível, pela consagração de uma vítima, transforma o estado da pessoa moral que o executa ou de alguns artifícios aos quais ela diz respeito.
Os Lupinos se despem de sua pele artificial, onde pêlos e garras não são nada mais que o produto maldito da divinação licantrópica, e estilhaçam a caça cujo alimento espiritual habita no alvedrio, se sujeitando a excursão aonde se vai dois e volta um.
O fundamental a reter nesta fórmula é a idéia una de mutação. Um sacrifício sempre implica numa consagração, que modifica o estado das coisas: une-se o domínio do profano com o do sagrado e do maldito.
O inverso também ocorre; basicamente, o sacrifício é um processo de sacralização e dessacralização de algo. Entretanto, esta consagração pode ser de vários tipos (como a consagração de um rei, por exemplo, que não interfere em nada além da pessoa do rei) sendo que o sacrifício é de um tipo muito particular: seu traço distintivo é que a consagração ultrapassa a coisa consagrada. Neste sentido, este algo consagrado intermedia a relação sacrificante X divindade. A vítima do sacrifício possibilita o contato entre estes dois mundos, o sagrado e o profano. É fundamental que esta vítima seja destruída pela consagração, o que confere um caráter sacrificial mesmo aos rituais "não-sangrantes" como o caso das oferendas que a terra nos dá. O “objeto” assim destruído é a vítima-ego sacrificial, e disso obtém-se a licantropia.
Não há rito sacrificial sem uma "entrada": é necessário que o estado natural dos envolvidos no sacrifício seja alterado, por isso, o Claret dos Lobos possui propriedades secretas no modo de preparar sua fórmula. Antes deste, nem sacrificador, nem sacrificado, vítima ou objetos envolvidos no ritual estão em um grau específico para o contato com o santificado. Este estado deve ser alterado, convertido em congresso, para a transmutação e só depois, o acesso aos verdadeiros mistérios da Lupercália. O profano é divinizado na entrada do sacrifício: todos os ritos de entrada têm esta função.
Com relação ao sacrificador, temos que este pode ser um indivíduo ou uma coletividade que assiste à cerimônia. A partir dos movimentos de preparação do sacrificador ao sacrifício do Claret, os feiticeiros partem para uma uniformidade de elementos comuns a esta etapa: a sacralização do sacrificador é feita através de restrições (jejuns diversos, não cortar cabelos, unhas, etc..) e regressões ("volta-se" a um estado inicial, de feto, que irá "renascer" ou transformar-se em lobo): "tudo o que toca aos deuses é divino; o sacrificador é obrigado a tornar-se deus-lobo ele próprio para estar em estado de agir sobre".
Uma série de abluções, consignações e outras sequencias preparam o sacrificador, profano, a executar seu papel no espaço sagrado do sacrifício.
Com relação ao sacrificador, a princípio este não deve ser motivo de muitos rituais iniciais: alguns cuidados são suficientes, uma vez que o sacrificador é geralmente algum sacerdote/sacerdotisa, o que já lhe confere uma proximidade maior ao sagrado. Apenas, pelos ritos, aumentando sua “santidade”, ele facilita e sobrecarrega seu potencial de relação com o sagrado. Isto é necessário para que ele cumpra, por vezes, o papel de intermediário da divindade, em nome da qual ele agirá. Neste sentido, seu papel é o de um “bode expiatório”, carregando consigo as mazelas do indivíduo ou da alcatéia toda.
O Ritual é suspenso no ar, traduzindo os risos de um novo aparecimento.
Existe um ditado entre os lobos que diz: “Você não é a mesma pessoa depois da Lupercália”.
Feliz Lupercália!
Sorcerer Sett
Tradição Familiar Lupino [link morto]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Como antigamente

Enquanto na Bolívia até o presidente Evo Morales resguarda as tradições locais, cá no Brasil continuamos a celebrar festas e cerimônias que foram assimiladas/usurpadas pela Igreja. Neste mês todo, em diversas cidades, em praças públicas e igrejas, nós celebramos as festas juninas. O Caturo [Gladius] nos conta o que foi e o que se tornou as festas juninas.
Diz Teófilo Braga, na obra «O Povo Português Nos Seus Costumes, Crenças e Tradições», volume II, página 211 e seguintes:
«A festa de São João Baptista em todos os povos europeus está ligada a um fenómeno astronómico, o solstício do Verão, em 24 de Junho. O célebre ritualista Guilherme Durandus, interpretando alegoricamente a festa do Precursor, não pode ocultar o seu sentido mítico: "Faz-se girar uma roda, em certas localidades, para assim designar que o Sol não se pode elevar mais, mas torna a descer no seu círculo, assim também a fama de São João, que era olhado como um Cristo, diminuiu quando este apareceu. Alguns dizem que é porque neste tempo os dias minguam, e que crescem de novo no Natal de Jesus Cristo..."»
Ou seja, uma forma de diminuir o prestígio do Sol perante o Judeu Morto, primeiro substituindo-O por um sucedâneo («São João») e depois «integrando» na religião do Deus oriental os rituais que ao Sol são devidos. A isto se chama «cristianização».
Não é por acaso que, conforme se lê na obra «Os Solstícios - História e Actualidade», o próprio Justino o Mártir, um dos doutores da Igreja, regista que «os cristãos usurparam o dia do Sol», e que o dia da semana sagrado dos cristãos, o domingo (de «Dominus», «Senhor»), é na tradição pagã ocidental consagrado ao Sol, «Dies Solis» (que os Ingleses conservam no seu «Sunday» e os Alemães no seu «Sontag», entre outros...). Não é igualmente por acaso que o dia mais festejado da Cristandade, o Natal, coincide mais coisa menos coisa com o outro solstício, o de Inverno. Talvez porque o culto solar foi por assim uma das últimas «frentes de combate» pagãs contra o Cristianismo, e porque o primeiro imperador cristão, ou cristianizado, Constantino, era pouco antes, e se calhar ao mesmo tempo, um adorador do Sol...
Claro que durante muito tempo a Igreja tentou proibir a celebração do solstício de Verão, antes de a tentar absorver, isto é, cristianizar... Duas fontes para cada uma das duas asserções:
- no século VI, o bispo de Árles proibiu num sermão o «banharem-se nas fontes, nos pântanos e nos rios na noite de S. João e na madrugada do dia seguinte» porque tal «costume nefasto ressuscita o Paganismo»;
- no século VII, uma obra que circulou em todas as dioceses de França dizia, entre outras coisas, que o fogo de S. João é «a marca do regozijo por S. João» e que teve o seu início nos primeiros séculos do Cristianismo, quando «S. Bernardo testemunha que era mesmo praticado entre os pagãos.»
Significa isto que em não conseguindo extirpar de vez a celebração pagã, tentou apoderar-se dela, dirigindo-a, «domesticando-a», de forma a «controlar os abusos», que eram, não apenas os excessos festivos naturais, mas também as «superstições» pagãs que não pudessem ser «transformadas».
Continuando, novamente com Teófilo Braga...
«É justamente uma tal concepção primitiva que faz com que a festa do solstício de Verão seja comum a todos os povos indo-europeus, e ainda aos povos semitas; o fenómeno é diversamente dramatizado, mas entre os povos europeus toma a expressão de um Combate de Verão expulsando o Inverno (24 de Junho), ou a sua inversa, a expulsão do Verão pelo Inverno (24 de Dezembro). (...) nos antigos prazos portugueses notou João Pedro Ribeiro, que o ano era sempre contado de São João a São João, e no Alvará de 1 de Julho de 1774, chamou-se-lhe ano irregular. (...) entre os povos eslavos é onde se apresenta mais completo, correspondendo muitas das suas particularidades a costumes portugueses (...). Por um documento da Câmara de Coimbra, de 1464, citado por Viterbo, se nota a forma de combate: "cavalhada na véspera de São João com sina e bestas muares". Em outros povos, esta cavalgada ficou simplesmente lendária, na Mesnie Furieuse, que tanto se localiza no solstício diurno (circa horam medirianam) como no solstício vernal. (...) Nos costumes provinciais conservam-se quase todas as formas dramáticas desta antiquíssima festa solsticial.
(...)
Na Beira Alta acende-se um facho no cimo dos montes (o galheiro) ou na ceira das azenhas (a roda, que ainda na Alemanha se deixa rolar dos montes). O facho, como escreve Leite de Vasconcelos, é um pouco de lenha em volta de um pau alto. Os rapazes que o vão acender levam músicas de tambores e pífaros, e grandes algazarras. O monte é além disto cercado de pinhas acesas.»
Nos Açores, fazem-se as fogueiras na rua, e os rapazes saltam por cima das labaredas; o mesmo no Algarve e no Alentejo.»
E, como todos sabem, o mesmo se faz um pouco por toda a Europa nesta data - o salto dos jovens por cima das fogueiras, para dar força e saúde, boa sorte, etc...
Autoria e citação do Caturo, no Gladius.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Feliz 5519° ano

(Foto: AP)
Os aimarás da Bolívia celebraram nesta terça-feira (21) na cidadela pré-inca de Tiahuanaco o "Willka Kuti", ou "retorno do sol", que dá início a seu mítico ano de 5519, com a participação do presidente Evo Morales.
Centenas de pessoas visitaram o templo de Kalasasaya de Tiahuanaco, para assistir à cerimônia que coincide com o solstício de inverno austral e a mudança do ciclo agrícola para a semeadura no campo.
A chegada dos primeiros raios do sol, o momento mais esperado, aconteceu às 7h25 do horário local (8h25 de Brasília), mais tarde do que em outros anos.
Os amautas, ou sábios indígenas aimarás, vestidos com suas roupas cerimoniais, acenderam uma fogueira sobre um altar para invocar em sua língua o Pai Sol e a Mãe Terra, acompanhados por Morales.
Os 5.519 anos da cultura andina são resultado da crença de que a civilização pré-hispânica tiahuanacota teve cinco mil anos exatos de história antes da chegada dos espanhóis, em 1492.
O número é rejeitado por arqueólogos e antropólogos, com o argumento de que não havia culturas desenvolvidas no planalto andino naquela época e os Tiahuanaco seriam de 1200 a.C.
Morales enviou seus ministros a várias regiões do país para participarem da celebração, que era denominada "Ano Novo Aimara" e agora passou a ser chamada "Ano Novo Andino Amazônico", em uma tentativa de reunir as diferentes celebrações indígenas realizadas durante o solstício de inverno austral.
O ministro das Relações Exteriores, o também aimará David Choquehuanca, declarou que o festejo, que nestes dias também terá seu correspondente em Cuzco com o Inti Raymi, a festa do Sol, disse que a data é oportuna para a renovação pessoal.
"Hoje é tempo de renovação. Assim como o Sol se renova, nós também nos renovamos, todos os seres humanos festejam junto com a natureza, junto à Mãe Lua e o Pai Sol, e nosso desejo para este ano é que todos consigam alcançar a felicidade", declarou Choquehuanca.
O chanceler havia convidado para as comemorações o presidente eleito do Peru, Ollanta Humala, que chegou de madrugada ao país para uma visita oficial, mas ele não compareceu.
Humala, que assumirá a presidência no final de julho, realiza nesta terça-feira uma visita de cerca de 15 horas à Bolívia para discutir com o presidente Morales a agenda bilateral.
Fonte: G1/mundo

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O natal pagão

Este texto foi encontrado no blog Alta Sacerdotisa, da Gaia Lil, tão bom que merece ser divulgado em homenagem aos meus amigos no hemisfério norte.

Entrada do Sol no signo de Capricórnio, marcando o solstício de inverno no hemisfério norte, celebrado pelos povos celtas como o Sabbat Yule ou Alban Althan. Comemorava-se, nesta data, o renascimento do Sol do ventre escuro da Mãe Terra, simbolizando a renovação das esperanças, novas promessas de alegria e realizações, assegurando à humanidade que a Roda do Ano, em seu movimento perpétuo, novamente chegaria ao fim das vicissitudes do inverno e da escuridão. Desde os tempos mais remotos, a transição entre o ponto mais baixo (a noite mais longa do ano) e o início do retorno na trajetória do Sol em sua Roda Anual, era celebrada com vários rituais em todas as culturas antigas.
Para festejar o renascimento do Sol eram acesas fogueiras e tochas, ofertavam-se presentes para as divindades, reverenciavam-se as árvores sagradas (como o carvalho e o pinheiro), as plantas que representavam os poderes do Deus (como o visco) e da Deusa (como o azevinho), realizando-se também, vários rituais de fertilidade.
O mais importante símbolo do Yule era o fogo, que deveria queimar durante os doze dias das celebrações, representação da luz solar brilhando durante os doze meses. Preparava-se o tronco de Yule ou o “Yule Log”, decorado com folhagens, pinhas, nozes, maçãs, doces, galhos de visco e de azevinho. Esse tronco era guardado até o mesmo ritual do próximo ano, quando era queimado ritualisticamente e substituído.
Prepare você também um tronco de Natal, escolhendo uma tora ou um galho grosso, fazendo três furos para prender três velas, nas cores verde, vermelha e dourada.
Enfeite-o a seu gosto, mas mantenha sempre as velas acesas durante os doze dias das antigas celebrações, convidando assim os Espíritos da Luz a iluminarem a abençoarem sua casa e seus familiares.
Celebração da deusa eslava Koleda, também chamada de Kuntuja, na Rússia, comemorando a deusa Koliada, senhora do tempo, do Sol e da luz, personificando o próprio solstício de inverno. Ela simbolizava o Sol, cercada pelas forças da escuridão, precisando de ajuda da humanidade para vencê-las. Essa tarefa era executada pelas mulheres, que estimulavam, por meio de rituais, o poder procriador da Deusa. Com o passar do tempo, Koliada foi transformada em deus e, nesta data, celebrava-se seu nascimento. Koliada ou Kulada, permaneceu mas disfarçada na figura de São Nicolau, o velhinho bondoso que ajudava as mulheres no trabalhos de parto. Na Rússia, celebrava-se também Maslenitza, a deusa da fertilidade e da agricultura.
Comemoração de Tonan ou Tlakatellis, uma das manifestações da Grande Mãe asteca. Ainda hoje o povo Nahua reverencia-a, colocando guirlandas de calêndulas e folhas em suas estátuas ou nas de sua “substituta” a Virgem de Guadalupe.

O mês de dezembro

Decem era o décimo mês do antigo calendário romano. Seu nome também surgiu como uma homenagem à deusa Décima, uma das Parcas – as Senhoras do Destino-, a regente do presente e tecelã do fio da vida, equivalente à deusa grega Clotho.
O nome anglo-saxão do mês era Aerra Geola, o irlandês, Mi Na Nollag e o nórdico, Wintermonath ou Heilagmonath. No calendário druídico, a letra Ogham é Luís e a árvore, a sorveira. O lema do mês é “assuma o controle de sua vida e não se deixe guiar pelos outros.”
Os povos nativos denominaram este mês de Lua Fria, Lua do Lobo, Lua das Longas Noites, Lua do Uivo dos Lobos, Lua do Carvalho, Lua do Inverno, Lua das Árvores que Estalam e Mês Sagrado.
A mais importante celebração deste mês é o solstício de inverno no hemisfério norte, festejado pelos povos celtas como o Sabbat Yule ou Alban Arthuan. Em várias tradições e lugares do mundo antigo, o solstício era lembrado juntamente com os mitos das deusas virgens dando à luz seus divinos filhos solares, como Osíris, Boal, Attis, Adonis, Hélio, Apolo, Dionísio, Mithras, Baldur, Frey e Jesus. Na tradição romana, esta data chamava-se Dies Natalies Soles Invictus ou o Dia do Nascimento do Sol Invicto e todos os deuses solares receberam títulos semelhantes, como a Luz do Mundo, o Sol da Justiça, o Salvador. As celebrações atuais do Natal são uma amálgama de várias tradições religiosas, antigas e modernas, pagãs, judaicas, zoroastrianas, mitraicas e cristãs.
Na antiga Babilônia, existiam doze dias entre o solstício e o Ano Novo. Era um tempo de dualidade, oscilando entre o caos e a ordem. Os romanos concretizaram essa ambigüidade no famoso festival Saturnália, as festas dedicadas ao deus do tempo Saturno e à sua consorte, a deusa da fertilidade Ops.
Durante oito dias, as regras sociais eram revertidas e patrões e empregados trocavam de funções e roupagens, ninguém trabalhava, todos festejavam. O último dia do festival chamava-se Juvenália, dedicado às crianças que recebiam agrados, presentes e talismãs de boa sorte.
As pedras sagradas do mês são a turquesa e o zircônio. As divindades regentes são todos os deuses e deusas solares, além das deusas Ix Chel, Ástrea, Ops, Astarte, Freyja, Sekhmet, as Nornes, Yemanjá e Arianhod.
Dezembro representa o fechamento de um ciclo, um período para refletir sobre o ano que passou. Na avaliação daquilo que passou e na expectativa de um novo ano, repete-se o momento mítico do caos para a ordem. A Roda do Ano para, entra-se em um novo limiar, no limite entre os tempos e os mundos, quando se torna possível refazer o mundo.
Reveja, portanto, todos os aspectos de sua vida no ano que passou: realizações profissionais, relacionamentos, saúde, caminho espiritual, expressão pessoal, projetos e sonhos. Medite sobre os sucessos e fracassos, criando uma nova imagem do futuro. Consulte algum oráculo, faça uma lista de desejos e projetos, assuma compromissos, prepare encantamentos, invoque as Deusas e entre no Ano Novo com fé, força, luz e esperança.
[Citado de:] Mirela Faur - O Anuário da Grande Mãe.

Nota da casa: Há um mistério no nascimento do Filho da Promessa em Yule que acontece exatamente em Litha. Algo que deve dar o nó na cabeça de muitos pagãos, bruxos e wiccanos. O Deus, que é irmão da Deusa, apaixona-se e une-se à Deusa, para pouco depois definhar e morrer. O Deus morre para se tornar o psicopompo, o condutor das almas de volta ao ventre da Mãe. Assim como o Deus, nos tornamos sementes novamente e, ao renascer o Deus, renascemos nós também. Mas para isso acontecer, o Deus tem que fertilizar a Deusa, tem que se unir [sexualmente] à Deusa. A Deusa gera a vida porque foi fecundada pelo Deus. O Deus morre para que o mundo tenha vida. Eu não compreendo como os diânicos podem negar ou diminuir a importância do nosso Deus. Sem Ele, nenhum dos sabbats que comemoramos tem sentido. Feliz Yule! Feliz Litha!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Feliz solstício de verão!

Estamos chegando no fim do ano.
O comércio torce as maõs, imaginando o lucro por causa da febre do natal e do ano novo.
Por toda a cidade, enfeites... cristãos? Não, pagãos!
Mas os brasileiros não conhecem a história, não conhecem suas raízes.
Conforme o "natal" vai chegando, receberemos de familiares, parentes e amigos as mesmas mensagens de "feliz natal", mesmo eles sabendo que nós somos pagãos!
Eu espero, por favor, mensagens de Feliz Saturnália, Feliz dia do Sol Invicto, Feliz dia de Mithra, Feliz dia de Dioniso, Feliz Solsticio de Verão, Feliz Litha.
Sobre o real significado deste dia, vale a pena citar o Caturo:

A celebração ocidental do Natal deriva, pelo menos em boa parte, da antiga Saturnália, festa ritual que se iniciava a 17 de Dezembro e se realizava em honra de Saturno, Deus da Idade do Ouro e das Colheitas. Tudo indica que a Saturnália marcava o fim das colheitas; e como era ainda cedo demais para voltar a semear, o doce ócio daí resultante dava lugar ao mais augusto dos festejos.
Para o acervo das tradições natalícias veio mais tarde o contributo do culto ao Sol Invencível, ou Sol Invictus, e da adoração de Mitra.
«Io Saturnália!», era o grito dos antigos foliões durante o convívio pautado pela fraternidade geral e pela opulenta abundância de vitualhas, cenário de grandes comezainas, grandes bebedeiras e, não raramente, notáveis orgias. As casas eram decoradas com grinaldas de louro e as pessoas visitavam-se entre si, trocando prendas tais como velas de cera e bonecos de barro (os «sigilaria»).
Andar na rua, ao cair da tarde, e ver as lojas todas abertas, com imensa gente atafulhada em embrulhos de papel faíscante, e apreciar o fausto das iluminações natalícias, somando tudo isto ao aroma e nevoeiro das castanhas assadas, é dos maiores prazeres que se pode ter nesta vida, e faz desta época a melhor do ano, sobretudo porque no próprio lar brilha a mágica árvore de Natal, tão simples e inalteravelmente pura, presença de todos os anos, que, vinda de tempos remotos, transcende as eras, porque não precisa de morrer. Elemento festivo de raiz germânica, é símbolo de vida, de eixo do mundo, e as suas luzes representam elo ou pelo menos memória das luzes do Alto. A árvore escolhida costuma ser o pinheiro, pelo mesmo motivo que o azevinho e o visco estão também associados à quadra natalícia - porque, permanecendo verdes todo o ano, constituem símbolo de eternidade.
No fim de cada ano os povos do norte dirigiam aos seus Deuses uma série de pedidos pendurando os objectos que consideravam mais valiosos nos pinheiros cobertos de neve. Escudos, armaduras e martelos eram os diferentes ornamentos utilizados na decoração da árvore. A luz reflectida através do metal exposto dava aos bosques um ar luminoso muito semelhante ao das árvores de natal. Mudam-se ideias e modos de vida, tanto a nível individual como colectivo, mas permanece essa referência central luminosa que vem das origens.
Estreitamente ligada à abundância, estava, em temos antigos, a fraternidade. Julgo que, no pensamento antigo, a plenitude é como um estado de excelência universal, em que tudo representa vida: fertilidade e amor estão assim intimamente interligados, dado que representam, quer uma quer outra, e sobretudo em conjunto, uma manifestação privilegiada de vitalidade.

A curiosidade, a guisa de comentário deste pagão, é que, por via do aculturamento colonial imposto, celebramos uma festa típica de boas vindas... para o inverno! Em pleno início de verão! E dá-lhe ceia de natal cheia de produtos... importados! Alimentos doces, gordurosos, costumes trazidos pelos nossos avós que vieram da Europa que, nesta época, começa o inverno e isto tem uma tradição e raízes em crenças que antecedem em milênios ao Cristianismo. Pelos Deuses, vamos dar um pouco de valor ao Brasil e demos as boas vindas ao verão com uma ceia repleta de frutas.
Feliz Litha!
PS: Neste ano, o solstício de verão foi brindado com um eclipse lunar. Coincidências não existem.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Druidas comemoram "halloween" original

Enquanto milhares de pessoas em vários países usam abóboras e esqueletos para comemorar o Halloween, druidas da Floresta Charmwood, inspirados por religiões ancestrais, celebram a festa pagã de Samhain.
Vestidos a caráter, eles bebem hidromel, dizem se comunicar com espíritos e celebram os mortos, além do fim de mais um ano.
Para druidas, são também um instinto pagão do mundo natural e a chegada da escuridão que inspiram as festas de Halloween no hemisfério norte.
"A maioria pode não saber, mas eles estão se conectando com algo natural no Halloween, que lhes traz satisfação e ajuda na transição ao período mais escuro do ano", afirmou Michelle Axe à BBC.
A cerimônia druídica é conduzida por três bruxas, que jogam pedrinhas no caldeirão para se livrar de tristezas.
A religião foi parcialmente reiventada para os tempos modernos, com rituais que atraem cada vez mais gente.
Decisões recentes de autoridades britânicas podem elevar o druidismo a religião reconhecida oficialmente no país.
Fonte: G1
Nota da casa: O "formato" da cerimônia ou da celebração do Dia de Finados é irrelevante. No mundo inteiro há ao menos um dia para se lembrar dos que se foram, lembrar dos antepassados e honrá-los em silenciosa reverência. Feliz Sanhaim para todos nós.

domingo, 1 de agosto de 2010

Lugnasad!

Tanto Romanos como Celtas, os dois principais elementos da ancestralidade desta faixa ocidental ibérica, celebravam neste dia festividades ligadas à fertilidade do trigo.
Em Roma, começava hoje o mês consagrado a Ceres, Deusa dos Cereais e do Crescimento, Cujo nome pode estar ligado à raiz indo-europeia Kerri, com o significado de «Crescimento».
Os Romanos também realizavam no primeiro de Agosto cerimónias em honra de Spes (Esperança), de Victoria, de Mars Ultor (Marte Vingador) e dos Lares Compitales ou espíritos protectores das encruzilhadas.
Na arcaica tradição dos egrégios Celtas, esses antigos Latinos que contribuíram, primordialmente, para a nossa ancestralidade, o dia de hoje é marcado pela celebração da Lugnasad, festividade a um tempo real(monárquica) e agrícola, realizada em honra de Lug, Deus mestre de todas as artes, Senhor da Luz e rei dos Deuses.
Lug instituiu a festa da Lugnasad (palavra traduzida por alguns como «Assembleia de Lug», por outros como «Funeral de Lug») em honra da Sua mãe, Tailtiu (filha dum rei hispânico), que morrera de exaustão após ter levado a cabo a monumental tarefa de preparar os campos da Irlanda para o trabalho agrícola.[Gladius]
Na maioria dos livros, encontramos Lugh classificado como um deus solar, mas ele é muito mais complexo do que isso. Provavelmente, tais associações suas ao Sol devem ter vindo dos povos gregos e romanos, ao entrarem em contato com a cultura celta. Na Gália e na Grã-Bretanha, existem muitos exemplos de cultos ao deus Lugh.
O nome Lugh vem do irlandês antigo e significa “brilho” ou “luz”. Seu nome, aliás, aparece no nome de muitos lugares da Europa: Lugo (na Galícia), Leiden (na Holanda), Luguvalium (na Inglaterra), Lughbhadh (na Irlanda), Lugdunum (hoje Lyons, na França).
Há um grande número de imagens de Lugh nas terras célticas, o que comprova a sua importância. De acordo com Cláudio Crow Quintino, autor de ‘O Livro da Mitologia Celta’, “na Gália foram encontrados diversos vestígios dos cultos a esta deidade, que se manifesta – de acordo com o padrão celta – de forma tríplice”. E continua: “A representação iconográfica de Lugos, seu nome gaulês, por vezes o mostra com três rostos e três falos”. Isso confirma a sua natureza tríplice.[Bruxaria Net]
Lugh é um Deus Celta, representado em muitas Lendas Irlandesas como sendo o triunfo da Luz sobre a Escuridão. Ele é o Guardião legítimo da Lança Mágica de Glorias e era particularmente associado ao uso da funda (arma feita de pele de animal com a qual se lançam pedras ), com a qual matou o seu terrível adversário, Balor.
Lugh é um Deus que está presente em todos os Panteões Celtas. Em Gaulês antigo tinha o nome de Lugos, e ao longo do resto da Ilha Britânica, é conhecido como Lug. As Histórias e mitos sobre ele diferem em cada região onde é reverenciado de inúmeras formas e através de diferentes ritos.
Principalmente conhecido como Deus do Sol, Lugh também é um Deus Guerreiro, da Medicina, Druida, Bardo, Ferreiro, Cervejeiro, entre outras coisas.
As suas funções identificam-no como um Deus da Guerra e das Artes Mágicas, mas os poetas e todos os artistas também são por ele beneficiados, juntamente com os guerreiros e os magos. As suas armas sagradas em todas as tradições são a funda e a lança. No folclore Irlandês ele é o Pai do grande Herói Cuchulain.
Lugh é um Deus do céu e está fortemente ligado com o fogo, com o Sol e com o tempo. Em várias representações suas, Ele aparece com um Torc ( (peça de joalharia Celta ), e uma lança brilhante, que por vezes aparece como sendo um raio.
Ele é o Deus de todas as habilidades, artes e da excelência em tdo o empenho imaginável. Ele é visto como o Protetor e Guia do seu Povo. Animais que lhe são especialmente sagrados são, as águias e os corvos que mantêm vigia sobre tudo aquilo que acontece na Terra.[Clã Guardiões da Luz]
Lughnasadh é também conhecido como Lammas (Lê-se "lamas") ou Festival da Primeira Colheita. Dia sagrado no paganismo, tendo origem principalmente Celta. Celebrado no dia 2 de Fevereiro no hemisfério Sul e no dia 1º de Agosto no hemisfério Norte.
É importante lembrar que os Sabás não são originários da Wicca. São comemorações muitos mais antigas do que essa religião que apareceu por meados da década de 50, que agregou essas e outras características à sua doutrina.
Esse sabá, que ocorre entre o Solstício de Verão (Litha) e o Equinócio de Outono (Mabon), festa da primeira colheita, uma época de agradecimento aos Deuses por tudo o que colhemos.
O nome Lughnasadh veio duma festa agrícola típica dos Céltico. Uma festa da colheita em honra ao deus céltico do Sol: Lugh (o maior guerreiro dentre os celtas, pois derrotou os gigantes que exigiam sacrifícios humanos).
Já o nome Lammas significa "Missão do Pão (loaf Mass)", que representa o alimento (geralmente pão ou bolo ou qualquer outra massa) feito com os grãos, que representam a colheita, e repartido (como alimento sagrado) entre os membros do coven ou da família ou mesmo entre amigos. Este nome vem do costume medieval de levar os primeiros pães (bolos, etc) para uma celebração.[wikipedia]
Aos pagãos brasileiros que estão celebrando "de ponta cabeça" o Imbolc, Feliz Lugnasad!