terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O "home da maça"

Em Fevereiro de todos os anos a cena repete-se. A pretexto das festividades católicas a S. Brás milhares de romeiros deslocam-se a um monte de Santa Cruz do Bispo para, entre festejos pagãos, pedirem a ajuda do “Homem da Maça” na busca do parceiro/a que lhes vem escapando. Para isso oferecem flores ao “santo” e despejam-lhe vinho na cabeça...
Há muito tempo – tanto que já não se sabe muito bem há quanto – um tenebroso leão assolava aquela que é hoje a freguesia de Santa Cruz do Bispo. Responsável por uma longa série de mortes, a fera mergulhara a população num profundo temor, tanto mais que demonstrava possuir grandes dotes de agilidade, força e inteligência. Com efeito, culpado pela morte de musculosos jovens, o leão soubera também escapar a todas as batidas que haviam sido organizadas para o capturar.
Mas a sua sorte (ou azar) estava traçada. E certo dia, quando um jovem agricultor regressava a casa depois de, nas margens do Leça, ter estado a maçar o linho, o temível leão surgiu-lhe ao caminho. Rapidamente envolvido numa luta que se revelaria mortal para ambos, o jovem, invocando o auxílio de um santo (S. Brás?), e como que imitando a bíblica figura de Sansão, consegue despedaçar a cabeça do leão, socorrendo-se para tal da maça – o pesado bastão de madeira que utilizara pouco antes, no trabalho do linho.
Profundamente agradecido pela façanha do mártir, o povo do local decide erigir uma estátua em pedra representando a fera e o herói que a subjugara, empunhando este numa das suas mãos a imprescindível e famosa maça que lhe deu a notoriedade e o imortalizou.
É esta, em traços gerais, a lenda do “Homem da Maça” que explica o aparecimento no alto do Monte S. Brás, na matosinhense freguesia de Santa Cruz do Bispo, de uma enigmática estátua granítica de um guerreiro decepado, associado à representação de um animal onde, só com muita boa vontade, conseguiremos descortinar um feroz leão.
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Mas o “Homem da Maça” nem sempre esteve no topo do Monte S. Brás. Embora se desconheça a sua origem e a atribuição cronológica seja igualmente polémica (a maior parte dos estudiosos divide-se entre datá-la do período romano ou do renascimento), se nos socorrermos dos registos mais antigos que possuímos com referências à estátua (todos já do século XIX), facilmente nos apercebemos que esta permaneceu a maior parte do seu tempo na base da elevação, entre as capelas de S. Brás e Nª Sª do Livramento e a de S. Sebastião. (...) Em 1935, por fim, é colocado no ponto mais alto do Monte. Tratou-se, no entanto, de um verdadeiro “chuto para cima”. Com efeito a sua elevada e aparente nobre localização, desde a qual se desfruta de ampla panorâmica, mais do que uma valorização da estátua terá sido uma tentativa, por parte das autoridades eclesiásticas, de a “esconder” ou, no mínimo, de evitar a sacrílega convivência e concorrência que esta “imagem” possuía com a capela de S. Brás. De resto, ainda hoje muita gente confunde o “Homem da Maça” com o santo, designando o primeiro como S. Brás.
Na base da confusão (ou será pretexto?) entre o sagrado e o profano, ou seja, entre S. Brás e o “Homem da Maça”, está a crença nas virtudes mágicas e casamenteiras desta estátua em pedra. O que, aliás, não é nenhuma novidade. A veneração idolátrica de pedras –geralmente devida a características que lhes são atribuídas como propiciatórias de fecundidade e amor – é ainda muito comum no nosso país, embora geralmente ande associada a menires e outros monumentos pré-históricos. De resto, há autores que defendem a possibilidade da representação do musculoso e hercúleo “Homem da Maça” resultar de uma antropomorfização pétrea de um remoto e pagão culto litolátrico pré-existente no local. Mas, afinal, como funcionam as propriedades casamenteiras do nosso “Homem da Maça”?
Embora ao longo do ano se multipliquem as velas acesas junto às pernas do “santo”, é, segundo a tradição, no dia da Festa ao S. Brás, no início de Fevereiro, que o “casamenteiro” se encontra mais receptivo aos pedidos dos seus “devotos”. Para isso estes têm, contudo, que – num verdadeiro ritual pagão e panteísta – lhe deixar curiosas oferendas. As raparigas e mulheres desejosas de noivos devem abraçar a estátua e adorná-la com colares de flores (o que nem é difícil nas últimas décadas, uma vez que o monte foi invadido pelas mimosas que, exactamente nesta época do ano, o cobrem de flores amarelas). Quantos aos homens, o ritual exige que se despeje vinho (embora recentemente a cerveja se venha impondo) sobre a cabeça do “santo”. Depois... Bom, é esperar até à festa do ano seguinte. E, se nada acontecer, o “Homem da Maça” lá estará uma vez mais para atender o pedido ou – facto igualmente curioso deste “santo casamenteiro” – para sofrer as consequências de não ter respondido às solicitações. É que o “Homem da Maça” permite que, como represália, pelo não cumprimento da sua parte, o (ex) devoto lhe parta sobre a cabeça a malga que, um ano antes, lhe havia vertido o vinho.
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A estátua em granito está enterrada até aos joelhos, atinge a altura de uma pessoa, falta-lhe os dois antebraços, mostra mutilações nos olhos, nariz e boca, e ao lado, no seu sopé, encontra-se uma figura indefinida do mesmo granito, representando algum animal.
Para uns é a figura de um antigo guerreiro (lusitano?) a julgar pela vestidura, cinturão, joelheiras e presumível couraça. Junto teria a estátua de um leão ou qualquer outro animal feroz. Nesta hipótese teria a clava na mão, se não estivesse mutilado. Está também desprovido dos membros inferiores e encontra-se implantado até ao meio da coxa sobre uma pedra de superfície plana. Seria, pois, um antigo guerreiro de barba e cabelo engrenhados, isto é, uma estátua representando uma personagem bárbara e togada - arte principal do séc. I.
Para outros, a referida estátua é uma figura artesã e não mostra sinais de obra de arte culta. Seria trabalho que mãos habilidosas criaram, num misto de obra de arte culta. Seria trabalho que mãos habilidosas criaram, num misto de religião e paganismo. A opinião (do Dr. Bertino Daciano) faz deste achado um arranjo escultórico quinhentista que decoraria a Quinta do Bispo.
A hipótese que parece ser mais estruturada é a que situa a famosa estátua entre os vestígios arqueológicos romanos existentes, outrora, na zona. Será, com efeito, um exemplar da estátua de Hércules ou seu filho - Amato, divindade mitológica grega que os romanos propagam nas sua colonizações da Península.
Na mitologia e no mundo romano o culto de Hércules representava uma epopeia como evocação de um homem que ganhou o seu lugar no Olimpo, a premiar uma vida intensa de amores que terminou com uma morte trágica. Hércules, deus guerreiro, está associado ao culto de Vénus, expressão da força e do amor, com grande expansão no mundo ocidental. O relacionamento do "Homem da Maça", como estátua de culto mitológico nas povoações romanas não só é viável mas, inclusivamente, alumia de um modo científico a origem do próprio nome de Matosinhos.

O "HOMEM DA MAÇA" E A ORIGEM DO TOPÓNIMO MATOSINHOS
Na mitologia, com efeito, Hércules tinha o filho Amato, que prolongava, na colonização, a irradicação mitológica da divindade. Daí que seja viável que os romanos ou primeiros latinos que aqui chegaram tenham chamado ao porto de Leça, no sopé do Monte Castelo, o Porto de Amato, ou seja, no original latino, AMATUS SINUS, AMITI SINUS, AMATUSIAE ( sinus quer dizer porto), fórmulas que a semântica transformaria em MATOSINHOS.
Esta explicação para o topónimo Matosinhos é tão ingénua como a tradicional que fazia derivar o nome diminutivo de matos (Matos + inhos, vendo analogia entre Mato e Bouças), ou do "Matizadinhos" das conchas da praia, com que Caio Pallantia = Maia se cobriu nas festas do seu noivado, na ocasião em que ao largo ia passando um navio com os restos mortais de S. Tiago.
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De facto, os testemunhos, mesmo orais, mais antigos, convergem todos para a tipicidade da romaria de S. Brás não apenas no seu aspecto propriamente religioso, mas também pitoresco e folclórico. As tradicionais romarias de S. Brás, que se realizam em 2 e 3 de Fevereiro, eram e ainda continuam a ser muito concorridas. As pessoas num vai e vem ritual passeiam, pelo Monte de S. Brás. De manhã são as cerimónias religiosas, de tarde é o povo anónimo, que, desde Matosinhos e freguesias limítrofes, acorre ao arraial.(...)
Nas romarias, as raparigas abraçavam-se ao pescoço do "Homem da Maça", colocavam-lhe flores e muito em segredo pediam um rápido casamento. Homens e casais, em orgias de vinho e de risadas, tocavam o mesmo talismã, desejosos de possuírem filhos varões.(...)
Publicvado pelo Caturo [Gládio]

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