Eu me divirto entre os ateus da ESFC, mesmo quando há alguma notícia falando de bruxos que se dão mal. Eventualmente aparecem cristãos tentando argumentar, o que torna o fórum mais divertido.
Os cristãos não sabem como explicar direito o que o rei Saul foi fazer em Endor nem o que aconteceu ali com a mulher que ele foi ver. Em algumas versões da bíblia, ela é descrita como 'necromante', outras como 'médium', outras que 'tinha espírito de feitiçeira', outras que ela tinha um 'espírito familiar', outras que ela 'adivinhava por um fantasma'. Em páginas cristãs a passagem é devidamente 'interpretada' que a mulher em questão era uma bruxa, não uma profetisa, não uma pitonisa, nem uma sacerdotisa.
A 'versão' da bíblia foi dita, mas qual seria a versão da mulher de Endor?
Eis a estória para contar a versão da sacerdotisa de Endor.
Eu estava tranquilamente recolhendo meus objetos a fim de me mudar para a Fenícia aonde meu ofício ainda é permitido quando veio um senhor com um pedido de urgência.
- Grande sacerdotisa, eu vos peço que chame um espírito para mim.
- Ora, vá a Megido ou Jesrael. Eu fui intimada a ir embora pelos asseclas do rei Saul.
- Graciosa serva da Deusa, é por causa da guerra entre Filisteus e Israelitas que Saul vos enxotou, pois sentiu-se traído por não ter sido avisado que Davi serviria a Aquis.
- Não era este o Davi que outrora era consultor de Saul?
- Sim, aquele fedelho! Eu o alimentei, dei roupas, casa, cama, um lugar no meu exército e não satisfeito com o que eu dei, me roubou até meus favores diante do Senhor de Israel!
- Ora, ora! Senão é o rei em pessoa! Vós não tendes profetas em Israel? Vós não dizeis que nós merecemos apenas a morte? Vós não dizeis que nossa Deusa e nosso Deus são demônios? Então volteis para vossos sacerdotes e consultem ao vosso Deus Vivo.
- Piedade, santa senhora! Eu vim até tu, sem coroa, sem manto, sem majestade porque o Senhor não me responde nem tem mandado profetas para me aconselhar.
- Vede que vós me proscristes, mas como todo soberano voltas atrás do que resolvestes quando vos é pertinente. Eia! Levanta-te! Que me deixa embaraçada ver-te assim te humilhando! Quem tu quer que venha para consultar?
- Aquele espírito que me é mais próximo ao coração, muito embora houvera partido deste mundo magoado com este servo do Senhor de Israel.
Eu procedi, então, como de costume, chamando ao espírito que Saul clamava do coração e eis que tive mais uma surpresa ao ver o profeta Samuel diante de nós.
- Saul, o Senhor me permitiu vir a ti, apesar que entre nosso povo ser proibido tais coisas para vos lembrar de teus erros e de que o Senhor arrependeu-se de te ter feito rei do povo de Israel. Eis que o Senhor de Israel escolheu Davi e por intermédio dele faz uso dos Filisteus para castigar a ti e ao povo de Israel por tuas faltas.
Fim da consulta, Samuel voltou a dormir com seus pais e eu distribui o alimento da propiciação diante dos meus Deuses, como é de nosso costume, mas o consulente a princípio voltou a ser o mesmo Israelita que era se recusando a comer com meus Deuses e eu temi de não receber minha paga.
- Saul, não te convém agora se comportar assim. Eu não te trouxe aqui nem te instei a me consultar. Tu veio aqui como pessoa comum, então te comporte como pessoa comum, reparta comigo e teus servos a refeição com meus Deuses e volta a Israel que de minha parte nada falarei do ocorrido, se tu nada contares.
A contragosto, Saul comeu com meus Deuses e antes de partir disse-me:
- Profetisa de Endor, eu te prometo que nada do que aqui ocorreu ou do que foi dito será contado.
Boatos confirmaram mais tarde para mim que essa seria mais uma promessa quebrada. Eu não me surpreendi, o povo de Israel é reconhecido pela sua mania de contar as coisas apenas pelo lado que lhes favorece.
domingo, 4 de maio de 2008
O racionalismo da bruxaria
Bruxas não são tolas, alienadas ou supersticiosas. Elas estão vivendo no século XX, não na Idade Média, e elas aceitam o fato sem reservas; se elas tendem a ter uma preferência de um sentido de continuidade histórica, e um amplo espectro de tempo, do que muitas pessoas, isto torna sua percepção do presente mais vívida, não menos. Muitas bruxas são cientistas ou técnicas, e em nossa experiência a maior parte é muito boa. Se a bruxaria moderna não tivesse um racionalismo coerente, tais pessoas não poderiam continuar com esse tipo de esquizofrenia deliberada, com nenhum reservatório para suas vidas particularmente felizes – e nós não vemos sinais disso.
A bruxaria moderna tem um racionalismo, e um bastante coerente. Isto pode surpreender alguns de nossos leitores, que sabe somente que bruxaria vem das entranhas. E realmente vem, tanto quanto motivação e operação vêm. A força operacional e o atrativo do Ofício desperta das emoções, intuições, o ‘profundamente vasto’ Inconsciente Coletivo. Seus Deuses e Deusas fazem suas formas dos vários Arquétipos os quais são as poderosas pedras fundamentais da psique racial humana.
Mas Consciência é humana, também. A consciência individual é comparativamente nova no cenário evolutivo deste planeta, e – ao menos tanto quanto animais terrestres estão preocupados – isto é um presente único do homo sapiens. Nenhum outro animal terreno manifestado fisicamente possui isto, acho que um ou dois dos mamíferos superiores parecem possuir seus primeiros estímulos embrionários. Sentimentalistas creditam aos seus animais favoritos a um grau quase humano, mas é pura projeção (e um engano da natureza da consciência) colorindo pelo fato que alguns padrões instintivos animais, reflexos condicionados e habilidade de aprendizado sobrepõe com padrões reconhecíveis com os humanos. Donos de animais de estimação poderiam entender e aprender pelas criaturas que eles amam mais se eles deixassem essa fantasia e visse (por exemplo) um gato como um gato, com a dignidade de sua natureza, e não como um humano peludo.
A consciência não é apenas um presente, é responsabilidade. Ela dá ao homem ‘domínio sobre o peixe do mar, e sobre o pássaro do ar, e sobre o rebanho, e sobre toda a terra, e sobre toda criatura rastejante que rasteja na terra’. Dominação neste sentido não significa o direito de explorá-los; significa que, uma vez que a complexidade humana torna-o, para melhor ou pior, o ápice da evolução da Terra, ele tem a maior responsabilidade (realmente, ele é a única espécie com responsabilidade consciente) entre toda Natureza manifestada. As bruxas estão especialmente alertas a isso; Wicca por não ser política, congrega eleitores e ativistas de vários matizes; mas todas as bruxas tendem a aderir ao mesmo ideal quando isso envolve assuntos do meio ambiente.
Mas a consciência pesa no homem com uma responsabilidade consigo mesmo, para sua raça, também. Ele precisa integrar o consciente com o inconsciente, o intelecto com a intuição, a cabeça com o coração, o cérebro com as entranhas. Se ele não fizer, o conflito irá paralisar ou mesmo destruí-lo, e possivelmente a Terra também; ele terá traído a confiança de seus ‘domínios’.
Então é uma incumbência das bruxas, cuja religião e Ofício flui das profundezas interiores, em ser realmente o Povo Sábio e mostrar que a Wicca satisfaz o intelecto igualmente também. Elas precisam demonstrar a elas mesmas e ao mundo que suas crenças concordam com a realidade e então não contém (por mais bela que seja sua aparência) as sementes da auto-aniquilação.
O racionalismo da Wicca é um campo filosófico no qual todo fenômeno, de química até clarividência, de logaritmos até amor, pode razoavelmente se encaixar. E uma vez que a Wicca é um movimento em grande expansão, ativo em um mundo real, ela precisa (sem perder ou fraquejar sua preocupação com a profundidade da psique) constantemente explicar, examinar, desenvolver e aperfeiçoar essa filosofia. O racionalismo da Wicca, como nós o vemos, repousa sobre dois princípios fundamentais: a Teoria dos Níveis, e a Teoria da Polaridade.
A Teoria dos Níveis mantém que a realidade existe e opera em vários planos (físico, etéreo, astral, mental, espiritual, para citar uma lista simplificada mas geralmente aceita); que cada um desses níveis tem suas próprias leis; e que este conjunto de leis, enquanto especiais para seus próprios níveis, são compatíveis uns com os outros, suas ressonâncias mútuas governando a interação entre os níveis.
A Teoria da Polaridade mantém que toda atividade, toda manifestação, cresce de (e é inconcebível sem) a interação de pares opostos e complementares – positivo e negativo, luz e treva, conteúdo e forma, macho e fêmea, e assim por diante; e que esta polaridade não é um conflito entre ‘bem’ e ‘mal’, mas uma tensão criativa como a entre os terminais positivos e negativos de uma bateria elétrica. Bem e mal apenas aparecem com a aplicação construtiva ou destrutiva dessa tensão da polaridade (novamente, como no uso de uma bateria).
A Teoria dos Níveis descreve a estrutura do universo; a Teoria da Polaridade descreve sua atividade; e estrutura e atividade são inseparáveis. Juntas, elas são o universo.Vamos examinar cada uma delas em detalhe.
A Teoria dos Níveis (mesmo se simplificado a matéria, mente, espírito e Deus) era mais ou menos tido com garantia até a poucos séculos atrás, quando a avalanche da Revolução Cientifica (e sua descendência ruim, a Revolução Industrial) realmente começou a mover-se. A Revolução Científica, embora exclusivamente preocupada com o nível físico da realidade, era necessária se muitas vezes temporariamente desorientada no estágio desenvolvimento humano; o tempo chegou a ele para entender e conquistar a matéria e suas leis.
O problema estava que ele fez isso tão brilhantemente, com tal inspiração e sucesso mental, que ele iludiu-se em pensar que a matéria era o único nível da realidade. Ele começou a acreditar que a mente era meramente um fenômeno, uma atividade eletroquímica do cérebro físico; e que o ‘espírito’ era uma fantasia, uma projeção simbólica da mentalidade humana ou mesmo conflitos glandulares e incertezas, ou no melhor de sua urgência por perfeição, a verdadeira chave para isto (assim acreditava) repousa no progresso material.
Alguém poderia pensar que as religiões organizadas poderiam avançar com uma correção significativa a tudo isso; mas de fato sua voz era dificilmente ouvida chorando no selvagem materialismo triunfante. Em todas as arenas ativas das idéias humanas, religião era relegada para os lados da ética ou caridade, ou para racionalizações morais das conseqüências da industrialização. Assim como na filosofia, a interpretação da realidade cósmica, estava uma preocupação, ela apenas podia lutar reagindo. Materialismo era a força atual dinâmica da época.
E ainda assim, para aqueles com olhos para ver, as descobertas da ciência eram cheias de pistas de uma verdade maior. Dentro de sue próprios limites, a ciência refletiu a Teoria dos Níveis. As leis de cada uma de suas disciplinas – matemática, física, química, biologia e assim por diante – eram diferentes, entretanto compatíveis. Um botânico, analisando a estrutura e metabolismo de uma folha, tem que conhecer e fazer uso das formulas da química e matemática e física tanto quanto da sua própria. Cada conjunto de leis da ciência tem sua própria característica e relevância; ainda assim todas interagem, e nenhum conjunto de leis estão em conflito mutuo. Quando elas parecem contradizer uma a outra, o cientista sabe que isso acontece porque eles ainda não as compreenderam perfeitamente, e imediatamente eles as estudam e revisam até que o aparente conflito esteja resolvido.Foi apenas em nosso tempo de vida que os cientistas mais sábios começaram, em uma escala significativa, em ter duvidas sobre a visão do universo do século XIX ser um mero (entretanto complexo) mecanismo físico.
Esta duvidas, também, são um desenvolvimento natural. Se alguém empurrar a investigação do plano físico aos seus limites, a verdadeira natureza dessas fronteiras nos traz face a face com áreas de interação com outros planos; alguém continua a questionar sobre a parede dos limites – e começa a aumentar a dificuldade de ignorar o que está além.
A fórmula de Einstein e=mc² e a sutil transcendental da física subatômica (na qual os cientistas se vêem usando palavras como ‘indeterminância’, ‘estranhamento’ e ‘fascínio’ como termos técnicos) são dois dos mais óbvios campos nos quais a visão mecanicista do universo fica muito tênue.
Até muito recentemente, era suicídio profissional para um cientista respeitável investigar o ‘paranormal’ (percepção extra-sensorial, telepatia, telecinésia, precognição e assim por diante) ou mesmo admitir que pode ter algo a investigar. Mas hoje, mesmo nos EUA viciado em dólares e na oficialmente materialista URSS, universidades e departamentos de defesa estão alocando um bom dinheiro e cérebros de primeira classe para tal pesquisa.
E indo ainda mais longe em sustentar a Teoria dos Níveis, Sir Bernard Lovell, o pai da radioastronomia, pôde dizer no augusto corpo da Associação Britânica pelo Avanço da Ciência: ‘nós temos iludido a nós mesmos que através da ciência nós podemos encontrar a única alameda para o verdadeiro entendimento sobre a natureza e o universo...a simples crença no progresso automático pela descoberta e aplicação científica é um mito trágico de nosso tempo; ciência é uma poderosa e vital atividade humana, mas estas confusões de pensamento e motivo estão descontrolados’.
Alguns dos ouvintes catedráticos de Sir Bernard provavelmente tomaram essas palavras como meramente uma chamada aos cientistas estarem alertas com a responsabilidade moral e ética com a comunidade – importante o suficiente em toda consciência. Mas as implicações filosóficas são mais profundas, com ao menos uma minoria deve ter entendido e sem dúvida deve ter concordado.
Ou a afirmação de Sir Bernard significa que os níveis não-físicos da realidade existem e devem ser considerados, ou então são vulgaridades vazias. Garantindo, enquanto se trabalham com as hipóteses, que a realidade é múltipla – quais são as implicações práticas?
Se as bruxas podem citar a Escritura Marxista para seus próprios propósitos (e nosso desejo de ver a humanidade realizar seu pleno potencial é tão forte quanto o dos Comunistas mesmo que nossos objetivos e métodos sejam diferentes deles), nós poderíamos citar a afirmação de Marx e Engels no Manifesto Comunista: ‘os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias formas; o desafio, entretanto, é modificá-lo’, e no mais sucinto ditado de Lênin: ‘teoria sem prática é estéril, prática sem teoria é cega’.
As bruxas são pessoas práticas; filosofia para elas não é apenas um exercício intelectual – elas tem que por em prática em sua vida diária, e em seus trabalhos, se a filosofia tem algum significado. Semelhantemente, tanto quanto elas confiam no instinto, elas não apenas se apressam em resposta para suas sugestões sem alguma referência ou lógica – elas preferem entender o que elas estão fazendo, e porquê. Então na relação entre teoria e prática (se ao menos então) elas concordam com Lênin.
As bruxas sabem em teoria, e tem se satisfeito na prática, que existem pontos e áreas de interação entre os níveis; situações nas quais o plano mental age poderosamente no plano astral e afeta seus fenômenos – ou o espiritual no físico, e assim por diante. Cada plano está afetando ao outro todo o tempo; mas parece que pode ser chamado ponto de inter-ressonância onde este efeito é particularmente afetado e claramente definido para ser usado na prática.
Está na descoberta e entendimento desses pontos de inter-ressonância que constitui o grande acordo do qual as bruxas chamam ‘abrindo os níveis’; e é em sua exploração, em um trabalho construtivo, o que constitui o lado operacional do Ofício.
Para tornar isto claro, vamos dar um exemplo da ciência prática: digamos, televisão. Um evento envolvendo movimento e som acontece em um estúdio de televisão. Através dos equipamentos adequados, este evento é transformado em um evento em um plano diferente – o plano das vibrações eletro-magnéticas no qual os cientistas chamam de ‘éter’ (eles não usam o termo, porque o conhecimento mostrou ser uma excessiva simplificação; mas ainda é útil para ajudar ao leigo entender o que acontece).
Este evento no ‘éter’, enquanto ali, não é detectável pelos sentidos humanos. Nós não podemos ver ou ouvir, no ar ou passando através das paredes; mas está lá, real e coerente.
Em nossas salas, outro equipamento adequado toma esse evento ‘etéreo’ e o transforma, como por magia, de volta em um evento de movimento e som. Nós vemos e ouvimos uma reprodução notavelmente parecida do que está acontecendo no estúdio.
No momento da escrita, esta reprodução é meramente em duas dimensões de luz e sombra, cor e som mono; mas não há razoes técnicas (somente econômicas) porque isto não poderia ser em três dimensões e som estéreo. E no futuro, cientistas da televisão podem muito bem ser hábeis em nos oferecer cheiro, textura e sabor da mesma forma.
Os cientistas têm feito aqui, entre os sub-planos de sua própria realidade conhecida, exatamente o que as bruxas estão fazendo entre os planos maiores de suas realidades conhecidas: descobrindo e entendendo os pontos e as técnicas de inter-ressonância entre estes planos, e colocando seu conhecimento de forma prática. Em outras palavras, ‘abrindo os níveis’.
Nesse sentido, a televisão é magia; porque é exatamente isto que a magia é – nas palavras de Aleister Crowley, ‘a ciência e arte de causar mudanças para ocorrerem em conformidade com a Vontade’. Ele segue dizendo: ‘a Natureza é um fenômeno contínuo, acho que nós não sabemos em todos os casos como essas coisas estão conectadas’.
A descoberta dessas conexões é o objetivo do cientista (no plano físico) e da bruxa (em todos os planos). O uso dessas descobertas é ‘magia’. Magia não precisa quebrar as leis da Natureza; quando ela aparentemente o faz, é porque está obedecendo a leis que o observador ainda não compreendeu. Um cientista do século XVI, por exemplo, embora inteligente e bem informado, se ele pudesse ver televisão poderia muito bem ter chamado isso de sobrenatural.
Como nós dissemos, muito cientistas modernos estão começando a ficar alertas de (e alguns deles estão investigando) fenômenos que só podem ser explicados na hipótese que existem outros níveis de realidade além da matéria. Tentativas em explicar estes fenômenos nos termos de leis físicas ainda desconhecidas continuam colidindo sobre paradoxos recentes. Por exemplo, se a telepatia existe (e somente quem deseja ignorar as evidencias podem continuar a negar que ela existe) e é devido a algum tipo de radiação gerada pelo cérebro – porque todas as evidências mostram que isto não está sujeito à lei do quadrado inverso pelo qual todas as outras formas de radiação conhecidas pela ciência física estão governadas?
Alguém pode continuar em frente em pesquisas recentes em tais assuntos como telepatia, telecinésia, a influencia do pensamento no crescimento das plantas, a análise estatística dos tipos signos de nascimento zodiacais e assim por diante; mas este não é o lugar para fazê-lo. Para uma revisão superficial do assunto, nós recomendamos o livro ‘Supernatureza’ de Lyall Watson; e sobre telepatia em particular, o livro ‘Alcance Mental’ de Targ e Puthoff. Nós temos mais coisas a dizer sobre a Teoria dos Níveis nas próximas seções. Enquanto isso, vamos olhar de perto na Teoria da Polaridade. Esta teoria não é nova, igualmente; é muito comum a muitas filosofias, tanto religiosas como materialistas.
A armadilha na qual o monoteísmo caiu foi o de igualar a polaridade com bem versus mal. Eles reconhecem que a atividade do mundo em volta deles é gerado pela interação entre opostos; mas eles vêem esta interação somente como uma batalha entre Deus e Satan. Quando esta batalha termina com a vitória total de Deus na Ultima Trombeta, eles assumem que a atividade irá continuar – mas em que bases? Deixando de lado o coro da massa, e um excessivo uso do ouro na arquitetura, o prognostico é vago. Mesmo as inspiradas visões do Paraíso por poetas talentosos e visionários são realmente apenas descrições sem paixão de males contemporâneos que não existirão lá.
O exemplo mais citado, em Apocalipse XX! E XXII, exulta na Nova Jerusalém a ausência de lágrimas, morte, pesar, choro, dor, medo, descrença, abominação, homicídio, adúlteros, feiticeiros, idólatras, mentirosos, templos, portões fechados, noite, mar, maldições, velas, sol e lua. Mas a descrição positiva é puramente estática: cerca de 1500 milhas de largura, altura e profundidade (!) com paredes de 216 pés de altura, e fundações e portões feitos com pedras preciosas. A única menção de qualquer tipo de atividade ou movimento são dos virtuosos andando dentro dela (XXI:24), o rio da vida ‘prosseguindo’ (XXII:1), a arvore da vida atenciosamente frutificando todo mês (sem lua?) (XXII:2), e os servos de Deus o servindo (XXII:3). Verso após verso sobre males excluídos e sobre (para ser sincero, sem duvida simbólicas) dimensões e materiais, mas efetivamente nada a respeito do que acontece lá dentro.
Nosso ponto não está em rir da alta arquitetura de São João, nem mesmo de reclamar de sua abolição do sol, lua, mar, noite e velas, mas sugerir que sua descrição estática e negativa não é apenas seu estilo pessoal mas é intrínseco à visão não polarizada monoteísta. Sob a lei imutável de um Criador não polarizado, nada pode acontecer.
O Paraíso islâmico é muito mais interessante, se apenas porque Mohamed era sexualmente saudável e legou a seus seguidores nenhuma das inibições e neuroses das quais o misógino Paulo de Tarso impôs no Cristianismo. Então polaridade, em sua mais alegre forma humana, traz vida ao Paraíso muçulmano. Ao muçulmano, a mulher é inferior mas com a intenção por Alá de ser a doadora e receptora do prazer. Para o Cristianismo Paulino, a mulher não é somente inferior, ela é uma tentação ao pecado, e sua própria fraqueza moral se não pervertida (uma visão na qual a Igreja nunca se desembaraçou totalmente – acho que nós podemos achar nenhuma competência para isso nas palavras ou nos provérbios de Jesus). A visão dos muçulmanos, enquanto evidente inaceitavelmente chauvinista, dá boas vindas ao sexo no Paraíso; então no presente de ao menos um aspecto da polaridade, alguma coisa acontece por lá – e homem ou mulher, pode fazer algo pior.
O budista vai ao outro extremo; seu Nirvana é francamente estático, mas ao menos é consistente. Ele aspira a uma Existência pura, livre de polaridade e atividade, na imutável Mente Eterna; então ele não disfarça sua aspiração atrás de portões de perola, nem planta arvores frutíferas no Nirvana.
O Paraíso – seja coletivo, sexual ou imóvel – pode ser um longo caminho à frente para o crente individual; mas pelo estudo a sua visão dele, ele pode avaliar diretamente sua posição com a polaridade.
O Paraíso na Terra dos materialistas (onde mais eles poderiam colocar?) surge a partir da riqueza individual capitalista, desafia a morte, ruína e decadência o quanto for possível, para a sociedade igualitária comunista. Ambos reconhecem a polaridade ao menos na forma da luta de classes – o último apregoando, o primeiro praticando vigorosamente. Mas foi somente o Marxismo, por inteiro, que teve uma filosofia consistente da polaridade materialista.
Karl Marx não afirmou que seu Materialismo Dialético era original, ao menos em seu aspecto (atividade polarizada) dialético. Ele reconheceu sua divida com a dialética de Georg Hegel quem desenvolveu uma teoria elegante da ação da polaridade nos termos de Tese-Antítese-Síntese e a Interpenetração dos Opostos. Este sistema Marx tomou inteiramente. Mas Hegel era um idealista – o que no sentido filosófico significa não um filantropo ou sonhador otimista mas alguém que acreditava que a mente ou o espírito é a realidade básica, o qual a matéria apenas reflete; como oposto ao materialismo filosófico (como Marx) que vê a matéria como a base da realidade, com a mente e o espírito apenas a refletindo. Pela própria metáfora de Marx, a dialética de Hegel, em sua visão, estava em sua cabeça; e ele afirmou tê-la firmado em seus próprios pés. Então ele produziu o Materialismo Dialético, ou Marxismo – agora a filosofia oficial (e obrigatória) de cerca de um terço da população mundial.
Em termos estritamente filosóficos, as bruxas são idealistas; pois enquanto elas crêem que toda entidade ou objeto no plano físico tem sua contraparte em planos não-materiais, elas também acreditam que existem entidades reais nos planos invisíveis que não possuem formas físicas delas próprias. Para as bruxas, os planos invisíveis são a realidade fundamental, da qual a realidade material é uma de suas manifestações.
Mas rotular as bruxas como idealistas, embora correto, é talvez incompleto; talvez ‘pluralistas’ seria melhor. Porque a matéria é bem real para elas; elas estão amavelmente enraizadas na Natureza, o ‘Véu de Ísis’, vibrante com os tons de todos os níveis. A Natureza tangível é sagrada para elas. Eis o porque a Deusa delas tem dois principais aspectos. Ela é tanto a Mãe Terra, cuja fertilidade as sustenta e nutre durante a encarnação física, e a Rainha da Noite, ‘ela em cujo pó dos pés estão as hostes celestes, e cujo corpo engloba o universo’, de quem o símbolo mais vívido é a lua. A Mãe Terra é a soberana Natureza fisicamente manifestada, Isis Velada; a Deusa Lunar é a regente dos níveis invisíveis, Isis Desvelada; ainda assim, para as bruxas, ambas são uma e inseparáveis. Elas permanecem Uma, mesmo na complexidade dos níveis invisíveis é mais à frente simbolizado pelos aspectos cíclicos da Deusa Lunar como Dama, Mãe e Anciã – crescente, cheia e minguante. E em seu aspecto multiforme ela é movida e fertilizada por seu multiforme Consorte; para o Deus das bruxas, também, é simbolizado ao mesmo tempo pela figura de Pan, das florestas e montanhas e pelo sol ardente dos céus. A visão das bruxas de seus Deuses e Deusas expressam compreensivelmente suas crenças na realidade de todos os níveis, a matéria incluída.
Então as bruxas vêem falhas na visão dominante sobre os Níveis, e sobre a Polaridade, dessa forma:
A visão materialista (e, em particular, a Marxista) tem basicamente um conhecimento do atual trabalho da Teoria da Polaridade mas a distorce e empobrece por negar a Teoria dos Níveis.
A visão religiosa monoteísta aceita (de uma forma ou outra) a Teoria dos Níveis mas a distorce e empobrece por diminuir a teoria da Polaridade em um mero conflito entre Bem e Mal. Religiões politeístas e pagãs sempre aceitaram tanto a Teoria dos Níveis quanto a Teoria da Polaridade, sem distorcer mesmo para encaixar um conceito inadequado (ou mesmo negar) da outra. Somente temos que estudar os panteões do Egito, Grécia, Roma e Índia, com seus Deuses e Deusas criadores-destruidores, seus eternos ciclos de ser e cessar e recomeçar, suas Inter-relações dialéticas, para perceber o quanto ricas estas atitudes tem sido simbolizadas.
A filosofia wiccan está dentro desta tradição direta. Toda religião é original, mesmo quando é parte de uma herança maior. Wicca, como todas as demais religiões, tem suas próprias formas, suas próprias preocupações, sua própria atmosfera. E é um Oficio da mesma forma; para adotar as categorias de Margaret Murray, ela inclui tanto Bruxaria Ritual quanto Operacional.
Wicca inclui ritual, feitiço, clarividência, divinização, está profundamente envolvida em questões de ética, reencarnação, sexo, relação com a Natureza, psicologia e atitudes com outras religiões e caminhos ocultos.
Autores: Janet & Stewart Farrah
Obra: O Caminho das Bruxas
Tradução: Roberto Quintas
Nota: curiosamente esse texto que eu traduzi não estava neste blog mas encontrei em outro graças ao oráculo do Google. Eu fico feliz em ver que meus textos e traduções começam a receber alguma atenção.
A bruxaria moderna tem um racionalismo, e um bastante coerente. Isto pode surpreender alguns de nossos leitores, que sabe somente que bruxaria vem das entranhas. E realmente vem, tanto quanto motivação e operação vêm. A força operacional e o atrativo do Ofício desperta das emoções, intuições, o ‘profundamente vasto’ Inconsciente Coletivo. Seus Deuses e Deusas fazem suas formas dos vários Arquétipos os quais são as poderosas pedras fundamentais da psique racial humana.
Mas Consciência é humana, também. A consciência individual é comparativamente nova no cenário evolutivo deste planeta, e – ao menos tanto quanto animais terrestres estão preocupados – isto é um presente único do homo sapiens. Nenhum outro animal terreno manifestado fisicamente possui isto, acho que um ou dois dos mamíferos superiores parecem possuir seus primeiros estímulos embrionários. Sentimentalistas creditam aos seus animais favoritos a um grau quase humano, mas é pura projeção (e um engano da natureza da consciência) colorindo pelo fato que alguns padrões instintivos animais, reflexos condicionados e habilidade de aprendizado sobrepõe com padrões reconhecíveis com os humanos. Donos de animais de estimação poderiam entender e aprender pelas criaturas que eles amam mais se eles deixassem essa fantasia e visse (por exemplo) um gato como um gato, com a dignidade de sua natureza, e não como um humano peludo.
A consciência não é apenas um presente, é responsabilidade. Ela dá ao homem ‘domínio sobre o peixe do mar, e sobre o pássaro do ar, e sobre o rebanho, e sobre toda a terra, e sobre toda criatura rastejante que rasteja na terra’. Dominação neste sentido não significa o direito de explorá-los; significa que, uma vez que a complexidade humana torna-o, para melhor ou pior, o ápice da evolução da Terra, ele tem a maior responsabilidade (realmente, ele é a única espécie com responsabilidade consciente) entre toda Natureza manifestada. As bruxas estão especialmente alertas a isso; Wicca por não ser política, congrega eleitores e ativistas de vários matizes; mas todas as bruxas tendem a aderir ao mesmo ideal quando isso envolve assuntos do meio ambiente.
Mas a consciência pesa no homem com uma responsabilidade consigo mesmo, para sua raça, também. Ele precisa integrar o consciente com o inconsciente, o intelecto com a intuição, a cabeça com o coração, o cérebro com as entranhas. Se ele não fizer, o conflito irá paralisar ou mesmo destruí-lo, e possivelmente a Terra também; ele terá traído a confiança de seus ‘domínios’.
Então é uma incumbência das bruxas, cuja religião e Ofício flui das profundezas interiores, em ser realmente o Povo Sábio e mostrar que a Wicca satisfaz o intelecto igualmente também. Elas precisam demonstrar a elas mesmas e ao mundo que suas crenças concordam com a realidade e então não contém (por mais bela que seja sua aparência) as sementes da auto-aniquilação.
O racionalismo da Wicca é um campo filosófico no qual todo fenômeno, de química até clarividência, de logaritmos até amor, pode razoavelmente se encaixar. E uma vez que a Wicca é um movimento em grande expansão, ativo em um mundo real, ela precisa (sem perder ou fraquejar sua preocupação com a profundidade da psique) constantemente explicar, examinar, desenvolver e aperfeiçoar essa filosofia. O racionalismo da Wicca, como nós o vemos, repousa sobre dois princípios fundamentais: a Teoria dos Níveis, e a Teoria da Polaridade.
A Teoria dos Níveis mantém que a realidade existe e opera em vários planos (físico, etéreo, astral, mental, espiritual, para citar uma lista simplificada mas geralmente aceita); que cada um desses níveis tem suas próprias leis; e que este conjunto de leis, enquanto especiais para seus próprios níveis, são compatíveis uns com os outros, suas ressonâncias mútuas governando a interação entre os níveis.
A Teoria da Polaridade mantém que toda atividade, toda manifestação, cresce de (e é inconcebível sem) a interação de pares opostos e complementares – positivo e negativo, luz e treva, conteúdo e forma, macho e fêmea, e assim por diante; e que esta polaridade não é um conflito entre ‘bem’ e ‘mal’, mas uma tensão criativa como a entre os terminais positivos e negativos de uma bateria elétrica. Bem e mal apenas aparecem com a aplicação construtiva ou destrutiva dessa tensão da polaridade (novamente, como no uso de uma bateria).
A Teoria dos Níveis descreve a estrutura do universo; a Teoria da Polaridade descreve sua atividade; e estrutura e atividade são inseparáveis. Juntas, elas são o universo.Vamos examinar cada uma delas em detalhe.
A Teoria dos Níveis (mesmo se simplificado a matéria, mente, espírito e Deus) era mais ou menos tido com garantia até a poucos séculos atrás, quando a avalanche da Revolução Cientifica (e sua descendência ruim, a Revolução Industrial) realmente começou a mover-se. A Revolução Científica, embora exclusivamente preocupada com o nível físico da realidade, era necessária se muitas vezes temporariamente desorientada no estágio desenvolvimento humano; o tempo chegou a ele para entender e conquistar a matéria e suas leis.
O problema estava que ele fez isso tão brilhantemente, com tal inspiração e sucesso mental, que ele iludiu-se em pensar que a matéria era o único nível da realidade. Ele começou a acreditar que a mente era meramente um fenômeno, uma atividade eletroquímica do cérebro físico; e que o ‘espírito’ era uma fantasia, uma projeção simbólica da mentalidade humana ou mesmo conflitos glandulares e incertezas, ou no melhor de sua urgência por perfeição, a verdadeira chave para isto (assim acreditava) repousa no progresso material.
Alguém poderia pensar que as religiões organizadas poderiam avançar com uma correção significativa a tudo isso; mas de fato sua voz era dificilmente ouvida chorando no selvagem materialismo triunfante. Em todas as arenas ativas das idéias humanas, religião era relegada para os lados da ética ou caridade, ou para racionalizações morais das conseqüências da industrialização. Assim como na filosofia, a interpretação da realidade cósmica, estava uma preocupação, ela apenas podia lutar reagindo. Materialismo era a força atual dinâmica da época.
E ainda assim, para aqueles com olhos para ver, as descobertas da ciência eram cheias de pistas de uma verdade maior. Dentro de sue próprios limites, a ciência refletiu a Teoria dos Níveis. As leis de cada uma de suas disciplinas – matemática, física, química, biologia e assim por diante – eram diferentes, entretanto compatíveis. Um botânico, analisando a estrutura e metabolismo de uma folha, tem que conhecer e fazer uso das formulas da química e matemática e física tanto quanto da sua própria. Cada conjunto de leis da ciência tem sua própria característica e relevância; ainda assim todas interagem, e nenhum conjunto de leis estão em conflito mutuo. Quando elas parecem contradizer uma a outra, o cientista sabe que isso acontece porque eles ainda não as compreenderam perfeitamente, e imediatamente eles as estudam e revisam até que o aparente conflito esteja resolvido.Foi apenas em nosso tempo de vida que os cientistas mais sábios começaram, em uma escala significativa, em ter duvidas sobre a visão do universo do século XIX ser um mero (entretanto complexo) mecanismo físico.
Esta duvidas, também, são um desenvolvimento natural. Se alguém empurrar a investigação do plano físico aos seus limites, a verdadeira natureza dessas fronteiras nos traz face a face com áreas de interação com outros planos; alguém continua a questionar sobre a parede dos limites – e começa a aumentar a dificuldade de ignorar o que está além.
A fórmula de Einstein e=mc² e a sutil transcendental da física subatômica (na qual os cientistas se vêem usando palavras como ‘indeterminância’, ‘estranhamento’ e ‘fascínio’ como termos técnicos) são dois dos mais óbvios campos nos quais a visão mecanicista do universo fica muito tênue.
Até muito recentemente, era suicídio profissional para um cientista respeitável investigar o ‘paranormal’ (percepção extra-sensorial, telepatia, telecinésia, precognição e assim por diante) ou mesmo admitir que pode ter algo a investigar. Mas hoje, mesmo nos EUA viciado em dólares e na oficialmente materialista URSS, universidades e departamentos de defesa estão alocando um bom dinheiro e cérebros de primeira classe para tal pesquisa.
E indo ainda mais longe em sustentar a Teoria dos Níveis, Sir Bernard Lovell, o pai da radioastronomia, pôde dizer no augusto corpo da Associação Britânica pelo Avanço da Ciência: ‘nós temos iludido a nós mesmos que através da ciência nós podemos encontrar a única alameda para o verdadeiro entendimento sobre a natureza e o universo...a simples crença no progresso automático pela descoberta e aplicação científica é um mito trágico de nosso tempo; ciência é uma poderosa e vital atividade humana, mas estas confusões de pensamento e motivo estão descontrolados’.
Alguns dos ouvintes catedráticos de Sir Bernard provavelmente tomaram essas palavras como meramente uma chamada aos cientistas estarem alertas com a responsabilidade moral e ética com a comunidade – importante o suficiente em toda consciência. Mas as implicações filosóficas são mais profundas, com ao menos uma minoria deve ter entendido e sem dúvida deve ter concordado.
Ou a afirmação de Sir Bernard significa que os níveis não-físicos da realidade existem e devem ser considerados, ou então são vulgaridades vazias. Garantindo, enquanto se trabalham com as hipóteses, que a realidade é múltipla – quais são as implicações práticas?
Se as bruxas podem citar a Escritura Marxista para seus próprios propósitos (e nosso desejo de ver a humanidade realizar seu pleno potencial é tão forte quanto o dos Comunistas mesmo que nossos objetivos e métodos sejam diferentes deles), nós poderíamos citar a afirmação de Marx e Engels no Manifesto Comunista: ‘os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias formas; o desafio, entretanto, é modificá-lo’, e no mais sucinto ditado de Lênin: ‘teoria sem prática é estéril, prática sem teoria é cega’.
As bruxas são pessoas práticas; filosofia para elas não é apenas um exercício intelectual – elas tem que por em prática em sua vida diária, e em seus trabalhos, se a filosofia tem algum significado. Semelhantemente, tanto quanto elas confiam no instinto, elas não apenas se apressam em resposta para suas sugestões sem alguma referência ou lógica – elas preferem entender o que elas estão fazendo, e porquê. Então na relação entre teoria e prática (se ao menos então) elas concordam com Lênin.
As bruxas sabem em teoria, e tem se satisfeito na prática, que existem pontos e áreas de interação entre os níveis; situações nas quais o plano mental age poderosamente no plano astral e afeta seus fenômenos – ou o espiritual no físico, e assim por diante. Cada plano está afetando ao outro todo o tempo; mas parece que pode ser chamado ponto de inter-ressonância onde este efeito é particularmente afetado e claramente definido para ser usado na prática.
Está na descoberta e entendimento desses pontos de inter-ressonância que constitui o grande acordo do qual as bruxas chamam ‘abrindo os níveis’; e é em sua exploração, em um trabalho construtivo, o que constitui o lado operacional do Ofício.
Para tornar isto claro, vamos dar um exemplo da ciência prática: digamos, televisão. Um evento envolvendo movimento e som acontece em um estúdio de televisão. Através dos equipamentos adequados, este evento é transformado em um evento em um plano diferente – o plano das vibrações eletro-magnéticas no qual os cientistas chamam de ‘éter’ (eles não usam o termo, porque o conhecimento mostrou ser uma excessiva simplificação; mas ainda é útil para ajudar ao leigo entender o que acontece).
Este evento no ‘éter’, enquanto ali, não é detectável pelos sentidos humanos. Nós não podemos ver ou ouvir, no ar ou passando através das paredes; mas está lá, real e coerente.
Em nossas salas, outro equipamento adequado toma esse evento ‘etéreo’ e o transforma, como por magia, de volta em um evento de movimento e som. Nós vemos e ouvimos uma reprodução notavelmente parecida do que está acontecendo no estúdio.
No momento da escrita, esta reprodução é meramente em duas dimensões de luz e sombra, cor e som mono; mas não há razoes técnicas (somente econômicas) porque isto não poderia ser em três dimensões e som estéreo. E no futuro, cientistas da televisão podem muito bem ser hábeis em nos oferecer cheiro, textura e sabor da mesma forma.
Os cientistas têm feito aqui, entre os sub-planos de sua própria realidade conhecida, exatamente o que as bruxas estão fazendo entre os planos maiores de suas realidades conhecidas: descobrindo e entendendo os pontos e as técnicas de inter-ressonância entre estes planos, e colocando seu conhecimento de forma prática. Em outras palavras, ‘abrindo os níveis’.
Nesse sentido, a televisão é magia; porque é exatamente isto que a magia é – nas palavras de Aleister Crowley, ‘a ciência e arte de causar mudanças para ocorrerem em conformidade com a Vontade’. Ele segue dizendo: ‘a Natureza é um fenômeno contínuo, acho que nós não sabemos em todos os casos como essas coisas estão conectadas’.
A descoberta dessas conexões é o objetivo do cientista (no plano físico) e da bruxa (em todos os planos). O uso dessas descobertas é ‘magia’. Magia não precisa quebrar as leis da Natureza; quando ela aparentemente o faz, é porque está obedecendo a leis que o observador ainda não compreendeu. Um cientista do século XVI, por exemplo, embora inteligente e bem informado, se ele pudesse ver televisão poderia muito bem ter chamado isso de sobrenatural.
Como nós dissemos, muito cientistas modernos estão começando a ficar alertas de (e alguns deles estão investigando) fenômenos que só podem ser explicados na hipótese que existem outros níveis de realidade além da matéria. Tentativas em explicar estes fenômenos nos termos de leis físicas ainda desconhecidas continuam colidindo sobre paradoxos recentes. Por exemplo, se a telepatia existe (e somente quem deseja ignorar as evidencias podem continuar a negar que ela existe) e é devido a algum tipo de radiação gerada pelo cérebro – porque todas as evidências mostram que isto não está sujeito à lei do quadrado inverso pelo qual todas as outras formas de radiação conhecidas pela ciência física estão governadas?
Alguém pode continuar em frente em pesquisas recentes em tais assuntos como telepatia, telecinésia, a influencia do pensamento no crescimento das plantas, a análise estatística dos tipos signos de nascimento zodiacais e assim por diante; mas este não é o lugar para fazê-lo. Para uma revisão superficial do assunto, nós recomendamos o livro ‘Supernatureza’ de Lyall Watson; e sobre telepatia em particular, o livro ‘Alcance Mental’ de Targ e Puthoff. Nós temos mais coisas a dizer sobre a Teoria dos Níveis nas próximas seções. Enquanto isso, vamos olhar de perto na Teoria da Polaridade. Esta teoria não é nova, igualmente; é muito comum a muitas filosofias, tanto religiosas como materialistas.
A armadilha na qual o monoteísmo caiu foi o de igualar a polaridade com bem versus mal. Eles reconhecem que a atividade do mundo em volta deles é gerado pela interação entre opostos; mas eles vêem esta interação somente como uma batalha entre Deus e Satan. Quando esta batalha termina com a vitória total de Deus na Ultima Trombeta, eles assumem que a atividade irá continuar – mas em que bases? Deixando de lado o coro da massa, e um excessivo uso do ouro na arquitetura, o prognostico é vago. Mesmo as inspiradas visões do Paraíso por poetas talentosos e visionários são realmente apenas descrições sem paixão de males contemporâneos que não existirão lá.
O exemplo mais citado, em Apocalipse XX! E XXII, exulta na Nova Jerusalém a ausência de lágrimas, morte, pesar, choro, dor, medo, descrença, abominação, homicídio, adúlteros, feiticeiros, idólatras, mentirosos, templos, portões fechados, noite, mar, maldições, velas, sol e lua. Mas a descrição positiva é puramente estática: cerca de 1500 milhas de largura, altura e profundidade (!) com paredes de 216 pés de altura, e fundações e portões feitos com pedras preciosas. A única menção de qualquer tipo de atividade ou movimento são dos virtuosos andando dentro dela (XXI:24), o rio da vida ‘prosseguindo’ (XXII:1), a arvore da vida atenciosamente frutificando todo mês (sem lua?) (XXII:2), e os servos de Deus o servindo (XXII:3). Verso após verso sobre males excluídos e sobre (para ser sincero, sem duvida simbólicas) dimensões e materiais, mas efetivamente nada a respeito do que acontece lá dentro.
Nosso ponto não está em rir da alta arquitetura de São João, nem mesmo de reclamar de sua abolição do sol, lua, mar, noite e velas, mas sugerir que sua descrição estática e negativa não é apenas seu estilo pessoal mas é intrínseco à visão não polarizada monoteísta. Sob a lei imutável de um Criador não polarizado, nada pode acontecer.
O Paraíso islâmico é muito mais interessante, se apenas porque Mohamed era sexualmente saudável e legou a seus seguidores nenhuma das inibições e neuroses das quais o misógino Paulo de Tarso impôs no Cristianismo. Então polaridade, em sua mais alegre forma humana, traz vida ao Paraíso muçulmano. Ao muçulmano, a mulher é inferior mas com a intenção por Alá de ser a doadora e receptora do prazer. Para o Cristianismo Paulino, a mulher não é somente inferior, ela é uma tentação ao pecado, e sua própria fraqueza moral se não pervertida (uma visão na qual a Igreja nunca se desembaraçou totalmente – acho que nós podemos achar nenhuma competência para isso nas palavras ou nos provérbios de Jesus). A visão dos muçulmanos, enquanto evidente inaceitavelmente chauvinista, dá boas vindas ao sexo no Paraíso; então no presente de ao menos um aspecto da polaridade, alguma coisa acontece por lá – e homem ou mulher, pode fazer algo pior.
O budista vai ao outro extremo; seu Nirvana é francamente estático, mas ao menos é consistente. Ele aspira a uma Existência pura, livre de polaridade e atividade, na imutável Mente Eterna; então ele não disfarça sua aspiração atrás de portões de perola, nem planta arvores frutíferas no Nirvana.
O Paraíso – seja coletivo, sexual ou imóvel – pode ser um longo caminho à frente para o crente individual; mas pelo estudo a sua visão dele, ele pode avaliar diretamente sua posição com a polaridade.
O Paraíso na Terra dos materialistas (onde mais eles poderiam colocar?) surge a partir da riqueza individual capitalista, desafia a morte, ruína e decadência o quanto for possível, para a sociedade igualitária comunista. Ambos reconhecem a polaridade ao menos na forma da luta de classes – o último apregoando, o primeiro praticando vigorosamente. Mas foi somente o Marxismo, por inteiro, que teve uma filosofia consistente da polaridade materialista.
Karl Marx não afirmou que seu Materialismo Dialético era original, ao menos em seu aspecto (atividade polarizada) dialético. Ele reconheceu sua divida com a dialética de Georg Hegel quem desenvolveu uma teoria elegante da ação da polaridade nos termos de Tese-Antítese-Síntese e a Interpenetração dos Opostos. Este sistema Marx tomou inteiramente. Mas Hegel era um idealista – o que no sentido filosófico significa não um filantropo ou sonhador otimista mas alguém que acreditava que a mente ou o espírito é a realidade básica, o qual a matéria apenas reflete; como oposto ao materialismo filosófico (como Marx) que vê a matéria como a base da realidade, com a mente e o espírito apenas a refletindo. Pela própria metáfora de Marx, a dialética de Hegel, em sua visão, estava em sua cabeça; e ele afirmou tê-la firmado em seus próprios pés. Então ele produziu o Materialismo Dialético, ou Marxismo – agora a filosofia oficial (e obrigatória) de cerca de um terço da população mundial.
Em termos estritamente filosóficos, as bruxas são idealistas; pois enquanto elas crêem que toda entidade ou objeto no plano físico tem sua contraparte em planos não-materiais, elas também acreditam que existem entidades reais nos planos invisíveis que não possuem formas físicas delas próprias. Para as bruxas, os planos invisíveis são a realidade fundamental, da qual a realidade material é uma de suas manifestações.
Mas rotular as bruxas como idealistas, embora correto, é talvez incompleto; talvez ‘pluralistas’ seria melhor. Porque a matéria é bem real para elas; elas estão amavelmente enraizadas na Natureza, o ‘Véu de Ísis’, vibrante com os tons de todos os níveis. A Natureza tangível é sagrada para elas. Eis o porque a Deusa delas tem dois principais aspectos. Ela é tanto a Mãe Terra, cuja fertilidade as sustenta e nutre durante a encarnação física, e a Rainha da Noite, ‘ela em cujo pó dos pés estão as hostes celestes, e cujo corpo engloba o universo’, de quem o símbolo mais vívido é a lua. A Mãe Terra é a soberana Natureza fisicamente manifestada, Isis Velada; a Deusa Lunar é a regente dos níveis invisíveis, Isis Desvelada; ainda assim, para as bruxas, ambas são uma e inseparáveis. Elas permanecem Uma, mesmo na complexidade dos níveis invisíveis é mais à frente simbolizado pelos aspectos cíclicos da Deusa Lunar como Dama, Mãe e Anciã – crescente, cheia e minguante. E em seu aspecto multiforme ela é movida e fertilizada por seu multiforme Consorte; para o Deus das bruxas, também, é simbolizado ao mesmo tempo pela figura de Pan, das florestas e montanhas e pelo sol ardente dos céus. A visão das bruxas de seus Deuses e Deusas expressam compreensivelmente suas crenças na realidade de todos os níveis, a matéria incluída.
Então as bruxas vêem falhas na visão dominante sobre os Níveis, e sobre a Polaridade, dessa forma:
A visão materialista (e, em particular, a Marxista) tem basicamente um conhecimento do atual trabalho da Teoria da Polaridade mas a distorce e empobrece por negar a Teoria dos Níveis.
A visão religiosa monoteísta aceita (de uma forma ou outra) a Teoria dos Níveis mas a distorce e empobrece por diminuir a teoria da Polaridade em um mero conflito entre Bem e Mal. Religiões politeístas e pagãs sempre aceitaram tanto a Teoria dos Níveis quanto a Teoria da Polaridade, sem distorcer mesmo para encaixar um conceito inadequado (ou mesmo negar) da outra. Somente temos que estudar os panteões do Egito, Grécia, Roma e Índia, com seus Deuses e Deusas criadores-destruidores, seus eternos ciclos de ser e cessar e recomeçar, suas Inter-relações dialéticas, para perceber o quanto ricas estas atitudes tem sido simbolizadas.
A filosofia wiccan está dentro desta tradição direta. Toda religião é original, mesmo quando é parte de uma herança maior. Wicca, como todas as demais religiões, tem suas próprias formas, suas próprias preocupações, sua própria atmosfera. E é um Oficio da mesma forma; para adotar as categorias de Margaret Murray, ela inclui tanto Bruxaria Ritual quanto Operacional.
Wicca inclui ritual, feitiço, clarividência, divinização, está profundamente envolvida em questões de ética, reencarnação, sexo, relação com a Natureza, psicologia e atitudes com outras religiões e caminhos ocultos.
Autores: Janet & Stewart Farrah
Obra: O Caminho das Bruxas
Tradução: Roberto Quintas
Nota: curiosamente esse texto que eu traduzi não estava neste blog mas encontrei em outro graças ao oráculo do Google. Eu fico feliz em ver que meus textos e traduções começam a receber alguma atenção.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
A comunhão da revolta
Devemos dizer os sabás. Esta palavra evidentemente designou coisas muito diversas, segundo a época. Infelizmente, só temos as descrições detalhadas já muito tarde (do tempo de Henrique IV). Não passava, então, de uma grande farsa libidinosa, a pretexto de feitiçaria. Mas mesmo nessas descrições de algo tão abastardado, alguns vestígios bem antigos testemunham idades sucessivas, formas diferentes pelas quais passara.
Pode-se partir da idéia muito segura de que, durante vários séculos, o servo levou a vida do lobo e da raposa; foi um animal noturno que durante o dia agia o menos possível, só vivendo verdadeiramente à noite.
Até o ano 1000, enquanto o povo faz seus santos e suas lendas, a vida do dia não é desprovida de interesse para ele. Seus sabás noturnos não passam de leve resquício de paganismo. Ele reverencia e teme a Lua, que influi sobre os bens da Terra. As velhas lhe são devotas e queimam pequenas velas a Dianom (Diana-Lua-Hécate). O lupercal continua perseguindo as mulheres e as crianças, é verdade que sob uma máscara, o rosto negro da alma do outro mundo, o Arlequim. Festeja-se exatamente a pervigilium veneris (em 1º de Maio). No dia de São João mata-se o bode de Priapo-Baco Sabasius, para celebrar as sabásias. Não há nenhum sarcasmo nisso, é um inocente carnaval do servo.
Mas, por volta do ao 1000, pela diferença das linguas, a Igreja quase lhe fecha as portas. Em 1100, os ofícios tornam-se ininteligíveis para ele. Dos mistérios que são representados nas portas das igrejas, o que ele retém melhor é o papel cômico, o boi e o burro, etc. Compôe cânticos com esses temas, mas cada vez mais sarcásticos.
Não poderíamos crer que as grandes e terríveis revoltas do século XII tivessem deixado de influenciar esses mistérios e essa vida noturna. As revoltas podem ter começado muitas vezes nessas festas noturnas. As grandes comunhões de revolta entre servos podem ter sido celebradas no sabá.
Mas o túmulo foi fechado em 1200. O papa sentado em cima, o rei sentado em cima, com enorme peso sepultaram o homem. Que acontece então com sua vida noturna? Torna-se mais intensa. As velhas danças pagãs tornam-se mais frenéticas. Assim também o servo. Mas, às danças, devem se ter misturado brincadeiras de vingança, farsas satíricas, zombarias e caricaturas do senhor e do padre. Toda uma literatura da noite, que não levava em conta uma só palavra do dia, pouco considerando até mesmo os burgueses.
Este é o sentido dos sabás antes de 1300. Para que tomassem a forma espantosa de uma guerra declarada ao Deus daquele tempo, ainda era preciso muito mais. Duas coisas eram necessárias: não só que se descesse ao fundo da desesperança, mas que se perdesse todo respeito.
Isso só acontece no século XIV, sob o papado de Avignon e durante o Grande Cisma, quando a Igreja, com duas cabeças, já não parece a Igreja, quando toda a nobreza e o rei, vergonhosamente feitos prisioneiros dos ingleses, exterminam o povo para lhe extorquir seu resgate. Os sabás assumem então a forma grandiosa e terrível da Missa Negra, o ofício às avessas, em que se desafia, se pede a Jesus que fulmine com raio, se for capaz. Esse drama diabólico teria sido impossível ainda no século XIII, quando teria horrorizado. Mais tarde, no século XV, quando tudo estaria desgastado, até a dor, tal jato não teria brotado. Não se teria ousado essa criação monstruosa. Ela pertenceu ao século de Dante.
Tudo aconteceu, acredito, de um jato. A explosão de uma fúria genial elevou a impiedade à altura das cóleras populares. Para compreender o que eram essas cóleras, é preciso lembrar que o povo, educado pelo próprio clero na crença e na fé do milagre, bem longe de imaginar a fixidez das leis de Deus, durante séculos havia esperado um milagre e ele nunca viera. Em vão clamava por ele no dia desesperado de sua necessidade suprema. A partir de então, o céu lhe pareceu como que o aliado de seus carrascos ferozes, ele mesmo um feroz carrasco. Por isso a Missa Negra e a Jacquerie.
A Missa Negra, em seu primeiro aspecto, pareceria ser essa redenção de Eva, maldita pelo Cristianismo. A mulher desempenha todos os papéis no sabá. Ela é a sacerdotisa, é o altar, é a hóstia de que todos comungam. No fundo, não será ela o próprio Deus?
Eu não hesitaria em acreditar que o sabá, na forma de então, foi obra da mulher. Ela vê, no século XIV, abrir-se à sua frente sua horrível carreira de suplícios; trezentos, quatrocentos anos iluminados pelas fogueiras! A audácia é fomentada pelo próprio perigo. A feiticeira pode aventurar tudo. Fraternidade humana, desafio ao céu cristão, culto perverso do deus natureza - eis o sentido da Missa Negra.
Naqueles tempos miseráveis, o grande milagre é que na cena noturna se encontrasse fraternidade, o que não seria encontrado de dia. Não sem correr perigos, a feiticeira obtinha a contribuição dos mais abastados, recolhendo suas oferendas. Para a refeição comum da noite, roubava-se durante o dia a própria refeição.
No fundo, a feiticeria erguia seu Deus, um grande deus de madeira, negro e peludo. Pelos cornos e o bode que lhe ficavam próximos, teria sido Baco; mas, pelos atributos viris, era Pã e Príapo. Para uns era puro terror; outros se emocionavam com o orgulho melancólico em que parecia absorto o eterno exilado.
As pessoas chegam, em fila, tomavam a purificação na água lustral, para então chegar a noiva do deus natureza. Rendem-se homenagens ao novo Senhor, o beijo feudal como nas igrejas, mas beijando-se as nádegas.
Cabe a ele sagrar sua sacerdotisa. O deus de madeira a colhe como outrora Pã e Príapo. Conforme a forma pagã, ela se entrega a ele, senta-se um momento sobre ele, como a Délfica no tripé de Apolo. Recebeu seu sopro, a alma, a vida, a fecundação simulada. Depois, com igual solenidade, ela se purifica. A partir desse momento, ela mesma é o altar vivo.
No momento em que a platéia sentia-se um só corpo, depois do banquete, do festim e da dança, apareciam hóstia e altar. Quais? A própria mulher. De seu corpo prostrado, de sua pessoa humilhada, ela, a orgulhosa Proserpina, se oferecia. Sobre seus rins se oficiava, se dizia o credo, se fazia o ofertório.
Todos se emocionavam quando, sobre a criatura devotada, humilhada, que se dava, faziam a prece e a oferenda pela colheita. Oferecia-se trigo ao Espírito da Terra que faz crescer o trigo. Pássaros alçavam vôo e levavam ao deus de liberdade o suspiro e o voto dos servos. Que pediam eles? Que nós outros, seus descendentes longínquos, fôssemos libertos.
Que hóstia ela distribuía? A confarreatio, a hóstia de amor, um bolo cozido sobre si, sobre a vítima que amanhã podia ser, ela mesma, levada ao fogo. A hóstia era sua vida, sua morte, o que se comia. Ali depositavam sobre ela duas oferendas de carne, dois simulacros, representando o último nascido e do último morto da comunidade. Eles participavam do mérito da mulher, altar e hóstia e a assembléia comungavam de um e de outro. Triplice hóstia, toda humana. Sob a vaga sombra do deus, era somente o povo que o povo adorava.
Este era o verdadeiro sacrifício. Estava consumado. A mulher, tendo se dado como alimento à multidão, terminara sua obra.
Texto composto a partir do livro "A Feiticeira" de Jules Michelet, pg 121-127.
Pode-se partir da idéia muito segura de que, durante vários séculos, o servo levou a vida do lobo e da raposa; foi um animal noturno que durante o dia agia o menos possível, só vivendo verdadeiramente à noite.
Até o ano 1000, enquanto o povo faz seus santos e suas lendas, a vida do dia não é desprovida de interesse para ele. Seus sabás noturnos não passam de leve resquício de paganismo. Ele reverencia e teme a Lua, que influi sobre os bens da Terra. As velhas lhe são devotas e queimam pequenas velas a Dianom (Diana-Lua-Hécate). O lupercal continua perseguindo as mulheres e as crianças, é verdade que sob uma máscara, o rosto negro da alma do outro mundo, o Arlequim. Festeja-se exatamente a pervigilium veneris (em 1º de Maio). No dia de São João mata-se o bode de Priapo-Baco Sabasius, para celebrar as sabásias. Não há nenhum sarcasmo nisso, é um inocente carnaval do servo.
Mas, por volta do ao 1000, pela diferença das linguas, a Igreja quase lhe fecha as portas. Em 1100, os ofícios tornam-se ininteligíveis para ele. Dos mistérios que são representados nas portas das igrejas, o que ele retém melhor é o papel cômico, o boi e o burro, etc. Compôe cânticos com esses temas, mas cada vez mais sarcásticos.
Não poderíamos crer que as grandes e terríveis revoltas do século XII tivessem deixado de influenciar esses mistérios e essa vida noturna. As revoltas podem ter começado muitas vezes nessas festas noturnas. As grandes comunhões de revolta entre servos podem ter sido celebradas no sabá.
Mas o túmulo foi fechado em 1200. O papa sentado em cima, o rei sentado em cima, com enorme peso sepultaram o homem. Que acontece então com sua vida noturna? Torna-se mais intensa. As velhas danças pagãs tornam-se mais frenéticas. Assim também o servo. Mas, às danças, devem se ter misturado brincadeiras de vingança, farsas satíricas, zombarias e caricaturas do senhor e do padre. Toda uma literatura da noite, que não levava em conta uma só palavra do dia, pouco considerando até mesmo os burgueses.
Este é o sentido dos sabás antes de 1300. Para que tomassem a forma espantosa de uma guerra declarada ao Deus daquele tempo, ainda era preciso muito mais. Duas coisas eram necessárias: não só que se descesse ao fundo da desesperança, mas que se perdesse todo respeito.
Isso só acontece no século XIV, sob o papado de Avignon e durante o Grande Cisma, quando a Igreja, com duas cabeças, já não parece a Igreja, quando toda a nobreza e o rei, vergonhosamente feitos prisioneiros dos ingleses, exterminam o povo para lhe extorquir seu resgate. Os sabás assumem então a forma grandiosa e terrível da Missa Negra, o ofício às avessas, em que se desafia, se pede a Jesus que fulmine com raio, se for capaz. Esse drama diabólico teria sido impossível ainda no século XIII, quando teria horrorizado. Mais tarde, no século XV, quando tudo estaria desgastado, até a dor, tal jato não teria brotado. Não se teria ousado essa criação monstruosa. Ela pertenceu ao século de Dante.
Tudo aconteceu, acredito, de um jato. A explosão de uma fúria genial elevou a impiedade à altura das cóleras populares. Para compreender o que eram essas cóleras, é preciso lembrar que o povo, educado pelo próprio clero na crença e na fé do milagre, bem longe de imaginar a fixidez das leis de Deus, durante séculos havia esperado um milagre e ele nunca viera. Em vão clamava por ele no dia desesperado de sua necessidade suprema. A partir de então, o céu lhe pareceu como que o aliado de seus carrascos ferozes, ele mesmo um feroz carrasco. Por isso a Missa Negra e a Jacquerie.
A Missa Negra, em seu primeiro aspecto, pareceria ser essa redenção de Eva, maldita pelo Cristianismo. A mulher desempenha todos os papéis no sabá. Ela é a sacerdotisa, é o altar, é a hóstia de que todos comungam. No fundo, não será ela o próprio Deus?
Eu não hesitaria em acreditar que o sabá, na forma de então, foi obra da mulher. Ela vê, no século XIV, abrir-se à sua frente sua horrível carreira de suplícios; trezentos, quatrocentos anos iluminados pelas fogueiras! A audácia é fomentada pelo próprio perigo. A feiticeira pode aventurar tudo. Fraternidade humana, desafio ao céu cristão, culto perverso do deus natureza - eis o sentido da Missa Negra.
Naqueles tempos miseráveis, o grande milagre é que na cena noturna se encontrasse fraternidade, o que não seria encontrado de dia. Não sem correr perigos, a feiticeira obtinha a contribuição dos mais abastados, recolhendo suas oferendas. Para a refeição comum da noite, roubava-se durante o dia a própria refeição.
No fundo, a feiticeria erguia seu Deus, um grande deus de madeira, negro e peludo. Pelos cornos e o bode que lhe ficavam próximos, teria sido Baco; mas, pelos atributos viris, era Pã e Príapo. Para uns era puro terror; outros se emocionavam com o orgulho melancólico em que parecia absorto o eterno exilado.
As pessoas chegam, em fila, tomavam a purificação na água lustral, para então chegar a noiva do deus natureza. Rendem-se homenagens ao novo Senhor, o beijo feudal como nas igrejas, mas beijando-se as nádegas.
Cabe a ele sagrar sua sacerdotisa. O deus de madeira a colhe como outrora Pã e Príapo. Conforme a forma pagã, ela se entrega a ele, senta-se um momento sobre ele, como a Délfica no tripé de Apolo. Recebeu seu sopro, a alma, a vida, a fecundação simulada. Depois, com igual solenidade, ela se purifica. A partir desse momento, ela mesma é o altar vivo.
No momento em que a platéia sentia-se um só corpo, depois do banquete, do festim e da dança, apareciam hóstia e altar. Quais? A própria mulher. De seu corpo prostrado, de sua pessoa humilhada, ela, a orgulhosa Proserpina, se oferecia. Sobre seus rins se oficiava, se dizia o credo, se fazia o ofertório.
Todos se emocionavam quando, sobre a criatura devotada, humilhada, que se dava, faziam a prece e a oferenda pela colheita. Oferecia-se trigo ao Espírito da Terra que faz crescer o trigo. Pássaros alçavam vôo e levavam ao deus de liberdade o suspiro e o voto dos servos. Que pediam eles? Que nós outros, seus descendentes longínquos, fôssemos libertos.
Que hóstia ela distribuía? A confarreatio, a hóstia de amor, um bolo cozido sobre si, sobre a vítima que amanhã podia ser, ela mesma, levada ao fogo. A hóstia era sua vida, sua morte, o que se comia. Ali depositavam sobre ela duas oferendas de carne, dois simulacros, representando o último nascido e do último morto da comunidade. Eles participavam do mérito da mulher, altar e hóstia e a assembléia comungavam de um e de outro. Triplice hóstia, toda humana. Sob a vaga sombra do deus, era somente o povo que o povo adorava.
Este era o verdadeiro sacrifício. Estava consumado. A mulher, tendo se dado como alimento à multidão, terminara sua obra.
Texto composto a partir do livro "A Feiticeira" de Jules Michelet, pg 121-127.
terça-feira, 29 de abril de 2008
A literatura da feitiçaria
Iniciada por volta de 1400, seus livros são de duas classes e de duas épocas: os dos monges inquisidores do século XV e os dos juízes leigos do tempo de Henrique IV e de Luis XIII. A volumosa compilação de Lyon, feita e dedicada ao inquisidor Nitard, reproduz uma quantidade desses tratados de monges. No fundo, contém muito pouca coisa. Repetem-se fastidiosamente.
De monge em monge, a bola de neve vai crescendo sempre. Por volta de 1600, quando os compiladores eram eles mesmos compilados, ampliados pelos que vinham depois, chegou-se a um livro enorme.
Se tudo é heresia no século XIII, tudo é magia no XIV. Na grosseria daquele tempo, a heresia difere pouco da possessão diabólica; toda crença errônea e todo pecado são um demônio, que se escorraça pela tortura e pelo chicote. Essa passagem da heresia à magia é um progresso no terror e beneficia o juiz. Nos processos de heresia (de homens, na maioria), ele tem assistentes. Mas nos de magia, de feitiçaria, que envolvem quase sempre mulheres, tem o direito de ficar só, frente a frente com o acusado.
Esse rótulo terrível de feitiçaria abrangeu pouco a pouco todas as pequenas superstições, a antiga poesia dos lares e dos campos, o traquinas, o duende, a fada. Que mulher seria inocente? A mais devota acreditava em tudo isso.
A feiticeira nasceu muito antes disso tudo e seus segredos se perdem na sombra do tempo. Os camponeses, ditos mais simplórios, ignorantes, nunca perderam o relacionamento com a terra e aquela que conhece seus mistérios, a quem sempre recorrerão para sanar suas moléstias. A literatura da feitiçaria surgiu depois, junto com a histeria e os processos da Inquisição.
Quem produziu os grimórios não foram nem os magos, nem as bruxas, mas os padres. Estes mesmos, que tiveram coragem e audácia para inventarem evangelhos, não lhes seria dificil imaginar os grimanços, ora com a tônica da denuncia, ora usando de deboche, ora para satisfazer os apetites da aristocracia e, mais tarde, da burguesia até, enfim, tornar-se cultura popular e ser definitivamente massacrada, morta e enterrada pela desintegração comercial.
Texto composto a partir do livro "A Feitiçeira" de Jules Michelet, pg 19-22.
De monge em monge, a bola de neve vai crescendo sempre. Por volta de 1600, quando os compiladores eram eles mesmos compilados, ampliados pelos que vinham depois, chegou-se a um livro enorme.
Se tudo é heresia no século XIII, tudo é magia no XIV. Na grosseria daquele tempo, a heresia difere pouco da possessão diabólica; toda crença errônea e todo pecado são um demônio, que se escorraça pela tortura e pelo chicote. Essa passagem da heresia à magia é um progresso no terror e beneficia o juiz. Nos processos de heresia (de homens, na maioria), ele tem assistentes. Mas nos de magia, de feitiçaria, que envolvem quase sempre mulheres, tem o direito de ficar só, frente a frente com o acusado.
Esse rótulo terrível de feitiçaria abrangeu pouco a pouco todas as pequenas superstições, a antiga poesia dos lares e dos campos, o traquinas, o duende, a fada. Que mulher seria inocente? A mais devota acreditava em tudo isso.
A feiticeira nasceu muito antes disso tudo e seus segredos se perdem na sombra do tempo. Os camponeses, ditos mais simplórios, ignorantes, nunca perderam o relacionamento com a terra e aquela que conhece seus mistérios, a quem sempre recorrerão para sanar suas moléstias. A literatura da feitiçaria surgiu depois, junto com a histeria e os processos da Inquisição.
Quem produziu os grimórios não foram nem os magos, nem as bruxas, mas os padres. Estes mesmos, que tiveram coragem e audácia para inventarem evangelhos, não lhes seria dificil imaginar os grimanços, ora com a tônica da denuncia, ora usando de deboche, ora para satisfazer os apetites da aristocracia e, mais tarde, da burguesia até, enfim, tornar-se cultura popular e ser definitivamente massacrada, morta e enterrada pela desintegração comercial.
Texto composto a partir do livro "A Feitiçeira" de Jules Michelet, pg 19-22.
Marcadores:
análise,
citação,
história,
miscelânea
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Poste de Maio
Do wikipédia, traduzido por mim.
O poste de Maio é um mastro alto de madeira (tradicionalmente feito de bordo, pilriteiro ou vidoeiro), muitas vezes erigido com várias fitas longas coloridas suspensas pelo topo, adornado com flores, envolto em folhagens e enfeitado com largas coroas, dependendo das variações locais e regionais. O que é frequentemente visto como um poste de maio Inglês/Britânico "tradicional" (uma versão um tanto mais curta, mais lisa do poste escandinavo com as fitas amarradas no alto e suspensas ao chão) é um relativamente recente desenvolvimento da tradição e é provavelmente derivado das pitorescas danças itálicas encenadas em teatros na metade do século 19. Usualmente é esse poste menor, simples que as pessoas (usualmente crianças de escola) dançam em volta, trançando as fitas para dentro e para fora para criar padrões espetaculares.
Com raízes no Paganismo Germânico, o poste de Maio tradicionalmente aparece na maior parte dos países Germânicos, nos países fronteiriços e nos invadidos pelos Germânicos após a queda do Império Romano (como Espanha, França e Itália), mas mais popularmente na Alemanha, Suécia, Áustria, Grã Bretanha, República Tcheca, Hungria, Eslováquia, Eslovênia e Finlândia nos tempos modernos para as festividades e ritos da Primavera, Dia de Maio, Beltane e Solstício de Verão.
Simbolismo:
O poste de maio é considerado um símbolo fálico, coincindindo com a adoração de figuras germãnicas fálicas como os de Freyr.
Outros significados potenciais incluem o simbolismo relacionado ao Yggdrasil, um eixo mítico que liga o Submundo, o Mundo, o Astral e vários outros reinos.
A tradição atual do poste de Maio coincide geograficamente com a área de influência dos mitos Germânicos.
A afirmação do simbolismo fálico em relação ao poste de Maio reflete seu atual valor semiótico: celebração, comunidade, jovialidade e a chegada do Verão.
O poste de Maio é um mastro alto de madeira (tradicionalmente feito de bordo, pilriteiro ou vidoeiro), muitas vezes erigido com várias fitas longas coloridas suspensas pelo topo, adornado com flores, envolto em folhagens e enfeitado com largas coroas, dependendo das variações locais e regionais. O que é frequentemente visto como um poste de maio Inglês/Britânico "tradicional" (uma versão um tanto mais curta, mais lisa do poste escandinavo com as fitas amarradas no alto e suspensas ao chão) é um relativamente recente desenvolvimento da tradição e é provavelmente derivado das pitorescas danças itálicas encenadas em teatros na metade do século 19. Usualmente é esse poste menor, simples que as pessoas (usualmente crianças de escola) dançam em volta, trançando as fitas para dentro e para fora para criar padrões espetaculares.
Com raízes no Paganismo Germânico, o poste de Maio tradicionalmente aparece na maior parte dos países Germânicos, nos países fronteiriços e nos invadidos pelos Germânicos após a queda do Império Romano (como Espanha, França e Itália), mas mais popularmente na Alemanha, Suécia, Áustria, Grã Bretanha, República Tcheca, Hungria, Eslováquia, Eslovênia e Finlândia nos tempos modernos para as festividades e ritos da Primavera, Dia de Maio, Beltane e Solstício de Verão.
Simbolismo:
O poste de maio é considerado um símbolo fálico, coincindindo com a adoração de figuras germãnicas fálicas como os de Freyr.
Outros significados potenciais incluem o simbolismo relacionado ao Yggdrasil, um eixo mítico que liga o Submundo, o Mundo, o Astral e vários outros reinos.
A tradição atual do poste de Maio coincide geograficamente com a área de influência dos mitos Germânicos.
A afirmação do simbolismo fálico em relação ao poste de Maio reflete seu atual valor semiótico: celebração, comunidade, jovialidade e a chegada do Verão.
Marcadores:
citação,
festas populares,
folclore,
mitos
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Faces do Deus
Eu encontrei em um sebo o livro do casal Farrar entitulado "O Deus dos Magos", mas no original a melhor tradução seria "O Deus dos/as bruxos/as". Um achado e tanto, no mesmo sebo onde encontrei "A Feiticeira" de Jules Michelet. Eu pretendo usar algumas passagens desse livro algum dia, mas por ora eu vou aproveitar o ensaio histórico/antropológico lançado pelo casal Farrar para analisar as diferentes faces do Deus. Eu não concordo com a opinião em voga que todos os Deuses são o Deus dos bruxos, bem como em várias partes do livro que não há uma acuidade histórica/antropológica dos mitos, dos povos e Deuses antigos. Em diversos tópicos desse blog o dileto visitante poderá encontrar alguns indícios de meus motivos para não aceitar essa maionese cultural, então passemos à lista das faces do Deus, como descrito no livro citado do casal Farrar.
O Deus, como filho e amante.
A ordem mais provável, na mitologia Wica, é primeiro o Deus como o amante consorte da Deusa para então Ele surgir como a Criança da Promessa. A fonte de onde veio o mito de uma Deusa solitária que divide-se a si mesma (Santa Ameba?) para gerar o Deus é atribuído às bruxas toscanas, mais precisamente do relato escrito por Charles Leland em seu "Evangelho de Arádia". Considerando os aspectos do Deus e a manifestação divina no mundo natural, acreditar que a Deusa poderia sozinha gerar dela mesma um Deus tão oposto aos atributos dEla, é transformar a Deusa em uma imitação de Jeová.
O Deus que mede o tempo.
Aqui há uma confusão curiosa. A nossa espécie realmente se juntou em grupos e para organizar as coisas estipulou formas de medir o tempo. Em algumas culturas, usava-se a lua, que foi ora associada a um Deus, ora a uma Deusa. Entretanto, nossos ancestrais eram bastante observadores e notaram que o sol igualmente podia ser usado para medir o tempo e, dependendo da cultura, este foi ora identificado com um Deus ou com uma Deusa. Portanto, não há como concluir que um dos atributos do Deus seja medir o tempo. O mais correto é pensar no Deus como o Ordenador.
O Deus Sol.
Nossos ancestrais passaram a ver no sol um aspecto de algum Deus depois de começarem a cultivar a terra. Entretanto, existem culturas que associam o sol à alguma Deusa. O aspecto mais crucial do aspecto do Deus como o sol vem da associação do sol como um astro-rei e, portanto, evocado na coroação dos reis tribais. Antigamente era bem comum um rei atribuir sua paternidade a alguma forma de Deus que estava associado ao sol.
O Deus da Sabedoria.
Lembrando vagamente o que eu havia lido em "A Deusa Branca" de Robert Graves, a Sabedoria é inspirado pela Deusa. Em termos gerais, os processos mentais mais associados ao Deus são a Lógica e o Raciocínio. Tanto o Saber como o Conhecimento são atributos tanto de Deuses quanto de Deusas, mas mesmo os mitos destes demonstram que isto foi algo adquirido das experiências e vivências. Igualmente temos interessantes mitos de Deuses que são tolos, ignorantes ou ingênuos.
O Deus da Vegetação.
Igualmente ligado á face do Deus enquanto Deus do Sol, bem como de Deus que mede o tempo. A partir do momento e que nossos ancestrais dominaram a técnica de plantio, os ciclos sazonais começaram a ter maior importância, bem como o planejamento das culturas de acordo com esses ciclos. Os Sabats da Wica são um reflexo desse elo entre os ciclos das estações com os ciclos solares, dentro do aspecto do Deus enquanto Senhor dos Campos.
O Deus da Guerra.
Para alguns povos, os ciclos naturais não tinham significado algum. Estes povos nem plantavam nem criavam gado. Eram povos guerreiros e nômades. A vida desses povos consistia ou em pilhar os povos agrários ou em fazer comércio, de forma que nunca tiveram uma ligação sagrada com a natureza. Em alguns casos, mesmo em povos agrários, Deuses e Deusas da Guerra apareceram, como resultado da interação entre culturas ou mesmo do desenvolvimento dos povos e o consequente desenvolvimento da expansão territorial e mesmo da formação de reinos. Para os povos politeístas, a guerra era travada sempre em nome do rei, o Deus ou Deusa da Guerra era apenas evocado para que vencessem. Apenas os povos guerreiros e nômades fizeram guerra em nome de Deus, pois estes povos desenvolveram apenas a ideía de Deus, muitas vezes monopolista e belicoso.
O Deus Artesão.
Eu considero esta face como um reflexo do Deus como o Ordenador. Deus, assim como os homens, gosta da tecnologia, da ciência e do progresso, sempre em busca de mais conforto e eficácia nas coisas da vida. Quando associado à sua face como Deus da Guerra, existe um embotamento de sua face enquanto Deus dos Campos, o sentido sagrado da vida e da preservação do ambiente são conveninetemente esquecidos pela humanidade, fazendo com que a ciência e a tecnologia se tornem fúteis, quando não uma ameaça à nossa espécie.
O Deus de Chifres.
Todos os Deuses antigos, incluindo os Deuses monopolistas das atuais formas do monoteísmo foram ou tiveram este aspecto em algum momento em sua história mítica. A lista de Deuses antigos que eram coroados com vistosos chifres é imensa e tem um vínculo claro com a nobreza, a fertilidade e a virilidade própria do Deus. Mesmo que posteriormente este passado tenha sido esquecido, renegado ou proibido por interesses políticos, o caráter fálico dos Deuses (até os monopolistas) está presente nos ritos e nos atos atribuidos a eles. A imagem do Deus de Chifres é considerado tão antigo quanto a imagem da "Vênus" de Willendorf e simboliza o seu aspecto tanto como o Senhor da Caça quanto como o Senhor das Feras.
O Deus Gêmeo. (Dióscoros)
O exemplo mais usado e menos ideal é o mito do Rei Carvalho e do Rei Azevinho. Apesar destes serem manifestações do Deus, como os nomes dizem eles são Reis, não Deus. Eu pessoalmente considero exemplos melhores dessa face de Deus os mitos de Osiris e Set, de Cronos e Zeus, de Saturno e Júpiter, de Castor e Polux. O mito do Deus Gêmeo é uma síntese da Roda do Ano celebrada na Wica, em dois momentos cruciais: o Verão e o Inverno. Ambos os ciclos sazonais disputam em poder e força iguais o dominio sobre o nosso mundo e não são, embora opostos, antagônicos, mas sim cumprem cada um para manter o equilíbrio necessário para a existência da vida.
O Deus Sacrificado.
Certamente o mito mais presente e mais imitado em várias religiões. Sem a idéia mítica dos povos pagãos de um Deus Sacrificado teria sido impossível para o Cristianismo ser bem sucedido entre os 'gentios'. Essa face de Deus está ligada à face do Deus como o Senhor dos Campos, bem como à sua face como Senhor das Feras (o que foi ignorado pelo casal Farrar). Em alguns povos infelizmente essa face do Deus ficou exacerbada, levando a massacres disfarçados de sacrifícios ao Deus, como aconteceu nos povos pré-colombianos. O sacrificio, seja de vida vegetal, seja de vida animal, seja de vida humana, tinha um sentido muito mais sagrado e específico. A ritualização da violência e da crueldade é essencial para nós, como bem disse Alain Danielou e a maior parte dos povos que praticavam sacrificios e sangue o faziam com uma única vítima sagrada, apenas em ocasiões muito especiais. Para nossos ancestrais, a morte cerimonial de um rei era fundamental para a continuidade da vida comunitária. Para se tornar o Deus do Além, o Deus se sacrifica. Sem isso, as sementes não brotariam e as almas não teriam descanso nem reencarnariam.
O Deus do Além.
A face mais temida e menos comentada nos circulos wiccanos e certamente ignorada na Wilka S/A, o que eu considero curioso existir tal tabu entre pagãos, bruxos e wiccanos quanto ao aspecto de Deus como o Senhor dos Mortos. A Deusa também tem um lado negro, terrivel e sinistro completamente alijado e renegado pela Wicca Brasileira. Os mistérios da Wica celebram a Deusa como a geradora de tudo e também como nosso destino final. Mas é a força do Deus que nos faz sair do útero da Deusa e nos chama de volta para Ela. Nessa face, Deus teve alguns 'sucessores', se considerarmos os demais Deuses dos Mortos de outros povos como 'filhos' dEle: Osiris/Anubis Hades, Plutão. Como uma continuação ou efeito de sua face como Deus Sacrificado, Deus se torna igualmente o Senhor dos Mortos bem como Aquele que Conduz, seja para uma nova encarnação, seja para a Sumerlândia.
O Deus Monopolista.
O monopólio de um Deus sobre outros Deuses e Deusas foi observado até em culturas politeístas, demonstrando que o desenvolvimento cultural da religião poderia resultar inexorávelmente em alguma forma de monoteísmo, como aconteceu com o Zoroastrismo, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Eu não concordo com Alain e com o casal Farrar que o Deus monopolista foi uma invenção ou uma aberração de povos nômades. Assim como haviam povos agrários, haviam povos nômades e povos guerreiros e cada qual desenvolveu seus mitos e crenças. Eventualmente, pela expansão territorial ou pela formação de reinos, Deuses da Guerra se tornavam o Deus principal desses povos, quando não se tornavam monopolistas, mas não por escolha e gosto desses Deuses, mas sim por interesses políticos deliberados dos poderes seculares e sacerdotais desses povos. O caso é que a raiz mitica do Deus Monopolista que se manifestou nas atuais formas do monoteísmo provém desse passado pagão. Ahruda Mazda foi outrora o Deus do Fogo, dentre muitos Deuses que existiram no passado politeísta dos Persas, até ser elevado à condição de Senhor absoluto por Zoroaster. Jeová foi outrora um Deus Touro, dentre muitos Deuses que existiram no passado politeísta dos Hebreus, até ser elevado à condição de Senhor pelos rabinos, após a libertação do povo de Israel do cativeiro na Pérsia. Cristo foi outrora um Deus Sacrificado, uma metáfora de uma ordem iniciática que cresceu por sobre as mesmas ordens iniciáticas e mistérios antigos semelhantes à Mithra, Attis, Dioniso. Allah foi outrora um Deus Lunar, igualmente consorte de uma Deusa trifacetada.
O Antideus.
Para pagãos, bruxos e wiccanos não existe o Antideus, mas sim o Embusteiro, um papel quase semelhante ao encenado por Satan nos mitos Judaicos, Cristãos e Islâmicos. A despeito de toda a doutrina existente nessas religiões sobre Satan, é bem possivel que ele tenha sido originado de alguma raiz mítica bem próxima do Deus Gêmeo, mas que com o passar do tempo e a imposição de uma elite sacerdotal, essa raiz mítica foi renegada e trocada por uma visão maniqueísta, um tanto que copiada do Zoroastrismo. A existência de um ente divino, muitas vezes de igual poder, senão criado pelo próprio Deus, que existe apenas para seduzir a humanidade ao 'pecado' ou para usurpar o trono de Deus é um absurdo evidente, criado apenas para induzir a população a obedecer uma elite (secular e sacerdotal) e seus dogmas morais. Mesmo no papel de Deus Gêmeo, não há esse antagonismo pernicioso e fatal que existe na escatologia do monoteísmo, mas sim uma sadia transmissão de poder para manter o equilibrio necessário para a existência.
O Deus Divorciado.
Sem dúvida o capítulo mais engraçado e pitoresco do livro, para não dizer enganado ou equivocado. O monopólio de um Deus ocorreu da mesma forma em sociedades politeístas, como a Grega e a Romana. Os Judeus não deram origem a essa tendência monoteísta, mas sim os Persas, depois da 'reforma' religiosa empenhada por Zoroaster. Inequivocamente, em algum momento, O Deus Divorciado foi consorte de uma Deusa e ambos foram igualmente celebrados por estes povos, em um passado politeísta. Os Gregos e Romanos, apesar de politeístas, desenvolveram o monopólio de um Deus sobre os outros e é bem possível que, mesmo sem a influência do Cristianismo, teriam em algum momento conhecido algum reformador que postulasse o monoteísmo em torno de um Deus, perseguindo e proibindo os antigos ritos. O advento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano apenas apressou o processo. Histórica, social, politica e religiosamente muito pouco podemos fazer a respeito da dominação das religiões monoteístas, senão torcer para que seus seguidores sejam mais tolerantes com outras religiões e venham a conhecer as reais raizes miticas e étnicas do Deus que eles adoram, para enfim nos tornarmos irmãos da mesma espécie.
O Deus, como filho e amante.
A ordem mais provável, na mitologia Wica, é primeiro o Deus como o amante consorte da Deusa para então Ele surgir como a Criança da Promessa. A fonte de onde veio o mito de uma Deusa solitária que divide-se a si mesma (Santa Ameba?) para gerar o Deus é atribuído às bruxas toscanas, mais precisamente do relato escrito por Charles Leland em seu "Evangelho de Arádia". Considerando os aspectos do Deus e a manifestação divina no mundo natural, acreditar que a Deusa poderia sozinha gerar dela mesma um Deus tão oposto aos atributos dEla, é transformar a Deusa em uma imitação de Jeová.
O Deus que mede o tempo.
Aqui há uma confusão curiosa. A nossa espécie realmente se juntou em grupos e para organizar as coisas estipulou formas de medir o tempo. Em algumas culturas, usava-se a lua, que foi ora associada a um Deus, ora a uma Deusa. Entretanto, nossos ancestrais eram bastante observadores e notaram que o sol igualmente podia ser usado para medir o tempo e, dependendo da cultura, este foi ora identificado com um Deus ou com uma Deusa. Portanto, não há como concluir que um dos atributos do Deus seja medir o tempo. O mais correto é pensar no Deus como o Ordenador.
O Deus Sol.
Nossos ancestrais passaram a ver no sol um aspecto de algum Deus depois de começarem a cultivar a terra. Entretanto, existem culturas que associam o sol à alguma Deusa. O aspecto mais crucial do aspecto do Deus como o sol vem da associação do sol como um astro-rei e, portanto, evocado na coroação dos reis tribais. Antigamente era bem comum um rei atribuir sua paternidade a alguma forma de Deus que estava associado ao sol.
O Deus da Sabedoria.
Lembrando vagamente o que eu havia lido em "A Deusa Branca" de Robert Graves, a Sabedoria é inspirado pela Deusa. Em termos gerais, os processos mentais mais associados ao Deus são a Lógica e o Raciocínio. Tanto o Saber como o Conhecimento são atributos tanto de Deuses quanto de Deusas, mas mesmo os mitos destes demonstram que isto foi algo adquirido das experiências e vivências. Igualmente temos interessantes mitos de Deuses que são tolos, ignorantes ou ingênuos.
O Deus da Vegetação.
Igualmente ligado á face do Deus enquanto Deus do Sol, bem como de Deus que mede o tempo. A partir do momento e que nossos ancestrais dominaram a técnica de plantio, os ciclos sazonais começaram a ter maior importância, bem como o planejamento das culturas de acordo com esses ciclos. Os Sabats da Wica são um reflexo desse elo entre os ciclos das estações com os ciclos solares, dentro do aspecto do Deus enquanto Senhor dos Campos.
O Deus da Guerra.
Para alguns povos, os ciclos naturais não tinham significado algum. Estes povos nem plantavam nem criavam gado. Eram povos guerreiros e nômades. A vida desses povos consistia ou em pilhar os povos agrários ou em fazer comércio, de forma que nunca tiveram uma ligação sagrada com a natureza. Em alguns casos, mesmo em povos agrários, Deuses e Deusas da Guerra apareceram, como resultado da interação entre culturas ou mesmo do desenvolvimento dos povos e o consequente desenvolvimento da expansão territorial e mesmo da formação de reinos. Para os povos politeístas, a guerra era travada sempre em nome do rei, o Deus ou Deusa da Guerra era apenas evocado para que vencessem. Apenas os povos guerreiros e nômades fizeram guerra em nome de Deus, pois estes povos desenvolveram apenas a ideía de Deus, muitas vezes monopolista e belicoso.
O Deus Artesão.
Eu considero esta face como um reflexo do Deus como o Ordenador. Deus, assim como os homens, gosta da tecnologia, da ciência e do progresso, sempre em busca de mais conforto e eficácia nas coisas da vida. Quando associado à sua face como Deus da Guerra, existe um embotamento de sua face enquanto Deus dos Campos, o sentido sagrado da vida e da preservação do ambiente são conveninetemente esquecidos pela humanidade, fazendo com que a ciência e a tecnologia se tornem fúteis, quando não uma ameaça à nossa espécie.
O Deus de Chifres.
Todos os Deuses antigos, incluindo os Deuses monopolistas das atuais formas do monoteísmo foram ou tiveram este aspecto em algum momento em sua história mítica. A lista de Deuses antigos que eram coroados com vistosos chifres é imensa e tem um vínculo claro com a nobreza, a fertilidade e a virilidade própria do Deus. Mesmo que posteriormente este passado tenha sido esquecido, renegado ou proibido por interesses políticos, o caráter fálico dos Deuses (até os monopolistas) está presente nos ritos e nos atos atribuidos a eles. A imagem do Deus de Chifres é considerado tão antigo quanto a imagem da "Vênus" de Willendorf e simboliza o seu aspecto tanto como o Senhor da Caça quanto como o Senhor das Feras.
O Deus Gêmeo. (Dióscoros)
O exemplo mais usado e menos ideal é o mito do Rei Carvalho e do Rei Azevinho. Apesar destes serem manifestações do Deus, como os nomes dizem eles são Reis, não Deus. Eu pessoalmente considero exemplos melhores dessa face de Deus os mitos de Osiris e Set, de Cronos e Zeus, de Saturno e Júpiter, de Castor e Polux. O mito do Deus Gêmeo é uma síntese da Roda do Ano celebrada na Wica, em dois momentos cruciais: o Verão e o Inverno. Ambos os ciclos sazonais disputam em poder e força iguais o dominio sobre o nosso mundo e não são, embora opostos, antagônicos, mas sim cumprem cada um para manter o equilíbrio necessário para a existência da vida.
O Deus Sacrificado.
Certamente o mito mais presente e mais imitado em várias religiões. Sem a idéia mítica dos povos pagãos de um Deus Sacrificado teria sido impossível para o Cristianismo ser bem sucedido entre os 'gentios'. Essa face de Deus está ligada à face do Deus como o Senhor dos Campos, bem como à sua face como Senhor das Feras (o que foi ignorado pelo casal Farrar). Em alguns povos infelizmente essa face do Deus ficou exacerbada, levando a massacres disfarçados de sacrifícios ao Deus, como aconteceu nos povos pré-colombianos. O sacrificio, seja de vida vegetal, seja de vida animal, seja de vida humana, tinha um sentido muito mais sagrado e específico. A ritualização da violência e da crueldade é essencial para nós, como bem disse Alain Danielou e a maior parte dos povos que praticavam sacrificios e sangue o faziam com uma única vítima sagrada, apenas em ocasiões muito especiais. Para nossos ancestrais, a morte cerimonial de um rei era fundamental para a continuidade da vida comunitária. Para se tornar o Deus do Além, o Deus se sacrifica. Sem isso, as sementes não brotariam e as almas não teriam descanso nem reencarnariam.
O Deus do Além.
A face mais temida e menos comentada nos circulos wiccanos e certamente ignorada na Wilka S/A, o que eu considero curioso existir tal tabu entre pagãos, bruxos e wiccanos quanto ao aspecto de Deus como o Senhor dos Mortos. A Deusa também tem um lado negro, terrivel e sinistro completamente alijado e renegado pela Wicca Brasileira. Os mistérios da Wica celebram a Deusa como a geradora de tudo e também como nosso destino final. Mas é a força do Deus que nos faz sair do útero da Deusa e nos chama de volta para Ela. Nessa face, Deus teve alguns 'sucessores', se considerarmos os demais Deuses dos Mortos de outros povos como 'filhos' dEle: Osiris/Anubis Hades, Plutão. Como uma continuação ou efeito de sua face como Deus Sacrificado, Deus se torna igualmente o Senhor dos Mortos bem como Aquele que Conduz, seja para uma nova encarnação, seja para a Sumerlândia.
O Deus Monopolista.
O monopólio de um Deus sobre outros Deuses e Deusas foi observado até em culturas politeístas, demonstrando que o desenvolvimento cultural da religião poderia resultar inexorávelmente em alguma forma de monoteísmo, como aconteceu com o Zoroastrismo, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Eu não concordo com Alain e com o casal Farrar que o Deus monopolista foi uma invenção ou uma aberração de povos nômades. Assim como haviam povos agrários, haviam povos nômades e povos guerreiros e cada qual desenvolveu seus mitos e crenças. Eventualmente, pela expansão territorial ou pela formação de reinos, Deuses da Guerra se tornavam o Deus principal desses povos, quando não se tornavam monopolistas, mas não por escolha e gosto desses Deuses, mas sim por interesses políticos deliberados dos poderes seculares e sacerdotais desses povos. O caso é que a raiz mitica do Deus Monopolista que se manifestou nas atuais formas do monoteísmo provém desse passado pagão. Ahruda Mazda foi outrora o Deus do Fogo, dentre muitos Deuses que existiram no passado politeísta dos Persas, até ser elevado à condição de Senhor absoluto por Zoroaster. Jeová foi outrora um Deus Touro, dentre muitos Deuses que existiram no passado politeísta dos Hebreus, até ser elevado à condição de Senhor pelos rabinos, após a libertação do povo de Israel do cativeiro na Pérsia. Cristo foi outrora um Deus Sacrificado, uma metáfora de uma ordem iniciática que cresceu por sobre as mesmas ordens iniciáticas e mistérios antigos semelhantes à Mithra, Attis, Dioniso. Allah foi outrora um Deus Lunar, igualmente consorte de uma Deusa trifacetada.
O Antideus.
Para pagãos, bruxos e wiccanos não existe o Antideus, mas sim o Embusteiro, um papel quase semelhante ao encenado por Satan nos mitos Judaicos, Cristãos e Islâmicos. A despeito de toda a doutrina existente nessas religiões sobre Satan, é bem possivel que ele tenha sido originado de alguma raiz mítica bem próxima do Deus Gêmeo, mas que com o passar do tempo e a imposição de uma elite sacerdotal, essa raiz mítica foi renegada e trocada por uma visão maniqueísta, um tanto que copiada do Zoroastrismo. A existência de um ente divino, muitas vezes de igual poder, senão criado pelo próprio Deus, que existe apenas para seduzir a humanidade ao 'pecado' ou para usurpar o trono de Deus é um absurdo evidente, criado apenas para induzir a população a obedecer uma elite (secular e sacerdotal) e seus dogmas morais. Mesmo no papel de Deus Gêmeo, não há esse antagonismo pernicioso e fatal que existe na escatologia do monoteísmo, mas sim uma sadia transmissão de poder para manter o equilibrio necessário para a existência.
O Deus Divorciado.
Sem dúvida o capítulo mais engraçado e pitoresco do livro, para não dizer enganado ou equivocado. O monopólio de um Deus ocorreu da mesma forma em sociedades politeístas, como a Grega e a Romana. Os Judeus não deram origem a essa tendência monoteísta, mas sim os Persas, depois da 'reforma' religiosa empenhada por Zoroaster. Inequivocamente, em algum momento, O Deus Divorciado foi consorte de uma Deusa e ambos foram igualmente celebrados por estes povos, em um passado politeísta. Os Gregos e Romanos, apesar de politeístas, desenvolveram o monopólio de um Deus sobre os outros e é bem possível que, mesmo sem a influência do Cristianismo, teriam em algum momento conhecido algum reformador que postulasse o monoteísmo em torno de um Deus, perseguindo e proibindo os antigos ritos. O advento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano apenas apressou o processo. Histórica, social, politica e religiosamente muito pouco podemos fazer a respeito da dominação das religiões monoteístas, senão torcer para que seus seguidores sejam mais tolerantes com outras religiões e venham a conhecer as reais raizes miticas e étnicas do Deus que eles adoram, para enfim nos tornarmos irmãos da mesma espécie.
Marcadores:
análise,
história,
miscelânea,
mitos
A natureza do homem e do divino
Ninguém pode viver senão destruindo a vida, senão matando outros seres vivos. Nenhum ser pode subsistir sem devorar outras formas de vida, vegetal ou animal. Isso é um aspecto fundamental da natureza. Toda a vida do mundo, animal ou humana, é uma interminável matança. Existir significa comer e ser comido. Todo ser vivo alimenta-se de outros seres e irá se tornar o alimento de outros seres num ciclo interminável.
Já que ninguém pode existir sem se alimentar da vida de outros seres, deve-se assumir a responsabilidade perante a si mesmo e perante aos Deuses que o quiseram assim. Para associar os Deuses aos nossos atos, é necessário ultrapassarmos a fase instintiva, ritualizarmos o ato de matar como o ato de amor. Para partilhar com os Deuses as responsabilidades do ato fratricida pelo qual somos obrigados, para sobreviver, a devorar outros seres vivos, devemos oferecer-lhes vítimas em sacrifício. Nós devemos oferecer aos Deuses as primícias das colheitas, o primeiro bocado de todo alimento. Nós devemos matar diante deles o animal que devoraremos.
Somente se nos conscientizarmos do valor de nossos atos, realizando a vontade do Deus que quis que a vida só subsistisse pela morte, pelo assassinato, é que poderemos limitar os seus efeitos, representar a parte que nos cabe na harmonia do mundo. Só então poderemos evitar ultrapassarmos nosso papel e evitar as hecatombes que sobrevêm quando se pretende ignorar a verdadeira natureza do homem e do divino.
O homem só deveria comer a carne de animais que ele mesmo ritualmente sacrificou, tomando os Deuses como testemunhas da crueldade de um mundo onde a vida é possível apenas destruindo-se a vida e representando assim honestamente seu papel na harmonia do mundo, sem falsa sensibilidade nem hipocrisia.
Toda religião baseia-se na noção de sacrifício e consumo da vitima sacrificada, seja a vítima vegetal, animal ou humana. Nosso corpo é apenas um cemitério e servirá em sua totalidade, material ou mental, de alimento a outros seres vivos.
A crueldade, por ser um dos elementos constituintes fundamentais do mundo, faz parte da natureza de todo ser vivo, de um modo mais ou menos secreto. O gosto pela violência, pela morte, está sempre latente em todas as sociedades.
Nós não podemos lutar com eficácia contra uma dessas formas do instinto, da necessidade de crueldade e aceitar outras. Um dos objetivos dos sacrifícios sangrentos é canalizar esse instinto, enfrentá-lo, invocar dos Deuses o testemunho da nossa crueldade, vacinarmo-nos contra suas formas perversas. Os sacrifícios, que satisfazem nossa necessidade subconsciente de crueldade, juntamente com o estabelecimento de um sistema social que dá lugar a todas as raças, crenças, desvios, evita a dominação ou a perseguição de um grupo em relação a outro, são talvez a única maneira de estabelecer o equilíbrio e o desenvolvimento de uma sociedade justa e humana.
Texto composto a partir do livro "Shiva e Dioniso" de Alain Danielou, pg 145-146, 155-156.
Já que ninguém pode existir sem se alimentar da vida de outros seres, deve-se assumir a responsabilidade perante a si mesmo e perante aos Deuses que o quiseram assim. Para associar os Deuses aos nossos atos, é necessário ultrapassarmos a fase instintiva, ritualizarmos o ato de matar como o ato de amor. Para partilhar com os Deuses as responsabilidades do ato fratricida pelo qual somos obrigados, para sobreviver, a devorar outros seres vivos, devemos oferecer-lhes vítimas em sacrifício. Nós devemos oferecer aos Deuses as primícias das colheitas, o primeiro bocado de todo alimento. Nós devemos matar diante deles o animal que devoraremos.
Somente se nos conscientizarmos do valor de nossos atos, realizando a vontade do Deus que quis que a vida só subsistisse pela morte, pelo assassinato, é que poderemos limitar os seus efeitos, representar a parte que nos cabe na harmonia do mundo. Só então poderemos evitar ultrapassarmos nosso papel e evitar as hecatombes que sobrevêm quando se pretende ignorar a verdadeira natureza do homem e do divino.
O homem só deveria comer a carne de animais que ele mesmo ritualmente sacrificou, tomando os Deuses como testemunhas da crueldade de um mundo onde a vida é possível apenas destruindo-se a vida e representando assim honestamente seu papel na harmonia do mundo, sem falsa sensibilidade nem hipocrisia.
Toda religião baseia-se na noção de sacrifício e consumo da vitima sacrificada, seja a vítima vegetal, animal ou humana. Nosso corpo é apenas um cemitério e servirá em sua totalidade, material ou mental, de alimento a outros seres vivos.
A crueldade, por ser um dos elementos constituintes fundamentais do mundo, faz parte da natureza de todo ser vivo, de um modo mais ou menos secreto. O gosto pela violência, pela morte, está sempre latente em todas as sociedades.
Nós não podemos lutar com eficácia contra uma dessas formas do instinto, da necessidade de crueldade e aceitar outras. Um dos objetivos dos sacrifícios sangrentos é canalizar esse instinto, enfrentá-lo, invocar dos Deuses o testemunho da nossa crueldade, vacinarmo-nos contra suas formas perversas. Os sacrifícios, que satisfazem nossa necessidade subconsciente de crueldade, juntamente com o estabelecimento de um sistema social que dá lugar a todas as raças, crenças, desvios, evita a dominação ou a perseguição de um grupo em relação a outro, são talvez a única maneira de estabelecer o equilíbrio e o desenvolvimento de uma sociedade justa e humana.
Texto composto a partir do livro "Shiva e Dioniso" de Alain Danielou, pg 145-146, 155-156.
Assinar:
Postagens (Atom)