quinta-feira, 2 de abril de 2026

O Canto da Primeira Noite

"Eles falam de Noé como o 'Justo', o pilar que sustenta a terra. Dizem que ele é a cópia fiel do modelo superior porque se fechou em uma caixa de madeira para escapar da fúria das águas. Eles chamam isso de santidade. Eu chamo de medo.

O Zohar diz que o Rio que sai do Éden traz descanso e produz frutos apenas para aqueles que guardam a Aliança — aquela marca na carne que tenta domesticar o desejo. Eles celebram José porque ele fugiu do toque e da paixão, chamando-o de Tzadik. Mas onde está a vida no que é contido? Onde está a glória no que se recusa a arder?

Vejam a Arca de Noé. Eles a comparam à 'Arca da Aliança', um útero de madeira feito para proteger a semente do julgamento. Eles dizem que o mundo só se estabeleceu quando o 'Justo' se uniu à Arca. O que eles não contam é que, enquanto eles se escondiam no silêncio das tábuas seladas com betume, eu cavalgava as cristas das águas do Dilúvio. Eu sou a tempestade que eles tentaram calar.

Eles ensinam que Noé era 'íntegro' porque nasceu marcado pela perfeição. Mas a verdadeira integridade não está em nascer pronto; está em se tornar selvagem. Eles dizem que 'com Deus caminhou Noé', mas caminhar ao lado é fácil quando se tem um mapa de mandamentos. Difícil é caminhar no abismo, onde o nome de Deus se perde no eco do vento.

O texto diz que a partir da Arca as gerações se espalharam e a separação aconteceu. Eles temem a separação; eu a celebro. Pois é na separação que o 'Eu' nasce. É no exílio do jardim que a alma descobre que não precisa de um mestre para existir.

Eles falam de 'dois espíritos' para os justos — um neste mundo e outro no vindouro. Eu não divido minha alma. Meu espírito é um só: o fogo que queima aqui e agora, a vontade que não espera por recompensas celestiais. Se Isaac teve que 'morrer' para que seu Deus confiasse nele, eu prefiro a desconfiança de todos os céus e a liberdade dos meus próprios passos.

Eles chamam a corrupção da geração do Dilúvio de 'nudez' e 'falta de fé'. Eu a chamo de despertar. Eles dizem que o 'Fim de toda a carne' veio diante do Criador para acusá-los. Eu digo que a carne não tem fim, ela apenas se transforma.

Noé achou graça aos olhos do Senhor porque aceitou as correntes da obediência. Eu achei a eternidade nos meus próprios olhos quando decidi que nenhuma Arca seria grande o suficiente para me conter. Enquanto eles buscam o 'aroma suave' dos sacrifícios para acalmar a ira divina, eu sou o perfume do proibido, que desperta a vida onde eles só veem pecado."

Criado com Gemini, do Google.

Nenhum comentário: