quarta-feira, 7 de junho de 2023

Ossos da história

"Ver as penúrias dessas crianças escritas nos seus ossos foi muito comovente."

Rebecca Gowland é professora de bioarqueologia (o estudo de restos biológicos) da Universidade de Durham, no norte da Inglaterra.

E é uma das autoras de um estudo sem precedentes, que revela as horríveis condições das crianças trabalhadoras — algumas com apenas sete anos — na Inglaterra do século 19.

A vida de menores pobres enviados como "aprendizes paupérrimos" para as fábricas de tecidos durante a Revolução Industrial já foi documentada por historiadores.

Mas o estudo da Universidade de Durham "fornece, pela primeira vez, evidências bioarqueológicas e analisa restos ósseos dos aprendizes", declarou a professora à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Segundo Gowland, isso "permite examinar diretamente o impacto da pobreza e do trabalho nos seus corpos".

O estudo foi possibilitado pela descoberta de mais de 150 esqueletos na pequena cidade de Fewston, no condado de North Yorkshire (norte da Inglaterra).

Os restos foram encontrados durante a escavação de um terreno para construir um centro histórico ao lado de uma antiga igreja.

Durante o exame dos esqueletos, os cientistas puderam constatar que a maioria era de crianças e adolescentes e que eles tinham sinais de diversas doenças.

E, trabalhando em conjunto com historiadores, os pesquisadores conseguiram montar o quebra-cabeça do inferno que as crianças aprendizes viviam todos os dias.

Mas a descoberta não fala apenas do passado. Os autores do estudo destacam que existe uma mensagem urgente para o presente, já que se estima que existam atualmente 160 milhões de menores trabalhadores em todo o mundo.

A revolução industrial transformou o panorama socioeconômico britânico nos séculos 18 e 19.

Mas o auge da indústria "baseou-se no trabalho mal remunerado de mulheres e crianças, que permitiu que as fábricas britânicas fossem competitivas em um mercado cada vez mais globalizado", destaca o estudo.

Em 1845, 43% dos trabalhadores nas fábricas de tecidos de algodão do Reino Unido eram menores de 18 anos. E, em outros setores, este índice era substancialmente maior.

As fábricas, às vezes, eram chamadas de "moinhos de algodão" ou fábricas de fiação. Elas abrigavam máquinas de produção de fios ou tecidos de algodão.

Muitas crianças de regiões rurais foram enviadas para as fábricas em cidades inglesas como Londres e Liverpool, mas houve também o deslocamento no sentido contrário.

Menores pobres foram transportados das cidades para fábricas de fiação em vilarejos rurais, como Fewston.

Algumas crianças começavam seu trabalho de aprendiz "a partir dos sete anos", segundo Gowland. Mas a maioria chegava às fábricas com 10 a 13 anos.

Ali, elas permaneciam vinculadas ao seu local de trabalho até os 21 anos, no caso dos meninos, ou até se casarem, no caso das meninas.

Os aprendizes que tiveram seus restos encontrados em Fewston procediam de diversas cidades, incluindo Hull e Londres. Eram aprendizes como Caroline e Sarah, segundo os registros históricos.

"Em 1803, Caroline Farmer foi uma das aprendizes mais jovens, com sete anos, enviada pela paróquia de Southwark, em Londres”", relata um documento mencionado no estudo.

"Em setembro daquele mesmo ano, Sarah Canty, com 12 anos, foi aprendiz de Fewston proveniente de Lambeth, em Londres, junto com outras três meninas com idade similar", prossegue o estudo.

"E, em novembro daquele mesmo ano, o irmão de Sarah, Cornelius, que tinha apenas sete anos, foi enviado para uma fábrica no condado de Lancashire."

Os menores de idade chegavam aos seus novos destinos vindo das "casas de trabalho" ("workhouses", em inglês), onde viviam nas cidades.

As casas de trabalho "eram lugares aonde as pessoas indigentes podiam ir e ali ficar", explica Gowland. Nelas, as pessoas recebiam pouca alimentação e esperava-se que todos trabalhassem em troca do seu sustento, incluindo as crianças.

Os menores de idade costumavam ficar ali quando eram órfãos ou seus pais eram pobres demais para mantê-los. "As pessoas só iam para as casas de trabalho quando estavam totalmente desesperadas", segundo a professora.

Os cientistas precisaram diferenciar os esqueletos das crianças aprendizes dos restos mortais de menores da região, que foram enterrados no mesmo local.

Para isso, eles recorreram à análise de isótopos (átomos do mesmo elemento químico, mas com diferente massa atômica) de estrôncio e oxigênio, que são indicadores de lugares geográficos.

"À medida que os nossos dentes se desenvolvem, os valores de isótopos de estrôncio e oxigênio no seu interior refletem a geologia e a água potável do local", segundo Gowland.

"Quando analisamos os menores, pudemos ver que muitos deles não eram da região porque seus valores de isótopos de estrôncio e oxigênio eram muito diferentes dos valores locais."

"E, quando comparamos seus valores de isótopos com os de outros sítios arqueológicos, observamos que algumas das crianças tinham valores consistentes com a região de Londres", prossegue a professora. "Isso está de acordo com o que sabemos pelas evidências históricas, que dizem algumas das crianças foram enviadas para Fewston das paróquias mais pobres de Londres."

Os esqueletos dos aprendizes revelam as condições brutais existentes nas fábricas.

Os ossos dos menores estavam deformados, eram curtos em comparação com outras crianças daquela época e mostravam sinais de deficiência de vitaminas e doenças respiratórias.

"Observamos muitos defeitos nos seus dentes, tanto nos permanentes quanto nos dentes de leite, o que demonstra a má saúde das crianças durante os seus primeiros anos de vida, incluindo o desenvolvimento intrauterino", segundo Gowland.

Também havia sinais de raquitismo e de outras doenças causadas por deficiências alimentares, como o escorbuto.

"Podemos diagnosticar estas condições porque elas deixam falhas nos ossos", explica a professora. "A deficiência de vitamina D pode provocar certas inclinações dos ossos longos e outras alterações. A deficiência de vitamina C geralmente é observada na forma de lesões porosas em áreas específicas do esqueleto."

"As doenças respiratórias podem ser observadas com a formação reativa de osso novo nas costelas e nos seios paranasais."

As crianças também eram extremamente baixas para a sua idade.

"Quando uma criança não se alimenta o suficiente, seu corpo prioriza outras funções biológicas, especialmente o cérebro e o sistema imunológico", segundo Gowland. "Isso ocorre com custo para o crescimento."

"Se as crianças obtiverem mais recursos mais tarde, como uma melhor nutrição, elas podem experimentar crescimento de recuperação, mas estas crianças não tiveram esta oportunidade. É provável que sua alimentação fosse bastante monótona, consistindo de pão e chá aguado."

Da análise de isótopos de carbono e nitrogênio, os cientistas deduziram que as crianças tinham uma alimentação com teor de proteínas tão baixo que era similar "à das vítimas da Grande Fome da Irlanda no século 19".

Relatos da época revelam como era a vida cotidiana dos "aprendizes paupérrimos".

"Eles moravam em casas de aprendizes, com meninos e meninas separados", explica Gowland. Sua jornada de trabalho era de 14 horas, "das 6 da manhã às 8 da noite, cinco dias por semana, e 11 horas aos sábados".

As fábricas eram grandes e possuíam muitas máquinas pesadas e extremamente barulhentas, que causavam problemas de audição para os menores.

As crianças trabalhavam todo o dia junto às máquinas e suas tarefas eram perigosas. As chamadas crianças "reviradoras", por exemplo, precisavam recolher o algodão que caía embaixo das máquinas em movimento.

O reverendo Robert Collyer (1823-1912) foi aprendiz na fábrica de Fewston dos 8 aos 14 anos e deixou um dos poucos relatos de primeira mão existentes. Ele conta que, se as crianças tentassem se sentar, o supervisor castigava seus "pequenos ombros" com uma correia de couro.

"O resultado foi que as crianças mais fracas ficaram tão estropiadas que a lembrança dos seus membros retorcidos ainda me lança uma luz muito sinistra", afirma o reverendo.

Collyer também descreve seu esgotamento constante ("estava mais cansado do que as palavras podem expressar") e seu medo ao prever "o sino infernal" que despertava as crianças, chamando-as para o trabalho.

O ar dentro das fábricas era contaminado por fibras de algodão que eram inaladas pelas crianças, causando problemas respiratórios.

É provável que as crianças “tossissem muito e morressem de infecções comuns, como resfriados, pois seu sistema imunológico estava debilitado”, segundo Gowland.

Além disso, “como era de se esperar, havia acidentes”.

"Na fábrica de Fewston, um menino chamado Henry Ludley Marwood morreu quando seu braço ficou preso em uma máquina. A morte ocorreu uma semana depois, quando seu braço foi amputado", conta a professora.

O estudo destaca que "esta não é apenas uma história do passado”".

Atualmente, segundo os autores, "estima-se que 73 milhões de menores [de 5 a 17 anos] em todo o mundo realizem trabalhos perigosos. É quase a metade dos 160 milhões de menores trabalhadores em todo o mundo."

"Acredito totalmente que a bioarqueologia tem lições importantes para nós no presente", afirma Rebecca Gowland. "É essencial que não continuemos a permitir que a história se repita."

"Quando ouvimos sobre as crianças de Fewston, nós nos surpreendemos por estes menores terem sido tratados de forma tão abominável. Estas crianças foram desumanizadas e tratadas como ‘o outro’ ao longo da vida e o mesmo acontece hoje pelo mundo."

Para Gowland, o estudo demonstra como é grave a marca que pode ser deixada pela pobreza, até mesmo durante a gestação, no crescimento das crianças.

"Este projeto me fez querer trabalhar mais de perto com os pesquisadores de saúde pública para oferecer uma nova perspectiva sobre a importância de investir na saúde infantil", afirma a professora.

Os restos mortais das crianças e de outras pessoas escavados no local foram novamente enterrados em uma cerimônia, segundo Gowland. Compareceram ao enterro membros da comunidade local de Fewston e os cientistas que trabalharam no estudo.

"As crianças foram homenageadas em uma série de obras de arte e seus nomes foram bordados em um avental infantil para que não sejam esquecidos", ela conta.

Uma exibição permanente preserva a história das crianças no centro histórico Washburn Heritage Centre, em Fewston.

"Analisei restos de ossos de crianças de diferentes épocas e lugares", relembra a professora. "E achei a história das crianças de Fewston particularmente impressionante."

"Todos nós sentimos que queríamos ter a oportunidade de contar a sua história. Já que estas crianças não tiveram voz durante a vida, quisemos amplificar suas histórias depois da morte."

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72xw90n9lwo
Nota: leia a postagem onde se questiona se a Inglaterra é civilizada.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Indigência intelectual

Eu comentei no blog do Caturo uma obviedade. Ele publicou a declaração imbecil do ministro da Agricultura e Soberania Alimentar, Francesco Lollobrigida de que a "etnia italiana" deve ser protegida.
Eu não fico espantado com a ignorância do Caturo e seus pares racistas, xenófobos e fascistas. Não espere dessa gente da direita ter qualquer coerência ou conhecimento de história, antropologia e sociologia.
O que eu vou apontar é como essa gente demonstra carência de cérebro.
Essa postagem feita no Twitter foi citada como comentário. Isso foi uma tentativa de refutação. Infelizmente, as redes sociais estão sendo (mal) usadas para estipular "verdades" falsificadas. Agora, algo que é visto na rede ou em aplicativos de mensagens são considerados evidências.
Citando:
A origem do bolo de reis remonta ao tempo dos festejos romanos de Saturnália. Estes tinham por hábito eleger o "rei da festa" durante os banquetes comemorativos, o que era feito colocando uma fava seca (símbolo da fecundidade) numa doce torta redonda, que quem achasse se convertia no rei da fava ou rei da festa.
O bolo de reis no seu formato atual surgiu na corte de Luís XIV, em França, para as festas do Ano Novo e do Dia de Reis.
O bolo de reis popularizado em Portugal no século XIX segue uma receita originária do sul de Loire, um bolo em forma de coroa feito de massa leveda.
(https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Bolo-rei)
Esse bolo tem diversas versões: França, Suíça, Maiorca, México, Catalunha, Inglaterra e Itália.
Nós conhecemos aqui como panetone. E é muito parecido com o bolo inglês.
Então a pergunta continua.
Qual etnia? Os italianos são descendentes de diversos povos de diversas origens. Lollobrigida, só a Gina😏🤭.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Sabor anfíbio


Com o sensacionalismo típico, a Imprensa Abutre noticiou:

Integrantes do grupo Xamanismo Sete Raios, que fica localizado no distrito de Campo Belo, em São Paulo, denunciou o grupo após serem submetidos a sessões com veneno de um sapo que deixa as pessoas com diversos sintomas.

(https://www.correio24horas.com.br/amp/nid/veneno-de-sapo-e-usado-em-sessoes-de-grupo-xamanico/)

Os representantes do grupo alegam perseguição religiosa, algo mais comum entre evangélicos. Com frequência falam em liberdade religiosa e de expressão, mas negam esses direitos a outros.

Quando o evangélico faz o papel de vítima, é necessário ver a circunstância e o contexto. Basta ver como esse grupo se comporta em países onde o Cristianismo é majoritário. Costuma ser inconveniente, irritante, intolerante e preconceituoso.

Por exemplo, a notícia que foi denunciada, falando de como o Partido Republicano quer transformar os EUA em uma teocracia cristã. E nós estamos falando de país de primeiro mundo, da Terra da Liberdade. Imagine no Brasil.

A solução, se existisse a garantia dos direitos humanos, é exigir das cidades e estados que querem impor o Cristianismo que concedam o mesmo tempo e espaço para outras religiões e iniciativas.

Isso demandaria o planejamento das escolas. O projeto Satan After School já existe, mas eu incluiria espaço para que drag queens leiam para crianças. Existem inúmeras crianças que não se encaixam no padrão heteronormativo, então é bom que vejam que não há nada de errado com el@s.
Eu espero que incluam Paganismo Moderno, Bruxaria e Wicca.


Eu tive minhas experiências com o que eu chamo carinhosamente de maná indigo, eu provavelmente sou o único que fala do uso de enteógenos no Ofício.
Com licença que eu vou lamber uma perereca 😏🤭.

domingo, 4 de junho de 2023

Irmã, rainha e sereia

A irmã de Alexandre, o Grande, Tessalônica da Macedônia, era uma figura notável. Sobrevivendo a seu meio-irmão, ela se tornaria a rainha da Macedônia por meio do casamento com um dos generais de Alexandre, Cassandro.

Durante suas conquistas, Alexandre, o Grande, deu seu nome a uma miríade de cidades e, embora sua irmã certamente não tenha desfrutado da fama generalizada de seu irmão conquistador, a segunda maior cidade da Grécia recebeu o nome dela.

Talvez o detalhe mais intrigante sobre Tessalônica seja o mito que se espalhou na Grécia após sua morte. Um conto folclórico popular afirma que a rainha macedônia se tornou uma sereia imortal que questiona os marinheiros viajantes. Dê a resposta certa e uma viagem pacífica se seguirá, mas errar garantirá a destruição.

Nascida em 352 aC, Tessalônica era filha do rei Filipe II da Macedônia e de sua esposa ou concubina, Nicesipolis. Sua mãe vinha da nobreza da Tessália, e o nome “Tessalônica” foi dado a ela em homenagem à vitória militar de Filipe sobre os tessálios. De acordo com o estudioso bizantino Stephanus, Nicesipolis morreu apenas 20 dias após o nascimento de sua filha.

Como membro da dinastia Argeada , Tessalônica nasceu em uma família que moldaria o curso da história antiga . Sua conexão mais notável foi seu meio-irmão, Alexandre, o Grande , que ascendeu ao trono após o assassinato de seu pai. As campanhas e conquistas militares de Alexandre trouxeram-lhe imensa fama e poder, tornando-o uma das figuras mais proeminentes da história.

Tessalônica provavelmente teve interações com seu irmão, embora a extensão e a natureza de seu relacionamento permaneçam incertas. Ela tinha apenas seis ou sete anos quando Alexandre partiu para a campanha contra os persas e ela tinha cerca de 21 anos quando ele morreu.

A jovem princesa parece ter sido criada por sua madrasta e mãe de Alexandre, Olímpia. Olímpia era uma princesa molossiana do Épiro e se casou com Filipe II em 357 aC para garantir uma aliança entre os molossianos e os macedônios.

Tessalônica desempenhou um papel significativo no cenário político da antiga Macedônia durante os tumultuados anos após a morte de Alexandre . Sua vida posterior abrangeu seu casamento com Cassander, seu envolvimento no governo da Macedônia, a fundação da cidade de Tessalônica e sua eventual morte.

Após a morte de Alexandre em 323 aC, uma luta pelo poder se seguiu entre seus generais, conhecidos como Diadochi , para afirmar o controle sobre o vasto império que ele havia construído. Tessalônica foi casada com um desses generais, Cassandro, que emergiu como uma figura proeminente. Como irmã de Alexandre, o Grande, o casamento ajudou a solidificar a reivindicação de poder de Cassandro e a legitimar seu governo.

Tessalônica e Cassandro tiveram pelo menos três filhos juntos: Filipe IV da Macedônia, Antípatro I da Macedônia e Alexandre V da Macedônia. Depois que Cassandro morreu em 297 aC, coube a Tessalônica guiá-los para governar a Macedônia.

De acordo com Kris Waldherr, “Tessalônica usou os ensinamentos de sua madrasta astuta para manipular Filipe, Antípatro e Alexandre a seu favor. Mas a rainha não era nenhuma Olímpia – a morte logo visitou todas elas.”

Filipe, o filho mais velho de Tessalônica, morreu de uma doença pouco depois de se tornar rei da Macedônia. Ele foi sucedido por Antípatro, mas de acordo com o historiador romano Justino, Tessalônica insistiu que ele governasse ao lado de Alexandre.

A historiadora Elizabeth Carney teoriza que Tessalônica fez essa insistência para que ela pudesse efetivamente co-governar por meio de Alexandre como regente. Seja qual for o caso, isso desagradou Antípatro e ele assassinou sua própria mãe. Antípatro foi, por sua vez, assassinado por outro desafiante ao trono.

Curiosamente, Tessalônica não foi a única irmã de Alexandre, o Grande, a ser assassinada. Suas outras duas irmãs, Cynane e Cleópatra, também foram assassinadas.

A lenda fala da busca de Alexandre, o Grande, pela Fonte da Imortalidade, que o levou a adquirir um frasco contendo água imortal por meio de grandes esforços. Variações do conto sugerem que Alexandre usou a água para lavar o cabelo de sua irmã, concedendo-lhe a imortalidade ou inadvertidamente a usou para nutrir uma planta de cebola selvagem, falhando em informar Tessalônica de seu conteúdo.

Após a morte de Alexandre, o Grande, sua irmã, consumida pela dor, procurou acabar com sua vida mergulhando no mar. No entanto, em vez de encontrar um destino aquático, ela se transformou em uma sereia, destinada a julgar os marinheiros em incontáveis séculos e na vasta extensão dos sete mares.

Cada encontro com marinheiros trazia uma pergunta consistente: “O rei Alexandre está vivo?” (Grego: Ζει ο βασιλιάς Αλέξανδρος;). Somente a resposta correta de “Ele vive, reina e conquista o mundo” (grego: Ζει και βασιλεύει, και τον κόσμο κυριεύει!) a apaziguaria, permitindo que o navio e sua tripulação navegassem com segurança em águas tranquilas. Qualquer outra resposta despertaria sua forma irada de Górgona, determinada a enviar o navio e seus marinheiros para as profundezas abaixo.

Fonte: https://greekreporter.com/2023/05/25/alexander-the-great-sister-thessalonike-mermaid/

sábado, 3 de junho de 2023

Deuses Americanos

O Azarão deu a indicação da série American Gods (disponível na Amazon e eu não estou ganhando um centavo com isso).
A concorrente Netflix tem a série Sandman que é baseado no livro do mesmo autor, Neil Gaiman. Eu fiquei decepcionado com essa versão, pois está carregada de referências cristãs, quando personifica Lúcifer como o Diabo.
O primeiro capítulo tem erro histórico e mítico. Os vikings chegaram no continente americano onde hoje é o Canadá e Odin (Wotan) não é um Deus da Guerra. Os vikings procuravam a guerra porque acreditavam que desta forma provavam o seu valor e iriam ao Valhalla.
A série é focada nas aventuras do protagonista (Shadow Moon) que encontra pessoas que, na verdade,  são serem místicos e divindades.
Nada de novo sob o sol. Eu vivo dizendo que não existe coincidência. Fatos e pessoas que passam por nossa existência não são aquilo que nós achamos ser.
Uma das perguntas que muitos sábios fazem é sobre o propósito de nossa existência, seja individual ou coletiva. Cada um que nasce nesse mundo tem uma missão que ele/ela tem que cumprir e existem forças além de nossa compreensão que vão garantir que cumpramos com esse propósito.
Nós, convencidos e prepotentes, voltamos nossas costas aos Deuses. Nós ficamos apegados ao mundo material, decretamos a Era da Razão e fundamos uma nova crença.
Nós construímos um habitat artificial feito de vidro, cimento e ferro, vivemos como peixes em um aquário e negamos que exista o oceano.
Nós construímos esse mundo tecnológico achando que superamos a existência do divino (considerado inexistente), mas vemos as imagens de nossa chupeta eletrônica acreditando serem reais.
E ainda nos torturamos com perguntas existenciais que não podem ser solucionada apenas com a ciência.
Assim fundamos a Era Contemporânea, um mundo desumano e injusto, onde ter é mais importante do que ser. Entretanto nada aqui nos pertence. Nos rodeamos e nos cercamos de coisas, títulos e funções, mas continuamos irremediavelmente infelizes. Nós nos divorciamos do mundo espiritual e nos deparamos com o vazio dentro de nós que nunca será preenchido ou saciado.
Talvez para os mais lentos não perceberão que o parceiro do protagonista se apresenta como Wednesday, mas não é a Vandinha, mas sim Odin, no original, Wodan, de onde vem a palavra.
Enfim, o seriado coloca Odin com um humano para enfrentar os novos Deuses. Sim, porque não? Todas as mitologias antigas nos contam de Deuses guerreando com Deuses na virada novo aeon.
O interessante é que Shadow Moon parece ser descrente, mas testemunha a existência do mundo espiritual e necessariamente começa a acreditar. A descrença é apenas uma teimosia infantil cultivada pelo rancor.
Impagável a cena (spoiler!) de Laura, diante de Anubis e ouvindo que, como ela não acreditava em nada, para o nada ela iria.
Coisas terríveis foram feitas em nome de Deus, da religião, mas são atos feitos por humanos. Ainda que tenha violência nos textos sagrados, são os humanos que os tomam como verdade indiscutível e os transformam em armas. Quando há erro, este recai no ferramenteiro, não na ferramenta.
Eis um enorme mistério. Por que Deus, por qualquer nome que tenha, precisaria de um humano para realizar seus objetivos? A série mostra que pela interação com o mundo humano, seres místicos e divinos se encontram e tornam-se, igualmente, peças desse jogo cósmico.
Tal como Ésquilo escreveu em Prometeu Acorrentado, nem Zeus pode escapar do Destino.
Quem adaptou o livro para a televisão insere várias insinuações sarcásticas, até a da verdadeira origem da Páscoa (Easter) vir das celebrações pagãs da primavera para Ostara, apresentando uma cena (spoiler!) onde a própria faz uma festa recheada de diversos Jesus. Um erro, o roteirista não deve conhecer o que são formas de pensamento.
Talvez a grande sacada está em perguntar por que Deuses Americanos. Nem mesmo os Deuses Antigos pertencem a um país ou cultura. Eles pertencem ao seu próprio povo, divino. Ou então perceber quais são esses Deuses Americanos dos quais a série fala, que são globais e são representados por coisas que nós achamos ter criado e que dominamos, mas estamos tão viciados que nos tornamos escravos.
PS: impagável a declaração de Czernobog.
"we never care about skin like the Americans. Where we come from, everyone has the same color. So we must fight over shades."
Traduzido:
"nunca nos preocupamos com a pele como os americanos. De onde viemos, todos têm a mesma cor. Portanto, devemos lutar pelas sombras."
Ouch. Deve ter doído nos racistas.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O culto da Deusa de Malta

VALLETTA, Malta – Descendo três andares abaixo da superfície da terra, o Hal Saflieni Hypogeum é quase intocado pelo tempo. Compostas por muitas câmaras, as salas são como templos em miniatura, espelhando a construção dos Templos de Tarxien na superfície. O lugar mais poderoso, uma descoberta sem igual, está no terceiro e último nível: a Câmara do Oráculo. A sala, decorada com espirais de ocre vermelho ao longo do teto, é esculpida com tanta precisão que reverbera vozes profundas e ressonantes.

Construída há mais de 4.000 anos, a estrutura foi tão bem construída que, apesar de milênios de terremotos, 70.000 toneladas de bombas na Segunda Guerra Mundial e aquisições por numerosos conquistadores, não houve desmoronamentos. Abandonado em 2500 aC e não redescoberto até 1902, o mistério do povo Tarxien e seu modo de vida quase se perdeu. Mas com a ciência moderna e a arqueologia consistente dos últimos cem anos, a maravilha de sua civilização está se tornando conhecida.

O povo Tarxien viveu em Malta começando por volta de 3150 aC até 2500 aC, quando desapareceram misteriosamente. Os Templos de Tarxien são uma das estruturas autônomas mais antigas do mundo. O Hypogeum – grego para “subterrâneo” – e outros templos como o de Hagar Qim são algumas das estruturas megalíticas pelas quais sua civilização é agora conhecida.

O Hypogeum foi usado como uma câmara funerária e possivelmente um local ritual para se comunicar ou honrar os ancestrais. Acredita-se que as práticas funerárias incluam permitir que os corpos se decomponham em um espaço aberto do Hipogeu e depois jogar os ossos em uma vala comum em uma das câmaras. Visitantes e padres caminhavam sobre os corpos enquanto formavam um piso sólido; os ancestrais foram literalmente a fundação do Hipogeu. Estima-se que 7.000 corpos foram enterrados lá ao todo, embora o tempo e a umidade os tenham deteriorado além da salvação em muitos casos.

A acústica única do espaço evidencia o seu desenho intencional, sustentando teorias de que este era um espaço para rituais, não apenas para sepulturas. Heritage Malta, a organização maltesa que administra os museus e preserva os locais de Tarxien com a UNESCO, explicou que os Tarxiens “entendiam a rocha viva”. Quando eles esculpiram o Hypogeum, eles seguiram veios naturais na rocha, encontrando-os com pequenas picaretas ou possivelmente chifres cravados na pedra enquanto cavavam. Sugere-se que as ferramentas usadas para escavar sejam martelos de pedra.

O povo Tarxien era uma sociedade pré-letrada, e a datação por carbono mostra que seu modo de vida – os estilos de escultura, os procedimentos funerários, a estatuária e o uso do templo – cessou repentinamente por volta de 2.500 aC, sem nenhuma explicação discernível. Mas a arqueologia descobriu evidências inegáveis ​​de apreciação feminina, possível matriarcado e provável adoração de deusas. Estátuas de mulheres obesas, algumas com quase três metros de altura, foram encontradas nos locais dos templos. Como o local foi deixado sob o solo por tantos milênios, nunca foi saqueado ou destruído por guerra, conquista, roubo ou perseguição religiosa, como os locais antigos próximos da Grécia ou do Egito. Apenas o tempo afetou esses templos, tornando-os únicos entre outras civilizações de sua época.

A teoria comum sobre os Templos de Tarxien é que eles foram dedicados a uma deusa da fertilidade. Todas as estátuas encontradas têm quadris grandes e seios largos, e não têm cabeças ou parecem ter cabeças intercambiáveis. Acredita-se que essas estátuas, conhecidas como “damas gordas”, representem a deusa. Como em Creta, uma nação matriarcal conhecida por ter negociado com Malta durante esse período, as deusas são retratadas segurando cobras, que eram símbolos de regeneração e fertilidade.

Figuras femininas menores foram encontradas com as mesmas características exageradas, embora a maioria delas tivesse a cabeça intacta. O Hipogeu tinha um poço profundo onde foi encontrada a mais famosa dessas estatuetas, a Dama Adormecida. É teorizado que estes eram ex-votos deixados no poço em uma prática semelhante às fontes sagradas gregas ou poços sagrados celtas. É muito provável que os Tarxiens tenham sido ancestrais dos indo-europeus, explicando essas práticas espirituais sincréticas.

As espirais são um tema difundido em cada um dos locais sagrados de Malta. Eles são encontrados no teto da Câmara do Oráculo no Hipogeu, bem como nos altares e paredes dos templos, possivelmente como backsplashes para as grandes estátuas da deusa. As espirais também se entrelaçam em círculos concêntricos, lembrando as esculturas em Newgrange que datam do mesmo período. Os significados dessas espirais não podem ser conhecidos com certeza, mas teoriza-se que, como outras culturas indo-européias, eles simbolizam o ciclo de vida e morte, a jornada da alma ou simplesmente observâncias astrológicas, como o sol, ou a Via Láctea.

As pinturas de espirais encontradas no Hipogeu usavam ocre vermelho, que alguns estudiosos e arqueólogos veem como evidência do comércio internacional e, portanto, um potencial para troca de ideias. O ocre vermelho era uma exportação do norte da África, incluindo o Egito, bem como a Sicília. A Sicília nesta época tinha uma rica cultura com semelhanças com os Tarxiens, chamados de Sicanians, indicando um intercâmbio cultural. Eles duraram um período de tempo semelhante, até a chegada dos fenícios em 900 aC; os fenícios também tiveram um grande impacto em Malta durante esse período.

A civilização Tarxien não recebe a mesma atenção que seus vizinhos mediterrâneos no Egito ou na Grécia, mas deixou um legado duradouro que continua a intrigar visitantes e acadêmicos. Os pagãos modernos podem continuar a encontrar uma conexão com esta civilização misteriosa através dos pontos em comum de reverência à Deusa e veneração dos ancestrais que os Tarxiens agora se tornaram.

Fonte: https://wildhunt.org/2023/05/maltas-mysterious-prehistoric-goddess-worship.html
Traduzido com Google Tradutor.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Aprecie sua caminhada

Diz a legenda do desenho (feito por um humanista/ateu/descrente): dois caminhos para ir. Muito parecido com panfleto fundamentalista cristão sobre somente ter dois caminhos para escolher, um para o Paraíso e outro para o Inferno.

Algo parecido com esse onde diz a legenda: uma doutrina fundamental. Ambos os desenhos (pasmem) tem a mesma origem.

Quando se fala em caminho, vem à mente o ditado que "todos os caminhos levam à Roma". Isso não é verdadeiro no mundo, menos ainda quando se fala em espiritualidade.

Mas o que chama a atenção é que no caminho idealizado como o "certo" é a presença de valores morais. O que me faz recordar um comentário meu sobre esse contradição no ateísmo:

"...considerando que o ateu adota o método científico e a premissa de que algo só existe se tiver evidência, fica estranho falar em moral, algo sem evidência e que foi criado pelos povos antigos, todos religiosos."

Sem esquecer que falamos de pessoas. Seja crente ou descrente, tanto valores quanto vícios fazem parte de nossa natureza. Existem criminosos religiosos e ateus. E pelo segundo desenho eu vejo um falso moralismo ao destinar a prostituta ao Paraíso junto com os criminosos (arrependidos? batizados?).
Uma pessoa vai usar sua crença como desculpa ou justificativa para seus atos, da mesma forma que um torcedor de futebol e um alcoólatra. Isso é humano, nós buscamos respaldo (autorização) para consumarmos nossa vontade (in/consciente), mesmo sabendo ser errado. O erro está no ferramenteiro, não na ferramenta.