sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A decadência da educação

Notícias recentes deixaram atônito o brasileiro, ao ver jovens, em uma instituição universitária "promovendo" uma "brincadeira": o "rodeio das gordas".

Alguns alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) decidiram criar uma “nova categoria” de competição nos jogos universitários deste ano, o InterUnesp. A “categoria” foi denominada de “Rodeio das Gordas”. Alguns rapazes começavam a bater papo com garotas, como se tivessem iniciando uma paquera. De repente uma delas era agarrada, até conseguir se livrar do seu agressor. Enquanto alguém cronometrava o tempo que o agressor conseguia segurar sua vítima, outras alunos caçoavam dela, fazendo com que agressão física também fosse uma agressão moral.
O fato, absurdo, aconteceu em um evento que deveria promover a confraternização entre os estudantes de 20 campi da Unesp, espalhados pelo interior de São Paulo. Os agressores são alunos de uma das mais disputadas universidades públicas do País. A maioria pertence a famílias de classe A e B e frequentou os considerados melhores colégios antes de ingressar na universidade.
O fato não é isolado. No dia-a-dia das salas de aulas, milhares de alunos reproduzem valores de uma sociedade que não valoriza a diversidade e a diferença. É evidente que a educação para a diversidade também é função da sociedade e da família, mas deveria ser privilegiada na escola.
A Organização das Nações Unidas (ONU) considera quatro as principais funções da escola. Que o aluno “aprenda a conhecer”, “aprenda a fazer”, “aprenda a ser” e “aprenda a conviver”. Esta última função, se cumprida, faria a escola desenvolver capacidades cognitivas que levassem o aluno a respeitar e valorizar a diversidade, a proteger o meio ambiente, a atuar pelo fim da miséria e pela consolidação da democracia, entre outras ações.
No entanto, nossas escolas, principalmente no ensino médio, não cumprem nem esta, nem as demais funções citadas. Os currículos escolares estão demasiadamente orientados para os vestibulares. A maior parte de quem acessa o ensino superior público só sabe acertar questões. Decorar o que é um ditongo, saber os afluentes das duas margens do Rio São Francisco, fazer analise sintática das orações, distinguir as diferenças entre um triângulo isósceles, escaleno ou equilátero, lembrar o último ganhador do Nobel da Paz ou definir as estalactites e estalagmites não garante que uma pessoa seja bom pesquisador, bom administrador, bom servidor público, bom pensador ou bom cidadão.
O que ainda fazemos é uma educação “bancária”, que deposita conhecimento nos alunos. A diferença entre algumas escolas privadas e a maior parte do ensino publico é que as particulares depositam justamente o conhecimento que pede o vestibular. No mais, as duas são muito ruins e o que fazem em seus espaços não pode ser chamado de educação. Acontece que quem tem as condições familiares, sociais e financeiras participa de um vestibular como de um rodeio, onde eles têm muito mais condições de segurar suas vagas.
Como resultado temos ações como as destes jovens que acham natural estigmatizar padrões de beleza e atentar contra a moral e contra a integridade física de outras jovens. E, se tudo der errado é só pedir desculpa, dizer que foi só mais uma brincadeira e apagar os relatos de suas redes sociais, como se isto pudesse apagar a violência na memória das vítimas.
Vale lembrar que estes alunos agressores foram selecionados para a Unesp em nome da meritocracia. Pois eu afirmo, a meritocracia defendida pela maioria de nossas universidades não passa de um engodo para justificar as vagas e as carreiras na universidade pública. Se fosse mesmo por mérito que cada aluno conquistasse seu lugar nessas instituições, as lista de aprovados seriam bem diferentes. E não contariam com os alunos que organizaram e com os que foram coniventes com este "rodeio".[Último Segundo][link morto]

O brasileiro, tão anestesiado pelas sucessões de escândalos e descalabros que só acontecem na República das Bananas, deve imaginar: "Ah, são jovens, isso é normal, acontece de vez em quando". Não é normal não. Nem acontece de vez em quando. Tivemos a Uniban e a Geisy Arruda. Tivemos a USP e a homofobia explícita. Sem falar em inúmeras notícias todos os anos relatando os trotes violentos, como o que resultou na morte de Edson Tsung.
Esse é o resultado de nossa falta de consciência política. Esse é o resultado de elegermos mal nossos governantes. Esse é o resultado de uma classe política mais interessada em se perpetuar no poder, em amealhar a res pública, do que em administrar o bem público. Esse é o resultado que se reflete no sucateamento da saúde, na ineficiência do transporte público e, por fim, na decadência da educação.
Acorda, Brasil!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Monogamia é crime

Parte 1: Monogamia
A monogamia prega que devemos viver e ser única e exclusivamente de uma pessoa, depositando nesta todos os nossos desejos e necessidades. Construiu-se assim um modelo de felicidade sustentado pelo casamento e pela família perfeita. Vive-se pelo outro, não por si e apenas um único ser deve lhe nutrir. As personalidades se misturam e se perdem, é preciso manter a aparência, diminuir o afeto pelos outros, negar o desejo, os futuros envolvimentos, descobertas e vínculos, o amor é canalizado, não mais distribuído.
Reprimir, esconder, mascarar são artifícios que tornam o homem um ser fantoche, sem autonomia e identidade. Perdendo sua essência no meio de tantas farsas que precisa criar. Tornando-o escravo do outro, movido pelos desejos alheios e pela imposição social.
Não carregarei o peso dessa herança monogâmica, não serei mais vítima desse sistema que prende, cega e iludi com falsas idéias. O modelo monogâmico não se encaixa no que vivo, vai contra o que eu pense e sinto. Desejo e preciso de diversas pessoas, por necessidades e escolhas e não repetirei as mesmas histórias nem construirei uma farsa para adequar-me a sociedade. Sou livre e tenho o direito de manifestar e seguir meus desejos. Vivo através do que acredito ser real e cabível à minha vida, não pela sobrevivência, mas pela liberdade de viver.
Parte 2: Comercial
O que é em nome do amor não precisa de contrato, assinatura, papéis, prata, ouro. Estar algemado não significa estar unido a alguém. Não preciso ter uma aliança no dedo ou subir em um altar para comprovar meu amor. Os bens materiais, que simbolizam um relacionamento, estão muito aquém quando se trata de demonstração de sentimento. Sou mais que qualquer status social ou relacionamento pode me oferecer.
Sentimentos, desejos, paixões são invisíveis aos olhos, são marcas mais fiéis que qualquer tatuagem, o capitalismo não compra, nem vende, muito menos manda fazer. A sociedade cobra um ideal de relacionamento eterno e verdadeiro, materializa a felicidade em objetos e pessoas, favorecendo a economia. Felicidade não se compra, se constrói e é através da troca com cada ser que construo um relacionamento. Basta um toque ou um olhar para sentirmos que algo é real e verdadeiro.
Parte 3: Autonomia
Ninguém é objeto para ser posse de alguém, por isso não deixo que prendam meu corpo, nem minha mente. Sou dona de mim, dona do meu corpo, das minhas atitudes e pensamentos. Não admito pedir permissão, dar satisfação, provar e comprovar o que diz respeito a mim e ao que faço ou ser reprimida por manifestar minhas vontades. Ajo através dos meus desejos e tenho a liberdade de escolher o que quero.
Não crio farsas ou teatrinhos morais baseados na perfeição do romantismo ou nas juras de amor eterno. Não procuro uma cara metade, pois não preciso de metade alguma para me completar. Sou um ser único e inteiro, não me falta nenhuma parte. Minha felicidade depende apenas de mim e ninguém é dono ou responsável por ela. Não deposito em ninguém o peso minhas escolhas, sou a única responsável por tudo que tenho e sinto, pois sou a fonte das minhas alegrias e tristezas, se algo der certo ou errado a vitória e a culpa serão minhas.
Parte 4: Multiplicidade
Sou apaixonada pela vida e vivo intensamente minhas paixões sem precisar tê-las só para mim. Alegro-me ao ver aqueles que amo amando e serem amados por outras pessoas. Não sou egoísta em querer vê-los felizes apenas ao meu lado e não tenho motivos para odiar alguém que ama quem eu amo. Não sou melhor nem pior que ninguém, não me firmo nos erros ou fraquezas dos outros para atingir quem desejo. Não estou em um jogo para competir ou disputar sentimentos e espaço. Amo e sou amada e não preciso dividir sentimentos, eu os multiplico.
Fogo de palha ou vulcões em erupção, superficial ou não, do dia pra noite, da noite pro dia, diariamente, semanalmente, pra vida inteira ou somente algumas horas. Não é preciso haver regras. Não tem dia nem hora marcada, simplesmente acontece, e o silêncio de um olhar e um abraço responde muito mais que grandes discursos furados de fidelidade.
Amo cada ser de forma completa e absoluta sem precisar medir ou colocar na balança meus sentimentos. Cada ser tem seu valor e sua importância sejam elas estáveis ou não. Cada um contribui de forma única e essencial para a construção de uma relação sem perder seu eu original, gerando um bem estar para ambos. Assim relações são construídas, compreendendo, respeitando e valorizando a individualidade de cada ser.
Parte 5: Liberdade
Não cavo buracos, dos quais não consigo sair, não vendo meus olhos, não me finjo de morta, não me calo nem me faço de desentendida. Entendo e entendo muito bem e mais que entender: sinto! Não sou um zumbi social querendo corações batendo, sou vida querendo mais que calor humano. Quero e cultivo sinceridade, confiança, respeito, honestidade e liberdade.
Sou livre em mim e sou fiel a mim mesma, não traiu minhas vontades, não minto nem me engano, não nego o que quero, não faço feridas pro tempo apagar. Destrui as gaiolas e as jaulas que me cercavam. Não me prendo, nem prendo mais ninguém, não carrego nem coloco correntes, não cultivo sentimentos escravos. Minhas paixões são livres e assim eu as deixo.
Querer, desejar, amar, não importa o verbo ou o sentimento, liberdade encaixa-se muito bem com qualquer um deles. Liberdade, não de plenitude, utopia, rompimento com o mundo, não egoísta ou narcísica. Liberdade como alimento que nutre, fornecendo vida, tornando-nos vivos e autônomos, capazes de fazer e assumir o que desejamos. É esta liberdade que nos une, em uma união mais forte que qualquer nó formado pela monogamia.
O que há de mais puro e natural no ser humano são seus sentimentos. Não vou contra minha natureza, não prendo nem repreendo meus sentimentos, sejam eles dóceis ou selvagens. Tenho uma fauna em mim! Não mantenho em cativeiros sentimentos que são mais puros e belos quando soltos, podendo habitar diferentes terra, ares, mares e quando quiserem voltarão para os lugares que desejarem. Quem quer volta, não precisa de coleira!
Parte 6: Crime
A monogamia ilude o homem, fazendo-o achar que por amor deve-se prender e deixar de lado seu eu essencial, que a felicidade esta no outro, fazendo do outro seu objeto e que somente assim se mantém uma relação. Tira do homem sua liberdade de escolha, taxa e rebaixa seus sentimentos, repreendendo toda e qualquer manifestação do ser, por mais natural que seja.
Para mim este é o maior crime que o homem é submetido, pois torna-o refém dos outros, submisso ao relacionamento. Monogamia para mim é crime, um crime que não é previsto pela lei, mas que vai contra o meu ser, meus ideais de vida e minha liberdade.
Não cometo o crime de ser infiel a mim mesma, de prender meu corpo e minha mente, negar meus desejos e sentimentos. Crime é tentar fugir do que sou ou esconder-me nessas diversas prisões sócio-culturais. Estou quebrando esta redoma, não aceitarei este monopólio sentimental. Monogamia para mim é crime e deste crime não serei cúmplice, muito menos vítima!
Autora: Maura Oliveira
Fonte: Rede de Relações Livres

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os feudos atuais

"A religião é o ópio do povo", frase que se consagrou como máxima popular teve sua origem na concepção materialista de Karl Marx. Porém, o fato de esse pensamento ter se incorporado, em parte, ao senso comum, não significa dizer que as pessoas, ao proferirem-no, estejam irremediavelmente desconectadas da religião. Quando nos propomos a "esquecer" um pouco a frase e seu contexto como máxima, percebemos também o quanto a Igreja, em suas várias correntes, contribuiu para a sociedade civil e para a própria religião - seja com as ações das pastorais, com as campanhas sociais das Igrejas evangélicas ou com a força de alguns líderes, ícones de uma imparidade pouco vista, como D. Helder Câmara e Martin Luther King. Mas voltemos à realidade...
Em pleno século XXI, ainda lidamos com o despropósito de setores conservadores da Igreja Católica e Protestante, que ainda se acham no direito de interferir no cenário político e nas eleições. Religiosos deixam à margem sua liturgia de pregar o Evangelho, para se entregarem de corpo, sem alma, à orientação de seus fiéis sobre como votar nestas eleições. Ao sugerir a seus fiéis apoiar esse ou aquele partido, essas pessoas deixam de ser crentes, seguidores de uma crença religiosa, passam a ser fiéis-eleitorais.
O pastor, padre ou qualquer líder religioso, tem (e deve), além de crer, que pregar o Evangelho e replicá-lo aos seus, buscando aplicar o ensinamento religioso do livro sagrado à realidade - e ao que ele e sua instituição julgam como certo e errado, enfim, virtude ou pecado.
Acontece que o limite entre a legítima prática da fé - por meio da defesa religiosa em prol dos valores e práticas cristãs - e a isonomia, o respeito à liberdade - o direito de cada cidadão de votar como quiser - consiste uma fronteira muito tênue. Além disso, claro, todos devem poder se expressar de qualquer forma e gênero, independente de sua religião ou credo, conforme sua consciência - com o agravante de valermo-nos do voto, como a maior instância de participação popular em uma democracia, mesmo recente e incipiente como à nossa. E votar é um ato puro e intransferível, não sendo uma prerrogativa e nem direito de propriedade da terra da fé. Depredar a cerca e adentrar neste fronteiriço e limite de terra comum a todos, é um absurdo, especialmente se for feito por meio da política. Desta forma, não o seria também por meio da religião?
Vale lembrar que os fiéis, mesmo também eleitores, são antes de tudo e de qualquer coisa, cidadãos. Na constituição, não há referência a garantias e direitos de um fiel, muito menos dos fiéis. São pertenças inegociáveis aos cidadãos. Portanto, usar da prática da fé para motivar um grupo de fiéis, em plena igreja ou culto, a votar neste ou naquele partido é um retrocesso secular. Para ser franco, milenar; haja visto que há 200 anos, tivemos o desprendimento à liberdade de pensamento garantida com o Iluminismo com a passagem do século das Luzes (XVIII) e sua "permanência" na contemporaneidade.
Agir e usar a religião como subterfúgio subterrâneo e arcaico, para manobrar a opinião pública de seus fiéis, significa imprensá-los na própria armadilha do ser humano: o cumprimento de sua autocrítica e autoquestionamento da moral coercitiva da "sociedade" e seus grupos. Frente ao preço moral do autoflagelo do descumprimento da "ordem", vê-se uma espécie de beco-armadilha, que coloca-nos como cidadãos à margem do século XXI, do XVIII e nos remete, no mínimo, para o século XIV, no Feudalismo, onde o Clero agia com o peso de sua influência religiosa e política. Só que naquele tempo não tínhamos a luz do sol refletida em uma Terra redonda, nem a terra girando em torno deste sol, muito menos, as leis de Newton. Na verdade, não tínhamos quase nenhuma luz, só a quase e total penumbra, em movimentos de translação e rotação. Hoje é diferente. É preciso esquecer um pouco que a frase "A religião é o ópio do povo", é uma máxima.. e entender que, também no caso da religião, ela precisa ser mais "povo", do que "ópio".
Autor: Diego Fonseca Dantas
Fonte: O Globo [link indisponível]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Poliamor e monogamia no século XXI

Essa é uma conversa para quem sonha em construir uma relação de GENTE GRANDE. É também desaconselhável entrar nesse texto quem está satisfeito com o estilo vivido nas relações de amor e de amizade na sexualidade. Para que alguém se torne adulto e gente grande, em uma relação no alvorecer desse século e mundo de infinitas possibilidades, é preciso estar online e conectado na rede de necessidade humana hodierna e que se abra às metamorfoses nos paradigmas de vida e de imaginar a sexualidade.
REDE DE POSSIBILIDADES - Vivemos em uma era de grandes possibilidades de conexões virtuais e reais. Um debate de alto e bom nível, fundamentado e nada superficial, é o que se precisa ser gerado, gestado e desenvolvido nesse espaço. Considera-se que o POLIAMOR é em debate inicial para quem acredita e sonha grande. E é um embate oxigenado sem dogmas, de poliamorosos com todos os que vivem em um mundo conformado, em um modelo em fase terminal, seja monógamos e ou polígamos velados. É uma possibilidade humana de se resgatar o amor no século XXI, em seus princípios originais, que está latente na imagem simbólica do EROS grego, Deus do amor.
DEMOCRACIA SEXUAL - Para o Poliamor, qualquer uma das formas de amar e viver a sexualidade, seja ela BI, HOMO, PAN, POLI e HETERO é perfeitamente normal. Para o modelo de sexualidade herdada da tradição cristã, patriarcal e ocidental, ter uma opção de sexualidade, que não seja monogâmica-heterossexual é patologia e distúrbio relacional. A sexualidade deve ser vivida de modo transparente e democrático, ético e humana. O único limite é dignidade humana, que deve ser elevado a uma escala em processo vital de humanização.
MUNDO VIRTUAL - É fato notado, notório e notável, ao se entrar nas salas de bate-papo, quanta necessidade de contatos, de sexo, de relações, de conexões que as pessoas têm. Será que essa é uma necessidade humana ou machista, de sexo ou de afetos que afugentem, afaguem, acalentem ou é apenas promiscuidade e compulsividade imatura? O que se pode perceber é um descontentamento geral, na forma sufocada em um desabafo incontido, alegando que no interior da maioria das famílias, nas formas de namoro ou até mesmo na nova onda ‘do ficar’ não é mais um lugar ou um ventre tão acalentador ou um espaço que favoreça com que as pessoas se conheçam. A discussão que circula nesses espaços virtual de conexão deriva da questão do sexo com sendo ‘o pomo da questão. ’
Pode-se dizer de modo seguro, que o poliamor tem uma resposta efetiva para essa realidade, se identifica com ela e tem muito a ajudar nessa reflexão. Sabe-se que o sexo, o amor, as sacanagens do desejo e da imaginação devem ser vividos e debatidos de modo transparente e sem pudores. Acredita-se que deva existir uma cultura e hábitos humanos, prazerosos e arejados. Oede se entregar em uma relação e sentir a fusão da outra pessoa, em seu ser, não tem estrutura para ser poliamoroso, e sim para viver em uma relação monogâmica.
FAMÍLIA MONOGÂMICA[MONO] - Essa é uma discussão teórica que a NAVARRO faz em seu livro, A CAMA NA VARANDA, e que deixa a visão dos é monogâmicos em estado de choque. Ela mostra e analisa isso no conjunto do livro, ao afirmar de modo irônico que, a família herdada nesse século é a ‘célula mater’, que educa as pessoas para que vivam suas relações de modo dependentes e eternamente imaturas, umas com as outras, seja do ponto de vista emocional, afetivo e sentimental. Por outro lado, é próprio da família MONO em distorcer e reduzir o amor ao mundo doméstico e privado da família burguesa. Escuta-se esse mesmo discurso em todos os espaços formais e informais de educação e eles reproduzem e induzem as pessoas a pensarem que o afeto e o amor só podem ser vividos em uma relação monogâmica hétero. ‘Quando amo alguém eu não sinto desejo por outra’. Essa é a visão comum e recorrente.
PATOLOGIA AFETIVA - É indispensável analisar as condições afetivas das pessoas nesse mundo de desencontros tidos como casamentos e ou relacionamentos. As pessoas são educadas no seio do lar para depender afetivamente dos outros. Digo depender de modo infantil, animal e patológico. É normal e cultural interdepender e precisar do outro para se desenvolver em afetos, os desejos e sentimentos.
VIOLÊNCIA SIMBÓLICA - Pode-se perguntar, e por que não inferir, que essa visão não se encaixaria naquilo que BOURDIEU fala ao se referir à ‘violência simbólica’? Dir-se-ia que sim. Somos ideologizados, induzidos a ter uma visão única da vida afetiva, hospedada nos seio de uma família de ordem patriarcal. Isso é violência simbólica no dizer dele e ao mesmo tempo é manipulação e alienação da propriedade privada na perspectiva marxista.
POLIGAMIA=MONOGAMIA - A melhor caracterização que diferencia o Poliamor tanto da monogamia, como da poligamia, seria dizer que para quem ‘é poliamoroso’ como concepção e conduta de relacionamento: ‘cuidado e cuidado’, ‘amizade e amizade’, ‘sensibilidade e afetividade.’ Isso inexiste no modelo de matrimônio e poligamia velada nossa cultura brasileira, desde a colônia. Essa percepção é relevante para os homens e mulheres, desse século do vazio e da fuga desesperada de si mesmo na busca frenética pelo consumismo. Tanto na monogamia quanto na poligamia as relações que se pautam no apenas no sexo, na coabitação e na procriação. Consumismo de si mesmo, consumismo dos outros, consumismo de produtos, consumismo de tecnologias, consumismo virtuais.
ARISTÓTELES – Diz-se que poliamor é mais uma escola de uma nova forma de viver a sexualidade e o afeto, o amor e o desejo, as paixões e a imaginação. Como disse Aristóteles, só a poucos é concebida a graça e a virtude, a excelência e a nobreza de experimentar essa maravilha de prazer e felicidade de viver. Só quem tem a sabedoria prática a partir da vida com os amigos sabe saborear o prazer dos amigos e da amizade. Ter a coragem de viver paixão e amor para além do estereótipo que está aí.
PLATÃO – Platão em seu livro, A REPÚBLICA, já falava de uma forma de relação, atribuída aos guardiões, sem o senso de posse e livre expressão sem características Monogâmica, que se assemelha aos pressupostos do poliamor em nossos tempos. Mas na, visão dos gregos só uns poucos e seletos e bem educados teriam condições de viver dessa forma.
POLIAMOROSO - Na verdade esse é o grande desafio que está colocado para quem acredita em poliamor. Acredita-se que só poucos podem viver de modo humano o poliamor. Só quem souber se relacionar com a outra pessoa sem querer fazer dela coisa e desejar cuidar dela como de si mesmo, e isso não é fácil, tem condições de entender o que seja o poliamor. Só vive de modo poliamoroso quem tem afetividade aberta, em processo, em desenvolvimento e adulta, digo adulta e não adúltera.
A UTOPIA - É sonho para o poliamor uma comunidade vivendo com todos os amores do passado, do presente e do futuro. E por princípio deve-se manter uma boa relação com quem se vive um relacionamento íntimo. Quando se fala em relacionamento íntimo, não se limita apenas ao ato sexual. Íntimo quer dizer relação transparente, livre, enraizada, aberta, racional, de desejo. Acredita-se que esse espaço deve redimensionar o debate e tornar pública essa possibilidade das possibilidades de se viver de modo completo a sexualidade.
Autor: Raimundo Expedito Pires
Fonte: Sexualidade e Poliamor em Tocantins

domingo, 24 de outubro de 2010

A nudez como ativismo


A notícia não devia chamar atenção [PS: pelo motivo usado pela Imprensa], mas chamou:

Ativistas dos direitos femininos subiram à passarela da semana de moda da Ucrânia, na última terça-feira, 19, para protestar. Com seios à mostra, as manifestantes empunhavam cartazes com frases como "Passarelas são como açougues" e "Modelos, não terminem em um bordel".[Ego][link indisponível]

Ponto para as integrantes do Femen, um grupo de feministas da Ucrânia.
Ponto para este blog, que encoraja o uso da nudez como ferramenta da militância, como eu escrevi no texto "Militância pelo corpo".
Só em uma sociedade sexualmente doente a nudez [especialmente a feminina] incomoda tanto a ponto de apenas poder ser expressa nas ditas revistas "adultas". Existe uma associação deliberada de que nudez=sexo=mulher=pecado. Um sistema social/politico/religioso que se sustenta pelo medo, insegurança, patriarcado, machismo e sexismo.
A Imprensa local não explica nem divulga os ideais dessa organização [a Femen] exatamente porque é cúmplice e colaboradora.
Usando o oráculo virtual [Google], eu encontrei quem são e o que defendem as integrantes do Femen:

As FEMEN são um movimento social composto na sua maior parte por mulheres, (integram-no alguns homens também) e que tem chamado já em ocasiões anteriores chamado a atenção internacional por as activistas se manifestarem em topless contra a prostituição e contra o turismo sexual.
Alguns dos objectivos deste movimento são desenvolver as capacidades intelectuais, morais e de liderança nas jovens ucranianas, e desenvolver a imagem da Ucrânia como um país onde existam oportunidades para as mulheres.
O movimento FEMEN foi fundado em 2008 por Hanna Hutsol (nascida em 1983) depois de ela ter ficado aturdida com as histórias de muitas mulheres ucranianas que têm sido atraídas para países estrangeiros com falsas promessas de trabalho, e que acabam por se tornarem vítimas do tráfico e escravatura sexual.
"Criei este movimento porque compreendi que havia falta de ativistas femininas na nossa sociedade.
A Ucrânia é uma sociedade dominada pelos homens e na qual as mulheres têm um papel passivo".
Desde então a organização tem protagonizado bastantes manifestações "sexualmente apimentadas" em Kiev, junto dos gabinetes ministeriais e junto da embaixada turca em Kiev.
A senhora Hutsol, é veementemente contra a legalização da prostituição na Ucrânia e a FEMEN (que já integra perto de 15 mil jovens, sobretudo mulheres) propôs a introdução de leis na Ucrânia que criminalizem a indústria do sexo em Maio último.
A FEMEN justifica os seus métodos provocativos alegando "que este é o único meio de se ser ouvido neste país.
Esta forma de protesto é também uma forma de ironicamente alertar para muitas das incongruências de uma sociedade que continua a relegar os seus cidadãos do sexo feminino atribuindo-lhes um papel secundário.
"Se encenássemos os protestos tradicionais com bandeiras, os nossos protestos passariam despercebidos."

Copiado do blog Desigualdade de Direitos, que traduziu do Wikipedia.

PS: com as mudanças no Blogger e na redefinição dessa blog para o público adulto, eu estou repostando a foto, como foi achada no Wayback Machine.

A privatização dos direitos

Na reta final das eleições presidenciais, eu [e os brasileiros] tenho visto o pior exemplo da concorrência política, este ano eleitoral ganhou em baixaria do ano eleitoral quando houve a competição entre Collor e Lula.
Daquela época ainda se comenta do "tapetão" promovido pela Globo. Até aí, foi apenas a Globo e seus "associados".
Passamos ao ano eleitoral atual, onde vemos os costumeiros dossiês e quebras de sigilo ilegais. Mas isso foi café-com-leite com o "tapetão" que os setores radicais e fundamentalistas [da Igreja e dos Evangélicos] estão armando e ambos os candidatos estão engolindo a isca, com acordos para evitar a legalização da união homossexual, a garantia de liberdade religiosa [de toda forma de crença, sem monopólios ou privilégios] e propostas que visem um tratamento mais humanitário à questão [que deve ser médica e racional] do recurso clínico do aborto.
Quem está acompanhando esse BBB/novela eleitoral deve ter visto a recente polêmica resultante da apreensão de folhetos/panfletos/documentos, supostamente de autoria da Regional Sul, praticamente tentanto induzir na decisão dos brasileiros para o segundo turno.
Primeiro, lançou-se a suspeita de que a gráfica teria vínculos com o PSDB, porque um de seus sócios é membro do partido. Discutível, uma vez que a gráfica também imprimiu propaganda do PT.
Depois se suspeitou de que havia outros interesses escondidos, uma vez que um dos possiveis colaboradores da fatura da impressão desse folheto está ligado à instituição Theotokos, uma instituição ligada à Plinio Salgado [fundador do Integralismo] e à TFP [Tradição, Família e Propriedade]. Esse vínculo está mais evidenciado, considerando que o bispo que "assinou" o folheto, em contraste com a versão oficial [oficiosa?] da CNBB, é considerado ultraconservador. Ou seja, quem jogou o aborto [ou o feto] na campanha eleitoral foi o PSDB/Igreja, não o PT.
No Blas Fêmeas [extinto] eu detalhei melhor esse jogo sujo. Então vamos ao furdúncio que se seguiu:
De um lado a CNBB tratou de declarar que não patrocinava a impressão ou divulgação do folheto/panfleto/documento.
De outro lado, o bispo solicitou a devolução dos folhetos/panfletos/documentos, declarando que era um documento "legítimo" da Igreja.
Na terceira coluna, vem os Católicos [e outros acólitos da Igreja] clamando contra a "censura" e a "ditadura", em defesa do "direito de liberdade de expressão, de opinião e crença" da Igreja [e dos Católicos].
A questão não é garantir o "direito" da Igreja [ou dos Católicos], o "direito" inerente a esta instituição está condicionado ao respeito dos direitos garantidos a todos, não apenas à Igreja. Quando a Igreja, ou um bispo, abusa de seu "direito" de liberdade de expressão e de opinão para tentar influenciar a escolha dos brasileiros de escolher, isto é crime eleitoral. Quando a Igreja, ou um bispo, se vale de sua influência ou autoridade na sociedade brasileira para fazer proselitismo de suas doutrinas, isto é a verdadeira censura e ditadura, pois se está calando o direito de se ter uma visão e uma opinião diferente. Quando a Igreja, ou um bispo, se escondem debaixo da defesa dos "direitos", não reconhecendo estes mesmos direitos aos demais, isto é a privatização dos direitos, é a imposição de uma opinião, de uma doutrina, isto é totalitarismo, é autocracia, é ditadura clerical.
Aproveito um texto meu: O que se tenta ocultar do público nessa pretensa "defesa dos direitos" é que esta visão é religiosa e doutrinária, ofendendo e não reconhecendo [...] os mesmos direitos que dizem defender. O discurso [...] dos cristãos fundamentalistas sequer pode ser entitulado de "opinião", mas sim de sentença arbitrária, baseada em uma doutrina religiosa arrogante e prepotente, que se arroga uma verdade sagrada e/ou divina. Nem se trata de "garantir os direitos de expressão/opinião/crença", mas de garantir e resguardar o totalitarismo arbitrário dessa visão religiosa e doutrinária, tentando censurar ou denegrir as opiniões contrárias que contestem ou desafiem esse totalitarismo.
Aproveito também uma citação tirada do caso Ellwanger: [...]a garantia constitucional da liberdade de expressão não é absoluta, tem limites jurídicos e não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações que implicam ilicitude penal. No caso concreto, explicita o acórdão: "O preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o "direito à incitação ao racismo" [ou da incitação eleitoral, no caso-nb], dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica".
Reitero meu aviso e alerta: Não se enganem com estas estratégias desonestas, a Igreja não faz esta campanha em prol dos "direitos" desses "bebês inocentes" (um feto não é um bebê, nem é uma pessoa), mas para manter seu poder e influência na sociedade. A Igreja se coloca como defensora do casamento, da família, da vida e dos valores sociais, não porque esta é bondosa, mas por razões corporativas.

sábado, 23 de outubro de 2010

E por falar nisso

O ASSUNTO CONTINUA o mesmo: o aborto. Você é contra ou a favor? Se não é candidato, tem o direito de achar o que quiser e, sobretudo, a mudar de opinião e negar, com muita clareza (como diz Dilma), o que disse antes, mesmo que suas declarações estejam gravadas, portanto, ao acesso de qualquer eleitor.
Como o passado para alguns não condena, o que interessa é o presente -e o segundo turno, é claro.
Sobre o assunto, gostaria de saber a opinião do nosso vice-presidente, José Alencar.
Como todos sabemos, ele se recusou a fazer o exame de DNA que provaria -ou não- uma sua suposta paternidade. Alencar se recusou a fazer o exame de DNA, declarando, elegantemente, que a mãe de sua possível filha frequentava a "zona" e que, portanto, ele não tinha nenhuma responsabilidade sobre o caso. Pela lei, quem se recusa a fazer o exame é declarado legalmente pai, mas não vi uma só notícia, em nenhum jornal, esclarecendo essa história. Será que os vices têm imunidade e tudo bem?
Eu, por mim, torço para que essa moça, que já é uma senhora, tenha direito à parte da herança do seu possível pai, que não deve ser pequena. E fico pensando: será que se na época nosso vice, tão católico, tivesse sido procurado por sua parceira dos velhos tempos, teria dado força para que ela, em nome de suas (dele) profundas convicções religiosas, tivesse esse filho? Ou talvez até ajudado, financeiramente, a que ela fizesse um aborto?
Nenhuma mulher gosta de engravidar sem querer; milhões delas provocam o aborto nas condições mais primitivas e têm que procurar ajuda num hospital -correndo o risco de irem para a cadeia, como criminosas- e muitas morrem. A igreja proíbe o uso da pílula, da camisinha e continua firme: o ato sexual só existe para a procriação. Os séculos passam e só a igreja não vê que o mundo mudou.
Nenhum dos candidatos fala em uma campanha, já nas escolas, de prevenção à gravidez, para que as meninas se previnam antes de ir para a balada do fim de semana. Porque é sempre às mães que vão caber todas as responsabilidades - vide o caso de José Alencar.
O poderoso Vaticano, que impõe suas leis, é todo formado por homens, e as freiras não têm voz para nada -até melhor, já que não entendem do assunto.
Não faço a defesa do aborto, mas não aceito que um mundo masculino tenha o direito de ditar regras que só dizem respeito a elas. Algum bispo tem ideia do que é enfrentar um estupro, ou a ter mais um filho -muitas vezes sem pai- sem ter como criá-lo, ou a uma gravidez indesejada para uma adolescente?
A ex-candidata Marina falou em plebiscito, mas nem isso os católicos admitem. Se acontecer, e os que são contra vencerem, vai ficar tudo igual: as mulheres vão continuar abortando, e se é a favor da vida que tanto se fala, arriscando as suas (essas vidas não importam às religiões). Que venha o plebiscito, mas que fique estipulado que nele só as mulheres vão poder opinar. É um absurdo que os homens interfiram nesse assunto.
Dilma aprendeu -mais ou menos- a falar, mas não a sorrir. Apenas mostra os dentes, mas os olhos não acompanham, porque isso não se ensina. Poderia ter tido uma assessoria especial para aprender a fazer o sinal da cruz.
Em Aparecida, foi patético: ela, literalmente, gaguejou com as mãos.
Fonte e autoria: Danuza Leão [que, gentilmente, permitiu aqui a reprodução deste texto]
Trecho sublinhado por conta da casa.