sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Arrumando a casa

Passado um mês a casa está quase arrumada. Nós estamos ambientados. Nem estou sentindo falta de telefone fixo, facebook, sky. Setembro está transcorrendo tranquilamente, nem parece que eu passei por um período de turbulência.

Eu digo constantemente que não existem coincidências, os três meses anteriores me ensinaram a ter paciência, a não criar expectativas, a fazer aos poucos, a de não inventar problemas (ou vê-los aonde não existem) e fazer o que deve ser feito (reclamar em nada adianta).
As empresas Vivo e Sky bem que tentam nos arrebanhar de volta, mas quando eu era cliente não tinham tanta gentileza assim. Quem dependeu de assistência técnica de empresas sabe do que eu falo.

Esta é uma verdade inconveniente. Nós somos procurados pelas empresas (sejam organizações politicas, comerciais ou religiosas) enquanto formos consumidores em potencial. Adquirido o vicio, seremos tratados com desídia.
Imaginem como seria se fabricantes de cigarro e bebida fizessem o mesmo para reconquistar os otá... digo, clientes assíduos de seus produtos? Alhures neste blog eu escrevi um texto questionando sobre o que realmente necessitamos.

O truque das empresas (comerciais, políticas, religiosas) consiste em criar uma necessidade inexistente em seus consumidores em potencial. A isca é quase irresistível. Criada a dependência, recebemos o tratamento dispensado a viciados.

Como comunicólogo eu posso afirmar que, para isso, a propaganda e a publicidade ajudam a vender produtos, serviços e ideias.  Mas seria incompleto, o próprio sentido e razão dos meios de comunicação de massa consiste em criar esse mundo maravilhoso  irreal. Cris Polly que me desculpe, mas eu não engulo "Supernanny" que, em um mês, consegue transformar uma família. Eu tentei por dois anos essa "terapia behaviorista" e não aconteceu milagre algum.

Recentemente tentaram empurrar a ideia de que o Brasil (e os brasileiros) ia mudar. Meu caro e eventual leitor deve ter lido o que aconteceu quando eu simplesmente apontei o óbvio. Passados alguns meses, nos deparamos com o escândalo Donadon, o deputado-presidiário. Cadê os "black blocks"? Só o que vejo são propagandas partidárias tomando partido (desculpem o trocadalho) das manifestações de rua. Ou seja, vamos ficar na mesma, como este profeta vos disse.

A mídia eletrônica é profícua em divulgar esse mundo ideal, impossível e irreal, onde somos todos iguais, podemos ser felizes (mediante o uso de um produto, serviço ou comportamento) e somos importantes. Somos constrangidos a aceitar um ideal, diante de historias de superação. Somos constrangidos pela exposição das mazelas, misérias, sofrimentos e exclusões que esse sistema mesmo produz. Caridade é um suborno moral à consciência pequeno-burguesa. Apenas medíocres precisam ver a miséria alheia para mitigar e aceitar a própria miséria.
De algum jeito eu sabia que o resultado de uma mudança (física, mental ou espiritual) será sempre uma conquista e vitória individual e solitária.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

No reino de Southerly

Depois de 2 meses e meio eu terminei de ler os 5 volumes das Cronicas de Gelo e Fogo. A saga é intensa e capta a atenção, os capítulos recebem o nome do personagem no qual a ação está centrada, dando a impressão de que a historia ocorre em diversos níveis. Por outro lado é incompreensivel o sucesso desta história ambientada na Idade Media com nobres e reis vivendo uma riqueza indecente enquanto a massa vive na pobreza extrema. Eu vou dar um desconto por ter referências ao Paganismo e aos mitos antigos, mas eu não achei qualidade literária, as "cronicas" está para a Literatura como o som ambiente está para a Música.
No encerramento do vol 5 muitas historias ficaram sem conclusão e o futuro de Westeros ficou indefinido. Não houve um clímax, o que tornaria necessário o vol 6. O 4 vol foi o mais chato, cheio de historias e personagens secundários enquanto o vol 5 alguns personagens principais saíram de cena.
O reino de Westeros, pelo mapa apresentado, parece-se muito com a Grã-Bretanha, os Países Livres seriam a França, o que tornaria os reinos do Mar do Leste a Asia Menor e o Oriente Médio.
Eu tento imaginar como seria o Brasil dentro das "cronicas". Eu chamaria a América Latina de reino de Southerly e o Brasil seria o Condado de Vera Cruz.
Aqui os castelos são feitos de taboas e sapê. As armaduras de nossos "sores" são feitas de latão. As correntes de nossos "meistres" são feitas de arruelas e tampinhas. A muralha, que ficaria no sul para nos proteger dos argentinos, seria feia de casca de côco. Em comum teria a intriga, traição, conspiração, patifaria, a riqueza indecente, a pobreza extrema, a negociata, a politicagem. Nossa inovação é a tradição tupiniquim de fazer tudo nas coxas.
Brasileiro é uma praga pior que barata. Onde não tiver brasileiro, pode ter certeza que tem um viajando. Quanto tempo Westeros aguentaria a presença de Brasileiros é uma questão que assombraria George Martin. Qual seria a reação dos lordes de Westeros ao ver chegar caravelas do Condado de Vera Cruz? Nossa reputação não é bem vista sequer nos Países Livres. Nos Países do Verão, os Dothraki teriam nojo de colocar qualquer khalazar em nosso encalço. Nenhum Homem de Ferro arriscaria passar pelo nosso litoral para fazer esposas de sal. Pobre do Lannister que passeasse por aqui, seria rapidamente tosquiado. Quem se daria bem e passaria longas férias por aqui seria Robert Baratheon.
George Martin negará, mas Westeros começou a entrar em decadência quando começaram a chegar os brasileiros. Eu sei porque Cersei mandou vir um mercenário [eu] do Condado de Vera Cruz. Aqui eu encontrei muitos brasileiros na corte. As Cronicas de Gelo e Fogo terminaram, mas para eu e muitos westerosis brasileiros a historia continua. Eu vou tentar desencalhar Bran, liberar Sansa, propor casamento para Arya, achar Ben Stark. Eu vou tirar Stannis do Jogo dos Tronos e, se eu achar Jaime e Tyrion Lannister, talvez consiga uma saída honrosa para Cersei, desde que me deixem cuidar de Mindinho.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sopa de pedras

Depois de dias, semanas e meses, cheios de surpresas e desafios, eis que eu tenho uma casa nova.
Eu mudei...ou será que não? Eu estou confuso. Uma vez eu recebi o elogio por ter conseguido mudar radicalmente para depois, a mesma pessoa que me elogiou, acusar-me de não ter mudado, que eu havia retrocedido. Acho que ela não me conheceu o suficiente ou não confiou ou não deu o devido crédito ao trabalho feito. Eu dei sinais que até um leigo teria visto que eu forçara a situação exatamente para haver um rompimento. Tal leitura não ocorreu, 2 anos de esforço, trabalho, dedicação foram descartados sem cerimônia.
Em outros momentos e épocas isso me deixaria deprimido, mas nada acontece por acaso. Eu não esperava sequer ter encontrado essa pessoa, aconteceu quando e como era necessário, acabou pela vontade divina. Caro dileto e eventual leitor, não se esqueça que seu mestre é um ser humano, não o idealize.
Mudanças ocorrem constantemente, mudamos diariamente, até o que parece não mudar não permanece o mesmo, não se entra no rio duas vezes do mesmo jeito. Mudanças acontecem por uma dinâmica própria, vem do jeito que devem vir, no momento que devem  vir e os resultados nem sempre são o esperado. Nisso eu vejo a Fortuna e o Destino. Na percepção das probabilidades se escondem pequenos milagres. Como acontecem com histórias de sucesso e seus autores.
Histórias de sucesso nos chamam a atenção exatamente por serem raras e eu imagino que ganho de riqueza seria para a Literatura se não tivesse o gênero "auto-ajuda". O problema das histórias de sucesso e seus personagens é que o ser humano ao focar sua atenção em um ponto tende a distorcer o que está em volta. Sem as devidas oportunidades, meios e a colaboração de diversos anônimos, não há história de sucesso.
Olhando em retrospecto, a mudança depende bastante da ação de terceiros. Freqüentemente eu ouço o quanto nós somos "culpados" pelo que nos acontece, de como nossa ação, comportamento e até sentimento resultam em uma situação e no ambiente. Depois de quatro meses conturbados e dois anos de trabalhos, vendo que o ambiente e as pessoas continuam a reagir da mesma forma, por mais que eu tenha mudado, eu vejo que há uma via de mão dupla. O meio e a sociedade também tem "culpa" no cartório.
A despeito de nossos esforços para termos um mundo, um país, uma humanidade melhores, caro dileto e eventual leitor, as coisas vão continuar a ser e acontecer como devem ser. No tocante ao brasileiro, depois daquela semana de protesto que foi uma brisa, onde tudo parece continuar a ser como era, eu mantenho o ceticismo que resultou no rompimento simplesmente por eu ter declarado o óbvio e a realidade: o buraco é mais embaixo.
Demos um passo importante e, mesmo se voltarmos atrás, não será a mesma coisa. Como quando se perde algo  ou a trilha. Carece coragem reconhecer o equivoco, refazer os passos e reiniciar a jornada de algum ponto inicial.
Eu mudei e eu vou continuar andando, agora mais experiente e amadurecido. O sentido de escolher um caminho é ser mestre de si mesmo. Não se entregue a terceiros, se entregue á jornada e confie nos Deuses.
Somente você, caro dileto e eventual leitor, sabe o tamanho de suas dificuldades. Só você sabe onde o calo aperta. Só você sabe o esforço e o recurso que dispõe. Somente você pode ser você, esteja onde for ou faça o que fizer, ninguém mais pode te substituir. Ninguém ocupará seu lugar e sua função de escrever sua história. Outros personagens ficarão envolvidos pois, em algum sentido, nossos destinos estão interligados. Mas não se esqueça que são gente, terão os mesmos medos, inseguranças, defeitos.
O sol sempre surge no dia seguinte. Esteja atento, esteja preparado, esteja aberto, seja realista e não crie espectativas nem faça apostas. Quando te apontarem o dedo, sorria e assimile. Lembre-se que, para cada dedo apontado, terão três na direção oposta.

sábado, 6 de julho de 2013

O fim de Joãozinho

Na cidade grande, onde Joãozinho foi forçado a nascer e crescer, não é fácil nem agradável ser gente. Um povo que maltrata seus iguais não merece viver.
De vez em quando vinha gente de fora, contando coisas para lá de trás dos montes. Mas quando se vive há tanto tempo quebrando pedra e comedo carvão, nesse ambiente de ferro, vidro e cimento, esses contos parecem com as lendas que velhos sonham.
Joãozinho ia levando essa vida medíocre e melancólica, levando a reboque nas costas, em uma mochila de couro de vaca, toda a carga do seu passado que o fizeram acumular para sobreviver. Ele ia de um lado a outro, tentando com todas as suas forças, procurando por uma vida melhor, mais saudável, mais feliz, mais prazerosa. Um viajante, interessado em levar a vaca de Joãozinho ofereceu-lhe três feijões que ele havia trazido de lá de trás dos montes que, se Joãozinho plantasse no lugar certo, no dia certo, sem duvida que conseguiria ter uma vida melhor, seria dono de um castelo, onde encontraria um ganso mágico que põe ovos de outro.
Livrar-se da bagagem era uma ideia convidativa mas não era agradável, pois a mochila era como que costurada na pele das suas costas. Seria uma grande dor e sacrifício para ganhar três feijões encantados, mas a idéia de ser rei o estimulou e, com uma adaga, com as próprias mãos, Joãozinho separou aquilo que o unia a essa carga. Somente então ele se deu conta da tralha que tinha consigo e de quanto tempo e esforço havia desperdiçado com tanto entulho.
O viajante pegou a mochila e sumiu tão misteriosamente quanto apareceu. Sem demora, Joãozinho caminhou para o campo e, em uma noite de luar, plantou os feijões, esperando o melhor.
No dia seguinte, os feijões tinham brotado e crescido, estavam maiores e mais fortes do que um carvalho, através deles chegou nas nuvens e até encontrou o castelo. Mas o castelo tinha dono, um gigante que, prometendo a Joãozinho que iria ensina-lo  a ser gente de verdade, o colocou para fazer diversos serviços, sem sentido, esdrúxulos, mais do que difíceis, impossíveis de serem realizados.
No devido tempo, Joãozinho percebeu que o gigante não era tão grande, tinha seus defeitos e inseguranças, era tão aprendiz na difícil arte de ser gente de verdade quanto ele. O ganso tinha nada de especial, suas penas eram comuns e seus ovos não eram de ouro. Joãozinho fez aquilo que era necessário e precisou ter muita coragem em quebrar as correntes, abrir a jaula, encarar o gigante e desprezar o ganso. Joãozinho recuperou algo que ele julgava que nunca tinha tido: liberdade.
O gigante bufou, esperneou e encenou a expulsão de Joãozinho do castelo, para manter a imagem, como se não tivesse sido Joãozinho o autor de toda a ação. Joãozinho voltou ao fatídico pé de feijão onde tudo começara e encontrou-o quase todo murcho e seco, seria arriscado demais voltar das nuvens para o chão descendo pelo mesmo caminho que subiu.
O gigante estava em seu encalço para lhe dar uma marretada, mata-lo teria um efeito melhor do que chuta-lo. Joãozinho respirou fundo e pulou, torcendo para que, quando o chão chegar, não doesse muito.
Não há final feliz para Joãozinho. Nem poderia haver. Para cada historia de sucesso, para cada herói, existem milhões de esqueletos. Joãozinho é só mais um anônimo. Tudo o que ele queria é ser gente, ser visto e reconhecido como gente, receber respeito e consideração. No mundo dos homens não existem gentes, apenas criaturas mesquinhas, gananciosas e cruéis. Anda que realizasse seu sonho, Joãozinho estaria terrivelmente sozinho. Como todo sonhador, ele queria um mundo melhor não apenas para si, mas para todos.
Então ele ouviu uma voz, a voz do seu verdadeiro eu, aquele que, dentro dele, o mantinha em contato direto com seus ancestrais e seus Deuses. Em sua queda, Joãozinho teve a sensação de plenitude e encontrou consolo e respostas. O chão não chegou e Joãozinho não se espatifou. Ele voou e, com suas próprias asas, poderá ir aonde quiser e poderá levar o que quiser. Joãozinho não tem um final feliz porque nunca precisou ter um. Mesmo que ninguém saiba de sua história, ela será conhecida por quem importa: ele.

domingo, 23 de junho de 2013

Identidade espiritual

Tem algum tempo que eu tenho acompanhado a luta LGBT para ter seus direitos reconhecidos e garantidos. Toda essa questão sobre identidade de gênero e preferência sexual é um assunto complicado porque rompe com muitos preconceitos e desafia as rígidas doutrinas  ditadas por instituições religiosas.
Uma pessoa nasce com um corpo que não combina, não condiz com sua condição. Aparentemente isso contraria todas as convenções sociais, mas a pessoa, ao buscar uma imagem, um copro, que reflita sua condição interna, acaba confirmando e reiterando essas mesmas convenções.
Sabe-se que essas convenções são culturais e próprias do ser humano. Esse conjunto de imagens e símbolos são muito fortes e arraigados para serem suprimidos ou reformulados. Um homem não precisa ser ou parecer mulher para gostar de homem. Uma mulher não precisa ser ou parecer homem para gostar de mulher. O que não impede o transgênero de buscar sua felicidade, nos termos e necessidades que ele/ela tenha.
Essa questão entremeia não apenas convicções sociais, mas educação, que se recebe desde nosso berço. O mesmo pode-se falar da questão da identidade espiritual e da opção religiosa. na antiguidade, toda religião e espiritualidade tinha sua base, sua essência, na família, no lar, no patriarca/na matriarca. Quem quer que estivesse na liderança da casa era quem detinha o sacerdócio e transmitia a seus filhos o legado que recebeu de seus ancestrais.
Foi pelo próprio desenvolvimento humano e expansão da humanidade que apareceram cidades, reinos, impérios. Muito comumente os chefes, reis, imperadores eram sagrados e coroados por sacerdotes; a religião do Estado estava estruturada e organizada a partir da religião familiar e, pelas relações sociais, as famílias mais abastadas constituíam tanto a nobreza quanto o clero. A despeito disso, havia mais tolerância e liberdade religiosa na antiguidade do que há em nosso tempo.
Quando a estrutura e organização das instituições religiosas adquiriram mais poder e influência, atribuindo-se uma infalibilidade, uma independência, ao tornar-se um Estado soberano instituído na autoridade dada por Deus, perdeu-se todo o vínculo com as origens, legados e heranças antigas. A identidade religiosa do individuo passou a ser monopólio e privilégio desse Estado Teocrático, a sociedade passou a ser dominada pelo dogmatismo e a idéia de Deus tornou-se algo vazio e sem sentido, a religião passou a ser uma grande multinacional.
Por séculos a humanidade ficou debaixo dessa Ditadura Clerical, aceitou crer e adorar um Deus que cumpre mais o papel de garoto propaganda dessa multinacional. Fomos condicionados a ter medo, nojo e aversão ao mundo, ao corpo, ao desejo, ao prazer. Perdemos nossa identidade espiritual e fomos alienados de nossa opção religiosa.
Os resultados dessa incompatibilidade foram a neurose, a paranóia, o recalque, a frustração e diversas formas de violência e desvios sexuais. Diversos crimes e guerras foram cometidos "em nome de Deus". Por muitos séculos o desenvolvimento humano foi restringido. Somente quando nós recomeçamos a desvendar nosso passado, os feitos daqueles que nos antecederam, suas mitologias, é que começamos a nos dar conta do que perdemos e do que pagamos ao ter delegado tanto poder e o monopólio a uma única instituição religiosa.
Demorou algum tempo, pois achávamos que os mitos eram meras lendas, nada senão velhas superstições. Mas ao percebermos que haviam verdades mais profundas, nos deparamos com verdades divinas e, com elas, começamos a recuperar nossa essência humana e redescobrimos os inúmeros caminhos pelos quais conseguiríamos desenvolver todo nosso potencial e acordar o espírito divino que reside em nós.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Beltaine em junho

No Brasil em junho temos fogueiras, como tem na Europa em maio. Nós não temos maypole, mas temos pau de sebo.
Maio passou a 200 km/h. Durante esse tornado, nós iniciamos o processo de mudança de domicílio e os preparativos para a cirurgia da ortognática.
Foram vários meses privado da boa companhia dos meus progenitores espirituais e do consolo de estar no santuário no sítio.
O rescaldo de abril e maio não é favorável. Eu não consegui realizar o trabalho voluntário, o psicodrama foi uma arapuca e o exercício de vocalização eu vou fazendo no serviço.
Houve um breve intervalo, eu pude rever minha senhora e meu senhor. Eu tive a chance de ouvir o oráculo e Ifá e a oportunidade para ofertar as entidades que governam meu destino. Findo maio, findou o linimento. Oh bem, eu passei 48 anos quebrando pedras e comendo carvão, dificilmente coisas boas acontecem e raramente duram. Mesmo atravessando esse caminho espinhoso eu aprendi algumas coisas. Do jeito mais dificil, claro.
Eu consegui controlar meu temperamento. Eu mantive os problemas e dificuldades fora do ambiente de trabalho. Eu aprendi a parar de criar expectativas, positivas ou negativas. Eu apredi que é inútil ficar com pessimismo. Eu aprendi que ficar ensaiando ou roteirizando coisas, eventos ou fatos futuros é um desperdício.
Quando eu fizer a cirurgia eu passarei 15 dias me recuperando, uma quinzena. Falar quinzena tem menos impacto que falar quarentena, embora tenham o mesmo sufixo e tenham o mesmo intuito de marcar um período de tempo.
No fim das contas, crer e confiar a vida, o destino, aos Deuses, requer coragem, confiança e paciência. O chato faz pouco das crenças, religiões e espiritualidades. Como náufragos que passaram muito tempo ilhados, esqueceram que há algo além do oceano, duvidam que todos hão de voltar para suas origens. Tudo que o náufrago acha que sabe é baseado naquilo que é convencionado por realidade. Por mais fatos e evidências, a realidade do náufrago continua sendo uma ilha, não é nada racional atentar à ilha e esquecer o oceano, bem como o que nos trouxe a existir neste mundo.
Um caminho espiritual é baseado na intuição e na prática. mesmo o caminho científico necessita de alguma crença. Quando Cristóvão Colombo saiu para descobrir o "Novo Mundo", mesmo possuindo os mapas náuticos dos chineses, ele teria que crer, confiar que aquele traçado era exato. Um caminho espiritual é como um mapa e requer que se passe pela experiência.
Na jornada haveremos de encontrar pessoas com quem compartilhar o pão, vinho, catre, música e amor. No entanto a caminhada sempre será individual, solitária. Vínculos de sangue e linhagem nos dão a força para seguir adiante. Mas nos momentos dificeis, desafiadores, não haverá nada no mapa, no raciocínio, na lógica, na evidência, que poderá nos auxiliar.
Nós somos Cristóvão Colombo, navegando a nau de nosso corpo, através do mar da vida. Pobre dos náufragos, esqueceram o porto, esqueceram o destino, esqueceram a jornada.
Problemas, sofrimento, dor, fazem parte da existência. Triste é saber que muitos nós mesmos nos causamos e, feito crianças mimadas, só sabemos reclamar e culpar outras coisas, pessoas e mesmo os Deuses.
Nesse instante, sem bússola, sem vento, sem estrela, ao sabor das correntes da maré, eu não vou tentar adivinhar ou fazer uma cena do que virá. O que será, será.

sábado, 4 de maio de 2013

Debaixo da luz da lua

Eu estava em missão, tentando fazer teatro a trabalho voluntário, sem rumo, sem bússola, sem porto, quando chegou um alívio, descanso, ajuda e uma nova rota: explorar o universo feminino.
Disse-me o oráculo divino que meu maior desafio é o medo, quando eu consigo controlar esse medo eu posso realizar meus desejos. Então eu me pergunto de onde vem esse medo, medo de quê ou de quem e por que eu tenho medo.
Foi-me sugerido para a exploração do universo feminino uma pesquisa com as mulheres que são importantes e fazem parte da minha vida. Algumas questões eram delicadas e eu senti um certo constrangimento em fazê-las.
Seria o meu medo o receio de ser atrevido? Não, pois eu fui atrevido em diversas circunstâncias. Seria o meu medo o receio de ofender? Não, pois em diversas ocasiões eu me comportei de modo ofensivo e nem me dei conta disso. Seria meu medo o respeito ao recato, ao pudor? Não, pois como bom filho e servo do Deus da Floresta, eu sou despudorado.
Meu medo é o receio de não ser capaz de lidar com o inesperado, aquilo que não pode ser previsto e controlado. Meu medo é de que eu seja rejeitado, desprezado, segregado. Então nisso reside a minha carência de atenção e até minha hipersexualidade, que eu tento espelhar em meu modelo de mulher ideal.
O primeiro ato, talvez o mais difícil para este momento, foi o de descartar a idéia preconcebida que eu tenho do que é ser mulher, do papel que esta formidável pessoa exerce no mundo/sociedade e do que é o sagrado feminino. Tornar minha mente uma folha em branco e, como uma esponja, absorver tudo.
Eu criei uma expectativa de que minha pesquisa, minha entrevista, minhas perguntas, fossem aumentar a minha péssima reputação. Estas mulheres, maravilhosas, como era de se esperar, surpreenderam, simpáticas, responderam sem reservas mesmo a perguntas que eu achava indiscretas.
Descobri que a mulher é naturalmente predisposta ao Ofício porque nela há o ventre, o caldeirão da transformação, regido pelos ciclos da lua, domínio da noite, dos espíritos, entidades e divindades.
Descobri que ser mulher é uma enorme responsabilidade, pois ela é quem cria, educa, cuida e nutre.
Descobri que a mulher é quem escolhe sua posição e papel no mundo, na sociedade - não existem vítimas. A mulher é quem escolhe, há tempos, antes dos teóricos da Revolução Cultural ( a maioria homens), como querem viver e gerenciar sua vida erótico-afetiva.
A grande verdade é que nós nos encontramos no matriarcado há tempos. O malvado patriarcado é só uma fachada. Os homens acham que estão no comando mas os sábios sabem bem quem está realmente regendo este mundo. Nós, homens, a metade da humanidade, estamos para sempre sujeitos aos nossos laços, com nossas irmãs, esposas, mães, amigas, sacerdotisas. E eu me submeto com prazer a todas estas manifestações da Deusa.