sábado, 16 de abril de 2011

Religioso vs Irreligioso

(...) o homem religioso assume um modo de existência específica no mundo, e, apesar do grande número de formas histórico-religiosas, este modo específico é sempre reconhecível. Seja qual for o contexto histórico em que se encontra, o homo religiosus acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando-o real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana actualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade. Os Deuses criaram o homem e o Mundo, os Heróis civilizadores acabaram a Criação, e a história de todas as obras divinas e semi-divinas está conservada nos mitos.
Reactualizando a história sagrada, imitando o comportamento divino, o homem instala-se e mantém-se junto dos Deuses, quer dizer, no real e no significativo.
É fácil ver tudo o que separa este modo de ser no mundo da existência de um homem a-religioso. Há antes de tudo o facto de que o homem a-religioso nega a transcendência, aceita a relatividade da "realidade", e chega até a duvidar do sentido da existência. As outras grandes culturas do passado também conheceram homens a-religiosos, e não é impossível que esses homens tenham existido até mesmo em níveis arcaicos de cultura, embora os documentos não os registem ainda. Mas foi só nas sociedades europeias modernas que o homem a-religioso se desenvolveu plenamente.  (...) O homem faz-se a si próprio, e só consegue fazer-se completamente na medida em que se dessacraliza e dessacraliza o mundo. O sagrado é o obstáculo por excelência à sua liberdade. O homem só se tornará ele próprio quando estiver radicalmente desmistificado. Só será verdadeiramente livre quando tiver matado o último Deus.
(...)
Mas o homem a-religioso descende do homo religiosus e, queira ou não, é também obra deste, constituiu-se a partir das situações assumidas por seus antepassados. Em suma, é o resultado de um processo de dessacralização. Assim como a "Natureza" é o produto de uma secularização progressiva do Cosmos obra de Deus, também o homem profano é o resultado de uma dessacralização da existência humana. Isto significa que o homem a-religioso se constitui por oposição ao seu predecessor, esforçando-se por se "esvaziar" de toda a religiosidade e de todo significado trans-humano. Reconhece-se a si próprio na medida em que se "liberta" e se "purifica" das "superstições" de seus antepassados. Por outras palavras, o homem profano, queira ou não, conserva ainda os vestígios do comportamento do homem religioso, mas esvaziado dos significados religiosos. Faça o que fizer, é um herdeiro. Não pode abolir definitivamente o seu passado, porque ele próprio é produto desse passado: é constituído por uma série de negações e recusas, mas continua ainda a ser assediado pelas realidades que recusou e negou. Para obter um mundo próprio, dessacralizou o mundo em que viviam os seus antepassados; mas, para chegar aí, foi obrigado a adoptar um comportamento oposto àquele que o precedia – e ele sente que este comportamento está sempre prestes a reactualizar-se, de uma forma ou outra, no mais profundo do seu ser.
Como já dissemos, o homem a-religioso EM estado puro é um fenómeno muito raro, mesmo na mais dessacralizada das sociedades modernas. A maioria dos "sem religião" ainda se comporta religiosamente, embora não esteja consciente desse facto. Não se trata somente da massa das "superstições" ou dos "tabus" do homem moderno, que têm todos uma estrutura e uma origem mágico-religiosas. O homem moderno que se sente e se pretende a-religioso carrega ainda toda uma mitologia camuflada e numerosos ritualismos degradados. Conforme mencionamos, os festejos que acompanham o Ano Novo ou a instalação numa casa nova apresentam, ainda que laicizada, a estrutura de um ritual de renovação. Constata-se o mesmo fenómeno por ocasião das festas e dos júbilos que acompanham um casamento ou o nascimento de uma criança, a obtenção de um novo emprego ou uma ascensão social etc..
Poder-se-ia escrever uma obra inteira sobre os mitos do homem moderno, sobre as mitologias camufladas nos espectáculos que ele prefere, nos livros que lê. O cinema, esta "fábrica de sonhos", retoma e utiliza inúmeros motivos míticos: a luta entre o Herói e o Monstro, os combates e as provas iniciáticas, as figuras e imagens exemplares Herói e o Monstro, os combates e as provas iniciáticas, as figuras e imagens exemplares (a "Donzela", o "Herói", a paisagem paradisíaca, o "Inferno" etc.). Até a leitura comporta uma função mitológica – não somente porque substitui a narração dos mitos nas sociedades arcaicas e a literatura oral, viva ainda nas comunidades rurais da Europa, mas sobretudo porque, graças à leitura, o homem moderno consegue obter uma "saída do Tempo" comparável à efectuada pelos mitos. Quer se "mate" o tempo com um romance policial, ou se penetre num universo temporal alheio representado por qualquer romance, a leitura projecta o homem moderno para fora de seu tempo pessoal e integra-o noutros ritmos, fazendo-o viver numa outra "história". (...)

In O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade.
Citado pelo Caturo, no Gladius.

A iniciação do Ser

Gradualmente a idéia da auto-iniciação está se espalhando na forma de uma iniciação a um culto, crença ou tradição. Em particular isto é comum nas formas da wicca e bruxaria eclética. Esta é uma idéia curiosa que ao mesmo tempo em que adentra no cerne, se lança para fora dele. Percebo a natureza da auto-iniciação como refletindo um indivíduo que sente um certo chamado e administra os ritos de sua indução sem um intermediário ou professor presente. É uma oferta de servitude e dedicação ao poder que se deseja evocar. Pelo lado bom denota uma escolha pessoal e uma afirmação de crença, aonde o espírito anfitrião é evocado para testemunhar o ato. É um sintoma da humanidade sentindo-se espiritualmente perdida e que procura se reconectar com o que percebe estar perdido. Eles querem se re-ligar, re-anelar sua crença, eles querem fazer sua religião. Muito frequentemente o que está acontecendo é verdadeiramente o que o termo auto-iniciação significa, que você se inicia (espiritualmente). É uma declaração à Criação de que você está se engajando em uma busca espiritual.
Isto é maravilhoso, mas torna-se problemático quando o mesmo auto-iniciado proclama ser iniciado em um culto, crença ou tradição existente, na qual ele não possui qualquer vínculo pelo sangue ou sopro. Nisto eles tentam se re-ligar a algo que está perdido ou algo que nunca esteve lá. Eles se auto-iniciam em uma fantasia de inclusão.
Esta idéia extendida de auto-iniciação - de que você enquanto um auto-dedicado pode escolher um culto ou tradição e dizer que você faz parte - é enganoso se não uma fanfarronice, especialmente quando a tradição em questão existe e você foi incapaz de se conectar a ela. De minha perspectiva, isto deveria te dizer algo, que sua dedicação não foi atraente aos seus pares. É o que acontece em muitos dos casos, onde pessoas simplesmente usurpam tradições e crenças e se auto-adotam em um caminho sem qualquer aprovação ou ligação com a tradição em questão.
Esta é uma possibilidade moderna e é uma das razões pela qual vejo a modernidade como um regresso e não como um progresso positivo. Então temos pessoas auto-iniciadas na Stregoneria ou bruxaria Basca. Estas pessoas comumentemente são atraídas à ilusão do nome ou da mitopoesia que eles puderem reter, mas para mim, que pus o pé na sujeira e bebi deste fogo é estranho ver esta possibilidade surgindo; de que uma pessoa com uma inclinação sentimental se imponha sobre meu sangue e família. É ainda pior quando vejo que nada dizem do meu sangue e da minha família, mas somente uma devoção deslocada e falha a qualquer que seja o espírito nos ditos panteões, demonstrando uma completa falta de entendimento, veneração e compreensão do mistério que fez sua teia sob a tradição em questão. Para mim é tão estranho quanto se eu decidisse adotar-me na família de Bragança ou Lionheart só porque eu senti uma afinidade com o brasão da família. Acho isso muito ridículo, porque uma tradição verdadeira age como uma rocha sólida para nossa crença. É a encruzilhada entre o próprio sangue e os que trazem a marca que media a tradição propriamente. Isto se manifesta em Magisters e Damas sólidos, que asseguram a passagem da tocha para que o trovão dos inomináveis possa te incendiar na totalidade de seu potencial. Tradição é a encruzilhada de intercessores humanos e mortais que grava a luz nas pedras
Creio que uma boa iniciação no caminho possa começar com uma dedicação solitária à natureza e um espírito escolhido. Mas isto é o começo de um caminhar, não uma aceitação comunitária que se toma em um sopro, vinho e sangue dado no momento da sua dedicação. A auto-iniciação fala do início de sua jornada espiritual. Isto é algo bom enquanto mantivermos a atenção em nós mesmos e não projetamos isto a uma fantasia de inclusão.
Acho que outro vírus moderno é aquele em que todos querem ser algo eminentes e dignos em nome da ambição. Todos querem ser sacerdotes e sacerdotisas de algo. Nisto a busca espiritual se torna um expositor de problemas pessoais. Ao almejar títulos e status, podemos esquecer de nossa essência e o grande trabalho que somos presenteados quando chega o trabalho sobre a essência. Ao fazer isto, podemos transmitir nossa prória disfunção a um grupo maior e nos inclinarmos aos problemas que demos a outros, como se eles não pertencessem ao fundador da crença disfuncional. Isto é importante, porque quando você assume o papel de sacerdote, sacerdotisa, mestre, guru, magister, sua qualidade neste serviço repousa em como você iniciou e resolveu os mistérios do ser.
Então, aqui apresento para a reflexão: quando você busca uma auto-iniciação, o que você busca? Quando você declara uma denominação ou um pedigree tradicional à sua iniciação, o que você está realmente afirmando? Quando você afirma que é sacerdote/sacerdotisa, quem é você realmente e por que você assumiu este ofício?
Por Nicholaj de Mattos Frisvold
Revisão por Qelimath
Nota da casa: A auto-iniciação é a única prática que elimina sua própria razão de ser.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rasgando os véus

Sarkozi, se me perdoam pelo péssimo trocadilho, está procurando sarna para se coçar.
Na França está proibido o uso do véu ou qualquer outra roupa que evite a identificação dos cidadãos. Ou melhor, a proibição visa as muçulmanas que, por hábito familiar ou preceito religioso, usam o véu. A lei, que está sendo considerado inconstitucional, debruça-se sobre a segurança do Estado, contra possíveis atos de terrorismo. Aqui no Brasil tivemos uma experiência ruim com leis feitas em nome da segurança do Estado. Especialistas acreditam que a lei será inócua. E muçulmanas estão protestando contra o governo francês, usando os véus em público depois da lei.
Neste blog eu comentei no texto "Roupa, sociedade e religião" e no texto "Escravidão espiritual" meu estranhamento. Sarkozi tentou ludibriar a opinião pública que este seria uma lei que iria "libertar" a mulher. Vindo de um governante patriarcal, só podia ter dado nisso. E a lei foi feita para aplacar o crescimento da direita e da xenofobia na França.
Para as muçulmanas que realmente acreditam que o véu a dignifica e que o Islamismo é uma religião "compreensiva" com as mulheres, eu recomendo a leitura do drama das mulheres curdas:
"Diyarbakir (Turquia), 14 abr (EFE).- Ferihan (nome fictício) foi obrigada a se casar quando ainda era menor de idade. Seu marido, um parente muito mais velho do que ela, a forçou durante anos a se prostituir e por isso a mulher decidiu fugir com o homem que amava.
 Infelizmente, o marido conseguiu encontrá-la e levou Ferihan de volta para casa, onde foi "julgada" por seus próprios familiares e condenada à morte por ter "manchado a honra da família".
 Ferihan teria sido assassinada - como muitas outras mulheres do conservador sudeste da Turquia, onde se concentra a população curda - caso seu irmão, contrário à decisão da família, não tivesse pedido ajuda ao colégio de advogados de Diyarbakir.
 Apesar de os nacionalistas curdos, que controlam a política do sudeste do país, trabalharem há anos para incorporar a mulher à administração, o domínio dos homens nas ruas e nos postos de trabalho das regiões curdas é bastante forte.
 Nas áreas rurais, os clãs ainda têm poder para decidir sobre a vida de seus membros, e o código de conduta tradicional, a "töre", está acima das normas ditadas pela laica República da Turquia. Nestes lugares, a honra é a lei suprema.
 "As mulheres não podem viver livremente, não podem se casar nem amar quem quiserem. Quando chegam os 14 ou 15 anos, o clã decide quem vai casar com a menina e recebe dinheiro ou animais da família do noivo", conta Gül Kiran, da Associação de Mulheres de Van (Vakad).
 "Segundo as normas tradicionais, a mulher não é mais do que uma propriedade do clã", explica.
 No ano passado, 72 mulheres morreram assassinadas nas regiões curdas (frente às 265 no resto do país) e outras 269 foram hospitalizadas vítimas de violência machista.
 Além disso, 113 mulheres foram obrigadas a se suicidar por suas famílias ou porque não conseguiram suportar as condições nas quais viviam.
 Türkan Turan, encarregada de assuntos da mulher na Prefeitura de Diyarbakir, afirma que desde a chegada ao poder do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP, moderado), em 2002, o número de mortes de mulheres aumentou, algo que atribui à visão "machista" do governo de Recep Tayyip Erdogan.
 Segundo dados dos serviços sociais de Diyarbakir, 13 assassinatos de mulheres curdas cometidos em 2010 foram executados em nome da honra.
 E essa honra pode ser manchada muito facilmente, de acordo com os costumes locais: basta que uma jovem fale com um menino; que uma mulher casada peça o divórcio ou até que seja estuprada.
 "Basta um simples rumor", explica Nilgün Yildirim, do Centro de Mulheres de Diyarbakir (Kamer).
 O marido pedirá à família dela que limpe sua honra e a assembleia familiar deverá decidir como castigar a mulher que "desonrou" o clã.
 "Se uma mulher à qual a sociedade considera merecedora de castigo não for punida, a vida para a família se torna impossível: os vizinhos não te cumprimentam e nas lojas não te vendem nada. Todo mundo tenta marginalizar a família que não lavou sua honra", relata Yildirim.
 Muitas vezes, são os homens da família que avisam as associações como a Kamer que um crime está a ponto de ser cometido.
 "São pessoas que se opõem ao assassinato, mas não têm poder para impedi-lo dentro da assembleia familiar", acrescenta o especialista.
 "Denunciar não é fácil para uma mulher, é preciso muita coragem. A pessoa se expõe a um grande risco. Apesar de tudo, nos últimos anos houve um grande aumento das denúncias", relata Demet Öztürk, do colégio de advogados de Diyarbakir.
 Para essa mudança, contribuem as campanhas de conscientização das associações de mulheres e a rede formada pelos serviços sociais das prefeituras e os advogados, que permite proteger as vítimas da violência ao levá-las para casas de amparo e oferecer assessoria jurídica.
 As associações também conseguiram com que o governo elevasse as penas de prisão para quem comete crimes machistas e desde 2005 é possível acusar todos os membros da família que participaram da decisão de matar uma mulher.
 "A Promotoria pode chamar um povoado inteiro para depor. E também são muito importantes os registros telefônicos, para saber quem e até que nível está envolvido", conta a advogada Gülay Alan.
 "De qualquer forma, apesar de a lei ser boa, a mentalidade impede que seja colocada em prática integralmente", lamenta-se Yildirim.
 "Nós crescemos aqui e sabemos como as coisas funcionam. Quando uma mulher ameaçada quer voltar para casa, procuramos uma pessoa dentro de sua família que queira protegê-la. Esta pessoa deve dar sua palavra que ninguém voltará a tocá-la e, além disso, procuramos alguém respeitado - um prefeito ou um imame - que garanta que a palavra dada vai ser respeitada", explica.
Felizmente, nas regiões curdas, a palavra de uma pessoa tem tanta importância quanto a honra."[G1]
Por fim, se o problema é a segurança do Estado, a França deveria proibir também que freiras usassem véus. Quem me garante que debaixo daquela batina uma freira não leva uma bomba? Aliás, por que não remover também os vestidos de todas as mulheres? Vamos todos andar pelados, assim o Estado pode descansar em paz, em segurança.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O fio da vida

Que mistério pode haver em algo tão comum e ordinário como o cabelo? Não obstante, o ocidente tremeu com o terro japonês, Ju-On [The Grudge, O Grito], onde o espírito/entidade manifestava-se por longo fios de cabelo negros. O folclore japonês tem diversas histórias onde espíritos e cabelos estão de alguma forma vinculados.
Na mitologia clássica, fios, linhas, cordas, pêlos e tecidos cumprem uma silenciosa tarefa simbólica.
O mito mais conhecido são as Parcas, ou Moiras.
"Em Roma, as Parcas (equivalentes às Moiras na mitologia grega) eram três deusas: Nona (Cloto), Décima (Láquesis) e Morta (Átropos).
Determinavam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Júpiter (Zeus) podia contestar suas decisões. Nona tecia o fio da vida, Décima cuidava de sua extensão e caminho, Morta cortava o fio. Eram também designadas fates, daí o termo fatalidade.
Interessante notar que em Roma se tinha a estrutura de calendário solar para os anos, e lunar para os atuais meses. A gravidez humana é de nove luas, não nove meses; portanto Nona tece o fio da vida no útero materno, até a nona lua; Décima representa o nascimento efetivo, o corte do cordão umbilical, o início da vida terrena, o individuo definido, a décima lua. Morta é a outra extremidade, o fim da vida terrena, que pode ocorrer a qualquer momento."[wikipédia]
Menos conhecido, eclipsado pelos personagens Teseu e Minotauro, tem o mito de Ariadne.
"Ariadne propôs ajudar Teseu, dizendo-lhe que, se a levasse do palácio com ele, ela lhe daria o segredo para sair do labirinto do qual ninguém escapava. Entregou a Teseu o famoso mithos, novelo antigo usado para preparar a lã, dizendo que o desenrolasse, conforme entrasse no labirinto.
[...]Ela é filha de Pasifae e, enquanto sua mãe gerou um monstro, representando um retorno ao primitivo, Ariadne fez exatamente o oposto, pois venceu o primitivo, ajudando Teseu a vencer o Minotauro.
[...]A simbologia do labirinto é fundamental, pois todos têm, em sua relação com o outro, o Minotauro pela frente e o labirinto a enfrentar, mas às vezes perde-se o fio da meada, ou seja, o fio da vida."[Mitologia Viva, Viktor Salis, pg. 109-112]
Ou seja, o sentido do mito de Ariadne é inverso ao do mito das Parcas, embora estejam correlacionados. Aqui, a linha, o fio, serve para conduzir Teseu ao auto-conhecimento, enfrentando o labirinto da alma que todo ser humano possui, tornando-se senhor de suas pulsões animais e então trazendo-o de volta como um iniciado. O fio de Ariadne ludibriou a Fatalidade que pesava sobre Teseu, pelo auto-conhecimento os homens podem ludibriar o Destino.
Assim nos cercamos ao mito/saga mais conhecida, A Odisséia, quando nos deparamos com Penélope, a esposa de Ulisses/Odisseu.
"Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, não se sabendo se estava vivo ou morto, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas ela, uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou, dizendo que o esperaria até a sua volta. No entanto, diante da a insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar a corte dos pretendentes à sua mão. Para adiar o máximo possível o novo casamento, estabeleceu a condição de que se casaria somente após terminar de tecer uma peça em seu tear.
Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite secretamente ela desmanchava."[wikipédia]
Em lendas associadas, Penélope tecia uma cena que revelava um mistério e um Deus ou Deusa vinha desfazer para ocultar o mistério. Ou então que suas bordaduras davam oráculos do que estava por vir e um nobre ou uma cortesã vinha desmanchar para escapar do vaticínio. Na maior parte das vezes, sem sucesso, pois com a volta de Ulisses/Odisseu a tecelagem foi terminada, tudo aconteceu como foi predito e o mistério foi desvelado.
Assim é o destino das coisas, mais como uma trama, onde múltipos destinos se entrecruzam, do que uma única linha tênue. O destino não é apenas uma ação dos Deuses, mas uma co-criação com os homens. Lendas onde homens antigos tomaram o destino nas mãos nos levam ao Velocino de Ouro.
"O Velo de Ouro é na mitologia grega a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. Conta-se que tal velo estava pendurado num carvalho sagrado na Cólquida. Segundo a lenda, Jasão precisava recuperar o velo para assumir o trono de Iolco na Tessália.
Atamas, rei da cidade de Orcomeno na Beócia, teve como primeira esposa a deusa das nuvens Nefele, com quem teve dois filhos, o menino Frixo e a menina Hele. Mais tarde, ele se apaixonou e casou-se com Ino, a filha de Cadmos. Ino tinha ciúmes de seus enteados e planejou matá-los.
Nefele, em espírito, enviou às crianças um carneiro alado cuja lã era feita de ouro. Com esse carneiro, as crianças poderiam escapar por sobre o mar. Entretanto, Hele caiu e se afogou no estreito que passou a carregar seu nome, o Helesponto. O carneiro pôde levar Frixo a salvo para a Cólquida, no extremo oeste do Mar Euxino. Frixo sacrificou então o carneiro e pendurou seu velo numa árvore guardada por um dragão, em um bosque consagrado a Ares."[wikipédia]
Aqui o mito adverte contra o maior erro humano, chamado pelos gregos antigos de hubris. Jasão adquiriu o velo de ouro, tornou-se rei de Iolco, mas sua dinastia teve uma curta duração, como conta a tragédia grega "Medéia". Ele, como muitos humanos, perseguiu o sucesso, a riqueza, o prestígio, sem se importar com as consequências, desafiando não o destino, mas a medida certa das coisas, chamada pelos gregos antigos de sofrósina.
Por último, mas não menos importante, é a prática da "vaecordia" ou "ligadura" no Ofício. O que mais amedrontava os nobres, feudatários, padres e bispos não eram os conjuros, mas a habilidade das bruxas de tornar um homem impotente com uma inocente e comum linha de costura. Não ter herdeiros em um mundo dominado por questões de cessões e posses de terras era mais do que uma questão econômica. Era uma questão de poder, de autoridade, de influência. Coroas e tiaras dependiam disso e, com um simples fio, a bruxa podia alterar o destino de reinos e dioceses.

Cimento é invenção dos macedônios

Objetos da civilização helênica estão em exposição no Museu Ashmolean de Oxford, na Grã-Bretanha. Mas alguns deles, recém-descobertos, nunca foram vistos pelos próprios cidadãos gregos.
Os novos artefatos foram encontrados em um complexo real que pertencia a Alexandre, o Grande e a seu pai Felipe, da região grega da Macedônia.
Após a análise dos artefatos, os arqueólogos determinaram que os macedônios não eram somente grandes guerreiros, mas também foram construtores revolucionários.
Evidências mostram que eles usavam cimento três séculos antes dos romanos, a quem, até então, se atribuía a invenção do composto.
O repórter da BBC Malcolm Brabant foi a Vergina, no norte da Grécia, para conhecer o complexo de Alexandre. [G1]
E nós, tão "civilizados" e "modernos", achando que os antigos eram "bárbaros" e "incultos".
PS: Por enquanto eu irei postar novos textos via e-mail.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O ovo do basilisco

Aproveitando meu primeiro dia de férias, me debruço sobre a tragédia mais recente que engordou a conta bancária da nossa Imprensa Abutre, chamada de Chacina do Realengo.
Eu estava no serviço quando o pessoal começou a comentar sobre o atentado. Minha primeira reação foi lembrar que casos assim eram comuns nos EUA e nós, brasileiros, em nosso provincianismo e bairrismo, dizíamos como era bom que isso não acontecia no Brasil. Então jogaram ao público que o autor estava envolvido com o Islamismo. Nós também diziamos, quando víamos notícias internacionais sobre atentados praticados por radicais e fundamentalistas islâmicos, como era bom que isso não acontecia no Brasil.
Conforme avançavam as investigações, novas "explicações" surgiam, mas não convencem nem justificam: a mãe dele era esquizofrênica, ele era reservado, ele era tímido, ele sofria discriminação na escola. Ah sim, a palavra da moda, bullying. Antes a palavra da moda era pedofilia. Mas o que vemos é a sociedade e o comércio estimulando a erotização precoce das crianças e adolescentes, como o lançamento de lingeries com enchimento para meninas de seis (6!) anos.
Nenhuma das explicações servem. A minha mãe tem esquizofrenia e eu fui zoado na escola. Muitos brasileiros tem histórias semelhantes. Mas nem eu nem estas outras pessoas foram em busca de "vingança" por algo que aconteceu na infância e adolescência, descontando em cima de gente inocente que não tem culpa alguma. O que tentam evitar, fora o "perfil de distúrbio mental" do criminoso, é sua evidente identificação com uma ou mais formas de fundamentalismo religioso. Cenas na residência do autor mostram inúmeros livros "religiosos", a saber, bíblias e o Livro de Mórmon.
A comunidade islâmica tratou de desmentir que o matador fosse membro de alguma mesquita. A comunidade das Testemunhas de Jeová também desmentiram que ele fosse membro de alguma igreja. Se tivessem encontrado algum livro de bruxaria, ninguém iria perguntar ou ouvir a comunidade pagã, como já aconteceu em outros crimes. Apesar da negação, basta ler estes livros e estudar a doutrina para ver que o germe do fundamentalismo e do fanatismo estão ali, como um ovo de basilisco. Mas mesmo isso não é suficiente para entender a tragédia.
O elemento que mais se quer evitar de falar está na nossa sociedade. Nós vivemos e reproduzimos um sistema onde a violência é encorajada, aplaudida, comercializada. Basta vermos os filmes e jogos de sucesso. Basta vermos as ações militares pelo mundo. Basta vermos as ações policiais pela cidade.
A política da administração de empresas é a agressividade. O comportamento mais elogiado diante da comunidade é a agressividade - o assédio moral, o bullying, é apenas um sintoma. A sociedade apenas recebeu de volta os frutos de sua beligerância, neste e em outros casos.
Nós estamos criando e chocando um ovo de basilisco. Se o brasileiro quer realmente saber quem é o culpado pelo atentado em Realengo, basta ele olhar-se no espelho.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Editorial de esclarecimento

Eu fico muito agradecido e consternado ao ver meus textos divulgados pela internet. Aos diletos e eventuais leitores, visitantes e escritores, meu muito agradecido.
Eu apenas devo alertar que meus textos não são a manifestação do conhecimento puro, absoluto e incontestável.
Como comunicólogo, eu sei que quando um escritor acaba sua obra, em um jornal, em um livro, ou em mídias eletrônicas, imediatamente esta se torna pública. Um escritor assume as conseqüências de sua obra e arca com as reações, críticas e elogios. O que significa que, quando eu sou citado, nem sempre eu irei concordar com a pessoa ou grupo que usou meus textos em seu espaço midiático.
Esse é o caso do blog Conselho de Bruxaria Tradicional e seu autor, Ricardo Draco.
Eu NÃO concordo com sua visão eurocentrista.
Eu NÃO concordo com sua visão a respeito do que seja a Bruxaria Tradicional.
Em meus comentários em seu blog, eu deixei claro diversas vezes [embora não estão divulgados] que a visão dele é muito limitada e equivocada.
A Bruxaria Tradicional transcende à todas as épocas, povos, regiões e culturas. A Bruxaria Tradicional não é apenas as crenças pré-cristãs européias. O próprio conceito é um absurdo, uma vez que quando se fala em “tradição ibero-celta”, o termo em si constitui uma mistura [íbero+celta] o que, na própria definição do Ricardo Draco, não constitui uma “tradição”. Os celtíberos ocuparam apenas uma parte do que é hoje definido [definição moderna] como Continente Europeu, ou simplesmente Europa. Ou seja, a definição dele parte de uma amostragem pequena, senão inconsistente, visto que deixaria de lado as demais regiões da Europa: a central, a nórdica, a dos balcãs, a do báltico e a oriental. Regiões com uma cultura religiosa muito variada e distinta da península ibérica, assim como as diversas práticas de bruxaria.
Sem esquecer de diversos outros povos e crenças antigas, que são tanto uma parte quanto a origem da Bruxaria Tradicional, que existiram na África, no Oriente Médio, na Ásia Menor antes mesmo dos Celtas começarem a colonizarem a Europa. Incluindo locais mais longínquos, como as Américas e a Oceania, lá estão também crenças e práticas que são o corpo da Bruxaria Tradicional.
No que consta para este escritor pagão, o Conselho de Bruxaria Tradicional é uma empresa da mesma monta que a famigerada Igreja Brasileira de Wicca e Bruxaria.
Gratos pela atenção.