quarta-feira, 24 de maio de 2023

Pelo direito de mentir

O Brasil é uma mentira desde sua “invenção” em 1500, como se não houvesse povo aqui antes e como se o que aconteceu não houvesse sido uma invasão portuguesa, e não um descobrimento como muitos gostam de apresentar. É como disse profeticamente o samba da Mangueira de 2019: “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento. Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado...” Em última análise, a mentira sempre fez parte de nossa história, que caso ainda valesse a diferença ortográfica, seria uma estória.

Que nossa história é recheada de mentiras e que muitas vezes, para sobreviver no meio político, muitos insistem em permanecer nesse meio, não é novidade alguma. A novidade desta vez está na institucionalização da mentira: querem que mentir seja um DIREITO, e mais que isso, uma prática totalmente tranquila e sem efeitos sobre quem a pratica. Quase que um dispositivo LEGAL para quem, desprovido da verdade, precisa desqualificar, desonrar e destruir o outro, principalmente quando se trata de disputa eleitoral.

No Brasil, essa história ganhou nome e sobrenome: Fake News, que num bom português deveria ser traduzido como Mentira Cabeluda, pra todo mundo entender. Com seus desdobramentos políticos e jurídicos como o “Lawfare” que, também poderia ser traduzido como “uma mentirinha jurídica pra ferrar alguém” (é o que foi usado com Lula, por exemplo, e ainda será usado contra muitos outros políticos, geralmente da esquerda). E assim vamos caminhando.

Na vivência em sociedade lidamos diariamente com a realidade das mentiras já entranhadas no discurso “civilizatório” do Brasil. Não somos, por exemplo, um país racista. Só “a turma da esquerda” é que vê racismo, por exemplo, quando negros são perseguidos em supermercados, quando um deputado é obrigado a sair de um vôo porque, coincidentemente, seu nome foi sorteado pela Polícia Federal para uma “dura” pública e vexatória e quando uma professora é retirada de um vôo porque “o comandante quis”. Assim como não somos machistas, patriarcais, capacitistas e LGBTFóbicos.

Mas, voltando à legalização da mentira, ao DIREITO público e notório de mentir, não é de espantar que boa parte do Congresso Nacional, que está lá justamente para representar essa “elite do atraso” ou o que há de pior na sociedade brasileira – e que foi eleita em sua maioria exatamente pelo uso pesado de mentiras durante a campanha - esteja lutando para que não seja aprovado um Projeto de Lei que regula as mídias (principalmente redes sociais) para que mentiras não sejam veiculadas. Como assim o governo quer tirar o “sagrado direito” de MENTIR que essa gente hoje tem? “- Isso é ditadura e censura!” dizem os mentirosos de sempre.

Mas, se há algo a se espantar nesse processo, é a participação massiva de um grupo, e um grupo bem robusto dentro do atual Congresso, por esse DIREITO À MENTIRA: a Bancada chamada Evangélica. Isso mesmo! O grupo que ostenta a máxima “e conhecereis a verdade e ela vos libertará” é um dos grupos mais ativos para que esse PL não seja eleito. Eles querem ter o poder e o direito de mentirem “em nome de Jesus!”, porque essa tem sido a prática deles todos esses anos. Eles não sabem dizer a verdade. Todas as pautas e todas as defesas deste grupo são baseadas em MENTIRAS. A Bancada Evangélica, hoje (e digo isso sem dúvida alguma) é a bancada que MAIS MENTE no Congresso Nacional. São Mentirosos por excelência. E com um acréscimo perigoso e nojento: o fazem “em nome de Deus!”

E é verdade! Porque o “deus” e “pai” dessa gente eles sabem muito bem quem é: o diabo. Diabo é uma palavra grega que significa, literalmente, “aquele que divide”, “o que lança divisões”. Pois é justamente esse o trabalho dessa bancada sem vergonha e aproveitadora: dividir o país, lançar mentiras que dividem famílias, grupos sociais e até mesmo igrejas. A bancada que se diz evangélica é uma bancada do mal, diabólica, violenta, sanguinária e que age sempre em defesa da morte e da mentira. Que Deus nos livre algum dia, dessa cambada, ops, bancada.

E que, principalmente, nos livre de um Brasil que mente, mata e odeia “em nome de Jesus”.
Amém!

Fonte: https://revistaforum.com.br/opiniao/2023/5/12/pelo-direito-de-mentir-em-nome-de-jesus-amem-135833.html

terça-feira, 23 de maio de 2023

Terreiro, patrimônio cultural

Por José Olímpio Ferreira Neto e Marley Correia.

As religiões de matriz afro-brasileira têm sido alvo do racismo estrutural ao longo do processo histórico brasileiro. As expressões religiosas, assim como outras manifestações culturais das populações negras e dos povos originários, foram rechaçadas por meio de estruturas normativas proibitivas ou ideologias deslegitimadoras.

A miscigenação dos povos africanos, a luta pelo direito de (r)existir em meio à opressão eurocêntrica e o contato com a cultura indígena, proporcionou, no Brasil, o surgimento de expressões de religiosidade de diversos matizes. O candomblé se destaca entre as religiões afro-brasileiras, sua gênese está em povos distintos, tais como iorubás, bantos e jeje, que cultuam um panteão de entidades, respectivamente, orixás, inquices e voduns.

Os terreiros, nome genérico dado aos espaços de culto dessas tradições, expressam a luta contra o colonizador, integram o legado nacional e africano para a identidade brasileira. Estão por todo o Brasil, com suas peculiaridades locais e entre essa diversidade de expressões é possível citar o tambor-de-mina no Maranhão, o xangô em Pernambuco, e os candomblés e umbandas que, ainda usando esse mesmo nome, organizam-se com suas particularidades em vários estados.

Assim, os terreiros constituem um universo envolto de tradições, danças, cantos, poesias, mitos e rituais. Toda essa representatividade, com seus simbolismos, fazeres e saberes, sagrados, festas e celebrações constituem um patrimônio cultural, com dimensões materiais e imateriais, que podem e devem ser protegidas e fomentadas.

A Constituição Federal de 1988 ampliou o entendimento de patrimônio cultural, saindo do espectro apenas material, que trazia a dicotomia de bens móveis e imóveis. A figura do Tombamento, instrumento de proteção do patrimônio material, deixou de ser única, passando a coexistir com outros instrumentos como os registros, inventários, entre outras formas de proteção e acautelamento possíveis de serem desenvolvidas.

O Terreiro Casa Branca do Engenho Velho, localizado em Salvador (BA), foi o primeiro terreiro tombado pelo Iphan, inscrito nos livros do Tombo Histórico e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 1984. Em seguida, vieram outros, entre eles, Axé Opô Afonjá; Ilê Iyá Omim; Gantois; Alaketu; Bate-Folha; Ilê Axé Oxumaré; Casa das Minas Jeje, em São Luiz do Maranhão, entre outros.

O tombamento é o instrumento de proteção mais antigo, passa de oitenta anos. O Decreto-Lei nº 25/37, estrutura normativa que o regulamenta, foi recepcionado pela constituição democrática de 1988, em seu artigo 216, que prevê a participação cidadã em sua aplicação. Esse instrumento jurídico também pode ser usado em nível estadual e municipal, se previsto em lei. É preciso ressaltar que a figura do tombamento não é o único instrumento para a proteção do patrimônio cultural, nem o mais adequado quando se pensa nos bens imateriais.

O tombamento implica em restrições administrativas sobre o direito de propriedade e se assenta na conservação do bem, proibindo expressamente qualquer intervenção que vise demolir, destruir ou modificar o bem. Além disso, qualquer obra para manutenção com fins de conservar as características originais, exige aprovação do órgão que realizou o tombamento.

No caso dos terreiros, roças e ilès axés de um modo geral, essas exigências podem ser delicadas, uma vez que a natureza dessas manifestações implica em alterações em seu espaço físico. São casas que abrigam famílias e que, por isso, muitas vezes precisam passar por adaptações de suas estruturas.

Outro instrumento possível de aplicação é o registro para salvaguardar o patrimônio imaterial, previsto no Decreto nº 3.551 de 2000. A aplicação desse instrumento aos terreiros teria o objetivo de proteger a prática existente nesses lugares. Ambos os instrumentos, tombamento e registro, parecem ser adequados, basta observar os casos específicos, sem pensar em uma ação padrão. É preciso uma investigação, em diálogo com a comunidade, para verificar qual o instrumento se adequa melhor, ou se é possível e adequado o uso de ambos.

Também não se pode esquecer dos inventários, com igual previsão constitucional. Podendo ser aplicados de forma complementar ou como instrumento de proteção em si. Entre os anos de 2013 e 2015, o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana estabeleceu, entre suas metas, o acompanhamento de processos de tombamento dos terreiros existentes no Brasil, associado à produção do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC).

Além disso, é possível pensar em outras formas de acautelamento conforme prevê o texto constitucional, no artigo 216. Também é possível pensar na criação de instrumentos mais adequados à realidade local, como previsto no texto constitucional sobre as competências dos estados e municípios. Aliado aos instrumentos citados, é fundamental a implementação de uma educação patrimonial, antirracista e antielitista em instituições educacionais formais, ou não, para a formação cidadã que garanta a participação efetiva dos povos minoritários nos processos decisórios para a manutenção e preservação dos bens culturais.

Fonte: https://www.conjur.com.br/2023-abr-30/ferreira-neto-correia-patrimonializacao-terreiros

Orando para Shrek ou Yoda

Até parece uma postagem do Page Not Found ou do Paulo Lopes. Nem o Sensacionalista publicou essa notícia:

Uma influenciadora digital revelou que rezou durante quatro anos para um boneco de Shrek achando que se tratava de uma imagem de Buda.

Segundo a imprensa internacional, a filipina Merlie Tolentino postou em suas redes sociais em outubro de 2022 que acabou rezando, sem querer, para a figura de Shrek sem saber que se tratava do Shrek.

(https://revistaforum.com.br/global/2023/4/27/ela-rezou-para-figura-de-shrek-por-achar-que-era-buda-134965.html)

Mais engraçado, porque foi escrito com seriedade, é o artigo encontrado no Patheos, na seção Evangélica, onde Duncan Pile exorta os cristãos a orarem com o Yoda.

Ele citou um estudo com as práticas de oração e dos personagens de Star Wars, Yoda foi o primeiro. E compara o papel do Yoda com o papel do líder da igreja. Erra duplamente, pois ora descreve Yoda como guru, ora como mentor.

Ele deveria ler Joseph Campbell antes de estabelecer comparações. Yoda é um mestre Jedi, algo conquistado com muito treinamento, esforço e disciplina. Como representante do lado da Luz da Força, o papel dele é de treinar Luke o suficiente para que cumpra com o destino ao qual estava predestinado.

O alicerce e cenário de Star Wars é um mergulho na lenda do herói de mil faces, que é o cerne da obra de Campbell, influenciado por Jung. Mas dificilmente pode ser comparado com a mitologia cristã.

Em tempos modernos, onde impera o consumo de massa, cabe a pergunta. O que é pior, o material ou a figura ser artificial?

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Gênero, doutrina e teoria

Em uma entrevista no dia 10 de março com Elisabetta Piqué, do jornal argentino La Nación, o Papa Francisco tocou no tema do gênero e da teoria de gênero. Francisco esclareceu que ele distingue entre o ministério pastoral para “pessoas que têm diferentes orientações sexuais”, por um lado, e a “ideologia de gênero”, que ele chamou de “uma das colonizações ideológicas mais perigosas”. Na visão de Francisco, a “ideologia de gênero” apaga as diferenças entre homens e mulheres, “fazendo um mundo igual, tudo achatado, tudo igual”.

O comentário é de Rebecca Bratten Weiss, jornalista estadunidense, publicado por National Catholic Reporter, 24-04-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cuidado pastoral do Papa Francisco para todas as pessoas, incluindo as pessoas trans e não conformes ao gênero, é louvável, especialmente em comparação com a forma como os papas anteriores e outras lideranças da Igreja falaram sobre as pessoas LGBTQ.

Em contraste, o Papa Francisco, de acordo com seu estilo pastoral e sinodal, tem demonstrado frequentemente uma disponibilidade a julgar menos e a escutar mais. Depois de séculos de retórica desumana das autoridades católicas, a famosa frase de Francisco “quem sou eu para julgar?” em 2013 marcou uma importante mudança de perspectiva, mesmo que a maioria das lideranças institucionais pareça, na melhor das hipóteses, relutante em seguir seu exemplo e, na pior, determinada a resistir e a se opor a ele.

Mas, embora a abordagem pastoral de Francisco às pessoas trans e não conformes ao gênero seja louvável, seus comentários ainda são potencialmente prejudiciais para essas mesmas pessoas.

Verdade e violência

A violência contra as pessoas LGBTQ está aumentando. Políticos de direita estão promovendo uma legislação que põe na mira os direitos LGBTQ. Nesse contexto cultural, a retórica que liga pessoas trans, não binárias ou que não se conformam ao gênero a ideologias rotuladas como “perigosas” aumenta o risco para esses indivíduos.

Qualquer pessoa que expresse opiniões sobre comunidades já vulneráveis a assédio, exclusão, bullying e violência física precisa pensar cuidadosamente sobre o efeito de suas palavras. Isso diz respeito especialmente ao chefe de uma das religiões mais poderosas do mundo.

Um argumento comum é que “falar a verdade não é sinônimo de ódio” ou que as pessoas de fé são obrigadas a “falar a verdade com amor”, no sentido de que os cristãos precisam defender a heteronormatividade e o gênero binário.

Mas há um problema mais fundamental na ideia de que somos obrigados a defender o gênero binário. Ou seja, que esse não é um relato preciso da realidade.

Fui treinada para acreditar que sim. Em minhas aulas de filosofia na faculdade, aprendi que só pode haver dois sexos, que a identidade de gênero se baseia exclusivamente no sexo biológico, e que a distinção homem/mulher não diz respeito apenas a características físicas, mas também a essências imutáveis do “masculino” e do “feminino”, enraizadas na mente imutável de Deus, que molda toda a natureza.

Até eu mesma lecionar filosofia e preparar uma aula sobre pessoa, sexo e gênero, não tinha questionado essas suposições. Mas sempre fiz questão, ao trabalhar em um novo material do curso, de verificar as pesquisas acadêmicas reconhecidas, ciente de que os estudos poderiam ter se desenvolvido, que a minha memória poderia estar com defeito ou até mesmo que eu poderia ter sido ensinada de modo incorreto. Foi então que percebi que nunca havia sido remetida a discussões filosóficas sobre sexo ou gênero utilizando dados das ciências naturais.

Então, comecei a ler sobre como a masculinidade, a feminilidade, o sexo e a reprodução ocorrem em diferentes espécies e reinos no mundo natural, e o que eu descobri foi que a “verdade” que eu me senti obrigada a defender era uma fantasia simplista.

Masculino e feminino

As categorias de masculino e feminino, do modo como existem na natureza, não são “ou-ou” nem um binário absoluto. Ao invés disso, elas residem em um espectro. A masculinidade e a feminilidade se manifestam de maneiras diferentes, dependendo da espécie. É difícil definir qualquer conjunto de condições ou características que poderíamos apontar como sine qua non para identificar um organismo como um ou outro. Além disso, algumas espécies podem mudar de sexo. Outras são hermafroditas.

Na espécie humana, as categorias de masculino e feminino também existem em um espectro. Não existe um agrupamento singular de condições necessárias ou suficientes para a identidade masculina versus a feminina. Portanto, os órgãos sexuais não podem ser usados como determinantes absolutos da identidade de gênero.

Os cromossomos também não funcionam como determinantes, porque os indivíduos podem ser cromossomicamente masculinos ou femininos, embora apresentem características tipicamente associadas ao sexo oposto. Pessoas intersexuais existem, e alguns pesquisadores argumentam que as condições intersexuais são mais comuns do que se acreditava.

O gênero binário que eu considerava há muito tempo uma forma de categorizar todos os seres vivos era – como eu percebi – mais um marcador taxonômico geral que sinaliza um conjunto flutuante de características em um lado de uma escala. Como uma espécie de abreviação organizacional, ele é útil.

Mas isso não significa que “masculino” e “feminino” sejam categorias metafísicas fixas e imutáveis ou mesmo categorias naturais fixas e imutáveis. O que as pessoas chamam hoje de “ideologia de gênero” está mais próximo de refletir com precisão a realidade do que a visão binária tradicional com a qual eu cresci.

Sexo e gênero

O debate sobre gênero é enquadrado pelos cristãos tradicionalistas como uma luta entre “realidade” e “ideologia”. Mas a Igreja já tem uma ideologia de gênero preferencial, complementarista, essencialista e comprometida com uma visão binária rígida de todo o mundo natural. O verdadeiro debate não é sobre se a ideologia de gênero é ruim, mas sobre qual ideologia sobre gênero se alinha melhor com a realidade.

Ainda há muito que não entendemos sobre sexo e gênero, no mundo natural e nos humanos. Mas uma visão de gênero como algo que existe em um espectro e que permite o fluxo e a mudança corresponde mais de perto àquilo que sabemos. Também é mais coerente com os ensinamentos do Evangelho de Jesus sobre a igualdade e a inclusão radicais, e com uma compreensão da pessoa como dinâmica, capaz de crescimento e de transformação, refletindo a criatividade divina.

O que o Papa Francisco chama de “ideologia de gênero” reconhece e honra a complexidade e a singularidade de cada indivíduo, as muitas maneiras diferentes pelas quais cada ser criado reflete a imagem de Deus.

Jesus ensinou um Evangelho da igualdade e da inclusão radicais e fundou uma Igreja na qual as hierarquias tradicionais e as estruturas de poder foram derrubadas. Ele ensinou que os últimos devem ser os primeiros, que quem deseja liderar precisa aprender a servir, e que todos nós, independentemente do gênero, da etnia ou da casta social, podemos igualmente apresentar a imagem de Deus ao mundo.

Nos séculos seguintes, forças poderosas tentaram repetidamente cooptar os ensinamentos do Evangelho de Jesus e subvertê-los a serviço dos poderosos e dos privilegiados. E, repetidamente, surgiram movimentos de reforma, para chamar a Igreja de volta à sua missão e ministério.

A Igreja mudou antes. Os ensinamentos magisteriais se desenvolvem. Talvez seja hora de o ensino da Igreja se desenvolver mais uma vez, para refletir melhor a verdade e oferecer cuidado pastoral àquelas pessoas que não se encaixam perfeitamente nas categorias artificiais de gênero nas quais as nossas lideranças eclesiais parecem fixadas.

As nossas irmãs e irmãos LGBTQ são vulneráveis a novas ameaças de violência anticristã e antivida. Os católicos que se dizem defensores da verdade e testemunhas vivas do Evangelho não devem aumentar essas ameaças. E as lideranças da Igreja, incluindo o Papa Francisco, podem muito bem se perguntar se sua postura em relação às pessoas trans está realmente de acordo com os ensinamentos de Jesus.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/628188-a-ideologia-de-genero-da-igreja-catolica-e-complementar-e-binaria-mas-nao-e-assim-que-a-natureza-funciona

Narcopentecostalismo

Os traficantes que dominam as favelas de Parada de Lucas, Vigário Geral e outras três comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro elegeram referências bíblicas como seus principais símbolos.

A facção se autodenomina “Tropa de Arão” — uma figura cristã, irmão de Moisés. A estrela de David foi espalhada em muros e bandeiras nas entradas das favelas, e está até em um neon no alto de uma caixa d’água na comunidade Cidade Alta.

O território foi batizado, segundo a polícia, de “Complexo de Israel” pelo chefe da Tropa — uma referência à “terra prometida” para o “povo de Deus” na Bíblia.

O grupo criminoso comandava inicialmente o tráfico em Parada de Lucas e estendeu seu domínio para as comunidades vizinhas. Hoje, a Tropa controla o tráfico nas favelas de Cidade Alta, Pica-pau, Cinco Bocas e Vigário Geral, de acordo com a polícia e centros de pesquisa em segurança pública.

O Complexo de Israel é emblemático de um fenômeno que alguns pesquisadores têm chamado de “narcopentecostalismo” — não apenas o surgimento de traficantes que se declaram evangélicos, mas a forma como isso influencia a atuação das facções na disputa por territórios no Rio de Janeiro.

“O termo neopentecostalismo tem sido empregado por diversos pesquisadores que analisam o fenômeno de narcotraficantes que assumem, de forma explícita e aberta, religiões neopentecostais, inclusive em suas atividades criminosas”, explica a cientista política Kristina Hinz, pesquisadora do Laboratório de Análise da Violência da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e doutoranda na Free University, de Berlim.

Ou seja, além da conversão pessoal, a religião também tem um papel estratégico para manutenção do poder e na disputa por territórios, segundo os pesquisadores.

A comunidade evangélica tradicional rejeita fortemente a ideia de que um traficante possa ser evangélico.

“Um pastor sério não vai aceitar que uma coisa que é ilegal na lei humana e imoral seja associada a cristo”, diz o pastor Carlos Alberto, que atua há 17 anos como pastor na favela da Cidade de Deus e antes era, ele próprio, traficante. “O pastor tem que mostrar para a pessoa que ela pode se arrepender, mas para ser aceito como evangélico ela tem que largar tudo que é contrário aos princípios bíblicos, morais e éticos.”

No entanto, os traficantes considerados parte do neopentecostalismo não só se declaram membros na religião, mas de fato têm uma vida religiosa, apontam pesquisadores.

O líder do tráfico no Complexo de Israel é alvo, por exemplo, de 20 mandados de prisão por homicídio, tortura, tráfico, roubos e ocultação de cadáver. Ao mesmo tempo, ele se declara evangélico, espalhou referências religiosas pela região e tem amigos pastores, aponta a polícia.

“São traficantes que ao mesmo tempo participam da ‘vida do crime’ e da vida religiosa evangélica, indo a cultos, pagando o dízimo e até mesmo pagando por apresentações de artistas gospel na comunidade”, afirma Kristina Hinz.

Essa influência de religiões sobre as dinâmicas de poder do tráfico sempre existiu, dizem pesquisadores, e não é algo particular ao protestantismo. Mas a conversão de traficantes ao pentecostalismo é um fenômeno que tem características próprias, em um país que caminha para ter maioria evangélica na próxima década.

Nos últimos 30 anos, a sociedade brasileira tem se tornado mais evangélica como um todo — segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de evangélicos subiu 61% entre 2000 e 2010.

Dados de 2020 de pesquisa feita pelo instituto Datafolha apontam que 31% da população era evangélica nesta data, com católicos compondo 50%.

Se o crescimento continuar no ritmo atual, em 2030 os evangélicos chegarão a 40% da população, segundo uma projeção do pesquisador José Eustáquio Diniz Alves, doutor em Demografia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Para a população das favelas, as igrejas pentecostais passaram a ter uma importância significativa. As redes evangélicas oferecem segurança e apoio material, espiritual e psicológico para os moradores, aponta a pesquisadora Christina Vital Cunha em Oração de Traficante: uma etnografia.

Foi neste contexto que se deu a aproximação dos traficantes desta religião, diz o sociólogo Doriam Borges, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

“Essa conversão ocorreu tanto pelo fato de parte dos traficantes terem nascido em lares evangélicos ou por terem familiares religiosos, bem como por estarem internados no socioeducativo ou em prisões e terem sido alvo dos projetos missionários evangélicos nessas instituições”, explica.

Nesta união do tráfico com a religião, doutrinas neopentecostais se misturam às estruturas de poder das facções.

Em muitos locais, como no Complexo de Israel, por exemplo, ela é “decisiva para a governança e a manutenção do poder de grupos criminosos”, diz Kristina Hinz.

“A apropriação pelo tráfico da gramática de guerra reconhecida nas favelas e empregada por algumas igrejas neopentecostais proporciona uma narrativa de legitimidade religiosa para a expansão violenta do território”, afirma a pesquisadora.

A pesquisadora afirma que, na competição pelo mercado de venda de drogas, a adaptação de uma linguagem e de símbolos familiares para a população permite que os traficantes apresentem “confrontos armados com grupos concorrentes de tráfico de drogas como ‘guerra espiritual’ ou mesmo como uma ‘guerra santa’ contra demônios e inimigos religiosos”.

O chefe do tráfico no Complexo de Israel é também um dos líderes do Terceiro Comando Puro (TCP), segundo a polícia.

O TCP é hoje o terceiro maior grupo armado do Rio, atrás das milícias e do Comando Vermelho (CV), de acordo com o estudo Mapa dos Grupos Armados do Instituto Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O complexo faz parte do território do TCP, que é um rival histórico do CV. Na disputa por territórios, o TCP fez alianças com milícias, apontam as pesquisas de Hinz e Borges.

Os especialistas afirmam ainda que as estrelas de David no Complexo de Israel ou a pichação “Jesus é o dono do lugar” em um terreiro de umbanda destruído por traficantes são mais do que símbolos religiosos.

São uma “forma de delimitar espaços de poder e de domínio do tráfico nos territórios”, como aponta Hinz.

“Quando esses traficantes evangélicos ordenam o fechamento de terreiros, além do racismo e intolerância religiosa, estão demonstrando seu poder, força e domínio no território. Ou seja, esse grupo de traficantes utiliza a gramática evangélica como instrumento de dominação da população residente nas favelas.”

No entanto, Vital Cunha pontua que nem sempre o fato de um traficante ser evangélico resulta na retirada de santos católicos ou na perseguição de religiões de matriz africana.

Ela descreve em sua pesquisa casos em que os próprios moradores fazem esse tipo de constrangimento e intolerância.

Se a linguagem religiosa é familiar para a população, a rejeição da ideia de que traficantes possam ser de fato cristãos é muito forte na comunidade evangélica mais tradicional, como explica a pastora e pesquisadora Viviane Costa, autora de Traficantes Evangélicos.

Alguém que vive do crime, nessa visão, não cumpriria os “requisitos de uma verdadeira conversão”, diz ela.

Para muitos cristãos, “ser evangélico” não significa só aderir às crenças da religião, mas ter atos e um estilo de vida de acordo com certos preceitos, explica o sociólogo Diogo Silva Corrêa, autor do livro Anjos de Fuzil, resultado de sua pesquisa sobre as relações entre o crime e a religião na Cidade de Deus, favela na Zona Oeste do Rio.

Ou seja, para alguém ser evangélico, não basta acreditar, é preciso viver de uma certa forma — a ideia de um criminoso evangélico seria, portanto, inaceitável.

"Se a pessoa não procurar mudar, não tem como se intitular cristão — e isso vale para todos, para o adúltero, para o brigão, para quem tem vício, não só para o traficante", diz à BBC o pastor Carlos Alberto, de uma igreja neopentecostal na Cidade de Deus.

"Durante muito tempo, os evangélicos foram respeitados justamente porque não existia aquela coisa de ser 'não praticante', como os católicos, o crente era até considerado chato, cafona", diz ele.

Os pastores coniventes com o tráfico são uma minoria, defende ele, mas é algo problemático porque é uma minoria que "tem forte influência sobre o rebanho".

"O pastor sabe que é errado, mas alguns aceitam por causa dos benefícios, o traficante paga por uma cruzada (evento religioso aberto), faz uma reforma na igreja", diz ele. "É uma visão errada de que Deus vai transformar uma maldição em benção, um dinheiro maldito em algo positivo."

"Mas é algo que faz a igreja perder credibilidade", diz ele. "Se você percebe que o traficante quer proteção, quer usar a religião como um amuleto, mas não quer largar o crime, não pode se associar."

"Como você vai ficar conivente quando a lei do tráfico é muito rígida, é olho por olho, não existe compaixão?", diz.

Carlos Alberto afirma que o processo de aceitar pessoas que só querem os benefícios de se dizer religioso mas não mudam de vida é algo que acontece também no meio artístico, no futebol, no meio empresarial e na política.

"Pastores que aceitam aparecer com certos políticos, que são coniventes com certas práticas, não me representam."

No entanto, Viviane Costa explica que, conforme mais e mais brasileiros se tornam protestantes, a conversão nos moldes “mais tradicionais” é menos comum — e pessoas se consideram evangélicas mesmo que não se comportem de acordo.

Ela lembra do fenômeno das celebridades evangélicas citado por Carlos Alberto. “Mesmo alguns políticos e celebridades que se declaram cristãos reformados não seriam considerados verdadeiramente evangélicos levando em conta a expectativa mais tradicional”, diz.

“Fui bastante criticada por falar em ‘traficantes evangélicos’, mas não fui eu que os nomeei como evangélicos — é assim que o fenômeno é conhecido e como eles próprios se identificam”, diz Costa. “O livro é o resultado de uma pesquisa, e como pesquisadora eu estou descrevendo um fenômeno, não fazendo uma análise teológica se a pessoa realmente é convertida.”

O TCP é conhecido pelos desaparecimentos de pessoas que se opõem à facção, de acordo com a polícia.

Desde antes da criação do Complexo de Israel, moradores relatam à imprensa desaparecimentos de familiares e amigos em favelas dominadas pela facção.

Muitas não procuram a polícia nem relatam oficialmente os desaparecimentos por medo, segundo observadores de centros de pesquisa sobre violência.

Em alguns lugares, no entanto, alguns traficantes evangélicos têm um grande respeito por pastores de igrejas nas favelas que dizem não aos grupos armados, diz Costa.

“São considerados verdadeiros homens santos, porque realmente aderiram ao caminho correto”, afirma.

Vital Cunha, uma das primeiras pesquisadoras a estudar o tema, descreve em seu trabalho como notou a aproximação de traficantes e pastores em busca de proteção espiritual.

Na favela de Acari e de Santa Marta, descreve ela em seu trabalho, o rádio de comunicação dos traficantes apitava todos os dias às 5h30 com uma oração do chefe do tráfico.

Ele falava ao mesmo tempo com Deus, pedindo proteção, e dava orientação, pedindo para os subordinados matarem menos e dizendo para os líderes comunitários cuidarem das pessoas.

A pesquisadora Viviane Costa, no entanto, é contra falar em “narcopentecostalismo”. Ela diz que isso passaria a ideia de que a religião só passou a ser um fator importante na dinâmica de poder do tráfico com o surgimento dos traficantes evangélicos.

Na realidade, diz ela, “a religião está presente na dinâmica do tráfico desde a sua gênese". Ela defende que o mais correto seria falar em "narcoreligião".

Nas décadas de 1980 e 1990, as facções do narcotráfico eram amplamente associadas a religiões afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda, diz Doriam Borges.

Isso foi, inclusive, retratado no cinema: a passagem no filme Cidade de Deus em que o traficante muda de nome após ter o corpo fechado em um ritual religioso é uma das mais conhecidas.

“Dadinho é o c*, meu nome é Zé Pequeno!”, diz o personagem, antes de atirar em outra pessoa.

Os traficantes construíam murais e altares em seus territórios, destaca Costa.

“Em alguns casos, quando um traficante derrubava um chefe do tráfico ou quando ia conquistar um outro território, a divindade do traficante que tinha sido derrotada também abria lugar para a divindade do que assumia. Ou seja, o elemento religioso já fazia parte da dinâmica de poder.”

Reportagens do jornal O Globo na década de 1990 descrevem casos de imagens de entidades e de santos decapitadas durante disputadas armadas — algo que acontecia pela mão dos traficantes rivais e também da polícia.

O preconceito contra as religiões afro-brasileiras já era presente desde então, explica Borges.

“As religiões afro brasileiras, desde suas origens, têm sido estigmatizadas. E os traficantes vinculados a essas religiões eram os personagens perfeitos usados pela sociedade e pelo Estado, em especial as polícias, para a vinculação desse grupo com o Diabo, com o mal.”

Segundo o pesquisador, esses símbolos religiosos eram frequentemente destruídos durante as operações policiais.

Em Oração de Traficante, Vital Cunha descreve como as pinturas de santos e entidades do candomblé passaram lentamente a ser substituídas por trechos bíblicos na favela de Acari, no Rio de Janeiro, onde ela passou mais de uma década fazendo pesquisa.

Ou seja, a dinâmica religiosa, que já existia, passou a ser modificada para incorporar a cultura neopentecostal que surgia.

Hoje, a criação do Complexo de Israel é exemplo dos contornos que essa relação entre tráfico e religião assumiu, diz Kristina Hinz.

Exemplo, aliás, que é copiado por outros traficantes: segundo a Polícia Civil, o chefe do tráfico de uma favela em Madureira, na Zona Norte do Rio, pretende tomar os territórios de rivais para criar uma grande área sob seu domínio que chamaria “Complexo de Jerusalém”.

Fonte: https://g1.globo.com/google/amp/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/05/12/narcopentecostalismo-traficantes-evangelicos-usam-religiao-na-briga-por-territorios-no-rio.ghtml

domingo, 21 de maio de 2023

Intimidação e assédio

ESSES DIAS, LI UMA DAS COISAS mais tristes dos últimos anos. Era a história do reencontro de Géssica Amorim, idealizadora do Coletivo Acauã, com dona Francisca dos Santos, de 73 anos, que conheceu em 2021. Francisca era a última umbandista da comunidade quilombola Teixeira, em Betânia, no sertão de Pernambuco. Estava tudo em uma matéria publicada pelo Acauã em parceria com a Marco Zero Conteúdo.

Dona Francisca era a última, não é mais.

Pressionada por uma maioria de neopentecostais presente no povoado com cerca de 300 habitantes, ela abandonou a umbanda, que a acompanhou durante toda a vida. Agora, ela frequenta a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada em 1998 em Sorocaba, São Paulo, pelo pastor Valdemiro Santiago, dono de 6 mil templos em todo país e de uma série de processos na justiça. “É ruim você ser julgada por um mal que não fez. Eu sofria muito”, disse ela para Géssica ao explicar sua forçada conversão.

O texto sobre o processo violento enfrentado por Francisca ainda estava na minha tela quando soube da exclusão da Fogueira de Xangô, criada pelos povos de terreiro de Caruaru, na programação junina. A festa de São João do município é um dos maiores eventos de Pernambuco.

Uma semana antes, através de um trabalho realizado por estudantes da UFPE, na qual sou docente, também soube que a Feira de Ervas, que faz parte do complexo da famosa Feira de Caruaru, vem sofrendo há anos reiterados constrangimentos provocados por pessoas e grupos neopentecostais. Comerciantes que trabalham no local e os clientes que circulam por ali, uma boa parte praticantes de religiões afro-brasileiras, são coagidos e expostos como “demoníacos”.

“Se o cliente for uma pessoa que ainda está se iniciando na religião e é assediado, nem entra aqui na loja, fica intimidado, com medo de ser exposto. É comum que as pessoas passem, olhem e se benzam”, disse a pedagoga e comerciante Maria Eugênisa Azevedo da Silva, dona da Barraca Da Paz, há seis anos negociando na Feira de Ervas caruaruense. Ela revela que os constrangimentos impostos por membros de congregações neopentecostais da cidade são comuns no corredor no qual estão lojas como a sua, com direito a sessões de oração e tentativas de conversão como estratégias dos evangélicos.

Essas ações têm causado impacto nos negócios de quem trabalha ali, afugentando compradoras e compradores. Maria é interpelada pela arrogância de quem instrumentaliza Cristo constantemente. “Já aconteceu comigo. A pessoa vem aqui e tenta me converter, vem dizer que minha prática é pecadora, vem com lição de moral.” Ela é católica e conhece bem o uso de ervas e chás procurados não apenas por praticantes da umbanda, jurema ou candomblé, mas pela população em geral, que busca as propriedades medicinais das raízes e cascas. Em sua loja, ainda vende produtos como pulseiras, figas, tarôs, garfos de Exu, defumadores, guias, Shivas e flechas.

Ela definiu os constantes assédios como “pura ignorância” e me contou que uma colega de uma cidade próxima, Chã Grande, teve a casa e o terreiro completamente queimados por um morador local há dois anos. Os atos de intolerância religiosa cresceram no Brasil ano passado, de acordo com dados da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, a Renafro.

Não é a primeira vez que a Feira de Ervas é tratada de maneira distinta, o que é significativo em relação à vulnerabilidade de quem negocia ou compra ali. No documento que declarou a Feira de Caruaru como Patrimônio Imaterial pelo o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2006 (título revalidado em 2021), lemos:

“Esse lugar apontado como objeto de registro pelo Iphan, corresponde, hoje, a um conjunto de equipamentos e feiras formado pela Feira do Gado; pela Feira do Artesanato, aí incluído o Museu do Cordel – ponto de exposição, produção e reprodução de expressões artísticas populares; pelos Mercados da Carne e da Farinha situados no Parque 18 de Maio; e pela chamada Feira Livre com todas as suas ‘feiras’ ou subdivisões, inclusive a das confecções populares e a chamada ‘feira’ do Troca-Troca”. Apesar de ter sido uma das primeiras práticas a dar origem ao conglomerado comercial cuja primeira formação remonta ao final do século 18, a feira de ervas, com seus orixás, cascas de caju roxo, Pombagiras e Zé Pilintras, não foi citada no texto.

Pouco depois de saber do que tem acontecido na feira, com Francisca ainda reverberando na minha cabeça, apareceu o caso do motorista de Uber na Baixada Fluminense que se recusou a levar mulheres e crianças vestidas com roupas ritualísticas do candomblé.

Dizem que algumas coisas, de tanto serem mostradas, vão ficando invisíveis. Pela atual naturalização da violência religiosa no país, me parece que é o caso.

Falamos há tempos da intolerância e racismo que incidem sobre práticas afro-indígenas brasileiras. O artigo 5º, inciso IV da Constituição Federal assegura que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. No Código Penal Brasileiro, o artigo 208 informa que é crime “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

Mas, no contexto de enorme influência de parlamentares da bancada da Bíblia e de pastores a exemplo de Valdemiro Santiago, os atos criminosos se dão de maneira furtiva, sub-reptícia, na maioria das vezes se utilizando de sorrisos e da palavra “salvação”. Ela sufoca e mata principalmente a fé com raízes africanas ou indígenas: o fato é que, a despeito de denúncias e exposição de casos, até agora essa cultura só ganhou corpo, e não retrocedeu.

O caso de dona Francisca é a síntese de uma espécie de nova colonização pela qual principalmente as áreas rurais mais pobres e os interiores do país vêm passando.

Mais recente, um outro “esquecimento” na mesma cidade de Caruaru, com cerca de 370 mil habitantes, e que aqui nos indica a violenta condição da religiosidade de raízes não-brancas no país, dá o tom do quanto a população desse segmento é perigosamente apagada no âmbito institucional. Depois de figurar, por meio de muita negociação, durante seis anos na programação do São João caruaruense, a Fogueira de Xangô estava ausente na primeira edição da enorme lista de atrações. Enquanto isso, na chamada Noite Gospel, estrelas como Aline Barros e Anderson Freire figuravam no palco principal da festa, com capacidade para cerca de 100 mil pessoas.

A reação da Associação dos Povos de Terreiro do município veio rapidamente: Mãe Rose de Oxum, neste vídeo, fez um pedido público pela inclusão da Fogueira de Xangô entre as mais de mil atrações previstas (este ano, são dois meses de programação junina). “E aí, Fundação de Cultura? E aí, Prefeitura de Caruaru?”, cobrou.

“Todo ano é uma complicação. A fogueira existe desde 2014, é resultado de uma política da associação e da gestão passada, um trabalho coletivo. Não fomos chamados, porque a prefeitura alegou que não tínhamos um projeto, mas nunca houve necessidade de participarmos de edital. Abrimos um diálogo com a Fundação de Cultura e fomos incluídos, mas teríamos que realizar a celebração ou no Polo das Quadrilhas ou no Morro Bom Jesus”, contou o babalorixá Jeremias de Oxum, da comissão de trabalhos da associação. Os dois locais citados por ele recebem menor atenção midiática e popular do que o Polo Azulão, no qual a Fogueira de Xangô costuma ser realizada.

A proposta foi recusada: ou a celebração aconteceria no espaço de sempre, onde também acontece a Noite Afro, ou no Palco Principal, onde cantarão artistas gospel. A prefeitura cedeu. Depois da explicação “técnica” institucional, a estratégia dos Povos de Terreiro será a busca pela oficialização da celebração no calendário junino – ou seja, para que ela seja definitivamente integrada à programação –, além de um registro jurídico da mesma. Importante dizer que a fogueira, em si, não é erguida no espaço público, mas em um terreiro, por medidas de segurança e saúde.

“Quando se trata de religiões de matriz africana, a gente tem sempre que correr atrás. Normalmente, você não vê políticos de renome adentrando os terreiros de candomblé, como vemos nos templos e igrejas. Do mesmo jeito, não vemos o povo de terreiro na porta das igrejas entregando oferenda para os fiéis e dizendo: ‘tome isso aqui, que Xangô vai lhe abençoar'”, comentou Jeremias.

Ele acredita que o diálogo aberto com a Fundação de Cultura após o caso vai garantir menos percalços nas próximas festas. Vice-presidente do órgão, o radialista Herlon Cavalcanti contradiz a associação: ele afirmou que a celebração jamais esteve fora do calendário. Também me enviou um áudio informando que a celebração será no Polo das Quadrilhas, e não no Azulão. Enviei perguntas para confirmar se as informações passadas estão corretas, mas, até o fechamento da coluna, não obtive resposta.

A disparidade entre as várias leis que, em tese, asseguram a liberdade religiosa no Brasil e o que está acontecendo é gritante. O papel diz uma coisa, mas o que vive não só dona Francisca, mas as centenas de populações quilombolas do país constrangidas a se converterem, mostra outra. Além da já citada Constituição e do Código Penal, o Estatuto da Igualdade Racial informa, em seu capítulo III, quatro artigos que asseguram direitos dos povos de terreiro.

O artigo 24, por exemplo, afirma o “direito à liberdade de consciência e de crença e ao livre exercício dos cultos religiosos de matriz africana”, compreendendo “a prática de cultos, a celebração de reuniões relacionadas à religiosidade e a fundação e manutenção, por iniciativa privada, de lugares reservados para tais fins”. Também, “a celebração de festividades e cerimônias de acordo com preceitos das respectivas religiões”.

O quarto parágrafo, em tese, deveria proteger a Feira de Ervas na qual Maria negocia: ele assegura “a produção, a comercialização, a aquisição e o uso de artigos e materiais religiosos adequados aos costumes e às práticas fundadas na respectiva religiosidade, ressalvadas as condutas vedadas por legislação específica”.

Há ainda a Lei 7.716/1989, sobre os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, frequentemente relacionados às religiões afro-indígenas-brasileiras . De acordo com o artigo primeiro “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

No entanto, os meios para que as pessoas (principalmente aquelas inseridas em contextos efetivamente ou simbolicamente mais distantes da letra da lei) efetivem suas denúncias sobre racismo ou intolerância religiosa não são simples, nem popularizados. As ouvidorias dos Ministérios Públicos, por exemplo, recebem as denúncias e posteriormente as distribuem para as promotorias com atribuição específica de investigar, como me informou Ivana Botelho, procuradora e coordenadora do Grupo de Trabalho Racismo do MP de Pernambuco.

Para ela, não é possível afirmar que os casos de assédio e racismo religioso aumentaram no Brasil (a despeito de números como os da Renafro). “Mas a publicização desses eventos, sim. Isso, por um lado, demonstra que parte da população não admite, de forma passiva, esse desrespeito.” A promotora também apontou que uma denúncia de intolerância pode vir repleta de vários crimes. “Tudo depende do que acontecer, da forma como a agressão se dá. Cada caso é analisado individualmente e definido, pela promotoria que estiver à frente da investigação, de acordo com os elementos e informações coletadas, os crimes ali envolvidos”.

Infelizmente, o MPPE não monitora as mudanças de religião em nenhuma comunidade, nem mesmo nas quilombolas. Elas, hoje, mostram como apagamento da própria história, da própria vida, acontecem em nome de um Jesus moldado de acordo com interesses próprios, oferecendo não cuidado e irmandade, mas intolerância e destruição.

Fonte: https://www.intercept.com.br/2023/05/10/neopentecostais-intimidam-adeptos-de-religioes-afro-com-assedio/

Os textos dos caixões

Uma das descobertas mais fascinantes do antigo Egito foi a descoberta dos Textos dos Caixões Egípcios, uma coleção de feitiços e encantamentos funerários fascinantes inscritos em caixões, sarcófagos e outros objetos funerários.

Escrito durante o período do Império Médio, esses textos oferecem um guia abrangente para o falecido em sua jornada pela vida após a morte, dando-nos um vislumbre da importância da religião, hierarquia social, moralidade e alfabetização na antiga sociedade egípcia. Traduções em andamento dessa descoberta ajudaram os historiadores a desvendar uma riqueza de conhecimento sobre a fascinante civilização e o legado duradouro do antigo Egito.

A descoberta dos Textos do Caixão Egípcio revelou um tesouro de mais de 1.000 feitiços e encantamentos funerários antigos, gravados em caixões,  sarcófagos e outras relíquias funerárias durante o  período do Império Médio  (2055-1650 aC). Esses textos místicos foram escritos como guias celestiais, criados para proteger o falecido em sua jornada pela vida após a morte.

Ao contrário de outras práticas funerárias realizadas no antigo Egito durante este período, os Textos Egípcios do Caixão abrangiam um público mais amplo e não se limitavam apenas à elite. Indivíduos de classe média e suas famílias puderam contratar sacerdotes e escribas para inscrever esses textos poderosos em seus vasos funerários para garantir uma passagem segura para a vida após a morte. Havia também uma variedade mais extensa de feitiços e  encantamentos mágicos  escritos nos Textos do Caixão em comparação com os textos funerários anteriores.

Embora a origem enigmática dos Textos do caixão egípcio permaneça um mistério, acredita-se que um grupo de sacerdotes e escribas , bem versados em hieróglifos e nas práticas religiosas do antigo Egito da época, foram os responsáveis por sua criação inicial. 

Um aspecto único dos Textos do Caixão é sua escrita hieroglífica, que foi projetada especificamente para os olhos dos mortos e não dos vivos.

Embora tenham sido eventualmente sucedidos pelo mais intrincado e expansivo Livro dos Mortos durante o período do Novo Império (1550-1070 aC), os Textos do Caixão foram usados como fonte abundante de inspiração para a futura literatura funerária.

Os Textos do Caixão contêm vários temas diversos, incluindo salvaguardar o corpo, reviver os sentidos, proteger a alma, o julgamento dos mortos, ascender à divindade, invocar divindades e realizar oferendas e sacrifícios. Feitiços para preservar a forma física do falecido foram usados para interromper a decadência e garantir que o corpo permanecesse sem mácula em sua jornada para a vida após a morte . Então, feitiços para despertar os sentidos, incluindo aqueles para abrir os olhos, ouvidos e boca, foram usados para permitir que o falecido percebesse completamente e viajasse para a vida após a morte.

Para proteger a alma, os Textos do Caixão continham feitiços para protegê-la de danos e evitar a aniquilação na vida após a morte. Feitiços relativos ao julgamento dos mortos garantiam avaliações justas e reconhecimento de boas ações durante a vida do falecido. Algumas tumbas também continham feitiços que auxiliavam na transformação do falecido em um ser divino para elevar seu status na vida após a morte, permitindo-lhes ingressar no panteão celestial.

Feitiços invocando divindades reverenciadas, como Osíris, Ísis, Horus e Ra, também foram incluídos nos Textos do Caixão, buscando a proteção dos deuses sobre o falecido. Muitos também continham instruções para oferendas e sacrifícios, que forneceriam sustento para os falecidos na vida após a morte e mostrariam sua devoção aos deuses.

Em última análise, os Textos do Caixão serviram como um roteiro abrangente para o falecido em sua jornada sobrenatural em todas as capacidades.

Os Textos do Caixão Egípcio foram uma descoberta essencial para os historiadores que pesquisavam o antigo Egito e suas crenças religiosas. Esses textos oferecem uma compreensão significativa das convicções e costumes da antiga civilização egípcia e ajudam a revelar a proeminência da vida após a morte e o envolvimento das divindades no ciclo de morte e renascimento. Eles também fornecem informações sobre a estrutura social e o significado da posição social no antigo Egito.

O uso de feitiços e feitiços para salvaguardar a forma física do falecido ilustra a ênfase colocada na aparência física e no corpo corpóreo na antiga cultura egípcia. As diretrizes para oferendas e sacrifícios às divindades também ilustram a importância da religião e dos seres divinos na vida cotidiana. Eles transmitem não apenas a crença na vida após a morte, mas também a necessidade de fornecer sustento para os que partiram enquanto navegam na vida após a morte.

Os Textos do Caixão também ilustram o conceito de julgamento após a morte e o valor das ações virtuosas durante a vida. Isso implica que a moralidade e a conduta ética eram altamente estimadas na antiga civilização egípcia.

Em termos de linguagem, os Textos do Caixão exemplificam o uso de hieróglifos e a progressão da linguagem escrita no antigo Egito. Seu conteúdo mostra o refinamento da língua egípcia durante a era do Império Médio e a crescente importância da alfabetização na cultura egípcia antiga. Hoje, eles servem como recursos inestimáveis para estudiosos que se aprofundam na linguagem e comunicação egípcia antiga.

Os Textos do Caixão egípcio revelam a importância da religião, da hierarquia social, da moralidade e do desenvolvimento da alfabetização na antiga sociedade egípcia. Nossa compreensão atual da cultura e língua egípcias antigas não seria tão abrangente quanto é sem a descoberta desses textos fascinantes. 

Hoje, os Textos do Caixão continuam a ser estudados e traduzidos, proporcionando oportunidades contínuas para os estudiosos expandirem seus conhecimentos sobre a antiga religião, cultura e sociedade egípcia. Por meio de esforços contínuos de pesquisa e tradução, podemos continuar a aprofundar nossa compreensão da antiga civilização egípcia e seu legado duradouro no mundo moderno.

Fonte: https://www.ancient-origins.net/artifacts-ancient-writings/coffin-texts-0018336
Traduzido com Google Tradutor.