terça-feira, 30 de abril de 2024

Denuncie a homofobia

O casal Henrique Nascimento e Wagner Soares denunciou ter sofrido homofobia da loja Jurgenfeld Ateliê, de Pederneiras (SP), que se negou a fazer “convites homossexuais” para o casamento dos dois. O caso ganhou repercussão quando uma amiga do casal contou em redes sociais o que aconteceu.

Em entrevista ao Estado de Minas, Henrique disse que o casal completa dez anos de união em setembro de 2025, quando será realizada a festa de casamento. O planejamento do evento começou ainda no ano passado e, para auxiliar na organização, eles se registraram na plataforma Casamentos.com.br.

Nesta semana, ao registrar a parte de fotografia que já estava fechada para o casamento, a plataforma recomendou papelarias para a produção dos convites. Uma das indicações foi o Jurgenfeld Ateliê, que já foi premiado pelo site.

“A própria plataforma tem uma ferramenta para disparar mensagens para esses fornecedores e foi o que fiz na segunda-feira (22/4) à noite. Na terça de manhã, me responderam e o atendimento ocorreu bem, com respostas rápidas e solícitas até eu mandar as referências do que queríamos para os convites e falar que os nomes no convite eram o meu e do Wal (Wagner)”, conta ele.

Foi então que recebeu a recusa. “Peço desculpas por isso, mas nós não fazemos convites homossexuais. Seria bacana você procurar uma papelaria que atenda sua necessidade", disse o ateliê na mensagem.

“Eu fiquei tão assustado que nem acreditei quando li, fiquei em choque, sem chão, não conseguia raciocinar. Pensei em mandar para o Wal, mas como ele é estourado, hesitei. No final, acabei mandando porque o casamento é dele também e ele precisa saber o que a gente sofreu. Não sofri [a homofobia] sozinho, somos um casal”, disse Henrique.

“O sentimento que eu tive foi de que entramos num túnel e voltamos para o século XII. Ficamos estarrecidos, tentando entender se era uma brincadeira, e se fosse, que tipo de brincadeira era aquela”, complementou Wagner.

Henrique, Wagner, amigos e demais perfis que se compadeceram com a história do casal começaram a fazer avaliação negativa nas redes sociais e no Google. Com a repercussão, a empresa privou os comentários do perfil e publicou um vídeo se defendendo, acompanhado de uma nota de repúdio nos quais afirmaram ser vítimas de “heterofobia” e que não se importariam em perder seguidores por seguirem princípios cristãos. Nos stories, chegaram a expor o número pessoal de Henrique. A postagem foi retirada do ar poucas horas depois.

“Se fôssemos uma empresa que faz apenas casamentos homossexuais e não faz casamentos heterossexuais, seríamos politicamente corretos e estaríamos arrasando de orçamento da galera que assiste Globo e escuta ‘Anita’, porém aqui não funciona assim”, escreveram eles.

“Nós não fazemos casamentos homossexuais porque acreditamos na família, que é formada por um homem e por uma mulher. Nada contra se você é homossexual, se não é, se é casado mulher com mulher, homem com homem. O problema é seu, nós não temos nada a ver com a sua vida, só que nós não aceitamos isso na nossa empresa e não queremos, de forma alguma, trabalhar dessa forma”, disseram no vídeo.

Um story permaneceu, pedindo solidariedade. “Que o Senhor nos dê graça em um momento tão cruel e difícil como esse”, diz o texto.

Para Wagner, a forma como a empresa lidou com as críticas e acusações de homofobia não foi profissional. “Como uma empresa que se coloca no mercado, é premiada pelo Casamentos.com.br, tem esse despreparo, essa falta de tato ao lidar com o cliente seja ele quem for? Ela poderia ter respondido de várias outras formas: agenda cheia, doença, falta de material. Eu fiquei com pena deles, sendo sincero”, conta.

Os noivos chegaram a registrar um boletim de ocorrência por homofobia na Polícia Civil e outro online. “Na delegacia, o escrivão colocou apenas que pedimos o orçamento e a empresa se negou, não tivemos abertura para falar o que aconteceu, então chegando em casa fizemos outro para também falar sobre a exposição do meu número nas redes sociais deles”, conta Henrique.

Nas redes sociais, ele lamenta: "É com profunda decepção que expressamos nossa profunda insatisfação com a recusa para o nosso casamento, simplesmente por sermos um casal homossexual. Ficamos chocados e entristecidos ao sermos informados de que nossa orientação sexual era um motivo para negar nossos convites de casamento. Infelizmente, a recusa da empresa em nos atender nos lembra que a discriminação ainda persiste em nossa sociedade, mesmo quando estamos celebrando um evento tão significativo como o casamento”.

“Eu falei nas redes sociais também para avisar pessoas do nosso círculo sobre a empresa, para tomarem cuidado”, explica.

O caso também fere o Código de Defesa do Consumidor que, no art. 39, determina que é vedado, ao fornecedor de produtos ou serviços, recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades de estoques, ou “recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento”.

Essa não é a primeira vez que uma empresa se recusa a atender um casal LGBT que preparava um casamento. Em 2020, um salão de festas do interior de São Paulo foi condenado pela Justiça a indenizar um casal por ter se negado a realizar a união. O valor determinado foi de R$ 28 mil.

O Tribunal de Justiça reconheceu que houve danos morais no fato de a empresa "recusar evento de casamento entre pessoas do mesmo sexo". O valor da indenização foi definido a partir de circunstâncias da causa, grau de culpa e condição socioeconômica do ofendido.

Fonte, citado parcialmente: https://www.em.com.br/diversidade/2024/04/6844358-casal-denuncia-loja-que-se-recusou-a-fazer-convites-para-casamento-lgbt.html

Nota: uma empresa, ainda que privada, precisa de autorização. Recusar serviço por motivo religioso deve causar a cessão da autorização e a empresa deve ser fechada.

Pela regulação das redes sociais

Os ataques do bilionário Elon Musk à democracia, ao Judiciário e à soberania do Brasil merecem o repúdio das forças democráticas de nosso país. O dono da rede social X, antigo Twitter, confunde liberdade de expressão com agressão, reforçando a necessidade de o Congresso Nacional regulamentar o funcionamento das redes sociais e das empresas da área, as big techs.

Ganha importância, assim, a anunciada criação de um grupo de trabalho na Câmara dos Deputados, para debater e propor regras para o setor. Já há acúmulo na matéria, a partir de projeto aprovado no Senado em 2020 e que, na Câmara, com modificações, transformou-se no PL das Fake News (Projeto de Lei 2630/20), relatado pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP). A regulação é essencial para a sociedade e a democracia brasileiras.

O Brasil não é uma plataforma que Musk possa comprar, rebatizar e ditar as regras. Ele agiu tentando fazer crer que defende a liberdade, mas sua trajetória mostra que é movido por interesses empresariais, políticos e ideológicos, sintonizado à extrema direita mundial e ao fascismo. A ausência de regulação estimula a sensação de impunidade.

FAKE NEWS - Mentiras, fake news e discursos de ódio são parte da estratégia utilizada pela extrema direita global. Usam o argumento falacioso da “defesa da liberdade de expressão”, mas na prática querem um vale tudo, a barbárie nas redes sociais. Para o bilionário, o X é plataforma para difundir opiniões de quem paga mais ou de quem é afinado com o seu ideário antidemocrático.

A regulação das redes sociais é um tema que mobiliza governos e a sociedade em países de todo o mundo, considerando que três empresas possuem monopólio global da área, num esforço fundamental para fortalecer as democracias, proteger os direitos das populações e frear a escalada da extrema direita e do fascismo.

Não se trata de censura, mas sim, de regrar a atuação das grandes empresas de tecnologia e das plataformas de redes sociais, de acordo com a nossa legislação e os interesses nacionais, impedindo que sejam usadas com fins ideológicos e políticos, como ocorreu no Brexit no Reino Unido – o caso da Cambridge Analytica, nas eleições do Brasil em 2018 e em processos eleitorais de outros países.

A movimentação de Musk com extremistas direitistas brasileiros e estrangeiros é um atentado à nossa soberania e à democracia, uma tentativa de passar por cima do Estado de Direito e das instituições nacionais. O empresário distorceu a realidade para atender aos seus interesses, tratando o Brasil como se fosse o quintal de sua empresa, ignorando as leis e os procedimentos jurídicos nacionais adotados desde a redemocratização do País.

TERRA DE NINGUÉM - Diante das ameaças atuais, é absolutamente essencial a regulação das redes sociais. Hoje, o setor funciona em, praticamente, uma terra de ninguém. É preciso estabelecer regras de transparência para as grandes empresas de tecnologia, assegurando a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, coibindo abusos. A regulação vai garantir a defesa dos direitos individuais e coletivos, a democracia e o Estado de Direito.

A tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, com a invasão e depredação das sedes dos três Poderes em Brasília, foi articulada com o apoio de redes sociais, dada a falta de regulamentação. Os terroristas foram indiciados e têm sido punidos, mas as plataformas têm passado ao largo das investigações, por não haver marco legal específico. A regulamentação é de interesse da nossa democracia e de toda a sociedade brasileira.

Fonte: https://www.brasil247.com/blog/regulacao-ja-das-redes-sociais

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Atentado cristão

SALEM, Massachusetts – Há duas semanas, The Wild Hunt informou que Massachusetts e as autoridades federais estavam investigando um incidente em que um dispositivo explosivo foi lançado na varanda do Templo Satânico (TST). Em 17 de abril, a Procuradoria dos EUA para o Distrito de Massachusetts anunciou a prisão de um homem de Oklahoma por supostamente ter lançado uma bomba caseira na sede do TST. Os investigadores também disseram agora que a bomba detonou apenas parcialmente.

Em primeiro lugar, é crucial esclarecer que o TST não é um grupo pagão, embora os seus esforços sociais muitas vezes se cruzem com os de muitas organizações pagãs. Estabelecido em 2013 por Lucien Greaves e outros, o TST se destaca como uma entidade religiosa e ativista não-teísta que defende a separação entre Igreja e Estado, equidade social e liberdades pessoais. Embora empregue imagens e simbolismo satânicos, seus princípios não giram em torno da adoração de um Satanás literal. Em vez disso, estes símbolos são usados metaforicamente para significar a resistência contra a opressão, a busca de conhecimento, o empoderamento individual e o desmantelamento do privilégio religioso em apoio ao secularismo.

Sean Patrick Palmer, 49 anos, de Perkins, Oklahoma, enfrenta agora acusações numa queixa criminal de “utilização de um explosivo para causar danos a um edifício utilizado no comércio interestadual ou estrangeiro”. Palmer foi detido na manhã de 17 de abril e fez sua primeira aparição no Distrito Ocidental de Oklahoma na quinta-feira. Palmer está sendo extraditado para Massachusetts, onde comparecerá ao tribunal federal de Boston.

Recapitulando os acontecimentos e as provas, a Promotoria informou que por volta das 4h14 do dia 8 de abril de 2024, câmeras de vigilância do lado de fora do TST registraram um homem se aproximando do local vestido com calça preta, jaqueta preta, máscara preta, bronzeado. colete tático colorido e luvas. De acordo com os documentos de acusação, ao se aproximar do TST, o indivíduo acendeu uma bomba caseira – um dispositivo explosivo improvisado (IED) – e atirou-a na entrada principal antes de fugir do local. Momentos depois, a bomba tubular detonou parcialmente, resultando em um pequeno incêndio e danos associados ao exterior do TST.

O procurador distrital disse em comunicado que “a bomba caseira parecia ter sido construída a partir de uma seção de tubo de plástico coberto com pregos de metal, que foram presos ao tubo com fita adesiva. O interior do cano estava cheio de uma substância semelhante a um pó, identificada preliminarmente como pólvora sem fumaça.”

As evidências coletadas no local ajudaram a identificar o suspeito e efetuar a prisão. “Um único fio de cabelo humano foi supostamente localizado na bomba contendo um perfil de DNA de um homem caucasiano”, o promotor distrital

O documento de cobrança também observa que Palmer adquiriu um tubo de PVC e uma tampa de PVC correspondente – semelhante aos componentes utilizados na construção da bomba tubular – de um varejista de materiais de construção em Oklahoma.

Supõe-se que Palmer comenta frequentemente discussões nas redes sociais sobre tópicos religiosos, usando temas semelhantes aos da nota manuscrita.

Imagens de vigilância obtidas durante a investigação revelaram um sedã Volvo preto se comportando de maneira irregular perto do TST antes e depois do lançamento da bomba. O veículo está supostamente registrado em nome de Palmer.

Uma foto que circula em uma plataforma de mídia social mostra Palmer, um homem caucasiano, vestindo um colete tático de cor bege semelhante ao usado pelo suspeito capturado pela câmera de segurança do TST.

As acusações enfrentadas por Palmer acarretam uma pena não inferior a cinco anos e até 20 anos de encarceramento, juntamente com três anos de liberdade supervisionada e uma multa potencial de até US$ 250.000.

“Simplesmente não há justificativa para fazer esse tipo de coisa. Não há justificativa para sequer tentar”, disse Greaves à WCVB em Boston . “Claramente, a intenção era causar o máximo de dano e houve um total desrespeito pela vida humana.”

Fonte, citado parcialmente: https://wildhunt.org/2024/04/man-arrested-in-satanic-temple-pipe-bomb-attack-note-left-says-god-ordered-it.html

Nota: se fosse muçulmano, a mídia faria escândalo, falando de terrorismo. Mas quando é um cristão, dizem que é um "lobo solitário".

Mídia brasileira se alia ao fascismo internacional

Controlados por famílias que dominam os meios de comunicação há décadas e não disfarçam o ódio a Lula, os grupos Folha, Globo e Estadão resolveram abandonar de vez a fantasia de democratas e estão se alinhando cada dia mais com a ultradireita brasileira, comandada pelo clã Bolsonaro, que recentemente ganhou o apoio do bilionário Elon Musk e de uma internacional fascista sob a articulação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Às vésperas do ato convocado por Jair Bolsonaro (PL) em Copacabana, no Rio de Janeiro, os três jornalões publicaram matérias, artigos e editoriais que fortalecem a narrativa do ex-presidente, propagada em grupos de aplicativos e na rede X, de Musk, sobre uma ilusória "ditadura do judiciário", que estaria "censurando" a "liberdade da expressão" do gabinete do ódio no país.

Em novo balão de ensaio - jargão jornalístico para classificar informações plantadas com efeito de potencializar algum fato ou evento -, a Folha de S.Paulo traz na manchete de seu site neste sábado (20) que "Malafaia põe STF sob pressão de religião em investigações contra Bolsonaro".

No texto, carente de fatos e informações novas, a Folha ecoa o discurso do pastor midiático, conselheiro e principal articulador dos ataques a Alexandre de Moraes e à cúpula do judiciário.

"Para especialistas, a utilização da religião para pressionar a Justiça é sinal preocupante que testa a democracia", diz a Folha, requentando declarações de Malafaia, a quem caberá aumentar a fervura nos ataques ao judiciário no ato deste domingo em Copacabana.

A nova manchete foi divulgada um dia após a Folha destacar uma mentira dizendo que "Moraes derrubou perfis a pedido de órgão chefiado por ele no TSE, mostra relatório", sobre um dos documentos vazios divulgados no relatório trumpista com dados vazados pelo chamado "Twitter Files Brazi", na rede de Musk.

Horas após a divulgação da "reportagem", a Folha soltou uma "errata", dizendo que "a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE foi criada por Edson Fachin, não por Alexandre de Moraes, como afirmado em versão anterior desta reportagem". Informação que já constava no texto, mas foi distorcida na manchete.

A fake news divulgada pela Folha nesta sexta-feira (19) foi amplificada pelo Estadão, que em reportagem na edição deste sábado chama a assessoria criada por Fachin para monitorar a mentira e o discurso de ódio nas redes de "'QG Antifake news' de Alexandre de Moraes no TSE", dando um tom pejorativo e repetindo o "erro" da Folha.

"Juristas consultados pela reportagem divergem: uns criticam o fato de um órgão subordinado a Moraes realizar apurações que embasam decisões do próprio ministro. Outros dizem que o chamado poder de polícia da Justiça Eleitoral permite tal arranjo", diz a reportagem, recorrendo a "especialistas" para colocar dúvida sobre o trabalho do "QG" e turbinar a narrativa da horda fascista.

A "reportagem" é amplificada no Editorial, em que o Estadão diz que "o STF parece ter sentido o baque", a respeito do relatório sem consistência alguma divulgada pelos trumpistas, articulado por Eduardo Bolsonaro.

"Lá se vão quase cinco anos de tramitação desses inquéritos no STF. O sigilo sobre eles, que já era um problema na origem das investigações, só tem aprofundado as incertezas quanto à justiça das decisões do ministro Alexandre de Moraes", ecoa o Estadão.

Na jogada ensaiada da mídia corporativista liberal, o Globo vai no mesmo tom e diz, também em editorial, que "só fim de sigilo afastará ideia de que STF fez censura".

"Comissão de deputados ligados a Trump acusa Supremo de cercear liberdade de expressão no Brasil", diz o texto, que parece ter sido escrito por Inteligência Artificial a partir do que foi divulgado pelo Estadão.

Após dizer - o mesmo que diz o STF - que os documentos são "apenas despachos com ordens judiciais para remoção de contas", "acompanhadas de decisão do ministro, em geral argumentando que as contas bloqueadas haviam sido usadas para subverter a ordem, incentivar ruptura institucional ou quebrar a normalidade democrática", o jornal, porta-voz político da família Marinho, levanta a mesma "suspeita" do Estadão e do clã Bolsonaro.

"É provável que a acusação de “censura” se revele frágil, mas só será possível saber quando o sigilo for levantado", diz o texto.

"O STF teve papel crítico para evitar que se consumasse a ruptura democrática tramada por bolsonaristas, e foi necessário que agisse com rigor para evitar a disseminação da ameaça à democracia. Mas ela já foi afastada faz tempo. Passou da hora de o Brasil recobrar a normalidade institucional de que tanto necessita", diz O Globo, um ano e 4 meses após a tentativa de golpe de 8 de janeiro e às vésperas de novo ato provocativo de Bolsonaro no Rio de Janeiro.

A cereja do bolo, no entanto, coube ao garoto de recados da família Marinho, Merval Pereira, que em artigo ilustrado com a foto de Alexandre de Moraes diz que "medidas ditatoriais não cabem numa democracia".

"Os ministros estão convencidos de que estão salvando a democracia. Salvaram, realmente, mas é preciso parar um dia. Ou se está na China, num regime ditatorial, onde o governo controla as comunicações, ou nas redes sociais vai passar alguma mensagem que não agrade ao ministro. Tem que haver uma diferença do que é um ataque à instituição, ataque criminal, calunia, difamação e o que é um comentário de quem é contra o governo, ou discorda de alguma ação da Corte. Precisamos voltar ao trilho de normalidade da democracia. Estamos tentando fazer, numa democracia, um controle que só as ditaduras fazem", diz Merval, em texto que mais parece ter sido criado pelo mesmo Malafaia, personagem do balão de ensaio da Folha, que vai tentar incendiar um novo golpismo no ato deste domingo.

A biruta da mídia liberal girou. E voltou a pulverizar mentiras e narrativas para embasar o fascismo neoliberal de Bolsonaro.

Fonte: https://revistaforum.com.br/opiniao/2024/4/20/folha-globo-estado-fortalecem-narrativa-de-musk-bolsonaro-s-vesperas-de-ato-no-rio-157665.html

domingo, 28 de abril de 2024

EUA quer banir atos pró Palestina

Por Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York.

A presidente da Universidade de Columbia, Nemat Shafik, foi ouvida nesta quarta-feira (17) pelo Comitê de Educação formado por membros do partido Republicano norte-americano. Como representantes de outros estabelecimentos de ensino, ela foi convocada para responder questões sobre discurso de ódio e liberdade de expressão na instituição desde o início do conflito em Gaza. Protestos em apoio aos palestinos foram organizados em frente à universidade.

Nemat Shafik e os membros do conselho de administração da universidade foram ouvidos por integrantes do Comitê de Educação e Força de Trabalho da Câmara sobre a resposta da instituição diante de episódios de antissemitismo no campus. De acordo com o comitê, a Universidade de Columbia vem apresentando uma resposta branda a um “padrão generalizado de ataques antissemitas, assédio e vandalismo desde o início da guerra Israel-Hamas”. A legisladora republicana Virginia Foxx, presidente do comitê, acusou Columbia de ser um “foco de antissemitismo e ódio”.

“O antissemitismo não tem lugar no nosso campus e estou pessoalmente empenhada em fazer tudo o que puder para enfrentá-lo diretamente”, respondeu Shafik. “Columbia se esforça para ser uma comunidade livre de discriminação e ódio em todas as suas formas, e condenamos o antissemitismo que é tão difundido hoje”, acrescentou, lembrando que a instituição suspendeu 15 alunos e tomou medidas disciplinares contra vários membros do corpo docente.

Em 5 de dezembro, as presidentes da Harvard e da Universidade de Pensilvânia também foram chamadas a explicar o que pretendiam fazer para punir os estudantes que, desde o começo do conflito em Gaza, em outubro de 2023, vinham apresentando, segundo o comitê, uma postura antissemita. O fracasso em dar uma resposta efetiva sobre o tema acabou levando ambas presidentes a renunciarem.

Na madrugada anterior ao interrogatório de Nemat Shafik, mais de 60 barracas foram instaladas em meio ao campus da Universidade de Columbia em uma manifestação chamada de ‘Acampamento em Apoio a Gaza’. O protesto, que começou por volta das 4h da manhã, tem como objetivo pedir a suspensão do financiamento da instituição de doadores de fundos que estejam ligados a Israel.

As manifestações nos campi universitários americanos têm sido frequentes desde o início do conflito no Oriente Médio. Os protestos geralmente são pacíficos, mas por vezes levam à violência física.

De acordo com os organizadores do protesto, ao convocar Shafik a depor, o Congresso pretende fazer uso da vigilância estatal para reprimir o ativismo pró-Palestina e a liberdade de expressão no campus.

Em postagens convocando os alunos para a manifestação, os organizadores compararam o ato com a ocupação de abril de 1968, quando estudantes permaneceram por uma quase semana pedindo que Columbia cortasse seus laços com pesquisas ligadas à guerra do Vietnã.

Além de Columbia, estudantes da Universidade Estadual de Nova Jersey realizaram um protesto similar pedindo que a instituição deixe de receber ajuda financeira de empresas cujos lucros estejam relacionados ao conflito em Gaza. Um referendo perguntando se os estudantes estavam de acordo com a suspensão do financiamento resultou em mais de 80,42% de votos favoráveis.

Em uma jornada que prometia ser agitada, o grupo Stop Jew Hatred (Basta de ódio aos judeus) também pretendia se manifestar no campus de Columbia, em um ato previsto para o final do dia. A polícia de Nova York foi acionada para evitar confrontos entre os dois grupos de manifestantes.

A Câmara dos Representantes aprovou por esmagadora maioria uma resolução bipartidária na terça-feira (16) condenando o uso da frase “Do rio ao mar, a Palestina será livre”, repetida durante os protestos em defesa de Gaza.

De acordo com um comunicado do deputado Josh Gotteimer (R-NJ) um dos três principais representantes por trás da resolução, a frase é “um apelo antissemita às armas com o objetivo de erradicar o Estado de Israel, que está localizado entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo”.

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/liberdade-de-expressao-universidades-dos-eua-querem-banir-atos-pro-palestina/

Adendo. A chamada Terra da Liberdade pode banir o Tik Tok.
https://olhardigital.com.br/2024/04/21/internet-e-redes-sociais/proibicao-do-tiktok-e-aprovada-na-camara-dos-eua/
Cadê os boçais que gritaram pela liberdade de expressão, defendendo Elon Musk?

sábado, 27 de abril de 2024

O reino oculto dos Maias

Autor: Tom Clynes.

Os dois arqueólogos, ambos exploradores da National Geographic, tinham passado, em conjunto, várias décadas a trabalhar nas selvas da América Central. O calor e a humidade sufocantes, bem como os encontros com animais selvagens mortíferos e salteadores armados, eram uma componente intrínseca da descoberta dos tesouros deixados pelos antigos maias, cuja civilização floresceu durante milhares de anos e depois desapareceu misteriosamente sob a floresta densa.

Por isso, pareceu-lhes uma ironia – quase uma injustiça – que a sua maior descoberta ocorresse quando os dois estavam debruçados sobre o computador num gabinete com ar condicionado em Nova Orleães. Enquanto o seu colega assistia, Marcello Canuto, da Universidade Tulane, abriu a imagem aérea de um segmento de floresta na região setentrional da Guatemala. No início, o ecrã mostrava apenas a copa das árvores. Só que esta imagem fora obtida por meio de uma tecnologia denominada LiDAR (acrónimo de “light detection and ranging”). Os dispositivos de LiDAR instalados numa aeronavedisparam milhares de milhões de descargas de laser sobre o solo e, em seguida, medem as que são reflectidas de volta. A pequena fracção dos impulsos que penetram na folhagem fornece nuvens de dados suficientes para compor uma imagem do solo da floresta.

Com uns quantos toques no teclado, Marcello removeu a vegetação e revelou uma imagem tridimensional do solo. Longe de centros urbanos, pensava-se que a região que estavam a inspeccionar se mantivera maioritariamente desabitada, mesmo no auge da civilização maia, há mais de 1.100 anos.

De repente, porém, aquilo que até então pareciam vulgares colinas fora afinal esculpido pela construção de albufeiras artificiais, socalcos agrícolas e canais de irrigação. Aquilo que pareciam ser pequenas montanhas eram grandes pirâmides, coroadas por edifícios cerimoniais. Povoados que, até então, os arqueólogos tinham definido como capitais regionais eram, afinal, meros subúrbios de cidades pré-colombianas muito maiores, cuja existência ninguém conhecia, unidas entre si por auto-estradas elevadas e calcetadas.

Segundo Thomas Garrison, parceiro do projecto de Marcello Canuto, “acho que estávamos a sentir algo semelhante ao que os astrónomos sentiram quando olharam através do Telescópio Hubble e viram todos os espaços vazios subitamente cheios de estrelas e galáxias. Quando removemos as árvores, havia marcas humanas por toda a parte.”

A utilização da tecnologia LiDAR está a revolucionar a arqueologia maia, não só por conduzir os investigadores a sítios arqueológicos promissores, mas também por proporcionar um quadro completo da paisagem antiga. As dezenas de levantamentos realizados com tecnologia LiDAR, incluindo o projecto inovador de 2018 apresentado em Nova Orleães e financiado pela Fundação Guatemalteca para o Património Cultural e Natural dos Maias (Pacunam), vieram alterar ideias há muito enraizadas de que esta civilização prosperara numa das regiões menos hospitaleiras da Terra.

“É quase impossível exagerar a importância da tecnologia LiDAR para a arqueologia maia”, diz o arqueólogo guatemalteco Edwin Román-Ramírez. “Será sempre preciso fazer escavações para compreendermos o povo que construiu estas estruturas, mas esta tecnologia mostra-nos com exactidão onde e como escavar.”

As imagens de LiDAR deitam abaixo a ideia de que as terras baixas dos maias eram uma paisagem escassamente povoada, salpicada por um punhado de cidades estado autónomas e dispersas.

Cada novo levantamento feito com esta tecnologia torna cada vez mais clara a noção de queos maias eram uma civilização interligada de escala e complexidade notáveis. No fundo, constituíram uma megalópole maia, com milhões de agricultores, combatentes e construtores de infra-estruturas, mais extraordinária do que alguém poderia alguma vez ter imaginado. Esta revelação tem o poder não só de reescrever o passado da região, mas também de reformular radicalmente o seu futuro.

Para a Guatemala, país economicamente empobrecido, mas rico em tesouros culturais e ecológicos, estas descobertas proporcionam possibilidades excitantes: muitos dos novos sítios arqueológicos podem transformar-se em peças centrais de uma indústria cultural e ecoturística capaz de ajudar o país a superar a pobreza de forma sustentável. No entanto, para Francisco Estrada-Belli, Edwin Román-Ramírez e outros arqueólogos e conservacionistas guatemaltecos, estas imagens de alta tecnologia vieram também pôr a descoberto uma evolução mais inquietante, que pode inviabilizar por completo esses planos: as reveladoras marcas de salteadores, madeireiros ilegais, acumuladores de terras e narcotraficantes que estão a montar o cerco à segunda maior área de floresta tropical remanescente das Américas. Há muito em jogo e os guatemaltecos temem ser derrotados na sua corrida para proteger as paisagens e os tesouros que poderiam esclarecer melhor tudo o que os antigos maias têm para nos ensinar.

Grande parte do património cultural mais importante do país encontra-se protegido dentro da Reserva da Biosfera Maia, um vasto conjunto de parques nacionais, reservas de vida selvagem e concessões florestais onde os habitantes obtêm madeira e outros produtos florestais. Abrangendo cerca de um quinto do território da Guatemala, esta reserva é habitada por jaguares e araras-escarlate, além de centenas de outras espécies de aves, borboletas, répteis e mamíferos.

Em contraste com outros berços de civilização mais áridos, como o Egipto e a Mesopotâmia, as florestas húmidas da América Central raramente têm revelado com facilidade os seus tesouros enterrados. Em meados do século XIX, o escritor norte-americano John Lloyd Stephens e o seu colega e artista britânico Frederick Catherwood exploraram algumas das cidades abandonadas dos maias, na península mexicana do Iucatão. As suas descrições e desenhos de pirâmides e palácios cobertos pela selva atraíram outros investigadores, mas, após décadas de escavações, os arqueólogos só conseguiram abrir algumas pequenas janelas para o mundo maia.

“Consegue imaginar quantas pessoas se deslocavam por este caminho para justificar os recursos investidos na construção de algo assim?”, pergunta Richard. Segundo a datação por carbono e as análises ao pólen e aos solos, o sítio começou a ser ocupado em 2600 a.C. No seu apogeu, entre 300 e 100 a.C., El Mirador poderá ter sido uma das maiores cidades do continente.

A razão que teria conduzido à sua escolha permanece um mistério, uma vez que não dispunha de um abastecimento de água constante ao longo do ano. No entanto, o ambiente não é favorável às sociedades humanas em nenhum ponto das terras baixas do território maia. Os escassos nutrientes disponíveis no solo são regularmente arrastados por chuvas torrenciais, muitas vezes seguidos por secas devastadoras.

Segundo a investigação de Richard Hansen, o crescimento demográfico de El Mirador foi possibilitado pela remoção de lamas férteis dos pântanos das terras baixas, seguida da sua transferência para socalcos abertos nas encostas das colinas. Os agricultores aumentaram o pH do solo, acrescentando-lhe calcário e obtendo assim safras abundantes de milho, abóbora, feijão, pimento e algodão.

Numa região assolada por precipitação ora escassa ora excessiva, o fluxo de água era meticulosamente controlado através de canais, barragens, albufeiras, cisternas e socalcos agrícolas – uma infra-estrutura que está agora a ser posta a descoberto. “Não era possível alimentar tantas pessoas como os antigos maias alimentavam praticando o tipo de agricultura de queimada actualmente utilizado nesta região do planeta”, afirma Marcello Canuto, especialista em modelação da densidade demográfica. De acordo com os seus cálculos, 10 a 15 milhões de habitantes viviam no reino dos maias aquando do seu apogeu, incluindo muitas comunidades em zonas pantanosas consideradas inabitáveis.

Para construir a alta pirâmide de El Mirador, com 72 metros, conhecida como La Danta, exércitos de operários utilizaram percutores e lâminas de obsidiana para cortarem e perfurarem o calcário, separando em seguida os blocos de pedra. Richard e os seus colegas de investigação reproduziram o processo, utilizando ferramentas descobertas nas pedreiras do sítio arqueológico como modelos. Os operários construíram padiolas de madeira para transportar blocos com cerca de 400 quilogramas. “Dispondo de um número suficiente de homens e de meios para alimentá-los, um rei conseguiria concluir a obra no seu tempo de vida”, propõe o arqueólogo.

As imagens recolhidas pelo LiDAR, com o seu rigor tridimensional, tornaram mais fácil imaginar a paisagem dos antigos – as encostas das colinas em socalcos, as estradas largas e as praças espaçosas, os palácios, as oficinas e as torres de vigia. Tudo isto reforça outra pergunta: por que razão abandonaram os maias estas comunidades que funcionavam tão bem? Por agora, ainda não há uma resposta clara. Um padrão turbulento de colapso, reconstrução e ressurgimento seguiu-se a uma série de secas graves, entre meados e finais do século IX, que provavelmente destruíram as colheitas agrícolas em toda a região. Segundo Julie Hoggarth, da Universidade Baylor, que investiga os efeitos da seca sobre a agricultura e saúde dos maias, é provável que o crescimento demográfico e a abertura de clareiras contribuíssem para a degradação ambiental. “A agravar tudo isto, os reis maias eram vistos como intermediários divinos dos deuses”, diz. “Portanto é fácil imaginar que a sua legitimidade terá sido abalada se não conseguissem trazer as chuvas e que a população devastasse as cidades com violência.”

Por volta de finais do século IX, os maias começaram a abandonar os seus povoados. Pararam de construir monumentos e começaram a destruí-los propositadamente. A violência e a guerra parecem ter estado entre os factores que conduziram ao inevitável colapso da sociedade.

Certa tarde, pouco antes do pôr-do-Sol, subo ao cume de El Tigre. Uma floresta ininterrupta estende-se em todas as direcções, pontuada por elevações na paisagem – ruínas engolidas pela selva que, um dia, poderão ser escavadas e preservadas, ou saqueadas e perdidas.

Acompanhado pelas vocalizações dos macacos-uivadores, desço a pé a uma antiga pedreira perto do complexo de pirâmides e palácios de Mirador. No meio da escuridão que cai, um bloco solitário de pedra cortada jaz sobre o solo, parcialmente coberto por raízes, trepadeiras e escombros. A estrutura que o bloco se destinava a integrar, fosse qual ela fosse, permanece incompleta – juntamente com o nosso conhecimento desta sociedade que, no seu tempo, alcançou níveis de sofisticação sem igual. Há ainda muito por descobrir – sobretudo quando mudamos a perspectiva que temos do mundo.

Fonte, citado parcialmente: https://www.nationalgeographic.pt/historia/reino-oculto-maias_4924 

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Abate religioso regulamentado

A diversidade religiosa no Brasil é refletida diretamente na alimentação e no consumo da população, que, somadas à expansão das exportações de produtos de origem animal para países asiáticos, criaram um mercado específico e cheio de potencial: o do abate religioso de animais para açougue.

Em países como Egito, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, grande parte da população é muçulmana, religião que traz, na sua essência, regras do que é permitido na forma de se relacionar com outros seres vivos.

Em árabe, a palavra halal, que significa lícito, define aquilo que é permitido, inclusive na hora de se alimentar. Para o consumo de animais, por exemplo, há espécies consideradas impuras, como o porco, e outras que precisam passar por um procedimento de purificação desde o abate até o corte, para que possam ser consumidas, como o frango e bovinos.

Nos países judaicos, como Israel, também há regras sobre o que é considerado apropriado, ou kosher, e há procedimentos específicos para cada etapa de beneficiamento dos produtos de origem animal.

Para atender esses mercados dentro e fora do Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) definiu regras para solicitação, avaliação, concessão e revogação da autorização para abate e processamento de animais para açougue, de acordo com preceitos religiosos.

Para receber a autorização de funcionamento, esses estabelecimentos terão que fazer uma solicitação ao serviço de inspeção federal, por meio do sistema eletrônico do Mapa, com declaração da autoridade religiosa correspondente e especificação de regras que conflitem com normas brasileiras.

Para a autorização, é necessário que os procedimentos estejam de acordo com as leis que tratam do bem-estar dos animais de abate e também o atendimento dos requisitos sanitários no Brasil e do país de destino dos produtos.

Os procedimentos foram detalhados em uma portaria publicada no Diário Oficial da União, que entrará em vigor a partir do dia 2 de maio.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2024-04/brasil-regula-abate-e-processamento-de-animais-para-mercado-religioso

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Dança e rituais em SP

Na manhã de 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, representantes da etnia pankararu pararam por meia hora o atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Real Parque, zona sul da capital paulista. A sala de recepção ficou repleta de pessoas e sons de chocalhos, os maracás, para a o ritual do toré, dança que atrai boas energias.

O povo pankararu é originário de Pernambuco. Vieram para São Paulo desde a década de 1940, fugindo da seca e de outras dificuldades. Na capital paulista, trabalharam em obras monumentais, como o Palácio dos Bandeirantes e o Estádio do Morumbi.

Muitos ficaram na zona sul, morando precariamente perto do trabalho. Fixaram-se no Jardim Panorama e na favela Real Parque, onde vive a maior quantidade de parentes pankararu da capital paulista, cerca de mil pessoas.

Articulados, mantém associação e conquistaram a primeira Unidade Básica de Saúde com atenção às necessidades indígenas, no Real Parque. Foi nela que oito homens e mulheres, devidamente paramentados, entoaram cantos, agitaram seus maracás e dançaram o toré.

Foram acompanhados por cerca de 30 pessoas, entre funcionários da UBS, pacientes e parentes da área e de outros bairros. Um deles é Henrique Pankararu, 32 anos – aniversariando exatamente no Dia dos Povos Indígenas. Ele mora em Pinheiros e veio prestigiar os parentes. “São minha maior referência”, diz.

Que Deus?

Os espíritos encantados, que são plantas, animais, ancestrais, tudo que vive ou virou espírito, conforme compreensão pankararu.

Fonte, citado parcialmente: https://www-terra-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/www.terra.com.br/amp/visao-do-corre/role-de-quebrada/indigenas-fazem-ritual-de-danca-na-favela-real-parque-em-sp,76581a3386387f36b49d4cd564f5fe31bvpicdou.html?amp_js_v=0.1&amp_gsa=1#webview=1

Bordel era centro social

A Roma Antiga tinha uma sociedade muito vibrante e complexa, onde a prostituição desempenhava um papel importante. Era legal, licenciado e muito comum. Na verdade, os bordéis ocupavam uma posição única e controversa na sociedade romana. Esses estabelecimentos, conhecidos como “ lupanaria ”, eram partes integrantes da vida urbana romana, atendendo aos diversos desejos dos cidadãos, soldados e viajantes. Operando sob o olhar atento da condenação moral e da aceitação social, os bordéis da Roma Antiga eram centros de prazer e comércio, oferecendo um vislumbre das complexidades das atitudes romanas em relação à sexualidade, classe e poder.

Os bordéis na Roma Antiga não eram clandestinos, operações tabu escondidas em becos escuros, mas eram frequentemente estabelecimentos proeminentes e elogiados, estrategicamente localizados em centros movimentados das cidades. Estes lupanários eram facilmente reconhecíveis pela sua sinalização distintiva e eram frequentados por indivíduos de todas as esferas da vida. O poeta romano Martial descreveu-os como “abertos a todos os ventos”, enfatizando a sua acessibilidade e falta de discriminação. Andando pelas ruas de qualquer grande cidade romana, você não poderia deixar de ver um bordel. Grandes falos estavam gravados na calçada, conduzindo os pedestres em direção a um bordel.

Um dos aspectos mais notáveis dos bordéis romanos era o seu estatuto jurídico. Embora a prostituição em si não fosse ilegal na Roma Antiga , regulamentos e restrições regiam o funcionamento dos bordéis. Os proprietários de bordéis, conhecidos como “lenones”, eram obrigados a registar os seus estabelecimentos junto das autoridades e a cumprir determinados regulamentos, como a manutenção de padrões de higiene e o pagamento de impostos. Este quadro jurídico proporcionou um certo grau de protecção tanto aos trabalhadores como aos frequentadores destes estabelecimentos, embora também os tenha submetido ao escrutínio e vigilância por parte das autoridades.

A clientela dos bordéis romanos era muito diversificada, refletindo o caráter cosmopolita da cidade. Desde aristocratas ricos até trabalhadores comuns, podiam ser encontradas pessoas de todas as classes sociais que procuravam os serviços de prostitutas. Para muitos romanos , visitar um bordel era considerado uma parte normal e até essencial da vida urbana. A disponibilidade de serviços sexuais proporcionou uma saída tanto para os desejos físicos como para as interações sociais, promovendo um sentido de comunidade dentro destes estabelecimentos.

Dentro dos muros de um bordel romano, prosperava um ecossistema complexo, governado pelo seu próprio conjunto de regras e hierarquias. As prostitutas, conhecidas como "meretrizes", ocupavam um papel central nesta hierarquia, com indivíduos experientes e qualificados cobrando honorários e prestígio mais elevados. Essas mulheres vieram de diversas origens, desde escravas e libertas até empreendedoras independentes. Apesar do estigma social associado à sua profissão, algumas prostitutas conseguiram acumular riqueza e influência significativas, desafiando as noções tradicionais de género e classe . Muitos, no entanto, viviam vidas pobres e vítimas de abusos, e muitas vezes ficavam à mercê dos cafetões que ficavam com a maior parte de seus ganhos.

O funcionamento diário de um bordel romano era meticulosamente organizado, com lenones supervisionando a gestão do estabelecimento e garantindo o bom funcionamento dos seus serviços. As prostitutas eram frequentemente divididas em categorias com base na idade, aparência e especialização, permitindo que os clientes escolhessem de acordo com suas preferências. Os quartos do bordel foram mobiliados para oferecer conforto e privacidade, proporcionando um ambiente discreto para a realização de transações. Afrescos eróticos adornavam as paredes dos bordéis, exibindo relações sexuais em diversas posições e inspirando os clientes.

Além de meras transações, os bordéis romanos também serviam como espaços de socialização e entretenimento. Muitos estabelecimentos ofereciam comodidades como comida, bebida e música, criando uma atmosfera de convívio para os clientes desfrutarem. E além da arte erótica e da decoração que adornavam as paredes, muitas grafites também foram inscritas, valorizando ainda mais a experiência sensorial dos visitantes, muitas vezes servindo como “avaliações” da qualidade do bordel. Em alguns casos, os bordéis até organizavam apresentações e espetáculos, confundindo os limites entre comércio e entretenimento.

Apesar da sua onipresença e significado cultural, os bordéis romanos não estavam imunes às críticas e à condenação moral. Filósofos como Sêneca e Catão, o Velho, condenaram a decadência moral que acreditavam estar associada à prostituição, vendo-a como um sintoma de declínio social. As autoridades religiosas também expressaram desaprovação desta prática, condenando-a como pecaminosa e imoral. No entanto, a procura de serviços sexuais persistiu, sublinhando a complexa interação entre o desejo humano e as normas sociais na Roma Antiga.

É, no entanto, inegável que os bordéis na Roma Antiga ocupavam um papel complexo e multifacetado na sociedade, servindo tanto como locais de comércio sexual como de expressão cultural. Estes estabelecimentos reflectiam a diversidade e as contradições inerentes à vida romana, oferecendo uma janela para as complexidades das antigas atitudes em relação à sexualidade, classe e poder. Apesar de enfrentarem censura moral e restrições legais, os bordéis prosperaram como centros vitais da vida urbana, atendendo aos variados desejos de uma população cosmopolita. Seu legado permanece como um testemunho do fascínio humano duradouro pelo prazer e pela intimidade ao longo dos tempos.

Fonte: https://www.ancient-origins.net/history-ancient-traditions/roman-brothels-0020648
Traduzido com Google Tradutor.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Milei fecha serviço essencial

Em um movimento com repercussão em toda a América Latina, o governo de Javier Milei anunciou o desmantelamento do Programa Nacional de Prevenção da Gravidez Não Intencional na Adolescência (Enia), um modelo elogiado pela sua eficácia desde sua criação em 2018. Especialistas expressam preocupações sobre os impactos desse corte, não apenas na saúde reprodutiva dos jovens argentinos, mas também nos direitos das mulheres.

Durante o período de 2018 a 2021, o Enia conseguiu reduzir significativamente o número de gestações entre adolescentes argentinas, com uma queda notável de 22 pontos percentuais na taxa de fecundidade nessa faixa etária. No entanto, o anúncio recente de que 619 profissionais de saúde ligados ao programa não teriam seus contratos renovados indica o fim abrupto dessa iniciativa, destaca reportagem do jornal O Globo.

A socióloga Silvina Ramos, ex-coordenadora do programa, lamenta o desfecho e aponta para as consequências adversas que essa medida pode acarretar. "Cada gravidez adolescente evitada representa um custo de apenas US$ 60 para o Estado. O que estamos vendo é um retrocesso alarmante em uma área crucial da saúde pública", destaca.

Além disso, o temor se estende à possibilidade de que o governo Milei possa também comprometer outras conquistas das argentinas, incluindo a legalização do aborto. A falta de financiamento para a compra de medicamentos utilizados em abortos legais levanta preocupações sobre a garantia desse direito fundamental.

A ausência de uma política clara em saúde reprodutiva e sexual é vista como um sinal preocupante por especialistas.

Fonte: https://www.brasil247.com/americalatina/milei-encerra-programa-de-prevencao-a-gravidez-na-adolescencia

Quebrando o monólogo

Pergunta rápida. Por que os conservadores e os fundamentalistas cristãos fazem tanta questão de atrapalhar ou impedir o direito ao aborto?

O controle sobre os direitos reprodutivos é parte do controle sobre o corpo. Quando se impõe leis que controlam o corpo, o desejo, o prazer e o sexo, o resultado é um controle sobre a sociedade.

John Stonestreet, que eu carinhosamente chamo de "Stoned"street, costuma ser obstinado e obcecado em negar a existência de pessoas intersexuais.
A homofobia e a misoginia fazem parte do Cristianismo. A postura contra o aborto é mais doutrinária do que racional, médica ou científica.

Como de costume, eu vou citar, analisar e criticar um texto dele.

"A violência sexual não deve ser usada como arma retórica no debate sobre o aborto."

John não quer o diálogo, ele está mais para o monólogo, quer impor o seu discurso no tema do aborto. Não existe retórica onde a doutrina reina.

"O aborto sob demanda não ajuda vítimas de estupro. Em vez disso, encoraja e capacita os perpetradores."

Isso é tão absurdo quanto alegar que o uso de camisinha provoca gravidez não planejada.

"Na verdade, de que outra forma se pode explicar alguém que pensaria que um relatório alegando um aumento tão chocante na criminalidade sexual em 14 estados é na verdade uma história sobre aborto e não sobre crime?"

Na verdade, ele mesmo descreveu, o aumento de crimes sexuais ocorreu em estados onde existem restrição ao aborto.

Mas isso é "apenas um pequeno detalhe".
Além do que, eu aponto para a hipocrisia dos cristãos. Falam na "sacralidade da vida" como se o Cristianismo não fosse o motivo da morte de milhares de inocentes.

terça-feira, 23 de abril de 2024

O tamanho do estrago

Nós ainda não estamos dando conta do estrago do Bolsonarismo.
Uma notícia aponta o abismo:

A prefeita da cidade de Canoinhas (SC), Juliana Maciel (PSDB), publicou um vídeo em que descarta os livros distribuídos pelo Projeto Mundoteca-- iniciativa apoiada pelo governo federal--, na quarta-feira, 17, em suas redes sociais.

Durante a ação, a gestora alegou que a biblioteca do município não teria 'porcarias' em seu acervo e jogou no lixo exemplares de As Melhores do Analista de Bagé, de Luís Fernando Veríssimo, e Aparelho sexual e Cia., obra que foi publicamente criticada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

"Mais uma vez o governo do PT faz esse tipo de coisa: bota o adolescente, bota a criança, induz a coisa que não é dos valores do que a gente acredita, não é o que a família quer que ele aprenda. Não é realmente o que uma criança ou até um adolescente precisa ler numa biblioteca", declarou.

(https://www.terra.com.br/amp/noticias/educacao/prefeita-joga-livros-doados-a-biblioteca-no-lixo-e-culpa-lei-rouanet-porcaria,c3c337f9ec225eec304af1df4b535c600vbiizmv.html?amp_js_v=0.1&amp_gsa=1#webview=1)

Peraê. Cadê os boçais (conservadores, cristãos, reacionários e bolsonaristas) que defenderam a "liberdade de expressão ", apoiando Elon Musk e criticando Alexandre Moraes? Então como essa prefeita (bolsonarista) quer censurar livros?
O que essa gente faz não é pela liberdade de expressão, mas querem permissão para disseminar fake news e discurso de ódio. A Grande Mídia que faz eco a esse pleito, tem a mesma intenção de Elon Musk, que é garantir a audiência e o lucro. Sem esquecer que a direita, seja a extrema ou a alternativa, é uma teoria política concebida pelos burguêses para "consertar" as crises do capitalismo que eles mesmos provocaram.

A mancada de Mankey

Eu tenho outros textos onde eu analiso e crítico Jason Mankey.
Houve um tempo que o Patheos era uma fonte útil de textos. Houve um tempo que Jason escrevia algo relevante. Mas Jason errou a mão novamente.

Título do texto - Você Não Precisa De Uma Bíblia.

Quem nasceu e cresceu em um país majoritariamente cristão, conhecer a Bíblia é necessário para questionar, contestar e criticar o Cristianismo. Em seus quase 2k anos de existência, a organização religiosa que surgiu e cresceu no Cristianismo usa a Bíblia como suporte e justificativa para seus crimes.

Então não fode, Mankey.

Ele cita um texto de Ann Trip, título A Bíblia também é um recurso necessário para os pagãos. Sabendo ler nas entrelinhas e fazendo um monte de pesquisa, a Bíblia, curiosamente, é um bom recurso para os pagãos modernos.

O que é preocupante é a declaração do Mankey.

"Mas não me importo quando os radicais usam a Bíblia contra mim porque não acredito na Bíblia. Usar a Bíblia para me defender da Bíblia dá à Bíblia um certo poder que ela realmente não tem na minha vida."

"Há muita coisa na nossa cultura que pode ser “culturalmente” cristã, mas não há nada que sugira que todos estejamos obrigados a ser cristãos."

Ele estranhamente fala em leis e justiça. A merda é que tudo isso tem sido feito e influenciado por grupos de conservadores e de fundamentalistas cristãos. Então não fode, Mankey.

Essa sua paganice está fedendo.
Usar a Bíblia mostrando suas contradições, erros, interpolações e fraudes elimina toda a pretensão do discurso baseado na Bíblia. Ou seja, acaba com o argumento e elimina qualquer poder que seja alegado a partir da Bíblia.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Fora de sintonia

Depois de alguns dias que eu apreciei no YouTube (eu não estou ganhando um centavo com isso) as músicas do The Jesus and Mary Chain (Glascow Eyes) a revista Fórum pública um texto de Francisco Fernandes Ladeira.

O título, por si mesmo, gera controvérsia e polêmica.

"O rock é de direita?"

Opiniões conflitantes, algumas evidências.

O rock surgiu do blues, música feita por afro-americanos. Os verdadeiros reis do rock são Chuck Berry e Little Richard.
Elvis foi (auto)proclamado como rei do rock como parte do merchandising. Sim, meninos, o rock é um produto cultural que surgiu e cresceu dentro do capitalismo, então o sistema apenas assimilou e promoveu (promove) o rock como um tipo de válvula de escape. As boy/girls band estão aí para comprovar meu vaticínio.

Francisco comete um erro primário ao definir que o anarquismo não é de esquerda.

Então os integrantes de bandas de rock faziam música não por convicções, mas para ganhar dinheiro.
Sim, roqueiros são, na melhor das hipóteses (geralmente), filhos de pequenos burgueses. Quando surgem, geralmente na adolescência ou início da fase adulta, seguem a cartilha. Rock tem como público alvo adolescentes, então é necessário parecer que se está contestando o sistema.
Mas a idade vem, os roqueiros envelhecem. Pega mal um quarentão fazer música de contestação. Ganharam muito dinheiro, então vão fazer de tudo para manter seus privilégios sociais.

O público também cresceu e envelheceu. Pode-se dizer que é corporativismo ou saudosismo. Talvez seja influência das redes sociais ou da falta de educação. O público está tendendo cada vez mais à direita. Casamento perfeito. Os roqueiros que antes falavam em questões sociais agora não receiam defender a direita, seja a extrema ou a alternativa. Tudo farinha do mesmo saco. Que vive do rancor dessas mesma classe média, pequeno burguesa que produz rock.

Poucas, raras, são as exceções. Existem, graças aos Deuses.

Farinha do mesmo saco


Strange days have found us
Strange days have tracked us down
They're going to destroy
Our casual joys
We shall go on playing or find a new town

-Strange Days, The Doors.

Diz um ditado que não se deve bater palma para maluco dançar.
Isso deve ser anterior às redes sociais terem se tornado um poder paralelo.

Elon Musk fala em “liberdade de expressão”, mas faz isso para garantir seu lucro. Afinal, ele mesmo censurou postagens no Twitter (atualmente chamado de X). Tal como Mark Zuckerberg, o importante é a audiência, receber “likes”, compartilhar, mesmo que se trate de fake news, de discurso de ódio.

Quem está deitando e rolando, feliz como pinto no lixo, é a direita, seja a extrema ou a alternativa.

A revista Exame publicou um texto de André Marsiglia onde ele defende o conceito de que a liberdade de expressão é absoluta.
O que é estranho, pois foi a “gente” dele que tentou censurar o livro “O Avesso da Pele”. A mesma gente que defende a ideia de “escola sem partido” e que fala do perigo da “ideologia de gênero”.

Trump, assim como Bolsonaro, tem usado e capitalizado o fundamentalismo cristão para seus propósitos políticos. Com direito a oferecer uma bíblia personalizada. Ora, se picareta, digo, pastor, pode lucrar com Google comércio da fé, Trump também pode.

Elisa Sanches é um caso curioso. Atriz pornô, dona de um perfil no Onlyfans, chegou a divulgar um vídeo dizendo que a COVID era uma jogada política, tal como Jair Bolsonaro, a quem ela admira e defende.

Mais enigmático é a postura de Jojo Toddynho.
Usou Anitta como escada, fez sucesso emplacando um sucesso aparentemente em defesa da comunidade LGBT. Mas suas atitudes recentes mostram que ela também está (ou sempre esteve) dando uma guinada à direita.

Se isso não for suficiente, eu vou indicar o caso do Marcos Santos. Brasileiro, negro, que foi eleito em Portugal pelo “Chega”, um partido de extrema direita, racista e xenófobo.

Por isso que é muito contraditório ver no GGN, um jornal supostamente progressista, publicar um texto de Daniel Afonso da Silva afirmando que “não existem – e quase nunca no passado existiu – ‘genocidas’, ‘fascistas’, ‘nazistas’ e afins caminhando pelas ruas, praças e vielas brasileiras.” Ele viu as notícias recentes? Não viu a manifestação fascista na Paulista?

Quem é de esquerda e quer um mundo melhor, uma sociedade mais justa e inclusiva, tem que parar de brincar e subestimar a direita.

domingo, 21 de abril de 2024

Os extremos se encontram

O parlamento da Alemanha, o Bundestag, aprovou a Lei da Autodeterminação de gênero, que altera a legislação em vigor que obrigava as pessoas trans, ao solicitarem a alteração do nome e sexo nos documentos, a enfrentarem um périplo violento onde tinham de passar por uma junta médica e "provar" que "pertenciam" à identidade de gênero requerida.

Com a nova legislação, mulheres e homens trans alemães não precisarão mais enfrentar a humilhação estatal de terem de provar o que são. A partir do dia 1º de novembro, as mudanças do nome e sexo poderão ser realizadas com um simples procedimento nos cartórios de registro civil do país.

De acordo com o texto da lei alemã, são contempladas pela nova legislação as pessoas transexuais, intersexuais e não binárias.

A lei aprovada permite que qualquer pessoa maior de idade possa demandar em um cartório a alteração. Os menores de idade poderão modificar o sexo com o consentimento dos responsáveis legais a partir dos 14 anos.

Além disso, a lei também enquadra pessoas e instituições que divulgarem o sexo anterior da pessoa sob pena de multa.

Extrema direita e esquerda radical juntos na transfobia

O debate no parlamento alemão sobre a nova legislação às pessoas trans produziu uma cena inusitada: a união da extrema direita, representada pelos fascistas do AfD com o BSW, liderado por Sahra Wagenknecht e fruto de um racha no Die Linke (A Esquerda).

Do AfD, ninguém espera nada por motivos óbvios, visto que o partido possui em seus quadros simpatizantes do nazismo. No entanto, as declarações da líder do BSW mostram que, para crescer entre o eleitorado alemão, a nova legenda tem aderido à agenda anti-trans, que se espalha como um vírus pela Europa.

Por meio de suas redes, Sahra Wagenknecht compartilhou o seu voto contra a Lei de Autodeterminação de Gênero e afirmou que o texto da legislação "é misógino e serve ao lobby farmacêutico", argumento comum entre os movimentos transfóbicos de esquerda e de direita.

"No futuro será mais fácil neste país decidir sobre o seu gênero do que o aquecimento ou a potência do seu próprio carro. A Lei de Autodeterminação é misógina e serve ao lobby farmacêutico", declarou Sahra, uma figura com espaço na imprensa alemã e classificada como uma "populista de esquerda".

A Lei de Autodeterminação, apesar do esforço da extrema direita e da esquerda radical para derrubá-la, foi aprovada por 374 votos a 251 na última sexta-feira (12) com votos dos partidos da base do chanceler da Alemanha, Olaf Scholz: Partido Social-Democrata (SPD), Partido Liberal Democrático (FDP), Os Verdes e A Esquerda.

Além do AfD (extrema direita) e BSW (esquerda radical), votaram contra a União Democrata Cristã (CDU) e a União Social Cristã (CSU).

Fonte: https://revistaforum.com.br/lgbt/2024/4/16/extrema-direita-esquerda-radical-se-unem-na-alemanha-contra-os-direitos-trans-157397.html

Nota: em teoria política, existe uma tese que diz que os extremos se aproximam, é a chamada teoria da ferradura.

Dawkins, um cristão cultural

Autor: John Beckett.

Como deve ser abraçar pessoas que pensam que você é um tolo só porque odeiam as mesmas pessoas que você odeia?

Não, não estou falando dos eleitores evangélicos de Trump. Estou falando do lendário Novo Ateu Richard Dawkins, que se autodenomina um “cristão cultural”. Aqui está uma citação de uma entrevista recente :

"Adoro hinos e canções de Natal e sinto-me em casa no ethos cristão, e sinto que nós [Grã-Bretanha] somos um país cristão nesse sentido… Eu me considero um cristão cultural e acho que seria verdadeiramente terrível se nós substituiu qualquer religião alternativa."

O que está por trás desse amor repentino pelo Cristianismo?

"Se eu tivesse que escolher entre o Cristianismo e o Islã, escolheria o Cristianismo todas as vezes. Parece-me ser uma religião fundamentalmente decente, de uma forma que penso que o Islão não é."

Dawkins também é anti-trans. Em 2021, a Associação Humanista Americana retirou o prémio Humanista do Ano por “fazer declarações que usam o disfarce do discurso científico para humilhar grupos marginalizados… A sua última declaração implica que as identidades dos indivíduos transexuais são fraudulentas, ao mesmo tempo que ataca simultaneamente a identidade negra como uma isso pode ser assumido quando for conveniente.”

Li dois livros de Dawkins. Seu livro de 2009, The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution, é excelente. Seu livro de 2006, The God Delusion, não é. Dawkins define “Deus” e “religião” de forma muito restrita, usando definições tiradas diretamente dos monoteístas conservadores. Também não gosto do fundamentalismo , mas a religião – seja cristã, pagã ou qualquer outra – é muito mais do que o conjunto de proposições sobrenaturais que você afirma e quais você rejeita.

Mas Richard Dawkins parece ter finalmente encontrado uma utilidade para o cristianismo: atacar muçulmanos e pessoas trans.

Richard Dawkins é uma pessoa muito inteligente. Mas a inteligência nem sempre leva à sabedoria.

O tipo de cristão que apoia a cultura preferida de Dawkins não o está acolhendo exatamente.

Carmel Richardson, escrevendo para The American Conservative , diz que 'Cristianismo Cultural' de Richard Dawkins é mingau fino . Ela diz que “tendo perseguido ativamente a igreja, Dawkins acha que está triste por vê-la desaparecer. Não podemos fingir que a culpa é de alguém, a não ser dele mesmo e dos seus compatriotas que fizeram cruzadas contra a religião como a raiz de todos os males sociais.”

Russell Moore é o editor do Christianity Today e foi expulso da Convenção Batista do Sul por se opor a Donald Trump. Ele escreveu O Novo Ateísmo Finalmente Aprende Como Destruir o Cristianismo , dizendo que “o desejo de fazer da religião a maneira de provar a identidade cultural de alguém contra 'estranhos' sempre encontrará um público ávido” e “se o evangelho não é real, o evangelho não' não funciona. O paganismo genuíno vencerá sempre o falso cristianismo.”

Uma rápida pesquisa no Google revela muitas dessas críticas. Não consigo encontrar um único site cristão acolhendo Dawkins, ou mesmo reagindo positivamente.

O conceito de que religião tem tudo a ver com aquilo em que você acredita é uma ideia moderna, ocidental e protestante. Para a maioria das pessoas, na maioria dos lugares ao longo da maior parte da história, a religião era e é sobre o que você faz, quem você é e de quem você é. A religião tem a ver com identidade e relacionamentos.

Richard Dawkins não gosta de ver celebrações públicas do Ramadã. A mera existência de pessoas trans ofende as suas ideias míopes sobre o determinismo biológico. Ele tem algumas lembranças nostálgicas de sua infância anglicana. Ele nunca vai mudar de ideia sobre a existência do Deus cristão, mas está disposto a se identificar como cristão para tentar voltar no tempo até a década de 1950.

Não vai funcionar.

E por “acreditar” não me refiro àqueles que afirmam as proposições sobrenaturais de uma religião. Refiro-me àqueles que “acreditam” na religião no sentido de que acreditam que as suas histórias e tradições sagradas são suficientemente importantes para serem mantidas.

São essas pessoas que contam as histórias e conduzem os rituais. Aqueles que praticam as tradições dia após dia. Aqueles que cuidam dos santuários, mantêm os altares e limpam as capelas. Aqueles que fazem o que fazem não por medo do inferno ou pela esperança do céu, mas porque faz parte de quem eles são e não podem deixar de fazê-lo.

A cultura é uma grande parte da sua religião, mas eles não são cristãos culturais (ou pagãos, budistas ou qualquer outra coisa). A religião não é algo em que pensem quando a veem em exibição pública – ou quando ficam zangados porque uma religião concorrente está em exibição pública. É algo que eles pensam, vivem e respiram o tempo todo.

Alguns deles são teístas e até místicos. Alguns estão ocupados demais aqui e agora para se preocuparem com coisas que ninguém pode provar ou refutar. De qualquer forma, quando eles dizem que acenderão uma vela para você, não são apenas “ pensamentos e orações ”.

Essas pessoas são uma pequena parte de qualquer religião, cristã ou não. Mas são eles que mantêm a igreja funcionando durante todo o ano para que os cristãos culturais tenham um lugar para ir no Natal e na Páscoa – ou apenas um lugar para realizar o seu casamento e o seu funeral.

Nem todo mundo que mantém sua religião em movimento tem boas intenções.

Dawkins não está errado ao temer o tipo de Islão que vemos no Irão e no Afeganistão, embora não reconheça que a maioria dos muçulmanos também não quer viver assim. Neste país, temos Nacionalistas Cristãos a tentar desfazer o progresso social do século passado. Estas pessoas são zelosas em relação à sua religião e em usar o poder do governo para forçar todos a viver de acordo com as suas regras.

Eles são determinados e persistentes. Eles trabalharam durante 50 anos para derrubar Roe v. Wade , e agora que conseguiram, não param por aí. Eles querem uma proibição do aborto em todo o país, e depois vêm atrás do casamento entre pessoas do mesmo sexo e do controle da natalidade. Alguns ficariam satisfeitos em forçar as pessoas LGBTQ a voltarem ao armário, enquanto outros querem desfazer Lawrence v. Texas e criminalizar as relações entre pessoas do mesmo sexo.

Eles não podem ser negociados. Eles só podem ser derrotados nas urnas, eleição após eleição após eleição, até que a cultura dominante mude para sempre.

Então, o que tudo isso significa para nós, como pagãos… além de balançar a cabeça diante da ironia de Richard Dawkins se autodenominar cristão? Eu vejo quatro coisas.

Não tente se aliar a pessoas que pensam que você é mau. Você pode trabalhar com qualquer pessoa que não esteja tentando prejudicar você e os seus, se necessário, mas não se invista naqueles que não o aceitam como e como você é.

A atração da nostalgia é forte. Não há problema em apreciar as coisas boas do seu passado, mas certifique-se de que sua vida continue avançando, não retrocedendo.

Não tema a mudança. Está chegando, quer você goste ou não.

O movimento pagão precisa de mais crentes. Novamente, não são pessoas que afirmam proposições sobrenaturais, são pessoas que acreditam em conceitos, tradições e práticas pagãs profundamente o suficiente para torná-los uma parte essencial de suas vidas.

...os seus escritos sobre religião são superficiais e fracos, e a sua identificação como um “cristão cultural” flui dessa fraqueza. Se ele está feliz com isso, estou feliz por ele – o paganismo não é uma religião de proselitismo.

Fonte, citado parcialmente: https://www.patheos.com/blogs/johnbeckett/2024/04/richard-dawkins-calls-himself-a-cultural-christian.html

Nota: existe uma página cristã que posicionou-se positivamente em relação à Dawkins e sua transfobia. Breackpoint, do John Stonestreet. Paulo costuma dar ouvidos ao que Dawkins e Harris falam, sem dúvidas ou críticas. Uma pena, mas tem ateu que tem um comportamento fundamentalista.

sábado, 20 de abril de 2024

Fórum Permanente de Afrodescendentes III

Pela terceira vez, Criola marcará presença no Fórum Permanente destacando a urgência de ações de enfrentamento ao racismo patriarcal cisheteronormativo para combater as crescentes violações sofridas por meninas e mulheres negras cis e trans.

A terceira sessão do Fórum Permanente de Afrodescendentes será realizada em Genebra, na Suíça, entre os dias 16 e 19 de abril de 2024. O órgão foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 2021 e conta com 10 membros que trabalham juntamente com o Conselho de Direitos Humanos, em Genebra. O espaço funciona como um mecanismo consultivo para pessoas afrodescendentes e partes interessadas, e tem como objetivo contribuir para a inclusão política, econômica e social da população afrodescendente em todo o mundo. O Fórum Permanente também tem como missão discutir a elaboração de uma Declaração das Nações Unidas sobre a promoção, proteção e respeito pleno aos direitos humanos das pessoas afrodescendentes.  

Nesta terceira sessão, o Fórum vai contar com quatro painéis temáticos de discussão:

Reparações, Desenvolvimento Sustentável e Justiça Econômica 
Educação: Superando o Racismo Sistêmicos e os Danos Históricos 
Cultura e Reconhecimento 
A Segunda Década Internacional de Afrodescendentes: Expectativas e Desafios

Participação ativa e constante de Criola no Fórum Permanente de Afrodescendentes.

Criola compôs a delegação brasileira presente na primeira sessão do fórum, ocorrida em dezembro de 2022. Na ocasião, denunciou a situação de direitos da população afrodescendente no Brasil, em especial, das mulheres negras cis e trans. Em 2023, Criola também marcou presença na II Sessão do Fórum, realizada na sede da ONU em Nova Iorque, entre 30 de maio e 02 de junho de 2023. Durante sua participação, exigiu urgência:

Para a reversão do quadro de perda de direitos sexuais e reprodutivos, com especial ênfase ao direito ao aborto; 
Para a responsabilização dos governos no cumprimento das medidas, legislações, políticas e acordos contra o racismo, com destaque para o Plano de Ação e da Declaração de Durban e para as definições do Comitê sobre Eliminação da Discriminação Racial (CERD); 
Para o enfrentamento do racismo institucional no sistema de justiça.

Representadas por Lúcia Xavier, a coordenadora geral de Criola destacou em sua fala na II Sessão do Fórum Permanente de Afrodescendentes das Nações Unidas que nós, meninas e mulheres negras:

“Vivemos a violência como se fosse um problema nosso, sem que homens negros, brancos, Estados e sociedade tomem a temática como fundamental para o desenvolvimento, para a evolução dos direitos, mas, sobretudo, para a garantia da nossa própria existência. Também é necessário lutar por justiça reparativa das práticas implementadas pelo Estado em toda a nossa região. Nosso primeiro violador são os nossos Estados e depois eles seguem imaginando que suas propostas e suas políticas são suficientes para nos deixar vivos, mas nem isso tem sido alcançado”. 

III Sessão do Fórum Permanente: discutindo a Segunda Década Internacional para os Afrodescendentes.

“A Segunda Década Internacional para os Afrodescendentes: Combate ao Racismo Sistêmico, Justiça Reparadora e Desenvolvimento Sustentável” é o tema a ser debatido pela terceira sessão do Fórum Permanente. A Década Internacional dos Afrodescendentes foi proclamada em 2013, compreendendo o período 2015-2024, com o slogan: “Povos de Afrodescendência: Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento”. A ideia é que o Fórum deste ano seja um espaço de discussão e reflexão sobre as conquistas e deficiências dessa iniciativa, bem como promova recomendações sobre ações estratégicas a serem tomadas nos próximos 10 anos.

Mais uma vez, Criola ocupará o espaço de incidência política internacional, promovendo o debate e denunciando a situação de vulnerabilidade impostas pelo racismo patriarcal cisheteronormativo contra meninas e mulheres negras cis e trans no Brasil; traçando ações reais de combate às opressões causadas pelo racismo e cobrando o cumprimento dos acordos já estabelecidos em prol da equidade racial.

Fonte: https://criola.org.br/criola-presente-na-terceira-sessao-do-forum-permanente-de-afrodescendentes/#:~:text=A%20terceira%20sess%C3%A3o%20do%20F%C3%B3rum,de%20Direitos%20Humanos%2C%20em%20Genebra.

Povo do Bode

Demorou dias para que Steven Posch voltasse a escrever no Pagan Square.
Esse texto tem como título "People of the Goat".

Em inglês, goat é um sinônimo comum de dois gêneros, então serve para masculino e feminino. Em português, o nome do animal tem separação. Bode, masculino, cabra, feminino.

Por escolha, opção e risco meu, eu traduzido goat como bode. Para lembrar que o Mestre do Sabá, nosso Deus, manifesta-se na forma de um animal de chifres. Touro, bisão, cervo e bode.

Vamos seguir com a tradução.

Once we dwelt in the fertile plains. Beef was our food, the milk of cows our drink.

Era uma vez quando morávamos nas planícies férteis. A carne era nosso alimento, o leite de vaca nossa bebida.

Then we were driven out.

Depois fomos expulsos.

Into the rocky, unfertile hills we fled, which cannot sustain a cow.

We became a people of the goat, for whom the Horned wears caprine horns and hide.

Fugimos para as colinas rochosas e inférteis, que não podem sustentar uma vaca.

Nos tornamos um povo do bode, para quem o Chifrudo usa chifres de caprino e se esconde.

Like goats, we witches are survivors.

Como cabras, nós, bruxas (bruxos), somos sobreviventes.

That's why it can't help but seem to me something of a moral failing that I don't like goat's milk.

Oh, I've tried. “This chèvre has a nice, lemony tang to it,” I say hopefully.

But in my heart, I understand that it's really myself that I'm trying to talk around.

É por isso que não posso deixar de me parecer uma espécie de falha moral não gostar de leite de cabra.

Ah, eu tentei. “Este chèvre tem um sabor agradável de limão”, digo esperançosamente.

Mas no meu coração, eu entendo que sou eu mesmo quem estou tentando conversar.

Maybe it's just a matter of what I'm used to.

Maybe I'm secretly longing for those fat days of our onetime freedom.

Well, I'll drink my cow's milk, and be glad of it, best of foods.

But even here in the fertile plains, we do not forget.

Talvez seja apenas uma questão do que estou acostumado.

Talvez eu esteja secretamente desejando aqueles dias gordos de nossa antiga liberdade.

Bem, vou beber meu leite de vaca e ficar feliz com isso, o melhor dos alimentos.

Mas mesmo aqui, nas planícies férteis, não esquecemos.

Black Goat of the Sabbat,

seated on the altar:

to you, to you, my Buck,

I make my prayer.

Bode Negro do Sabá,

sentado no altar:

para você, para você, meu Senhor,

Faço minha oração.

Nota: buck é similar a deer, embora seja um sinônimo masculino. Então o "buck" é um cervo adulto que é líder de uma manada. Deve ser um escândalo a muitos pagãos modernos lembrar que a dieta de nossos ancestrais incluía carne e leite 😏🤭.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sobre as virtudes da oração

«O contínuo exercício da oração fortalece o vigor do nosso intelecto e torna os receptáculos da alma muito mais capazes para as comunicações dos Deuses. É igualmente a chave divina, que abre aos homens a penetralia dos Deuses; acostuma-nos aos esplêndidos rios de luz celestial; em pouco tempo aperfeiçoa os nossos recantos mais íntimos e dispõe-nos para o inefável abraço e contacto dos Deuses; e não desiste até que nos eleve ao cume de todos. Também eleva gradual e silenciosamente as maneiras da nossa alma, despojando-a de tudo o que é estranho à natureza divina, e reveste-nos com as perfeições dos Deuses. Além disso, produz uma comunhão e amizade indissolúvel com a Divindade, nutre um amor divino e inflama a parte divina da alma. Tudo o que é de natureza oposta e contrária na alma, a oração expia e purifica; expulsa tudo o que é propenso à geração e mal retém qualquer resíduo da mortalidade no seu espírito etéreo e esplêndido; aperfeiçoa uma boa esperança e fé em relação à recepção da luz divina; e, numa palavra, torna aqueles por quem é empregado os familiares e domésticos dos Deuses.»

«Sobre os Mistérios» («De Mysteriis»), pelo neo-platónico assírio Jâmblico (245 - 325), aqui traduzido pelo inglês Thomas Taylor (1758 - 1835).
 
Fonte: https://gladio.blogspot.com/2024/04/sobre-as-virtudes-da-oracao.html

Nota: de vez em quando Caturo pública algo útil e notável.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Edir quer liberar homofobia

O bispo Edir Macedo, dono da Record e da Igreja Universal do Reino de Deus, apresentou um recurso contra a decisão da Justiça Federal de remover um vídeo no qual ele faz declarações homofóbicas relacionando a sexualidade com a criminalidade.

No vídeo, veiculado na véspera do Natal de 2022, Macedo afirma que “ninguém nasce ladrão, ninguém nasce bandido, ninguém nasce homossexual, lésbica… ninguém nasce mau. Todo mundo nasce perfeito com a sua inocência, porém o mundo faz das pessoas aquilo que elas são quando elas aderem ao mundo”.

Em novembro de 2023, a Justiça Federal determinou que a Record fizesse a retirada imediata, de todos os meios de comunicação, de programa veiculado. A decisão foi tomada em uma ação civil pública protocolada por entidades que atuam na defesa dos direitos da população LGBT+ contra ofensivas proferidas pelo dono da emissora, Edir Macedo.

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/edir-macedo-quer-reverter-veto-a-exibicao-de-video-homofobico-ninguem-nasce-gay/

Adendo: a comunidade evangélica deve gostar de passar vergonha em público.
Foi divulgado um vídeo onde, em um evento na Suinobrás, foi concedido uma unção no tornozelo ao Inominável.
Reportagem: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/video-evangelicos-oram-e-passam-uncao-no-local-onde-bolsonaro-pora-tornozeleira/

Houston, temos um problema

No Patheos, na seção Catholic, na coluna A Little Bit of Nothing, Henry Karlson mostra uma ideia perturbadora.

Citando:

“A Vitória Do Amor Na Cruz”

Isso é muito perturbador. Onde pode ser visto o amor em uma imagem de alguém pregado na cruz?
Segundo a doutrina cristã, Yahweh enviou o próprio filho para nos salvar. Essa seria a “demonstração de amor”. Como eu devo ter escrito em algum lugar, um Deus que envia o próprio filho para ser sacrificado, imagine o que faria contra nós?

Sigamos. Citando:

“O Deus-homem , Jesus Cristo, experimentou um ódio assassino contra si mesmo durante toda a sua vida (como pode ser visto pela maneira como Herodes queria que o menino Jesus fosse morto).”

Na doutrina cristã, Jesus é Deus, mas essa questão sobre a pessoa de Jesus foi motivo de controvérsias, polêmicas e guerras entre os cristãos. A lenda da Matança dos Inocentes por Herodes não tem sustentação histórica.

Citando:

“Jesus amou o mundo e todos os que nele vivem, mesmo que aqueles que nele habitam, especialmente os que estão presos às estruturas sistêmicas e sistemáticas do pecado , tenham procurado extingui-lo.”

Não é bem assim. Vários trechos dos Evangelhos mostra Jesus demonstrando desprezo pelos fariseus e agiu com violência contra os mercadores. Um trecho diz claramente que ele veio trazer a espada, não a paz e que causaria guerra entre as pessoas.

Citando:

“Jesus voluntariamente assumiu todo o sofrimento, toda a dor, todo o mal que o pecado poderia e iria causar-lhe.”

Não é bem assim. A missão de Jesus, como Cristo, foi definida pelos Profetas. Jesus estava predestinado ao sacrifício. Em uma cena descrita nos Evangelhos, talvez em um momento de fraqueza ou instinto de sobrevivência, Jesus peticionou ao seu “Pai” que o livrasse desse destino.

Citando:

“Ele veio ao mundo para mostrar o amor de Deus, para revelar o caminho do amor, para mostrar que tal amor é maior que o poder do pecado.”

Considerando a história do Cristianismo, tanta violência, ódio e guerra, cabe aqui uma frase dita por LaVey - o único cristão morreu na cruz.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

O cálice e a adaga

Recapitulando.

Patheos foi adquirido por um grupo associado ao NRA, ao conservadorismo e ao fundamentalismo cristão.
Muitos colunistas pagãos e ateus saíram do Patheos. Os ateus criaram o OnlySky, que também fechou as portas. Eu não vi algo parecido entre os pagãos. Alguns permanecem no Patheos, o Pagan Square deixou de ser interessante e restou o Wild Hunt.

Erick Dupree, depois de sair do Patheos, foi vender seu monoteísmo diânico no Wild Hunt.
Ele começa errado no título do artigo.

“Tudo começou no amor.”

Amor é um sentimento e uma palavra. Nós falamos muito, mas praticamos pouco.

Continuando.

“Em seu livro inovador The Spiral Dance , Starhawk conta a história da Deusa Estelar, que, sozinha, incrível e completa dentro de si, viu seu reflexo no vasto abismo e se apaixonou por si mesma. Foi a partir desse amor que ela criou toda a existência. Do amor nasceu a humanidade e do seu amor tudo começou.”

Amar o seu reflexo é narcisismo, não é amor.
Contradição evidente. Sendo essa Deusa pré existente, então não começou com o amor.
Eu, como diletante do amor e aluno de pensadores melhores do que eu, posso dizer que não existe amor sem que exista o oposto, mas não antagônico.
A teologia diânica não se sustenta. Que reflexo o abismo pode produzir? Não é o abismo parte dessa mesma Deusa solitária? Não é o reflexo uma imagem, uma parte, dela mesma? Amar a si mesmo é egoísmo. Sem a existência do outro, do diferente, do oposto, nada pode ser criado ou gerado.

Continuando.

“Remove-se um “Deus” onipresente e uma práxis de pecado, redenção e perdão, e os substitui pela permissão para encontrar significado em um amor generativo, sem gênero e abrangente.”

Não existe diferença entre um Deus e uma Deusa onipresente. Onde tem algo absoluto, reina a tirania, a ditadura. Fica evidente que o conceito de Deus de Erick é o mesmo do cristão, o mesmo das religiões abraâmicas. Pior, ele cometeu o mesmo erro de confundir sexo com gênero.

Eu devo lembrar que o Deus Cristão não é o nosso Deus. Nós não podemos nem iremos fechar essas feridas transformando a Deusa em uma inversão travestida do Deus Cristão.

A Deusa é o Ventre e o Túmulo, Ela é o Campo para ser arado. O Deus é a Lança e o Arado, ele é o Semeador. Sem o Hiero Gamos, não existiria o universo, a vida e a humanidade.

Esta é uma falha das chamadas “religiões da Deusa”, sobretudo de suas vertentes mais feministas ao ponto de serem misândricas. A Deusa é incapaz de dar, receber, inspirar amor se negamos a Ela sua sexualidade, sua sensualidade, sua feminilidade. Ao omitir, negar e diminuir a importância do Deus, ao tornar a Deusa uma Santa Ameba, nós estamos negando a sacralidade do desejo, do prazer, do corpo, do sexo e do amor. Ao negar que a Deusa precisa de um Consorte nós tornamos o sagrado feminino mais uma triste imitação do ascetismo cristão. Como pode haver amor?

Se a Deusa é antiga e amplamente presente em diversas culturas, o Deus também o é. Na antiguidade, havia sociedades matriarcais, patriarcais, sedentárias, nômades, caçadoras-coletoras, agrário-pecuaristas. Culturas diferentes, crenças diferentes, Deuses diferentes. Assim como a Deusa-Mãe, a Deusa-Serpente, a Deusa Terra, é uma constante, o Deus Pai, o Deus Touro, o Deus Céu é igualmente constante, portanto são contemporâneos.

A união do Deus com a Deusa era tão importante que sobreviveu ao aculturamento cristão até os dias de hoje, custa entender porque exatamente no Paganismo Moderno, queiram fazer o mesmo que as religiões abraâmicas fizeram, divorciando o Deus da Deusa. Nós sofremos com as consequências desse divórcio.

Sem a Deusa, o Deus se torna violento, ciumento, vingativo.

Sem o Deus, a Deusa se torna frígida, histérica, rancorosa.

Sem o Deus, quem irá arar a terra? Sem o Deus, quem irá semear a semente? Sem o Deus, quem irá ceifar o trigo? Sem o Deus, quem irá nos conduzir para dentro do ventre da terra? Sem o Deus, quem irá colocar o cetro no trono? Sem o Deus, a Deusa não pode ser coroada e o trono fica vazio.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Filósofas da antiguidade

Autora: Margarita Rodrigues.

Primeiro, vêm a beleza, a atração física e o desejo sexual. E, se tudo for além das aparências, talvez você se encontre subindo a Escada de Diotima.

Sabemos sobre ela graças a Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.). Em uma obra de Platão (428/427 a.C. - 348/347 a.C.), ele recorda as lições que aprendeu daquela mulher "muito sábia".

Em um vídeo de animação da BBC, o filósofo britânico Nigel Warburton explica o que é a fascinante escada.

Segundo Sócrates, Diotima dizia que "o desejo pelo corpo" de uma pessoa que consideramos bonita é "apenas o primeiro degrau de uma escada" que nos leva a valorizar "a forma da beleza".

Ele é um meio para o "fim superior" de apreciar a ideia abstrata da beleza, segundo Warburton.

Diotima acreditava que "para aprender sobre a beleza, é preciso reconhecer, em primeiro lugar, a beleza física do amante desejado". E, se você for racional, irá também admirar a beleza física de outras pessoas.

Subimos então ao degrau seguinte, para "observar a beleza que fica além das aparências, a beleza da sabedoria e do conhecimento, a beleza de mentes belas, mesmo aquelas que residem em corpos que não são particularmente bonitos".

O último degrau é conseguir "reconhecer a forma da própria beleza, a noção abstrata, pura, geral da beleza". Nela, também estão presentes as "qualidades morais da bondade".

Desta forma, Diotima acreditava que, se você ficar encantado com o físico de uma pessoa, você estará subindo o primeiro degrau de uma escada que pode levar você "a apreciar, de forma mais intelectual, a beleza universal".

Diotima é uma dentre quatro figuras femininas de destaque na filosofia grega que merecem ser apresentadas.

Diotima e o amor

Mariana Gardella é doutora em filosofia e professora da Universidade de Buenos Aires, na Argentina. Ela é a autora do livro Las Griegas: Poetas, Oradoras y Filósofas ("As gregas: poetas, oradoras e filósofas", em tradução livre).

"É verdade que existem poucas evidências sobre as filósofas gregas, mas isso não costuma ser impeditivo quando estudamos certos filósofos gregos sobre os quais também não temos muitas informações", explicou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Para ela, "sempre se lança um manto de dúvida sobre as filósofas que, às vezes, acaba sendo um pouco excessivo – e os estudiosos observam os testemunhos com profundo ceticismo".

Seu livro abordou o tema do ponto de vista contrário: acreditar um pouco mais nos poucos testemunhos e fontes existentes. Mas ela adverte que Diotima é uma figura complicada: "existem muitas dúvidas se ela realmente existiu".

A obra de Platão na qual Sócrates apresentou os ensinamentos de Diotima é O Banquete. O texto em que ela aparece como personagem é dedicado ao eros, ao amor.

"E, na vez de Sócrates falar sobre o amor, ele diz que irá mencionar o discurso que ouviu de Diotima, que é especialista em assuntos eróticos", prossegue a professora.

"Sócrates também afirma que ela é sacerdotisa da cidade de Mantineia e, além de conhecer os assuntos do desejo e ter sido sua professora, ela ofereceu sacrifícios aos deuses para retardar a chegada de uma peste."

De fato, na obra de Platão, Sócrates afirma: "Tudo o que sei sobre o amor, devo a ela."

Em um trecho do diálogo entre ambos, Diotima faz uma pergunta sobre o amor e Sócrates responde que, se ele soubesse a resposta, "não admiraria sua sabedoria, nem procuraria você para aprender essas verdades".

Mas voltemos às dúvidas. Martini Fisher é historiadora e escritora australiana, autora do artigo Diotima and the Philosophy of Love ("Diotima e a filosofia do amor", em tradução livre).

No artigo, ela defende que os eruditos da Alta Idade Média e da Antiguidade nunca questionaram a existência de Diotima, que teria vivido no século 5 a.C.

"Os primeiros textos sobre Diotima também demonstram que ela era respeitada por suas habilidades e sua posição na sociedade", explica Fisher. "Por exemplo, a comédia O Eunuco, de Luciano, escrita no século 2 d.C., começa mencionando Diotima, Targélia e Aspásia, como prova de que houve mulheres filósofas."

Em um livro emblemático sobre o tema, Historia Mulierium Philosopharum ("A história das mulheres filósofas", em tradução livre), de 1690, Giles Ménage também não coloca em dúvida a existência de Diotima.

Mas pesquisadores posteriores, como o filósofo americano Allan Bloom (1930-1992), acreditam que Diotima não tenha existido. Chegou-se a cogitar a possibilidade de que ela fosse o reflexo de outras mulheres da época.

A filósofa Zoi Aliozi, mencionada pelo escritor britânico Will Buckingham, afirma que, seja ela "fictícia ou não, sua vez teve poderosa influência nos argumentos de Sócrates e, portanto, na história da filosofia como a conhecemos".

Por outro lado, o Museu do Brooklyn, nos Estados Unidos, destaca, em um breve texto sobre Diotima, que "em O Banquete, praticamente se atribui a ela a invenção do método socrático de perguntas e respostas".

"Contrariando os argumentos de que Diotima seria uma criação literária que serviu de porta-voz a Platão, acadêmicas feministas observaram, nas suas palavras, uma visão 'feminina' de uma ética do cuidado que a diferencia dos seus contemporâneos masculinos", conclui o texto do museu.

Mas, para Gardella, o importante é "dar a ela o devido valor".

"Não se sabe ao certo se as coisas foram assim, mas este não pode ser um impedimento para que se faça um esforço de contar uma nova versão da história da filosofia, diferente da canônica, incluindo as vozes dessas mulheres, reais e de historicidade duvidosa, que nos permitem entender como elas eram observadas e representadas."

Temistocleia, professora de Pitágoras
No século 6 a.C., surgiu uma figura que temos certeza de que existiu.

O importante historiador grego Diógenes Laércio (180-240) nos conta sobre Temistocleia, embora o filósofo Porfírio (c. 234 - 304/309), no livro A Vida de Pitágoras, refira-se a ela como Aristocleia.

Seja qual for o seu nome, o fato é que os dois escritores destacam que ela foi professora de Pitágoras (571/570 a.C. - 500/490 a.C.) e ensinou a ele as doutrinas éticas.

Acredita-se que ela tenha sido sacerdotisa, ligada ao culto do deus Apolo.

"A biografia de Pitágoras é enriquecida pela presença de muitas filósofas", explica Gardella. "Temistocleia é sua professora, Teano é sua esposa ou discípula e ele tem três filhas filósofas: Myia, Damo e Arignote."

De fato, Pitágoras foi o primeiro filósofo a aceitar mulheres discípulas. Ele chegou a ser chamado de feminista.

Há quem acredite que a influência de Temistocleia sobre Pitágoras tenha sido um dos motivos que levaram o matemático a permitir professoras na sua escola.

"As mulheres não são incorporadas aos grupos pitagóricos como esposas, mas como filósofas", segundo Gardella. "Elas aprendem as doutrinas de Pitágoras e as ensinam, elas transmitem esse conhecimento. Este é o caso típico de Temistocleia."

Hipárquia, a cínica
A jovem Hipárquia (c. 350 a.C. - c. 280 a.C.) pertencia a uma família aristocrática. Ela tinha muitos pretendentes ricos, nobres e belos, mas recusou a todos.

Ela havia se apaixonado perdidamente por um homem mais velho, o filósofo Crates de Tebas (c.365 a.C. - c.285 a.C.). E disse aos seus pais que, se não a deixassem se casar com ele, ela colocaria fim à própria vida.

"Seus pais pedem a Crates que a convença a não se casar com ele", conta a pesquisadora.

Ele tentou atender ao pedido de diversas formas, até que, um dia, "ele tira a roupa em frente a ela e diz: 'este é o noivo e estes são meus bens. Se você quiser viver comigo, precisa viver como eu vivo.'"

Era o século 4 a.C. e Crates era cínico, discípulo de Diógenes de Sinope (412 a.C. - 323 a.C.), também conhecido como Diógenes, o Cínico – ou "o Cão". E Hipárquia renunciou a todas as suas riquezas e comodidades para se casar com ele.

"O matrimônio é mencionado nas fontes e é chamado de 'casamento de cães'", prossegue Gardella. "O cão é um símbolo muito importante para o cinismo porque os cínicos se propunham a viver como cães."

"Cínico", em grego, significa "canino", que se comporta como um cão.

"A ideia era viver com simplicidade, com o mínimo possível, de forma independente, libertar-se do material, voltar para a natureza, sem ter vergonha", explica a professora. "Um dos principais objetivos dos cínicos era questionar as normas e valores socioculturais que nos tornam escravos."

Essa independência não se referia apenas ao material, mas aos desejos, como o desejo da honra, de ocupar cargos políticos e de ter prestígio.

Diferentemente de muitas mulheres da sua época, Hipárquia não ficou dentro de casa. Ela se dedicou a viver como cínica.

"As mulheres na Grécia costumavam se vestir com uma túnica e um manto, o que deixava entrever muito pouco do corpo", segundo Gardella.

"Mas Hipárquia usava o mesmo que todos os cínicos, apenas um manto duplo, sem túnica. Ela ficava seminua, como Crates, o que era muito escandaloso."

Em uma ocasião, Hipárquia entrou em um banquete, um espaço tradicionalmente destinado à socialização dos homens. Embora houvesse mulheres no local, elas se dedicavam à dança e à música.

Nessa reunião, Hipárquia teve uma discussão com o filósofo cirenaico Teodoro, o Ateu (340 a.C. - 250 a.C.). Ela apresentou a ele um sofisma, como conta o historiador Diógenes Laércio:

"O que não puder ser considerado 'prática de injustiça', quando feito por Teodoro, também não seria chamado de 'prática de injustiça', se o fizesse Hipárquia. Quando Teodoro bate em si próprio, não comete uma injustiça; então, Hipárquia também não cometerá injustiça se bater em Teodoro."

O filósofo não respondeu. Ele preferiu levantar o manto e revelar seu corpo nu, o que não a perturbou.

"Esta é 'a que deixou a lançadeira junto ao tear'?", perguntou Teodoro, em referência ao papel tradicional de tecer, exercido por muitas mulheres.

"Sou eu, Teodoro", respondeu Hipárquia. "Você acha que tomei uma decisão errada ao usar para minha educação o tempo que iria perder no tear?"

Gardella defende que este testemunho é importante porque "é a primeira reivindicação pela educação das mulheres na boca de Hipárquia: não vou perder meu tempo tecendo, não fiz mal em abandonar o tear, vou me dedicar à minha educação."

Hipárquia escreveu várias obras, mas só chegaram até nós os títulos, como Hipóteses Filosóficas e Perguntas para Teodoro.

Ela viveu no período helenístico, quando as mulheres tinham mais acesso à educação. Por isso, não estranha que ela soubesse escrever, segundo a professora.

"Diógenes elogia a grande cultura filosófica e a elegância de raciocínio de Hipárquia, comparando-a a Platão", destacam Giulio de Martino e Marina Bruzzese, no livro Las Filósofas: Las Mujeres Protagonistas en la Historia del Pensamiento ("As filósofas: as mulheres protagonistas na história do pensamento", em tradução livre).

Aretê e o hedonismo

Também no século 4 a.C., encontramos uma filósofa chamada Aretê, filha de Aristipo de Cirene (435 a.C. - 356 a.C.), discípulo direto de Sócrates e fundador da escola cirenaica.

"Trata-se de uma escola hedonista que defende que o propósito da ação não é alcançar a felicidade, como propunham muitos filósofos gregos, mas conseguir o prazer", explica Mariana Gardella.

"Existem testemunhos de que Aretê assumiu a escola fundada pelo pai, escreveu uma grande quantidade de obras e foi professora de muitos discípulos."

"Aretê desempenha um papel muito importante na transmissão das doutrinas cirenaicas de geração em geração", destaca a professora, "mas não temos nenhum testemunho que transcreva palavras que ela tenha dito, nem trechos dos seus tratados."

Os cirenaicos acreditavam que nossas ações precisam levar a conseguir o prazer e evitar a dor.

"Mas não se trata de satisfazer qualquer tipo de prazer, nem de ir atrás de qualquer prazer, mas, sim, poder fazê-lo com certa medida, para que essa busca não nos destrua", segundo Gardella.

"Aretê tinha legitimidade entre os cirenaicos e era reconhecida por todos, não só por ser filha e discípula de Aristipo, mas por ser líder da escola e professora de outros cirenaicos."

"E um dado curioso é que não existem testemunhos de outras mulheres cirenaicas. Aretê é a única filósofa cirenaica de que temos conhecimento."

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72042n9g15o.amp