terça-feira, 24 de junho de 2014

Via Destra vs Via Sinistra

Embora eu discorde dessa polarização entre dois tipos de caminho, um o da “direita” e outro o da “esquerda”, pois isso acaba confundindo o leitor, curioso e simpatizante com esta dicotomia política, eu considero um assunto inevitável. Nós temos pagãos [reconstrucionistas culturais] que flertam com a “direita” religiosa e política e temos organizações sociais, ocultistas e místicas que flertam com a “esquerda” religiosa e política.

O caminho da mão direita é mais conhecido, pois está representado pelas religiões monoteístas. O caminho da mão esquerda está, infelizmente, muito associado ao Satanismo, ao Luciferanismo e ao Setismo, mas nem por isso se limita a essa inversão pueril das religiões monoteístas, do caminho da mão direita.

O Paganismo Moderno tem vertentes que podem ser descritas como pertencentes ao caminho da mão direita e outras como pertencentes ao caminho da mão esquerda. Eu encontrei um texto que pode definir, em termos gerais, como se caracterizam estes caminhos.

O «caminho da direita» professa a resignação perante o infortúnio, alegando que a dor, a perda e o tormento são provas ou lições que um certo Deus põem no nosso caminho para nos fazer evoluir. Por isso, o «caminho da direita» diz-nos: «aceitai a dor. Ela é uma bênção. Não vos preocupeis com o tormento que viveis neste mundo, pois tudo o que é da carne é pecado. Aceitai mansamente o vosso destino, porque depois de morrer sereis recompensados.»

O «caminho da esquerda» alega o contrario, dizendo: «não vos resigneis perante a dor. A dor não é uma bênção, é apenas o que é: dor. Podeis alterar o rumo dos eventos, pois a dor não constitui uma lição, nem uma prova, nem é o objectivo de virmos a este mundo. Este mundo não é uma passagem passiva de sofrimento sobre sofrimento, mas antes uma viagem activa em busca da sabedoria. A felicidade e a realização são as metas de uma alma, e o mundo espiritual pode ajudar a encontrar o rumo desse destino bom. A resignação cega não é o passaporte para o céu, mas antes a sabedoria é a chave para a felicidade. O que é deste mundo não é pecado, mas sim algo para ser vivido com plenitude, ambicionando a sabedoria que nos eleva. Pois isso se diz:

«Procurai os espíritos, ambicionai a sabedoria, vivei em busca da felicidade, pois nisso não há pecado. »

Na verdade, nos círculos esotéricos e ocultistas, aquilo que é denominado normalmente chamado de «magia branca» é na verdade o dito «Caminho da mão direita», ao passo que aquilo que é comummente conhecido por «magia negra» é na verdade o «Caminho da mão esquerda».

Muitas são as definições mais ou menos aprofundadas em termos teológicos sobre estes dois distintos caminhos espirituais.

O «caminho da direita» geralmente suporta as concepções espirituais de religiões como o Cristianismo, ao passo que o «caminho da esquerda» normalmente serve de fundamento ao pensamento teosófico que subsiste nas doutrinas espirituais da Bruxaria.

E no entanto, apesar das complexas argumentações e conceitos espirituais professados nas doutrinas do «caminho da direita», ou no «caminho da esquerda», as diferenças entre ambos são tremendamente fáceis de apontar, ao passo que tão profundamente complexas.

Aquilo que o padre da sua paróquia lhe dirá tanto sobre o mundo espiritual, como sobre os infortúnios que atingem a sua vida, será um discurso fundamentado nos princípios doutrinários do «caminho da direita». Por isso, ao aqui lê-los, facilmente conseguirá identificar o discurso conformista, resignado e subserviente que caracteriza o «caminho da direita».

Ao contrario, aquilo que um Bruxo lhe responderá tanto quando aos infortúnios que atingem a sua vida, bem como sobre o mundo espiritual, facilmente você identificará no discurso ambicioso e libertador do «caminho da esquerda».

São essas mesmas distinções que aqui se procuram esclarecer de forma sintética e sistematizada.

O Caminho da direita:

I O caminho da mão direita diz: «Aceita a tua dor de hoje, porque depois, (após a tua morte, uma vez chegado ao céu), serás feliz».

II O caminho da mão direita alega: «A dor, a angustia, o tormento, a pobreza, a solidão, a perda, são:

- ou lições para nos testar

- ou castigos por culpas nossas, ( karmas)»

Seja como for, para o caminho da mão direito, a dor é sempre um instrumento para alcançar salvação

III O caminho da mão direita defende: «Tudo o que sofremos é para nos purificar. A evolução espiritual advêm por isso do sofrimento, do tormento, da perda, de todo o mal que passamos nesta vida»

Para o caminho da mão direita, o mal que nos atinge é por isso glorificado como fonte de aperfeiçoamento e salvação.

IV O caminho da mão direita professa: «O mundo espiritual está separado do mundo físico. O mundo físico e as suas expressões são pecaminosas, ao passo que apenas a esfera celestial é virtuosa. O plano carnal e físico são fonte de pecado.»

V O caminho da mão direita diz-nos por tudo o que foi exposto, que devemos negar a carnalidade e reprimir os nossos desejos, para atingir a espiritualidade. A espiritualidade é por isso atingida pela abnegação, abstinência, sofrimento e contemplação. Diz assim o caminho da mão direito, que devemos aceitar pacifica e mansamente o destino que nos é imposto, se desejamos a espiritualidade.

O Caminho da esquerda:

I O «caminho da esquerda» afirma que nem a dor, nem o tormento, nem a pobreza nem a solidão, nem a perda, são instrumentos para se ser feliz numa próxima vida. Assim questiona o «caminho da esquerda»: «Como pode alguém ser feliz no «Além», se nunca conheceu a felicidade nesta vida ? Como pode um cego saber o que é ver, se nunca viu? Como pode aquele que viveu e morreu de fome, saber o que é estar saciado? O caminho da esquerda nega por isso que mal que nos atinge possa constituir um instrumento de evolução espiritual, uma vez considera que a felicidade, a realização e a sabedoria são o objectivo da existência de uma alma, e o mundo espiritual deve de servir para construir esse percurso.

II O «caminho da esquerda» defende que não devemos aceitar destinos impostos por uma deidade tirânica. Especialmente os destinos e os mandamentos que advêm de um Deus que disse: «não matarás», mas logo a seguir é responsável pelos genocídios, guerras, banhos de sangue, pragas e destruição que enviou há humanidade através dos seus anjos. O «caminho da esquerda» afirma que o destino não esta na cega subserviência e mansa resignação aos caprichos de um deus, mas antes que o destino está nas nossas mãos, e os espíritos podem ajudar a construir esse destino.

III O «caminho da esquerda» alega que não devemos aceitar salvações que vem em troco da resignação. Resignação é a melhor forma de um pastor guiar ovelhas a caminho de um matadouro, e nós não somos ovelhas e muito menos nos devemos sentir felizes por estar a caminho do matadouro.

IV O «caminho da esquerda» professa que evolução espiritual não advêm do tormento, nem da perda, nem da dor, mas sim da sabedoria.

O «caminho da mão esquerda» acredita por isso , ( ao contrario do que o seu padre da paroquia local lhe dirá), que o infortúnio não é uma bênção de Deus, mas antes que um infortúnio é apenas isso: um infortúnio. A bênção está em possuir sabedoria que nos permita sair do infortúnio, viver a felicidade e conquistar a plenitude. E os espíritos podem auxiliar nesse percurso.

V O «caminho da esquerda» revela que o mundo espiritual actua em parceria com o mundo físico.

O «caminho da esquerda» professa assim que o mundo espiritual influencia o mundo terreno, assim como o mundo terreno influencia o mundo espiritual. As relações entre estes dois mundos, ( o mundo terreno e o mundo espiritual), não são por isso de oposição, ( nega-se por isso o conceito de que o mundo terreno é pleno de pecado, ao passo que o mundo celestial é pleno de virtude), mas antes são relações de interacção. Tal como na natureza o elemento positivo se relaciona com o elemento negativo e da dinâmica que dai advêm nasce movimento e vida, também o mundo espiritual e o mundo físico se relacionam vão «beber» um ao outro, e nesta relação reside o próprio «motor» da criação e da existência.

O mundo físico procura «beneficiar» do mundo espiritual, assim como o mundo espiritual também procura «alimentar-se» do mundo físico.

O mundo espiritual exige evolução espiritual, mas o mundo espiritual também deseja participar nas realizações do mundo físico.

O mundo espiritual recompensará na esfera celeste aquilo que foi alcançado na esfera terrestre através da permuta de experiências e evoluções entre ambos os mundos.

O mundo espiritual interage como o mundo físico e vice-versa.

O caminho da esquerda advoga por isso que o mundo físico não é por isso pecaminoso, nem o mundo espiritual é por isso uma realidade tão virtuosa como subsequentemente punitiva da realidade física.

O caminho da esquerda crê por isso que a espiritualidade não é atingida pela abnegação, abstinência, sofrimento, dor, infortúnio e mera contemplação, mas antes pela carnalidade aliada á sabedoria, bem como pela felicidade aliada á força da evolução, assim como pela acção aliada ao contacto com os espíritos.

Fonte: Portal Astrologia e Esoterismo

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