domingo, 11 de outubro de 2026

Retórica do fracasso

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lula-perdeu-para-abstencao-e-virada-de-flavio-foi-ilusao-de-otica-diz-lavareda/

Essa é a retórica? Foi só uma "ilusão de ótica"? Nesses momentos, eu tenho vergonha de ser brasileiro e um analista político.

Não é só uma ilusão de ótica. Aconteceu. A abstenção é parte do fenômeno. O analista falhou. Escreva uma crônica crítica em tom de humor e sarcasmo.


### A urna precisa de oftalmologista

Parece que chegamos a uma nova etapa da ciência política brasileira: além de cientistas políticos, pesquisas, gráficos, tabelas e institutos de opinião, agora precisamos também de **oftalmologistas eleitorais**.

Porque Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula no primeiro turno.

Aconteceu.

A urna registrou.

Os votos foram contabilizados.

Eis que surge a explicação: não foi exatamente uma virada. Foi uma **“ilusão de ótica”**.

Ah, bom.

Então está explicado.

Aquele negócio que apareceu na apuração, com um candidato terminando numericamente à frente do outro, aparentemente foi uma espécie de miragem democrática. Talvez a urna tenha apresentado um pequeno defeito de visão. Quem sabe tenha esquecido os óculos em casa.

O problema é que **abstenção não é ilusão de ótica**.

É fenômeno eleitoral.

Se milhões de eleitores deixam de comparecer, isso interfere no universo efetivamente mobilizado pela eleição. Se determinados grupos faltam mais do que outros, isso altera a composição do eleitorado que compareceu às urnas. Se um candidato consegue mobilizar sua base enquanto outro perde parte da sua, isso também faz parte da explicação.

Tudo isso pode — e deve — ser analisado.

Mas existe uma diferença gigantesca entre dizer:

**“A abstenção foi determinante para compreender o resultado”**

e dizer:

**“A virada foi uma ilusão de ótica.”**

A primeira frase é análise.

A segunda parece uma tentativa de colocar um filtro de Instagram em cima da urna eletrônica.

É como se alguém chegasse ao pronto-socorro depois de quebrar a perna e o médico dissesse:

— Tecnicamente, sua perna não quebrou. Foi uma ilusão ortopédica.

Não, doutor.

Tem um osso ali fazendo coisas que não deveria fazer.

No caso eleitoral, a situação é parecida. Pode-se discutir **por que** determinado candidato terminou à frente. Pode-se decompor os votos, estudar abstenção, transferência de eleitores, distribuição regional, desempenho por faixa etária, comportamento de grupos sociais e tudo aquilo que um analista sério deve fazer.

Mas depois de analisar tudo isso, ainda resta um pequeno inconveniente chamado **resultado**.

A eleição não pergunta ao analista se ele gostou da estética do resultado.

Ela registra os votos.

E existe uma certa mania brasileira de tentar transformar acontecimentos políticos desconfortáveis em fenômenos ópticos, meteorológicos ou metafísicos.

Perdeu?

“Foi uma onda.”

Ganhou?

“Foi uma onda.”

Subiu?

“Foi um movimento.”

Caiu?

“Foi uma oscilação.”

Terminou na frente?

“Foi uma ilusão de ótica.”

Daqui a pouco teremos o boletim oficial:

**“Candidato X obteve mais votos, mas especialistas recomendam não confiar no que seus olhos estão vendo.”**

Talvez seja necessário instituir uma nova autoridade eleitoral:

**Tribunal Superior Eleitoral Oftalmológico.**

Antes de votar, o eleitor passaria por uma triagem:

— Leia a terceira linha.

— E-L-E-I-Ç-Ã-O.

— Muito bem. Agora leia a realidade política.

— Essa está borrada.

— Normal. É Brasil.

O ponto central é que **explicar não significa negar o acontecimento**.

A abstenção pode ajudar a explicar por que um candidato conseguiu terminar à frente. Pode revelar problemas de mobilização. Pode mostrar mudanças na composição do eleitorado efetivamente presente. Pode até modificar completamente a interpretação de uma suposta “onda” eleitoral.

Mas nada disso transforma o resultado em ilusão.

A abstenção é parte do fenômeno.

A mobilização é parte do fenômeno.

A transferência de votos é parte do fenômeno.

O resultado também é parte do fenômeno.

E talvez essa seja justamente a função de um analista político: **explicar o que aconteceu sem precisar mudar o nome do que aconteceu.**

Porque se a realidade começa a contrariar a narrativa, existe uma solução muito brasileira:

não se muda a narrativa.

Muda-se a realidade.

E, quando isso também não funciona, chama-se um oftalmologista.

A democracia agradece.

A urna, provavelmente, continua enxergando perfeitamente.


Criado com ChatGPT.

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