domingo, 21 de janeiro de 2024

Marrocos adota Ano Novo Amazigh

RABAT – As comunidades indígenas Amazigh de Marrocos, também conhecidas como berberes, celebram o seu ano novo há milhares de anos, antes da islamização do Norte de África. Seu calendário começa em 950 AEC e este é o ano 2.974.

No último fim de semana, 13 de janeiro, todos os marroquinos celebraram oficialmente pela primeira vez o Ano Novo Amazigh, conhecido como Id Yennayer. Seu vizinho, a Argélia, começou a comemorar Yennayer em 2018. O feriado é celebrado em todo o Magrebe, bem como nas Ilhas Canárias e nas cidades autônomas de Ceuta e Melilla.

Marrocos é predominantemente muçulmano, sendo o Islão a religião oficial. A maioria dos marroquinos adere ao Islã sunita da escola Maliki. Existem também pequenas comunidades cristãs e judaicas no país, constituindo uma minoria significativa. A constituição de Marrocos garante a liberdade religiosa, reflectindo uma história de diversidade religiosa e tolerância.

No final de Novembro do ano passado, o Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial concluiu a sua revisão do décimo nono ao vigésimo primeiro relatório periódico de Marrocos. Os peritos do Comité elogiaram Marrocos pelos seus esforços globais para fazer avançar a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Também fizeram perguntas sobre medidas destinadas a prevenir o discurso de ódio e a salvaguardar a língua e a cultura Amazigh.

Marrocos respondeu que a nação “estava a implementar medidas em várias áreas para promover a língua e a cultura Amazigh, com um orçamento de mais de mil milhões de dirhams. O Ano Novo Amazigh foi um feriado nacional oficial em Marrocos; 1.941 escolas ministraram instrução em Amazigh. O Estado aumentou o número de programas Amazigh nas estações de rádio e televisão. Discursos do governo e documentos oficiais foram traduzidos para Amazigh. O Governo também adoptou uma estratégia de emprego para intérpretes Amazigh; mais de 400 desses intérpretes foram contratados.”

Com efeito, em Maio de 2023, o Rei Mohammed VI aprovou Id Yennayer como um novo feriado nacional e instruiu o Chefe do Governo, Primeiro-Ministro Aziz Akhannouch, a legislar as acções necessárias para legalizar o feriado. A Corte Real Marroquina afirmou num comunicado que a medida afirma o “compromisso do rei com a língua berbere, uma parte fundamental da identidade autêntica de Marrocos e um bem partilhado por todos os marroquinos”.

Durante anos, os defensores em Marrocos têm encorajado o reconhecimento oficial do Ano Novo Amazigh como um feriado nacional que é celebrado com entusiasmo pela comunidade Amazigh de Marrocos, que constitui aproximadamente 40% da população. Em 2011, o governo marroquino reconheceu oficialmente o Tifinagh, a escrita tradicional usada pelos Amazigh que remonta aos tempos pré-islâmicos, como escrita oficial em Marrocos. Desde então, a liderança marroquina tem trabalhado activamente para integrar a língua e a cultura Amazigh na educação e no governo, embora o árabe continue a ser a língua oficial do Estado e várias línguas Amazigh sejam faladas em todo o Norte de África.

Os Amazigh (que significa “povo livre” ou “povo nobre) têm uma gama diversificada de crenças religiosas. Embora um número significativo de berberes seja muçulmano, praticando o islamismo sunita, também existem berberes que aderem a outras religiões ou têm crenças sincréticas. No Norte de África, incluindo Marrocos, muitos berberes abraçaram historicamente o Islão, mas é essencial reconhecer a diversidade dentro da população berbere, e nem todos os berberes seguem as mesmas práticas religiosas. Alguns também podem incorporar tradições e costumes pré-islâmicos nas suas crenças espirituais.

A história da cultura Amazigh é complexa, com influências de diversas civilizações e impérios que interagiram com o povo berbere ao longo dos séculos. A cultura Amazigh viu contribuições de antigos cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos e influências árabe-muçulmanas.

A comemoração do Ano Novo Amazigh, também conhecido como Id Yennayer, permanece como uma tradição consagrada e profundamente enraizada nas comunidades Amazigh que abrangem Marrocos, Argélia, Tunísia e Egito Ocidental. As festividades incluem desfiles, danças e música folclórica. É uma celebração de uma semana que começa em 8 de janeiro e culmina no dia 14.

Historicamente, esta celebração alinha-se com a entronização do Faraó Sheshonq I do Egito, marcando o estabelecimento de uma dinastia Amazigh que se estendeu por todo o Norte de África, inaugurando uma nova era.

Id Yennayer tem importância em sua conexão com Amon, o deus da fertilidade e da agricultura, bem como com a deusa da lua Tanit, associada à fertilidade, criação e destruição.

As comunidades Amazigh tradicionalmente celebram o dia através de rituais e orações, buscando bênçãos para uma época de colheita próspera. Na noite anterior, fogueiras são acesas nas montanhas do Atlas. As famílias fazem tagoula , um prato de cevada, trigo e grãos de milho. É consumido junto com smen derretido (ghee), azeite ou óleo de argan, complementado com mel. Escondido na tagoula está um poço de tâmaras conhecido como amnaz , simbolizando boa sorte. Descobrir este poço é considerado uma bênção especial. A celebração reflete o profundo vínculo do povo Amazigh com a terra, uma relação reverenciada na cultura porque sublinha a sua dependência das forças naturais e de uma colheita frutífera.

Fonte: https://wildhunt.org/2024/01/amazigh-communities-in-morocco-welcome-their-new-year-now-officially-recognized.html
Traduzido com Google Tradutor.

Imagens perigosas


OS IDENTITÁRIOS querem censurar, e talvez até prender, o Pepe Le Pew. Ele induziria meninos a forçarem as meninas a beijar. Ele induziria ao assédio. Certamente, foi por conta de Pepe Le Pew que os estupradores se tornaram estupradores, segundo os identitários.

O movimento “não é não” é contra Pepe Le Pew. Foi feito para pegá-lo. Somente isso. De real e efetivo, não tem nada contra a violência sobre a mulher. É um movimento para proteger gatas de gambás sem-vergonha.

A cabeça do identitário tem minhoca. Em geral, ele não se resolveu sexualmente, ele passou por traumas, mas certamente não por um trauma provocado por Pernalonga beijando Gaguinho, ou o Pica Pau falando que queria Iates, dinheiro e mulheres. O trauma do identitário foi provocado por uma imagem realmente ruim. O pai batendo na mãe. Ou simplesmente o pai fazendo sexo com a mãe (o modo objetivo que o sexo entre nós é realizado é necessário para o gozo, mas não é entendido pela criança). Ou uma investida de violência ou algo parecido por conta de alguém da família ou próximo, ou mesmo disfunções que fazem com que a pessoa não sinta nenhum prazer não só no sexo, mas na vida em geral. As imagens variadas nos atingem. Não ligamos para as problemáticas, ficamos invocando as não problemáticas. Ficamos invocando contra imagens que nos parecem problemáticas por conta de movimentos ideológicos sobre nós. Não investigamos as imagens. Não entendemos as imagens e suas relações com crianças pequenas.

Não nos interessamos por imagens “perigosas” quando crianças, não fazem sentido para nós quando somos crianças, e então as abandonamos. Pouco do que os adultos nos protegem realmente iria nos influenciar. Os adultos censuram imagens que a eles são imorais, mas não às crianças. Mas, uma ou outra imagem, mesmo sem sentido, nos atinge na infância, nos capta, no faz normalizar certos comportamentos. Age de maneira mais semiótica que semântica. E então, gera uma série de reações futuras. São as imagens sobre as quais boa parte dos adultos não dão atenção que geram problemas. A semiótica é sorrateira.

Não podemos colocar as crianças em redomas, mas podemos ser mais atentos a respeito de imagens de violências efetivas que explodem na mídia. Todavia, nem sempre sabemos o que é a violência que, como imagem, atinge a criança subrepticiamente. Pepe Le Pew, o “beijo gay” e os filmes sanguinolentos de Tarantino não são responsáveis por nada de mal. Eles são imagens propositalmente ficcionais. O mundo infantil parece entender isso. O mundo adulto inculto não entende.

Dependendo da imagem, ela pode nos induzir, uma vez adultos, a nos tornamos não necessariamente medrosos, mas o pior: insensíveis à dor alheia. É aí que mora o problema. Agora nas férias, a Globo exibiu um filme onde o herói da trama fazia outros ensacarem uma moça negra: cena de asfixia, cena de tortura contra a mulher, contra a mulher negra: os torturados eram todos negros. Depois, para que a trama pudesse andar, os bandidos eram acusados de pedofilia. Claro né? Pensei na Globo como o canal Brasil Paralelo, passando filmes que Damares, Michelle Bolsonaro e Trump gostam. Os três, eu acredito, não são insensíveis, eles são hipersensibiizados pelas cenas. Adoram. Damares só goza assim. Aliás, o enredo, os diálogos é que podem pegar adultos. Pode pegar bolsonaristas ou propensos a não respeitarem a lei, e fazê-los continuar a serem bolsonaristas. Agora, a imagem do ensacamento, essa imagem, ela é perigosa: pega crianças, sem elas saberem. Pegam pelo cantos dos olhos.

Imagem assim pode gerar a forma de um adulto gozar, e ao mesmo tempo gerar um adulto incapaz de ser contra a tortura, pois se trata de coisa que gera a insensibilidade à dor do outro. É nisso que a mídia guarda seus problemas. Não queremos censurar. Não sabemos censurar. Mas precisamos aprender que a subjetividade maquínica tem uma parte de sua formação feita pela profusão de símbolos, não por discursos. Os que lidam com a mídia deveriam estudar isso, e tentar melhorar o que geram na TV e na infosfera em geral.

A inflação semiótica e a deflação semântica, que mostrei em livros recentes, está se fazendo valer. Não deveríamos estar preocupados com as imagens de lutas, beijos ou mesmo sangue. Deveríamos estar preocupados com as imagens que normalizam o sofrimento do outro. O problema todo está na simbologia, o que realmente gera o adulto que, antes de ser traumatizado, está disposto a compactuar com traumas que atingem outros, principalmente se os outros são mesmo Outros.

As crianças não gritam e não fazem caretas diante das piores imagens. É por aí que deveríamos começar a investigar.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista.

Fonte: https://ghiraldelli.online/2024/01/04/as-imagens-perigosas/

Nota: a palavra "identitário" não está bem empregada. Os conservadores e grupos de direita se apropriaram desse termo e tem o utilizado para suas pautas. A lei "não é não" infelizmente foi necessária por causa do assédio inconveniente de muitos homens que se acham no direito. Mas é preocupante e exagerado. Ao ver a propaganda no metrô, com duas mulheres sentadas e cercadas de funcionários do metrô, é um elogio dos sistemas de repressão do Estado. Parece que são uma segurança privada. Nós não precisamos de mais repressão e opressão sexual. Nós não precisamos desse Puritanismo. O que falta é orientação e educação sexual.

sábado, 20 de janeiro de 2024

O cerco (circo?) está fechando

Diversas notícias que dão alento.
Citando:

O deputado federal bolsonarista Carlos Jordy (PL-RJ) está entre os alvos da mais recente fase da operação Lesa Pátria, desencadeada pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (18). As investigações revelam que Jordy trocava mensagens com um grupo de golpistas no Rio de Janeiro, fornecendo orientações sobre atos antidemocráticos.

Segundo informações do Blog da Camila Bonfim, do G1, investigadores afirmaram que o simpatizante do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) participou de discussões sobre bloqueios de rodovias e sobre os atos terroristas ocorridos em Brasília, promovidos por bolsonaristas em 8 de janeiro.

O parlamentar participava ativamente desses grupos de mensagens, alternando entre os papéis de mentor e articulador, aproveitando sua força política para garantir poder de mobilização.

A Polícia Federal está cumprindo mandados de busca e apreensão na residência de Jordy, localizada em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, e em seu gabinete no Congresso Nacional, em Brasília. Na casa dele, a PF apreendeu uma arma e R$ 1 mil.

(https://www.diariodocentrodomundo.com.br/suspeito-de-bloquear-estradas-apos-eleicoes-jordy-orientava-golpistas-por-mensagens-diz-pf/)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi às redes sociais atacar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, após uma operação da Polícia Federal (PF) contra o deputado federal bolsonaristaCarlos Jordy (PL-RJ) na manhã desta quinta-feira (18), no Rio de Janeiro. Ele é um dos alvos da 24ª fase da Operação Lesa Pátria.

Investigadores afirmaram que Jordy participava ativamente de grupos de mensagens sobre bloqueios de rodovias e os atos terroristas ocorridos em Brasília, alternando entre os papéis de mentor e articulador, aproveitando sua força política para garantir poder de mobilização.

(https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/sentiu-flavio-bolsonaro-ataca-moraes-apos-operacao-da-pf-contra-amigo-jordy-perseguicao/)

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), alvo de buscas da Polícia Federal nesta quinta (18), participou da fundação de um grupo integralista do Rio de Janeiro. A Accale (Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella) foi fundada em 2017 na Câmara Municipal de Niterói (RJ) e contou com a presença do deputado bolsonarista.

O grupo diz ser “uma associação nacionalista, antimarxista e antiliberal” e ficou famosa após Eduardo Fauzi, um de seus líderes, tentar explodir a produtora do canal Porta dos Fundos. A Accale exalta figuras como Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira (AIB), e Gustavo Dodt Barroso, também membro da AIB.

Além de Jordy, também participaram da criação do grupo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Rodrigo Amorim, deputado estadual que ficou famoso por quebrar uma placa com o nome de Marielle Franco.

(https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/alvo-de-acao-da-pf-jordy-participou-da-fundacao-de-grupo-de-extrema-direita-no-rj/)

Retornando.
Que essa ação atinja todos os que ajudaram, patrocinaram, financiaram ou apoiaram.
A extrema direita tem que ser extirpada.

Modelo encaixotada

Uma coreana que desfilou pela rua usando uma caixa com buracos nos seios para que os transeuntes pudessem apalpá-la foi processada esta semana sob a acusação de exposição obscena. A mulher, supostamente uma modelo chamada Ain, caminhou pelas ruas de Hongdae, na Coreia do Sul, "vestindo" uma caixa de papelão em setembro de 2023.

Segundo o Korea Herald, ela teria feito algo semelhante em Apgujeong, em outubro do mesmo ano.

A mulher estava de biquíni e foi flagrada guiando as mãos das pessoas pelos buracos em ambos os lados da “caixa do anjo”, permitindo-lhes tocar partes de seu corpo, incluindo os seios, de acordo com a Delegacia de Polícia de Seul.

Policiais foram convocados para dispersar a grande multidão que se aglomerava e impedir a mulher de continuar a apresentação.

A modelo escreveu nas redes sociais: “Não tenho seios falsos. Eu não fiz cirurgia de mama. (Minha performance na caixa de papelão) não é um golpe de marketing viral, eu só queria me promover (para me tornar mais popular). É liberdade de expressão... Não acho que deva ser acusada de exposição indecente. Como posso ser acusada de fazer uma performance obscena se (as pessoas) não conseguiam ver (as partes do meu corpo)?”

Atualmente, de acordo com a “Lei de Punição de Delitos Menores” da Coreia do Sul, qualquer pessoa que seja considerada embaraçosa ou ofensiva para os outros por “expor excessivamente” o seu corpo, ou revelar qualquer parte do corpo “que deveria ser escondida”, está sujeita a acusações de exposição obscena.

Se for considerado que alguém na Coreia do Sul cometeu “superexposição”, a pena é de até 100.000 won (quase R$ 400), enquanto a pena por um “ato obsceno” pode ser de um ano de prisão.

Fonte: https://extra.globo.com/blogs/page-not-found/post/2024/01/modelo-coreana-e-processada-apos-desfilar-nas-ruas-dentro-de-caixa-com-buracos-para-ser-apalpada.ghtml

Nota: enquanto isso, no Brasil, país tropical, conhecido mundialmente pelo seu carnaval, voltamos ao Puritanismo. Não se pode mais olhar, falar ou tocar.

Proselitismo deveria ser crime

Procurando por livros na Amazon (eu não estou ganhando um centavo com isso) eu encontrei um com um título curioso.
"12 painless ways to evangelize".

Tradução:
12 maneiras indolores de evangelizar.

Essa é uma doutrina do Cristianismo. Pode ser lido no trecho "E disse-lhes: "Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas." (Marcos, 16-15)

Agora você sabe a quem agradecer pelo pentelho que vai te incomodar sábado de manhã. Não se tem sossego. Por carta, por e-mail, por mensagem no WhatsApp, nas redes sociais. No meio do ônibus, metrô e trem. Gente que dificilmente concluiu a escola, muitas semi-alfabetizadas, ou com problemas de interpretação de texto, acha que sabe algo (sabe mais) sobre os Evangelhos. Gente como o John Stonestreet, que não vê problema em distorcer os fatos.

Eu encontrei um resumo com os tópicos:

1 Encha os envelopes de pagamento de contas com folhetos católicos.

2 Voluntarie-se para cuidar da estante de literatura da sua paróquia.

3 Mostre uma fita de vídeo ou áudio para os missionários de porta em porta.

4 Coloque folhetos ou folhetos nos bancos da sua paróquia.

5 Escreva e responda mensagens no seu serviço online.

6 Vá de porta em porta pendurando folhetos nas maçanetas.

7 Escreva ao editor quando a imprensa deturpar a fé.

8 Coloque literatura católica nos pára-brisas.

9 Distribua fotocópias de artigos de periódicos.

10 Envie a um amigo (ou estranho) um livro ou uma fita.

11 Ligue para talk shows de rádio.

12 Deixe folhetos e panfletos católicos em locais visíveis.

Traduzido com Google Tradutor.

#1 é ilegal e criminoso. Violação de correspondência.
#2 resultaria em demissão imediata.
#3 é problemático, afinal, os missionários estão fazendo o trabalho deles. Mas como o autor é católico, inclua aqui a presunção, a arrogância e prepotência de pensar que ele confessa a única crença certa.
#4 é inócuo, afinal, ali é a paróquia do pentelho. Deixar folhetos vai gerar fofoca ou atenção desnecessária.
#5 pode ser considerado o típico comportamento de troll. Os serviços online vão banir o inconveniente.
#6 pode ser arriscado. Violação de propriedade. Se o proprietário for da NRA, um CAC ou um bolsonarista, você pode ser recebido à bala.
#7 é hilário. Afinal, padres e pastores fazem questão de representar mal a crença que professam.
#8 é abusivo. Você gostaria de ver o para-brisa do seu carro com propaganda do Templo Satanista? Trate os outros como quer ser tratado.
#9 é perigoso. Os jornais estão repletos de notícias com escândalos e crimes cometidos por padres e pastores.
#10 é indelicado. Só envie algo se essa pessoa solicitar.
#11 parece com o #5. O seu número vai ser bloqueado pelas rádios (ou emissoras de TV).
#12 pode ser considerado crime. Limpeza urbana. Você pode ser multado.

Eu prefiro receber um panfleto para o próximo encontro pagão. Ou para a próxima celebração wiccana. Bruxas são bem vindas em minha casa.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Uma indústria promissora

Quando o relacionamento de Maira Khan chegou ao fim, no ano passado, ela ficou desesperada para reconquistar o ex-namorado. Para conseguir, ela decidiu buscar por rituais e chegou a uma bruxa, pelo Tiktok.

— Eu sabia que ele estava saindo com outra pessoa, mas não sabia a gravidade da situação. Eu meio que só queria que ela fosse embora — diz Khan, influenciadora em Toronto.

A bruxa encontrada por ela só precisava do nome do ex-casal para realizar o ritual: amarrar um pedaço de barbante em duas velas e deixar os pavios queimarem até que o barbante fosse quebrado pelas chamas.

— Ela disse que tudo correu bem.

É um bom momento para ser uma bruxa. Aqueles mergulhados no “ofício” fazem parte de uma indústria de 2,3 mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de R$ 11 milhões, no universo mais amplo dos serviços psíquicos, um campo que inclui leitura de mãos (quiromancia), cartas de tarô (cartomancia) e astrologia.

As pessoas não estão mais ligando para médiuns a partir da lista telefônica ou batendo em vitrines de bruxas e salas de fundos em busca de fortuna — empreendedores sobrenaturais abriram lojas no TikTok e na rede Etsy. Existem quase 36 mil vendedores no Etsy que oferecem “leituras psíquicas” e apetrechos relacionados, como velas encantadas, kits, óleos rituais e bonecos de vodu.

O negócio da bruxaria é quase tão antigo quanto a própria prática. Na Europa, “a bruxaria ofereceu às mulheres do período elisabetano até o século XVIII uma maneira boa e às vezes lucrativa de ganhar a vida”, explica Marion Gibson, professora de Renascimento e literaturas mágicas na Universidade de Exeter, na Inglaterra, que escreveu “Bruxaria: Uma História em Treze Provações”.

As pessoas pobres costumavam visitar bruxas e outras “pessoas mágicas” — como adivinhos e mágicos — em tempos de doença ou de um ano de má colheita. Era caro, mas muitas vezes mais barato do que procurar remédios e médicos ou comprar novas ferramentas.

As tradições também cresceram a partir de forças históricas. Hoodoo — uma prática espiritual iniciada por afro-americanos escravizados no Extremo Sul — combina crenças regionais africanas, costumes indígenas e cristianismo.

Eve Hardy, uma médium e praticante de Hoodoo em Atlanta, começou a oferecer serviços como rituais de “abertura de caminhos” no TikTok e no Instagram em fevereiro, e sua base de clientes aumentou. Ela não se considera uma bruxa, no entanto, mas categoriza o hoodoo como um subconjunto das religiões tradicionais africanas — que podem incorporar práticas sobrenaturais.

A progressão das práticas mágicas como força econômica refletiu o nosso próprio mundo em mudança.

— As pessoas costumavam oferecer feitiços para pedidos por correspondência, então você escrevia para alguém e eles lhe devolviam instruções e talvez um feitiço — diz Hardy. À medida que o comércio se movia on-line, o mesmo acontecia com aqueles que estavam em sintonia com o sobrenatural.

As bruxas também costumam desempenhar um papel duplo de ocultistas e confidentes para os clientes, como Lavender Gray, que administra o Grey's Witch Emporium em sua casa, em Knowlton, na Inglaterra.

— Vou oferecer conselhos e orientações porque se as pessoas saírem e fizerem algo bobo depois que um feitiço for lançado, nada vai funcionar — explica.

Gray, 39 anos, vende encantamentos como o “Parede de Proteção de Fogo” por 27,89 dólares, o equivalente a aproximadamente R$ 137. O item, segundo ela, “protege sua aura e seu eu espiritual de qualquer negatividade, má vontade e outros feitiços”. Em 2019, ela abriu uma loja na Etsy, mas não diz sim a todos os clientes.

— Eu fico longe de pessoas que querem se relacionar com alguém que já está namorando — explica.

Embora esses feitiços de amor raramente funcionem, Gray afirma ter uma alta taxa de sucesso.

As complexidades não param nos amantes infelizes. Maldições e feitiços podem ser uma mercadoria especialmente pessoal. Os compradores normalmente precisam participar do ritual, o que pode exigir a divulgação de detalhes mais comumente ouvidos no consultório de um terapeuta.

Rhiannon Headrick, proprietário da All About Intentions em Rolla, Missouri, disse que muitos pedidos podem parecer um último recurso para pessoas — geralmente mulheres — que estão sem opções e sem esperança.

— Minha esposa lê a maioria de nossas mensagens agora, porque, há cerca de oito meses, cheguei a um ponto em que isso estava partindo meu coração. Já tratamos de centenas de casos legais, geralmente divórcios desagradáveis e batalhas de custódia em que há um parceiro que está no controle e tem mais acesso aos fundos. Recentemente, um homem admitiu em tribunal que agrediu o filho do nosso cliente. Ele agora está na prisão — diz Headrick.

Visitar bruxas em busca de ajuda é uma tradição antiga, às vezes um último recurso, especialmente quando todos os outros caminhos se esgotaram. “Se você for a uma bruxa, você pode estar pedindo algo que, como mulher, você não teria acesso de outras maneiras”, explica a Dra. Gibson. “Poder, riqueza, saúde, segurança.”

Infelizmente para Khan, o feitiço que ela comprou da bruxa Etsy não trouxe seu ex-namorado de volta. Mas isso não prejudicou sua fé no sobrenatural, nem será a última vez que ela procurará uma bruxa online.

— As coisas não deram certo e eu só queria que ele sentisse a dor pelo que me causou. Então eu passo para um feitiço de vingança.

Fonte: https://web.archive.org/web/20240104083654/https://oglobo.globo.com/google/amp/mundo/epoca/noticia/2024/01/04/abertura-de-caminhos-no-mundo-virtual-saiba-como-bruxas-tem-lucrado-com-atendimentos-on-line.ghtml

Cama compartilhada

O ano era 1187 e um príncipe medieval inglês se deitava na sua enorme cama de madeira, junto com uma nova companhia.

Com seus volumosos cabelos avermelhados e seu porte robusto, Ricardo Coração de Leão (1157-1199) era o protótipo do macho guerreiro, famoso pela sua formidável capacidade de liderança no campo de batalha e seu comportamento de cavaleiro.

Mas, naquela época, ele fez uma amizade inesperada com um antigo inimigo: ninguém menos que Filipe 2° (1165-1223), rei da França desde 1180 até a sua morte.

Inicialmente, os dois membros da realeza europeia formaram uma aliança puramente pragmática. Mas, depois de passarem mais tempo juntos, comendo na mesma mesa e até do mesmo prato, eles se tornaram amigos próximos.

E, para consolidar o relacionamento especial entre eles e seus dois países, eles concordaram em assinar um tratado de paz – e dormiram juntos, na mesma cama.

As conotações modernas de dois homens compartilhando a mesma cama são muito diferentes. Mas, naquele tempo, era algo totalmente comum e o evento é mencionado quase como uma casualidade em uma crônica da época sobre a história da Inglaterra.

Muito antes do desejo de privacidade durante a noite ou das ideias mais recentes sobre a masculinidade humana, muitos historiadores consideram que a parceria noturna dos dois membros da realeza era um sinal de confiança e fraternidade.

Trata-se da antiga e esquecida prática do sono compartilhado.

Por milhares de anos, era absolutamente normal se deitar na cama todas as noites ao lado de amigos, colegas e parentes, incluindo toda a família estendida, ou mesmo comerciantes em trânsito.

Durante as viagens, as pessoas dormiam rotineiramente ao lado de completos estranhos. E, dependendo da sorte, esse estranho poderia trazer consigo um mau cheiro insuportável, roncar de forma ensurdecedora ou, pior que isso, preferir dormir totalmente nu.

Às vezes, o "sono social" era simplesmente uma solução pragmática para a falta de camas. Na época, elas eram móveis de alto valor.

Mas até a nobreza buscava ativamente companheiros de cama, pela inigualável intimidade das conversas noturnas no escuro, sem falar na sensação de aquecimento e segurança.

Como as pessoas passavam as noites de sono compartilhado? E como essa antiga prática foi abandonada?

Em 2011, uma equipe de arqueólogos descobriu uma camada de sedimentos pré-históricos incomumente bem preservada na caverna Sibudu, na África do Sul.

Ela continha os restos fossilizados de folhas da árvore florestal Cryptocarya woodii. Era o "lençol" de um colchão de folhagem construído na Idade da Pedra, há cerca de 77 mil anos.

A arqueóloga Lyn Wadley, líder do projeto, especulou na época que o colchão pode ter sido suficientemente grande para ser usado por todo um grupo familiar.

É difícil encontrar evidências diretas do sono compartilhado, mas se acredita que esta prática seja muito antiga. Na verdade, do ponto de vista histórico, a preferência moderna por dormir sozinho e de forma privada é profundamente estranha.

Depois de um breve intervalo na Antiguidade – quando até os membros casados das classes superiores dormiam sozinhos – a prática atravessou a Idade Média mais ou menos sem alterações.

Mas os registros dessa atividade são mais numerosos no início da Idade Moderna, aproximadamente entre 1500 e 1800. Naquela época, compartilhar a cama era extremamente comum.

"Para a maioria das pessoas, exceto pelos aristocratas, comerciantes bem sucedidos e alguns membros da aristocracia rural, era incomum não ter um companheiro de cama", segundo o professor universitário de história Roger Ekirch, da Virgínia Tech (o Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, nos Estados Unidos).

Ekirch é o autor do livro At Day's Close: A History of Nighttime ("No fechamento do dia: uma história das horas noturnas", em tradução livre).

Uma das razões é que a ampla maioria das casas tinha muito poucas camas para que as pessoas pudessem dormir com privacidade, segundo a professora de história do início do período moderno Sasha Handley, da Universidade de Manchester, no Reino Unido, autora do livro Sleep in Early Modern England ("O sono no início da Inglaterra moderna", em tradução livre).

"Mesmo entre a classe média e alta quando eles estão viajando, o que é grande parte do tempo, eles são obviamente forçados a frequentar hospedarias, pousadas e tabernas, onde compartilhar a cama é uma prática bastante comum", explica Handley.

Por volta de 1590, uma pequena cidade no condado de Hertfordshire, na Inglaterra, ganhou fama com a Grande Cama de Ware, comprada pelo hotel local White Hart Inn.

Com 2,7 metros de altura, 3,3 m de largura e 3,4 m de profundidade, este móvel de carvalho formidável inclui elaborados entalhes de leões e sátiros, cobertos com cortinas vermelhas e amarelas quase teatrais. Ele teria sido oferecido para os viajantes compartilharem a noite.

Reza a lenda que uma aposta levou 26 açougueiros e suas esposas – totalizando 52 pessoas – a dormirem juntos na Grande Cama de Ware, em 1689.

Naquela época, compartilhar a cama não tinha a mesma conotação sexual de hoje em dia.

As ilustrações da era medieval frequentemente mostravam os três Reis Magos da Bíblia cristã dormindo juntos – às vezes nus ou até de conchinha. E os especialistas defendem que seria absurdo indicar de que eles estivessem praticando atos carnais.

O sono comunitário era algo muito desejado, que chegava a transcender as habituais barreiras das classes sociais.

Existem diversos relatos históricos de pessoas que se recolhiam todas as noites com seus inferiores ou superiores – mestres e seus aprendizes, auxiliares domésticos e seus empregadores, membros da realeza e seus súditos.

Em 1784, um pastor da igreja escreveu no seu diário que um visitante havia pedido especificamente para dormir ao lado do seu servo.

As disputas noturnas por cobertores e horas de ruídos estranhos do corpo aparentemente ofereciam um certo grau de igualdade que não existia fora do quarto de dormir.

Um dos registros mais detalhados de sono comunitário pode ser encontrado nos diários de Samuel Pepys (1633-1703). Eles fornecem uma visão de como era a vida na Inglaterra no século 17.

Pepys encadernou as páginas do seu diário com capa dura para a posteridade. Suas páginas podem ser encontradas até hoje nas prateleiras de carvalho da sua biblioteca em Cambridge, no Reino Unido.

Pepys escreveu seus diários por nove anos, a partir de 1660. Ele escrevia quase todos os dias.

Além das minúcias da vida diária e das frequentes descrições obscenas de seus atos com mulheres, os registros diários mostram a frequência com que ele dormia na mesma cama com amigos, colegas e completos estranhos.

Os diários de Samuel Pepys revelam as muitas nuances do compartilhamento de camas, seus sucessos e fracassos.

Pepys conta que, certa vez, na cidade inglesa de Portsmouth, ele dormiu ao lado de um médico com quem trabalhava na Sociedade Real de Londres.

Além de se deitarem juntos "muito bem e com alegria" (presumivelmente conversando até tarde da noite), dormir com o médico teve outra vantagem: ele era particularmente atraente para as pulgas, que acabaram deixando Pepys em paz.

Especula-se também que as pragas não gostavam do sangue de Pepys, o que pode ter ajudado a evitar que o cronista fosse infectado pela peste.

Ekirch explica que companheiros de cama adequados, envoltos em diversas camadas de cobertores e com seus gorros de dormir na cabeça, poderiam trocar histórias madrugada adentro – talvez até acordando para analisar seus sonhos entre o primeiro e o segundo turno de sono, conforme a prática da época.

As horas passadas conversando no escuro da noite ajudavam a fortalecer os laços sociais e ofereciam um espaço privado para trocar segredos.

Handley menciona o exemplo da jovem Sarah Hirst. Filha de alfaiate, ela tinha diversos parceiros favoritos para dormir e desenvolveu grande afeição por eles.

Quando um dos seus parceiros de cama regulares morreu, Hirst escreveu um poema expressando seu pesar.

Mesmo tendo muitas camas à sua disposição, acredita-se que a rainha Elizabeth 1ª (1533-1603) nunca tenha dormido sozinha durante o seu longo reinado de 44 anos.

Todas as noites, ela se recolhia ao quarto com uma de suas criadas de confiança. Com elas, a rainha dividia seu fardo e detalhava a atividade do dia na corte. Essas mulheres também ofereciam proteção à soberana.

No livro The Queen's Bed: An Intimate History of Elizabeth's Court ("A cama da rainha: uma história íntima da corte de Elizabeth", em tradução livre), a historiadora Anna Whitelock explica que são conhecidas intrusões masculinas no quarto real – como ocorreu na juventude da rainha, quando o homem que se casou com sua madrasta irrompia no quarto para dar tapas nas suas nádegas.

Esses incidentes podiam ser particularmente prejudiciais, já que Elizabeth 1ª precisava proteger sua virgindade.

Em uma era em que compartilhar a cama era algo completamente rotineiro e, muitas vezes, inevitável, era útil seguir uma etiqueta apropriada para garantir que todos tivessem uma noite de sono confortável, evitando a ocorrência de brigas durante a noite.

Esperava-se, por exemplo, que os companheiros de cama evitassem falar excessivamente, respeitassem o espaço pessoal dos demais e procurassem não ficar inquietos. Mas nem sempre tudo saía conforme o planejado.

Na noite de 9 de setembro de 1776, dois pais fundadores dos Estados Unidos – Benjamin Franklin (1706-1790) e John Adams (1735-1826) – travaram um acalorado debate enquanto compartilhavam um quarto e a mesma cama em uma pousada na província de Nova Brunswick, no Canadá.

A discussão começou quando Adams se levantou para fechar a janela.

"'Oh!', disse Franklin, 'não feche a janela. Vamos ficar sufocados.' Eu respondi [que] tinha medo do ar da noite", registrou Adams no seu diário.

Franklin começou então um longo e inflamado discurso sobre sua nova teoria dos resfriados, que ele acreditava (corretamente) que não fossem contraídos com o ar fresco, mas pela reciclagem do ar velho em um quarto abafado.

Adams ficou "tão entretido" pela palestra inesperada que rapidamente caiu no sono.

As dificuldades de lidar com as pessoas que desrespeitavam as regras de compartilhamento da cama eram tão grandes que um livro de frases de viagem em francês do início da era moderna fornecia aos viajantes ingleses opções de palavras para recriminar seu companheiro de cama.

Ekirch descobriu esse livro durante suas pesquisas. Entre as traduções sugeridas, estavam: "você só sabe chutar", "você puxa todas as roupas de cama" e "você é um mau companheiro de cama".

"Encontrei muitas anedotas engraçadas entre as pessoas que avaliavam a qualidade dos seus companheiros de cama pela sua capacidade de contar boas histórias ou por não roncarem", conta Handley.

Ela menciona um exemplo de um professor insatisfeito que comparou seu companheiro de cama (um reitor) com um porco, depois que ele foi para a cama embriagado e fez um "barulho hediondo".

Pepys também teve algumas desavenças com seus companheiros de cama. Ele chegou a expulsar um deles da cama depois que eles "deixaram de se dar bem", o que o fez reclamar de ter precisado ficar deitado sozinho toda a noite.

Mas havia também algumas convenções para tentar evitar consequências mais sérias.

Na maior parte das circunstâncias, era incomum que homens e mulheres solteiras compartilhassem a cama com alguém de fora da própria família. E, quando isso acontecia, as pessoas tentavam minimizar os riscos.

Ekirch encontrou o relato de um observador sobre o rigoroso acordo sobre posições para dormir em uma residência irlandesa no início do século 19.

A filha mais velha sempre dormia junto à parede, mais distante da porta, seguida pelas suas irmãs em ordem decrescente de idade. Em seguida, vinham a mãe, o pai e os filhos, também em ordem de idade.

Por fim, vinham os estranhos, "seja o comerciante em trânsito, o alfaiate ou o pedinte". Eles dormiam no final, onde ficavam mais longe das mulheres da família.

Havia também casos em que os trabalhadores domésticos, homens e mulheres, dormiam juntos devido à falta de camas.

"Era uma crença comum e fonte de piadas – pelo menos para quem não tivesse servos envolvidos – que isso, às vezes, resultava em gravidez", afirma Ekirch.

Ao compartilhar a cama com estranhos, havia o risco sempre presente de assassinato ou violência sexual.

No primeiro capítulo do romance Moby Dick, de 1851, o personagem principal fica alarmado ao descobrir que havia apenas uma cama disponível em uma pousada. Por isso, ele era obrigado a dormir com um misterioso (e talvez perigoso) caçador de baleias que estava na cidade para vender cabeças encolhidas.

E o sono comunitário também envolvia outras questões menos atraentes. Ao lado de todo o romance das conversas confidenciais no escuro e da afeição mútua desenvolvida entre os companheiros de cama ao longo de anos compartilhando seu calor físico, muitas camas compartilhadas eram fonte de pragas e doenças.

Afinal, com tantas pessoas amontoadas sobre o mesmo colchão (que, muitas vezes, oferecia o esconderijo ideal para os insetos), era frequente a infestação de pulgas, piolhos e percevejos.

Às vezes, as pessoas também se perturbavam com os odores repugnantes e insuportáveis das roupas de cama sem trocar, dos penicos usados e dos próprios companheiros de cama que descuidavam da higiene.

Em suas pesquisas, Ekirch encontrou um incidente em que duas mulheres se acusavam mutuamente de serem responsáveis por um odor desagradável, até que elas perceberam que havia um toalete perto da sua cabeceira.

Em meados do século 19, o compartilhamento de camas começou a sair de moda, até entre os casais.

Tudo começou com um influente médico americano chamado William Whitty Hall (1810-1876). Ele tinha fortes opiniões sobre muitos assuntos e passou a defender apaixonadamente a ideia de que o sono comunitário não era apenas pouco inteligente – era algo "não natural e degenerativo".

No seu livro Sleep ("Sono"), publicado em 1861, Hall invocou um argumento similar ao de Franklin durante sua discussão sobre as janelas da hospedaria: que o ar em um quarto ocupado por mais de uma pessoa pode ficar rapidamente poluído.

Ele também defendeu que compartilhar a cama "é degradante, pois diminui a consideração e o respeito mútuo que devem prevalecer na vida social".

Por isso, para ele, dormir na mesma cama que um companheiro não era apenas falta de higiene e pouco saudável – era imoral. Hall chegou a sugerir que o sono comunitário trazia as pessoas para mais perto dos animais "mais infames" da natureza.

Para ele, os casais mais idosos que sobreviveram aos grandes perigos do compartilhamento da cama, após décadas de casamento, simplesmente tiveram sorte.

A historiadora Hilary Hinds explica no seu livro A Cultural History of Twin Beds ("História cultural das camas gêmeas", em tradução livre) que isso marcou o início do sono individualista.

As famílias começaram a abandonar a antiga prática de sono comunitário – e, por quase um século, muitos casais também dormiram separados, em camas gêmeas.

Esta prática se manteve até os anos 1950, quando as pessoas começaram a considerar as camas separadas como um sinal de dificuldades no casamento. Mas o sono social nunca voltou a ter sua antiga popularidade em outros contextos.

Estaríamos nós perdendo uma oportunidade?

Será que os políticos modernos deveriam trocar o aperto de mãos da fotografia por uma simbólica noite de sono, como fizeram Ricardo Coração de Leão e Filipe 2°? Ou os turistas deveriam aproveitar o sono compartilhado com completos estranhos, como faziam os viajantes históricos?

"Acho que as pessoas costumam dormir muito melhor sozinhas por todo tipo de motivos", opina Handley. "Depois que ultrapassam aquela espécie de conforto psicológico que as camas compartilhadas podem oferecer, a maioria das pessoas tem benefícios com o ambiente de sono que elas podem modelar de acordo com suas próprias necessidades pessoais."

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cyr348y4y31o.amp