terça-feira, 11 de agosto de 2026

Quinta Estação: Hiperconsciência

Uma vez empregados e colocados em serviço, começamos o trabalho de
progredir a nós mesmos e colaborar com a evolução da morte. A tarefa é árdua e
ingrata, não há pagamento, pois aqui se almeja conquistas mais estáveis que
riqueza e poder. Quer se aumentar nosso próprio grau de fatalidade, para
merecer enfim, uma colocação no Grande Mausoléu. Não se mede tal grau em
relação individual, nem mesmo coletivo, mas o que e em que o trabalho
executado realmente acrescente ou melhore nos processos da morte. O que se
quer atingir não pode ser medido em quantidade, nem se pode exprimir em
qualidade. Pretende-se refinar tudo que se refere à morte. Estranhamente, isto se
verifica quando pomos em prática por sobre os vivos. A vida é o laboratório da
morte. Como pesquisador, coube-me dissecá-la. Como não existe material,
teoria ou professores, cada um se torna doutor de alguma parte deste processo.
Uma vez que se dá em processos, coube-me tomá-la como advogado, jurista e
legislador. O código processual da morte a cada emenda e a cada decreto virei a
comentar e criticar. Eu irei com meus colegas de estágio, discutir e definir a
teoria, para que conste aos altos encargos, como andam em labor os
mensageiros e executores da morte, os operários de produção desta indústria
bem sucedida. A vida é a matéria prima; os defuntos, o produto final; a
renovação, o valor de troca ao mercado. Mas, no que nos cabe, nós não
dependemos da matéria para haver produção ou sustentar nossa sociedade, já
que existimos sem precisar da existência. Se esta não houvesse, inventariamos
uma qualquer, esta que se chama de vida, é apenas um de nossos protótipos,
mas não o mais feliz nem o mais arrojado.

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