sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Paganismo Queer

O Paganismo Moderno possui toda uma vertente direcionada ao público GLBT, uma tendência que pode ser encontrada em outras religiões [Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo], como parte da Espiritualidade Queer.

A questão da inclusão de grupos sociais, na sociedade em geral, na política e na religião, surgiu juntamente com a luta pelos Direitos Civis, a Contracultura e a Revolução Sexual. O Paganismo Moderno adquiriu maior evidência e expansão nessa época ao adotar essa visão mais inclusiva. Muitos indivíduos procuraram e acharam nas religiões alternativas uma proposta diferente das religiões main-stream, cuja doutrina oficial possui muito preconceito, discriminação e intolerância, especialmente no tocante às identidades de gênero e opções sexuais.

A opção sexual se tornou uma bandeira para a contestação social e política. Essa tendência acabou sendo misturada e enfatizada nos muitos grupos de Paganismo e Bruxaria modernos que surgiram, muitos desassociados dos princípios da Wica ou de qualquer sentido de tradição.

O Paganismo é um conjunto de religiões, cada qual com seus princípios e doutrinas, autônomas entre si. Pode-se dizer que é o único conjunto de religiões que aceita a diversidade sexual, de forma que soa estranho e esquisito colocar a agenda de um grupo social ou de uma bandeira acima do objetivo espiritual dessas religiões. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado.

Entre os pagãos, fala-se muito [demais, para meu gosto] da Deusa e nada do Deus. Fala-se do "sagrado feminino" e nada do sagrado masculino. Omite-se que a Wica é um culto à fertilidade. Nega-se, oculta-se e rejeita-se o Deus Cornífero. Como então podemos entender os antigos mitos da Suméria, da Babilônia, do Egito e da Grécia? Como podemos [ab]usar dos mitos quando nos agradam, mas ficamos cheios de pruridos quando os mitos falam em castração ou em prostituição sagrada? Isso é hipocrisia, é falsidade, é [ab]usar dos mitos e mistérios antigos para agendas pessoais e isso, definitivamente, não é Paganismo nem Wica.

O estatuto da mitologia varia de acordo com a cultura. Geralmente os mitos atuais são e os antigos eram literalmente acreditados como verdadeiros no seio da sociedade que os criou e considerados errados ou fictícios em outros lugares. Algumas culturas podem considerar os mitos como transmissores de verdades psicológicas ou arquetípicas. Os mitos têm sido usados para explicar e validar as instituições sociais de uma determinada cultura, bem como educar os membros dessa cultura. Esse papel social tem sido postulado em estórias que incluem amor entre pessoas do mesmo sexo, cujos objetivos eram educar os indivíduos quanto à atitude correta a adotar para o atividade sexual de pessoas do mesmo sexo e construções de gênero.

Desde o início da história escrita, centenas de culturas, mitos, folclores e textos sagrados têm incorporado temas homoeróticos e de identidade de gênero. Assim, desde esses tempos mais remotos, muitos mitos narravam estórias envolvendo homossexualidade, bissexualidade ou transgênero como símbolo de experiências míticas e/ou sagradas. Hoje em dia, o homoerotismo e a variância de gênero nesses mitos antigos têm sido analisados e estudados através das concepções LGBT modernas acerca de identidades e comportamentos, e muitas vezes criam-se termos novos para classificá-los; por exemplo, em divindades que se disfarçam do sexo oposto, ou adotam comportamentos tradicionais, ou certas figuras do sexo oposto podem ser chamadas de transexuais em outras culturas, e os seres mitológicas sem órgãos reprodutivos ou com ambos os órgãos masculinos e femininos em suas estruturas são hoje em dia chamados de andróginos ou intersexuais. Alguns mitos individuais têm sido denominados queer numa tentativa dos críticos rejeitarem a "heteronormativa" ou o gênero binário em seus estudos. As interpretações queer podem ser baseadas apenas em evidências indiretas, tais como amizades do mesmo sexo invulgarmente estreitas ou a dedicação à castidade. Estas têm sido criticadas por ignorar o contexto cultural ou pela aplicação equivocada de preconceitos modernos ou ocidentais, assumindo, por exemplo, que o celibato significa apenas evitar a penetração ou o sexo reprodutivo (permitindo assim o sexo homoerótico), enquanto ignora a opinião generalizada acerca da potência espiritual contida no sêmen que abrange uma vacância de todos os sexos.

Os acadêmicos reconhecem a presença de temas LGBT nas mitologias ocidentais e elas são objetos de intensos estudos. Geralmente as narrativas mitológicas consideram a homossexualidade, a bissexualidade e o transgênero como um símbolo de experiências sagradas ou míticas. Também é comum, principalmente nas mitologias pagãs e politeístas, encontrarmos seres que mudam de gênero, ou que possuem aspectos de ambos os sexos ao mesmo tempo. Não deixa de ser comum também, em tais panteões, a atividade sexual com ambos os sexos, e hoje em dia eles são comparados à bissexualidade ou pansexualidade. Os mitos da criação, ou gênese, de muitas tradições, envolvem motivo sexual, bissexual ou andrógino, com o mundo a ser criado por seres assexuados ou hermafroditas, ou através da relação sexual entre seres do sexo oposto ou do mesmo sexo. [Wikipédia]

Na opinião de Eva C Keuls, “... nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.” [The Reign of the Phallus, Eva C Keuls, capítulo 12, University of California Press].

Nas civilizações antigas, a necessidade de fertilidade era primordial para evitar a mortalidade não só de suas tribos como de seus rebanhos. Mulheres férteis com seios fartos e quadris largos eram consideradas o retrato humano da grande Deusa Mãe. Era considerada a representante da Deusa na terra, a sacerdotisa da Deusa e enquanto essa mulher fosse capaz de gerar filhos, tinha alto poder dentro da tribo. Quando passava sua fertilidade, seu posto era transferido para uma mulher mais jovem que pudesse gerar filhos e a mulher mais velha assumia a condição de sábia da tribo.

Era costume que os melhores caçadores da tribo usassem os chifres e pele dos animais que foram por eles abatidos, para adquirirem sua força e fertilidade. O macho que possuíam os maiores chifres eram os machos mais férteis, por isso, eram os mais visados pelos caçadores.

Assim, praticar sexo após uma caçada, era uma forma ritualística de transferir a força e a fertilidade do animal abatido para a criança que iria nascer, por meio do rito sexual, onde herdava esses poderes e enriqueceria a tribo. Outra crença era a de que o animal sacrificado em prol da tribo seria recompensado com o renascimento na forma humana.

Todas essas colocações que não chegam nem a metade de sua totalidade, foram usadas para frisar o importância que o sexo tem não só no ciclo de fertilidade como nas relações em geral e que sexo e religião sempre caminharam juntos, pois a partir do sexo que muitos rituais foram formados. [Angel Bruxa Aisha Sad]

O pagão moderno, hetero ou homo, deve compreender os mitos como revelações de realidades eternas; deve celebrar os cultos e rituais dentro de seu contexto sagrado e místico; deve servir aos Deuses, honrar seus ancestrais e celebrar a vida. Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito dos Deuses andróginos, bem como de Seus ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não para a satisfação de nosso ego. Deturpar, distorcer ou [ab]usar os mitos para atender a carências ou agendas pessoais é resultado de uma busca obsessiva e neurótica por respeito, aceitação e reconhecimento. Eu aprendi da forma mais difícil que nós não precisamos da permissão, autorização, respeito, aceitação ou do reconhecimento de outras pessoas, nosso serviço é para os Deuses. Eu aprendi apanhando que nós não conquistamos um espaço invadindo outro, não patrocinamos nossa crença atacando outra. Em nossos rituais nós dizemos que se não encontramos os Deuses dentro de nós, não iremos encontrá-los fora de nós. O mesmo ocorre em relação ao respeito, a aceitação e o reconhecimento.

2 comentários:

Walquiria Barboza disse...

Olá Roberto muito interessante seu post, principalmente por explicitar a questão da presença inequívoca da sexualidade e ritos sexuais nos ritos antigos. Ainda dentro deste contexto, goataria de saber qual a sua opinião sobre a celebração do Grande Rito, praticado pelos bruxos modernos, mais especificamente os que se denominam Wicanianos, de forma simbólica.

Saudações.
Walquiria

roberto quintas disse...

Olá Walkiria. Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que quando nos referimos à Wicca, temos que usar a terminologia da lingua inglesa, portanto: wicca>wiccan>wiccano.
o GR é um tema delicado [e eu escrevi sobre isso neste blog] e certamente provoca muitas reaçoes no meio pagão e wiccano brasileiro. Como eu sou tradicionalista, eu prefiro o GR real.