Hesíodo nos conta, em sua obra Teofania, sobre o "rapto" da Europa:
"Zeus, um dia, olhando distraidamente para a costa da Ásia Menor, viu uma mulher de extraordinária beleza. Era Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia. Zeus apaixonou-se por Europa e para tê-la disfarçou-se de um belíssimo touro branco, com chifres em meia lua. Europa viu tal touro tão amável que montou em suas costas e foi levada até Creta, onde ela teve seus filhos Minos, Radamanto e Sarpedão."
Minos depois se tornou o rei de Creta, dando origem à civilização Minóica, tão citada como uma das civilizações antigas mais avançadas. O que Hesíodo não nos conta é por que o touro era branco, por que Europa não teve medo e o que há por detrás do "rapto".
Europa não foi raptada, ela montou voluntariamente no touro branco. Mesmo nos dias de hoje, "montar" tem uma conotação sexual. Não foi Zeus, a despeito de todo seu histórico como conquistador, que se disfarçou como um touro branco, mas foi Hesíodo que o associou ao touro branco, provavelmente o símbolo de um Deus anterior e mais antigo que Zeus.
Na antiguidade, os livros eram escritos para a aristocracia. Hesíodo não conhecia, não tinha meios ou não tinha liberdade para escrever a respeito dos mitos e crenças da época. No tempo em que Hesíodo escreveu Teofania, os Gregos Antigos estavam esquecendo de seus Deuses e Deusas, a filosofia tomava o lugar e a função dos mitos, a religião estatal esmagava os cultos mais antigos. Hesíodo escreveu Teofania para organizar, hierarquizar e justificar a supremacia da religião estatal, onde Zeus reinava absoluto sobre um panteão com Deuses e Deusas mais antigos (e, outrora, mas poderosos) do que Zeus.
Hesíodo escreveu para tranquilizar a aristocracia que se sentia insegura diante da imensa diversidade de cultos, crenças e Deuses que existiam na Grécia Antiga, sobretudo para suprimir os mitos, os cultos e crenças mais velhas, que estavam vinculadas aos povos nativos que, como muitos dos povos primitivos, cultuavam uma Deusa Terra e um Deus Touro. Hesíodo cumpriu com seu trabalho e, inadvertidamente, eternizou o antigo, o perturbador e o poderoso Deus Touro.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Festival da Água
Novamente a Imprensa Abutre dá o ar [ou seriam asas?] da sua [des]graça, desta vez sobrevoando o Camboja.
Diversas agências de notícias, locais e internacionais noticiaram o Festival da Água do Camboja apenas porque aconteceu uma tragédia neste ano.
Isso aconteceu com a Coréia e seu festival Jeongwol Daeboreum. Nenhuma agência de notícia falou sobre o festival, sobre a cultura ou sobre a crença. Eu não acho que estou pedindo demais para a Imprensa ter um mínimo de respeito às crenças e folclore de outros povos.
Na falta de informações, recorro mais uma vez ao oráculo virtual [Google] para saber mais desse festival.
O Festival da Água do Camboja (Bon Om Touk, ou Bon Om Thook, ou Bonn Om Teuk, ou Bon Om Tuk) acontece uma vez ao ano, na lua cheia no mês budista de Kadeuk (usualmente em Novembro). Celebra uma ocorrência natural: a inversão da correnteza entre o lago Tonle e o rio Mekong.
Pelo ano, o lago Tonle Sap vaza para o rio Mekong. Entretanto, quando a estação chuvosa chega em Junho, o Mekong cresce, revertendo o fluxo para o lago, aumentando sua dimensão em dez vezes. Quando a estação chuvosa acaba em Novembro, o Mekong deságua novamente, revertendo o fluxo, esvaziando o excesso de água do lago Tonle de volta ao Mekong.
Essa ocorrência natural é celebrada no Camboja com três dias de festivais, paradas fluviais, corridas de barcos, espetáculo pirotécnico e alegria geral.
Então como agora, o lago Tonle é um ponto principal na vida de muitos Cambojanos. Ele é uma fonte de vida para muitos pescadores e fazendeiros. Não é espantoso que os Cambojanos tem celebrado o Bon Om Touk por séculos - é uma forma de retribuir ao rio o que ele lhes deu tanto.
Fonte: About [Tradução da casa]
Diversas agências de notícias, locais e internacionais noticiaram o Festival da Água do Camboja apenas porque aconteceu uma tragédia neste ano.
Isso aconteceu com a Coréia e seu festival Jeongwol Daeboreum. Nenhuma agência de notícia falou sobre o festival, sobre a cultura ou sobre a crença. Eu não acho que estou pedindo demais para a Imprensa ter um mínimo de respeito às crenças e folclore de outros povos.
Na falta de informações, recorro mais uma vez ao oráculo virtual [Google] para saber mais desse festival.
O Festival da Água do Camboja (Bon Om Touk, ou Bon Om Thook, ou Bonn Om Teuk, ou Bon Om Tuk) acontece uma vez ao ano, na lua cheia no mês budista de Kadeuk (usualmente em Novembro). Celebra uma ocorrência natural: a inversão da correnteza entre o lago Tonle e o rio Mekong.
Pelo ano, o lago Tonle Sap vaza para o rio Mekong. Entretanto, quando a estação chuvosa chega em Junho, o Mekong cresce, revertendo o fluxo para o lago, aumentando sua dimensão em dez vezes. Quando a estação chuvosa acaba em Novembro, o Mekong deságua novamente, revertendo o fluxo, esvaziando o excesso de água do lago Tonle de volta ao Mekong.
Essa ocorrência natural é celebrada no Camboja com três dias de festivais, paradas fluviais, corridas de barcos, espetáculo pirotécnico e alegria geral.
Então como agora, o lago Tonle é um ponto principal na vida de muitos Cambojanos. Ele é uma fonte de vida para muitos pescadores e fazendeiros. Não é espantoso que os Cambojanos tem celebrado o Bon Om Touk por séculos - é uma forma de retribuir ao rio o que ele lhes deu tanto.
Fonte: About [Tradução da casa]
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
A virgem e os peixes
O ponto favorito para fotos, numa tarde do mês passado, era um falo negro de bronze, com um motor que o fazia subir e descer como um canhão de guerra. Um barulhento grupo de vinte velhinhas contemplava a obra. Algumas riam, outras faziam “V” com os dedos. Mais adiante, um casal passeava de mãos dadas com a filha de uns 10 anos.
O parque Haesindang começou a nascer há quatro séculos, ali no vilarejo de Shinnam, quando um pescador levou a noiva para pegar algas marinhas numa rocha distante da costa. Ele prometeu voltar para buscá-la depois do trabalho. Mas não contava com a mudança súbita no tempo. Ventos e tempestades provocaram ondas enormes. A pobre jovem foi arrastada para longe. Morreu afogada nas águas geladas.
A partir de então, os peixes sumiram do lugar. Os moradores começaram a pensar em maneiras de aplacar a ira do espírito da virgem que, eles acreditavam, assombrara o mar. Pescadores se masturbaram na areia e esculturas fálicas de madeira foram levantadas na praia. Deu certo: os peixes voltaram a cair na rede dos pescadores.
Quatrocentos anos depois, em julho de 2002, a cidade resolveu lucrar com a crença local. Fundou um parque de 30 mil metros quadrados, com mais de 100 pênis das mais variadas formas, cores e, claro, tamanhos. A prefeitura também patrocina um concurso anual para selecionar dez novos trabalhos, no qual os dois primeiros classificados saem com prêmios de 3 mil e 2 mil dólares.
“Venerar imagens fálicas é uma prática ancestral na Coreia. Alguns dos túmulos mais antigos descobertos na península tinham esculturas bem exageradas de pênis e outras partes sexuais”, explicou o professor Michael J. Pettid, de Estudos Coreanos Pré-modernos da Universidade de Binghamton, em Nova York. “A reprodução humana era muito importante, além de estar relacionada ao desejo da fartura nas colheitas e energia sexual.”
O parque Haesindang recebe anualmente cerca de 270 mil visitantes. Não é um local de fácil acesso. A partir de Seul, a viagem de ônibus até a cidade mais próxima, Samcheok, dura quatro horas. Dali ao parque são mais cinquenta minutos. Escultores fálicos do Brasil serão bem recebidos no concurso anual. A prefeitura de Samcheok providencia hospedagem e alimentação de artistas estrangeiros durante o certame.
Autora: Fernanda Ezabella
Fonte: Piauí [link morto]
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Como prender uma bruxa
Ao usar o oráculo virtual [Google] eu me deparei com uma notícia inusitada e engraçada.
Na Grã-Bretanha, com a proximidade do Halloween, a Metropolitan Police deu um manual de instruções aos policiais para saberem lidar com os pagãs/os e bruxos/as.
Estamos no Halloween e a hora das bruxas se aproxima, mas não fique alarmado - policiais estão na patrulha, com orientações de como lidar com bruxas.
O conselho está em um manual de 300 páginas que dá aos oficiais uma lista de "fazer e evitar" quando se aproximarem dos seguidores de diversas religiões, do ateísmo ao zoroastrismo.
As instruções incluem evitar tocar o "Livro das Sombras" de uma bruxa, que contém seus feitiços, ou segurar sua adaga cerimonial.
O manual online também adverte aos oficiais a não tirarem conclusões precipitadas se encontrarem uma situação onde uma pessoa nua e vendada está amarrada pelas mãos – eles podem ter acidentalmente tropeçado em um ritual pagão, onde tais atividades são uma prática normal.
"As bruxas tem um Livro das Sombras, que contém um registro escrito ou diário de seu progresso pessoal como bruxa", diz o guia.
"A maior parte dos livros tem capas ornamentais, alguns tem o título Livro das Sombras, outros não".
"Qualquer livro pode ser usado, mas este livro é considerado como privado e especial e não deve ser tocado por outro que não sua autora. Se for possivel evitar tocar este livro então o melhor fazer isto".
O guia, feito pela Metropolitan Police, a maior força policial da Bretanha, adverte contra interromper uma cerimônia pagã.
Acrescenta: "Algumas cerimônias incluem um participante nu, vendado, cujas mãos podem estar atadas. Isto está de acordo com o ritual e tem o total consentimento do participante".
Aos oficiais também é dado conselho sobre a adaga cerimonial, conhecido por athame, carregado pelas bruxas e alguns tipos de pagãos.
"Quando entrar na casa de uma bruxa, não toque um athame sem a permissão de sua dona", diz [o guia].
"Durante a Disputa de Beltane que celebra o festival de Beltane (pelo fim de Abril), tem sido um hábito para alguns usar athames de vários tamanhos, alguns do tamanho de espadas, em um cinto, como um símbolo visível de sua crença pagã e os usam nas ruas".
"Estes não tem a intenção de serem usados como uma arma ofensiva, mas pode ser mal iterpretada dessa forma".
Também providenciaram um glossário de termos pagãos incluindo a saudação tradicional de "Feliz Encontro" e uma explicação de um "wickening" [wiccaning], ou cerimônia de nomear uma criança.
Explica as datas e os significados dos festivais pagãos tais como Imbolc, Lughnasadh e Samhain – também conhecido como Halloween.
O manual também afirma: "Os pagãos não tem leis dietéticas. Entretanto, muitas bruxas, mas não todas, são vegetarianas".
Fonte: Telegraph [link indisponível]
Nota da casa: Meus amigos ateus vão certamente protestar por terem sido incluídos como pertencendo a uma "religião". E definitivamente eu não suporto bruxo/a que é vegetariano/a.
Na Grã-Bretanha, com a proximidade do Halloween, a Metropolitan Police deu um manual de instruções aos policiais para saberem lidar com os pagãs/os e bruxos/as.
Estamos no Halloween e a hora das bruxas se aproxima, mas não fique alarmado - policiais estão na patrulha, com orientações de como lidar com bruxas.
O conselho está em um manual de 300 páginas que dá aos oficiais uma lista de "fazer e evitar" quando se aproximarem dos seguidores de diversas religiões, do ateísmo ao zoroastrismo.
As instruções incluem evitar tocar o "Livro das Sombras" de uma bruxa, que contém seus feitiços, ou segurar sua adaga cerimonial.
O manual online também adverte aos oficiais a não tirarem conclusões precipitadas se encontrarem uma situação onde uma pessoa nua e vendada está amarrada pelas mãos – eles podem ter acidentalmente tropeçado em um ritual pagão, onde tais atividades são uma prática normal.
"As bruxas tem um Livro das Sombras, que contém um registro escrito ou diário de seu progresso pessoal como bruxa", diz o guia.
"A maior parte dos livros tem capas ornamentais, alguns tem o título Livro das Sombras, outros não".
"Qualquer livro pode ser usado, mas este livro é considerado como privado e especial e não deve ser tocado por outro que não sua autora. Se for possivel evitar tocar este livro então o melhor fazer isto".
O guia, feito pela Metropolitan Police, a maior força policial da Bretanha, adverte contra interromper uma cerimônia pagã.
Acrescenta: "Algumas cerimônias incluem um participante nu, vendado, cujas mãos podem estar atadas. Isto está de acordo com o ritual e tem o total consentimento do participante".
Aos oficiais também é dado conselho sobre a adaga cerimonial, conhecido por athame, carregado pelas bruxas e alguns tipos de pagãos.
"Quando entrar na casa de uma bruxa, não toque um athame sem a permissão de sua dona", diz [o guia].
"Durante a Disputa de Beltane que celebra o festival de Beltane (pelo fim de Abril), tem sido um hábito para alguns usar athames de vários tamanhos, alguns do tamanho de espadas, em um cinto, como um símbolo visível de sua crença pagã e os usam nas ruas".
"Estes não tem a intenção de serem usados como uma arma ofensiva, mas pode ser mal iterpretada dessa forma".
Também providenciaram um glossário de termos pagãos incluindo a saudação tradicional de "Feliz Encontro" e uma explicação de um "wickening" [wiccaning], ou cerimônia de nomear uma criança.
Explica as datas e os significados dos festivais pagãos tais como Imbolc, Lughnasadh e Samhain – também conhecido como Halloween.
O manual também afirma: "Os pagãos não tem leis dietéticas. Entretanto, muitas bruxas, mas não todas, são vegetarianas".
Fonte: Telegraph [link indisponível]
Nota da casa: Meus amigos ateus vão certamente protestar por terem sido incluídos como pertencendo a uma "religião". E definitivamente eu não suporto bruxo/a que é vegetariano/a.
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
O Ritual do Gelo Sagrado
Em mais um episódio da série "Terra - que Tempo é Esse?", nossos repórteres mostram o ritual do Gelo Sagrado, uma celebração ancestral que agora, por causa do aquecimento global, já não usa mais o gelo.
A metade norte da maior cadeia de montanhas do planeta está tão perto do Equador que só tem gelo no topo por causa do ar frio, mais de cinco mil metros acima do nível do mar.
Mas, agora, mesmo nessas altitudes, o ar está mais quente. E os povos andinos já veem suas reservas de água congelada derretendo diante dos olhos.
Estamos no nosso continente, na parte peruana da Cordilheira dos Andes, que se estende por 7,5 mil quilômetros, da Venezuela à Terra do Fogo, e rumo às ruínas de uma grande civilização. Nestas montanhas, 800 anos atrás, os incas ergueram seu império.
Mudanças no clima sempre foram determinantes na história da humanidade. Agora, ameaçam também as janelas que nos permitem olhar para o passado. Como a cidade sagrada de Machu Picchu, no Peru, centro da civilização inca. Machu Picchu já está sentindo os efeitos das mudanças nos padrões de chuva.
Os terraços, nos quais os incas plantavam e faziam pesquisas agrícolas, sobrevivem firmes, séculos depois de o povo que os construiu ter desaparecido. Mas até quando?
As previsões dos cientistas são de que esta região vai enfrentar, cada vez mais, períodos de clima extremo: secas prolongadas, que desestabilizam o solo, seguidas de chuvas torrenciais, que provocam desmoronamentos.
Como se viu no início deste ano, estradas bloqueadas, vilas isoladas, milhares de turistas presos nas montanhas. Machu Picchu guarda provas de que os incas conseguiam prever épocas de tempo ruim.
Os incas eram capazes de prever um ano de chegada do El Niño apenas observando as estrelas. Um método que já foi confirmado pela astronomia moderna.
O nome El Niño é uma referência ao Menino Jesus, porque é perto do Natal que, em alguns anos, a água do Pacífico, na costa do Peru, fica mais quente, provocando mudanças no clima em todo o continente.
Em Machu Picchu, a previsão era feita num observatório muito diferente. Os pequenos poços de água limpa e parada funcionavam como espelhos do céu, refletindo as estrelas e planetas. A umidade no ar, que atrapalha a observação, era o sinal do El Niño.
Aos pés dos Andes, a civilização inca desabrochou usando a água limpa, abundante e bem distribuída. Os povos no vale ainda desfrutam do sistema hídrico implantado pelos incas. Mas da Venezuela ao sul do Peru, os Andes tropicais estão perdendo gelo.
Sônia Bridi: Professor, o fenômeno que se vê já nos Andes é consequência do aquecimento global?
Edson Ramirez, glaciologista: “Sem dúvida, mas nem sempre de forma direta. O aquecimento mudou o El Niño, um fenômeno que sempre existiu, mas está cada vez mais frequente e intenso. E a consequência é que a chuva diminuiu e o calor aumentou, o que faz com que as geleiras derretam muito mais rápido.
O Peru depende da água do degelo para praticamente toda a sua agricultura. Por isso, é um dos países mais sensíveis às mudanças climáticas. E o povo já adapta até suas tradições.
São 2h e a equipe do Fantástico está em Mayawani, uma vila a 200 quilômetros de Machu Picchu. Ela vai fazer o mesmo que milhares de peruanos: subir a montanha em busca do gelo sagrado.
A equipe está a 4,2 mil metros de altitude. O oxigênio já é bastante rarefeito. O grupo vai subir a 4,6 mil e tem que chegar lá até o amanhecer. Então, a cavalo vai dar uma ajuda grande.
Antes de partir, eles abençoam e mascam folhas de coca. A trilha é como uma procissão. Gente de todas as idades atravessa a escuridão até a primeira luz da manhã revelar os contornos áridos do caminho.
Três horas depois, o grupo chega à festa do senhor de Qoylor Riti: um rito ancestral, incorporado pelo catolicismo.
É como se uma cidade inteira surgisse literalmente da noite para o dia nas montanhas, no meio dos Andes. São 30 mil pessoas. É a maior peregrinação de povos nativos das Américas.
Enquanto milhares estão ainda chegando, outros tantos viraram a noite fria lá no alto, em cima da geleira, conversando. O tema: o sentido da vida.
Ao amanhecer, vêm se juntar aos outros. Eles são divididos em confrarias, grupos representando centenas de povoados dos dois lados dos Andes.
Música e dança são como mantras: um transe religioso que espanta o frio e a dificuldade de se movimentar nesta altitude.
Até pouco tempo, todas essas confrarias desciam trazendo blocos de gelo, gelo sagrado, que era levado até a cidade de Cuzco para ser abençoado em outra festa religiosa, a de Corpus Christi.
Só que três anos atrás, as confrarias perceberam que o gelo que antes chegava ao local já tinha se recolhido mais de um quilômetro, montanha acima. Então, a retirada do gelo foi proibida para que eles pudessem preservar o que eles têm de mais sagrado, que é a água. E, assim, a tradição não acelera um processo que a natureza já está fazendo rápido demais.
Eles não ouviram cientistas. Viram com os próprios olhos que o gelo está diminuindo. “Proibimos que se traga o gelo, porque já não tem mais gelo lá em cima”, diz o peregrino. “Tudo era neve. Vinha até aqui”, conta outro homem. “Agora, o aquecimento global, senhores, é uma preocupação”, diz outro peregrino.
Os que vêm das montanhas trazem penduradas peles de vicunha, uma parente da lhama. Os da selva portam cocares de penas.
Cada roupa representa um pedaço da rica cultura andina e da mistura que começou com a chegada dos espanhóis. Um ritual de iniciação. Chicotadas nos que venceram a noite no gelo.
Nesta festa não tem polícia, nem governo. Mas tem os pablitos, com uma fantasia, que mantém a ordem.
Um deles conta que vem há 20 anos.
Sônia Bridi: Vocês têm medo das mudanças no clima?
Peregrino: Sim. Tenho medo. O que será da nossa vida?
O desfile de peregrinos montanha abaixo não tem fim. Alguns se fantasiam de condor, o abutre dos Andes. Outros carregam cruzes.
Em vários pontos, eles se ajoelham para esperar um deus inca aparecer. O sol desponta, eles se benzem, como bons cristãos, e seguem em festa.
Lá embaixo, os peregrinos agora se agrupam e a equipe do Fantástico vai para o alto, até a nova fronteira do gelo, que não para de recuar.
Para chegar até a geleira, o grupo precisou subir a cinco mil metros de altitude. O problema é que essa geleira termina aos 5,3 mil metros e continua encolhendo. Isso, segundo os cientistas, significa que em 20 anos ela terá desaparecido por completo, junto com todo o gelo dos Andes tropicais abaixo dos 5,4 mil metros.
Vinte anos apenas e boa parte desse estoque de água congelada terá ido embora, deixando países como Equador, Bolívia e Peru com graves crises de abastecimento.
“Em maio já nevava. Agora, em julho, a chuva era farta. O frio está mais frio, o calor mais quente”, conta o peregrino.
Na voz do peregrino, a definição das mudanças climáticas, exatamente como preveem os cientistas.
Fonte: Fantástico [link morto]
Nota da casa: Muitos ritos antigos foram incorporados pelo Catolicismo e as pessoas perderam o sentido e o significado desses rituais. A humanidade ruma à auto-extinção pelas mãos do Capitalismo. O que está em jogo e a nossa preservação e isso passa por uma mudança na forma como nos relacionamos com o mundo, a natureza e conosco mesmo.
A metade norte da maior cadeia de montanhas do planeta está tão perto do Equador que só tem gelo no topo por causa do ar frio, mais de cinco mil metros acima do nível do mar.
Mas, agora, mesmo nessas altitudes, o ar está mais quente. E os povos andinos já veem suas reservas de água congelada derretendo diante dos olhos.
Estamos no nosso continente, na parte peruana da Cordilheira dos Andes, que se estende por 7,5 mil quilômetros, da Venezuela à Terra do Fogo, e rumo às ruínas de uma grande civilização. Nestas montanhas, 800 anos atrás, os incas ergueram seu império.
Mudanças no clima sempre foram determinantes na história da humanidade. Agora, ameaçam também as janelas que nos permitem olhar para o passado. Como a cidade sagrada de Machu Picchu, no Peru, centro da civilização inca. Machu Picchu já está sentindo os efeitos das mudanças nos padrões de chuva.
Os terraços, nos quais os incas plantavam e faziam pesquisas agrícolas, sobrevivem firmes, séculos depois de o povo que os construiu ter desaparecido. Mas até quando?
As previsões dos cientistas são de que esta região vai enfrentar, cada vez mais, períodos de clima extremo: secas prolongadas, que desestabilizam o solo, seguidas de chuvas torrenciais, que provocam desmoronamentos.
Como se viu no início deste ano, estradas bloqueadas, vilas isoladas, milhares de turistas presos nas montanhas. Machu Picchu guarda provas de que os incas conseguiam prever épocas de tempo ruim.
Os incas eram capazes de prever um ano de chegada do El Niño apenas observando as estrelas. Um método que já foi confirmado pela astronomia moderna.
O nome El Niño é uma referência ao Menino Jesus, porque é perto do Natal que, em alguns anos, a água do Pacífico, na costa do Peru, fica mais quente, provocando mudanças no clima em todo o continente.
Em Machu Picchu, a previsão era feita num observatório muito diferente. Os pequenos poços de água limpa e parada funcionavam como espelhos do céu, refletindo as estrelas e planetas. A umidade no ar, que atrapalha a observação, era o sinal do El Niño.
Aos pés dos Andes, a civilização inca desabrochou usando a água limpa, abundante e bem distribuída. Os povos no vale ainda desfrutam do sistema hídrico implantado pelos incas. Mas da Venezuela ao sul do Peru, os Andes tropicais estão perdendo gelo.
Sônia Bridi: Professor, o fenômeno que se vê já nos Andes é consequência do aquecimento global?
Edson Ramirez, glaciologista: “Sem dúvida, mas nem sempre de forma direta. O aquecimento mudou o El Niño, um fenômeno que sempre existiu, mas está cada vez mais frequente e intenso. E a consequência é que a chuva diminuiu e o calor aumentou, o que faz com que as geleiras derretam muito mais rápido.
O Peru depende da água do degelo para praticamente toda a sua agricultura. Por isso, é um dos países mais sensíveis às mudanças climáticas. E o povo já adapta até suas tradições.
São 2h e a equipe do Fantástico está em Mayawani, uma vila a 200 quilômetros de Machu Picchu. Ela vai fazer o mesmo que milhares de peruanos: subir a montanha em busca do gelo sagrado.
A equipe está a 4,2 mil metros de altitude. O oxigênio já é bastante rarefeito. O grupo vai subir a 4,6 mil e tem que chegar lá até o amanhecer. Então, a cavalo vai dar uma ajuda grande.
Antes de partir, eles abençoam e mascam folhas de coca. A trilha é como uma procissão. Gente de todas as idades atravessa a escuridão até a primeira luz da manhã revelar os contornos áridos do caminho.
Três horas depois, o grupo chega à festa do senhor de Qoylor Riti: um rito ancestral, incorporado pelo catolicismo.
É como se uma cidade inteira surgisse literalmente da noite para o dia nas montanhas, no meio dos Andes. São 30 mil pessoas. É a maior peregrinação de povos nativos das Américas.
Enquanto milhares estão ainda chegando, outros tantos viraram a noite fria lá no alto, em cima da geleira, conversando. O tema: o sentido da vida.
Ao amanhecer, vêm se juntar aos outros. Eles são divididos em confrarias, grupos representando centenas de povoados dos dois lados dos Andes.
Música e dança são como mantras: um transe religioso que espanta o frio e a dificuldade de se movimentar nesta altitude.
Até pouco tempo, todas essas confrarias desciam trazendo blocos de gelo, gelo sagrado, que era levado até a cidade de Cuzco para ser abençoado em outra festa religiosa, a de Corpus Christi.
Só que três anos atrás, as confrarias perceberam que o gelo que antes chegava ao local já tinha se recolhido mais de um quilômetro, montanha acima. Então, a retirada do gelo foi proibida para que eles pudessem preservar o que eles têm de mais sagrado, que é a água. E, assim, a tradição não acelera um processo que a natureza já está fazendo rápido demais.
Eles não ouviram cientistas. Viram com os próprios olhos que o gelo está diminuindo. “Proibimos que se traga o gelo, porque já não tem mais gelo lá em cima”, diz o peregrino. “Tudo era neve. Vinha até aqui”, conta outro homem. “Agora, o aquecimento global, senhores, é uma preocupação”, diz outro peregrino.
Os que vêm das montanhas trazem penduradas peles de vicunha, uma parente da lhama. Os da selva portam cocares de penas.
Cada roupa representa um pedaço da rica cultura andina e da mistura que começou com a chegada dos espanhóis. Um ritual de iniciação. Chicotadas nos que venceram a noite no gelo.
Nesta festa não tem polícia, nem governo. Mas tem os pablitos, com uma fantasia, que mantém a ordem.
Um deles conta que vem há 20 anos.
Sônia Bridi: Vocês têm medo das mudanças no clima?
Peregrino: Sim. Tenho medo. O que será da nossa vida?
O desfile de peregrinos montanha abaixo não tem fim. Alguns se fantasiam de condor, o abutre dos Andes. Outros carregam cruzes.
Em vários pontos, eles se ajoelham para esperar um deus inca aparecer. O sol desponta, eles se benzem, como bons cristãos, e seguem em festa.
Lá embaixo, os peregrinos agora se agrupam e a equipe do Fantástico vai para o alto, até a nova fronteira do gelo, que não para de recuar.
Para chegar até a geleira, o grupo precisou subir a cinco mil metros de altitude. O problema é que essa geleira termina aos 5,3 mil metros e continua encolhendo. Isso, segundo os cientistas, significa que em 20 anos ela terá desaparecido por completo, junto com todo o gelo dos Andes tropicais abaixo dos 5,4 mil metros.
Vinte anos apenas e boa parte desse estoque de água congelada terá ido embora, deixando países como Equador, Bolívia e Peru com graves crises de abastecimento.
“Em maio já nevava. Agora, em julho, a chuva era farta. O frio está mais frio, o calor mais quente”, conta o peregrino.
Na voz do peregrino, a definição das mudanças climáticas, exatamente como preveem os cientistas.
Fonte: Fantástico [link morto]
Nota da casa: Muitos ritos antigos foram incorporados pelo Catolicismo e as pessoas perderam o sentido e o significado desses rituais. A humanidade ruma à auto-extinção pelas mãos do Capitalismo. O que está em jogo e a nossa preservação e isso passa por uma mudança na forma como nos relacionamos com o mundo, a natureza e conosco mesmo.
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sábado, 13 de novembro de 2010
A razão de sua vida
Depois da dica do Gaius, eu fui procurar no oraculo virtual [Google] mais textos da Ailin Aleixo.
Achei este bem apropriado para este blog e para dar [no bom sentido] em homenagem à Qelimat:
Por que nunca assumimos a responsabilidade por nossas vidas?
Esse papo de Jesus é lindo mas não cola comigo. Minha religiosidade admite que só existe a luz por causa da sombra e, antes de serem incompatíveis, são inseparáveis. Não gosto do maniqueísmo. Sabe qual a minha carta preferida do tarô? O Diabo. Ele é algo sobre o qual as pessoas nunca chegarão a um acordo, assim como Deus. Mas, ao contrário d'Este, fica mais poderoso à medida que o tumulto à sua volta cresce.
O Diabo faz as pessoas pensarem, viverem, temerem. Não acredito no cara de rabo e tridente, e sim naqueles desejos que nos impulsionam. Daí entra Deus. Deus é nossa vontade de confiar, ter estabilidade, dormir na rede com o ventinho batendo no rosto. Deus é a calma, o maravilhoso equilíbrio que sempre buscamos mas que não saberíamos ser maravilhoso se não conhecêssemos o oposto. Sem as dualidades, a vida seria um marasmo sem fim.
Gibran Khalil, num de seus contos, narra o encontro de um padre com o Diabo.
"O padre aproximou-se e inclinou-se sobre o moribundo e viu uma face estranha, na qual se misturavam a inteligência e a astúcia, a fealdade e a beleza. O padre soltou um grito terrível e bradou, trêmulo: 'Deus me revelou tua face infernal para alimentar meu ódio por ti. Sê maldito até o fim dos tempos!'"
O demônio respondeu com certa impaciência: "Não sabes o que dizes, e não calculas o mal que cometes contra ti mesmo. Eu fui e continuo a ser a causa de teu bem-estar e de tua felicidade. Não foi minha existência a justificação da profissão que escolheste e meu nome, o lema de tua vida?"
Pois é: acredito em Deus, rezo e, do meu jeito, tenho muita fé. Mas creio que vivemos essa dimensão divina muito mais interiormente que em adesivos de carros, camisetas ou chaveiros.
Acredito no Diabo também. Nessas "tentações" que se interpõem em nosso caminho para nos mostrar o que é realmente importante. Por isso não nego minhas dualidades. Por isso acho que traição e amor podem coexistir e que ofender não significa, obrigatoriamente, odiar. Por isso temo destruir coisas que me são caras ao mesmo tempo que me aproximo do que, dizem, deveria me afastar. Mas não posso ser só metade de mim.
Adorei uma comparação que ouvi, entre um velho "amigo" meu e Satanás. É bem verdadeira. Ele ferra tudo por onde passa e mesmo assim continua sedutor. Mas ele não é Satanás, é só um humano sem semancol, sem apego. Só. Realmente tenho amargas lembranças dele - mas também foi muito importante. Ambas as coisas. Você já reclamou várias vezes que sempre se interessa pelas mulheres "erradas", mas não existe ninguém errado nem ruim, só ruim pra você. Ela pode ser ótima pra alguém que tenha as mesmas expectativas de vida, mas você não é essa pessoa - e mesmo assim se sente atraído por ela. Somos incoerentes, faz parte. E ninguém é culpado por isso, mesmo que a solução mais espontânea seja jogar a responsabilidade pra cima do outro, seja ele o Diabo, o ex-namorado ou o tempo.
Não creio que a simples introjeção de um conceito divino possa, de alguma maneira, me livrar de problemas cotidianos, de desejos. Aliás, seria péssimo! Quero paz, alegria, felicidade e também o frio na barriga, a surpresa, o descontrole temporário. Posso ser louca, mas acho que só tenho consciência das minhas discrepâncias e não tento ignorá-las me escondendo atrás de dogmas e púlpitos.
Autora: Ailin Aleixo
Fonte: Mulher Honesta [link morto]
Trecho sublinhado por conta da casa.
Achei este bem apropriado para este blog e para dar [no bom sentido] em homenagem à Qelimat:
Por que nunca assumimos a responsabilidade por nossas vidas?
Esse papo de Jesus é lindo mas não cola comigo. Minha religiosidade admite que só existe a luz por causa da sombra e, antes de serem incompatíveis, são inseparáveis. Não gosto do maniqueísmo. Sabe qual a minha carta preferida do tarô? O Diabo. Ele é algo sobre o qual as pessoas nunca chegarão a um acordo, assim como Deus. Mas, ao contrário d'Este, fica mais poderoso à medida que o tumulto à sua volta cresce.
O Diabo faz as pessoas pensarem, viverem, temerem. Não acredito no cara de rabo e tridente, e sim naqueles desejos que nos impulsionam. Daí entra Deus. Deus é nossa vontade de confiar, ter estabilidade, dormir na rede com o ventinho batendo no rosto. Deus é a calma, o maravilhoso equilíbrio que sempre buscamos mas que não saberíamos ser maravilhoso se não conhecêssemos o oposto. Sem as dualidades, a vida seria um marasmo sem fim.
Gibran Khalil, num de seus contos, narra o encontro de um padre com o Diabo.
"O padre aproximou-se e inclinou-se sobre o moribundo e viu uma face estranha, na qual se misturavam a inteligência e a astúcia, a fealdade e a beleza. O padre soltou um grito terrível e bradou, trêmulo: 'Deus me revelou tua face infernal para alimentar meu ódio por ti. Sê maldito até o fim dos tempos!'"
O demônio respondeu com certa impaciência: "Não sabes o que dizes, e não calculas o mal que cometes contra ti mesmo. Eu fui e continuo a ser a causa de teu bem-estar e de tua felicidade. Não foi minha existência a justificação da profissão que escolheste e meu nome, o lema de tua vida?"
Pois é: acredito em Deus, rezo e, do meu jeito, tenho muita fé. Mas creio que vivemos essa dimensão divina muito mais interiormente que em adesivos de carros, camisetas ou chaveiros.
Acredito no Diabo também. Nessas "tentações" que se interpõem em nosso caminho para nos mostrar o que é realmente importante. Por isso não nego minhas dualidades. Por isso acho que traição e amor podem coexistir e que ofender não significa, obrigatoriamente, odiar. Por isso temo destruir coisas que me são caras ao mesmo tempo que me aproximo do que, dizem, deveria me afastar. Mas não posso ser só metade de mim.
Adorei uma comparação que ouvi, entre um velho "amigo" meu e Satanás. É bem verdadeira. Ele ferra tudo por onde passa e mesmo assim continua sedutor. Mas ele não é Satanás, é só um humano sem semancol, sem apego. Só. Realmente tenho amargas lembranças dele - mas também foi muito importante. Ambas as coisas. Você já reclamou várias vezes que sempre se interessa pelas mulheres "erradas", mas não existe ninguém errado nem ruim, só ruim pra você. Ela pode ser ótima pra alguém que tenha as mesmas expectativas de vida, mas você não é essa pessoa - e mesmo assim se sente atraído por ela. Somos incoerentes, faz parte. E ninguém é culpado por isso, mesmo que a solução mais espontânea seja jogar a responsabilidade pra cima do outro, seja ele o Diabo, o ex-namorado ou o tempo.
Não creio que a simples introjeção de um conceito divino possa, de alguma maneira, me livrar de problemas cotidianos, de desejos. Aliás, seria péssimo! Quero paz, alegria, felicidade e também o frio na barriga, a surpresa, o descontrole temporário. Posso ser louca, mas acho que só tenho consciência das minhas discrepâncias e não tento ignorá-las me escondendo atrás de dogmas e púlpitos.
Autora: Ailin Aleixo
Fonte: Mulher Honesta [link morto]
Trecho sublinhado por conta da casa.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Liber[t]ação Feminina
Mulher que é mulher dá pra quem ela quiser e nem perde tempo pensando nesse assunto porque é algo tão natural e simples na sua vida quanto escovar os dentes ou ir ao cinema. Por isso acho bem esquisito essas meninas (independente da idade que tenham continuam meninas) cheias de preocupação, lendo livros e fazendo contas (primeiro encontro, terceiro, décimo segundo?) para descobrir o momento ideal de arriar a calcinha de renda.
É só sexo. Passional, carnal e intempestivo como deve ser. Deixem as contas pro IBGE, as regras de bom comportamento para os colégios de freira, e vivam. Comprem camisinhas e mandem bala.
Apesar da aparente modernidade, tem muita mulher regulada por aí. E não porque não sintam vontade de liberar, não: esse motivo é respeitável. É porque tem medo do que os outros vão falar. Medo do que o cara vai pensar dela, vê se pode. Se uma garota teme o juízo que o cidadão vai fazer dela depois do bundalelê, é um aviso dos céus de que não deve dar pra ele de jeito nenhum—a menos que goste de transar com babacas moralistas.
Jamais me preocupei com o que o vizinho, o porteiro ou qualquer terceiro pensam de mim: se eles não tem nada mais importante pra fazer do que vigiar a vida alheia, pobre deles. O problema é que nossa sociedade é, feito lençol freático, permeada por um moralismo mais contaminador que dengue e, quando você menos espera, se pega censurando a conduta dos outros igualzinho sua avó. Comportamento herdado, sabe? Pior que isso, comportamento arcaico. Ou patético.
Homem que fica encanado com a vida sexual pregressa da namorada precisa tomar surra de frigideira pra parar de ser besta. O mais engraçado é que os machos rodados se acham os Tiger Woods do sexo (acertam o buraco cada vez com mais distinção), mas as mulheres viram roupa comprada em brexó? Ah, faça-me o favor. Cada um dá o que é seu e ninguém tem nada a ver com isso. E, aliás, o número de pessoas que passaram pela minha cama, ou pela dela, não te interessa, não altera a BOVESPA, nem a minha personalidade ou valor. Muda, isso sim, a experiência. O que é, ao meu ver, ótimo: ter referencial é algo valiosíssimo nesses dias de propaganda enganosa…
Mas, veja bem: dar pra quem quiser não significa passar o rodo no time de basquete inteiro ou em toda sua turma de amigos, não. Isso é falta de respeito consigo mesma. Porque, como disse Leila Diniz a um babacão que, depois de tomar um sonoro fora, a chamou de vagabunda: “Querido, eu posso dar pra todo mundo, mas não pra qualquer um”. Isso é que é mulher."
Autora: Ailin Aleixo.
Divulgado na SW por Gaius.
Nota da casa: Isto me recorda o diálogo entre Nana e Iony, sobre o Complexo de Cinderela e do como ainda as mulheres brasileiras vivem dentro das imposições sociais, das limitações do patriarcado, das repressões da igreja. A maioria ainda tem o casamento como "projeto de vida" e depois subsiste de forma medíocre, vivendo em função de outras coisas [marido, filhos, carreira, patrimônio] e se esquecendo dela.
Mulher, você e apenas você é dona de si. Viva em sua função. O mundo, a humanidade, os homens humanos [especialmente os pagãos };)] agradecem.
É só sexo. Passional, carnal e intempestivo como deve ser. Deixem as contas pro IBGE, as regras de bom comportamento para os colégios de freira, e vivam. Comprem camisinhas e mandem bala.
Apesar da aparente modernidade, tem muita mulher regulada por aí. E não porque não sintam vontade de liberar, não: esse motivo é respeitável. É porque tem medo do que os outros vão falar. Medo do que o cara vai pensar dela, vê se pode. Se uma garota teme o juízo que o cidadão vai fazer dela depois do bundalelê, é um aviso dos céus de que não deve dar pra ele de jeito nenhum—a menos que goste de transar com babacas moralistas.
Jamais me preocupei com o que o vizinho, o porteiro ou qualquer terceiro pensam de mim: se eles não tem nada mais importante pra fazer do que vigiar a vida alheia, pobre deles. O problema é que nossa sociedade é, feito lençol freático, permeada por um moralismo mais contaminador que dengue e, quando você menos espera, se pega censurando a conduta dos outros igualzinho sua avó. Comportamento herdado, sabe? Pior que isso, comportamento arcaico. Ou patético.
Homem que fica encanado com a vida sexual pregressa da namorada precisa tomar surra de frigideira pra parar de ser besta. O mais engraçado é que os machos rodados se acham os Tiger Woods do sexo (acertam o buraco cada vez com mais distinção), mas as mulheres viram roupa comprada em brexó? Ah, faça-me o favor. Cada um dá o que é seu e ninguém tem nada a ver com isso. E, aliás, o número de pessoas que passaram pela minha cama, ou pela dela, não te interessa, não altera a BOVESPA, nem a minha personalidade ou valor. Muda, isso sim, a experiência. O que é, ao meu ver, ótimo: ter referencial é algo valiosíssimo nesses dias de propaganda enganosa…
Mas, veja bem: dar pra quem quiser não significa passar o rodo no time de basquete inteiro ou em toda sua turma de amigos, não. Isso é falta de respeito consigo mesma. Porque, como disse Leila Diniz a um babacão que, depois de tomar um sonoro fora, a chamou de vagabunda: “Querido, eu posso dar pra todo mundo, mas não pra qualquer um”. Isso é que é mulher."
Autora: Ailin Aleixo.
Divulgado na SW por Gaius.
Nota da casa: Isto me recorda o diálogo entre Nana e Iony, sobre o Complexo de Cinderela e do como ainda as mulheres brasileiras vivem dentro das imposições sociais, das limitações do patriarcado, das repressões da igreja. A maioria ainda tem o casamento como "projeto de vida" e depois subsiste de forma medíocre, vivendo em função de outras coisas [marido, filhos, carreira, patrimônio] e se esquecendo dela.
Mulher, você e apenas você é dona de si. Viva em sua função. O mundo, a humanidade, os homens humanos [especialmente os pagãos };)] agradecem.
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