quarta-feira, 13 de abril de 2016

A antiguidade do Deus Cornífero

Jason Mankey em sua coluna Raise the Horns, na seção de Paganismo do Patheos, publicou um texto interessante e provocante intitulado “O Deus Cornífero não é tão velho quanto você pensa”. O artigo de Jason merece ser mais bem explorado e esclarecido, porque ele comete muitos enganos e equívocos.
Jason diz que o Deus Cornífero é uma construção moderna, não antiga e embora tenha em seu DNA algo do Diabo, isto é um conceito moderno. Segundo Jason, os antigos não tinham um Deus Cornífero Universal, mas sim diversos Deuses que portavam chifres em suas cabeças. Deuses que serviam a diferentes necessidades e possuem identidades próprias que apenas tinham os chifres em comum.
Eu devo adiantar que discordo da ideia teosófica que “todos/as os/as Deuse/as são o/a Deus/as”, mas é a nossa crença no Deus Cornífero que é uma construção moderna. A definição do Deus Cornífero ser uma construção moderna entra em contradição ao colocarmos sua identificação com o Diabo, um conceito que surgiu durante a Idade Média. Quando comparamos o Deus Cornífero com os demais Deuses antigos que eram descritos ou representados com chifres, a comparação precisa ser devidamente contextualizada com a mitologia, do contrário estamos fazendo uma comparação conforme nossa visão provinciana.
Jason cita alguns dos Deuses antigos que costumam ser usados como referência ou como modelos, arquétipos, do Deus Cornífero e é precisamente em seus exemplos que ele comete alguns erros de interpretação.
Dois exemplos típicos são Cernunnos e Pan, Deuses que, Segundo Jason, são completamente diferentes. Embora eu concorde com ele, o argumento que ele apresenta não convence. Jason define Pan como o Deus do espaço selvagem, separado da civilização, tendo conexões com bodes e pastoreio, é um Deus da natureza, fertilidade, fecundidade, luxúria e sexualidade. Segundo Jason, Cernunnos jamais foi representado com um falo ereto [como Pan] e é um Deus da caça e da abundância. Jason chega a comparar e diferenciar os tipos de chifres que Pan e Cernunnos portam e isto é crucial, afinal isto tem muito a ver com a divindade, poder e majestade destes Deuses, mas não é porque possuem diferentes tipos de chifres que eles sejam Deuses diferentes, as diferenças entre os deuses tem mais a ver com sua origem e mitologia. Eu irei explicar Pan e Cernunnos, conforme o argumento exposto no artigo, para que o leitor possa perceber o equivoco cometido por Jason.
Segundo ele, Pan era um Deus de segunda categoria fora de Arcádia e um Deus, favorecido por alguns, mas que não tinha um culto massivo que o colocaria junto com as demais religiões majoritárias no Império Romano. Isso não é inteiramente verdade, quando colocamos Lupércio, Fauno e Silvano, as versões Romana de Pan, divindade indispensável nas celebrações da Lupercália, ou mesmo quando levamos em consideração a importância de Pan no Orfismo.
Quanto a Cernunnos, Jason alega que seu culto era menos ainda conhecido, tanto que seu nome aparece apenas em um registro arqueológico. O que é um contrasenso, pois Cernunnos está vinculado à cultura e religião do povo Celta, que praticamente dominou toda a Europa antes dos Romanos. Jason se equivoca quanto a seu registro arqueológico, que ele deve se referir ao Pilar dos Barqueiros, supostamente o único lugar onde aparece o nome Cernunnos, no entanto a imagem pode ser encontrada também no Caldeirão de Gundestrup, imagem que é a que é usada com mais frequência pelos Pagãos Modernos e mesmo assim estas não são as únicas ocorrências da presença de Cernunnos por toda a Europa Celta. Para arrematar, Jason não tem como afirmar que Pan e Cernunnos são totalmente diferentes pelas evidencias que ele apresentou levando em consideração a afirmação dele que seus cultos eram escassos, não é possível sequer diferenciar os atributos desses Deuses levando em consideração apenas um único registro arqueológico.
Jason comete um equivoco ainda maior quando inclui o Deus Dionísio na lista e apontar que este Deus não é o Deus Cornífero por ser raramente representado com chifres. Dionísio, assim como Pan e Cernunnos, é um Deus complexo de difícil compreensão e interpretação. Como eu havia escrito em meu texto “Simpatia pelo Diabo”, a identidade de uma entidade ou Deus não depende do que acreditamos, mas sim da mitologia dessa entidade ou Deus. A origem de Dionísio vem da península da Anatólia e antes de ser conhecido como Dionísio ele era conhecido como Zagreu, um Deus com chifres.
Jason tenta estabelecer uma origem pressuposta do Deus Cornífero com as origens culturais e religiosas da Europa e até nisto existe um enorme problema. Quando falamos em Celtas, existem poucos registros sobre essa civilização, mas os Celtas eram uma coletânea de povos que tinham em comum apenas aspectos de linguagem e espiritualidade. Mesmo estes são descendentes dos Indo-europeus, uma coletânea de povos antigos que surgiram na região do Vale do Indo, onde fica o atual Paquistão. Dos Indo-europeus nós sabemos ainda menos de sua cultura e religião, nós apenas pressupomos algumas características em comum, então é espantoso que Jason alegue que os Indo-Europeus não tinham um Deus Cornífero, esquecendo que esta é a mesma origem da religião Védica e da cultura Hindu, onde Pashupati [um Deus que é semelhante demais a Cernunnos, Pan, Fauno, Silvano e Herne] é uma das manifestações do Deus Shiva.
Jason pula muito da história e desenvolvimento do Paganismo antigo, de sua sobrevivência na folclorização do cristianismo e de seu ressurgimento na Europa da Idade Média juntamente com o aparecimento das heresias. E talvez isto constitua um dos maiores erros de Jason e muitos pagãos modernos: descartam totalmente a história da Europa durante a Idade Média, como se a religião e a cultura popular não fosse resultado da assimilação e sincretismo de crenças antigas e originais com o cristianismo, como se o discurso oficial e jurídico da Caça às Bruxas não pertencesse a esse conjunto cultural pitoresco.
Neste blog o leitor pode encontrar diversos textos explorando a questão do Santo Ofício, de como a guerra contra as heresias passou a ser uma caça às bruxas, de como missas negras realizadas por nobres tanto refletem quanto influenciaram o conceito das assembleias de bruxas e de como o Mestre do Sabat foi identificado como sendo o Diabo. Para entender isso, nós temos que mergulhar nos processos do Santo Ofício, onde muitos contêm testemunhos voluntários, obtidos sem tortura e de como, mesmo no discurso oficial do Estado [secular e clerical], podemos encontrar ali rastros de uma autentica, resistente e sobrevivente religião antiga, vinculado às nossas origens europeias e pagãs.
Concluindo, o Deus Cornífero não é Cernunnos, Pan, Herne, Fauno, Silvano ou Dionísio. O mais provável é que estes Deuses sejam tanto filhos como pais deste que é o Senhor dos Mistérios da Bruxaria e Wicca tradicionais, tal como dizemos em nossas cerimônias, na Carga do Deus: “Eu sou o Velho e o Novo, eu sou o Pai e o Filho, meus nomes são incontáveis e o universo é a minha coroa. Busquem-me com Amor e descobrirás o Mistério”.

domingo, 10 de abril de 2016

Simpatia pelo Diabo

Interessante como coisas aparentemente dispersas em nossa vida ou nossa história depois começam a fazer sentido.
Rolling Stones gravou “Simpathy for the Devil” em 1968, é considerado um clássico do rock e é impossível ouvi-la sem imaginar que foi escrita para ser um hino de louvor. Foi somente depois de casado, no meu primeiro apartamento, quando eu li o livro “Mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgarov, um estranho presente do meu irmão, uma pessoa que é quase ausente de minha vida.
Meu irmão deu-me tal presente por que ele veio saber de minha... heresia. Eu não fiz uma resenha do livro, que eu considero uma leitura recomendada a todo curioso, simpatizante e estudioso do Paganismo e Bruxaria, mas adianto que o livro é uma paródia de outra obra famosa: Doutor Fausto, de Goethe. O livro é, no dizer do próprio Bulgarov, um “anti-fausto”.
Tanto na arte quanto no discurso oficial [secular e clerical] a figura do Diabo está presente. Eu estou observando até uma campanha no Patheos para resgatar a reputação de Satan. O que é confuso, pois passamos os últimos 50 anos para distanciar Satan de nosso Deus e agora até Jason Mankey avisa que o Deus da Floresta não é tão antigo quanto acreditamos. Mas será que a identidade e a personalidade de uma entidade ou Deus depende do que acreditamos, ou nós devemos melhorar a forma como vemos e interpretamos os mitos, as lendas e mesmo nossa herança espiritual e cultural? Eu defendo exatamente a segunda opção.
Infelizmente nós estamos no mundo contemporâneo, onde predomina o pós-moderno e a imitação do conhecer acadêmico, mas este é outro assunto. Eu considero infeliz, inadequado e desonesto essa distorção dos fatos e eventos históricos, sociais e culturais que envolvem o Diabo, sua construção piedosa [semelhante à construção do Deus Cristão], bem como a de sua transformação em um ícone popular, um mero arquétipo, uma mera palavra ou rótulo.
Para facilitar esta análise, permitam-me ser bem direto: Satan não é o Deus das Bruxas. Satan sequer é um Deus. A mitologia original de Satan mostra que esta entidade é um anjo a serviço do Deus Judeu. Satan, tal como o Deus Cristão, é um mosaico composto pelo Mithraismo, Mazdeismo e Maniqueísmo, foi [e ainda é] utilizado pela Igreja para combater [e destruir] qualquer outra forma de cristianismo [ou de religião].
Considerando que a cultura da Europa foi influenciada e dominada pela doutrina católica [senão cristã] a respeito do Diabo, de Satan, eu considero desonestidade ou preguiça intelectual quando eu leio textos de pagãos pleiteando pela reabilitação do Tinhoso. Não podemos nos esquecer de que testemunhos ou textos devem ser contextualizados em uma época e cultura, inclusive quando a figura ou a entidade de Satan foi utilizada por outros grupos, ordens secretas e religiões adversárias, para combater a tirania da Igreja. Isso sem nos esquecer da confusão e mistura entre a mitologia do Mal Absoluto [uma questão moral humana] e a mitologia dos daemons.
Como a história é contada pelo vencedor, pouco ou nada sabemos destes que foram acusados, perseguidos, presos, torturados e mortos pelo Cristianismo por serem hereges. Muitas destas heresias eram acusadas de adorarem o Diabo e toda uma hierarquia de demônios. Um interessante exemplo é a acusação de que os Templários adoravam Baphomet. Quando levamos em consideração que livros de e sobre bruxaria eram feitos por e para padres da Igreja, supostamente para combater “fogo com fogo”, não é mera coincidência que muitos padres acabavam “versados” em bruxaria e frequentemente realizavam “missas negras” para alguns nobres. Então, tanto grupos de camponeses que tentavam restaurar a crença antiga quanto ordens secretas de magia e ocultismo “adotaram” o Diabo, Satan, como sua figura central, pela própria lógica doutrinária da Igreja. Quando começou a Caça às Bruxas, evidente que tanto o testemunho quanto o discurso oficial refletiu os dogmas da Igreja.
A Europa conheceu a Renascença e com ela teve início a Colonização, o sistema feudal dava lugar ao sistema capitalista, profundas mudanças ocorreram na cultura e na sociedade que resultaram no Renascimento Romântico e na multiplicação e expansão das ordens secretas. Com o advento da Contracultura e a aurora do Pós-Moderno, Satan tornou-se mais um ícone pop. Tal como a Arte Pop, Satan tronou-se uma mera palavra, um rótulo, uma ferramenta e um material para ser moldado, plastificado e consumido. O resultado é a aparição do Satanismo Moderno [o que eu considero uma redundância, visto que inexistia “satanismo antigo”] e da Igreja de Satan, fundada e liderada por Anton Szandor Lavey.
A despeito da retórica satanista, o Satanismo Moderno, a Igreja de Satan e Anto Szandor Lavey misturam-se como se fossem parte de uma mesma personalidade que ainda tem suas raízes na doutrina do Cristianismo. Como filosofia de botequim, o satanismo é uma bela arapuca para adolescentes rebeldes e nada mais. Enquanto teoria mágica e prática, o satanismo é uma coletânea de rituais parodiados ou mimetizados. Falta para essa religião um mito para justificar o rito e como o próprio satanismo esvaziou Satan de sua identidade e personalidade, resta apenas o rebulho literário de diversas fontes. O satanismo não se sustenta nem usando a muleta das missas negras ou das assembleias de bruxas.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O grande teórico do oculto

Em 2012 a Editora Madras publicou um verdadeiro tesouro para todo estudioso e praticante de magia e bruxaria: “Três Livros de Filosofia Oculta”, de autoria de Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim.

Três Livros de Filosofia Oculta possui um amplo repertório mágico, o qual tem influenciado os ocultistas por cinco séculos. Este clássico da literatura oculta foi publicado pela primeira vez em 1531 e traduzido para o inglês em 1651, porém nunca na íntegra. Agora - pela primeira vez em 500 anos - Donald Tyson apresenta esses escritos da forma como Agrippa gostaria que eles fossem exibidos e com as correções dos equívocos cometidos na tradução original.
Nesta obra, reúnem-se extratos sobre a magia dos trabalhos desconhecidos de Pitágoras; Plínio, o Velho; Cícero; Ptolomeu; Platão; Aristóteles e muitas outras autoridades no assunto.
As anotações detalhadas de Donald Tyson esclarecem e simplificam as referências de difícil compreensão, além de ele acrescentar citações originais, a fim de tornar o trabalho de Agrippa mais acessível para o leitor moderno. Também são descritos todos os modos de trabalhar com adivinhação e magias natural e cerimonial de uma forma clara e com detalhes úteis para as técnicas atuais. Trata-se, enfim, de uma obra essencial para todos os estudantes das histórias das idéias e da tradição ocultas. [Saraiva]

Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (Colônia, 14 de Setembro de 1486 — Grenoble, 18 de Fevereiro de 1535) foi um intelectual polemista e influente escritor do esoterismo da Renascença. Interessou-se pela magia, ocultismo, alquimia, astrologia e demais curiosidades esotéricas. Pelo que deixou escrito, é considerado o primeiro intelectual feminista. Esteve ao serviço de Maximiliano I devotando o seu tempo ao estudo das ciências ocultas.
Cornelius Agrippa foi o autor do livro mais abrangente e mais conhecido sobre magia e todas as artes ocultas: De occulta philosophia libri tres / Três Livros de Filosofia Oculta. Mais para o fim da sua vida voltou-se contra as curiosidades e práticas esotéricas, mas também contra as mais respeitáveis e estabelecidas formas de conhecimento científico: De incertitudine et scientiarum vanitate et Artium, atque Excellentia Verbi Dei, declamatio invectiva. Uma declamação invectiva sobre a incerteza e vanglória das ciências, 1526. Proclamou-se a favor do cepticismo e da simples devoção fideísta. Em 1529 escreve: De Nobilitate e Praecellentia Foeminei Sexus, onde argumenta que o sexo feminino é superior e não meramente igual ao masculino.
Em seu próprio século, foi muitas vezes denunciado como perigoso e herético. De occulta philosophia foi muito lida por estudantes dos mais recônditos e menos respeitáveis ramos da filosofia natural e ciências ocultas. Alguns deles buscaram alternativas para a filosofia aristotélica natural ensinada nas universidades. Outros procuraram caminhos menos convencionais, como o sucesso em operações alquímicas ou a capacidade de usar segredos mágicos para controlar tanto o mundo natural como o mundo dos espíritos. É intrigante como este autor assumiu posições tão antagónicas. Inicialmente muito crédulo em relação à magia, alquimia e astrologia, e posteriormente um grande céptico, incluindo em relação ao seu próprio trabalho mágico.
Cornelius Agrippa fornece uma demonstração clara da grande agitação intelectual que se tinha apoderado dos humanistas da Renascença, ao recuperarem as obras dos antigos. Isto incluía não apenas os autores clássicos considerados "respeitáveis" pelos modernos, mas também um vasto corpo de antigos (ou pseudo-antigos) textos que alegadamente ofereciam a sabedoria das origens, de uma alegada civilização humana chamada prisca theologia. Eram textos herméticos do antigo Egito, Oráculos Caldeus, escritos de Zaratustra, ensinamentos atribuídos a Pitágoras e supostamente repassado dele para Platão e seus seguidores. Agrippa foi um dos principais especialistas de seu século sobre este tipo espiritual e teosófico da sabedoria antiga. [Wikipédia]

terça-feira, 5 de abril de 2016

Os Fastos, festas e rituais à Deusa Ana Perena

As obras de Ovídio foram lidas e apreciadas em todos os tempos. Na Idade Média, muito embora fosse um autor pagão, tivesse escrito sobre mito e deuses e pregado comportamento censurado pela ética do Cristianismo, Ovídio figurou nas “listas” de autores cuja leitura era “permitida”, a partir do século XII. (CORREIA & FERREIRA, 1992, p. 11).

O presente artigo tem por objetivo mostrar as festas populares e os rituais dedicados à deusa Ana Perena. Utilizaremos, particularmente, os versos 523-544, retirados do terceiro livro dos Fastos, poema escrito pelo sulmonense Públio Ovídio Nasão (Publius Ovidius Naso), na maturidade. Os versos foram elaborados em dísticos e elegíacos (hexâmetro e pentâmetro) e neste ritmo marcam a euforia e a alegria da plebe, por causa do vinho, nos idos de março, quando festejam, não longe do rio Tibre, a festa em louvor à deusa.

1. Os Fastos

Os Fastos são um calendário nacional, onde são descritos os cultos e as festas religiosas dos seis primeiros meses do ano. Esta obra, pertence à segunda fase da vida do poeta, foi escrita em dísticos elegíacos. Dividem-se em seis livros, cada um deles dedicado a um mês do calendário romano, incluindo apenas os seus primeiros meses
do ano, de janeiro a junho.

Fasti, -orum (m. pl.), em latim, significa calendário. Inicialmente estes Fasti marcavam apenas os dias festivos dedicados aos deuses mitológicos. Na obra de Ovídio, entretanto, o calendário assume uma característica mais abrangente. Nele serão anexadas, também, datas nacionais, isto é, datas festivas que o Senado incluiu no calendário, a fim de comemorar os aniversários de vitórias de Júlio César e as vitórias de seu filho adotivo, o Imperador Augusto. Deste modo, os Fastos vão abarcar tanto os registros das festas religiosas quanto das festas cívicas, constituindo-se num calendário poético-religioso-romano escrito em dísticos elegíacos. E, a partir desta data, iniciam-se os relatos das festas dedicadas aos homens ilustres de Roma.

O primeiro livro da obra refere-se ao mês de janeiro, Ianuarius mensis, em latim. É consagrado a Jano, o deus protetor de todos os começos, representado com dois rostos: um voltado para o passado e outro para o futuro. As grandes festas dedicadas a Jano, as Agonais (Agonalia), eram comemoradas, com a oferenda de grandes sacrifícios, no dia 9 de janeiro (Ov. F. 1, 317-9).

Quatuor adde dies ductis ex ordine Nonis;
Janus Agonali luce piandus erit.
Nominis esse potes, succinctus causa minister,
(Acrescenta quatro dias às Nonas contadas em ordem; no dia das Agonais, Jano deverá ser homenageado com sacrifícios. Ó ministro de roupa arregaçada, tu podes ser a causa do Nome).

Segundo Pierre Grimal (2000, p. 258), Jano é um dos mais antigos deuses do panteão romano. É representado com dois rostos que se opõem um, olhando para frente, outro para trás. As lendas sobre Jano são unicamente romanas e ligadas às das origens da cidade. Significava, assim, que Jano é um deus que conhecia tudo; aqueles fatos ocorridos no passado e os que haveriam de acontecer. O poema é dedicado a Germânico, sobrinho do Imperador Tibério, famoso por suas campanhas militares sobre os povos germânicos.

O segundo livro refere-se a fevereiro, em latim, Februarius mensis, que é o mês reservado às cerimônias de purificação e expiação denominadas Februa. Não é dedicado especialmente a um deus. Essas cerimônias, em latim, chamavam-sefebruaorum (n. pl), festividade religiosa de purificação e expiação celebrada no dia 15 de fevereiro: purificação; cerimônia expiatória; daí februarius mensis – o mês das purificações. (Ov., F. 2, 19).

Februa Romani dixere piamina patres.
(Os antepassados romanos chamavam as cerimônias purificadoras de februa).

Há, neste segundo livro, um prólogo dedicado a Augusto, o restaurador dos templos santos e fundador de novos templos (v. 59-66).

Caetera ne simili caderent labefacta ruina,
Cauit sacrati prouida cura ducis:
Sub quo delubris sentitur nulla senectus,
Nec satis est homines, obligat illi deos.
Templorum positor, templorum sancte repostor,
Sit Superis, opto, mutua cura tui:
Dent tibi coelestes, quot tu coelestibus annos,
Proque tua maneant in statione domo.
(O cuidado providencial do chefe sagrado providenciou para que os demais não caíssem destruídos por semelhante ruína. Sob o qual nenhuma velhice é sentida pelos templos. Não é bastante que favoreça os homens, ele também beneficia os deuses. Eu desejo, ó restaurador dos templos, ó santo fundador dos templos, que os deuses superiores te dispensem a mesma atenção que os deuses celestes te deem quantos anos tu deste aos deuses celestes e que eles permaneçam em tua casa em vigilância.)

O terceiro livro, corpus deste trabalho, abrange o mês de março: Martius mensis. Martius, -a, -um, adj. De Marte, da guerra: guerreiro; do mês de março. Era o primeiro mês do antigo calendário romano. Segundo a tradição, Rômulo, o primeiro rei de Roma, organizou um calendário, o primeiro calendário romano, de natureza lunar (isto é, composto por dez meses) e resolve homenagear seu pai mitológico – o deus Marte – dando-lhe as honras deste mês. Esta homenagem engloba os versos 73 ao 76, com a fala de Rômulo em discurso direto.

Arbiter armorum, de cuius sanguine natus
Credor – et, ut credar, pignora certa dabo –
A te principium romano ducimus anno:
Primus de Pátrio nomine mensis eat.
(Ó Senhor das armas, de cujo sangue eu creio que nasci – e, para que seja assim considerado, darei para ti uma garantia certa – atribuímos a ti
o princípio do ano romano: que o primeiro mês venha do nome de meu pai).

O ano primitivo dos romanos começava em março porque nesta época ocorria, no hemisfério norte, onde se situa a cidade de Roma, o desabrochar da primavera que vai eclodir no mês seguinte.

Marte é o deus romano identificado com o deus Ares helênico. Os meses de janeiro e fevereiro, do atual calendário, foram criados por Numa Pompílio, que percebeu que não havia coincidências entre os meses e as colheitas efetuadas. Deve-se acrescentar às datas deste mês, o dia 15 de março, data do assassinato de Júlio César, no Senado. O calendário romano registra neste dia a sua morte e apoteose, ou seja, a passagem da natureza humana para a divina de Júlio César, pois o Senado acreditou que César havia se tornado um deus.

O quarto livro diz respeito a abril (aprilis, -is, s. m.) que, a princípio, era o segundo mês do ano romano. Cultuava-se a deusa Vênus, deusa da vegetação e da fertilidade.

Segundo Pierre Grimal (2000, p. 466):

Vênus (Venus), antiga divindade latina, possuía um santuário próximo de Árdea, edificado em data anterior à fundação de Roma. Considerada durante muito tempo como protetora da vegetação e dos jardins, é agora encarada por certos autores como um gênio mediador da oração. Mas tudo isto é muito incerto. É assimilada, no século II a. C., à Afrodite grega. A Gens Iulia, que pretendia descender de Enéias, tomava Vênus como ancestral. Na sua obra, Ovídio apresenta duas etimologias para o nome do mês, sem, no entanto, dizer qual será a abonada por ele. Numa primeira explicação, o poeta das Metamorfosesrefere-se à deusa grega Afrodite, cujo nome se prende à espuma do mar, o que teria dado origem à forma aprilis (versos 61-62).

Sed Vereris mensem Graio sermone notatum
Auguror; a spumis est dea dicta maris. (v. 61-62)

Eu (Ovídio) acredito que o mês de Vênus está registrado na língua grega. A deusa foi denominada a partir da espuma do mar.

A segunda explicação etimológica utilizada pelo poeta é de que o nome de abril provém do verbo da quarta conjugação latina aperio, -is, -ire, perui, petum, que na sua primeira acepção significa “abrir”; os antigos gramáticos criaram a forma aperelis, aperio, para explicar o nome do mês Aprilis. Segundo Ovídio, neste mês a primavera abre a natureza, fazendo-a desabrochar (v. 87-90):

Nam, quia ver aperit tunc omnia, densaque cedit
Frigoris asperitas, foetaque terra patet,
Aprilem memorant ab aperto tempore dictum;
Quem Vênus injecta vindicat alma manu.

Na verdade, porque a primavera abre então todas as coisas, e a aspereza densa do inverno cai e a terra desfigurada se abre. Aqueles lembram que o mês de abril é chamado a partir do tempo desabrochado, o qual a venerável Vênus reivindica com a mão colocada em
cima.

Etimologicamente, os romanos associavam a ação de abrir ao mês em que a natureza se abre, floresce, desponta, mostra-se para oferecer ao mundo suas propriedades mágicas. Logo, nesta segunda acepção, o mês de abril origina-se do verbo aperire. Há de se notar também que neste mês (abril) abriu-se para os romanos mais uma vitória. Júlio César vence os pompeianos em 46 A. C. na região denominada Tapso. Neste mês, também, abre-se aos romanos a vitória de Augusto sobre Marco Antonio, e o título militar de Imperador é recebido por Augusto. Neste mês, também, são homenageadas as deusas Flora, Vesta e Ceres.

O quinto mês do ano era maio (Maius mensis, em latim). No início do poema, Ovídio apresenta uma discussão sobre o nome do mês, sugerindo-nos três etimologias; primeiramente, o nome do mês está relacionado com a deusa Maia, mãe de Mercúrio.

Segundo Pierre Grimal (2000, p. 289):

Existia, em Roma, em tempos muito antigos, uma deusa Maia que, sem dúvida, não teve na origem qualquer relação com a Maia grega. Aparece por vezes como paredro de Vulcano, deus do fogo. O mês de maio era-lhe especialmente consagrado. Após a introdução do helenismo, foi identificada com a sua homônima, e tornou-se a mãe de Mercúrio.

Outra etimologia descrita pelo poeta, mas sem tecer opinião de qual seria a etimologia correta, refere-se ao fato de que o mês era também dedicado aos antepassados: aosMaiores, ou seja, aos mais velhos. Havia, neste mês, uma festa dedicada aos que já haviam partido: os Lêmures, almas dos mortos que aguardavam o descanso eterno. Acreditava-se ser esta a origem do nome do mês.

Os Fastos de Ovídio terminam com as referências às festas religiosas realizadas em junho, Iunius mensis, dedicada à deusa Juno.

Juno é a deusa romana assimilada a Hera. Na origem, e na tradição romana, ela personifica o ciclo lunar e figura na Tríade inicialmente honrada no Quirinal, depois no Capitólio, e que engloba Júpiter, Juno e Minerva. (GRIMAL, 2000, p. 260).

Como primeira etimologia, podemos atestar que se o mês anterior era dedicado aosmaiores /Maius (aos mais velhos), nada estranho que o mês de junho se originasse deiuniores / Iunius (jovens).

Segundo os romanos, o mês de junho provém de iuvenis = jovem. Outra hipótese levantada sobre a etimologia deste mês refere-se ao verbo iungo (jungo), – is, iungere, -xi, – ctum, da terceira conjugação latina; juntar, unir, reunir, pois foi neste mês que, depois de muitas guerras, os romanos se juntaram aos sabinos após o rapto da sabinas, unindo-se numa só nação, num só corpo. Nesta acepção, junho viria do verboiungere. Cultuava-se e homenageava-se também neste mês a deusa romana Vesta de caráter muito arcaico que presidia ao fogo sagrado. Mantinha-o acesso e assim unia a alma da cidade e o ânimo dos romanos.

A respeito dos outros seis livros (julho a dezembro) que comporiam a obra ovidiana, paira uma incógnita, como tantas que circundam a vida do vates Ovídio; ou foram perdidos ou destruídos ou, talvez, nunca foram escritos. Não há, na literatura latina, nenhuma menção a eles. O que se sabe de concreto é que no ano 8 de nossa era, o poeta foi banido de Roma para o último reduto do império romano, o Pontus Euxinus, lá falecendo no ano 18/17, sem ter obtido o perdão imperial.

2. A festa de Ana Perena

Segundo Grimal (2000, p. 24-25):

Ana Perena é uma divindade romana muito antiga, honrada num bosque sagrado, situado mesmo ao norte de Roma, na Via Flamínia. Representam-na com traços de uma velha mulher. Quando se deu a Secessão da plebe no Monte Sagrado, como as provisões eram insuficientes, Ana Perena teria feito uns bolos que todos os dias vendia ao povo, evitando assim a fome. Por esta razão lhe teriam prestado honras divinas após a cessação dos motins políticos e a reentrada da plebe em Roma.

Dos versos 523 a 544, o poeta Ovídio descreve, com imensa plasticidade, a festa popular e os rituais dedicados à deusa Ana Perena. A descrição inicia-se com a datação da festa, através de uma invocação ao Tibre, rio que banha a cidade de Roma.

Idibus est Annae festum geniale Perennae
Haud procul a ripis, aduena Tibri, tuis. (v. 523-4)

Nos idos (15 de março) há a festa popular de Ana Perena, não muito longe de tuas margens, ó (rio) Tibre estrangeiro.

No verso 524, o poeta adjetiva o rio Tiber, chamando-o aduena, estrangeiro, alusão feita à foz do rio que nasce fora dos limites da Urbe, na região da Etrúria, não muito longe de Roma.

Nesta festa popular dedicada à deusa Ana Perena, segundo o relato do autor, nenhuma restrição era imposta à plebs. Dos versos 525 ao 530, há a descrição de todo o ritual utilizado nos festejos pelos habitantes que aderiram à festa.

Plebs venit, ac virides passim disjecta per herbas
Potat et accumbit cum pare quisque sua.
Sub Jove pars durat: pauci tentoria ponunt:
Sunt, quibus e ramis frondea facta casa est:
Pars sibi pro rigidis calamos statuere columnis,
Desuper extentas imposuere togas.

A plebe chega e espalhada por aqui e por ali, sobre as verdes relvas, bebe e deita-se cada um com sua companheira. Uma parte da multidão fica ao ar livre. Poucos armam tendas (tentoria, v. 527). Existem aqueles
que constroem uma cabana (casa, v. 528) com ramos de folhagens. Parte da plebe fincou caniços (columnis, v. 529) em lugar de rígidas colunas e colocou, por cima, as togas esticadas.

Continuando sua descrição, o poeta nos relata as consequências da festa ao ar livre e do excesso de vinho, nos versos 531-2.

Sole tamen vinoque calent: annosque precantur,
Quot sumant cythos; ad numerumque bibunt.

Todavia, por causa do vinho e do sol, eles se esquentam e suplicam tantos anos de vida quanto o número das taças que bebem e saúdam esse número.

O poeta, como personagem onipresente à festa, dirige-se ao possível leitor de sua obra e adverte-o, v. 533-4:

Invenies illic, qui Nestoris ebibat annos.
Quae sit per calices facta Sibylla suos.

Neste lugar, encontrarás (ó leitor) aquele que bebe à idade, de Nestor e, aquela que se torna Sibila pelos seus cálices.

Os versos analisados neste artigo são a descrição de uma festa realizada, segundo o poeta, nos idos de março (v. 523). Os enunciados relatam ocorrências simultâneas e cronologicamente dispostas no texto através dos verbos uenit (v. 525); potat (v. 526);accumbit (v. 526); durat (v. 527); e ponunt (v. 527). A descrição dos fatos feita pelo poeta revela-nos as características de uma festa popular festum geniale (v. 523), inscrita num certo momento estático do tempo e que ocorre simultaneamente num lugar concreto e delimitado nos idos (v. 534) ou seja, no dia 15 de março não muito longe das margens do rio Tibre – Haud procul a ripis, aduena Tibri, tuis (v. 534).

O cortejo formado pela plebs, que cambaleia, por causa do vinho, ao retornar dos festejos em honra à deusa Ana Perena, desperta a multidão que se encontra no caminho obvia turba (v. 540); ou melhor, nas ruas da Roma antiga a evocação do adjetivo fortunatos (v. 540), ou seja, felizes, uma alusão à felicidade demonstrada pelos participantes da festa.

Pars sibi pro rigidis calamos statuere columnis,
Desuper extentas imposuere togas. (v. 529-530)

Parte da plebe fincou caniços em lugar de rígidas colunas e colocou, por cima, as togas esticadas.

O poeta, em se tratando de Ovídio, é mais apropriado que se diga vates o poeta iluminado que nos versos 541-2 se torna sujeito desta descrição, menciona que ele próprio presencia o estado etílico da plebs. Interfere na descrição, relatando uma das últimas cenas do cortejo:

Senem potum pota trahebat anus. (v. 542)

“Uma velha embriagada arrasta um velho igualmente embriagado.”

Ovídio explica que não sabe, com precisão, a origem desta deusa que errat (v. 543) no meio de incertezas e que tudo que se fala
é uma fábula (v. 544), uma história, uma narração fictícia, todavia defende a ideia de que em seu discurso não deve silenciar sobre esta deusa à qual são dedicados festejos populares anuais sempre na mesma data e local.

Os versos 535-8 sugerem-nos a coreografia e a musicalidade, que, segundo o autor, foram aprendidas pela plebs nos teatros (v. 535) e que, segundo a mitologia, são as canções obscenas cantadas na festa de Ana Perena:

Illic et cantant, quidquid didicere theatris;
Et jactant faciles ad sua verba manus;
Et ducunt posito duras cratere choreas,
Cultaque diffusis saltat amica comis.

[…] também, nesse lugar, cantam aquilo que aprenderam no teatro. Agitam suas mãos ágeis conforme os seus versos e realizam danças rudes abandonando as taças, e a companheira ornamentada dança com os cabelos soltos.

3. Conclusão

Nos Fastos, escritos em seis livros, Ovídio nos proporciona uma visão privilegiada de fatos, lendas, tradições, rituais existentes em Roma, dos seus primórdios ao governo de Augusto. São narrações de fatos até mesmo esquecidos ou ignorados pelos romanos na época da publicação desses livros. O levantamento, feito pelo poeta, nos pergaminhos e/ou códices existentes em bibliotecas romanas, trouxe à visão, não só dos leitores de sua época, mas também aos da Idade Média, o conhecimento sociocultural-religioso de uma fase da história romana. Apesar do banimento de Ovídio, sua obra não sofreu, da parte do imperador Augusto, nenhum ato de violência. Assim, ela chegou até os dias de hoje, permitindo que seus textos sejam pesquisados pelos amantes da língua latina que reconhecem no poeta Ovídio os traços indeléveis de um gênio criador que, vivendo na Roma clássica, gravou seu nome entre os poetas da época, cônscio do valor de seus versos.

Original: Submundo

sábado, 2 de abril de 2016

O "Sabbat" dos Feiticeiros

Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia
Eis -nos de novo neste terrível número quinze, que, na clavícula do Tarô, apresenta para símbolo um monstro de pé num altar, trazendo uma mitra e chifres, tendo um seio de mulher e as partes sexuais de um homem, uma quimera, uma esfinge disforme, uma síntese de monstruosidade; e, embaixo desta figura, lemos esta inscrição franca e ingênua: O Diabo.
Sim, tratamos aqui do fantasma de todos os espantos, do dragão de todas as teogonias, do Arimane dos persas, do Tifon dos egípcios, do Píton dos gregos, da antiga serpente dos hebreus, da vouivre , do graouilli , tarasque , da gargouille , da grande besta da Idade Média, pior ainda do que tudo isso, do Baphomet dos templários, do ídolo barbado dos alquimistas, do deus obsceno de Mendes, do bode do Sabbat.
 
Digamos, agora, para edificação do vulgo, satisfação do conde de Mirville, justificação do demonômano Bodin e maior glória da Igreja que perseguiu os templários, queimou os magos, excomungou os franco - maçons, etc., etc.; digamos, ousada e altivamente, que todos os iniciados às ciências ocultas (falo dos iniciados inferiores e profanadores do grande arcano) adoraram, adoram ainda e adorarão sempre o que é significado por este espantoso símbolo. Sim, na nossa convicção profunda, os grão -mestres da ordem dos templários adoravam o Baphomet e o faziam adorar pelos seus iniciados; sim, existiram, podem existir ainda as assembleias presididas por esta figura assentada num trono com a sua tocha ardente entre os chifres; somente que os adoradores deste emblema não pensam, como nós, que seja a representação do diabo, mas sim a do Deus Pan, o deus das nossas escolas de filosofia moderna, o deus dos teurgistas da escola de Alexandria e dos místicos neo - platônicos dos nossos dias, o deus de Lamartine e Vitor Cousin, o deus de Spinoza e Platão, o deus das escolas gnósticas primitivas; o próprio Cristo do sacerdócio dissidente; e esta última qualificação dada ao bode da magia negra não admirará aos que estudam as antiguidades religiosas e que seguiram, nas suas diversas transformações, as fases do simbolismo e do dogma, quer na Índia, quer no Egito ou na Judeia.
O touro, o cão e o bode são os três animais simbólicos da magia hermética na qual se resumem todas as tradições do Egito e da Índia. O touro representa a terra ou o sal dos filósofos; o cão é Hermanubis, o Mercúrio dos sábios, o fluido, o ar e a água; o bode representa o fogo, e é, ao mesmo tempo, o símbolo da geração.
Na Judeia, eram consagrados dois bodes, um puro, outro impuro. O puro era sacrificado em expiação dos pecados; o outro, carregado por imprecação destes mesmos pecados, era enviado em liberdade ao deserto. Coisa estranha, mas de um simbolismo profundo! A reconciliação pelo devotamento e a expiação pela liberdade! Ora, todos os padres que se ocuparam do simbolismo judeu reconheceram no bode imolado a figura daquele que tomou, dizem eles, a própria forma do pecado. Logo, os gnósticos não estavam fora das tradições simbólicas quando davam ao Cristo libertador a figura mística do bode.
Com efeito, toda a Cabala e toda a magia se partilham entre o culto do bode sacrificado e o do bode emissário. Há, pois, a magia do santuário e a do deserto, a Igreja branca e a Igreja negra, o sacerdócio das assembleias públicas e o Sanhedrin do Sabbat.
O bode, que é representado no nosso frontispício, traz na fronte o signo do pentagrama, com a ponta para cima, o que é suficiente para fazer dele um símbolo da luz; faz com as mãos o sinal do ocultismo, e mostra em cima a lua branca de Chesed, e embaixo a lua preta de Geburah. Este sinal exprime o perfeito acordo da misericórdia com a justiça. Um dos seus braços é feminino, o outro é masculino, como no andrógino de Khunrath, cujos atributos tivemos de reunir aos do nosso bode, pois é um único e mesmo símbolo. O facho da inteligência que brilha entre os seus chifres é a luz mágica do equilíbrio universal; é também a figura da alma elevada acima da matéria, embora esteja presa à própria matéria, como a chama está presa ao facho. A cabeça horrenda do animal exprime o horror do pecado, de que só o agente material, único responsável, deve para sempre sofrer a pena: porque a alma é impassível por sua própria natureza, e só chega a sofrer, materializando - se. O caduceu, que está em lugar do órgão gerador, representa a vida eterna; o ventre coberto de escamas é a água; o círculo que está em cima é a atmosfera; as penas que vêm depois são o emblema volátil; depois, a humanidade é representada pelos dois seios e os braços andróginos desta esfinge das ciências ocultas.
Eis dissipadas as trevas do santuário infernal, eis a esfinge dos terrores da Idade Média adivinhada e precipitada do seu trono; quomodo cecidisti, Lúcifer! O terrível Baphomet não é mais, como todos os ídolos monstruosos, enigmas da ciência antiga e dos seus sonhos, senão um hieróglifo inocente e até piedoso. Como adorava o homem o animal, sabendo que exerce sobre ele um soberano império? Digamos, para honra da humanidade, que ela nunca adorou cães e bodes nem tampouco cordeiros e pombas. Em matéria de hieróglifo, por que não um bode tão bem como um cordeiro? Nas pedras sagradas dos cristãos gnósticos da seita de Basilides, vemos representações do Cristo sob as diversas figuras dos animais da Cabala: ora é um touro, ora um leão, ora uma serpente com a cabeça de leão ou de touro; em toda parte, traz, ao mesmo tempo, os atributos da luz, como o nosso bode, que o seu signo do pentagrama impede de tomar por uma das imagens fabulosas de Satã.
Digamos bem alto, para combater os restos de maniqueísmo que ainda se revelam, todos os dias, nos nossos cristãos, que Satã, como personalidade superior e como potência, não existe. Satã é a personificação de todos os erros, perversidades e, por conseguinte, também de todas as fraquezas. Se Deus pode ser definido aquele que existe necessariamente, não se poderá definir seu antagonista e inimigo aquele que necessariamente não existe?
A afirmação absoluta do bem implica a negação absoluta do mal; por isso, na luz a própria sombra é luminosa. É assim que os espíritos transviados são bons por tudo o que têm de entidade e de verdade. Não há sombras sem reflexos, nem noites sem lua, sem fosforescências e sem estrelas. Se o inferno é uma justiça, é um bem. Ninguém jamais blasfemou contra Deus. As injúrias e zombarias dirigidas às suas imagens desfiguradas não o atingem.
Acabamos de mencionar o maniqueísmo, e é por esta monstruosa heresia que explicaremos as aberrações da magia negra. O dogma de Zoroastro, mal entendido, a lei mágica das duas forças que constituem o equilíbrio universal, fizeram imaginar a alguns espíritos ilógicos uma divindade negativa, subordinada, mas hostil à divindade ativa. É assim que se formou o binário impuro. Tiveram a loucura de dividir Deus; a estrela de Salomão foi separada em dois triângulos e os maniqueus imaginaram uma trindade da noite.
Este Deus mau, nascido da imaginação dos sectários, tornou - se o inspirador de todas as loucuras e de todos os crimes. Ofereceram - lhe sangrentos sacrifícios; a idolatria monstruosa substituiu a verdadeira religião; a magia negra fez caluniar a alta e luminosa magia dos verdadeiros adeptos, e houve nas cavernas e lugares desertos horríveis conventículos de feiticeiros, vampiros e estriges: porque a demência logo se muda em frenesi e dos sacrifícios humanos à antropofagia há somente um passo.
Os mistérios do Sabbat foram contados de diversos modos, mas sempre figuram nos engrimanços e processos de magia. Podemos dividir todas as revelações que foram feitas a este respeito em três séries:
1) as que se referem a um Sabbat fantástico e imaginário; 
2) as que trazem os segredos das assembleias ocultas dos verdadeiros adeptos;
3) as revelações de assembleias loucas e criminosas, tendo por objeto as práticas da magia negra.
 
Para um grande número de infelizes, dados a loucas e abomináveis práticas, o Sabbat era simplesmente um longo pesadelo, cujos sonhos lhes pareciam realidades e que obtinham por meio de beberagens, fumigações, e fricções narcóticas. Porta, que já apontamos como mistificador, dá, na sua Magia Natural, a pretensa receita do ungüento das feiticeiras, por meio do qual se fazem transportar ao Sabbat . Ele o compõe de gordura de criança, de acônito fervido com folhas de álamos e algumas outras drogas; depois quer que se misture a fuligem de chaminé, o que deve fazer pouco atrativa a nudez das feiticeiras que vão ao Sabbat untadas com esta pomada.
Pensamos que as composições opiáceas, a medula de cânhamo verde, o datura stramonium, o loureiro - amêndoa, entrariam com não menos sucesso em semelhantes composições. A gordura ou o sangue das aves noturnas, juntos com estes narcóticos, com cerimônia de magia negra, podem ferir a imaginação e determinar a direção dos sonhos. É a Sabbats sonhados desta maneira que é preciso relacionar as histórias de bodes que saem de um cântaro e aí entram depois da cerimônia de pós - infernais recolhidos do traseiro do mesmo bode, chamado mestre Leonardo, de festins em que se comem abortos são cozidos sem sal, com serpentes e sapos, de danças em que figuram animais monstruosos ou homens e mulheres de formas impossíveis, de depravações desenfreadas em que os íncubos dão um esperma frio. Só o pesadelo pode produzir semelhantes coisas e só ele pode explicá - las. O infeliz cura Gaufridy e a sua penitente depravada, Madalena de la Palud, ficaram loucos de tais sonhos, e se comprometeram para os sustentar até a fogueira. É preciso ler, no seu processo, os depoimentos destes pobres doentes para entender até que aberrações podem exaltar uma imaginação ferida. Mas o Sabbat não foi sempre um sonho, e existiu realmente; até ainda existem as assembleias secretas e noturnas em que foram e são praticados os ritos do mundo antigo, e destas assembleias umas têm um caráter religioso e um fim social, outras são conjurações e orgias. É sob este duplo ponto de vista que vamos considerar e descrever o verdadeiro Sabbat , quer seja o da magia luminosa, quer o da magia das trevas.
Quando o cristianismo proscreveu o exercício público dos antigos cultos, obrigou os partidários das religiões a se reunirem em segredo para a celebração dos seus mistérios. A estas reuniões presidiam iniciados que estabeleceram logo, entre os diversos matizes destes cultos perseguidos, uma ortodoxia que a verdade mágica lhes ajudava a estabelecer com tanto mais facilidade, quanto a proscrição reúne as vontades e estreita os laços da fraternidade entre os homens. Assim, os mistérios de Isis, de Ceres Eleusina, de Baco, se reuniram aos da boa deusa e do druidismo primitivo. As assembleias se realizavam ordinariamente entre os dias de Mercúrio ou Júpiter, ou entre os de Vênus ou Saturno; aí se ocupavam dos ritos da iniciação, trocavam sinais misteriosos, cantavam os hinos simbólicos, uniam - se por meio de banquetes e formavam sucessivamente a cadeia mágica pela mesa e a dança; depois separavam - se, após terem renovado os juramentos entre as mãos dos chefes e recebido as suas instruções. O recipiendário do Sabbat devia ser levado à assembléia com os olhos cobertos pelo manto mágico, com o qual o envolviam inteiramente; faziam -no passar sobre grandes fogueiras e faziam, ao redor dele, ruídos espantosos. Quando descobriam o seu rosto, ele via - se rodeado de monstros infernais e em presença de um bode colossal e monstruoso, que lhe ordenavam de adorar. Todas estas cerimônias eram provas da sua força de caráter e da sua confiança nos seus iniciadores. Principalmente a última prova era decisiva, porque apresentava, a princípio, ao espírito do recipiendário, alguma coisa humilhante e ridícula: tratava - se de beijar respeitosamente o traseiro do bode e a ordem era dada sem cerimônia ao neófito. Se recusava cobriam - lhe a cabeça e o transportavam longe da assembléia com tal rapidez, que ele acreditava ter sido carregado pelas nuvens; se aceitava, faziam -no girar ao redor do ídolo, e aí ele achava, não uma coisa repelente ou obscena, mas o fresco e gracioso rosto de uma sacerdotisa de Isis ou Maia, que lhe dava um beijo maternal; depois era admitido ao banquete.
 
Quanto às orgias que, em várias assembleias deste gênero, seguiam o banquete, é necessário guardar- se bem de crer que tenham sido geralmente admitidas nestes ágapes secretos; mas sabemos que várias seitas gnósticas as praticavam nos seus conventículos desde os primeiros séculos do cristianismo. Que a carne tenha tido seus protestantes nos séculos de ascetismo e compressão dos sentidos, isso devia ser e nada tem que nos admire; mas não se deve acusar a alta magia de desregramentos que ela nunca autorizou. Isis é casta na sua viuvez; a Diana Pantéia é virgem; Hermanubis, tendo os dois sexos, não pode satisfazer nenhum; o Hermafrodita hermético é casto. Apolônio de Tiana nunca se abandonou às seduções do prazer; o Imperador Juliano era de uma castidade severa; Plotino de Alexandria era rigoroso, nos seus costumes, como um asceta; Paracelso era tão estranho aos loucos amores, que o julgaram de um sexo duvidoso; Raimundo Lullo foi iniciado aos últimos segredos da ciência só depois de um desespero de amor que o fez casto para sempre.
É também uma tradição da alta magia que os pantáculos e talismãs perdem toda sua virtude quando aquele que os traz entra numa casa de prostituição ou comete um adultério. O Sabbat orgíaco não deve, pois, ser considerado como o dos verdadeiros adeptos.
Quanto ao próprio nome de Sabbat , quiseram fazê- lo vir do nome de Sabasius; outros imaginaram etimologias diferentes. A mais simples, conforme nossa opinião, é a que faz vir esta palavra do Sabbat judaico, pois é certo que os judeus, depositários mais fiéis da cabala, foram quase sempre, em magia, os grandes mestres da Idade Média.  
O sábado era o domingo dos cabalistas, o dia da sua festa religiosa ou antes a noite da sua assembléia regular. Esta festa, rodeada de mistérios, tinha por salvaguarda até o espanto do vulgo e escapava à perseguição pelo terror.  
Quanto ao Sabbat diabólico dos necromantes, este era uma falsificação do dos magos e uma assembléia de malfeitores que exploravam os idiotas e loucos. Aí eram praticados horríveis ritos e feitas abomináveis misturas. Os feiticeiros e feiticeiras faziam aí a sua polícia e se informavam uns aos outros, para sustentar mutuamente a sua reputação de profecia e adivinhação, porque os adivinhos era, então, geralmente consultados e faziam uma profissão lucrativa, exercendo ao mesmo tempo um verdadeiro poder. Estas assembléias de feiticeiros e feiticeiras não tinham, aliás, e não podiam ter, ritos regulares: tudo nelas dependia do capricho dos chefes e das vertigens da assembléia. O que contavam os que tinham podido assistir a elas servia de tipo a todos os pesadelos dos sonhadores e é da mistura destas realidades impossíveis e destes sonhos demoníacos que saíram as fastidiosas e tolas histórias do Sabbat que figuram nos processos de magia e nos livros de Spranger, Delancre, Delrio e Bodin.
 
Os ritos do Sabbat gnóstico foram transmitidos, na Alemanha, a uma associação que tomou o nome de Mopse; substituíram aí o bode cabalístico pelo cão hermético e, por ocasião da recepção de um candidato ou uma candidata (porque a ordem admite senhoras), conduzem a ele ou a ela com os olhos fechados; fazem ao seu redor este ruído infernal que fez dar o nome de Sabbat a todos os rumores inexplicáveis; perguntam - lhe se tem medo do diabo, depois propõem - lhe bruscamente a escolha entre beijar o traseiro do grão -mestre ou do Mopse, que é uma figurinha de cão coberta de seda, e substituída ao antigo ídolo do bode de Mendes. Os Mopses têm, como sinal de reconhecimento, uma careta ridícula que lembra as fantasmagorias do antigo Sabbat e as máscaras dos assistentes. De resto, a sua doutrina se resume no culto do amor e da liberdade. Esta associação foi produzida quando a Igreja romana perseguiu a franco - maçonaria. Os Mopses aparentavam se recrutarem só no catolicismo e tinham substituído o juramento de recepção por uma solene obrigação sob a palavra de honra de nada revelar dos segredos da associação. Era mais do que um juramento e a religião nada mais tinha que dizer.
O Baphomet dos templários, cujo nome deve ser soletrado cabalisticamente em sentido inverso, se compõe de três abreviações, Tem ohp ab , Templi omniu pacis abbas, o pai do templo, paz universal dos homens; o Baphomet era, conforme uns, uma cabeça monstruosa; conforme outros, um demônio em forma de bode.
Um cofrezinho esculpido foi desenterrado ultimamente das ruínas de uma antiga comenda do templo, e os antiquários observaram aí uma figura bafomética, análoga, quanto aos atributos, ao nosso bode de Mendes e ao andrógino de Khunrath. Esta figura é barbada, com um corpo inteiro de mulher; tem numa das mãos o Sol e na outra a Lua, ligados por correntes. É uma bela alegoria desta cabeça viril que atribui só ao pensamento o princípio iniciador e criador. A cabeça, aqui, representa o espírito; e o corpo de mulher, a matéria. Os astros presos à forma humana e dirigidos por esta natureza de que a inteligência é a cabeça, oferecem também a mais bela alegoria. O signo, no seu conjunto, não deixou de ser considerado obsceno e diabólico pelos sábios que o examinaram. Para que admirar, depois disso, de ver acreditadas, nos nossos dias, todas as superstições da Idade Média? Uma só coisa me surpreende: é que, acreditando no diabo e nos seus agentes, não acendem mais as fogueiras. O Sr. Veuillot o quereria, e isto é lógico para ele; é preciso honrar sempre os homens que têm coragem de sustentar a sua opinião.
 
Prossigamos em nossas investigações curiosas e cheguemos aos mais terríveis mistérios do engrimanço, os que se referem à evocação dos diabos e aos pactos com o inferno.
 
Depois de ter atribuído uma existência real à negação absoluta do bem, depois de ter entronizado o absurdo e criado um deus da mentira, restava à loucura humana invocar este ídolo impossível, e é o que os insensatos fizeram, Escreviam - nos ultimamente que o respeitabilíssimo padre Ventura, antigo superior dos Teatinos, examinador dos bispos, etc., etc., depois de ter lido o nosso Dogma , declara que a Cabala, a ser ver, era uma invenção do diabo, e que a estrela de Salomão era um outro artifício do mesmo diabo para persuadir que ele, o diabo, faz um só com Deus. E eis o que ensinam seriamente os que são mestres em Israel! O ideal do nada e das trevas, inventando uma sublime filosofia que é a base universal da fé e a chave de todos os templos! O demônio pondo a sua assinatura ao lado da de Deus! Meus veneráveis mestres em teologia, sois mais feiticeiros do que julgam ou do que julgais vós mesmos; e aquele que disse: “O diabo é mentiroso como o seu pai “, teria, talvez, algumas pequenas coisas a corrigir nas decisões de vossas paternidades.
Os evocadores do diabo devem, antes de tudo, ser da religião que admite um diabo criador e rival de Deus. Eis como procederá um firme crente na religião do diabo, para corresponder - se com seu pseudodeus:
 
AXIOMA MÁGICO
 
No círculo da sua ação, todo verbo cria o que afirma.
 
CONSEQÜÊNCIA DIRETA
 
Aquele que afirma o diabo, cria ou faz o diabo.
O que é preciso ter para ser bem sucedido nas evocações infernais:
 
1 º - Uma teimosia invencível;
2º - Uma consciência ao mesmo tempo endurecida no crime e muito acessível ao remorso e ao medo;
3 º - Uma ignorância aparente ou natural;
4º - Uma fé cega em tudo o que não é crível;
5 º - Uma idéia completamente falsa de Deus.
 
É preciso depois:
 
Primeiramente, profanar as cerimônias do culto no qual se crê, e lançar aos pés os seus sinais mais sagrados.  
Em segundo lugar, fazer um sacrifício sangrento.
Em terceiro lugar, obter a forquilha mágica. É um ramo de um só broto de amendoeira, que se deve cortar num só golpe, com a faca nova que terá servido para o sacrifício; a baqueta deve - se terminar em forquilha; é preciso pôr dentro desta forquilha de madeira uma forquilha de ferro ou aço, feita da própria lâmina da faca com a qual foi cortada.  
É preciso jejuar durante quinze dias, fazendo só uma refeição sem sal, depois do ocaso do sol; esta refeição será de pão preto e sangue temperado com molhos sem sal ou de favas pretas, e ervas leitosas e narcóticas.
Cada cinco dias, depois do ocaso do sol, embebedar- se com vinho no qual terá feito infusão, durante cinco horas, de cinco cabeças de papoulas pretas e cinco onças de linhaça triturada: tudo contido numa toalha que tenha sido feita por uma prostituta (em rigor, qualquer toalha serve, se for feita por uma mulher).
A evocação pode ser feita, quer na noite da segunda para a terça -feira, quer na de sexta - feira para o sábado.  
É preciso procurar um lugar solitário e assombrado, tal como um cemitério frequentado por maus espíritos, uma ruína temida no campo, os fundos de um convento abandonado, o lugar onde foi cometido um assassinato, um altar druídico ou um antigo templo de ídolos.
É preciso prover- se de uma roupa preta, sem costuras e sem manchas, de um barrete de chumbo constelado com os signos da Lua, Vênus e Saturno, de duas velas de sebo humano colocadas em candelabros de pau preto cortados em forma crescente, de duas coroas de verbena, de uma espada mágica de cabo preto, da forquilha mágica, de um vaso de cobre contendo o sangue da vítima, de uma naveta contendo os perfumes, que serão de incenso, cânfora, aloés, âmbar- pardo e estoraque, incorporados e amassados com sangue de bode, poupa e morcego; é preciso ter também quatro cravos tirados do caixão de um supliciado, a cabeça de um gato preto alimentado com carne humana durante cinco dias, um morcego afogado no sangue, os chifres de um bode cum quo puella concubuerit ; e o crânio de um parricida.  
A pessoa traçará um círculo perfeito com a espada, deixando, todavia, uma ruptura ou um caminho de saída; no círculo inscreve um triângulo, pinta com o sangue o pantáculo que traçou com a espada; depois num dos ângulos do triângulo, coloca o fogareiro de três pés, que poderíamos contar entre os objetos indispensáveis; na base do triângulo faz três círculos para o operador e seus dois assistentes, e atrás do círculo do operador traça, não com o sangue da vítima, mas com o próprio sangue do operador, o sinal do lábaro ou monograma de Constantino. O operador ou os acólitos devem ter os pés descalços e a cabeça coberta.
Deve ter trazido também a pele da vítima imolada! Esta pele, cortada em faixas, será colocada no círculo e formará um outro círculo com os quatro cravos do supliciado; perto dos quatro cravos e fora do círculo devem ser colocadas a cabeça do gato, o crânio humano ou antes inumano, os chifres do bode e o morcego; devem ser aspergidos com um ramo de vidoeiro molhado no sangue da vítima; depois acende um fogo de lenha e amieiro e cipreste; as duas velas mágicas serão colocadas à direita e à esquerda do operador, dentro das coroas de verbena.
A pessoa pronunciará, então, as fórmulas de evocação que se acham nos elementos mágicos de Pedro de Apono ou nos engrimanços, quer manuscritos, quer impressos. A do Grande Grimório , repetida no vulgar Dragão Vermelho , foi voluntariamente alterada na impressão.
A grande evocação de Agrippa consiste somente nestas palavras: Dies Mies Jeschet Boenedoesef Douvema Enitemaus . Não temos a pretensão de entender o sentido destas palavras que, talvez, não têm nenhum, e ao menos não deve ter nenhum que seja razoável, pois que têm o poder de evocar o diabo, que é a soberana irracionalidade.
 
Pico de Mirandola, sem dúvida pelo mesmo motivo, afirma que na magia negra, as palavras mais bárbaras e absolutamente ininteligíveis são as mais eficazes e melhores.
 
As conjurações são repetidas, elevando a voz e com imprecações e ameaças, até que o espírito responda. É ordinariamente precedido, quando vai aparecer, por um vento violento que parece fazer ressoar em todo o campo. Os animais domésticos tremem então e se escondem, os assistentes sentem um sopro diante da sua fronte, e os seus cabelos, umedecidos por um suor frio, se arrepiam nas suas cabeças.
Estas são as assinaturas dos simples demônios; eis ao lado as assinaturas oficiais dos príncipes do inferno, assinaturas constatadas (juridicamente! ó Sr. Conde de Mirville), e conservadas nos arquivos judiciários como peças de convicção para o processo do infeliz Urbano Grandier.
 
Estas assinaturas estavam postas em baixo de um pacto de que o Sr. Collin de Plancy deu o fac - símile no atlas do seu Dicionário Infernal, e que traz como anotação: “O rascunho está no inferno, no gabinete de Lúcifer ”, apontamento muito precioso sobre uma localidade muito mal conhecida e sobre uma época ainda tão perto da nossa, anterior, portanto, ao processo dos moços Labarre e d ’Etslonde, que, como todos sabem, foram contemporâneos de Voltaire.
A cédula era dupla: o espírito maligno levava uma, e o reprovado voluntário ficava com a outra. As obrigações recíprocas eram, para o demônio, servir o feiticeiro durante um certo número de anos e pata o feiticeiro, pertencer ao demônio depois de um tempo determinado. A Igreja, nos seus exorcismos, consagrou a sua crença em todas estas coisas e pode - se dizer que a magia negra e o seu príncipe tenebroso são uma criação, real, viva, terrível, do catolicismo romano; que até são a sua obra especial e característica, porque os padres não inventam Deus.
Por isso, os verdadeiros católicos prendem - se no fundo do coração à conservação, à regeneração desta grande obra que é a pedra filosofal do culto oficial e positivo. Dizem que, na língua dos forçados, os malfeitores chamam o diabo de padeiro ; todo o nosso desejo, e falamos aqui não como magista, mas sim como filho devotado do cristianismo e da Igreja, à qual devemos a nossa primeira educação e nossos primeiros entusiasmos, todo o nosso desejo, dizemos, é que o fantasma de Satã não possa mais ser chamado também o padeiro dos ministros da moral e dos representantes da alta virtude. Entenderão o nosso pensamento e nos perdoarão a ousadia das nossas aspirações em favor das nossas intenções devotadas e da sinceridade da nossa fé?
 
A magia criadora do demônio, esta magia que ditou o Grimório do Papa Honório , o Enchiridion de Leão III , os exorcismos do Ritual , as sentenças dos inquisidores, os requisitórios de Laubardemont, os artigos dos Srs. Veuillot e irmãos, os livros dos Srs. Falloux, Montalembert, Mirville, a magia dos feiticeiros e dos homens pios que não o são, é alguma coisa verdadeiramente condenável em alguns, e infinitamente deplorável nos outros. É principalmente para combater, desvendando - as, estas tristes aberrações do espírito humano, que publicamos este livro. Possa ele servir para o êxito desta santa obra!
 
Porém, não mostramos ainda estas obras ímpias em toda sua torpeza e monstruosa loucura; é preciso compulsar os Anais da Demonomania , para conceber certos crimes que só a imaginação não inventaria. O cabalista Bodin, israelita por convicção e católico por necessidade, não teve outra intenção, na sua o Demoniomania dos Feiticeiros, senão atacar o catolicismo nas suas obras e solapar o maior de todos os abusos da sua doutrina. A obra de Bodin é profundamente maquiavélica e fere no coração as instituições e os homens que ele parece defender. Dificilmente seria possível imaginar, sem o ter lido, tudo o que ajuntou de coisas sangrentas e horríveis, atos de superstição revoltante, sentenças e execuções estúpidas. Queimai tudo! – pareciam dizer os inquisidores, - Deus reconhecerá os seus! Pobres loucos, mulheres histéricas, idiotas, eram queimados sem misericórdia por crime de magia; mas também que grandes culpados escapavam a esta injusta e sanguinária justiça! É o que Bodin nos faz entender, quando nos conta anedotas do gênero daquelas que põe na morte do rei Carlos IX. É uma abominação pouco conhecida e que, ainda que o saibamos, mesmo na época da mais febril e desoladora literatura, não tentou a nerve de nenhum romancista.
 
Ferido por um mal de que nenhum médico podia descobrir a causa nem explicar os terríveis sintomas, o rei Carlos IX ia morrer. A rainha -mãe, que o governava inteiramente e que podia perder tudo sob um outro reino; a rainha- mãe, que desconfiaram ter sido a causadora desta doença, contra seus próprios interesses, porque sempre supunham que esta mulher, capaz de tudo, tinha ardis ocultos e interesses desconhecidos, consultou primeiramente os seus astrólogos, sobre o rei, depois recorreu à mais detestável das magias. O estado do doente sendo, de dia para dia, mais duvidoso e ficando mais desesperado, resolveu - se consultar o oráculo da cabeça sangrenta , e eis como se procedeu para esta operação infernal:
 
Tomaram uma criança, de belo rosto e inocente de costume; fizeram - na preparar em segredo para a sua primeira comunhão por um esmoler do palácio; depois, chegado o dia ou antes a noite do sacrifício, um monge, jacobino apóstata e dado a obras ocultas da magia negra, começou à meia -noite, no quarto do doente e em presença somente de Catarina de Médicis e dos da sua confiança, o que então era chamada a missa do diabo.
 
Para esta missa, celebrada diante da imagem do demônio, tendo sob seus pés uma cruz deitada, o feiticeiro consagrou duas hóstias, uma preta e outra branca; branca foi dada à criança, que levaram vestida como para o batismo e que foi degolada nos próprios degraus do altar, logo depois da sua comunhão. A sua cabeça, separada do tronco num só golpe, foi colocada, toda palpitante, sobre a grande hóstia negra que cobria o fundo da pátena, e, depois, levada para uma mesa em que ardiam lâmpadas misteriosas. O exorcismo começou então e o demônio foi posto em condições de pronunciar um oráculo e responder pela boca desta cabeça a uma questão secreta que o rei não ousaria fazer em voz alta e nem mesmo tinha confiado a ninguém. Então, uma voz fraca, uma voz estranha e que nada tinha de humana, se fez ouvir nesta pobre criancinha mártir: “Sou forçado a isso ”, dizia esta voz em latim: Vim patior . A esta resposta, que, sem, dúvida, anunciava ao doente que o inferno não o protegia mais, um estremecimento horrível se apoderou dele, os seus braços ficaram rijos... Ele gritou com voz rouca: “Afastai esta cabeça! afastai esta cabeça! ”e, até o seu último suspiro, não o ouviram dizer outra coisa. Os que o serviam e que não estavam na confidência deste horrível mistério, acreditaram que era perseguido pelo fantasma de Coligny e que julgava ver diante de si a cabeça do almirante; mas o que agitava o moribundo já não era mais um remorso, era um terror sem esperança e um inferno antecipado.
Esta negra lenda mágica de Bodin lembra as abomináveis práticas e o suplício bem merecido deste Gilles de Laval, senhor de Raiz, que passou do asceticismo à magia negra e se entregou, para conciliar as boas graças de Satã, aos mais revoltantes sacrifícios. Este alienado declarou, no seu processo, que Satã lhe aparecera diversas vezes, mas que o tinha enganado sempre, prometendo tesouros que lhe não dava nunca. Resultou das informações jurídicas que várias centenas de infelizes crianças tinham sido vítimas da cupidez e da imaginação atroz desse assassino.
Original: Morte Súbita

quarta-feira, 30 de março de 2016

A Árvore da Vida Assíria

Pesquisando por artigos e fontes sobre a cultura babilônica e o quanto este povo influenciou o Judaísmo e o Cristianismo em suas crenças, práticas e rituais eu encontrei um artigo descrevendo a Árvore da Vida Assíria e suas correlações com a Árvore da Vida da Cabala.
Diz-se, inclusive, que o misticismo contido na Cabala seja de origem do povo Caldeus, mais especificamente dos Oráculos da Caldéia, cuja análise faz parte da obra de Jâmblico e Plotino. O Neoplatonismo contém muito dos mistérios do Egito Antigo, Caldéia, Acádia, Suméria, conhecimento que nos foi transmitido também pelo Hermetismo e pelo Ocultismo.
Apesar das informações esparsas e discutíveis, eu pressinto que eu deva explorar os mitos envolvendo Semíramis e Nimrod, visto que estes mistérios têm muitos elementos em uso no Paganismo Moderno, na Bruxaria Tradicional e na Wicca Tradicional.
A Árvore da Vida Assíria tem, como na Árvore da Vida Judaica, dez ramos [que são chamadas de Sephirots na Cabala], que são emanações ou atributos de Alaha Ashur, o Deus Supremo [Ain Soph, na Cabala], cada ramo identificado com um Deus do panteão Assírio.
Os dez ramos da Árvore da Vida Assíra tem na primeira linha, na coluna central, Anu [Kether ]; na segunda linha, coluna esquerda, Sin [Binah]; na segunda linha, coluna direita, Ea [Hokma]; na terceira linha, coluna esquerda, Enlil [Gevurah]; na terceira linha, coluna central, Mullisu [Tipheret]; na terceira linha, coluna direita, Marduk [Hesed]; na quarta linha, coluna esquerda, Adad [Hod]; na quarta linha, coluna direita, Nabu [Nezah]; na quinta linha, coluna central, Ishtar [Yesod], na sexta linha, coluna central, Nergal [Malkuth].
A primeira tríade é o domínio intelectual composto pela coroa, sabedoria e compreensão, a tríade mediana é o domínio moral composto pelo amor, compaixão e justiça, a tríade inferior é o domínio físico composto pela glória, vitória e fundação.
A coroa é Anu [Céu] e a fundação é Nergal [Terra]. Entre o Céu e a Terra, conectando-os, está a Deusa do Amor, Ishtar.
A Santissima Trindade [Pai/Filho/Espírito Santo] é composto por Alaha Ashur [Ain Soph, Pai, Adonai], Ishtar [Yesod, Filho/a, Sol, Amor] e Mullisu [Espírito Santo, Sophia, Shekinah, Mãe].
Essa análise é de autoria de Maggie Yonan, encontrada na página do Speak Assyria.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Bruxas modernas, mulheres de poder

Herdeiras das tradições matriarcais dos tempos em que a principal divindade era a Grande Mãe Terra, as bruxas medievais reaparecem hoje na pele – e no charme - de mulheres comuns.

Por: Luis Pellegrini

Original: Revista Oasis


“Chegou a nossa bruxinha!” Foi assim que a dona da casa saudou uma amiga convidada para o jantar. A anfitriã respondeu sorrindo quando perguntei por que chamara a outra daquele modo: “Ela estuda uma porção de bruxarias, tarô, astrologia, e sabe ler as linhas da mão”.
A “bruxinha” era jovem, bonita e elegante. Psicóloga de profissão, era casada e mãe de dois filhos. Quando me brindou com um sorriso cheio de encanto, perguntei a meus botões: Então são essas as bruxas de hoje? Se forem, o que fazer com a imagem estereotipada da bruxa tradicional, mulher má, velha e feia, corcunda, verruga na ponta do nariz, a voar nos céus montada em vassoura, ou diante de um caldeirão a cozinhar sapos e asas de morcegos com a intenção de produzir malefícios?
Uma pergunta puxa outras: O que é, afinal, a bruxa? Por que, hoje, chamar de bruxa a mulher que se interessa por ocultismos, adivinhações e magias já não é um insulto e sim, muito mais, um elogio carinhoso? O que mudou, a natureza da bruxa, ou simplesmente a visão que temos dela?
A bruxa, definida como mulher que conhece os segredos das leis mágicas da natureza – tanto a natureza externa, do mundo, quanto a interna, humana – existe provavelmente desde os tempos das cavernas. Seu objetivo fundamental é conquistar um poder de transformação sobre as coisas do mundo, sobre os outros e sobre si mesma. Bruxa, portanto, é mulher de poder.
Curandeiras, parteiras, sacerdotisas
No decorrer dos milênios, tanto nas civilizações do Ocidente quanto nas do Oriente, essas mulheres de poder quase sempre desempenharam livremente o seu papel, respeitadas e admiradas pelas pessoas. Eram curandeiras, parteiras, sábias nos usos medicinais das ervas, folhas, raízes, conhecedoras dos mistérios da natureza, da vida e da morte. Eram também sacerdotisas, profetisas, médiuns que funcionavam como elemento de ligação entre os vivos e os mortos, entre os humanos e os deuses.
Claro, havia também homens que exerciam essas funções. Mas eram minoria. Desde sempre, a natureza sensível da mulher foi considerada mais adequada para perceber os segredos da terra e manipular suas forças. No passado, como no presente, as mulheres são as herdeiras das antigas tradições dos tempos matriarcais, pré-cristãos, quando pontificava uma divindade feminina, a Grande Mãe Terra, mais simplesmente chamada A Deusa. Ela dominou a sociedade durante muito tempo, até o advento, há apenas dois ou três mil anos, do ciclo patriarcal, no qual a divindade máxima é um deus masculino, feito à imagem e semelhança dos homens. Desde então, tudo se inverteu. Os valores defendidos e ensinados passaram a ser aqueles convencionalmente atribuídos ao princípio masculino – a honra, a valentia, a competitividade, o espírito de conquista. Pouco a pouco, foram sendo esmagados os valores atribuídos ao princípio feminino – a receptividade, a adaptabilidade, a cooperação, o respeito à natureza e suas leis.
No decorrer da era patriarcal, as mulheres foram colocadas num plano muito inferior ao dos homens. Identificadas como causa e objeto do pecado pela tradição judaico-cristã, consideradas instrumentos do diabo para a perdição dos homens, as mulheres perderam quase todas as possibilidades de afirmação.
Desprestígio começou na Idade Média
Foi na Europa medieval, dominada pela religião patriarcal cristã, que se cristalizou o desprestígio da condição feminina. Todo o poder se concentrou nas mãos dos homens. Em primeiro lugar vinha o deus masculino; em seguida seus representantes na terra, o papa e o rei, com suas respectivas cortes; depois o senhor feudal; e finalmente o cidadão do sexo masculino. Para as mulheres praticamente nada restava na repartição do poder. Quase escravas dos seus senhores, seus papéis sociais limitavam-se à função de esposa e mãe, ou às profissões que reproduziam na sociedade esses mesmos papéis: enfermeiras, cozinheiras, costureiras, parteiras, domésticas. As que desejavam escapar desse destino podiam entrar para um convento (para se tornar esposas de Cristo), ou mergulhar no difícil caminho da prostituição (esposas de todos os homens).
Mas o desejo de liberdade, quando se instala no coração e na mente de uma mulher, é capaz de remover montanhas. Mesmo naquela situação de asfixia, algumas mulheres se rebelaram contra a camisa-de-força patriarcal e procuraram escapar dela. Entre essas mulheres estavam as bruxas. Herdeiras –conscientes ou inconscientes – da antiga tradição libertária dos tempos matriarcais, as bruxas faziam uso dos conhecimentos mágicos oriundos dessa tradição passada de mãe para filha, com o objetivo de conquistar poder. Muitas tornaram-se realmente mulheres de conhecimento e poder, e sua presença logo se destacou no meio da massa de mulheres reprimidas e esmagadas.
O poder patriarcal identificou nessas mulheres um perigo, uma ameaça, e reagiu. Como poderiam aqueles homens – por um lado, eles próprios prisioneiros dos papéis masculinos estereotipados que eram obrigados a representar e, por outro, pelos dogmas de uma igreja que dominava pelo terror – admitir a existência de mulheres mais livres e poderosas (no sentido mágico) do que eles próprios?
A ordem foi acabar com essas mulheres e, na onda terrível de perseguição, até alguns homens foram condenados à morte pelo mesmo “crime”: a bruxaria. Mas, segundo as estatísticas, as mulheres constituíram cerca de 80% das vítimas.
Oitenta por cento daqueles que a Inquisição mandou para a fogueira eram mulheres. Principal acusação: prática de bruxaria.
60 mil mulheres queimadas vivas
Tribunais da Inquisição eclesiástica surgiram em toda parte nos países europeus e inclusive nas Américas do Norte e do Sul. Calcula-se que cerca de 60 mil mulheres foram queimadas vivas entre os séculos 14 e 18. Um genocídio que, levando-se em conta a exiguidade da população naquela época, pode ser comparado ao massacre dos judeus pelos nazistas.
A acusação formal nesses julgamentos sumários era de heresia ou de pacto com o demônio. Mas, na verdade, bastava que o cidadão, principalmente se fosse mulher, se diferenciasse um pouco dos padrões da moral e do senso comum estabelecidos, para ser jogado no braseiro. Joana D’Arc foi queimada porque queria ser guerreira; Giordano Bruno, por afirmar que a Terra não era o centro do universo. Os anais da Inquisição estão cheios de relatos inverossímeis para a mentalidade de hoje. Existe, a título de exemplo, a história de uma mulher que não conseguia acordar durante a noite quando o marido a chamava. A infeliz foi parar num tribunal, denunciada pelo próprio marido, que a acusou de, durante o sono, abandonar o corpo em espírito para encontrar-se com o demônio. A mulher foi condenada e morreu na fogueira.
Dessa paranoia masculina nasceu a imagem feia e negativa que até hoje conservamos das bruxas. Mas, no bojo dos recentes movimentos de libertação da mulher e de resgate dos valores do feminino, essa imagem passa por um rápido processo de transformação. Ao lado da eclosão de ciências “femininas”, como a ecologia, estreitamente ligadas às leis e necessidades da terra, existe hoje, em todo o mundo, um enorme interesse pelos conhecimentos e valores essenciais da bruxaria. Claro, uma bruxaria moderna, de linguagem e roupagens renovadas, e não mais conectada a feitiços baratos à base de sapos, morcegos, vassouras e caldeirões. Muitas centenas de livros sobre o tema foram lançados nas últimas décadas, e seus autores apontam para o ressurgir de uma espiritualidade baseada na sacralização da natureza – exatamente o tipo de espiritualidade desde sempre praticado pelas bruxas.
Muitas analogias podem ser feitas entre a base essencial da religião das bruxas e a moderna psicologia. Por exemplo, as bruxas consideram reais quaisquer pensamentos ou fantasias, acreditando que eles influenciam concretamente as ações no presente. Assim, um fato realmente ocorrido e uma fantasia inventada pela imaginação têm idêntico valor psicológico. A psicologia tem essa mesma visão.
Na mente reside, para as bruxas, o poder de produzir mudanças, o poder de transformação. E cada mudança, acreditam, começa pelo encorajamento de uma atitude psicológica favorável a ela. Para exemplificar, se você deseja mudar de profissão, comece por se imaginar no desempenho de uma outra atividade que lhe proporcione sucesso, prazer e entusiasmo.
Ideias: Primeiro na mente, depois no mundo
Pelo fato de acreditarem que uma ideia deve viver na mente antes de viver no mundo, as bruxas atribuem grande importância à vida imaginativa. Por isso, as técnicas que ensinam a estimular e a focalizar a imaginação (como os recentes métodos batizados de visualização criativa ou a neurolinguística) constituem plataformas básicas da moderna bruxaria, junto ao poder da vontade e a força da mente.
Artefatos tradicionais ainda utilizados por algumas bruxas modernas, como a bola de cristal, espelhos mágicos, incenso, velas, joias, amuletos e talismãs, são na verdade usados como meios de capturar e fixar a atenção para, em seguida, desencadear processos cognitivos sutis da mente.
Na bruxaria, a vontade individual é sagrada. Depois de aprender a visualizar os seus desejos, a bruxa aplica o poder da sua vontade para trazê-los à realidade.
A única regra que controla e restringe o jogo da vontade é de tipo ético: ela nunca deve ser usada com propósitos egoístas ou destrutivos. A regra de ouro da bruxaria é: “Faça tudo aquilo que quiser, até o ponto em que o seu querer comece a perturbar ou ferir os outros”. O raciocínio que está por detrás dessa lei baseia-se muito mais num sentido de equilíbrio do que num ideal caridoso ou moralista. As bruxas acreditam que tudo aquilo que fazem produz efeitos que retornam a elas muito mais fortes do que a ação inicial. Pela “lei do retorno”, axioma fundamental da magia, o mundo é, para cada um de nós, um imenso espelho: tudo que projetamos nele, sejam atos, pensamentos, emoções ou sentimentos, mais cedo ou mais tarde voltará, como um reflexo, para aquele que fez a projeção. Assim, praticar magia para o bem trará sempre compensações positivas. Mas fazer feitiços maléficos é uma atividade muito perigosa, porque ao fazê-los a bruxa envolve-se com forças destrutivas que podem repercutir sobre a sua própria vida.
Mas, por outro lado, se alguém praticar o mal contra uma bruxa, ela estará, devido a essa mesma lei, perfeitamente a salvo ao executar o seu ato de vingança. Usará, nesse, caso, a própria energia negativa desencadeada pelo agressor, simplesmente devolvendo-a à origem.
Como a bruxinha cheia de charme que encontrei naquele jantar, as bruxas modernas estão soltas, livres e atuantes. Confundem-se a tal ponto com a mulher comum que sou tentado a dizer que toda mulher pode (e talvez deva) ser uma bruxa. Elas são pessoas que entenderam que magia não precisa ser, necessariamente, uma atividade que envolva estranhas cerimônias feitas atrás de portas fechadas.
A magia das bruxas é coisa tão natural quanto o ar que se respira, e o universo inteiro, dentro e fora de nós, faz vibrar constantemente o seu misterioso poder mágico. A natureza é mágica, e a mulher e o homem, seres que sintetizam todo o microcosmo natural, são também reservatórios do poder mágico.
[Nota deste pagão: a despeito de inúmeros dados incorretos, perpetuando muito da desinformação e excessiva mitificação, é uma boa exposição.]