quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os cultos às Forças Sexuais

O Sabá das Bruxas, de Thomas Right
Tradução e adaptação: Ligia Cabus/Mahajah!ck

Wrights ampliou o ensaio sobre os cultos fálicos. Além dos temas usuais, como antigos e modernos objetos fálicos, rituais de fertilidade etc., Wright dedica uma longa seção do texto aos chamados Witch Cult — Cultos Mágicos ou Cultos de Bruxaria incluindo interessantes relatos sobre o Sabbat das Bruxas.
Muitas formas de cultos fálicos ou priápicos foram praticados na Idade Média conservando, ainda que através de mudanças sociais e em outras circunstâncias, as antigas orgias priápicas no contexto de intensa superstição que caracterizava a bruxaria da época. Através dos tempos, os "Iniciados" acreditaram que poderiam possuir e exercer poderes sobrenaturais pela invocação apropriada de divindades que o Cristianismo transformou em demônios; ser um devoto de Príapo era o mesmo que ser devoto de Satanás.
As bruxas dos Sabás foram as últimas praticantes da Priapéia e da Liberália na Europa Ocidental e, de fato, reproduziam em suas reuniões as licenciosas orgias tão comuns na Roma Antiga. O Sabá das Bruxas não parece ter sido originado da mitologia teutônica [bárbara, nórdica, anglo-saxã]. Antes, parecem provenientes do sul europeu, herança mediterrânea absorvida pelos países fortemente influenciados pela cultura romana. No século XV a cultura da feitiçaria tinha uma forte presença na Itália e na França.

O Caso Robinet de Vaulx
Em meados daquele século [XV], em França, um indivíduo chamado Robinet de Vaulx, que levara uma vida de eremita em Burgundy, foi preso, levado a julgamento em Langres e queimado. Antes de morrer, entretanto, este homem, natural de Artois, informou [certamente sob tortura, método comum nos processos de bruxaria da época] ser de seu conhecimento a existência de um grande número de bruxas na província e ele não somente confessou ter comparecido às assembléias noturnas das feiticeiras mas, também, forneceu nomes de vários habitantes de Arras que encontrara naqueles eventos.
Corria o ano de 1459, o quartel general dos jacobinos, monges pregadores, era sediado em Langres. Entre os jacobinos havia um Pierre de Broussart, inquisidor da Santa Sé na cidade de Arras que presidiu os depoimentos de Robinet. Com os nomes fornecidos o inquisidor começou sua perseguição.
Foram acusados de bruxaria, entre outros: uma prostituta chamada Demiselle, e um homem, Jehan Levite, mais conhecido por seu apelido, Abade Sem Juízo. A confissão de um induzia ao processo que resultava na confissão dos outros e novos nomes surgiam. O resultado foi um surto de prisões e processos, muitos encerrados com sentença de morte na fogueira.
Foi apurado que o lugar dos encontros era, geralmente, uma fonte na floresta de Mofflaines, uma légua de distância de Arras. Os participantes podiam ir a pé mas o procedimento mais comum era um recurso mágico: usando um ungüento fornecido pelo próprio Diabo que, passado no corpo ou nas mãos, permitia, montar num bastão ou cajado, de madeira, e nele voar até o lugar da assembléia [é a vassoura dos bruxos].

O Sabá — Democrático...
O encontro reunia uma multiplicidade de gente, de ambos os sexos, classes sociais diferentes, burgueses e nobres e também eclesiásticos, bispos, cardeais! No Sabá havia mesas com toda sorte de iguarias; carnes, vinhos. O Diabo presidia o festim em sua usual forma de bode, com cauda simiesca e fisionomia humana. Os convivas faziam homenagens; ofereciam suas almas ou partes do corpo e como sinal de adoração, beijavam o traseiro de Satanás.
O local era iluminado por tochas. O Abade Sem Juízo, mencionado acima, era o mestre de cerimônias desses encontros e era sua obrigação verificar devidamente o comportamento dos novatos. Depois, ele pisava e cuspia na cruz, menosprezava Jesus e a Santíssima Trindade e praticava outros atos profanos. Então, tomavam seus lugares à mesa e depois de comer e beber, levantavam-se e começavam seus promíscuos intercursos sexuais nos quais o demônio tomava parte assumindo, alternadamente, a forma de ambos os sexos de acordo com sua parceria. Seguiam-se todo tipo de atos pecaminosos.
O Demônio "catequizava" seus seguidores: não deviam ir à igreja e muito menos ouvir a missa; não deviam se deixar tocar pela água-benta nem render qualquer homenagem ou demonstração de respeito pelos valores cristãos e pelos cristãos em si mesmos. Quando o "sermão" terminava a assembléia era dissolvida e todos retornavam para suas casas.
Manuais Contra & Sobre a Bruxaria
A violência daquele tipo de perseguição produziu grande comoção popular em torno da bruxaria. No fim do século XV as pessoas tinham medo das bruxas e/ou medo de serem associadas às bruxas, especialmente na Itália, França e Alemanha. O combate à feitiçaria, entregue às zelosas mãos dos Inquisidores, foi gradualmente se tornando um trabalho especializado e livros extensos foram escritos sobre o assunto: as práticas da bruxaria e as instruções para combatê-las.
Um dos primeiros destes livros foi o Formicarium, escrito por um frade suíço, John Nider, inquisidor em seu país. O livro não fala do Sabá da Bruxas, aparentemente, pouco comum ou inexistente na Suíça. No começo de 1489, Ulric Molitor publicou o tratado De Pythonicis Mulieribus e, no mesmo ano, apareceu o mais célebre destes livros, o Malleus Maleficarum ou O Martelo das Feiticeiras, trabalho de três inquisidores alemães coordenados por Jacob Sprenger.
O Malleus Malleficarum é bastante completo e interessante coletânea de dados sobre a bruxaria. Os autores discutem várias questões, como o misterioso transporte das feiticeiras de um lugar para outro. Discute-se se o tal vôo das bruxas é real ou apenas uma lenda. O Malleus também contém referências diretas ao Sabá permitindo concluir que, de fato, as reuniões eram grandes orgias priápicas que não eram típicas das crenças genuinamente germânicas. A febre de publicações sobre bruxaria alcançou os séculos XVI e XVII [16 e 17] e até o rei James I [Inglaterra] aventurou-se a escrever sobre o tema.
Jean Bodin * [1530-1596]

Escreveu: On Witchcraft [La Démonomanie des Sorciers] — livro de 1580. Bodin [que era jurista] recomendou tortura, até mesmo em casos de inválidos e crianças, para tentar confirmar a culpa de feitiçaria. Ele afirmou que nem mesmo uma bruxa poderia ser condenada erroneamente se os procedimentos corretos fossem seguidos, e a suspeita era tida como motivo suficiente para atormentar o acusado uma vez que rumores relativos à bruxaria quase sempre eram verdades. [Wikipédia]
Cerca de 75 anos depois da publicação do Malleus, o francês Bodin ou Bodinus, em latim, publicou volumoso trabalho, um tratado que veio a ser importante texto de referência sobre bruxaria. Ali o Sabá é descrito em detalhes; possivelmente a mais minuciosa descrição da cerimônia. Segundo Bodin, as assembléias eram realizadas em lugares solitários, em vales escondidos entre as montanhas, nas florestas.
Preparando-se para ir ao Sabá, a bruxa ou bruxo deitava-se em sua cama completamente despido (a) e untava o corpo com o famoso "ungüento das feiticeiras" [cuja receita Eliphas Levi, ocultista francês do século 19, fornece em seu Dogma e Ritual da Alta Magia]. A substância produzia o "encantamento" e a pessoa era transportada pelo ar chegando ao lugar do encontro em curto espaço de tempo. Também Bodin se preocupa com a questão do transporte ser um fato real ou apenas metafórico e conclui que, de fato, transportavam-se, fisicamente, de forma mágica.
O Sabá, como de costume, é descrito como uma grande assembléia de bruxos e demônios de ambos os sexos. Era meritório para os participantes veteranos trazer consigo novos convertidos. Em sua chegada, os novatos eram apresentados ao demônio que presidia o encontro e a quem era devida adoração através do sórdido ato de beijar sua parte íntima traseira. Os adeptos prestavam contas de suas atividades desde o último encontro e recebiam suas reprovações ou congratulações de acordo com seus méritos.
O Diabo, geralmente representado como um bode, distribuía, então, amuletos, poções, ungüentos e outros artigos que deveriam ser empregados nos feitos do mal. Os adoradores também faziam oferendas: ovelhas, pequenos pássaros, mechas de cabelo e outros objetos. Todos deviam proferir imprecações contra os cristãos e os símbolos do cristianismo, blasfemas contra os santos e as coisas santas. Finalmente, o Diabo iniciava a orgia sexual tendo relações com alguma nova bruxa - ou bruxo em quem deixava sua marca em alguma parte do corpo, em geral, na área genital.

Os elementos característicos do Sabá: a bruxa que atravessa os ares, as poções, a música primitiva, o elemento feminino, a nudez lasciva. Os "acertos de contas" era o que se pode chamar de "negócio do encontro" e, depois dos negócios era a hora do banquete. Ocasionalmente, vistosas iguarias poderiam degustadas mas, em geral, segundo Bodin, ao contrário de outros autores, o repasto era frugal. O "prato principal", ao que parece, era, de fato, a luxúria e as mesas serviam, eventualmente, mais para a dança e a fornicação.
Sobre as danças, a carole da Idade Média era o modelo, uma dança comum entre camponeses, executada em circulo, com homens e mulheres aproximando-se e afastando-se alternadamente, o que permitia o reconhecimento mútuo dos participantes. Outras danças foram introduzidas, mais ousadas, mais obscenas. As músicas também eram vulgares beirando ao ridículo, o grotesco, executadas por instrumentos toscos e macabros, como flautas feitas de ossos, liras feitas de crânio de cavalo. O grupo entrava em estado de excitação tornando-se mais licencioso até que, finalmente, os participantes abandonavam-se ao desfrute de relações sexuais indiscriminadas nas quais o demônio tomava parte. A assembléia terminava a tempo das bruxas retornarem às suas casas antes do amanhecer.

Pierre de Lancre — Bruxaria em Labourd
Outro francês, Pierre de Lancre, conselheiro do rei, juiz do parlamento de Bordeaux, ingressou, em 1609, em uma comissão encarregada de apurar acusações de bruxaria em Labourd, distrito das províncias bascas, região célebre por suas bruxas e aparentemente, pelo baixo nível de moralidade de seus habitantes. Labourd é um lugar isolado e seus moradores conservaram suas antigas superstições com grande tenacidade.
De Lancre investigou a natureza dos demônios e a razão pela qual os residentes de Labourd eram tão ligados à feitiçaria. As mulheres locais, eram de temperamento naturalmente lascivo, coisa que se podia ver na maneira de vestir e arranjar os cabelos, singularmente indecentes, expostas sem a menor modéstia. O principal produto agrícola era a maçã, curiosa associação com o aspecto pecaminoso de Eva. De Lancre ficou quatro meses estudando a situação de Labourd e, depois de tudo que tinha visto e ouvido, resolveu dedicar-se ao estudo da bruxaria e, no devido tempo produziu seu grande trabalho sobre o tema: Tableau de l'Incosntance des Mauvais anges et Démons.
De Lancre escreve honestamente e acredita no que diz. Seu livro tem valor pelo grande número de informações que contém incluindo confissões de bruxas transcritas nas próprias palavras das depoentes. Um segundo livro foi dedicado totalmente aos detalhes do Sabá.
A pesquisa de revelou algumas contradições e mudanças. Nos tempos antigos, as noites de segunda-feira eram as noites de Assembléia. Na época do estudo, estas noites eram as de quarta e sexta-feira. Algumas bruxas disseram que seguiam para o lugar do encontro ao meio dia. A maioria, entretanto, afirmou que meia-noite era o horário certo. O lugar do Sabá era, de preferência, uma encruzilhada, mas não obrigatoriamente. Era suficiente um lugar isolado, um sítio mais selvagem, no meio de uma charneca, especialmente longe de habitações humanas ou de lugares assombrados. Ali, na região de Labourd, esse lugar era chamado Aquelarre, significando Lane de Bouc ou Mata do Bode, uma referência à forma caprina assumida por Satanás nestes Sabás.
Na mesma região, outros lugares, ainda, teriam sido cenários de Sabás: "Mais de cinqüenta testemunhas nos asseguraram que tinham estado em uma 'Mata do Bode' para o Sabá na montanha de La Rhune, algumas vezes, em uma abertura da montanha [uma caverna?], outras vezes, na capela do Espírito Santo, que fica no cume; algumas vezes o Sabá foi realizado na igreja de Dordach, nos limites de Labourd. Em outras ocasiões, ainda, a Assembléia se reunia em casas, residências particulares.
Porém, o mais usual é que o Diabo escolha para os Sabás as entranhas da mata, as casa velhas, abandonadas, ruínas de antigos castelos, especialmente se ficam no alto das montanhas. Um velho cemitério pode servir, se é isolado, e o mesmo se aplica às capelas, ermidas, o topo de um rochedo debruçado sobre o mar, como aquele onde fica a capela de Saint Jean de Luz, Puy de Dome em Perigord e locais semelhantes.

As Formas Diabólicas de Satanás
Nestes encontros, algumas poucas vezes, Satanás esteve ausente; nestes casos, um pequeno demônio tomava seu lugar. De Lancre enumera as várias formas que o Diabo assume nestas ocasiões, tão variadas quanto seus movimentos são "inconstantes, cheios de incertezas, ilusão, decepção e impostura". Algumas das bruxas que ele examinou, entre as quais uma garota de 13 anos chamada Marie d'Aguerre, disse que naquelas assembléias havia uma grande garrafa ou cântaro no meio do Sabá; dali o Ddiabo saía assumindo a forma de bode que, subitamente, tornava-se enorme e assustador. No fim do Sabá ele retornava à garrafa.
Outros o descrevem como um grande tronco, como o de uma árvore, sem braços ou pés, sentado em uma cadeira com as feições de traços humanos grosseiros. É recorrente a referência à face de bode, com dois chifres na testa e dois chifres na nuca. Nos relatos mais freqüentes, são três os chifres do Capeta sendo que o do meio [da testa] serve para fornecer luz e fogo ao Sabá. Ocasionalmente, o Demo usa um chapéu ou tipo de capa sobre os chifres.
"Na frente, ostenta seu membro e atrás, possui uma cauda que lhe sai de uma segunda face traseira, rosto este que é oferecido ao beijo cerimonial que seus adoradores lhe dão em sinal de submissão. Este Diabo é aqui representado como imagem de Priapus. Marie d'Aspilecute, 19 anos, residente em Handaye, declarou que na primeira vez em que foi apresentada ao Demônio, beijou-o naquela face, traseira, três vezes.
Outros disseram que o Diabo é como um homem de grande porte, "envolvido em vapores que o encobrem, de modo que não o vejam claramente"... Sua face é vermelha como o ferro aquecido na fornalha. Corneille Brolic, uma adolescente de 12 anos, disse que quando o viu pela primeira vez ele tinha forma humana porém, com quatro chifres em sua cabeça e sem braços. Estava sentado em um púlpito cercado de algumas mulheres, suas favoritas... Jannete d'Abadie, de Siboro, 16 anos, disse que Satanás tinha duas caras, uma na frente outra na parte de trás da cabeça, [tal como a representação do deus Janus]. O Diabo também foi descrito com um grande cachorro negro. Em tempos mais remotos, Satanás apareceu, freqüentemente, em forma de serpente - outro ponto de contato com os cultos priápicos. Na Idade Média, no entanto, a forma de bode foi a mais comum.

Cerimônias
Na abertura do Sabá, são recorrentes os relatos da cerimônia de "apresentação" [como mencionado acima]. Bruxos e bruxas apresentavam, formalmente, ao Mestre, aqueles que nunca tinham estado com ele antes. Muitas vezes, eram levadas crianças como oferendas, para serem enfeitiçadas, destinadas ao serem futuras servas do Diabo. Os novos convertidos, noviços e noviças, deveriam renunciar a Cristo, à Virgem Maria e aos santos e eram rebatizados em cerimônias burlescas. O beijo nas nádegas do Demo é outro elemento sempre citado nos relatos de Sabás como ato confirmatório da fidelidade a Satanás... Esses atos de renúncia ao cristianismo e submissão ao Demônio eram sempre renovados. Janette d'Abadie [citada acima] disse que beijou o Diabo repetidas vezes durante a cerimônia; não somente nas nádegas mas também no rosto, no umbigo e no pênis. Depois do re-batismo, ele colocou sua marca no corpo de sua vítima, em parte escondida, que geralmente não se expõe. Nas mulheres, esta marca era feita nas partes sexuais. De Lancre classifica os procedimentos dos Sabás como variados e curiosos: Lembra uma feira de mercadores,uma grande mistura de gente chegando de todas as partes, um encontro de contatos transitórios e novos nas mais medonhas formas de novidades que ofendem os olhos. Tudo parece real mas muita coisa é ilusória. Como uma atmosfera meio divertida, ao som de pequenos sinos e instrumentos musicais de todos os tipos. A música, entretanto, fala somente ao ouvido, ao sentido do entretenimento. Tal música transforma-se num barulho desarmônico cheio de deformidade que acompanha todo o horror da desolação, da ruína, da destruição, das pessoas brutalizando-se, virando bestas, perdendo a razão, enquanto as bestas parecem tornar-se humanas com mais juízo que as gentes, estas, cada qual entregue aos seus mais baixos instintos naturais. As mulheres, segundo de Lancre, são agentes ativos nesta mixórdia [confusão], mais comprometidas que os homens, cheias de ímpeto com seus cabelos em desalinho e seus corpos nus; muitas besuntadas com ungüentos mágicos, outras, não. Chegam aos Sabás com seus propósitos maléficos, montadas em suas vassouras ou bastões, cavalgando um bode ou outro animal, muitas vezes levando uma ou duas crianças, guiadas pelo Diabo em pessoa... No Sabá produzem e recebem poções para diferentes propósitos. Um ingrediente de poções muito comum é a cinza do sapo queimado vivo.
O Bode
O Diabo, Mestre da Assembléia, em sua forma animalesca, é especialmente repulsivo. O Bode é uma referência a Príapus [e as variações como tronco/árvores, sem braços, remete a divindades antigas também veneradas em cultos orgiásticos dos campos, com o deus grego Pan, em uma clara antropomorfização de um ente vegetal, a árvore, soberana na Natureza].
A forma humano-caprina, entretanto, mais comum nos tempos medievais, é feia e repelente, [de Lancre insiste neste ponto]. Suas maneiras são imperiosas, sua voz, rouca. Sentado no púlpito, que brilha como ouro, ele tem ao seu lado a "Rainha do Sabá", seminua, uma de suas bruxas mais pervertidas a quem ele dá a grande honra de dividir a presidência da festa. Por entre "fogos falsos" passam demônios encorajando os bruxos e bruxas a fazerem o mesmo, pois não sentirão nenhuma dor e assim aprenderão a não temer o fogo do inferno. ...
Aqui e ali vêem-se caldeirões cheios de sapos, víboras, corações de crianças que morreram sem batismo, carne de assassinados e outros ingredientes macabros que entram nas fórmulas dos ungüentos e poções. Ingredientes que podem ser adquiridos ali mesmo, no Sabá, como em uma feira. Outros caldeirões cozinham a comida da festa, que deve ser insossa [sem nenhum sal], crua e embolorada, como o Diabo gosta.
As mulheres dançam em círculos, formam casais, vão para o centro da roda conduzidas pelos demônios, que ensinam movimentos e gestos cheios de lascívia e indecência capazes de horrorizar a mais despudorada das prostitutas. Cantando versos licenciosos, lúbricos, a grupo é uma visão de monstruosa luxúria. Aquelas que são escolhidas para copular e fazer outras impudícias com os demônios são encobertas por uma nuvem, para esconder a execração e a imundície destas cenas e prevenir a compaixão que alguém sentir ouvido os gritos e vendo a degradação dessas pobres desgraçadas.
Misturando impiedade e outras abominações eles realizam seus ritos "religiosos", uma selvagem e indecorosa paródia da missa católica. O altar é erguido e o sacerdote oferece a "hóstia", feita de substâncias impuras e todos os ritos são repugnantes.
Pequenas Diferenças
De Lancre assegura que existem pequenas diferenças de procedimentos do Sabá de um país para outro, diferente na característica da localidade, na figura do master que preside a Assembléia, na disposição geral dos participantes. Todavia, os aspectos fundamentais se mantêm como uma tradição que transcende fronteiras de países europeus. O Sabá é considerado como a cerimônia mais importante dos praticantes da bruxaria ocidental.
A primeira testemunha do pesquisador é um documento de 18 de dezembro de 1567, uma cópia da confissão de Estébane de Cambrue, da paróquia de Amou, uma mulher de 25 anos. Ela informou que o "Grande Sabá", na verdade, acontecia somente quatro vezes por ano, paródia às quatro festas anuais da Igreja. As pequenas Assembléias, realizadas nas vizinhanças das cidades e paróquias eram freqüentadas por residentes locais, próximos aos diferentes locais onde eram realizados estes encontros nos quais as pessoas "somente dançavam e se divertiam". O Diabo não costumava freqüentar estes encontros menores.
Existia, de fato, a Grande e a Pequena Priapéia. esta depoente foi uma das que se referiu ao local dos grandes encontros como Lane de Bouc ou Mata do Bode, onde dançava-se ao redor de uma pedra [freqüentemente associados aos monumentos druídicos] sobre a qual sentava-se um grande homem negro que era chamado de Monsieur. Como de praxe, havia a cerimônia do beijo na traseira e as imprecações contra Deus, a Virgem Maria e "o resto".
A "profissão de fé" renovava os laços dos bruxos com Satanás, a quem consideravam "seu pai e protetor". Essa testemunha relatou o comércio e a produção de poções durante o Sabá. Havia um "notário" [contador] responsável pela cobrança das mercadorias. Uma curiosidade mágica: se chovesse à caminho do Sabá, os bruxos (as) não se molhavam protegidos pelo encantamento das palavras: Haut la coude, Quillet! Quando tinham de fazer uma longa jornada, diziam as palavras: Pis suber hoeilhe, en ta la lane de bouc bien m'arrecouille...
Mais Testemunhas: Sexo & Sabá
Roger Rivasseau confessou ter estado em um Sabá duas vezes, embora não tivesse adorado o Diabo nem feito qualquer das coisas que lhe foram solicitadas. "O Sabá começou lá pela meia-noite em uma encruzilhada. Geralmente é feito nas quarta e nas sextas-feiras e o Diabo prefere as noites de tempestade, quando o vento forte serve para propulsionar seu transporte pelos ares. Dois notáveis demônios presidiram aquele Sabá; um grande negro chamado Master Leonard e outro pequeno diabo, que substituia o mestre eventualmente e que se chamava Master Jean Mullin. Eles adoraram o Grande Satã e cerca de sessenta pessoas dançavam sem roupas".
Muitas bruxas ouvidas disseram que o Sabá era um delícia! Para Jeanne Dibasson, 29 anos, o Sabá era um verdadeiro paraíso onde havia mais prazer do era possível descrever. Ela esperava ansiosa pelos encontros. Marie de la Ralde, uma bela mulher de 28 anos, havia abandonado suas relações com o Diabo há seis anos e forneceu muitas informações sobre suas experiências nos Sabás. Freqüentava as Assembléias desde os dez anos de idade.
A primeira vez que viu o Diabo ele estava em sua forma de tronco de árvore, sem pés mas, aparentemente sentado no púlpito. Tinha uma face humana, muito obscura. Outras vezes, seu rosto parecia vermelho. Presenciou em várias ocasiões o Mestre aproximar um ferro em brasa de crianças oferecidas a ele mas não sabia dizer se eram realmente marcadas. Marie de la Ralde declarou que tinha um prazer especial em freqüentar o Sabá. ...
Jeanette d'Abadie relembrou os atos libidinosos da Assembléia onde era comum o incesto e as relações "contrárias à ordem da natureza"; ela mesma participou de tais orgias quando copulou com não somente com Satanás mas com muitos outros. Ela tentava fugir das relações com o Demônio porque causavam extrema dor; seu membro era frio e seu sêmen jamais não produz gravidez. Ninguém fica grávida em um Sabá. Longe do Sabá, a conduta da jovem era irrepreensível mas nos encontros dos bruxos ela confessava desfrutar de prazeres maravilhosos naqueles intercursos sexuais que ela descrevia em linguagem obscena...
A Sarabande
Em muitos outros depoimentos há referência ao grande prazer experimentado nesses Sabás que exerciam enorme excitação entre homens e mulheres. Mulheres entregavam-se a outros homens na fente dos maridos, que não raro encorajavam as relações. Na Sabá não havia posse nem ciúme nem tabus: pais defloravam filhas, mãe relacionavam-se com filhos, irmãos com irmãs.
As danças do Sabá, como mencionado, eram indecentes, como a Sarabande, na qual as mulheres participavam usando apenas camisas indecorosas quando não estavam completamente nuas. Os movimentos da dança eram especialmente violentos. O Diabo participava tomando uma mulher como par. escreve de Lancre: "Se o que dito é verdade jamais uma mulher ou adolescente retornou do Sabá casta ou virgem como poderia ter chegado [porque no Sabá ela] ... dançaria com os demônios e maus espíritos e com eles trocaria beijos obscenos, copularia com eles".

O Membro de Satanás
Um das mais impuras e sensuais curiosidades dos Inquisidores manifestada em seus interrogatório refere-se às peculiaridades sexuais e "capacidades" do Demônio. De Lancre, como outros pesquisadores, diante dos documentos pesquisados, identifica essas orgias, os Sabás, com os antigos cultos Priápicos sendo que Príapus, foi, claramente, substituído pela figura-conceito do/de Diabo [uma aculturação de evidente influência cristã].
Jeanette d'Abadie, contou que tinha visto o intercurso sexual promíscuo de homens e mulheres no Sabá. O Diabo organizava os casais em combinações pervertidas: pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã, padrasto e enteada, penitente e confessor, sem distinção de idade, classe social etc.. Ela mesma manteve relações com uma irmã por afinidade e muitos outras pessoas. Revelou, ainda, que tinha sido deflorada pelo Demônio aos treze anos - quando doze é a idade mais comum. Nunca tinha ficado grávida, fosse do Diabo ou de qualquer um dos bruxos dos Sabás.
Em sua primeira vez com Satanás, sentiu o membro muito frio; mas os bruxos eram homens comuns. O Diabo escolhia as mais belas mulheres e adolescentes para seu desfrute particular e uma delas era a preferida, a rainha das Assembléias. As relações sexuais com o Demo eram dolorosas porque seu pênis era coberto de escamas, como uma pele de peixe. Além disso era longo e retorcido.
Marie d'Aspilcuette, entre os 19 e os 20 anos, que também confessou relações sexuais freqüentes com Satanás, descreveu o membro medindo cerca de meio metro e moderadamente largo. Marguerite, de Sare, 17 anos, descreveu o pênis do Diabo como semelhante ao de um jumento, tão longo e grosso como um braço. Apesar de muitas das vítimas serem muito jovens e virgens, o Diabo prefere as mulheres casadas às descomprometidas porque há mais pecado nas relações adulterinas, mais execrável que a simples fornicação.

Conclusão
Os Sabás, são, evidentemente, uma manifestação de sobrevivência clandestina de um culto pagão em uma Europa já dominada ideologicamente e politicamente pelos valores do Cristianismo Católico Romano, em especial, da moral judaico-cristã. Entretanto, entre a população mais rústica, entre os "servos", cuja moral ou vida privada passava como desimportante para as classes mais altas da sociedade medieval, tradições antigas persistiram durante incontáveis gerações.
O povo continuou praticando seus rituais priápicos, suas orgias, suas Saturnálias; continuou usando seus alucinógenos excitantes, mergulhando em estados mentais caóticos onde realidade e fantasia, homens, mulheres e demônios, verdade e ficção, se confundiam. Nas charnecas, nas clareiras das florestas, longe das leis dos juízes e da Igreja, costumes antigos continuaram vivos e, não raro, junto com os camponeses mais simples, certos da proteção das trevas, figuras importantes da comunidade entregavam-se aos mais dissolutos prazeres, às tentações, que lamentavam depois, talvez num confessionário, buscando a pureza na mortificação e o perdão a peso de ouro para mais uma vez, na próxima lua cheia, ceder ao chamado da lascívia e dançar e pecar — no Sabá.

fonte:http://mahabaratha.vilabol.uol.com.br/translation/cultosfalicos01.htm [link morto]

Escolhidos, separados, privilegiados

Ateus em geral tem razão, embora por uma visão generalizante, que a religião é um veneno para a humanidade. A questão que os ateus não explicaram é onde a religião envenena.
Para os Cristãos, o veneno age para matar o pecado.
Para os Budistas, o veneno age para matar o apego.
Para os Satanistas, o veneno age para matar a abstinência.
Para os Muçulmanos, o veneno age para matar a desobediência.
Para os Pagãos, o veneno age para matar a indiferença.
Para os Bruxos, o veneno age para matar a separação.
Para os Wiccanos, o veneno age para matar a ignorância.
Para os Ateus, o veneno age para matar a superstição.
Cada um, de sua forma, age como sendo um privilegiado, um iluminado, um escolhido, separado dos demais pelas qualidades que nossas certezas nos dão. Quando nos saturamos dessa iluminação, parte de nós fica 'envenenada', morre em algum sentido e paramos de ter auto-crítica, apenas vemos os defeitos que estão nos outros.
Os Cristãos brigam entre si por diferenças doutrinárias e brigam com outras religiões porque não aceitam a diversidade. Brigas aconteceram também entre as vertentes do Budismo, bem como a assimilação e sincretismo com as outras religiões originárias da Ásia porque foram consideradas 'selvagens'. Excessivo romantismo ideológico e cultos à personalidade minaram a relações entre os Satanistas. Há um verdadeiro fratricídio e disputas de linhagens entre os Muçulmanos. Há uma confusão histórica e uma obcessão por restabelecer de forma intocada os Ritos Ancestrais entre os Pagãos. Há uma verdadeira confusão de identidade e personalidade entre os Bruxos. Há uma verdadeira disputa por reconhecimento e validade entre os Wiccanos. Há uma verdadeira obcessão pelo racionalismo e pela intelectualidade entre os Ateus.
Como eu sou pagão, bruxo e dedicado a estudar a religião Wica, eu tento entender as limitações dos outros ao mesmo tempo que estimulo a auto-crítica. Ainda que isso seja uma esperança em vão, eu confio que os Pagãos, Bruxos e Wicanos também tenham essa compreensão e auto-crítica.
Como pagão, eu não me contento em ler livros, mas comparo os textos, cada livro contém em si memso uma enorme possibilidade de aprendizado, basta saber ler. Como bruxo, eu não me contento em procurar e reproduzir receitas, eu tento encontrar coerência e pragmatismo nas minhas práticas. Como estudante dedicado na Wica, eu não vou me ajoelhar diante de sacerdotes nem tomar seus textos como verdades sagradas, eu me ajoelho apenas aos Deuses Antigos e tentarei desvendar pelos Mistérios Antigos as verdades sagradas.
Iniciados são privilegiados porque receberam a tradição, são escolhidos porque receberam a iniciação e são separados porque devem zelar pelo segredo do Ofício. Isso envenena o Ego que, desesperado, tenta se agarrar em símbolos de autoridade, em textos sagrados revelados, no excessivo rigor ritualístico, em inventar fórmulas de espiritualidade. Nem todos são escolhidos, nem todos são chamados, muitos são os iludidos e mais ainda serão os enganados. Saiba então, buscador, que toda forma de religiosidade externa é uma armadilha do Ego, um caminho espiritual que necessita do reconhecimento e do aplauso do público nunca foi um caminho espiritual.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Quão alto estão os Deuses

Nosso ancestrais começaram a perceber os Deuses Antigos primeiramente em fenômenos naturais, depois em formações geológicas e então em animais e plantas. Apenas com o aparecimento das civilizações é que os Deuses Antigos começaram a tomar uma individualização, uma identidade, uma personalidade, uma manifestação mais intelectual daqueles que os cultuavam.
Entretanto, mesmo com os Deuses Antigos recebendo esse tratamento ideológico, a concepção mais frequente entre nossos ancestrais é a de que os Deuses Antigos habitavam em lugares altos. Ainda hoje, muitas montanhas são consideradas proibidas, quando não protegidas como sendo patrimônio histórico.
Muitos mitos cercam montanhas, montes e picos, muitos Deuses recebem seu nome a partir de um monte ou montanhas lhes são dadas como santuários. Para grupos sedentários, a relação com seu Deus patrono era estabelecida firmemente em torno de um monte sagrado. Para grupos nômades, a relação entre o povo e o Deus tribal era estabelecido com construções improvisadas, ora empilhando pedras, ora erigindo estelas, ora erguendo morros artificiais e, por fim, erigindo templos.
Toda forma de religião possui, de uma forma ou outra, um tipo de templo. A maior parte dos templos pagãos na Europa consistiam em círculos de pedra, fontes consagradas, grutas, árvores consagradas, mas também montes e morros consagrados. Mesmo as religiões atuais contruiram templos que são uma imitação, por fora dos montes sagrados, por dentro das grutas sagradas.
Os Deuses do monoteísmo, curiosamente, também se manifestaram originalmente em montes e depois em templos consagrados, mas seus adoradores não o vêem mais como sendo um Deus dos montes, das árvores ou dos rios, mas um Deus do Céu. Um desenvolvimento intelectual da idéia de que Deus está no alto. Deus foi, por muitos séculos, confundido ou com a lua, ou com o sol, bem como as demais associações simbólicas entre o sol, animais e plantas. Essa associação ficou perdida ou dissimulada, quando não negada, pelas religiões monoteístas. Houve então um distanciamento cada vez maior até que o Deus adorado pelos monotéistas se tornasse um tirano cósmico.
Os Deuses Antigos do paganismo continuam vivos e atuais, não apenas ao redor de nós, mas dentro de nós, não distantes nem arbitrários. Os pagãos estão resgatando as associações, deixando-as bem evidentes, não apenas na Natureza, mas na própria Humanidade. Na Natureza, o monte voltou a ser sagrado assim como a sua parte simbólica corporal, a caverna voltou a ser sagrada assim como a sua parte simbólica corporal. Restabeçecendo a noção de que o corpo é sagrado e que a Humanidade é sagrada, o Paganismo revoga o complexo de culpa, anula a compulsão da vergonha, pulveriza o julgamento do tirano. No lugar dessa prisão corporal, mental e espiritual, o Paganismo mostra o caminho da liberdade para o êxtase e a realização plena de toda a Humanidade.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Religião, magia e bruxaria

Bruxaria são métodos que visam a moldar a realidade para alcançar determinados objetivos. Para que a realidade seja moldada existem diversas práticas de magia que ativam determinados locais onde a vibração que compõe a realidade está mais acessivel ou instável. Como a magia é a técnica, bem como o objeto em operação, magia e a energia operada se confundem como uma coisa só e como a técnica é entendida como método, magia e bruxaria acabam se amalgamando como uma coisa só.
O/a bruxo/a sabe que ele/ela, seu corpo, é a parte carnal da realidade que o/a compõe, resultado não apenas de vetores vibracionais materiais, mas de vetores vibracionais espirituais. Entretanto, cada um de nós é um composto único e individual. Há uma diferença entre nós, a magia, a bruxaria e os Deuses Antigos.
Aqui entra a religião individual e, indiferente da religião que alguém escolhe, ali existirá alguma forma de magia, bem como de técnicas para ativar essa energia que cada um de nós tem dentro de si. Aqui entra também a diferença entre Bruxaria e Religião, pois ainda que a técnica requeira uma dose de crença, esta nem sempre requer a presença de um Deus ou Deusa no Ofício.
A Wica é uma religião que proveio de uma determinada prática de Bruxaria, resultado de uma tentativa de resgate dos cultos e práticas que existiam na Europa antes da dominação do Cristianismo.
Há uma choradeira sem fim de atuais bruxos quanto à época em que a Igreja dominava a Europa e muitos tentam 'purificar' a Bruxaria e a Wica das influências do Cristianismo e do Judaísmo, sem perceber que isto é uma forma hipócrita de maniqueísmo. Não há uma forma 'pura' e 'intocada' de Bruxaria e é delírio romântico querer recuperar uma 'Religião da Deusa' que nunca existiu no neolítico.
Grande parte dessa herança provinda do Cristianismo e do Judaísmo que tantos pseudo-bruxos reclamam de estarem 'distorcendo' o Ofício provém de fontes que são legítimamente antigas e parte da história da Bruxaria !
Um bruxo e uma bruxa autênticos jamais teria esse tipo de prurido. Muito do que herdamos veio de antecessores que viveram em clandestinidade com outras ordens iniciáticas, fraternidades e Judeus ! Mesmo na Igreja a Bruxaria foi praticada, distorcida e assimilada ! Então muito devagar com o andor. Não vamos cometer o mesmo erro que os Cristãos cometeram, não vamos começar a fazer Concílios, elegermos Papas nem sair por aí quebrando ícones.
Quem estuda algo de história perceberá que o Cristianismo tem ossos e raízes em mitologias pagãs, gnosticismo, neoplatonismo, mitraísmo e magia cerimonial. Muito dessa magia cerimonial tem origem no Judaísmo que, por sua vez, foi influenciado por práticas seguidas por Romanos, Gregos, Persas, Assírios, Egípcios, Caldeus, Sumérios...Em suma, as evocações, os pentáculos e as ferramentas que aparecem nos famigerados grimórios são, a despeito das distorções, registros dessa herança antiga. Aquilo que os puristas querem 'jogar fora' porque lidam com 'anjos' e 'demônios' foram praticados por nossos ancestrais e os ancestrais antes deles, muito embora com outros nomes e intenção, mas a técnica não pode ser descartada por inteiro por causa dessa neurose contra influências 'judaico-cristãos'.
O problema, como sempre, é a falta de leitura de outras fontes e a busca de outros recursos. Livros ditos de Bruxaria e Wicca não irá lhe mostrar o caminho, serão apenas fontes de informação, quando não apenas 'receitinhas de bolo' sem sentido.
O sentido de cada prática de Bruxaria só ficará clara com uma enorme e extensa leitura sobre outros povos, outros tempos, que devem ser respeitados e reverenciados, tanto como culturas individuais como culturas que contribuíram para o Ofício como o conhecemos hoje.
A outra forma de opção, menos divulgada por interesses políticos, está na busca de um bruxo ou bruxa que igualmente praticou e recebeu essa herança. Valores e princípios que não agradam aos propagadores da Wilka S/A e dessa bruxaria enlatada.
O Caminho do Sábio requer sabedoria, que requer conhecimento e prática. Dentro da religião da Wica, os pré-requisitos são mais restritos, mas não omitem outras formas de Bruxaria. Os wiccanos sérios preferem entender a técnica da prática em si do que descartá-la, preferem encontrar as palavras de poder ocultas nos grimórios do que descartá-los.
O Caminho do Sábio é uma longa caminhada, nós estamos apenas saindo do berço, primeiro temos que aprender as letras antes de soletrar, primeiro temos que balbuciar as palavras antes de poder discursar, primeiro temos que cair antes de levantar.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Bruxaria, Paganismo e Magia Sexual

Hoje vamos continuar nosso passeio através da história da magia sexual, de Roma até os dias de hoje.
Vou seguir com a narrativa por três pontos de vista diferentes: o masculino, do Templo Solar, que regeu basicamente os exércitos e guerreiros, o feminino, do Templo Lunar, que coordenava as sacerdotisas, e as Fraternidades Mistas, que formavam a maioria dos grupos envolvidos nas festividades pagãs do Hieros Gamos.
Prostitutas Sagradas

Voltando um pouco na nossa narrativa, ainda na Babilônia, o culto a Ishtar era famoso pelos templos dedicados a Inanna e Ishtar (ou Astarte), a grande deusa da Babilônia. Nestes templos, ficavam as mais sagradas das sacerdotisas, dedicadas à deusa do amor e da sexualidade. O nome Prostituta vem de “Aquelas que se prostram (diante de Ishtar)” ou “Aquelas que se expõem”.
Nestes templos, as “Ishtartu” ou “Damas dos prazeres” tinham o domínio sobre sua sexualidade, oferecendo-se para estranhos em troca de donativos para o templo, em rituais de adoração a Ishtar. Mulheres que desejavam se casar, para obter as bênçãos de fertilidade da deusa, precisavam passar um período de sete dias na porta do templo para obter dinheiro suficiente para a doação, no chamado “dote”. Este ritual pré-nupcial era chamado “Fornicatio”, de onde surgiu mais tarde a palavra “fornicação”, tão odiada pelos fundamentalistas. O local onde ocorriam estas negociações era chamado de “Fornix” (Câmaras Arqueadas mais tarde “Fornix” se tornaria sinônimo de bordel - Thanks Zatraz). Durante este tempo, recebiam instruções das sacerdotisas nas artes de amar e de agradar aos homens.
Muitas famílias nobres enviavam suas filhas para servirem como Harlots (o termo em inglês hoje em dia é utilizado com o sentido de prostituta, sem tradução para o português) por anos. A Harlot entrava em um templo como uma Virgem Vestal e sacrificava sua virgindade ritualisticamente para o sacerdote que a iniciaria nos mistérios do Hieros Gamos. Esta primeira relação era muito importante pois o sacrifício de sangue para Ishtar marcava a iniciação destas sacerdotisas e era algo considerado muito sério e muito importante (até os dias de hoje, dentro de algumas Ordens Invisíveis). O linho na qual ficavam as manchas de sangue era queimado e dedicado às deusas, consagrado em uma grande festa de acolhida.

Outra curiosidade era que, se a garota não havia “dedicado” sua virgindade à deusa Ishtar, e transado sem as devidas ritualísticas (ou seja, fora do templo de Innana/Ishtar), dizia-se que havia “perdido” sua virgindade e não podia se tornar uma prostituta sagrada. Seu dote, obviamente, era muito menor do que o das Harlots.
As Harlots eram tão procuradas que, após este período de dedicação ao templo, havia muitos pretendentes que se apresentavam para pagar o dote destas garotas a fim de poder se casar com elas.
Curiosamente, apesar de todo o culto de sexo sagrado, Ishtar é reverenciada com o nome de “a virgem”, implicando com isso que seus poderes e sua criatividade não dependiam de nenhuma influência masculina. As mulheres detinham o poder e o controle. Para os gregos, era conhecida como Afrodite ou Vênus (para os romanos).
A partir do Código de Hamurabi, em aproximadamente 1750 AC, tudo isso mudou. A mulher passou a necessitar da permissão de seu marido ou pai para tudo, o poder das sacerdotisas foi massacrado e Innana e Ishtar perderam muito do prestígio que possuíam, tornando-se divindades menores e, posteriormente, demônios da luxúria. Muitos dos templos, para não serem fechados por ordem dos governantes, precisaram forjar casamentos falsos para que pudessem continuar funcionando, mas as mulheres passaram a ter de obedecer a estes maridos, o que acabou dando origem aos primeiros “cafetões”. Em menos de 100 anos, os Templos de Prazer acabaram se tornando algo muito mais parecido com o que temos hoje, com o afastamento da ritualística e apenas a troca de moedas por sexo (geralmente para as mãos do homem que controlava estes grupos). A adoção de escravas para suprir as necessidades dos homens e a degradação do valor das mulheres acabou jogando estes locais para a margem da sociedade, onde estão até os dias de hoje, infelizmente.
Enquanto isso, no mundo dos machos…Conforme estávamos discutindo, o Culto Solar era composto apenas por homens e girava em torno do uso da magia para expandir as habilidades de batalha, capacidade de raciocínio matemático, engenharia, construções utilizando a geometria sagrada, táticas de combate e filosofia.

Na medida do possível, eles tentavam proteger as sacerdotisas, mas o próprio fato de não haverem mulheres nos exércitos e as Ordens serem quase totalitariamente militares tornava tudo muito complicado. As Ordens lunares tornaram-se secretas, abrigadas entre os celtas e romanos e bem longe das garras judaico-cristãs. Já as solares haviam adquirido um poder sem precedentes.
Suas características ocultistas principais estavam no posicionamento e construção de obeliscos nas Linhas de Ley para marcar os principais locais de rituais e conectar outros monumentos nestas linhas invisíveis. Estes monumentos servem para ajudar a ajustar a Terra para permitir melhores colheitas, paz, harmonia e prosperidade nas regiões ao seu redor. Um Obelisco representa acima de tudo um Raio de Sol Petrificado que cai sobre a terra em um ponto específico.

Uma segunda característica era muito importante dentro dos cultos solares, que era a iniciação de seus principais guerreiros e líderes. Esta iniciação dos comandantes era feita enviando-o para algum lugar bastante inóspito armado apenas com uma adaga e esperava-se que ele não apenas sobrevivesse como trouxesse uma prova de suas capacidades de caçador.
Esta prova era a pele do animal (um lobo, urso ou veado). Nos celtas, bretões e druidas, o mais tradicional eram os gamos ou alces, que o iniciado precisava também remover os chifres e traze-los presos em sua cabeça. A capa vermelha do rei simboliza a pele coberta de sangue do animal. As capas dos soldados romanos, dos exércitos de Esparta e dos guerreiros celtas simbolizavam este poder. Nos nórdicos, eles vestiam as peles de ursos (Bersekir, da onde se originou o termo Berserker para designar os guerreiros imbatíveis do norte que lutavam sob o efeito de poderosos rituais xamânicos).
Os chifres na cabeça representam o deus das florestas encarnando naquele sacerdote/guerreiro, o que seria de vital importância no Hieros Gamos, pois mostraria que aquele iniciado estava apto a incorporar o avatar de Cernunnos/Baco/Dionísio/Dummuz nos rituais.
Este hábito iniciático de usar os chifres na cabeça do principal sacerdote do Hieros Gamos é a origem da COROA (que nada mais é do que chifres simbolizados em metal nas pontas da coroa, somados às jóias da sabedoria divina). Estes chifres às vezes eram simbolizados por aquele “penacho” que vocês já devem ter visto nos legionários romanos, ou então pela coroa de louros dos gregos/imperadores.

Celtas, Druidas e a Bruxaria
Fora dos cultos altamente secretos das Bacantes ou dos soldados do Templo Solar, o culto à natureza continuava a todo vapor entre os celtas, druidas e bretões.
Os druidas traçam suas raízes em 300 AC. Os primeiros registros deles foram feitos pelo escriba grego Sotion de Alexandria no século II AC. Os pitagóricos os chamavam de Keltois (Aquele que domina o carvalho). Em latim eram chamados de druides (que tem a mesma origem da palavra Dríade, que significam as “ninfas da floresta” na mitologia grega, que nada mais eram que as sacerdotisas celtas que realizavam seus ritos nas florestas).
Do Egito, os ritos migraram tanto para a Grécia quanto para as Ilhas. Da mesma maneira que os sábios gregos construíam panteões, templos e obeliscos utilizando-se da geometria sagrada, os bretões e celtas erguiam círculos de pedra com a mesma função. Enquanto os gregos realizavam as Bacchanalias, os celtas e bretões realizavam os festivais de Solstícios e Equinócios, bem como as Festas de Beltane e Samhain, onde eram celebrados os Hieros Gamos.

Nos ritos sagrados, o aspecto masculino da divindade era representado primariamente por dois deuses: Cernunnos e o “Green Man” (Homem Verde). Cernunnos é o Deus Chifrudo das florestas, representando todas as forças viris da natureza. Seus chifres podiam ser tanto de carneiro (com toda a simbologia fálica que eu comentei semana passada) quanto de gamos (representando a iniciação dos sacerdotes dentro da tradição solar). De qualquer forma, era a personificação do poder masculino do universo. O Grande Deus. Era sempre representado vestindo peles de animais e muitas vezes com o casco de bode. Cernunnos possui as mesmas atribuições do deus Pan (grego) e do deus Pashupati (hindu). A título de curiosidade, o nome Pan vem do grego Paon, que significa “Pastor”… ah, a ironia… Agora… deus chifrudo? com pés de bode? Aparecendo nos Sabbaths? Onde a gente já ouviu falar disso? Ah, claro! A Igreja Católica espalhou pelo mundo afora que esta era a imagem do Diabo que todos deviam temer e fugir. Estes ataques virulentos continuam até os dias de hoje, não apenas pela Santa Igreja mas também por todas as suas descendentes evangélicas. Eles diziam (dizem) até que as bruxas transavam com bodes, com o demônio e com os outros sacerdotes durante os rituais “satânicos”.
Outra das personificações do Grande Deus era o chamado “Green man”. Uma imagem construída a partir da própria floresta, cujo rosto formado por plantas (ou um sacerdote com o corpo pintado de verde) representava a FERTILIDADE, o renascimento das plantas após o inverno…
Da parte da Deusa, as sacerdotisas representavam o poder feminino. Por ora, basta dizermos que mulheres peladas dançando ao luar associadas a livres pensadores não agradavam em nada ao controle da Igreja e, desta forma, a nudez e o sexo foram automaticamente associados ao PECADO (até os dias de hoje).

Devemos grande parte disto a Santo Agostinho, que por volta de 400 DC reescreveu a gênesis associando a expulsão de Adão e Eva do Paraíso ao sexo e ao tal do “pecado original”.
A partir de então, bruxaria foi associada ao satanismo e qualquer desculpa era uma desculpa para mandar estas pessoas para a fogueira, e assim tem sido até os dias de hoje.
O Carnaval

Com a perseguição religiosa, os Hieros Gamos passaram a ser celebrados disfarçados de bailes de máscaras, também conhecidos como Carnavais. A origem do Carnaval remonta das Saturnálias, que eram festas romanas em honra ao deus Saturno, organizadas entre 23 de Dezembro e 6 de Janeiro, regadas a muito sexo, danças, sacrifícios aos deuses e troca de presentes entre as pessoas (Saturnalia et sigillaricia, que deu origem às trocas de presentes no natal). Para não coincidir com as festividades de Solis Invictus, os romanos acabaram jogando esta data mais e mais para a frente no calendário até chegar a janeiro/fevereiro.
A origem do nome Carnaval vem de “Carrus Navalis” (Carro Naval) simbolizando a barca de Apolo que era levada através das multidões nas ruas. Esta barca, desnecessário dizer, era a versão romana da Barca de Caronte, que por sua vez, era a versão grega da Arca da Aliança, que era a versão judaica da Barca de Ísis.

Magia sexual homossexual
Para finalizar, infelizmente, sinto dizer que não existem rituais sexuais homossexuais. Todo o fluxo de energias sexuais, do tantra ao Hieros Gamos, opera na diferença energética entre os chakras masculinos e femininos, como uma bateria eletromagnética onde os chakras de cada participante fazem as vezes de pólos positivos e negativos. No caso de APENAS pessoas do mesmo sexo (isso não vale, por exemplo, se estiverem duas mulheres e um homem ou dois homens e uma mulher em um ritual tântrico) esta conexão não funciona. É como tentar fazer uma bateria com dois pólos positivos ou negativos.
As mulheres possuem uma vantagem sobre os homens neste aspecto. Durante a magia, a utilização de fluídos corporais potencializa os resultados do ritual. Em ordem de poder temos: a saliva, sêmen, líquidos vaginais, sangue e, finalmente, o mais poderoso de todos: o sangue menstrual (chamado Menstruum).
Por isso, determinados ritos femininos (as Bacantes, por exemplo) eram realizados em certas luas e quando muitas mulheres convivem juntas, os ciclos menstruais tendem a se alinhar. Desta maneira, as sacerdotisas estariam em seus períodos menstruais em determinados rituais e este “extra” compensa a presença de um homem.
Já para os homens, não há nada que se possa fazer.
Por: Marcelo del Debbio

Hieros Gamos e Magia Sexual

Na Antiguidade, entre os estudiosos, sacerdotes e iniciados, o sexo era considerado algo sagrado e uma maneira de se reconectar com o EU divino que habita cada um de nós, como uma das formas mais bonitas de “Religare” e sempre esteve associado a muitas comemorações e rituais de fertilidade.O reino do sexo mágico é o domínio e o poder do feminino.
Antes de começar, quero deixar claro que sempre existiu o sexo “vulgar” ou profano, que a maioria das pessoas conhece e pratica normalmente. O sexo sagrado envolve todo um ritual de entrelaçamento das energias entre os chakras fortes masculinos e femininos durante o ato sexual entre dois iniciados. Durante esta relação, o casal canaliza e amplia suas energias através de seus chakras, gerando um fluxo gigantesco das energias telúricas e projetando-as para o universo, ou utilizando estas sobras de energia para a realização de determinados rituais.
Através do sexo sagrado, o corpo da mulher se torna um templo a ser venerado e o enlace entre o sacerdote (que assume o papel de um deus) e a sacerdotisa (que assume o papel de uma deusa) adquire uma conotação ritualística capaz de despertar grandes energias e até fazer com que eles cheguem à iluminação (e a orgasmos muito mais fortes!).
Suméria
Os rituais sexuais existem desde os primórdios da humanidade e estiveram presentes em todas as grandes culturas da humanidade. As primeiras referências a eles, e também a mais famosa, é o Hieros Gamos, ou “Casamento Sagrado”. Este ritual era realizado na Suméria, 5.500 anos atrás. Nele, a alta sacerdotisa assumia o papel do Avatar da grande deusa Inanna e fazia sexo com o rei ou imperador, que assumia o papel do deus Dumuzi, para mostrar sua aceitação pela deusa como governante justo daquela região.

Isto era feito diante da corte, pois naquele tempo não haviam tabus para se praticar sexo em público se fosse em uma cerimônia religiosa. O símbolo desta união era um chifre, também chamado de “cornucópia” (uma referência clara à vagina da Grande Deusa em sua abertura e o falo do grande deus em seu chifre), do qual brotavam frutas, verduras e toda a fartura dos campos. Era uma associação óbvia entre os rituais sexuais de fertilidade e as colheitas que se originavam das plantações energizadas por tais rituais. O símbolo da cornucópia foi eternizado na Mitologia grega, através dos ritos Dionísios com sua forte presença no Olimpo, e mantém-se até os dias de hoje como símbolo de fartura.
No Egito, existiam primariamente três classes de sacerdotes iniciados: o Culto ao Templo Solar, cujo templo principal ficava em Hélios, baseado nos misterios de Osíris de sua morte e ressurreição, da conspiração de Seth, da vingança de Hórus e seu triunfo. Este culto lidava essencialmente com energias MASCULINAS em seus rituais, baseados na força e simbolismo do sol, movimentando os aspectos de Yang (positivos, fortes, racionais, diretos). Desta ordem surgiam os comandantes dos exércitos do Templo e, posteriormente, os Cavaleiros Templários e a Maçonaria, descendente direta dos templários. Esta é a razão pela qual apenas HOMENS são iniciados na maçonaria. Não se trata de um “clube do bolinha” ou de nenhum preconceito com as mulheres, como muitos detratores alegam, mas, essencialmente, os rituais maçônicos são de energia Yang e a presença de uma mulher no templo em uma loja solar apenas atrapalharia toda a egrégora.
Além desta Ordem, existia a Ordem dos Mistérios de Ísis, voltada apenas para MULHERES. Estas ordens lidam com a energia lunar, com o Yin, com a intuição, com a sedução, com as emoções sutis que pertencem ao campo do feminino. Da mesma forma, era proibida a presença de homens em uma loja de Ísis. Ísis recebeu vários nomes em seus cultos: Islene, Ceres, Rhea, Venus, Vesta, Cybele, Niobe, Melissa, Nehalennia no norte; Isi com os hindus, Puzza entre os chineses e Ceridwen entre os antigos bretões.
O terceiro tipo de Ordem eram as Ordens de Ísis e Osíris, ou as ordens mistas. Estas eram ordens espirituais, preocupadas com o estudo das ciências e dos fenômenos naturais. Pode-se dizer que foram as primeiras ordens de cientistas do planeta, estudando ao mesmo tempo fenômenos físicos, matemáticos e espirituais. Destas ordens, Grandes iniciados como o faraó Tuthmosis III, Nefertitti, Akhenaton (ou Amenhotep IV) e Moshed (ou Moisés para os íntimos) estabeleceram as bases de praticamente todas as escolas iniciáticas que surgiram, inclusive todos os ramos das Ordens Rosacruzes.
Cada templo era formado por até 13 membros (do sexo masculino/solar, feminino/lunar ou misto, com qualquer número de homens e mulheres, dependendo da ordem). Quando haviam mais iniciações, estas lojas eram divididas em mais grupos contendo 5, 7 ou 11 estudiosos. Era comum que membros da Ordem do Sol ou da Lua participassem nestas ordens mistas, assim como até hoje é comum maçons ou wiccas participarem das ordens rosacrucianas.Treze pessoas em um grupo era considerado o ideal, pois constituía um CÍRCULO COMPLETO, cada um dos iniciados representando um dos signos do zodíaco, ao redor do Grande Sacerdote. Como veremos mais para a frente, isto será válido em outras culturas como a celta, romana, bretã e até africana.
Um quarto grupo era formado por sacerdotes especialmente escolhidos do Templo do Sol e do Templo da Lua, para as festividades das Cheias do Nilo, Morte e Ressurreição de Osíris, Início do ano e várias outras celebrações importantes. Estas celebrações eram Hieros Gamos, onde um sumo-sacerdote coordenava (mas não participava!) do sexo ritualístico entre 6 casais (totalizando 13 pessoas). Estes casais eram geralmente (mas não obrigatoriamente) casados e assumiam suas posições no círculo formando o hexagrama, com o sacerdote ao centro. Estes rituais poderiam ser realizados em um Templo ou em alguns casos, dentro de pirâmides, que estavam ajustadas para as freqüências que eles desejavam ampliar para o restante da população (ou do planeta). Mais tarde, o mesmo princípio será usado nos festivais celtas, mas já chegaremos lá.

Em grandes festividades, outros iniciados participavam (fora do círculo principal, que era formado pelos casais mais poderosos), formando um segundo círculo externo ou grupos, dependendo do número de pessoas. Estas sacerdotisas assumiam a representação da deusa Meret, a deusa das danças e das festividades, e os sacerdotes assumiam a representação de Hapi, deus da fecundidade e das cheias do Nilo.É importante ressaltar que nestes rituais cada sacerdote transava apenas com a sua parceira.
Era comum o uso de máscaras (com cabeças de animais representando os aspectos relacionados ao ritual/deus que estava sendo realizado), o que mais tarde dará origem ao Baile de Máscaras (que secretamente abrigavam Hieros Gamos) e posteriormente ainda os Bailes de Carnaval. Após as festividades, havia dança, celebrações e sexo não-ritualístico/hedonista.
Estas sacerdotisas eram chamadas de Meretrizes, nome que mais tarde foi deturpado pela Igreja Católica.
Do lado complementar das Meretrizes estavam as Virgens Vestais, que eram virgens que trabalhavam um tipo diferente de energia e eram consideradas as Protetoras do Fogo Sagrado. Elas existem desde o Egito mas ficaram mesmo conhecidas no período grego e romano.

Paralelamente aos ritos egípcios, existiam rituais sexuais ligeiramente diferentes na Índia, mas baseados nos mesmos princípios de união dos chakras para despertar a kundalini.
Grécia e Roma

O culto a Ísis e Osíris migrou do Antigo Egito para a Grécia, onde Toth tornou-se Hermes e os misterios de Osíris tornaram-se o culto a Dionísio (Dyonisus).Antes de mais nada, quem era Dionísio? Nascido de Zeus e Perséfone, Dionísio atraiu a fúria de Hera, que enviou os titãs para mata-lo. Zeus o protegeu enviando raios e trovões para despedaçar os titãs, mas quando conseguiu derrota-los, sobrou apenas o coração de Dionísio. Zeus colocou seu coração no ventre de Semele, uma de suas sacerdotisas, que se tornou sua segunda mãe… portanto Dionísio era conhecido como o “nascido duas vezes”. Curioso não?
Novamente temos o culto a morte e ressurreição de Osíris na iniciação e os rituais que demonstravam claramente a vida após a morte. Interessante notar que Semele era uma sacerdotisa do culto a Zeus, e portanto uma virgem vestal. Vocês perceberão que ao longo da história, muitos iniciados nasceram de “virgens” (cujo termo possuía o significado real de “espiritualmente pura”). A título de curiosidade, Hórus, Rá, Zoroastro, Krishna, Platão, Apolônio, Pitágoras, Esculápio e aquele outro cara famoso na Bíblia também nasceram de “virgens”.
Os cultos de Dionísio também eram conhecidos pelo nome de culto ao Deus Baco (Bacchus) e suas sacerdotisas iniciadas nos cultos lunares eram conhecidas como Menades ou Bacantes. O poeta Homero escreveu que elas “iam para as montanhas e realizavam estranhos rituais”. O culto começou na Grécia mas sua popularidade cresceu a ponto de se tornar conhecida em Roma a partir de 200 AC.

Registros famosos destes rituais de Bacchanalia foram escritos por uma sacerdotisa e poetisa chamada Sappho, cujo templo de Mytilene ficava na Ilha de Lesbos, por volta de 600 AC. Estes textos retrataram alguns dos rituais envolvendo sexo mágico entre as iniciadas e uma série de poemas narrando o amor entre mulheres. Da perseguição religiosa, surgiram as palavras Safada (no sentido depreciativo para a mulher) e Lésbica.
Os cultos solares eram mais populares em cidades como Esparta, cujos exércitos voltados para o aperfeiçoamento do corpo e da mente usavam os treinamentos físicos desenvolvidos pelos Guardiões do Templo, incluindo muitos ritos de iniciação.
Nos cultos de Dionísio, o Hieros Gamos também assumia a forma de relações sexuais entre os deuses, para a realização de diversas comemorações ou rituais. Vamos ao chamado “panteão Olímpico”: Zeus, Hera, Poseidon, Afrodite, Ares, Atenas, Hermes, Hefesto, Apolo, Ártemis, Demeter e Hestia. Exatamente 6 homens e 6 mulheres. Completando com Dionísio como sumo-sacerdote, estava preparado o Círculo Completo para o Hieros Gamos. Também relacionando com as Linhas de Ley, o Monte Olimpo fica “coincidentemente” em um destes cruzamentos energéticos do planeta.
As reuniões destes grupos recebiam o nome de Orgion (palavra em grego que significa “ritual secreto”) e eram presididas pelo Orgiophanta. Da latinização surgiu a palavra Orgia, e nem preciso dizer o que aconteceu com o significado desta palavra.
Em 180 AC, o senado editou o “Senatus consultum de Bacchanalibus” estabelecendo regras claras para a realização destas festividades e ritos. Desnecessário dizer que os cultos secretos continuaram, apenas caíram na clandestinidade dentro das Ordens Secretas. Os Hieros Gamos continuaram ocorrendo, com a latinização dos deuses envolvidos.As principais festas aconteciam nos Solstícios e Equinócios, especialmente o Sol Invictus.
O culto Solar ganhou muita força em Roma, através do culto a Mithra, o Deus-Sol, El Gabal, Sol Invictus (e, como devoto deste deus, farei uma coluna dedicada a ele em breve). O exército romano usava todos os símbolos do Templo Solar, inclusive a famosa “saudação a Mithra”, que mais tarde foi usada pelos exércitos de Hitler, um dos maiores ocultistas do século XX, como a saudação tradicional nazista, e também usada por Francis Bellamy para a saudação à bandeira americana (que foi substituída em 1942).
As Vestais

Além dos cultos solar e lunar, existiam também as Vestais (sacerdos vestalis) que eram as sacerdotisas da deusa Vesta e encarregadas de manter aceso o Fogo Sagrado de Vesta. Este fogo era o santuário mais importante de cada cidade romana e deixar uma chama destas apagar era passível de pena de morte. Caso uma chama se apagasse, os sacerdotes precisavam acender uma tocha em um templo vestal em uma cidade próxima e trazer este fogo sagrado até o altar.
Se você pensou em “tocha olímpica”, acertou… é a origem da tocha. Agora algo que você não sabia: A origem sagrada deste fogo remonta ao fogo que Prometeu roubou dos deuses e que lhe custou o castigo eterno.
Outra das coisas que provavelmente você não saiba é que Prometeu é citado pelo poeta Ascilus e Hesíodo como “o Portador da Luz”, cujo nome em grego é Phosporos. Talvez você não reconheça o nome dele em grego, mas em latim eu tenho certeza que você conhece: “Lúcifer – A Estrela da Manhã, o Portador da Luz”.
As Vestais tinham de ser virgens, pois a energia e os chakras delas vibram e podem ser trabalhados de maneira diferente. Os ocultistas chamam isto de Chastitas, de onde vem a palavra castidade. Na rosacruz chamam estas meninas de columbas e elas são responsáveis por algumas das partes mais bonitas da ritualística.

A Chastitas não precisa envolver a falta de amor. Aliás ele desenvolve nas sacerdotisas/sacerdotes que escolhem este caminho a virtude do Ágape, ou amor pela humanidade. O iniciado Platão foi um dos que mais estudou este tipo de ritualística, de onde se originou o termo “amor platônico”.
Sócrates estudou este processo e desenvolveu o chamado Chastitas Pederastia, que é uma relação de amor casto entre um jovem e um adulto do mesmo sexo (normalmente um guerreiro mais velho e o aprendiz de soldado, especialmente nos exércitos gregos). Mas este “amor” a que ele estava se referindo não era o amor homoerótico (que incluía sexo), mas sim o amor fraternal de um Mestre de Guilda para com o Aprendiz.
A Igreja deturpou a palavra “pederasta” como sinônimo pejorativo para homossexual. Disto seguem aquelas lendas absurdas que os soldados gregos eram gays. Também foi uma das acusações mentirosas que a Inquisição usou contra os Templários, já que esta tradição da pederastia se estendeu para o conceito de Cavaleiro/escudeiro ou Mestre/aprendiz.
A Castidade funciona através de uma alquimia diferente, transformando o que seria o desejo carnal e sexual em uma energia espiritual através do desenvolvimento dos chakras superiores e do controle dos chakras inferiores.

Por: Marcelo del Debbio

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Ancestralidade, linhagem e herança

Este é um assunto polêmico entre pagãos, bruxos e wiccanos, eu espero que meu texto seja lido com reservas, visto que existem muitas críticas. Mas como diz o velho ditado: quem desdenha, quer comprar.
Antes de mais nada, eu parto da premissa simples que Bruxaria é uma coisa e Wica é outra, muito embora seja 'herdeira' das práticas da Bruxaria Britânica, que é por sua vez uma das muitas formas de Bruxaria da Europa, que é por sua vez uma das muitas formas de Bruxaria da História.
Eu desconfio de qualquer sacerdote wiccano que afirma não haver linhagem e ancestralidade na Wica e ainda assim se identificar como sacerdote de uma Tradição da Wicca. Eu desconfio ainda mais quando a tradição que este diz representar afirma que rompeu com a tradição-mãe, defende a auto-iniciação, defende a adoção de outros panteões e defende o ecletismo.
Eu vou frisar o óbvio: para que haja uma tradição é necessário que tenha um grupo, que tenha seguido uma sequência de ritos e preceitos, que são transmitidos aos seus alunos. Essa sequência que é transmitida tem uma origem que remonta a muitas épocas, povos e culturas, por isso que é um absurdo antropológico e histórico afirmar que existiu uma forma pura de Religião da Deusa no neolítico.
A Bruxaria Moderna, tal como nós conhecemos, começou a se tornar possível graças ao trabalho de bruxos como Gerald Gardner. Ainda que ele não tenha sido o único ou o mais original, a religião Wica começou a tomar forma a partir dele, que amalgamou seu conhecimento com aquilo que ele aprendeu no Coven de Bruxas de New Forest.
Por muitos anos, grupos que surgiram posteriormente se apropriaram do nome Wicca devido à visão estereotipada da Bruxaria. Curiosamente, muitos desses grupos deixaram atualmente de usar o nome Wicca para se designarem como Bruxaria Moderna, talvez porque queriam ter mais liberdade, talvez porque queriam se desvincular da Wica.
O fato é que existem muitas formas de bruxaria além da européia. Em muitos países a prática ainda é proibida e punida por lei, porque a bruxaria sempre rompe com os padrões sociais impostos pelas elites. Ou seja, eu reitero minha opinião que deveria ser restrito a maiores de 21 anos os livros sobre bruxaria, porque essa prática não é coisa de criança nem é passatempo para adolescente.
O sentido de hereditariedade na bruxaria não deve ser apenas entendido como laços sanguíneos familiares, poucos e raros são os bruxos que efetivamente descendem de uma família de bruxas. Na própria prática de bruxaria existe o 'herdeiro' que recebeu o conhecimento ancestral de uma bruxa (que está morrendo) depois da transmissão do poder e existe o 'herdeiro' que foi treinado pela bruxa. A prática da bruxaria sempre terá algum antecessor, ainda que o conhecimento da prática tenha vindo por meio de livros.

A preocupação em traçar uma linhagem sanguínea ininterrupta é uma opção individual, coletivamente a preocupação de quem pratica a Bruxaria (Tradicional ou Moderna) e a Wica está mais na linhagem sacerdotal, na herança cultural e na herança genética que recebemos.
Quando Gerald Gardner conheceu o Coven de New Forest, a prática estava fragmentada, mas ele recebeu uma iniciação formal nesse Coven. Havia, então, uma linhagem e ancestralidade, senão não haveria o que transmitir, nem a Tradição Gardneriana seria tão bem sucedida. Apenas quem esteve lá, quem recebeu a iniciação, fez os votos ou conheceu a Gardner e seus iniciadores pode questionar alguns fatores, mas não a tradição em si mesma.
O que incomoda, como sempre às pessoas vaidosas e com sede de poder, é que para ser um wiccano é necessário receber uma iniciação formal, porque foi assim que a Bruxaria Moderna recebida por Gardner, a Wica, foi transmitida e 'herdada'. Essa não é a única forma de praticar a Bruxaria Moderna e certamente não é a única forma de Paganismo, mas criticar a tradição da Wica é coisa de quem não tem respeito pela religião.