domingo, 11 de maio de 2014

Reconhecendo nossos Deuses

Nós vivemos em uma cultura dominada pela teologia judaico-cristã, então qual é a teologia do paganismo moderno, como podemos reconhecer nossos Deuses?

Podemos partir das questões dos descrentes:

Como você sabe que você experimentou a Deus e não alguém ou alguma outra coisa? Como uma pessoa pode reivindicar que reconhece Deus? Sobre que base racional que você poderia alegar ter reconhecido Deus, sabia que era Deus, e, posteriormente, afirma ter encontrado Deus? Que argumentos ou provas, uma pessoa pode usar para afirmar que tudo o que experimentou é necessariamente de qualquer suposto Deus, não importando qual Deus que ele acreditava? Não deveríamos suspeitar que, de todos os possíveis Deuses que as pessoas acreditaram, uma pessoa tenha encontrado exatamente o Deus em que acreditava ou exatamente o tipo de Deus que é popular em sua cultura e então ficou provado?

Eu cito um trecho de um texto meu que pode responder estas questões:

Para que o ateu possa perceber a evidência da existência dos Deuses ele terá que a) desenvolver a percepção; b) abandonar os preconceitos e as doutrinas; c) procurar e desenvolver uma experiência religiosa; d) procurar conhecer e reconhecer os Deuses como são, onde estão.

Podemos recorrer ao texto de Epicuro, muito utilizado pelos descrentes:

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.

Eu cito um trecho de um texto meu:

Há que se explicar muitas coisas quando se fala em Paganismo. Espera-se muitas coisas de nossos Deuses que Eles nunca, ao contrário do Deus Cristão, prometeram. Há que se ler na história, de forma séria e honesta, o que os Deuses Antigos nos davam, o que Eles esperavam de nós e o que nossos antepassados fizeram por Eles.

Uma coisa é certa: os Deuses Antigos nunca prometeram aos seus adoradores uma falsa paz, um falso amor, uma falsa salvação, uma falsa redenção. Eles nunca prometeram que a vida seria mais fácil ou mais branda se nós os adorássemos. Eles nunca nos condenaram nem nos julgaram por nossas falhas, jamais agiram como padrastos que apenas acusa a paternidade quando convém ou quando há uma obediência cega.

Eu gostaria de citar algumas partes do livro de Walter Otto, Teofania:

Dogma algum proclama, em nome desses Deuses, como é que eles devem ser considerados, como eles se posicionam em relação ao homem e o que estes lhes deve. Nenhuma escritura sagrada assinala o que se deve saber e crer. Cada um é livre de pensar a seu modo sobre os Deuses, desde que não deixe de prestar-lhes homenagem segundo os costumes antigos.

Assim sendo esses Deuses não tem qualquer necessidade de uma revelação autorizada como a que serve de apoio a outras religiões. Manifestam-se em todo o ser e acontecer e com tal evidência que, nos séculos de apogeu, à exceção de raros casos, de fato inexistia a incredulidade.

Os Deuses estão onde quer que se passe, faça ou sofra algo decisivo. Esta consciência da presença divina em todo ser e acontecer, esta sensibilidade que não pode falar de nenhum evento significativo sem cogitar da divindade nela atuante, não tem igual em parte alguma do mundo.

A divindade não só é a motivadora de tudo quanto é importante, mas na verdade é quem o faz, vai além das noções religiosas que nos são familiares. Também em situações de outra natureza o fazer humano é propriamente um ato divino. Os Deuses não se manifestam apenas nos fenômenos da natureza e nos acontecimentos fatais; manifestam-se também no que move o homem interiormente, determinando sua atitude e suas ações.

As potências da vida que nós conhecemos como estados de ânimo, inclinações, exaltações, são formas ontológicas da natureza divina que, como tais, não dizem respeito apenas ao homem; operam na terra inteira e em todo o cosmo com seu ser infinito e eterno. O que move o homem no seu íntimo é o ser tomado por divinas potências que, como tais, por toda parte atuam.

O divino em cujo seio o homem sabia-se amparado, neste caso, não é absolutamente outro em que se refugiam aqueles para os quais a realidade do mundo se acha dessacralizada. Pelo contrário, é o que nos rodeia, o meio em que vivemos e respiramos, que nos comove e ganha forma na claridade de nossos sentidos, de nosso espírito. Todas as coisas e fenômenos falam dele, na hora magna em que falam de si mesmos.

Porém o divino é muito mais que todas as coisas, fenômenos e instantes em que sua presença se declara. É a forma de todas as formas, a Essência vivente, disposta a falar imediatamente ao homem, indo-lhe ao encontro, se ele for homem de verdade. De todos os seres vivos, só o homem nasceu com a faculdade de perceber e verificar Formas essenciais. Portanto, sua própria constituição o liga com as formas do Ser e sua hierarquia até, no ápice, a Forma do Divino.

O divino só pode falar ao divino. Portanto, se o homem o pode perceber, ele já está no homem.

Este saber de uma pletora de Deuses que não apenas vive no universo, antes é o universo, [...]. Seria o caso de dizer: tudo que é essencial e verdadeiro manifesta uma forma divina. Porém mais certo seria o contrário: são as formas divinas que tornam manifesto tudo quanto há de essencial e verdadeiro.

Assim como essas divindades revelam ao homem a verdadeira nobreza, a grandeza genuína, não por meio de preceitos e ensinamentos, mas por seu simples ser, assim também, por este ser, franqueiam-lhe as profundezas e lonjuras do mundo.

Em verdade, as realidades do mundo outra coisa não são senão Deuses, presenças e manifestações divinas. O que cada um dos Deuses patenteia é sempre o mundo em sua totalidade. Pois em cada uma das revelações particulares que eles constituem encerram-se todas as coisas.

Eu vou transcrever algumas das minhas reflexões:

Na concepção dos nossos antepassados, Deus é um título, não uma entidade. A palavra Deus tem sua origem de Diaus, que significa brilhante, fulgurante. Em antigas culturas o sinal cuneiforme usado para simbolizar "Deus" era o mesmo de "estrela". Quando nossos antepassados faziam pinturas ou estátuas de seus Deuses, muito comumente eram caracterizados com chifres, com cabeças de animais ou associados a determinadas árvores ou outras plantas, bem como eram associados a fenômenos naturais. Não que os Deuses fossem animais, plantas ou fenômenos naturais. Ou que os Deuses seriam a "explicação" para os fenômenos naturais. Convenções de linguística são convenientes para lembrar que um signo, um símbolo, são recursos para representar [tornar presente] algo, alguém, fato, evento, fenômenos, sem que o signo ou símbolo seja confundido com seu referente. Os Deuses recebiam tais caracterizações para representá-los, em sua personalidade, identidade, atributo, existência, pela manifestação que provocavam na natureza. Da mesma forma como é possível afirmar a existência de ondas e radiações pelos resultados de suas manifestações, então deveria ser aceitável o conceito de que é possível afirmar a existência dos Deuses pelos resultados de suas manifestações - a natureza.

Conclusão:

Ao declarar qual sua crença, você declara mais do que sua crença em Deus ou Deuses, você declara qual é a sua identidade, quais são seus ancestrais, qual é a sua origem, qual é o seu povo. Declare então quem você é, redescubra sua origem, sua tradição, seu povo, sua crença, seus Deuses, redescubra seu lugar no Paganismo.

3 comentários:

Gordinho Malta disse...

Na verdade os deuses não são o universo,mas almas,espiritos,personalidades e facetas de nós mesmos.

roberto quintas disse...

Por acaso a humanidade existia antes do universo? Os Deuses não são meras idéias ou arquétipos. Nós somos manifestação do divino, não o oposto.

Gordinho Malta disse...

Eu não quis dizer que a humanidade existia antes do universo,eu quis dizer que os Deuses existiam antes do universo,antes da humanidade.