terça-feira, 13 de outubro de 2026

Líder temperamental

https://revistaforum.com.br/politica/renan-santos-desautoriza-missao-flavio/

Discurso típico de uma pessoa autoritária com traços de fascismo.
Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.


A graça — e o perigo — do discurso autoritário está na maneira como ele transforma divergência em desobediência, liderança em obediência pessoal e projeto político em missão sagrada. O sarcasmo funciona muito bem para expor essa lógica: afinal, quando alguém se considera dono da missão, qualquer pessoa que discorde corre o risco de ser promovida a inimiga da causa.

O pequeno ditador da própria missão
Existe uma categoria particularmente divertida de político: aquele que passa a vida prometendo combater os autoritários e, quando conquista meia dúzia de cargos, alguns seguidores e um microfone, descobre que também tem vocação para distribuir ordens.

É o revolucionário de condomínio. O libertador de obediência obrigatória. O defensor da liberdade que, ao primeiro sinal de divergência, aponta a porta de saída.

Renan Santos, presidente do partido Missão, resolveu dar um recado aos integrantes que pretendam apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno: “Vá embora. Vá embora”. Segundo a Revista Fórum, ele repetiu a advertência e declarou que pretende observar quantos filiados deixarão a legenda depois de sua manifestação. A notícia.

Que maravilha! A democracia interna acaba de ganhar uma versão compacta, econômica e portátil: cabe numa live e dispensa qualquer discussão mais demorada.

Imagine a reunião partidária:

— Companheiros, precisamos debater os rumos do país!

— Concordo. Eu gostaria de apoiar outro candidato no segundo turno.

— A porta fica à esquerda.

— Mas eu sou de direita!

— Então fica à direita. O importante é sair.

Problema resolvido. Não houve debate, mas também não houve desgaste com argumentos. A eficiência administrativa é admirável.

A liberdade, desde que concorde com o chefe

O autoritarismo não começa necessariamente com tanques nas ruas, censura oficial ou um general anunciando que a democracia entrou em férias por tempo indeterminado. Às vezes, começa com uma ideia bem mais modesta: a convicção de que o líder tem o monopólio da razão e de que discordar dele constitui uma falha moral.

É quando a organização deixa de ser uma associação de pessoas com ideias e passa a funcionar como uma extensão da vontade de seu dirigente.

O líder não precisa dizer que é infalível. Basta agir como se qualquer contestação fosse uma ofensa pessoal à missão histórica que acredita representar.

E aí surge a pergunta inconveniente: se um partido não consegue conviver com a divergência entre seus próprios integrantes, que garantias oferece de que saberá conviver com a divergência de milhões de cidadãos?

A resposta provavelmente virá numa apresentação de PowerPoint intitulada Como defender a liberdade eliminando os inconvenientes da liberdade.

O fascismo de bolso

Convém fazer uma distinção: uma declaração autoritária, isoladamente, não basta para classificar alguém como fascista. O fascismo é um fenômeno político mais amplo, com características históricas e institucionais próprias.

Mas há traços de mentalidade autoritária que merecem atenção: a exigência de lealdade pessoal, a intolerância à dissidência, a transformação do grupo em comunidade de obedientes e a ideia de que o líder pode decidir quem merece continuar pertencendo à organização.

É o fascismo de bolso: ainda não precisa de um uniforme, de uma marcha monumental ou de um ministério da obediência. Por enquanto, resolve-se com uma transmissão ao vivo e um ultimato.

O curioso é que esse comportamento pode aparecer em movimentos que se apresentam como renovadores, revolucionários ou defensores de uma nova política. Muda-se o vocabulário, modernizam-se as redes sociais, contratam-se especialistas em comunicação, mas a velha tentação de mandar nos outros continua firme e forte.

O autoritário do século XXI talvez nem precise bater na mesa. Pode fazer isso com um corte de vídeo, uma postagem indignada e um aviso de que os discordantes não são mais bem-vindos.

A tecnologia avança. A intolerância faz atualização automática.

A missão é maior que a democracia?

Todo movimento político precisa de princípios, coerência e limites. Ninguém é obrigado a aceitar qualquer aliança eleitoral, muito menos a apoiar um candidato com quem discorda profundamente. Renan tem todo o direito de rejeitar o bolsonarismo e defender que seu partido não o apoie.

A questão é outra: uma coisa é defender publicamente uma posição política; outra é tratar a discordância dos filiados como motivo para expulsá-los simbolicamente da comunidade.

Se a divergência é incompatível com a permanência no partido, que se expliquem as regras, os compromissos assumidos e os procedimentos democráticos. Se a única justificativa é a vontade do chefe, então a organização corre o risco de confundir disciplina com submissão.

E isso vale para a direita, para a esquerda, para o centro e para qualquer movimento que descubra a tentação de transformar seus princípios em licença para controlar os outros.

A democracia não é um concurso para descobrir quem obedece com mais entusiasmo. É justamente o sistema que permite a convivência entre pessoas que discordam sem que uma delas precise reivindicar o direito de decidir quem pode falar, ficar ou partir.

No fim, a cena tem uma ironia deliciosa: um político que pretende combater determinado campo da direita pode acabar reproduzindo, dentro da própria organização, um dos comportamentos que tornam a política autoritária tão perigosa.

Talvez a grande missão da política brasileira não seja encontrar o líder perfeito, o salvador definitivo ou o homem providencial que finalmente colocará todo mundo na linha.

Talvez seja aprender a desconfiar de qualquer um que se considere tão indispensável à causa que a liberdade dos demais passe a parecer uma ameaça.

Porque, quando o dirigente começa a confundir o partido com a própria pessoa, a democracia interna vira decoração de escritório.

E quando ele diz “vá embora” a quem discorda, vale fazer uma pergunta simples:

Se a missão precisa expulsar a divergência para continuar sendo missão, será que ela está tentando salvar a democracia ou apenas salvar o ego de quem se considera seu proprietário?


Criado com ChatGPT.

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