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Só no Brasil. Gay de direita. Pobre de direita. Trabalhador que vota em candidato envolvido em um escândalo bancário. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.
A notícia tem um detalhe que praticamente escreve a piada sozinho: o candidato conhecido como “Gay de Direita” recebeu 294 votos, declarou ter se sentido traído pela direita e anunciou apoio a Lula. Segundo os dados eleitorais citados pelo DCM e por outros veículos, houve R$ 103,8 mil em recursos partidários para a campanha.
O maravilhoso supermercado ideológico brasileiro
Só no Brasil mesmo.
Aqui você pode encontrar de tudo no supermercado ideológico nacional: gay de direita, pobre de direita, trabalhador defendendo patrão, aposentado defendendo quem quer reduzir aposentadoria, gente endividada defendendo banco e, agora, cidadão recebendo dinheiro para fazer campanha, conseguindo 294 votos e descobrindo que a direita não era exatamente aquilo que ele imaginava.
É quase um episódio de Black Mirror, só que escrito por um roteirista que tomou três cafés, perdeu o juízo e resolveu trabalhar para o Tribunal Superior Eleitoral.
O caso do chamado “Gay de Direita” é particularmente delicioso.
João Pedro Sastre recebeu 294 votos para deputado federal, reclamou da falta de apoio da direita e, depois do resultado, anunciou apoio a Lula no segundo turno. Segundo os dados eleitorais, sua campanha recebeu R$ 103,8 mil em recursos partidários.
Aí você percebe que o Brasil conseguiu transformar a velha discussão sobre consciência de classe em uma espécie de liquidação de shopping:
“Compre uma ideologia e leve outra pelo preço de uma frustração eleitoral.”
E isso nos leva ao fenômeno mais fascinante da política brasileira: o sujeito pode estar objetivamente na base da pirâmide social e politicamente empenhado em construir um apartamento na cobertura.
É o pobre de direita.
É o trabalhador de direita.
É o sujeito que vende a própria força de trabalho oito horas por dia, chega em casa cansado, abre o celular e começa a defender justamente aqueles que gostariam que ele trabalhasse mais, descansasse menos e ainda agradecesse pela oportunidade.
Agora imaginem o diálogo:
— Patrão, eu trabalho dez horas por dia.
— Excelente! Poderia trabalhar dezesseis.
— Mas isso vai acabar com minha saúde.
— Empreendedorismo.
— Não vou ter tempo para meus filhos.
— Família tradicional.
— Vou ganhar a mesma coisa?
— Isso é comunismo.
E o trabalhador:
— Ainda bem. Votei no senhor.
É o capitalismo brasileiro em estado puro: o indivíduo está sendo explorado, mas pelo menos pode escolher livremente quem vai explorá-lo.
A questão não é ser gay e ser de direita. Pessoas LGBT podem ter qualquer posição política. Da mesma maneira, um trabalhador pode votar na direita. Uma pessoa pobre pode defender políticas liberais. Não existe uma polícia ideológica distribuindo carteirinha na porta da urna.
O problema é outro.
É quando a pessoa abandona completamente a análise dos próprios interesses materiais e transforma identidade política em torcida organizada.
“Sou trabalhador, mas odeio sindicato.”
“Sou pobre, mas imposto é roubo.”
“Sou pequeno empresário, mas acho ótimo o grande conglomerado receber incentivo.”
“Sou gay, mas acho que os direitos LGBT estão exagerados.”
“Sou mulher, mas feminismo é mimimi.”
“Sou aposentado, mas reforma da Previdência é necessária.”
“Sou usuário do SUS, mas Estado mínimo!”
É quase uma esquizofrenia política coletiva.
E existe uma categoria ainda mais impressionante: o trabalhador que vota em candidato associado a escândalo financeiro.
Esse é o verdadeiro fenômeno antropológico brasileiro.
O cidadão olha para uma notícia sobre banco, dinheiro, investigação, operações suspeitas e movimentações milionárias e pensa:
— Finalmente encontraram alguém que entende de economia.
É como o frango votar na raposa porque ela demonstrou grande experiência em administração de galinheiros.
E aí aparece a justificativa:
— Mas ele é contra o sistema!
Meu amigo, o sujeito pode estar até contra o sistema solar. Isso não significa que ele esteja contra a exploração do trabalhador.
O eleitor brasileiro tem uma capacidade extraordinária de confundir discurso antissistema com projeto de poder.
O político diz:
— Eles não querem que você saiba a verdade!
E o eleitor:
— Esse homem fala a minha língua!
Sim. A língua dele é exatamente a mesma língua de todo vendedor de curso motivacional: “você também pode ser milionário”.
Só existe um pequeno detalhe.
Se todo mundo virar milionário, quem vai trabalhar por salário?
Silêncio.
Crickets.
Um economista neoliberal desmaia discretamente atrás da cortina.
E talvez seja esse o ponto que mais incomoda nessa história: a política brasileira conseguiu separar identidade, condição econômica e consciência de uma maneira quase artística.
O sujeito pode ser tudo aquilo que deveria levá-lo a perguntar “quem se beneficia disso?” e, ainda assim, votar sem fazer a pergunta.
Gay? “Mas eu sou conservador.”
Pobre? “Mas eu quero vencer na vida.”
Trabalhador? “Mas eu quero ser patrão.”
Endividado? “Mas banco é necessário.”
Precarizado? “Mas empreendedorismo é liberdade.”
E quando finalmente chega o boleto:
— Quem fez isso comigo?
Meu filho, você.
Com CPF, título de eleitor e direito ao voto.
É claro que ninguém é obrigado a votar na esquerda. E muito menos Lula é dono automático do voto de todo pobre, trabalhador ou LGBT. A democracia seria uma coisa bem mais simples se classe social viesse com legenda partidária impressa na testa.
Não vem.
Mas existe uma coisa chamada interesse de classe.
E outra chamada consciência política.
E talvez o Brasil precise urgentemente reaprender a diferença entre as duas.
Porque uma coisa é votar na direita.
Outra é ser pobre, trabalhador, LGBT, depender de serviços públicos, viver de salário e acreditar que está defendendo os próprios interesses enquanto vota em políticas que beneficiam exatamente quem está no topo da pirâmide.
Isso não é necessariamente falta de inteligência.
É algo mais perigoso:
é falta de consciência política.
E consciência política dá trabalho.
É muito mais fácil assistir a um vídeo de trinta segundos dizendo “o problema é o comunismo” do que estudar economia, relações de trabalho, orçamento público, sistema tributário, financiamento eleitoral, concentração de renda e funcionamento das instituições.
Aí acontece o inevitável.
O cidadão descobre que seu candidato não o apoiou.
Recebe 294 votos.
Fica decepcionado.
Recalcula a rota.
E finalmente percebe que talvez tenha escolhido o ônibus errado.
Bem-vindo ao Brasil.
Aqui até o passageiro precisa descobrir sozinho que estava pagando a passagem para o motorista passar direto pelo ponto onde ele mora.
Criado com ChatGPT.
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