terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sete dias de dor

Eu morri. Pela terceira vez.
A primeira foi afogado em uma piscina.
A segunda foi quando eu fiz endoscopia.
A terceira foi quando eu fiz a cirurgia de osteotomia maxilar.
Na primeira vez a gente fica impressionado, não há quem não pense em como é morrer, mesmo os descrentes pensam nisso.
Os ateus tem uma vantagem prática, eles simplesmente aceitam o fato, sem especular com o além.
Como bom pagão a minha concepção é bem naturalista e como eu não deixo minha concepção interferir em outros aspectos da minha vida ou da de utrem, então não há mal algum em ter tal espectativa.
O que eu posso falar das três experiências de morte que tive é que eu acordei, como todos acordam no dia seguinte, mas sem sonhos, sem lembranças ou sensações do período em que eu estava "morto".
Existem Deuses e Deusas da morte, existem Paraísos pagãos e nós temos a certeza, não a crença, de que nossa existência há de continuar.
Para mim fica bem claro que a morte é um estado, uma circunstância, não uma realidade permanente ou uma entidade a ser temida.
Todos os dias nós comemos. Sejam coisas que foram plantadas, cujas sementes precisaram morrer para que viessem os frutos, sejam animais que foram criados, cujo sacrifício é necessário para suprir nossas necessidades alimentares. Tem gente que tem horror e prurido quanto a isso, mas tudo que vive mantém sua existência pela morte de outros seres.
Ateus céticos e agnósticos discordam. Recentemente eu li um texto afirmando que nós somos como computadores, rodando um programa e que a alma é uma ilusão produzida por este programa. Uma analogia extremamente pobre e longe da realidade.
O ser humano tem senciência, consciência e percepção de sua existência, sendo capaz de definir e transmitir culturalmente tais conceitos, algo que um computador (e o animal) não é capaz.
O ser humano é capaz de se modificar, se alterar, se melhorar, ampliando, inovando e revolucionando as idéias, concepções, ações, decisões, interpretações e habilidades, algo que o computador não é capaz.
Cada ser humano é único em sua personalidade, identidade, características e talentos. Um computador, por mais veloz e mais dados que carregue, será sempre igual a todos os demais e somente executará os programas e o sistema operacional que estão gravados em sua HD.
Mas aproveitando a analogia homem=computador, então nossa existência não é produto do acaso, mas sim o resultado "tecnológico" de diversos inventores. Nós temos um usuário ou propietário que cuida de nós, nos dirige e nos faz "back-up"; assim como o computador, o ser humano está interligado em uma enorme "rede". Em suma, mesmo depois que o "homem-computador" queimar/morrer, nosso "sistema operacional" e "back-up" estará preservado em algum dispositivo físico (CD, pendrive) ou virtual (servidor, rede). Ou seja, aquilo que morre é o corpo. Nossa identidade/personalidade/alma continuará a existir, bastando ser "baixada" ou "instalada" em outro "homem-computador" para voltar a funcionar.
Para mim está bem claro que, se há vida no além, continua sendo vida e a morte é simplesmente um estado, circunstância, restrita a um corpo/objeto. Nós continuamos a existir, do mesmo modo que acordamos no dia seguinte, do mesmo modo que recobramos a consciência depois de uma anestesia geral. Ainda que mude o ambiente, o local, o "hardware" e a nossa função, continuaremos sendo nós mesmos.

Um comentário:

Nion disse...

Como fosse bom se em algum lugar houvesse um backup e eu pudesse fazer uma restauração de sistema nos primeiros erros. Faria diferente certamente. Como creio em reencarnação talvez ela seja esta restauração de sistema, onde voltamos a um ponto anterior e podemos fazer novamente, mas já não seremos mais os mesmos ou cometeríamos os mesmo erros. Reflexões interessantes estas.