quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Outubro, o oitavo mês

Outubro ganhou esse nome pois era o oitavo mês do calendário romano.
Festas em outubro:
Dia 1º - dia consagrado a Fides [Deusa dos acordos e contratos] e festival a Juno Sororia [Juno a Irmã, que protegia as meninas que atingiam a puberdade].
Dia 3 - Festival de Baco [versão romana de Dioniso].
Dia 4 – Jejum de Cereris: feito em honra a Ceres, em luto por Proserpina
.
Dia 5 - um dos 3 dias que o mundus [entrada para o submundo] era aberto.

Dia 7 - consagrado a Victoria [Deusa da vitória], festival a Juno Curitis [Juno dos lançeiros] e festival a Jupiter Fulgor [Jupiter dos trovões e relâmpagos].
Dia 9 - Festival para Fausta Felicitas [Deusa da boa fortuna] e festival para Venus.
Dia 10 - Festival para Juno Moneta [Deusa da Moeda].
Dia 11 - Meditrinalia em honra a Meditrina, realizada na época das novas vindimas.
Dia 13 - Fontinalia, festa dedicada a Fontus, Deus das fontes e poços.
Dia 12 - dia consagrado a Fortuna Redux.

Dia 14 - Festival pelos Penates, Deuses do lar.
Dia 15 - inverno, festival da colheita de Narte e do Ludi Capitolini. Este dia marcava o fim da época de guerra romana.
Dia 15 - Equirria, quando o cavalo vencedor de uma corrida tinha sua pata direita sacrificada a Marte no Campo de Marte. Dia 19 - Armilustrium em honra a Marte. Neste dia as armas dos soldados eram cerimonialmente purificadas e guardadas pelo inverno.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Paganismo e Política

Há que se esclarecer que os Pagãos, como qualquer pessoa de outras religiões, tem suas preferências políticas que, evidentemente, são tão variadas quanto as muitas formas de Paganismo existente no mundo contemporâneo.
Chama-me a atenção o texto de Peter Jones advertindo quanto à uma "ameaça pagã" nascida de uma "esquerda religiosa". Interessante porque se o Paganismo é a "esquerda religiosa", o Cristianismo é a "direita religiosa".
No mundo ocidental, o fundamentalismo, o fanatismo e o conservadorismo político de direita se confunde e se identifica com o Cristianismo; não é à toa que impérios, reinos e repúblicas totalitarios e ditatoriais foram apoiados pela Igreja.
Peter Jones confirma em seu texto as suspeitas dessa identificação e vinculo entre partidos políticos de direita e o Cristianismo com uma "denúncia" absurda. Misturando e confundindo Gnosticismo, Nova Era, a Homossexualidade, o Feminismo e a Contracultura (década de 70, século XX) com o Paganismo apenas porque estes fenômenos são distintos do Cristianismo ou contestam a "verdade" cristã.
Peter Jones identifica algumas características dessa "esquerda religiosa" com o Monismo, uma filosofia que existiu na Grécia antiga, na época pré-socrática. Mas não foi a única escola filosófica da Grécia antiga nem foi o pensamento dominante das antigas religiões que existiram antes do Grande Expurgo Religioso, que ocorreu quando o Cristianismo se tornou a única religião autorizada do Império Romano.
Cristianismo que, inclusive, deve muito à Lógica de Aristóteles e ao Logos do Neoplatonismo, resultados do desenvolvimento filosófico da Grécia antiga pagã.
Como se não fosse o suficiente omitir e misturar as informações, o autor tenta induzir o público ao denunciar eventos atuais (a publicação dos apócrifos, aborto, homossexualidade) como sendo consequência da atuação dessa crença. Discurso típico do fundamentalista, tudo que é diferente do Cristianismo, ou do que ele concebe como sendo o Cristianismo ideal, é considerado "paganismo" ou "satanismo".
Peter Jones reclama da diminuição da ortodoxia, mas a história do Cristianismo demonstra que nunca houve tal Cristianismo ideal, desde seu aparecimento por volta de 30 DC o Cristianismo teve diversas vertentes até se consolidar uma ortodoxia, por meio da violência e da política.
No momento, bem às vistas, estão aparecendo novas vertentes, como o chamado neopentecostalismo, enquanto o catolicismo tenta garantir seus fiéis com o velho sincretismo e ecumenismo. Essa variação deve assustar, amedrontar o cristão fundamentalista de tendência política de direita, que apenas consegue viver e conceber o mundo se este estiver debaixo da farda, seja esta militar ou clerical.
Peter Jones reclama do liberalismo, mas a história do Cristianismo e da humanidade passou pelo período da Reforma Protestante e pelo período da Revolução, os ideias ora esposados pelo autor e pelos cristãos fundamentalistas não teria existido sem essa mudança que ocorreu por volta do século XV. Todo o movimento Protestante não poderia ter acontecido sem que o movimento Revolucionário houvesse conquistado para a humanidade a concepção de um mundo com mais liberdade, igualdade e fraternidade.
Essa democracia deve assustar, amedrontar o reacionário de direita cristão, que apenas consegue viver e conceber um mundo se este estiver dominado pela opressão e repressão. Peter Jones reclama do helenismo, mas a história do Cristianismo teria sido diferente se não fosse pelo helenismo, que foi adotado pelo Império Romano e que garantiu a expansão do Cristianismo pelo Império em decadência. Nem mesmo os evangelhos, que foram escritos em koiné [grego popular], que foi adotado pelos cristãos exatamente porque cresceram em uma época helenizada. As comunidades cristãs teriam sido diferentes, se não fosse pelos Judeus helenizados, que admitiam e permitiam a entrada de Gentios em seu movimento messiânico, que depois se tornou o Cristianismo.
Peter Jones reclama da liberdade de interpretar os evangelhos, do aparecimento de heresias, mas a prórpia Reforma tornou-se possível somente graças à luta de Lutero contra a da Igreja Católica, tirando desta o monopólio sobre os evangelhos. Foi pela interpretação literal do texto que o Protestantismo se destacou do Catolicismo e foi desta vertente que nasceu o Fundamentalismo Cristão, do qual Peter Jones é fruto.
Peter Jones reclama da "infiltração pagã" no Cristianismo, com a adoção do conceito divino "Sophia" [sabedoria] da crença gnóstica, mas o elogio à Sabedoria feito pela Igreja Cristã ao longo de sua existência foi feita a partir do mesmo conceito, em imitação à Shekinah Judaica. O que incomoda Peter Jones e os fundamentalistas cristãos é que as crenças do povo de Israel tem mais raízes pagãs e politeístas do que seu Cristianismo ideal utópico pode aguentar.
Peter Jones reclama da "nova sexualidade", que de "nova" não tem coisa alguma, apenas a humanidade despertou para o fato de que tinha uma sexualidade e de que vivemos uma época de repressão/opressão sexual porque o Cristianismo (como as demais religiões monoteístas) tem problemas em relação ao corpo, ao sexo, ao prazer.
A base do puritanismo cristão são as epístolas do apóstolo Paulo, nitidamente misóginas e intolerante a outras formas de sexualidade. Mas foi a Reforma que começou a contestar a forma como a Igreja interpretava as escrituras, a Renascença apenas trouxe essa contestação ao campo secular, portanto podemos e devemos contestar as chamadas verdades das escrituras que condenam o legitimo direito da humanidade de redescobrir e vivenciar sua sexualidade, livre dos dogmas cristãos.

domingo, 27 de setembro de 2009

A presença da Deusa em Israel

Conforme a pesquisadora Monika Ottermann (2004), que traça o panorama da presença da Deusa em Israel, da Idade do Bronze à Idade do Ferro, no Oriente Médio, datando a Idade do Bronze Médio (1800-1500 a.E.C), a representação da Deusa é caracterizada como "Deusa-Nua", destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada "Deusa-Árvore".
Na Idade do Bronze Tardio (1550-1250/1150 a.E.C), a Deusa-Árvore apresenta duas mudanças, aparecendo em forma de uma árvore sagrada flanqueada por cabritos ou como um triângulo púbico, que substitui a árvore. Neste período, já se nota a tendência de substituição do corpo da Deusa pelos seus atributos, em especial a árvore. Aparece: "na passagem do BM para o BT uma mudança decisiva no campo das figuras de material mais precioso: as Deusas Nuas foram substituídas em grande parte por deuses guerreiros como Baal e Reshef (...) o encontro dos sexos fica claramente relegado ao segundo plano e é substituído por representações de legitimação, luta, dominação e lealdade político-imperial".
A Deusa continua perdendo representatividade na religião oficial, onde divindades masculinas ganham cada vez mais força, principalmente a partir de características dominadoras e guerreiras. Na Idade do Ferro I (1250/1150-1000), a forma corporal da Deusa-Árvore vai desaparecendo enquanto que formas de animais que amamentam filhotes, às vezes com a presença de uma árvore estilizada, ganham cada vez mais espaços na glíptica, significando a prosperidade e a fertilidade. A presença da Deusa fica relegada aos espaços de religiosidade das mulheres.
Na Idade do Ferro IIA (1000-900 a.E.C), início da formação do javismo as Deusas passam a ser simbolizadas por seus atributos. A forma vegetal da Deusa confunde-se com seu símbolo, a árvore estilizada, sendo que muitas vezes é substituída por ele. Entendemos essas imagens como representações da Deusa Asherah.
Na Idade do Ferro IIB (925-720/700 a.E.C), Israel e Judá apresentam diferenças no âmbito simbólico. Os documentos epigráficos de Kuntillet Adjrud e de Khirbet el-Qom destacam um vínculo estreito entre Asherah e Yahweh, o que acima de tudo demonstra um contexto politeísta, onde se adoravam a várias divindades femininas e masculinas.
Na Idade do Ferro IIC (720/700-600 a.E.C), a Babilônia derruba a Assíria e passa a dominar Israel e Judá. Neste período encontramos o símbolo tradicional da Deusa, a árvore e o ramo. Vários selos ou impressões de selos que associam símbolos astrais com árvores estilizadas foram encontrados na Palestina e na Transjordânia, o que reforça interpretações sobre a existência de um culto a Deusa Asherah ao lado do Deus Yahweh. É principalmente na forma de árvore estilizada que, ao longo de séculos, Asherah esteve presente em Israel.
Mas é sobretudo na época pós-exílica que as vertentes políticas e religiosas dominantes vão excluir e proibir a presença de uma divindade feminina dentro do javismo.
Parece claro que por determinado tempo essa Deusa teve mais espaço e representatividade na vida do povo em Canaã/ Israel, até ser taxada como a causa de todos os males que o povo estava sofrendo nas mãos de seus dominadores, em especial na época da dominação Babilônica, com toda experiência de destruição e exílio, "Aserá, na maioria do tempo venerada sob o corpo de uma árvore, era, inicialmente, a parceira de YHWH, mas com o crescente desenvolvimento do javismo como religião de um deus masculino, transcendente e único, ela foi taxada como sua maior rival e inimiga".
A existência da Deusa Asherah remonta uma época de adoração a vários Deuses e Deusas, antes da ascensão do Javismo, "o culto da Deusa Árvore Asherah realizava-se, principalmente, em torno de uma árvore natural ou estilizada, ou seja, de um poste sagrado que podia estar ao lado de um altar seu ou de uma outra divindade, inclusive YHWH. Porém, seu culto foi realizado, de preferência, debaixo de uma árvore natural, nos chamados 'lugares altos', santuários ao ar vivo no topo das colinas e montanhas. Na maioria do tempo, uma imagem ou símbolo de Asherah estava também presente dentro do próprio templo de Jerusalém".
De politeísta Israel passa a se constituir monoteísta, pelo menos na religião oficial. Provavelmente, adorações a Deuses e Deusas dentro das casas continuaram por longo tempo, como forma de resistência. A centralização no Deus único, Yahweh, que neste processo também se apropriou das funções de Asherah, custou caro aos outros Deuses e Deusas que compartilhavam da mesma cultura. Esta proibição atingiu a vida de homens e mulheres, que ali encontravam uma significação religiosa.
É nesse contexto patriarcal, que Yahweh se torna uma forte representação do masculino no sagrado, justificando a dominação masculina, tanto no âmbito social, econômico, político, como religioso. A religião oficial israelita absorve então uma identidade somente masculina, onde o feminino passa a ser relegado ao espaço particular das mulheres.
Por isso, é extremamente importante uma memória da Deusa, em especial Asherah, consorte de Yahweh, não só numa tentativa de reconstruir a história do antigo Israel, mas principalmente dar espaço e voz às divindades femininas, que são uma possibilidade de identificação sagrada das mulheres, em busca de relações mais recíprocas e humanizadas entre os gêneros.
O culto a Asherah foi muito popular em Israel e Judá.
A partir desta perspectiva, de demonização da Deusa ou das Deusas, tentaremos constatar, nos escritos bíblicos, os impactos e as conseqüências que tal visão e atitude trouxe para a imagem da Deusa Asherah, que aos poucos passa a se tornar a Deusa proibida, a causa dos males e da ruína de Israel.
A marginalização do feminino, das mulheres é um processo que também se dá e se sustenta por meio de escritos bíblicos justificadores de uma sociedade patriarcal, atuando assim no que podemos chamar de "desempoderamento" das mulheres a partir do sagrado, o que trouxe e traz fortes impactos nas dimensões culturais, religiosas, sociais, econômicas e políticas.
O Reino do Norte, Israel, já havia sido destruído, sendo assim, Judá, Reino do Sul, tornou-se o único espaço onde a identidade religiosa do povo de Yahweh poderia ser mantida. Foi nesse contexto que Ezequias promoveu uma extensa reforma religiosa e política, com intenções de reunir o povo em torno de um só Deus e um só rei. Por isso, Ezequias é exaltado pelos redatores deuteronomistas como o rei que "fez o que agrada aos olhos de Yahweh". A reforma religiosa de Ezequias era baseada nas seguintes medidas: no combate a idolatria, na centralização do culto a Yahweh em Jerusalém e no cumprimento dos mandamentos. Tais medidas podem ter sido fundamentadas no documento trazido do Norte, que foi adaptado à reforma em Judá. Josias retoma 100 anos mais tarde este documento para empreender sua reforma religiosa e política.
O rei Josias (640-609 a.E.C) empreendeu uma reforma a partir de 622 a.E.C fazendo de Jerusalém o centro político e religioso de seu estado, destruindo os santuários de Yahweh que havia no interior e acabando com os cultos cananeus e assírios, que aconteciam no templo de Jerusalém e nos lugares altos. A reforma de Josias atingiu a liberdade religiosa popular, pois ordenou "a Helcias, o sumo sacerdote, aos sacerdotes que ocupavam o segundo lugar e aos guardas das portas que retirassem do santuário de Yahweh todos os objetos de culto que tinham sido feitos para Baal, para Aserá e para todo o exército do céu, queimou-os fora de Jerusalém, nos campos do Cedron e levou suas cinzas para Betel".
Com isso, o culto exclusivo a Yahweh é reafirmado pela corte e pela classe sacerdotal de Jerusalém, exclusividade que custou caro à religiosidade popular.
Está claro que a ascensão do culto exclusivo a Yahweh não se faz de forma tranqüila, mas de forma violenta, a partir da intolerância religiosa, da destruição e da eliminação por completo do outro, que se torna uma ameaça.
A proibição da Deusa Asherah é fruto de um dado momento histórico de elaboração e ascensão do monoteísmo javista. A identidade judaica, após a drástica experiência do exílio babilônico e na tentativa de reorganização da nação, passa a se constituir em torno de três pilares: um só Deus, um só Povo e uma só Lei. A centralidade em Yahweh se torna um fator importante de credibilidade e legitimação da nova identidade nacional em formação, resultado das reformas empreendidas por Esdras e Neemias. A idolatria se torna então a culpa da ruína de Israel e neste contexto Yahweh é triunfante. Isso irá se refletir no conflito que os textos bíblicos demonstram em relação a Asherah e a outros Deuses e Deusas, bem como, em relação principalmente às mulheres estrangeiras.
Podemos claramente perceber que a elaboração e instituição do monoteísmo não se deu de forma democrática e muito menos pacífica. A partir de um contexto politeísta, a centralidade em Yahweh é um processo violento, de destruição da cultura religiosa do outro e da outra, de proibição do diferente, demonizando-o e tornando-o uma ameaça. Um processo nítido de intolerância religiosa.
A supressão do culto e da imagem da Deusa Asherah traz consigo conseqüências profundas para as relações entre os gêneros, afetando em especial aos corpos das mulheres, que tinham na Deusa uma possibilidade de representação do feminino no sagrado. A religião judaica vai se constituindo em torno de um único Deus masculino, legitimando historicamente uma sociedade patriarcal. Este poder divino imaginado somente como Deus afetou as mulheres, as crianças, a natureza, pois quase sempre partiu de um pressuposto de dominação, opressão e hierarquização das relações, tanto humanas como ecológicas.

Autora: Ana Luisa Alves Cordeiro
Publicado na Revista Aulas [Unicamp]

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Somos todos intersexuais

Depois dos heterossexuais, dos homossexuais e dos transexuais, chegou a vez dos “intersexuais”. Para o imunologista Gerald Callahan, professor da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, não somos homem ou mulher. O pesquisador chegou a essa conclusão ao estudar as pessoas que nascem com genitália ambígua. “Pode acontecer de a pessoa ter a genitália interna feminina e a externa masculina”, diz o imunologista. Por isso, não são, de cara, identificadas como homens ou mulheres. Em seu livro Between XX and XY - Intersexuality and the Myth of Two Sexes (Entre XX e XY - Intersexualidade e o Mito dos Dois Sexos), lançado neste mês nos Estados Unidos, Callahan conta a história de algumas pessoas nessa situação e convida todos a repensar a rígida divisão das pessoas em apenas dois extremos. “Hoje penso no sexo de uma pessoa como se pensasse em sua posição política ou na cor de seus olhos ou cabelos. Há todo um espectro”.
Cientificamente, o que nos define como homens ou como mulheres?
Callahan – No final da minha pesquisa, senti que não havia critério para definir claramente se uma pessoa era homem ou mulher. A maioria das pessoas cita os cromossomos: mulheres são XX e homens são XY. Mas uma mulher que foi corajosa o suficiente para falar comigo em minha pesquisa era XY. Ela foi tomada como uma menina e cresceu como uma menina. Só depois os testes apontaram características masculinas, como o cromossomo Y e a testotesrona. Mas o fato é que ela não tinha células para receber esse hormônio. Há também casos de homens que são XX. Pode acontecer, também, de a pessoa ter a genitália interna feminina e a externa masculina, por causa da superprodução de hormônios masculinos durante o desenvolvimento. Portanto, a aparência da genitália pode não ser suficiente para definir uma pessoa como macho ou fêmea… E tudo vai ficando muito complicado. Encontrei mesmo um caso nos Estados Unidos em que a certidão teve que ser corrigida anos depois do nascimento da criança. O senhor acha que sua argumentação poderia, por exemplo, servir de base para a liberação do casamento entre homossexuais?
Callahan – Sim. Se você estivesse tentando aprovar uma lei sobre isso, eu incentivaria a questionar como se define se alguém é homem ou mulher. Em muitos casos, é preciso levar em consideração o comportamento, a percepção das pessoas sobre si mesmas, para definir o gênero. Uma das pessoas com quem falei para o meu estudo, por exemplo, era XXXY. Isso significa que, no útero, ela começou seu desenvolvimento como um par de gêmeos, mas se tornou um único indivíduo. Ela tem genitália ambígua, mas pensa em si mesma como uma mulher. O sexo, no fim das contas, pode ser mais social do que biológico. Por isso, acho que a opinião da pessoa é um fator determinante.
O senhor acredita que a ciência saberá explicar melhor a homossexualidade, por exemplo?
Callahan – Um dos pontos relacionados ao gênero é a orientação sexual e não entendemos a biologia envolvida nisso. Se entendermos o sexo como um espectro, podemos entender a orientação sexual da mesma maneira – e não dividida apenas em homossexuais e heterossexuais. É importante lembrar também que, mesmo não havendo nenhuma chance reprodutiva, o comportamento homossexual deve ter vantagens biológicas. Se elas não existissem, ele teria sido eliminado muito tempo atrás. Há outras funções do sexo que não enxergamos nessa tentativa de simplificar. Tentamos dividir em preto e branco, mas a realidade não é assim.
Fonte: Epoca [transcrição apenas das partes interessantes][link morto/indisponível]

As transformações religiosas no helenismo

O período helenístico trouxe profundas transformações na religião grega. As diversas correntes filosóficas, em especial o contato com as religiões do Oriente, foram criar uma íntima relação entre moralidade e religião. Morte, vida futura, conduta do homem em sua existência, passaram a ser valores morais ligados à religião.
O próprio cristianismo, com o elevado ensinamento moral, sofreu influência dos valores novos da religião helenística. Descobertas arqueológicas recentes comprovam, através de inscrições em santuários de natureza helenística, orações e indicações acerca da vida futura. As crenças gregas e egípcias se fundiram quanto às ideias relativas a essa questão. Com isso, cultos orientais foram introduzidos no mundo grego.
Isso não quer dizer que os cultos orientais tenham sido adotados integralmente. Incorporaram e corporificaram as ideias morais das religiões do Oriente em figuras divinas, femininas e masculinas, que representavam justiça, purezae ações virtuosas. Assim, foi evoluindo cada vez mais para o plano abstrato e espiritual. Os antigos deuses e semideuses continuaram a existir na poesia, na arte e na crença dos incultos. De outra forma, a influência religiosa no mundo helenico explica por que muitos reis helenísticos foram adorados como divinos: "salvador", "deus", "o relevado" e tantos outros adjetivos pios. Essas inscrições ficaram inclusive registradas no verso do numerário amoedado emitido pelos imperadores.
O culto de veneração perdeu significação após Augusto. Nem por isso morreu o interesse pela religião. Pelo contrário, foi cada vez maior. O culto estatal do imperador e de governantes mortos, elevados ao extremo da veneração divina, não satisfazia o homem em seu sentimento de auto-ajuda às dificuldades e consolo no sofrimento. O homem sempre se preocupou com a vida futura. Exigia a sua consciência, muito mais que o culto ao imperador. O racionalismo estóico, o misticismo platónico, o agnosticismo e o esoterismo, bem como o domínio da superstição e da astrologia satisfaziam as classes ilustradas apenas. Nas classes mais baixas nota-se, entretanto, um crescimento rápido de atitudes religiosas a partir do século II da era cristã.
Foram notórias, nessa fase, o ressurgimento do culto doméstico, a adoração cada vez maior às divindades greco-romanas e outras figuras simbólicas de novas divindades ligadas à vida diária, como boas colheitas, saúde, prosperidade, etc. Esse processo de ressurgimento do fervor nessa época, foi notado também na Grécia e em outras províncias orientais. E o que se observa através da arquitetura, literatura, pintura e escultura.
O tráfego de povos, facilitado pela natureza do estado mundial romano, de dinâmico comércio, favoreceu a difusão do misticismo oriental por todos os lados. A dominação imperial romana, nesse sentido, foi de tolerância, sendo qualquer culto permitido, desde que houvesse obediência à sua supremacia. O século III mostra o florescimento de grande número de crenças adaptadas, especialmente as de fundo oriental.
As crenças se fundem. Enquanto isso, uma sociedade religiosa doOriente se destacava, a Igreja Cristã. A partir do Oriente, bem organizados, os cristãos penetraram na Itália, porque tinha caráter universal, fundamentada tecnologicamente em bases escatológicas adequadas ao momento histórico. Religiões orientais, mais o cristianismo, mais as religiões primitivas, acentuam o clima religioso. Os deuses e deusas das diversas crenças, ao invés de se tornarem rivais, acabam se associando. Um exemplo de associação religiosa foi dado pelo imperador Alexandre Severo que, em seu palácio, honrava ao mesmo tempo Abraão e Cristo, Orfeu e os deuses cultuados nas cerimónias domésticas. O sincretismo e a confusão religiosa chegou a tal ponto que Aureliano, adotou a adoração do sol para simplificar.
Fonte: Revista Unipar [link morto]

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Esoterismo Quântico

Tanto os fãs ardorosos dos documentários "Quem somos nós" e "O Segredo" quanto os espectadores que consideraram esses filmes um desfile de bobagens requentadas do movimento Nova Era podem tirar algum proveito do novo livro do físico americano Victor Stenger.
"Quantum Gods" (Deuses Quânticos) se destina justamente a atacar a crença de que as modernas teorias cientificas são perfeitamente compatíveis com toda forma de prática esotérica. O livro é uma resposta direta a ambos documentários, nos quais cientistas, médicos, religiosos e gurus de auto-ajuda recorrem a conceitos da mecânica quântica -ramo da física que explica o comportamento da matéria a níveis muito pequenos- e de outras ciências para abordar temas místicos como poder do pensamento, carma, vida após a morte etc.
Desde o fim dos anos 1980, Stenger tem militado na corrente neoateísta que tem no biólogo Richard Dawkins e no filósofo Daniel Dennett suas faces mais conhecidas.
Seu novo livro começa fazendo um breve e irônico levantamento das idéias defendidas pela nova onda de gurus quânticos. Stenger dá destaque a Amit Goswami, físico indiano bastante popular no Brasil, tendo sido entrevistado duas vezes no programa Roda Viva, da TV Cultura. Mas até o Dalai Lama é citado, devido a seu livro "O Universo num Só Átomo". O líder tibetano, porém, é abordado de forma respeitosa.
Já o fundador da meditação transcedental, o físico e guru indiano Maharishi Yogi(1917-2008) recebe chumbo pesado. David Bohm e Fritjof Capra, cientistas que não aparecem nos filmes, mas que são pioneiros do encontro da Mecânica Quântica com a Nova Era, também não escapam ilesos.
Divulgador experiente, Stenger inclui no livro seções que formam uma curta mas substanciosa história da ciência. Isso permite a um leigo tomar pé do debate sobre problemas teóricos complexos, mas deixa passar a chance de desmontar detalhadamente afirmações supostamente científicas com as quais o espectador se depara em "Quem somos nós".
Em vez de tentar negar, por exemplo, a afirmação de Goswami de que a consciência é o fundamento do Universo, ele prefere repassar a história da criação da física de partículas. Em vez de contestar os experimentos de Masaru Emoto, que afirma que as moléculas de água podem ser alteradas pela força do pensamento, ele descreve os fracassos obtidos em testes de parapsicologia. É como se Stenger acreditasse que uma apresentação criteriosa de conceitos complicados, como o emaranhamento quântico, será o suficiente para que os leitores possam, por si só, perceber os pontos em que Capra, Goswami e companhia estão "forçando a barra". Só que o mais provável é que o leitor leigo se sinta incapaz de chegar a uma conclusão por conta própria. Neste caso, provavelmente a leitura apenas terá colaborado para aumentar suas dúvidas.
Porém, isso, por si só, já pode ser algo positivo. Afinal, uma das maiores objeções que se pode fazer a "Quem somos nós" é que o filme não avisa aos espectadores que as posições ali apresentadas são, no mínimo dos mínimos, controversas, e que não são endossadas pela imensa maioria da comunidade cientifica. Stenger oferece aos leitores a visão acadêmica destes mesmos temas, numa linguagem acessível. Saber que existe uma outra visão (na verdade várias) da mecânica quântica pode ser uma grande novidade para muitos dos fãs de "Quem somos nós", que fizeram dele o quinto documentário mais lucrativo da históriados EUA.
O livro analisa também as idéias de outros grupos que, volta e meia, recorrem à mecânica quântica para sustentar suas idéias. Ilya Prigogine, prêmio Nobel dequímica de 1977 e herói da corrente acadêmica conhecida como transdiciplinaridade, é diretamente contestado. Prigogine afirma que os processos termodinâmicos não podem ser abordados através do tradicional reducionismo metodológico tão caro à ciência moderna pois, neste caso, esses processos não seriam reversíveis no tempo. Stengers afirma que, por princípio, todos os processos físicos são reversíveis temporalmente, e que Prigogine "está completamente errado, mesmo tendo ganho um prêmio Nobel".
Também sobram críticas para a parapsicologia e para os teólogos que investigam o mundo microscópico em busca de sinais da ação do Deus cristão, ou de algo próximo a ele. Ao mirar em tantos objetivos diferentes, o autor sofre do ônus de ter poucas páginas para devassar temas muito variados e complexos. Sem o espaço necessário para uma exposição mais adequada, sua argumentação soa, em vários momentos, concisa demais. Mas há um motivo para isso: em livros anteriores ele já investiu diretamente contra criacionistas, adeptos do Design Inteligente, da parapsicologia etc. Aqui, em certos momentos onde seria necessário um maior aprofundamento, ele se limita a se referir a sua própria obra.
No final do livro, Stenger argumenta diretamente contra a existência de qualquer tipo de divindade. Sua visão do fenômeno religioso lembra um pouco a de Dawkins, restringindo-se a análise de certos estereótipos. Nada disso, porém, chega a comprometer a consistência do livro. Stenger tem o conhecimento científico e a expertise literária necessários para apresentar um bom contra-ponto à febre de física Nova Era que continua circulando pelo planeta, Brasil inclusive.
Autor: Pablo Nogueira, publicado na Folha de SP. Copiado de Ateus e Ateísmo [link morto/indisponível]

domingo, 20 de setembro de 2009

Iniciação

Para se tornar um/a bruxo/a você deve ter uma inclinação natural para adorar os Deuses Antigos. Deve ser um sentimento que surge do coração e te leva até seu objetivo, da mesma forma que acontecia para os/as primeiros/as bruxos/as há milhares de anos atrás. A aproximação tem que ser assim. Qualquer outra atitude, como curiosidade vulgar, um desejo por poder sobre os outros ou a intenção egopista de usar a magia para gahos materiais, terminará em falha e desilusão.
Os Deuses Antigos são imagens arquétipas antigas dos poderes divinos por detrás da natureza. Eles são os Deuses mais antigos conhecidos pelo homem. Imagens deles estão pintadas por toda a Europa e mostram a grande influencia que tinham, mesmo no alvorecer do tempo. Apenas porque eles são velhos não é razão para crer que eles estão obsoletos. Nossos ancestraos não eram tolos, seus modo de vida e cultura estão ganhando mais e mais respeito conforme os anos passam. Descobertas contínuas a respeito de suas habilidades e crenças aumenta nossa admiração e espanto. Suas divindades eram uma Deusa Mãe e um Deus Cornífero, representando as forças da vida gêmeas: macho e fêmea, luz e treva, positivo e negativo, sol e lua, etc. Estes aspectos cmplementares na natureza são fatos e não podem ser discutidos. E, porque os Deuses são a verdadeira representação dos poderes divinos por detrás de toda a manifestação, eles duraram através dos milênios e irão durar sempre.
Ao contrário de diversas religiões, onde o contato com o divino é buscado pela prece e meditação, a Bruxaria ensina o desenvolvimento da alma através dos Oito Caminhos da Roda das Bruxas. Estes caminhos são parte das Tradições de Mistério do Ocidente. O Ocidente e o Oriente são dois lugares muito diferentes. As religiões Orientais ensinam a seus seguidores a olhar para dentro para alcançar a iluminação e embora o Ocidente usa esse método na meditação, é apenas um dos Oito Caminhos. O Ocidente olha para fora e encotra graça espiritual ajudando a outros. Então as bruxas usam seus poderes para ajudar aos que estão doentes ou com problemas.
O Despertar pode começar como uma urgência que nasce da profundidade da alma. Um estado de tédio ou desespero, que todo ser humano chega após em um certo momento da encarnação, pode se tornar como um farol para o espírito. Nasce da alma lutadora e da complacente da mesma forma. Muitas vidas podem ter transcorrido antes de perceber que o verdadeiro ser deve tomar a iniciativa e começar a lutar a superar os Ciclos da Encarnação, as quais, sem o controle do Ser Supremo, podem continuar indefinidamente. Uma vez que a realização nasce e a busca inicia, a alma está em seu caminho da humanidade para a divindade.
Em relação ao Ofício, é sábio buscar por iniciação por um coven genuíno. Isto não é tão fácil quanto parece, pois eles não procuram convertidos e portanto não anunciam. Eles acreditam que se uma pessoa é sincera e determinada o bastante em seu desejo de pertencer ao Ofício, eles farão contato, cedo ou tarde. Há, entretanto, várias formas de agilizar, como contribuir para revistas de ocultismo, que são geralmente mantidas por pessoas do meio. Ou mesmo colocar um anúncio em um dessas revistas. Você também pode escrever para o autor de um livro sobre o assunto e enviar a carta pelos publicadores. Pode ser reenviada para um coven em sua área, embora eu deva acrescentar que mesmo que isso ocorra e você for convidado para um encontro de um membro de um coven, isso não indica sua entrada.
Há algumas condições que devem ser preenchidas, tais como em patia com as personalidades dos membros, muita leitura sobre o assunto, vontade de esperar por período - geralmente um ano e um dia- entre outros. Ainda assim, estas condições são válidas; você não pode esperar ser aceito/a rapidamente, mas você saberá que as bruxas que você encontrou enfrentou obstáculos similares. O caminho das bruxas são da cautela, especialmente quando se refere a estranhos. Afinal, quem deixaria um estranho entrar em casa sem uma apresentação, ficar sozinho em um templo dos Mistério? Cuidados que devem ser tomados ao buscar um coven simpático com nosso estilo de vida, cultura e caráter. Mas, uma vez o contato feito, existe esperança em encontrar um grupo onde ambas as condições podem ser satisfeitas.
Embora alguns covens vistam robes, a maneira tradicional de trabalhar no Círculo é skyclad, ou nu. Quando você é trazido ao Ofício, você entra como se tivesse nascido, sem roupas ou amarras de qualquer tipo. A primeira iniciação é virtualmente uma introdução para um nova maneira de viver. Você é feito uma Criança da Deusa, lhe são mostradas as ferramentas do Ofício; lhe são contadas as formas de trabalhar com a magia e lhe fazem jurar de manter os segredos da Arte. Isto se chama de Primeiro Grau. O Segundo Grau é propriamente a iniciação. Isto envolve o conceito de morte simbólica e reencarnação simbólica, quando você renasce com uma nova personalidade mágica. Um novo nome (de sua escolha) lhe é dado que representa a transformação e pelo qual, portanto, você será conhecido no Círculo. O drama que este mistério atua implanta suas idéias firmemente no subconsciente do aderente e o mistério, o qual é encenado no plano material, prepara o selo no futuro. Não suponha que pela iniciação e ensinamento você estará automaticamente renascido. Um caminho lhe será mostrado e conhecimento compartilhado, ainda assim a jornada é sempre solitária e a verdadeira vontade testada ao ponto de ruptura.
Em um sentido, quando a iniciação toma parte é muito como desafiar o Destino (Sina) fazer seu pior. Um poderá afirmar: "eu anuncio a toda a criação que eu continuarei a progredir". Na Bruxaria a alma desenvolve uma profunda compreensão de "ser". Isso demanda prática, pelo que o Ofício tem graus de avanço. O mais alto grau é a consumação dos mistérios, onde o ritual clama pelo que é chamado, "O Segredo da Roda Prateada". Há também a transmissão de certas palavras secretas, as quais, nelas mesmas, dizem muito pouco, mas suas intenções secretas é importante e gentilmente empurra o aspirante para frente.
Lid Off The Cauldron. A wicca Handbook", Patrica Crowther,1992, Samuel Weiser inc., Maine. pp.34
Postado no forum Amber & Jet por Brian.