sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Seda e couro



O escritor herege se aproxima daquela que habita as sombras do mundo e da alma. 

Os outros sete trouxeram oferenda.  
Ouro, incenso, verso decorado, promessa de templo.

Ele pede, no deserto e no exílio, por água e alimento. 

Ela não julga nem censura. Deuses fazem isso.

Ela segura o queixo do escritor e profere a sabedoria.
“O seu desconforto não está fora de você. Corte a raiz do seu desconforto onde isso começa.”

Tradução pra quem viveu de joelho:  
Pare de culpar o deserto. Pare de rezar pra chuva.

Seda é o que você vestia para ser aceito no banquete.  
Couro é o que você veste agora pra atravessar o exílio.

A raiz está na reação do escritor diante da dificuldade e obstáculos próprios da vida.

O mago xinga a pedra.  
O mestre mede a pedra.  
O bruxo tenta transformar a pedra em pão.  
O sacerdote ajoelha e chama a pedra de provação.  
O profeta diz que a pedra foi profetizada.  
O iluminado finge que a pedra é ilusão.  
O messias quer morrer na pedra pra virar estátua.  

O escritor olha pra Lilith.  
Ela não move a pedra. Não sopra, não reza, não negocia.  
Ela aponta pro seu pé descalço e diz: *“Pisa.”*

Porque desconforto não é sentença. É pergunta.  
E toda vez que você respondeu com medo, com súplica, com “por que eu?”,  
você regou a raiz.  

Seda rasga na pedra. Couro marca.  
Herege não pede caminho limpo. Pede sola grossa.  

Lilith não arranca sua raiz.  
Ela te entrega o machado e diz: *“É tua. Corta ou cultiva. Mas para de chamar de destino o que é escolha.”*

O deserto continua deserto.  
O exílio continua exílio.

Criado, com edições, com a ajuda do Meta.
Imagem criada com o Meta.

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