sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Os dez sóis

Comprando um produto para minha esposa, o vendedor, de Hong Kong, avisou que o envio poderia atrasar devido ao festival de meio de outono.
O festival do meio de outono pode ser considerado uma festa pagã por seus elementos e este festival foi divulgado neste blog. O que eu gostaria de publicar é a lenda de Hou Yi, que faz parte dos festejos.
Conforme conta a lenda, durante o reinado do imperador Yao, dez Sois apareceram no céu ao mesmo tempo originando gravíssimas secas.
Que teria acontecido? Xibe, a Mãe-Sol, tinha dado à luz dez filhos. Moravam todos juntos no lago oriental Tanggu, para além dos confins do mar, e como não houvesse dia em que não nadassem e brincassem nas águas do lago, estas estavam sempre escaldantes durante todo o ano. No centro do lago crescia uma - enorme arvore chamada Fusang, com mais de mil metros de altura e mil braçadas de circunferência e com dez ramos, aonde os dez Sois iam sempre descansar.
Mas os Sois não passavam o tempo divertindo-se em vão, pois, por ordem do Imperador Celestial, todos os dias um deles tinha de trabalhar, a fim de iluminar o mundo dos humanos. Ao que estava de guarda, competia-lhe levantar-se a oriente de madrugada, atravessar o largo céu e pôr-se a ocidente no crepúsculo, emitindo durante a sua paisagem luz e valor ao mundo. Os dez irmãos revezavam-se constantemente nessa missão a cada dez dias. O mundo de então era maravilhoso! Tinha imponentes montanhas, impetuosos rios, densas florestas, viçosas e coloridas vegetação e flores, e terras férteis arroteadas a custo de suor... Em resumo, para os dez jovens Sóis a terra era bem mais divertida do que o lago oriental Tanggu.
Todavia, os Sois tinham poucos ensejos para apreciarem juntos a esplendorosa paisagem terrestre, pois, por ordem do Imperador Celestial, cada qual podia somente descer a terra uma vez em cada dez dias.
Os Sois eram muito travessos e um dia conversavam uns com os outros quando se puseram a lastimar.
- Este lago aborrece-me muito. Estou farto de ficar aqui nove em cada dez dias. Já não posso aguentar mais! - queixou-se um dos Sois.
- É verdade! Estamos presos a este lugar desinteressante. O Imperador Celestial controla-nos tão à risca que não chegamos a ter nenhuma liberdade - acrescentou um outro.
- Eu, por mim, penso que o regulamento é justo porque o mundo humano não poderia suportar o valor se todos ai fossemos juntos - retorquiu um deles.
Ouvindo esta opinião, o Sol que tinha falado primeiro ficou muito zangado:
Justo?! Justo?! Acho que não é nada justo! deveríamos era poder divertirmo-nos a nosso bel-prazer, pois de outro modo, contidos entre estas quatro paredes, todos os dias, a vida realmente perde o sentido. A meu ver, a partir de amanha, deveríamos ir todos juntos aonde bem quiséssemos.
- Sim, tem razão. Vamos! - ecoaram em uníssono as vozes dos outros.
Assim, no dia seguinte, e a despeito das proibições do Imperador Celestial, os dez Sois deixaram o lago Tanggu e foram despreocupadamente brincar nos céus sobre o mundo humano.
Quando um Sol aparecia no céu a terra era iluminada e aquecida de modo normal, mas com dez Sois surgindo ao mesmo tempo a situação tornava-se totalmente diferente. Em breve o mundo apresentou um aspecto desolador, pois a partir de múltiplos e diferentes ângulos os Sóis derramaram a sua luz sobre a terra iluminando-a completamente e deixando-a sem nenhuma sombra. Devido a forte incidência dos raios solares a temperatura subiu vertiginosamente, os rios secaram, a vegetação e flores murcharam, e as plantações ressecaram. Devido ao extremo calor, os seres humanos respiravam ofegantes, acabando por ter de irem se esconder em grutas.
Completamente alheios a extensão da calamidade que desencadeavam na superfície do planeta, os Sois vadiavam, brincavam e até se contentavam com as suas travessuras.
O imperador Yao, que reinava então na China, era um homem de hábitos extremamente frugais. Habitava em uma cabana, comia arroz não-refinado e bebia sopa com ervas silvestres. Tomando a peito os sofrimentos do seu povo, decidiu ir suplicar aos Sois que se afastassem imediatamente do mundo humano, caso contrário, a população não poderia sobreviver, mas não querendo saber do que ouviam, os Sois continuaram a brincar sem terem a mínima intenção de voltarem para o lago de Tanggu.
O imperador terrestre não teve então outro remédio, senão recorrer ao Imperador Celestial, o qual, ficando furioso ao saber que os Sois tinham transgredido as suas instruções provocando enormes calamidades no mundo, mandou chamar imediatamente o guerreiro Hou Yi, e disse-lhe:
- Os filhos da mãe Xihe violaram a minha ordem. Eles agem como irresponsáveis, perturbando a vida normal dos habitantes do mundo. Quero que os castigues com este arco vermelho e estas dez flechas brancas que te dou.
Assim, armado com o arco e as flechas e por encargo do Imperador Celestial, Hou Yi desceu ao mundo humano.
Ao chegar à terra, Hou Yi ficou perplexo com os males que o povo passava sob o brilho dos dez Sois e, levantando os olhos, furioso, tirou o arco que levava ao ombro e preparou uma flecha que, enérgica e certeiramente disparou contra eles. A flecha atravessou rapidamente os ares atingindo um dos Sois em cheio. Ouviu-se então um estrondo celeste, e o Sol, atingido pela flecha transformou-se em uma bola em chamas despedaçando-se no solo. Espantados, os outros nove tentaram fugir o mais depressa que puderam, mas Hou Yi, com tiros rápidos e certeiros atingiu um após outro. Quando o guerreiro tirou a sua ultima seta, o imperador Yao deteve-o e disse-lhe:
- Pare! Não dispare mais! A luz solar é muito proveitosa ao mundo humano. O problema que existia é que dez Sois era demasiado para as necessidades de sobrevivência humana, mas agora, como só resta um, o melhor é não disparar mais.
Acenando positivamente com a cabeça, Hou Yi guardou então a sua arma. O ultimo Sol estava pálido de medo!
Com a morte dos nove Sois, a temperatura normal reestabeleceu-se sobre o mundo humano, gradualmente a população saiu das grutas e recomeçou a cultivar os terrenos, a caçar e a reconstruir casas, levando alegremente a sua vida pacifica de outrora.
Apos ter liquidado os nove Sois, o herói Hou Yi preparava-se para voltar as alturas, quando os habitantes da terra lhe pediram insistentemente e muito reconhecidos, que passasse uns dias de folga juntamente com eles e que, como na terra ainda existiam muitas outras calamidades, se fosse possível, o herói os ajudasse a eliminá-las.
Hou Yi decidiu satisfazer-lhes o desejo.
Com a destruição dos noves Sois, e depois de o planeta ter-se completamente recomposto da grande secura, Hebe, o demônio das aguas, começou a intensificar as suas perniciosas atividades. Assumindo a forma de um dragão branco, cavalgando sobre uma torrente de agua, o demônio viajava constantemente por toda a parte provocando enormes inundações, nas regiões por onde passava, a força da corrente arrastava homens e gado, destruindo casas e desenraizando plantações e árvores. Quando a noticia chegou aos ouvidos do imperador Yao, este ficou muito inquieto e foi imediatamente pedir ajuda ao herói Hou Yi, que generosamente lhe prometeu fazer o melhor que pudesse.
Assim, Hou Yi resolveu ir para a margem de um no e esconder-se atrás de um grande salgueiro, ficando a espera do aparecimento de Hebe, o demônio das aguas. Não tardou muito para que visse nadando em sua direção um dragão branco, acompanhado por altas vagas e desencadeando uma enchente que transbordava das margens do rio. Foi então que Hou Yi disparou a ultima flecha que lhe restava e atingiu o olho esquerdo do dragão branco. Ouviu-se um grito estridente e o animal mergulhou nas profundezas.
Ferido, o demônio das aguas foi queixar-se ao Imperador Celestial:
- Eu vivo no rio e nunca fiz nenhum mal a Hou Yi, no entanto, ele feriu-me no olho. Peso-lhe que justiça seja feita e que se vingue deste crime por mim, caso contrario, de que servem os princípios e a lei?
Mas o Imperador Celestial, estando a par do que se passava, criticou-o severamente:
- Sendo um demônio das águas, podias servir o povo, em vez de vacilares por toda parte e molesta-lo com tempestades e cheias! O teu procedimento mereceu bem o castigo que Hou Yi te aplicou!
Não tendo razão para se justificar, Hebe, o demônio das aguas, partiu sem dizer mais nada para o fundo do rio onde habitava, sem mais coragem para criar futuras desordens no mundo humano. Rodeado de afeição e respeito, Hou Yi continuou vivendo feliz na terra, sempre correndo riscos a bem da humanidade e perseguindo animais ferozes nas florestas e montanhas. Nesse tempo, o mundo era infestado por vorazes feras selvagens que deambulavam e dizimavam os homens - isto, porque a humanidade estava mal equipada para as poder enfrentar. Hou Yi não parava de correr, transportando o seu arco e flechas às costas, exterminando animais selvagens e aves ferozes.
Na planície central da China, Yayu era uma fera muito conhecida por sua bestialidade. Segundo se dizia, tinha o corpanzil de um boi coberto de longos pelos vermelhos, uma cara humana, patas de cavalo e o seu rugido, dir-se-ia, o choro de uma criança: melancólico e chocante. Tinha uma enorme força, galopava mais velozmente que todos os outros animais e ninguém escapava às suas vorazes mandíbulas. Por vezes, pela calada da noite, a fera irrompia no seio das tribos destruindo as casas e devorando as pessoas. Eram incontáveis as pessoas que ela tinha comido!
Tomando em conta os interesses do povo, Hou Yi tomou a seu cargo destruir a fera Yayu.
Assim, um dia, e de acordo com as informações dadas pelos caçadores, o herói foi procurar a fera em uma alta montanha. Chegando a um vale das redondezas deparou-se, repentinamente, com um monte de ossos humanos. Levantou então a cabeça e avistou ao longe a fera devorando uns homens no cimo de um penhasco. Furioso com o que via, o herói disparou uma flecha contra a fera acertando em cheio na cabeça do animal fazendo-o rolar pela montanha abaixo soltando roucos gemidos. A partir dessa altura, os habitantes dessa região puderam viver descansados!
Em uma fértil planície do sul da China, habitava um animal monstruoso com dentes de três metros de comprimento e pontiagudos como formões. Os homens deram-lhe a alcunha de "dentes-formão". Quando as pessoas atravessavam os rios ou lagos onde ele habitava, por vezes o animal lançava-se de súbito sobre elas, levando-as para o fundo das aguas, onde as mastigava e depois as engolia. Dir-se-ia ser quase impossível vencê-lo, porque para além dos seus enormes dentes aguçados, tinha um corpo revestido de uma pele tão dura e tão espessa como uma carapaça indestrutível contra todas e quaisquer facadas ou machadadas. Felizmente Hou Yi era um exímio arqueiro porque um dia o "dentes-formao" lançou-se contra ele abrindo a sua enorme bocarra para o devorar e, se não fosse o herói ter acertado a garganta do animal em cheio com uma flecha, de terra terminado ali os seus dias.
Segundo conta a lenda, no sul da China corria um rio chamado Xiongshui onde habitava um temível monstro aquático chamado Jiuying que matava todos os incautos que se aproximavam das suas margens. O animal tinha nove cabeças e cuspia constantemente fogo e agua, sendo tão feroz que ninguém se atrevia a querer derrota-lo. Se por acaso alguém o ferisse ou lhe tentasse cortar uma das suas cabeças, o monstro não morria, mas, pelo contrario, lançava-se com uma fúria redobrada sobre o seu inimigo. No entanto, Hou Yi, ao encontra-lo disparou nove flechas tão rápidas e certeiras que o atingiram nas nove cabeças, vindo o animal a morrer sem mesmo ter tempo para reagir.
Pouco tempo após a morte do monstro Jiuying, nas margens do lago Dongting, não muito longe do rio Xingshui, surgiu uma jiboia gigante, de um enorme comprimento e grossura, e com uma boca tão grande que era capaz de engolir um elefante por inteiro, só vomitando os ossos do paquiderme depois de o ter digerido durante três anos. Segundo se dizia, estes ossos regurgitados eram os melhores e mais eficazes medicamentos para curar todas as doenças dos órgãos internos. Era realmente um ser terrível que despovoava todos os locais por onde passava, pois deglutia todos quantos conseguisse alcançar. Foi só apos uma renhida luta que Hou Yi a conseguiu matar, sendo que os ossos da jiboia gigante transformaram-se em uma montanha que veio a se chamar de Baling.
Depois de ter morto todas as feras do sul da China, Hou Yi voltou para o norte pela região leste. Estava ele atravessando a montanha Verde quando os seus habitantes lhe disseram que a região estava infestada por uma ave de rapina chamada Dafeng, a qual agredia as pessoas e perturbava a vida normal da população. Esta ave tinha um grande porte e quando em voo a amplitude das asas chegava a cobrir metade do céu. O bater das suas asas desencadeava fortes tufões que chegavam a desenraizar milhares de arvores e a destruir centenas de casas; homens e gado eram frequentemente vitimas da sua voracidade. Hou Yi compreendeu que a ave tinha um enorme poder e podia voar para muito longe com grande velocidade e que, com uma só seta, não seria possível mata-la, pois se ela fugisse ferida seria quase impossível liquidá-la mais tarde. Consciente de que tinha de acabar com a ave de uma só vez, depois de muito pensar, Hou Yi encontrou um meio: primeiro, amarrou uma corda a haste da seta; depois, disparou uma flecha atingindo a ave em cheio e prendendo-a de modo a não a deixar fugir; e finalmente, obrigando-a a pousar, decepou-a com a sua espada. O exemplo de Hou Yi passou a ser seguido por todos quantos tencionavam apanhar animais selvagens e aves possantes.
Mais tarde, Hou Yi foi para a aldeia de Sangcun, onde matou o colossal javali Fengxi e o lobisomem Fenghu que se podia metamorfosear de felino para humano.
Assim, gradualmente, o herói Hou Yi, após a sua inicial chegada e estabelecimento no mundo humano, veio a ganhar méritos sem par por parte de todos os povos. Certamente que sob o excesso do calor dos dez Sois escaldantes, as pedras já se teriam fundido em uma massa uniforme e todas as outras coisas a superfície da terra estariam derretidas, todo o planeta provavelmente estaria reduzido a cinzas, se não fosse Hou Yi ter infalivelmente atingido os noves Sois que agiam tão arbitraria e descuidadamente no céu. E que grandes ameaças seriam para a vida humana, se todos aqueles animais e aves malévolas não fossem mortos pelo herói?!... Por isso, de geração em geração, os povos continuam a recordar-se e a venerar o herói Hou Yi sempre com o maior respeito e grande admiração.
Fonte: FERREIRA FH., O.A. Hou Yi, o arqueiro que derrotou nove sóis. Portal Templodeapolo.net, Porto Alegre-RS. Disponível em: Templo de Apolo.

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