segunda-feira, 19 de março de 2012

Idolatria e iconoclastia II

Recentemente acendeu-se a polêmica e a controvérsia  quanto à presença de crucifixos em repartições públicas. Polêmica e controvérsia inúteis aos olhos deste pagão, pois a proposta de “acabar com a religião” faz tanto sentido quanto propor acabar com a música, a poesia, o teatro.
De um lado, os ateus militantes, rasgando seus jalecos de pretensa racionalidade e cientificismo, clamando que o Estado é laico e portanto - em seu pensamento ficcioso- não pode haver qualquer símbolo religioso em repartições públicas.
De outro, a Igreja Católica e seus lacaios, entoando a mesma ladainha de que estamos em um país de cultura católica, chegando ao exagero de dizer que querem explodir o Cristo Redentor e outras baboseiras.
Em ambos os lados sobram argumentos e faltam razões.
Ateus, retirar os crucifixos das repartições públicas não é promover o Estado laico, mas a iconoclastia. A mera presença dos crucifixos é resultado de circunstâncias [histórica, cultural e social], retirá-los não afetará as circunstâncias. A retirada dos crucifixos não afetará o cerne do problema que impede do Estado brasileiro ser laico de fato, que é o poder e a influência da Igreja. Eu diria mais, irá apenas dar lenha às fogueiras santas que estão aparecendo, em defesa da Igreja, em defesa do "direito de liberdade de expressão, de opinião e de crença", em defesa da "cultura brasileira", etc.
Católicos, preservar os crucifixos não é promover o "direito de liberdade de expressão, de opinião e crença", mas vetá-lo, afinal, dificilmente os senhores irão permitir ou concordar com a presença de símbolos de outras religiões nas repartições públicas. Se os símbolos nas repartiçoes públicas devem ter uma relação com a história, o mais correto seriam símbolos pagãos. Presença que, por sinal, os senhores estão escandalizando, acusando a presença de "estátuas pagãs" da Deusa Themis nos prédios dos fóruns. Os senhores ou estão elogiando o Paganismo latente em nosso Estado, ou estão confundindo arte secular com arte sacra.
O que deveria ser discutido e com ênfase, é o poder e influência da Igreja no Estado. Vemos a resistência da Igreja e acólitos contra os direitos dos gays, vemos uma campanha inquisitorial contra qualquer discussão séria quanto à educação sexual, aos direitos reprodutivos e ao planejamento familiar.
Mal o ano eleitoral teve início e altas autoridades clericais [bispos] manifestam-se contra qualquer debate, discussão, opinião ou visão que divirja do totalitarismo doutrinário versando sobre o aborto.
O Estado brasileiro só será efetivamente laico quando cessar toda e qualquer intromissão ou influência da Igreja na nossa sociedade e na nossa política.
O resto é desperdiçar munição ou vela com santo.

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