segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O Deus de Jung

Dos livros que eu leio, ora tiro algo interessante, ora uma idéia, ora uma referencia. O conhecimento, a prática, a espiritualidade, a crença e a religião são como mapas para a nossa jornada, mas não determinam o caminhar, a direção ou o destino. O objetivo de nossa busca é determinada por nossa experiência, por nossas opções e por nossas ações.
Eu estranhei quando a Editora Vozes publicou o “Livro Vermelho”, entitulado de “Liber Novus” pelo seu autor, Carl Gustav Jung. O psicanalista, que foi um dos alunos de Sigmund Freud e depois seguiu com uma linha própria na psicologia, é um referencial para as outras vertentes dessa ciência humana.
O “Liber Novus” é um livro que desafia as rígidas categorias do mundo editorial e literário. Eu posso dizer que é uma obra híbrida, pois tanto é psicologia quanto esoterismo quanto diário. Ali Jung conta suas próprias experiências com o seu inconsciente descreve um cristianismo bem particular, senão uma Gnose.
Acompanhar este livro não é simples, pois Jung usa uma linguagem mística, esotérica e intuitiva. Tentar entender, racionalizar ou captar o sentido e argumento do livro é desperdiçar e desmerecer o talento do autor.
A leitura torna-se melhor quando usamos a nossa intuição, o nosso inconsciente, a nossa alma. O livro tem material para muitas artes, estudos e reflexões. O foco deste texto, quase como resenha, é explorar as concepções de Jung sobre Deus.
Em “Liber Novus”, Jung expõe, no chamado “Sete Sermões para os Mortos” o conceito do Pleroma, que é semelhante ao conceito da Mônada. Segundo Jung, a manifestação do Pleroma é Abraxas, o Deus deste mundo, que é semelhante ao conceito do Demiurgo. A visão do autor quanto a Igreja e comunidade é explicado em termos da sexualidade e da espiritualidade e esta foi a melhor parte. O ponto principal é que o ser humano é fundamental para que estas coisas e entidades possam interagir, ser, existir. Nisto Jung inova ao falar que a caminhada é sempre pessoal e individual, imitar exemplos é viver a vida do exemplo.
Devemos explorar os dois conceitos de Deus, um como sendo o Demiurgo, o outro como sendo Abraxas.
O Demiurgo, para o Mazdeismo, o Maniqueismo e o Gnosticismo, é a entidade, o Deus que criou o mundo material, com todo o sofrimento e dor. O Demiurgo mantém a humanidade em um mundo de medo e ilusão, alienados da verdadeira realidade e afastados do conhecimento do verdadeiro Deus.
Para estas religiões, apenas pelo conhecimento [Gnose] e pela rejeição ao mundo material é que se consegue resgatar a convivência com Deus e voltarmos ao mundo que pertencemos.
Abraxas é um Deus e um símbolo do Esoterismo e Gnosticismo. Abraxas tem a cabeça de um galo, um tórax humano vestido de armadura, no braço humano esquerdo tem um escudo e no braço humano direito tem um chicote. As pernas são duas serpentes, uma branca e a outra preta.
Na cosmologia gnóstica, as sete letras que compõem o nome representam cada uma um dos sete "planetas" clássicos (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno). [Wikipédia]
Como um Arconte
No sistema descrito por Ireneu, o "Pai não-nascido" é o progenitor do Nous, e dele Nous Logos, de Logos Phronesis, de Pronesis Sophia e Dynamis. Destes, principados, poderes e anjos, o último dos quais criam o "primeiro céu".
Estes, por sua vez, originam uma segunda série, criando um segundo céu. O processo continua de maneira similar até que 365 céus existam, sendo os anjos deste último (o céu visível) os criadores do nosso mundo. O "governante" [principem, ou ton archonta] dos 365 céus "é Abraxas e, por isso, ele contém em si mesmo 365 números".
Hipólito fala sobre Abraxas na Refutação de todas as heresias, que parece ter seguido a Exegética de Basilides. Após descrever a manifestação do Evangelho na Ogdóade e na Septóade, ele acrescenta que os Basilidianos têm um longo relato sobre as inúmeras criações e poderes nos diversos 'estágios' do mundo superior (diastemata), no qual relatam sobre os 365 céus e argumentam que "seu grande arconte" é Abrasax, pois seu nome contém o número 365, o número de dias do ano. Ou seja, a soma dos números representados pelas letras gregas em ΑΒΡΑΣΑΞ é 365. [Wikipédia]
Como um Deus
Epifânio de Salamis parece seguir parcialmente Ireneu e parcialmente o "Compêndio de Hipólito", agora perdido.6 Ele conceitua Abrasax distintamente como o "poder acima de tudo e o primeiro princípio", "a causa e o primeiro arquétipo" de todas as coisas e menciona que os seguidores de Basilides se referiram ao número 365 como sendo o número de partes no corpo humano além do número de dias no ano.
O autor do apêndice do livro Prescrição contra heréticos, de Tertuliano, que também devem ter seguido o Compêndio de Hipólito8 acrescentam algumas particularidades: que 'Abraxas' deu à luz Mente (Nous), o primeiro numa série de poderes enumerados por Ireneu e Epifânio; que o mundo, assim como os 365 céus, foi criado em homenagem a 'Abraxas'; e que Cristo foi enviado não pelo Criador do mundo, mas por 'Abraxas'.
Nada pode ser inferido das vagas alusões de Jerônimo, que afirmava que 'Abraxas' significava "O Deus maior" para Basilides, "Deus Todo-Poderoso" e "O Senhor Criador". [Wikipédia]
Como um Aeon
Mesmo com a disponibilidade de fontes primárias, como as da Biblioteca de Nag Hammadi, a identidade de Abrasax ainda permanece obscura. O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível, por exemplo, se refere a Abrasax como o Aeon vivendo com Sophia e os demais Aeons do Pleroma na luz do luminar Eleleth. Em diversos textos, Eleleth é o último dos luminares (Luzes espirituais) de destaque e é o Aeon Sophia, associado a ele, que encontra a escuridão e acaba envolvida na cadeia de eventos que levam ao reinado do Demiurgo neste mundo e à tentativa de salvação que se segue.
Assim, o papel de Aeon de Eleleth, e também de Abrasax, Sophia e outros, é característico da camada exterior do Pleroma, a que toca a ignorância do mundo da Vontade, e que reage para corrigir o erro da ignorância no mundo das coisas materiais. [Wikipédia]

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