quinta-feira, 22 de junho de 2017

A obsessão de Saturno

Os vapores do vinus dissiparam-se e Saturno despertou do sono dos ébrios, sentindo um gosto ruim na boca e a cabeça latejando. Nós chamamos de ressaca e a associação dos efeitos posteriores do consumo excessivo de álcool com o movimento das marés não é coincidência. Povo do mundo, sabei de uma vez por todas que não existem coincidências, o acaso ocorre porque também faz parte do universo, da natureza.

Saturno percebeu que estava só e logo imaginou que seu irmão Urano deveria estar cortejando Gaia, sua esposa. Saturno, ao invés de correr atrás de Gaia, foi em busca de Ceres. Povo do mundo, que vive uma vida sem cor, sem sabor, sem alegria, vós nunca entendereis e manifestareis o real significado da palavra Amor! Vós que misturais agendas pessoais em vossos sensos hipócritas de moral, não tem competência para censurar os Deuses!

Enquanto Saturno procurava por Ceres pelo castelo, chamado de Olimpo, ele recordava-se de sua infância e que os poucos e raros momentos de paz, tranquilidade e conforto foram sempre os que ele passara ao lado de Ceres. Os caprichos do Destino e da Fortuna conduziram Saturno até o jardim onde Ceres estava tão entretida com suas bestas domesticadas que nem se deu conta do sumiço de Gaia. Dentre estas, certamente um casal de nossos ancestrais compartilhavam desse cativeiro dourado, mas mesmo assim nós não fomos notados e não podemos condenar Saturno.

- Saudações, Ceres, minha irmã.

- Pater Saturno, não são belos meus bichos?

- Hã…sim…adoráveis. Querida irmã, devia estar fazendo coisas melhores e maiores. Se vier comigo, tu será a Deusa Mãe, aquela que será reverenciada pelas gerações como a Deusa desse mundo.

- Pater Saturno, o que está me propondo é ousado, perigoso e traiçoeiro. E onde tua esposa Gaia entra nesse seu grande plano?

- Gaia não tem a vitalidade e a juventude para tal cargo. E não é segredo algum que Urano a queria e eu a ti. Então nós temos que acertar as coisas e fazer justiça.

- As coisas são como são, como devem ser. Nós aturamos o que nos desagrada, como diz Urano e, para ser sincera, eu não suporto a ele tanto quanto a ti. Vós, Deuses, meninos, são todos iguais, são apenas estorvos.

- Considere então como isso pode ser consertado se tu, Ceres, tomar o lugar de Antu.

- O que diz? Isso é mais que ousadia, é blasfêmia e heresia. Cuidado com o que deseja, Saturno.

- Pois aguarde meu retorno e te mostrarei que nós, meninos, não somos estorvos, nós temos nossos méritos.

Saturno partiu do Olimpo, deixando para trás Ceres, Urano e Gaia no luxo, rumo ao seu funeral, atravessando por perigosas escarpas entre trilhas, por montanhas desconhecidas. Ceres disse a verdade em sua reação juvenil, temperamental e imatura demais para se importar com tudo isso. Como num péssimo roteiro, Urano e Gaia ressurgem no jardim como se nada tivesse acontecido, para chamar Ceres para o jantar e ninguém lamentou a ausência ou a partida de Saturno. Este, seguindo as instruções de espíritos locais e o impulso da fúria de seu coração, chegou na entrada do santuário de Python e, com suas emoções confundidas com as lembranças da temível Ninmag e a desgraça de Urânia, o poderoso Saturno hesitou. De dentro do santuário surgiu a figura da Pithon, em corpo e altura, semelhante a Ninmag, mas suas cores eram verde, dourado e amarelo.

- Adiante-se! Apresente-se! Mostre-se amistoso e visite-nos em paz e conforto, pois somos o vosso igual.

- Eu perambulei pelas sombras deste mundo por muito tempo. Eu, Saturno, filho das estrelas, venho aqui para humildemente pedir à grande Pithon que me mostre a luz.

- Nobre Saturno, siga-nos e mostraremos o coração, a magia deste mundo.

A Pithon levou Saturno até a fenda sagrada onde, diz-se, o Espírito deste mundo habita e dali Ele sai, trazendo a vida. A visão terrível que Saturno viu foi semelhante à de Enki, pais matando filhos, filhos matando pais, mães devorando sua prole. Mas, ao contrário de Enki, isso não perturbou o coração de Saturno.

- Diga-me, Pithon, como faço para recuperar as relíquias de Anu?

- Mesmo diante da tragédia desejas prosseguir?

- Para viver sem sonhos e com medo é melhor morrer.

- Então não queres vir para a luz. Sonhos que se realizam são justos, os que não, são caprichos do orgulho cego.

- Então mata-me agora.

- Nós fazemos sacrifícios por dever sagrado, jamais por apetite ou vingança. Para ti, damos a rota para o teu destino. Tu terás de humilhar-se mais e pedir a ajuda daquele que mais odeia.

-Este é um enigma ou um jogo? Eu devo arriscar-me em um caminho perigoso e desconhecido contando com a ajuda de quem mais odeio?

- Este é o preço que deve pagar. Não temes a violência e a morte, mas teme este que odeia?

- Jamais! Aquele fedelho nunca foi uma ameaça, apenas uma irritação.

- Então nos traga teu maior desafeto, pois o destino dele está ligado ao teu.

Cada vez mais decidido, Saturno recoloca seu elmo, sobe em sua montaria e, dispensando até sua comitiva, parte sozinho até a região chamada de Anatólia, onde aquele que ele chamou uma vez de filho, Cronos, deve estar escondido em exílio. Povo do mundo, guardem este nome no coração, pois esta é uma das regiões sagradas que ocultam nossas origens.

Saturno não teve dificuldades para encontrar Cronos pois ele, como todos os Deuses das estrelas, estava construindo uma cidade para dar início à uma civilização. Povo do mundo, o nome dessa cidade era Troia. Lembrem-se de Roma, de Atenas, mas jamais se esqueçam de Tróia. Cronos não demorou para sair dos portões de sua cidade com sua armadura completa e espada em punho para enfrentar Saturno.

- Ora, ora. Enfim, aprendeste algo útil. Vamos, guarde essa faca antes que te cortes. Nós temos negócios a discutir.

sábado, 10 de junho de 2017

Heterogênese XIV

Essa é a crença do Homem: quanto mais posses, mais poder. O poder capacita, ao Homem, decidir e comandar milhões à miséria e à ruína, o que é necessário para manter sua riqueza. Que rico poderoso não sente prazer em ver de que forma, seres humanos, conformados e esforçados, dão parte de sua vida para trabalhar por eles, dando cada gota de sangue e suor de seu corpo?

Obviamente, é o trabalho alheio que traz a riqueza aos reis, então também dá o poder a eles. Contam com um amplo apoio do Império das Luzes, visto que precisam dos homens acreditando nesse Império de aparências, de filosofias superficiais; conformados com a vida que levam, como fosse natural e merecida. É desta forma que, o Estado em união com a Igreja, mantém o Homem encarcerado em deveres e tributos, limitando seus sonhos com mesquinharias, afundando sua condição de raça superior pensante no tríptico elementar: sobreviver, ser feliz e bem sucedido. Essa é a promessa da sociedade dominada pelo Estado, a felicidade pelo tamanho das posses, o sucesso pelo poder de influenciar os outros. A troca do Império das Luzes é, para aqueles que, tendo a riqueza e o poder, tenham compaixão e piedade dos infortunados e dêem algo de vez em quando, para aliviar as chagas destes, mas nunca algo de concreto para dar uma vida digna aos miseráveis ou acabar com a situação em que estão. Alimentam um dia, mas deixam esfomeados por um ano de gerações que, não tendo alternativa, irão começar a atentar contra a vida dos de sua espécie. O Estado, pressionado por estes eminentes senhores, começa a caçada, a praticar o assassinato institucionalizado.

As pessoas matam-se umas às outras, por justificativas mil, a serviço do Estado, da Igreja ou da Família. Não é mais do que a deflagração de uma guerra civil escamoteada pelo sistema das aparências, que devem ser mantidas. De outra forma a máscara cairá e será a ruína do Homem tal como se conhece usualmente, conhecimento idealizado e difundido pelo Estado, com a garantia dogmática do Império das Luzes. Infelizmente, isso perdurará enquanto o Homem se desconhecer e ignorar o que já repeti tantas vezes: tudo que nos recai é consequência direta dos nossos atos.

Por melhor companheira do homem que seja a mulher, esta também segue um caminho medíocre. Influenciada pelo sucesso do homem, a mulher lutará por igualdade, não apenas nas possibilidades de realizar o tríptico elementar do homem, mas muitas quererão passar por homens, imitando-o em todas as características.
Para não parecerem fracas, para resistirem diante da dominação do homem, para negar sua condição feminina. Por causa da castração, que a loucura do homem manda reprimir essa condição feminina, elas irão travestir-se e exigirão serem consideradas como homens, muitas matarão com a mesma estupidez do homem, para se garantir no poder. Não percebem que desta forma não são iguais aos homens, mas pior que eles.

A mulher já é igual ao homem, desde o dia do seu nascimento, mas que, por graça, é feminina. Deve ter seus próprios e sutis métodos de controle. Imita-se muito mal a nós, homens, essas mulheres. Pois odiando, primeiro por ser mulher, terá a tendência à autodestruição. Segundo, por odiar o homem enquanto gênero, como competidor,como gladiadores, onde só com a morte do adversário haverá vitória. Todos perdem nesse conflito, principalmente a mulher masculinizada, porque ela não estará se realizado, mas sim o homem e sua estrutura repressiva, contra a qual estaria lutando. Principalmente ela, porque não poderá voltar a ser mulher,ou virá sua queda, pois os homens mesquinhos só aceitam homens como eles no poder, só sendo como homem que poderá permanecer no trono.

Principalmente todos nós, homens das Trevas, que somos compreensivos e amistosos, que serviríamos à mulher com gosto, se ela conquistasse com seus métodos femininos, o poder. Nós teríamos nossas vidas ameaçadas, pela mulher masculinizada e pela feminista, que atacam a todo homem sem distinção, acabando por sacrificar pessoas humanas como elas, com direito a viver. Pessoas que, se escaparem da repressão dos homens mesquinhos no poder, certamente cairão na ridicularização e desprezo destas. Estas, por pensarem como homens mesquinhos, não aceitarão nada que seja diferente do que se decretou arbitrariamente, como sendo normal e aconselhável que todos tenham, para pertencer à sociedade. Principalmente se levarmos em conta que, tal sociedade, deveria ser formada por todos e cada um. Deveria estar, a sociedade, desta forma definida, quando na verdade é a imposição de um grupo para milhões poder tentar subsistir.

Deixem essa imitação fajuta de lado, mulheres, que nossos hábitos são muito baixos para vossa dignidade e nobreza. Considerem que existem muitos tipos de homens, até merecedores de vossa misericórdia. Tenham também seus tipos variados, não é vetado, mas que mantenham sua condição primeira. Não esqueçam que é da mulher o alimento que nutre a ciência, o poder e a existência do homem. Portanto, até o pior deles haverá de prestar contas ao princípio divino e sensacional de onde provém toda a existência. Princípio divino, para quem toda a vida serve, até a morte. Seja mulher, como nunca poderia ter sido imaginado, por que assim será dada ao homem sua consciência e vergonha dos seus abusos contra a vida e seus semelhantes. De quem mais, senão da mulher, que o homem renovado, se nutrirá a fim de prosseguir?

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Apostolado profano VIII

Sabe porque tem tantas pessoas que rezam e pensam em Deus? Estão todas preocupadas com a salvação da alma. Sem dúvida, dedicar um dia de cada semana ou mesmo de um mês e ir a missa ou coisas do gênero são capazes, pela ingenuidade do sujeito, de deixar aliviada até as consciências mais culpadas. Até mesmo os sacerdotes e santos das religiões não escapam. Somos os “eternum pecatorum”, estamos compulsoriamente condenados por uma instrução dogmática.

A razão existencial de uma religião poderia estar baseada na premissa primeira da existência justamente do que querem combater e evitar? Sem o pecado não há culpa nem condenação, consequentemente não haveria tanta necessidade que a humanidade tem em afundar-se em religiões e cultos que expiem esse pecado que nem se tem mais conta ou memória (diria até mesmo culpabilidade).

Podemos até mesmo admitir que tenha existido esse tal deus, de qualquer que seja a religião, que fez em seguida o homem. Mas todo processo da existência da própria humanidade e até das instituições religiosas só se tornou possível graças a esse tal pecado. Tendo partido dele mesmo, resta-nos adivinhar por que esta criatura divina a cometeu, não outra e o que a levou a tal à revelia e desconhecimento de deus (tanto que o castigo é dado depois que se tomou conhecimento do fato, o que demonstra que este deus não é tanto assim onisciente e onipresente). É como se o Criador e a criatura fossem seres completamente distintos e distantes, o que não é muito racional ou lógico, quando encaramos a relação de deus com o homem, que dogmaticamente é tida como integradora, ambi- compensadora e ambi- referencial. Pelo que poderíamos admitir então, já que este deus não era tão poderosos e que o homem não era tão dependente e integrado a este deus, é que não só eram seres distintos, distantes e independentes entre si, eram completos estranhos numa relação onírica entre um ser de dotes supremos, se comparados aos do homem que era considerado o primeiro, e este homem dominado por este, por formas outras que não as sobrenaturais atribuíveis a este deus (o que se provou não o ser).

Como este pecado foi assim definido pelo julgamento deste deus contra um erro do homem, só percebido ao ter sido verificado o fato (como já foi considerado) como pode este homem tê-lo cometido sem ter noção de tal justiça e da pena que incorria em cometê-lo? Ele já tinha noção, sem dúvida e o que o levou a cometê-lo é porque sua noção pessoal assim decidiu, porque em sua própria consciência isso não era pecado, a princípio! Só assim pode ser compreendido tal fato, este deus não era tão poderoso nem tão senhor do homem. Este, apesar de ter sido criado pelo primeiro, já tinha uma consciência própria e anterior ao fato o que estranhamente é a negação do princípio dogmático que o homem conheceu a consciência após o fato, de que o homem era criatura deste deus e dele recebera as primeiras noções e a este deus deveria servir e seguir estas noções, assim como a consciência deste deus (ou sua justiça, a seu gosto). E que o princípio do pecado só se tornou real quando este deus puniu-o por julgamento deste, um ato que para o homem era natural e instintivo, causado e assumido por sua consciência pessoal e individual, distinta e desvinculada do seu Criador (o que, pela lógica, é impossível ou improvável, sem que levemos a considerar as causas e conseqüências necessárias a tal, como já o descrevemos). Este deus, sem dúvida, deve ter sido um ser e Senhor do homem, dono de uma consciência e de uma justiça que, por elas, condenou o homem. O homem, sem dúvida, acreditou ser este deus seu Criador porque assim lhe ensinaram mas apesar disso já tinha noções e consciências próprias e desvinculadas do seu Senhor que o era então, apenas fisicamente, não espiritualmente como querem os dogmas e as religiões. Não existe qualquer outra consideração a ser feita a respeito que possa ter mais razão e lógica que esta, embora sendo antidogmática e contrária a idéia que se subentende numa relação entre deus e homem, que por hora se requereu tão necessária ao passar dos anos e da evolução dessa mesma humanidade sem a qual teríamos sérios problemas existenciais.

Mas creio que já amadurecemos bastante e já está na hora de renegar este passado e consciência estranha à nossa condição e realidade. Pois, retomando a questão, não somos culpados de pecado algum nem somos tanto assim servos deste ser que se nomeou deus e que pela ideologia dele (não a nossa) nos culpamos e cumprimos uma pena por uma justiça baseada nessa ideologia alienígena, estranha e imposta ao homem.
Tomamos o fruto e erramos para ele, mas para nós não foi erro senão nem teríamos feito. Foi um ato natural e até consciente de nossa parte, não existe outra explicação, sendo assim, dessas considerações só resta mesmo as conclusões já alinhadas, mais nenhuma outra. Só como última consideração devemos por conseqüência a essas conclusões, não mais dever satisfações aos sacerdotes, representantes desta estranha justiça e ser megalômano assim como desprezar seus cultos, conselhos e moralismos já que estão baseados em falsos dogmas de um falso deus, de uma falsa religião.

É lógico, portanto, que não me incomodo, com o que as pessoas iludidas por esta fantasia de salvação da alma fazem ou dizem, preocupo-me mais com o que diretamente me diz respeito, que me atinge e pode prejudicar minha vida e meu futuro. Vencer os obstáculos que colocam para o avanço pessoal, que são inúmeros e multiplicam-se na mesma ordem e potência de nossas capacidades de raciocinar com lógica, porque num mundo construído sobre uma base tão irreal, a razão pesa e corrói com sua criticidade.E logo todo o castelo cai, pois se pode, com a mesma facilidade que aqui desmascaramos este deus, elucidar demais questões e fatos (fenômenos) que ocorrem na sociedade que, ao olhar e pensar críticos, não são mais sólidos que este deus. E de fato, podemos dizer que isso é possível por ser tudo isso parte de um todo de referências, valores e normas que podemos chamar de Império das Luzes, pois nossa sociedade baseia-se na religião, na idéia de deus e na idéia de Luz como uma coisa só, uma idéia básica e simplista, superficial e aparente que, justamente por ser apenas uma frágil película de conceitos absurdos, não suportariam o pensar crítico, cujo olhar penetrante revolve os argumentos e os testa à exaustão e logo os vence. Para todo o sistema sobreviver é preciso evitar a reflexão, a meditação, o discernimento e a crítica mais profunda, são esses que realmente destoem sem piedade esse sistema de aparências, não a rebeldia tola e descabida, que só fortalece o sistema e o alimenta de um ar de modernidade e mudança falsos, pois as condições básicas e revoltantes de sua existência permanecem e permanecerão sempre, enquanto os reais críticos puderem estar sob vigilância e isolados dos demais, sem possibilidades de divulgar seu pensamento ou participar, com a capacidade e poderes reais que deveriam ter, se esse sistema fosse realmente uma sociedade (sistema da união de pessoas com acordos mútuos e participação aberta a todos os associados).O que não é difícil ver que na realidade o sentido que se encontra na sociedade que se pratica é outro e revoltante: um grupo de poucos determinando as ações, comportamentos e até as consciências de bilhões.

É dessa forma que a religião pode ajudar na sociedade. Ambas têm seus princípios e razões de existência baseadas no domínio do individual e do geral, do particular ao público, tudo se encontra dessa forma e com base nesses princípios e razões, determinados e controlados.
Posso ir muito mais longe e ser muito mais abrangente se o quiser, por hora, me deixa muito alegre, com essa pequena semente nas consciências, que será desenvolvida e tomará forma conforme os gostos dos senhores, por enquanto leitores, mas participantes no futuro.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Heterogênese XIII

Eu louvo toda forma feminina dos seres, mais ainda a mulher, a fêmea humana, por ser esta a mais bela,perfeita e sensual forma feminina existente. Feitas pelas essências mais refinadas do Universo, abençoadas com charme e elegância. Ser sagrado pelo seu sexo, pois o Universo criou a distinção de sexo para que haja evolução da vida e da inteligência. Por isso foi dado à mulher um templo, de onde novas gerações terão origem e fará a humanidade uma raça inteligente, merecedora da preferência dada pelo Universo. Templo ao qual devemos sacramentar com a inebriante cópula e sacrificar, numa explosão, parte de nossa carne e energia. A mesma explosão que cria planetas, ocorre dentro do templo da mulher, escuro e profundo como a noite, poderoso e sagrado como o Universo.

Enquanto o homem é a loucura pelo poder e dominação, a mulher é a razão, a sabedoria do Reino e da soberania merecida. Por isso, é dada à mulher a propriedade, de gerar vida e de representar a morte. Sendo dado ao homem, a incumbência de causá-la, com suas guerras. Ao homem, as armas, para garantir sua liderança acima dos outros e da mulher. Ela, que lhe atribuem como portadora da morte, pelo pecado de Eva que, desarmada, vence milhões, pelos seus olhos e suas palavras. Mulher é motivo de matar, como também de exceder os limites do possível para ofertar algo a ela. Muitos ofertam sua fé, outros, riquezas, alguns mais extremados, a vida. Ela, que ergue impérios, fortalece heróis, desafia igrejas, segue seus caminhos, um passo de cada vez, como um felino caminha na noite.

Apesar de seus dotes, o Homem não será mais do que uma besta inteligente.
Terá muitas conquistas com sua ciência, mas sua sede por poder e riqueza terá prioridade, isto subverterá a ciência, para seus mesquinhos negócios. Consequentemente, grande parte do Homem permanecerá bestial e destrutivo, um ódio irracional, pior até que os animais. Pois matará e ameaçará a própria espécie. Esta é a maldição que há sobre a humanidade, fruto das suas mãos: o quanto mais a ciência avançar, maior será a bestialidade reinante na raça humana. Tudo em nome das paixões: poder e riqueza, que lhe dão enorme prazer. Esse é o tríptico pelo qual o Homem reza: poder, posse e prazer.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Quadrilátero amoroso

Quando Saturno retornou a Alba seu irmão Pontus foi prestativo e receptivo, não por saudades ou preocupação fraternal, mas para não dar chance aos boatos da corte chegarem ao ouvido de Saturno a respeito de suas ações. Para sorte de Pontus, Saturno enredava-se mais e mais nas armadilhas do Destino, Saturno estava apressado e não deu ouvidos a Pontus ou à corte dos Deuses.

- Gaia, minha amada esposa e rainha de Alba. Apronte-se pois iremos à Hélade ter com nosso irmão Urano.

- Meu coração exulta, meu amado rei. Nós poderemos rever Ceres, nossa irmã.

- Oh, sim, iremos. Aquele velhaco do Urano tem uma fortuna e tanto ao se tornar consorte da jovem e bela Ceres. E ela tem dois anos a menos que tu!

- Nós duas éramos bem pequenas quando aceitamos, eu a ti, ela a Urano.

- Sim e se não me engano você não gostou muito de que ela havia se intitulado Deusa da Terra.

- Isso foi uma bobagem. Quem quer ser Deusa do chão, do pó deste mundo, quando se é Deusa do planeta? Nesta e nas gerações vindouras será o meu o nome dado a este mundo.
- Então eu devo ficar de olho em Urano. Eu sei muito bem o que aquele velhaco pensa quando te vê por perto.

Pontus vê Saturno partir em viagem mais uma vez, mas desta vez com Gaia, o que o deixa no trono mas em uma situação precária sem ter uma Deusa que lhe confira a posição e a autoridade. Qualquer Deus poderia lhe cortar a cabeça, se clamasse pelo trono apoiado por alguma das irmãs, primas ou sobrinhas de Gaia. Os problemas de Pontus não nos interessam no momento, seguiremos a caravana de Saturno.

Foram necessárias quarenta semanas de nosso mundo para Saturno chegar até a colônia de Urano, chamada Hélade, sob os auspícios do Deus desconhecido. Povo do mundo, cheios de orgulho e vaidade, saibam que em suas origens, a Hélade e seus habitantes, que fundaram nosso pensamento e cultura, não estavam nas formosas ilhas, mas no continente, em uma região que conforme os gostos e as preferências ora chamam de Europa, ora chamam de Ásia. Tolo e fútil povo do mundo! Colocais nomes, fronteiras e divisórias mesmo onde estas coisas não existem!

Urano ficou agastado ao ver Saturno aproximando-se de suas portas, mas alegrou-se ao ver Gaia na caravana. Ele não suportava os modos graves e soturnos de Saturno e nunca seria capaz de esquecer a leveza e jovialidade de Gaia. Imediatamente fez seus servos abrirem as portas do Olimpo, sua cidade-estado, sua fortaleza e seu castelo. Instou, em seguida, a Ceres para que se aprontasse.

- Exultai, Ceres, minha rainha, pois nosso irmão Saturno e nossa irmã Gaia vieram a ter conosco.

- Alvíssaras! Eu não suporto Saturno mas eu amo minha irmã Gaia.

- Nem tudo é perfeito! Aturemos o que nos agrava e manifestemos amor a quem nos agrada!

Ceres aprontou-se alegremente para rever sua irmã, ingenuamente esquecendo das verdadeiras intenções e planos de Urano para esta visita. Saturno adentrou ao Olimpo e ficou impressionado e invejoso pelo fausto e luxo que encontrou. Franziu a testa e fechou o semblante com a chegada de Urano na sala de recepção, mas logo esqueceu-se de tudo ao ver a bela pele alva e o cacheado dourado dos cabelos de Ceres. Mesmo depois de tantos anos passados neste mundo, Ceres ainda parecia com aquela menina com quem ele brincava na infância e logo seguiram o desejo e a concupiscência.

- Pelos Deuses antigos! Minha irmã Ceres, como tu cresceste!

- Pater Saturno, Mater Gaia, sejam bem vindos em nossa humilde casa.

- Humilde? Há! Ora, vamos, Urano, orgulhe-se de ter saído de sua tenda de pele de cabra e chegado a tal palácio!

- Nosso querido irmão Saturno é muito gentil.

- Gentil e sedento! Ouvi falar que tu faz uma beberagem que rivaliza com o hidromel.
- Vinus, meu caro irmão. Venha, vamos deixar as mulheres com seus afazeres e vamos nós cuidar dos nossos.

- Urano, meu irmão, nós temos que nos unir, agora que Anu foi engolido pelas águas. Enquanto eu construía Alba, eu ouvi falar que estas florestas têm um Deus desconhecido.

- Sim, eu também ouvi tais rumores, mas nunca o vi. Dizem que ele é o Espírito deste mundo, conduz ritos selvagens, em assembléias com diversos espíritos e entidades, em círculos, no meio da floresta.

- Eu também não o vi e nós não sabemos se podemos confiar nele, qual seu poder ou qual a relação dele com nossa corte. Temos que nos garantir. Urania me disse que há um santuário além de suas paredes.

- Sim, o santuário de uma Deusa local, chamada de Pithon. Os boatos sobre a vida de Urânia vivendo como Lupina soam terríveis, mas é um verdadeiro terror o que eu ouço sobre o santuário de Pithon.

- Nós precisamos encontrar este santuário, meu irmão. Esta Deusa pode nos dar a chave do reino dos Deuses. Mas antes de traçarmos um plano, diga-me, do que é feito este vinus?
- De pequenas frutas rubiáceas que brotam de uma moita selvagem que se arrasta, se agarra e se pendura por todo lugar. Gostou do meu vinus, irmão?

Saturno deixa cair sua cumbuca, bem como seu corpo. Desacostumado, deixa-se abraçar pelos vapores do vinus e se deixa levar pelo arrebatamento do sono dos ébrios. Urano prontamente abandona seu irmão e sai em busca daquela que comprime seu coração, Gaia. Ele encontrou-a junto de Ceres, no jardins do castelo. Discretamente, chama a atenção de Gaia que, em sua curiosidade ingênua e juvenil, aproxima-se dele, deixando Ceres entretida com algumas bestas que esta havia domesticado.

- Meu irmão Urano, que bela casa tens!

- Sim, querida irmã Gaia e isto tudo pode ser teu.

- O que dizes? Eu sou esposa de Saturno e Ceres, a quem eu amo mais do que a um irmão, é a tua esposa.

- Isto pode ser acertado. Vem e vê como teu marido e rei não merece teu apreço.
Urano conduziu Gaia até o salão onde ele e Saturno conversavam e lá Gaia viu o orgulhoso, circunspecto e grave Saturno roncando, deitado em um catre, as faces rubras como os frutos usados para a fabricação do vinus.

- Eu estava tratando com ele e teu marido contou-me de seus sonhos delirantes de conquistar a chave do reino dos Deuses. Fique comigo e tudo será teu.

- Tudo? Serei eu a Deusa desse mundo? E o que será de Ceres?

A conversa torna-se íntima e não demora para que Urano conquiste seu prêmio e regozije com o butim. Povo do mundo, não se escandalize com os fatos da vida, do amor, do desejo, do prazer. Não torne o fardo de viver maior que o necessário.

domingo, 7 de maio de 2017

Apostolado profano VII

Estava ocupado com estas, forma curta e rápida de expor o ridículo dos conceitos e consciências, até então existentes, quando veio me ver um homem, em meu quarto, o que não permito senão a mulheres, sem ser convidado, sem entrar pela porta ou invadir minha privacidade pela janela.

-A paz esteja contigo.

-A paz esteja na tua casa, para que não apodreça mais pela senilidade!

-Não seja tua língua tua orientação ou acabará mordendo-a e morrendo pelo seu próprio veneno.

-Uma lâmpada é responsável por sua luz ou sua chama? Veja estas mãos. Elas são tão responsáveis quanto minha língua e não são a lâmpada, mas a chama e a luz delas te incomodam. Devo eu te dizer por que ou também conhece o conteúdo da minha lâmpada?

-Eu sou o que moldou a lâmpada, lhe pus o óleo para queimar e a acendi. Por que não me serve esta lâmpada para combater a escuridão?

-Porque a chama que lhe é agradável é muito pequena para mim. Tenho a meus cuidados a lâmpada que diz que formou, troquei o óleo por outro mais fino e raro, apesar disso a entornei e agora por inteiro se incendeia, para o desespero e tormenta das lâmpadas que lhe servem, tão conformadas e acomodadas com a débil luz que lhes permite ter.

-As chamas vão quebrar tua lâmpada, com tanto calor.

-Tanto melhor! Estarei livre de ti e meu óleo irá incendiar toda tua morada e te vencerei!

-Tu, queres me vencer, a mim que sou Senhor de todo o universo e redentor das pessoas que tem sua pequena lâmpada e a mantém agradável a mim?

-Não achas possível? Espere até minha chama ser vista pelos olhos imbecis de tuas pessoas. No mesmo momento turvarão o óleo que destes a elas, trocarão a chama que acendestes pela minha. Então teu poder ficará solto no vazio, sem ter o que comandar. Para teu desespero, tuas pessoas ainda vão ver-te como és, não como lhe descrevem os seus oleiros, os que espalhaste pelo mundo para conquistar as consciência, pela manipulação ou pela força. Agora, o que me diz, Nazareno?

-De fato, quer se tornar o cego que vai guiar os cegos ao abismo...

-Chama de abismo o conhecimento pleno? Realmente! Convenceu as pobres mentes disso para que permaneçam ignorantes, pois só assim consegue exercer poder sobre elas!

-Elas vêm a mim porque sou o Redentor e a salvação do Mundo. Pode duvidar e provar o contrário?

-Redimirás a ti, cabe a ti salvar-te pelos teus meios e aos outros, cada qual escolha o seu. Ou não percebeu, apesar de ser o Verbo Encarnado, que teu Pai e você mesmo dependem da existência do material, para justificarem a vossa própria? No que ganharia um espírito formar a carne? Por que ela veio a existir no teu Reino, como se fosse para ser conservada, tratada como animal para exibição ou abate, como rebanhos, cercados e adestrados? A quem mostrariam este rebanho, se é único teu Pai? Porque não vejo outra razão, senão esta. E não me diga que foi por amor, senão Ele saberia perdoar este gado (homem), quando este começou a conhecer sua condição como ser racional. E como poderia este conhecer, senão pela razão que já lhe era própria, já que o homem veio a existir por outros meios, que não o divino. Como poderia o homem ter falhado com o Pai se, em tua filosofia, um supõem ao outro e ambos são como um na razão, na alma e no corpo? É esta razão, vinda de mim mesmo, comum ao homem, próprio dele mesmo, originado das evoluções, que não me permite aceitá-lo. Dê a verdadeira compreensão ao gado que lhe resta e observe se não fazem o mesmo!

-Foi então pela misericórdia.

-Oh sim! Eu sei bem que misericórdia tiveste, tu e teu Pai, com todos os cientistas e pensadores que só queriam trazer um pouco da luz deste verdadeiro conhecer: os matastes! É assim que vós demonstrais a bondade que deveríeis ter?

-Eu sou o responsável pelo conhecimento! Você o recebe de mim.

-Impossível, a menos que concorde com minhas idéias e se assim fosse, teria negado teu Pai e esses massacres, teria feito algo para ajudar-nos e teria feito algo para mostrar a tua Igreja o quanto de absurdos esta cometia pelo poder e em nome de Deus!

-Conheço-te bem Siron. Também me conheces. Embora tua essência tenha vindo me perturbar, antes que tu viesses a existir, quando eu estava em peregrinação pelo deserto, antes de começar minha pregação na Terra. Apesar disso, podemos ser amigos.

-Perdeu tua chance e teu tempo! Antes tivesse vindo me ajudar e consolar. Não me avisou sobre a crueldade deste mundo, apesar de católico, não pude combater teus infames jovens, que me relegaram ao esquecimento, porque era diferente, me discriminaram. Na depressão, prestes a acabar com o pouco de sobriedade que me restava, alguém me levantou (e não foi você). Eu me assustei de início, pois normalmente são considerados demônios. Mas eles sim, foram meus amigos. Ainda sofro, ainda me despreza o teu mundo cristão. Mas agora estou amadurecendo, porque soube descobrir a verdadeira sabedoria e reconhecer o Reino das Trevas, onde vim eu a saber onde está meu mundo real, meus familiares reais. Você veio a se concretizar, sabe o quanto o mundo de teu Pai foi ingrato e ainda o é aos pensadores. Eu também estou aqui, mas não vou reforçar esse sistema de dominação! Farei ruir esse mundo baseado nessa filosofia superficial do Império das Luzes que teu Pai fundou e faz as pessoas julgarem pela aparência tudo que lhes oferece aos olhos! Farei com que as pessoas venham logo a descobrirem estupefatas, da verdade dessas coisas sobre teu mundo cristão e teu Império. Mesmo que tenha o seu tempo de júbilo e vitória, você sabe e não preciso dizer, que as Trevas irão prevalecer, já que o poder e sabedoria destas são superiores em intensidade e qualidade aos teus!

-Então por que não me mostras teu poder, Siron?

-Não posso. Sou um mero escritor, não um dos ministros das Trevas.

-Então me permita!

Era a minha vizinha, que já vinha mostrando grande afeição por mim. Escutou nossa discussão, viu que eu falava com sinceridade e tomou minha defesa. O que é muito surpreendente, pois eu a conhecia bem, como uma católica de um fervor que nem eu mesmo poderia supor! E lá estava ela a desafiar seu Cristo por mim! Ela apontava seu dedo acusador a Cristo e parece que, toda a culpa dos assassinatos cometidos em seu nome, caiu sobre ele, que desapareceu. Ela tremeu, gritou e chorou, porque não conseguia entender o que aconteceu e o que tinha feito! Eu a abracei, tentando acalmá-la, aos poucos foi se tranqüilizando e algo de dentro dela, próprio dela, parecia despertar de anos de agonia e pesadelo, abafado pelos preceitos cristãos de moral, virtude e pureza.

Já calma, foi embora e fez questão de me mostrar: ela quebrou toda a coleção de imagens de santos que tinha, rasgou todos os livros e encíclicas papais, incinerou a bíblia junto com os inúmeros crucifixos e rosários que tinha.

-Nesse momento todo, o senhor morava ao meu lado e só agora o entendo! Devo ter sido um tormento para você, querendo trazê-lo a essa infâmia em que estava presa e convencida de ser a religião verdadeira, do Deus verdadeiro! Quantas vezes me trouxe alegria e satisfação de explicar muito melhor que os padres das paróquias, certos trechos desse livro maldito, a bíblia, nesses momentos de cristianismo, desse meu passado turbulento e terrível! Ainda assim o afastava de mim, pois ofendi ao senhor!

Beijei-lhe com desejo, na boca murmurante e a levei para o templo onde eu iria iniciá-la na prática do verdadeiro culto e lhe mostrar quem é o Soberano, de quem sou apenas o escritor. E ela aprendeu rápida, fácil e gratamente a lição.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Em busca das relíquias

Saturno estava na beira do grande lago que se formava onde antes era a Cidade dos Deuses. Quando Ninmag apareceu nos céus, os sentimentos de Saturno estavam divididos, ele não sabia se ficava desesperado ou extasiado. Esses sentimentos não estavam dirigidos a Anu a quem se poderia supor que Saturno tivesse lealdade e companheirismo. A parceria era uma necessidade, uma ferramenta, uma situação tolerável, para os objetivos e sonhos que Saturno tinha. A tensão entre desespero e êxtase era acusado porque Saturno temia pelo seu couro. O porte e o poder de Ninmag o impressionou.

Com o arremate da luta, Saturno vê o reino e o poder de Anu afundar em um torvelinho. A sensação era a de perder o lar familiar, o de ser órfão, mas enquanto a Cidade dos Deuses era engolida pelo grande lago que se formava, muitos planos tomaram o lugar dos sentimentos. Nisto Saturno tinha muito em comum com Anu, sua personalidade violenta era apenas comparável com sua ganância. E Saturno queria tornar a sua Albion tão grande e tão gloriosa, senão maior, que a Cidade dos Deuses. Nestes sonhos mirabolantes ele via a necessidade de se resgatar a coroa, a espada e a armadura de Anu. Com isso em mãos, os outros Deuses se ajoelhariam diante dele e as outras colônias seriam suas vassalas.

Fazer planos é uma coisa, realizá-los é outra. Saturno conhecia o poder de Ninmag sobre as águas. A Deusa havia caído junto com Anu. E se seu poder submergiu junto dela ou haveria mais algum Deus ou Deusa que conhecesse o segredo, não era de conhecimento de Saturno. Ele teria que apelar a Deuses e Deusas mais velhos que pudessem orientá-lo. Por mais doloroso que fosse, Saturno teria de ir até Urânia, sua mãe. Não pela distância, não pela dificuldade, mas pela carga emocional e feridas que seriam revividas.

Por um capricho do Destino, Urânia foi buscar seu refúgio entre as sete colinas sagradas ao norte de Alba, onde os boatos contam que ela vivia como uma Lupina, uma família de Deuses menores. Para ir até lá, o único em quem Saturno poderia confiar era Cronos, seu filho bastardo e exilado. Pontus, seu irmão mais novo, inexperiente e irresponsável não se queixou ao ter de assumir a coroa. Saturno entrou na floresta e certamente deve ter nos notado, mas como Cronos não nos deu muita importância. Ele também sabia dos boatos de que ali habitava um Deus desconhecido, mas orgulhoso como era não se deu o trabalho de conhecê-lo.

As sete colinas sagradas era o último lugar onde os Deuses queriam estar. Ali existiam, perambulavam e habitavam diversos espíritos, entidades e divindades, locais e estrangeiras, com uma ligação muito física com a natureza e viviam de uma forma inaceitável para os padrões aristocráticos dos Deuses. Ver a altiva e antes poderosa Urânia, sua mãe, cercada de entes que faziam questão de se manifestar em formas tão revoltantemente carnais, não foi agradável. Ritos repugnantes viscerais, animais e selvagens ocorriam em diversas clareiras, e círculos marcados por pedras. Saturno sentiu que, em algum momento, ele teria que submeter estas entidades ou civilizá-las.

- Eu desejo falar com Urânia.

- Vinde adiante! Apresente-se! Mostre-se amistoso e visita-nos em paz e conforto, pois somos vosso igual.

- Não sou vosso igual, pois minha linhagem é pura e meu sangue das estrelas. Vós sois selvagens, eu sou civilizado. Vós sois Deuses menores.

- Menores? Quem é menor, nanico?

Um Deus em uma forma de um enorme urso negro aproxima-se de Saturno pronto para arrancar a cabeça dele.

- Basta Avvagdu! Este é Saturno, o meu filho amado. Diga-nos, grande Rei de Alba, o que deseja de nós?

- Salve Urânia, Rainha Excelsa do Firmamento, a Formosa Deusa Mãe…

- Basta! Nós não queremos ouvir mais estas fórmulas aristocráticas vazias e hipócritas. Diga-nos logo vosso desejo.

- Antes, nobre Urânia, saiba que Anu caiu.

- Aquele que almeja ser mais do que pode ser há de cair. Nós não estamos interessados em fofocas da corte e vós não vieste até aqui por compaixão a vosso rei. Diga-nos o vosso desejo.

- Nobre Urânia, ainda que tenha se afastado de vossa família, deveis saber que deve ter começado a corrida para o trono. O que eu desejo é recuperar as relíquias de Anu e clamar pelo trono.

- Tolo! Nós saímos da corte e vós quem ignora que o trono é concedido ao Deus que é consagrado como consorte pela Deusa Mãe! Ah, raça das estrelas! Por vossas origens vós vos considerais tão superiores, tão altivos! Esqueceram-se até das Leis do Universo! Vos custará caro tanta arrogância e presunção! Vossas conquistas serão vossas sentenças.

- Eu não temo o Destino! Eu vos imploro que me diga como reaver as relíquias de Anu.

- Apenas quem conhece o mistério das águas poderia do grande lago trazer à superfície o tesouro de Anu. Deveis procurar Ninmag.

- Nobre Urânia, Ninmag, a Senhora das Águas caiu com Anu.

- Isso é lastimável. Vós tereis ou que encontrar o báculo de Ninmag ou aprender a domar as águas com a Senhora dos Mares. Procureis pela Pithon, no santuário além da Hélade, a colônia de nosso irmão, Urano.