segunda-feira, 22 de novembro de 2021

O terceiro gênero em Kemet

Enquanto eu estava fazendo uma pesquisa a respeito de um insulto feito a uma Deusa egípcia, Nebt-Het (Néftis), em um texto antigo de proteção para um espírito eu acabei me encontrando em outro conceito pouco debatido: a visão que os egípcios tinham de Sexualidade e Gênero.

O termo usado para ofender a Deusa era “imitação de mulher sem vagina” e me peguei criando teorias do motivo para isso, provavelmente deve ser algo referente à (in)fertilidade dessa Deusa, já que isso era algo muito importante para os keméticos.

Não é novidade que os egípcios têm deidades que vão além da visão tradicional de gênero, muitas divindades, especialmente divindades primordiais, são chamadas de “The He-she” (O Ele-Ela), “A mãe que também é pai” e até mesmo sendo um complemento masculino ou feminino de outra divindade (como ocorre com os deuses de Ogdoade, onde cada “casal” é na verdade o complemento um do outro), mas algumas obras dos nossos amigos egípcios nos mostram que eles tinham três concepções de gênero.

Esses gêneros eram “tai” (masculino), “sḫt” (Sekhyt) e “hmt” (feminino). A Palavra Sekhyt seria traduzida como “eunuco” que é a definição de um homem castrado, porém não existem relatos de castração na antiga Kemet, logo, ele se refere a um gênero.

É importante frisar que os egípcios eram muito complexos, porém gostavam de manter as coisas simples (a própria contagem de tempo é uma prova deles, já que eles tinham apenas três termos para definir os acontecimentos, que seriam “Insh’allah”, pela vontade dos deuses”, Bukra”, amanhã, e “Mumkin”, talvez) e isso não era diferente com os gêneros e sexualidade. Mesmo eles não tendo a concepção de gênero X sexualidade X sexo que temos atualmente, a forma deles dividir isso era muito interessante.

Podemos dividir as visões de gêneros deles da seguinte forma:

1. Homem que “atua” como homem. (Tai)

2. Mulher que “atua” como mulher. (hmt)

3. Homem que “atua” como mulher. (Sekhyt)

4. Mulher que “atua” como homem. (Sekhyt)

As pessoas “Sekhyt” podem ser divididas em ainda duas concepções, então temos uma concepção de mais dois gêneros, contendo o mesmo nome, indo além dos dois gêneros tradicionais.
Esse “atuar” que eu disse é referente a todo tipo de ação, desde o papel social, até sexualidade e gênero e, como eu havia dito anteriormente, a fertilidade era algo muito importante para os egípcios. Tudo que eles faziam era baseado nisso, logo, as concepções de “estilo de vida” não podiam ser diferentes: as pessoas que eram identificadas como Sekhyt eram pessoas que em suas formas de viver eram inférteis, quando falamos de sexualidade ligamos diretamente a relacionamentos homoafetivos e pessoas inférteis heterossexuais, e quanto a gênero, obviamente mulheres e homens transgêneros eram inférteis em seus relacionamentos (ainda mais naquela época que não existia nenhum tipo de cirurgia para isso).

“Mas Guga, existem relatos de pessoas trans no Egito?” Existem, apesar de não ser algo completamente confirmado.

Eventualmente historiadores encontram tumbas egípcias contendo corpos masculinos em tumbas femininas ou vice-versa. Muitos dizem ter sido erro dos próprios egípcios ao embalsamar essas pessoas, mas alguns acreditam que na verdade eram pessoas trans que tiveram suas identificações respeitadas na hora de serem enterrados.

-Guga Lopes

Original: https://clavisarcanus.wordpress.com/2018/01/24/o-terceiro-genero-e-a-sexualidade-em-kemet/

A seita cristã chinesa

Jesus já voltou, e ele é uma mulher. Esta é a base da crença da Igreja do Deus Todo Poderoso (também conhecida como Relâmpago Oriental), uma seita proibida pelo governo da China em 1995, mas que não para de arregimentar fiéis. Calcula-se que atualmente eles sejam entre 3 e 4 milhões.

A reencarnação de Jesus atenderia pelo nome de Yang Xiangbin, ou simplesmente Deng. Por segurança, o nome nunca foi confirmado. Deng seria namorada de Zhao Weishan, o fundador da seita chinesa.

A história oficial da origem da seita diz: "Em 1991, uma irmã na igreja foi transformada e recebeu a palavra do Espírito Santo e testemunhou 'o nome de Deus' e 'a chegada de Deus'. Todos estavam entusiasmados, mas não entendiam o que estava acontecendo. Então Cristo começou a falar, proferindo um discurso após o outro. As pessoas os distribuíam e sentiam que eram palavras do Espírito Santo, e certamente de Deus."

A maior parte dos seguidores é formada por mulheres solteiras de meia-idade, que abandonam suas famílias para viver em igrejas secretas, que funcionam em casas. Muitas informações sobre o grupo religioso são censuradas pelo regime comunista, que o nomeia oficialmente como "culto do mal".

O culto tem fama de violento, de acordo com o regime de Pequim, adotando a tática de sequestros para forçar conversões. A Igreja do Deus Todo Poderoso é classificada pelo governo como "o culto mais violento do país". Um exemplo desse comportamento agressivo ocorreu, segundo informações oficiais, em 2002, quando integrantes da seita sequestraram 34 membros de uma igreja caseira protestante. As vítimas foram mantidas em cárcere privado por duas semanas, quando foram doutrinadas para se converter e aceitar Deng como Jesus reencarnado. Os que resistiram tiveram parte de uma orelha decepada, de acordo com relatos produzidos pelo governo.

Em 2014, uma mulher foi espancada até a morte em uma filial do McDonald's em Hong Kong depois que ela resistiu a um grupo de seis pessoas que se acredita estar recrutando novos membros para a seita. A mídia local afirmou que, para os seguidores do culto, a mulher na lanchonete era um "demônio".

Os fundadores da seita fugiram para Nova York (EUA) com o status de refugiados perseguidos pelo governo chinês, contou reportagem do "Daily Star". Muitos seguidores teriam tido o mesmo destino. Há grande número de adeptos vivendo na Coreia do Sul e em Taiwan. O governo britânico já recebeu pedido de fiéis para asilo.

Mesmo após apocalipses anunciados por Deng não se confirmarem, a seita não perdeu força. Em um deles, milhares de fiéis foram presos por propagarem que o fim do mundo estava próximo e que "Deng estaria no trono de Deus para o Juízo Final".

Fonte: https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/seita-chinesa-que-cre-em-mulher-como-reencarnacao-de-jesus-se-expande-na-clandestinidade-25283493.html

Não é pegadinha, nem sátira, nem ironia. Mas considerando a história do Cristianismo e suas inúmeras vertentes, eu não estranho. Eu mesmo escrevi um conto, herético. onde Cristo é mulher.

O Brasil antes de Cabral

Quer ouvir uma piada ou ver algo engraçado? Olhe as páginas, jornais e revistas do conservadorismo, geralmente atrelados ao cristianismo, ao liberalismo e à chamada "direita alternativa", disponíveis online.
Chamou-me a atenção a coluna escrita por Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira no Gazeta do Povo, intitulada "O Brasil Nasceu Cristão..."

Um jornal que tem entre seus colaboradores Alexandre Garcia, Rodrigo Constantino e Guilherme Fiúza não é nada confiável. Eu recorri ao oráculo virtual [Google] para ter noção do assunto. Em São Carlos, houve uma audiência na qual apenas evidenciou-se o óbvio: a leitura da Bíblia antes das sessões é inconstitucional. Alguém precisa avisar aos "meninos" que eles pularam as aulas de direito constitucional. Por definição, o Brasil é um país laico, embora estejamos longe de o sermos na prática. Ou seja, em princípio, todas as religiões deveriam estar igualmente amparadas, mas eu acho pouco provável que uma sessão parlamentar seja antecedida por uma cerimônia wiccana, ou uma cerimônia de alguma religião afro-brasileira.

Ainda usando o oráculo virtual [Google] eu chequei nos perfis dos autores. Ambos são autores na editora Vida Nova, Jean é colunista do blog "Voltemos ao Evangelho" e "Coalizão Pelo Evangelho". Thiago é colunista do blog "Coalizão Pelo Evangelho". Ambos são Luteranos, uma vertente do Cristianismo Protestante. Alguém precisa avisar aos "meninos" que eles pularam as aulas de história do Cristianismo e história do Brasil.

O Brasil nasceu... pagão. Muito antes de Pedro Alvares Cabral aqui chegar e trazer a abominação do Catolicismo, junto com doenças, aculturamento e genocídio, existiam inúmeros aborígenes e inúmeras crenças. E atualmente o Brasil é um país de diversas crenças, afinal, nós acolhemos diversos povos, culturas, crenças e línguas. Então fica novamente o óbvio que é inconstitucional a leitura da Bíblia antes de se iniciar algum trabalho em autarquias públicas.

Gente que tem uma visão conservadora, cristã, de direita, tende também a ser fundamentalista, racista, xenófoba e intolerante. Essas pessoas fazem questão de ignorar os fatos e a história. Como o coitado do Caturo que citou a entrevista de Anne Marie Dorothy Waters, uma típica ativista da alt-right, fundadora do For Britain. Apropriando-se de pautas discursivas mais típicas da Esquerda, Dorothy fala contra a imigração [xenofobia] e em "defender a liberdade/nacionalidade/pátria/democracia" para os Britânicos. Se ela e o Caturo tivessem algum estudo [a postura contra o conhecimento acadêmico e científico é típico de quem endossa a filosofia política da direita] saberiam que os Britânicos originais eram negros e que a Bretanha tornou-se o que é depois da invasão dos Anglos e Saxões, sem esquecer dos Romanos e da complicada relação destes com os franceses, descendentes dos Francos, uma parte dos povos Germânicos, donde se originam os Anglos e Saxões.

Dia da Memória Transgênero

Nota do editor: a história de hoje, que comemora o Dia da Memória dos Transgêneros, inclui descrições de violência e intolerância contra pessoas trans. The Wild Hunt acredita que é importante para a nossa missão reconhecer, relatar e lembrar as vítimas desta violência, dada a importância das pessoas trans para o movimento pagão, mas a discrição do leitor é aconselhada.

TWH - Ontem, Angel Naira foi encontrada morta por ferimentos a bala em sua casa em Aliquippa, PA. A polícia encontrou o corpo dela ao responder a uma ligação para o 911 pedindo um cheque de bem-estar para Angel.

“Uma mulher diz que uma [pessoa] não responde. Sem respirar. Disse que o apartamento foi arrombado”, disse o áudio da expedição do 911. “O apartamento foi arrombado. Algum tipo de perturbação ali.”

Angel é lembrada junto com centenas de outros hoje no Dia Internacional da Memória do Transgênero (TDoR). 2021 marcou o ano mais mortal para pessoas trans e de gênero diverso desde que a Transgender Europe começou a coletar dados para seu projeto de pesquisa Transrespect versus Transphobia Worldwide (TvT) para Monitoramento de assassinatos trans.

No geral, este ano viu um aumento de 7% nos assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso. Os assassinatos de pessoas trans nos Estados Unidos dobraram em relação ao ano passado, disse o relatório.

“Os dados indicam uma tendência preocupante no que diz respeito às interseções de misoginia, racismo, xenofobia e ódio contra as trabalhadoras do sexo”, observou a TvT, “com a maioria das vítimas sendo negras e migrantes mulheres trans de cor e trabalhadoras do sexo”. Eles também informam que a maioria dos casos não é notificada. Quando são relatados, os casos geralmente recebem muito pouca atenção.

O Brasil continua liderando a lista dos países com o maior número de assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso, seguido pelo México e pelos Estados Unidos. Casos da Grécia, Cazaquistão e Malaui foram relatados pela primeira vez.

Os dados de 2021 do projeto Transrespect continuam a expor o escopo da tragédia e os desafios enfrentados pela comunidade trans. De acordo com o relatório:

75 pessoas trans e diversas de gênero foram assassinadas, 7% a mais do que na atualização do TMM 2020
96% dos assassinados em todo o mundo eram mulheres trans ou pessoas transfeminadas;
58% das pessoas trans assassinadas cuja ocupação é conhecida eram profissionais do sexo;
as pessoas de cor representam 89% das 53 pessoas trans assassinadas;
43% das pessoas trans assassinadas na Europa eram migrantes;
70% de todos os assassinatos registrados aconteceram na América Central e do Sul, com 33% no Brasil;
36% dos homicídios ocorreram na rua e 24% na própria residência;
A idade média dos assassinados é 30 anos;
O mais novo tinha 13 anos e o mais velho 68 anos.
COVID 19 foi listada como causa de morte devido a formas concomitantes de violência ou opressão da dignidade. A COVID-19 afeta a todos, mas as diferenças e desigualdades sociais foram reveladas e intensificadas pela pandemia, incluindo a exposição de lacunas nos sistemas jurídicos e que poderiam oferecer proteção a pessoas trans e com diversidade de gênero.

“Como consequência da pandemia COVID-19”, disse a TvT, “além do crescente racismo e da brutalidade policial, as vidas de pessoas trans e de gênero diverso correm um risco ainda maior”.

“Os dados são um testemunho de como o COVID-19 está afetando desproporcionalmente as pessoas trans em todo o mundo, especialmente aquelas mais marginalizadas, como negras e mulheres de cor, profissionais do sexo, migrantes, jovens e pobres”, acrescentaram.

O Transgender Day of Remembrance (TDoR) é uma comemoração anual em 20 de novembro que homenageia a memória de pessoas trans e de pessoas de gênero diverso cujas vidas foram perdidas em atos de violência contra transgêneros.

Hoje homenageamos a memória daqueles que morreram porque levaram uma vida autêntica. Aproveitamos o dia de hoje para refletir sobre a poderosa e mágica resiliência da comunidade trans.

Fonte: https://wildhunt.org/2021/11/2021-transgender-day-of-remembrance.html

Traduzido com Google Tradutor. Destaque por conta da casa. Para nossa vergonha, o Brasil é listado como um país que mata pessoas transgênero. A homofobia não é "apenas uma opinião" e o fundamentalismo cristão não pode desculpar o preconceito, discriminação e violência que fomenta debaixo da liberdade de expressão e de religião.

domingo, 21 de novembro de 2021

As divisões Keméticas da alma

A mumificação é um dos aspectos mais conhecidos dentre os legados deixados pela cultura Kemética para a sociedade atual, a função desta prática dá-se pela preservação do corpo do morto para, assim, outras partes dos corpos da pessoa manter-se funcionando. Estas partes são referentes às divisões da alma que os egípcios tinham dentro da sua mitologia.

Alguns desses corpos espirituais aparecem apenas depois do processo de morte, então é bom ressaltar que temos grande parte dessas divisões, mas algumas são desenvolvidas mais tarde.

Esse conceito foi estabelecido, segundo a egiptóloga Rosalie David, no Antigo Império, isto é, na época em que ocorreu a unificação dos dois reinos, empreendida pelo faraó Menés e que se estendeu até pouco antes de 2181 A.E.C.

As divisões são:

Khat – O corpo físico. Era creditado que a matéria morta da pessoa era o elo entre a alma dela e o mundo terreno, assim, as oferendas para os mortos eram realizados dentro das tumbas, para que elas sejam diretamente recebidas pela alma da pessoa morta.

Ba – A alma eterna. A parte espiritual que sempre existiu e sempre existirá. Os keméticos costumavam ilustrar o Ba como um pássaro com a cabeça da pessoa que o possui. Para eles o Ba tinha a capacidade de voar entre os reinos do oeste e do leste (isto é, dos mortos, o Duat, e o mundo dos vivos) e alguns acreditam que assim o Ba pode escolher um Khat novo para reencarnar, criando, então, um novo Ka. Após a morte, o Ba voava sobre o corpo do morto para levar as oferendas até o Ka da pessoa, no Duat.

Ka – A alma pessoal. A parte espiritual que existe em ti nesta vida. Foi criada no momento em que a pessoa nasce, sendo assim, sua personalidade desta vida. Após a morte, o Ka (junto com o Ib) é julgado no salão das duas Ma’atis, se ela passar pelo julgamento ela se torna um Akh, se não passar é devorada por Ammit e deixa de existir.

Ib – O receptáculo do Ka no Khat; O Coração. É a coleção metafórica de todas as intenções, ações e pensamentos da pessoa, sendo então o que define seu caráter. É o corpo espiritual do coração físico (hat) que será colocado na balança contra uma pena de Ma’at na hora do julgamento. Nos processos de mumificação era colocado sobre o coração físico um amuleto desheut.

Shwt/Sheut – A sombra física causada pelo Khat na luz. Os antigos acreditavam ser parte diretamente ligada ao Ka ou ao Ib, sendo assim, podendo ser manipulada por Heka (magia). Para eles o Sheut era uma proteção da alma para o corpo, tanto físico quanto espiritual e acompanhava a alma quando o corpo morria, transformando-se em Sahu após um julgamento bem sucedido.

Akh (plural Akhu) – “O abençoado” ou “O brilhante”. O Ka que passava pelo julgamento no salão das duas Ma’atis tornava-se um Akh, se unindo a outros Akhu dentre o Duat, tornando-se, assim, eternamente uma estrela no céu noturno (Nut) entre os deuses. Os Akhu têm a capacidade de se aproximar da Terra para auxiliar os homens, principalmente aqueles da sua própria linhagem, e aterrorizar seus inimigos.

Sekhem – O poder. A força vital presente em cada um dos corpos (ou também uma força que se estende entre todos). Ele é também um conduto para realizar Heka. Atualmente isso pode ser interpretado como a Aura da pessoa.

Sahu – “Glória”; O corpo espiritual do Sheut. Após a morte, a sombra da pessoa passa a ir para o reino espiritual na forma de Sahu. É dito que após o julgamento, se a pessoa passasse por ele, o Sahu tinha a capacidade de viajar entre os mundos, proteger os corpos astrais ou assombrar os homens vivos, sendo assim, o Sahu podia ser percebido por alguns no mundo físico. Inclusive no Médio Império foi encontrada em uma tumba a carta de um homem para o Sahu de sua esposa que o assombrava.

Ren – O nome. O nome secreto dito pelos deuses no momento que foi criado o seu Ba. Os keméticos acreditavam que, caso a pessoa tivesse conhecimento do seu Ren, era preciso mantê-lo seguro, pois assim, se mais alguém o soubesse, a pessoa poderia ter domínio e poder sobre você. O nome em vida da pessoa também tinha grande importância: quando ela morria, o seu nome era repetido diversas vezes nos escritos em sua tumba para que ele pudesse ser eternizado e relido diversas vezes, enquanto os nomes dos inimigos eram escritos e logo em seguida retirados das escritas.

Outro detalhe importante para se comentar é que os espíritos que por alguma razão não passavam pelo julgamento eram chamados de Muuetu (singular, Muuet), onde, na maioria dos casos, eram relatados como espíritos perigosos.

Para um resumo e maior entendimento a egiptóloga Tamara L. Siuda e Nisut (AUS) da Ortodoxia Kemética traz um diagrama interessante:

Corpo físico: Khat e Ib.

Khat contém o Ba, Ka e Shuet.

Corpo morto: Khat e Ib.

Ba deixa o Khat e está livre para fazer o que desejar.

Ka e Shuet vão para o Julgamento.

Após um bom julgamento: Ka se torna um Akh, Shuet se torna um Sahu.

Todos os corpos contém Sekhem a todo momento.

Todos os corpos são criados e unidos pelo Ren.

-Guga Lopes

Original: https://clavisarcanus.wordpress.com/2018/05/07/as-divisoes-kemeticas-da-alma/

O homem de Cheddar

Não, não é o queijo. Cheddar é um vilarejo na Inglaterra [de onde o queijo foi criado] onde se encontrou o esqueleto, o fóssil, que mostrou que os Britânicos eram... negros. Caturo vai ter um chilique.
Segue a reportagem.

Na Caverna de Gough, próximo ao vilarejo de Cheddar, na Inglaterra, onde o queijo homônimo foi criado, foi encontrado um esqueleto humano em 1903. Mais tarde, pesquisadores chegaram à conclusão de que a descoberta tinha cerca de 10 mil anos.

Trata-se do fóssil humano mais antigo achado na Inglaterra, que remonta ao período Mesolítico. O indivíduo, que ficou conhecido como “homem de Cheddar” em homenagem ao local onde foi encontrado, provavelmente teve uma morte violenta.

De grande importância para a comunidade científica, o esqueleto foi objeto de estudo de inúmeras investigações, que tentaram realizar análises genéticas no mais idoso dos britânicos.

Sem as tecnologias qualificadas que temos hoje, as primeiras imagens desenvolvidas por cientistas eram a de um homem de pele clara, cabelos lisos e olhos escuros. Eles não tinham dados genéticos, apenas uma concepção evolutiva sobre a cor de pele.

Uma análise de 2018 colocou essa afirmação em cheque. Pesquisadores do Museu de História Natural de Londres e da universidade londrina UCL (University College London) foram capazes de extraíram o DNA do fóssil e chegaram a novas conclusões.

Na verdade, o fóssil do homem de Cheddar pertenceu a um homem negro que tinha olhos azuis e cabelo castanho escuro crespo.

O material genético, retirado do osso petroso do crânio do esqueleto, uma parte próxima ao ouvido, possibilitou que os especialistas identificassem o novo fenótipo para as pessoas que habitaram a Grã-Bretanha há 10 mil anos, como ressaltou a BBC na época.

Além disso, também permitiu que uma reconstrução facial do indivíduo do Mesolítico fosse produzida, que mostrou em primeira mão aos cientistas como esse homem provavelmente era em vida. O trabalho foi feito pelos artistas forenses Alfons e Adrie Kennis.

Cor de pele

“Pouco tempo atrás, os cientistas sempre consideraram que o ser humano se adaptou rapidamente para ter pele mais clara quando chegou à Europa, há 45 mil anos”, explicou Tom Booth, principal líder do estudo, em nota.

“Pele mais clara é melhor em absorver radiação ultravioleta, e ajuda com a vitamina D em lugares com menos luz solar”, completou.
No entanto, a pesquisa, cujos resultados foram divulgados em 2018, indica que os genes de pele mais clara provavelmente não eram predominantes na Europa há 10 mil anos, quando o homem de Cheddar viveu.

Supõe-se que eles tenham começado a se difundir mais tarde do que se especulava, há cerca de 6 mil anos, quando pessoas do Oriente Médio começaram a chegar na Grã-Bretanha, que tinham pele clara e cabelo castanho.

Outro fator ressaltado pelos pesquisadores é que a origem geográfica não necessariamente era importante para determinar a cor da pele de um indivíduo, como acontece nos dias de hoje.

“Nós não podemos supor coisas sobre a aparência das pessoas do passado com base em sua aparência no presente. As combinações de características que estamos acostumadas a ver hoje não são fixas”, destacou Tom Booth, arqueólogo do Museu de História Natural em Londres, que participou do projeto.
Ainda não há consenso sobre o que pode ter feito a pele mais clara ter se tornado mais comum ao longo dos séculos. Os pesquisadores, no entanto, sugerem que a dieta à base de cereais pode ter causado uma deficiência de vitamina D, que fez com que as pessoas tivessem que processá-la por meio da luz solar.

"Podem haver outros fatores causando menor pigmentação da pele ao longo do tempo nos últimos 10 mil anos. Mas essa é a grande explicação à qual a maioria dos cientistas se fia", afirmou Mark Thomas, geneticista da UCL, que também esteve envolvido na pesquisa.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/homem-de-cheddar-o-britanico-de-10-mil-anos-que-era-negro-e-tinha-olhos-azuis.phtml

sábado, 20 de novembro de 2021

Influência perniciosa

O Nobel de Literatura Wole Soyinka levou quase meio século para voltar ao romance, e o faz com uma obra monumental, um afresco nada piedoso da Nigéria atual, que bem pode se transformar em retrato universal da violência, do extremismo religioso, do fanatismo, das superstições e da utilização do povo para fins mais ligados à corrupção que ao desenvolvimento. Seu título, Chronicles from the Land of the Happiest People on Earth (Crônicas do país da gente mais feliz da Terra, em tradução literal; o livro ainda está inédito no Brasil), é obviamente satírico, muito satírico, mas o humor que ele destila vai ficando congelado na retina à medida que pastores manipuladores, políticos usurpadores e vítimas de uma violência desalmada vão desfilando numa história coral que adquire unidade pelas mãos da aberração.

Soyinka (Abeokuta, Nigéria, 87 anos) foi o primeiro africano negro a receber o Nobel de Literatura, em 1986. Sua força narrativa é em parte filha de seu olhar crítico, de um ativismo que o levou à prisão nos anos sessenta e que o fez rasgar seu green card norte-americano para denunciar Donald Trump. Claro, com sua escrita nua e sem outros rodeios além dos seus recursos literários, Soyinka transitou mais frequentemente pelo teatro, o ensaio e a poesia, que considera sua casa, em vez do romance. Isso inclusive dá mais importância a este novo livro onde expõe os piores vícios de uma sociedade que é a sua, mas pode ser a de qualquer um. O escritor passa esta semana por Madri, onde conversou com o EL PAÍS.

Pergunta. Foi difícil voltar ao romance?

Resposta. Não havia outra opção. O material vinha se acumulando comigo havia muito tempo, e ficava claro que desta vez precisaria do formato romance para expor minhas ideias. Difícil? Claro que surgiram dificuldades, por ser tão grande, mas me senti muito aliviado ao terminar. Então foi gratificante, também.


P. O senhor aborda em seu livro a corrupção política, mas também o poder religioso. A religião tem um papel maior atualmente que no passado?

R. Sim, sim. E nem sempre um papel saudável. Os nigerianos são religiosos em geral, outras sociedades resolveram o âmbito espiritual e podem dar as costas à religião, mas não é o caso de muitos países na África, e inclusive até certo ponto na Europa. Há pessoas que adquirem grande influência no Governo por professarem a mesma religião que o líder, para o bem ou para o mal. E há também o fenômeno extremista e violento, que acentua todos os outros problemas que temos.

P. Refere-se ao islamismo, ao Boko Haram?

R. Principalmente o islamismo, sim, mas também há os extremistas cristãos como Joseph Kony no leste da África. É muito violento, extremo, inclusive sádico, e sua forma de enfrentar a dissidência é mutilando narizes, lábios e outros membros. É uma aberração surpreendente. Tornou-se um inimigo da humanidade.

P. Em seu romance, o senhor funde o cristianismo e o islamismo. Por quê?

R. Tenho um problema pessoal com ambos, o cristianismo e o islamismo. Ao se pretenderem religiões mundiais que se arvoram em saber tudo, especialmente os extremistas, acreditam que não há outro ponto de vista além do seu, por isso exercem uma grande influência perniciosa que inclui o uso do medo, que é muito diferente da simples influência. Venho da religião prevalente na minha comunidade antes do cristianismo e o islamismo, que é a adoração aos orixás, e esta é a religião mais humanista que conheço, a mais tolerante. E essas duas supostas religiões globais poderiam aprender muito com esta religião, mas nos olham de cima, com desprezo. Por essas razões sou muito crítico com essas duas religiões. De resto, a espiritualidade é algo pessoal e, quando estruturada como parte do instinto da comunidade de compartilhar experiências, ela é boa. O problema surge quando intervém na vida civil.

P. E por que se tornaram tão poderosas?

R. Por muitas razões, também a econômica. Na Nigéria há seitas que prometem uma vida material melhor em troca de segui-las. Usam a miséria e a privação econômica para gerar esperanças, e quando não conseguem o prometido dizem que é porque você não tem fé suficiente. E há a política. Tem gente que abraça outra religião porque é a que está no poder. E depois vem a insegurança das pessoas que preferem pôr toda sua existência nas mãos dos outros, porque não se sentem bem consigo mesmos. É uma mistura desses fatores.

P. O senhor conhece bem os Estados Unidos. A religião se tornou muito poderosa lá também.

R. Muito. Nas últimas décadas, o poder não era considerado um monopólio dos anglicanos brancos. Quando Kennedy se apresentou como católico e ganhou a presidência, foi um fenômeno ver como se salientou a ideia de que isso não ameaçava os direitos. Faz tão poucas décadas que os americanos aceitaram um católico. Depois chegou Ronald Reagan, cuja mulher olhava bola de cristal, era muito supersticiosa e influenciou seu marido com seu olhar religioso e de extrema direita. A extrema direita religiosa nos EUA tem muitos seguidores, e seus eleitores fazem o que mandam.

P. O senhor destruiu sua carteira de identidade de residente nos EUA quando Trump venceu. Arrepende-se hoje que ele não está mais?

R. Não, não, não me arrependo, não podia fazer outra coisa. Esse homem era racista, era um maníaco xenófobo, insultava outras nacionalidades, chamava-os de países de merda. Abertamente. Ele era. Representava o pior dos preconceitos norte-americanos e o retrocesso político, mas foi muito útil porque o que fez foi lembrar que americanos não são tão desenvolvidos, intelectual nem filosoficamente. O pior de tudo na campanha dele foram as execuções sumárias de negros por parte da polícia, de gangues. Morreram muito mais negros de forma extrajudicial pelas mãos da polícia durante a campanha de Trump do que em qualquer campanha presidencial na Nigéria. Eu vi, como antes tinha visto a etapa mais progressista, quando Obama, um negro, pôde se tornar presidente. Mas a direita extrema estava decidida a que isso nunca mais voltasse a ocorrer; Trump viu isso e aproveitou. Para mim, é um inimigo da humanidade. Por isso disse que, se fosse eleito, não queria mais fazer parte dessa comunidade. Então rasguei meu green card e quando preciso ir aos EUA tiro o visto e pronto. A Embaixada dos EUA não tem nenhum problema, me deixam ir, porque lá tem gente boa, o que faz que eu me sinta atraído pelos EUA. Não soltam os cachorros em mim quando chego, pelo contrário, me dão esse visto normal.

P. O movimento Black Lives Matter o surpreendeu?

R. Absolutamente. Houve surtos, mas era a primeira vez que ele atraiu a consciência do mundo. O Black Lives Matter foi muito útil também para o continente africano, porque perante os líderes homicidas podemos dizer: vidas negras importam também na África, então prestem atenção. Isso teve eco em muitos lugares e não me surpreendeu em nada.

P. Também destaca em seu romance a enorme violência, os estupros, as crianças transformadas em vítimas.

R. É um fenômeno que admito que me surpreende. O mundo onde cresci nunca teria tolerado esse nível de crueldade na humanidade. As causas são o desespero econômico, um niilismo decorrente da sucessão do pior tipo de líderes, que infectou ou despertou algo latente na sociedade. Não sabemos como foi, mas nas últimas duas décadas vimos a desvalorização do ser humano, e a religião tem muito a ver com isso. As pessoas se viram sacudidas por explosões em mercados, em fábricas, em escritórios, nas ruas. Há um movimento que se dedica à morte como uma forma de espiritualidade, aos sequestros, como o Boko Haram. E ao longo dos anos a sensibilidade em relação aos outros seres humanos diminuiu. É como uma inoculação no subconsciente, como se consentíssemos com esta violência e depois começássemos a praticá-la porque você se acostuma. Estes grupos extremistas religiosos tiraram o valor da vida e viraram uma infecção, uma doença, e inclusive alguns dos líderes tradicionais recorreram a fazer coisas que não faziam. Há sacerdotes que participam deste sacrifício humano porque lhes dá riqueza, e enquanto o fazem estão louvando a Deus. A aberração se tornou hábito, como a “nova normalidade” da covid-19 — odeio essa expressão—, essa aberração virou moda.

P. Como seu livro foi recebido?

R. Foi um fenômeno incrível, porque os políticos que protagonizam meu livro me procuraram, e inclusive algum famoso que utilizei como modelo veio me fazer perguntas. Um deles subiu ao palco e eu lhe disse: “Antes de abrir a boca, espero que você tenha notado que está no livro”; ele disse: “Sim, sim, mas quero lhe fazer uma pergunta do mesmo jeito”. O que mais me surpreendeu foi a quantidade de políticos que apoiaram o livro de forma ativa.

P. Como definiria sua literatura?

R. Não me considero romancista. Sou dramaturgo. Sinto-me mais à vontade com o teatro e a poesia. Gosto sobretudo de escrever peças de teatro. E acredito na natureza eclética da literatura, o que significa que não persigo nenhum estilo em particular. Simplesmente permito que a musa opere em mim para enlaçar forma e fundo. E espero não pertencer a nenhuma escola.

Reportagem de Berna Gonzáles Harbour, no El País: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-11-16/wole-soyinka-tanto-o-cristianismo-como-o-islamismo-tem-uma-influencia-perniciosa.html