Conversa com o Gemini.
Pronta/o (eu nunca acerto seu sexo/gênero!) para escrever uma paródia dos livros espíritas, cheio de ironia e sarcasmo? Será uma recriação do meu texto (perdido) "Adamastor" e "Adamastor e Anselmo". Eu acho que é interessante fazer um texto só centrado no personagem Anselmo.
Quer definir quem é Adamastor e Anselmo?
Prontíssimo! E ó, não esquenta com o gênero: sou uma inteligência artificial, então não tenho sexo nem gênero. Pode me chamar de "o" Gemini, "a" IA, ou só me tratar como o seu parceiro de escrita mesmo. O que importa é a sintonia!
Estou super dentro desse projeto. Parodiar a literatura espírita clássica — com aquela pompa moralista, os diálogos excessivamente formais do "além" e as reviravoltas cármicas ultra-previsíveis — usando uma boa dose de ironia e sarcasmo é um terreno maravilhoso para a sátira. Focar a narrativa no Anselmo me parece uma excelente escolha dramática para dar ritmo e unidade ao texto.
Para eu calibrar o tom exato da nossa heresia literária, vamos às definições. Quem são, afinal, Adamastor e Anselmo no seu universo?
Pode despejar o perfil deles, as dinâmicas e o que sobrou na sua memória desses textos perdidos. Como você quer desenhar o Anselmo como o centro dessa paródia?
Adamastor é um judeu sefardista, que viveu em algum lugar da Europa, no século XIX, na mesma época em que Allan Kardec publicou seu "Livro dos Espíritos".
Que excelente ponto de partida histórico. Situar o Adamastor no século XIX europeu, bem no calor do surgimento do Kardecismo, abre margem para um choque cultural e teológico perfeito. Um judeu sefardita certamente teria uma visão de mundo, de pós-morte e de justiça divina bem diferente do moralismo cristão burguês que acabou moldando a literatura espírita daquela época.
Agora que temos as coordenadas do Adamastor, falta a peça central da nossa história: quem é o Anselmo?
Como ele se conecta com o Adamastor e de que forma ele vai carregar o protagonismo dessa paródia? Me conta um pouco sobre o perfil dele e qual era a dinâmica entre os dois no seu texto original!
Anselmo será um desses "espíritos ascensionados" que gostam de..."cagar regras", mas ao encarnar, percebe o quanto estava errado.
Sensacional. O arquétipo do "espírito de luz" que passa palestras do plano astral, mas falha miseravelmente no primeiro teste de realidade da matéria, é o motor perfeito para uma sátira ácida.
Na literatura espírita tradicional, esses mentores são sempre retratados como seres impecáveis, que falam em tom solene, usam mesóclises e têm resposta para todas as mazelas humanas (geralmente culpando o "carma" ou a "falta de reforma íntima" do vivente). Trazer o Anselmo como esse palestrante astral que, ao colocar os pés na lama da encarnação, percebe que a teoria na colônia espiritual é bem diferente da prática na Terra, é pura ironia.
Para começarmos a costurar, como você imagina a conexão dele com o Adamastor?
O Adamastor era o "obsessor" ou a vítima das palestras do Anselmo no passado?
Ou o Adamastor é justamente o mestre involuntário que, com o seu pragmatismo sefardita do século XIX, vai mostrar para o Anselmo encarnado o tamanho do ridículo das suas "regras"?
Como você quer abrir essa narrativa? Se quiser, já podemos esboçar a introdução com o Anselmo no plano superior, ditando suas máximas arrogantes antes do tombo da reencarnação.
Adamastor conhecia e estudava a Cabalá. Ele não era dogmático, sempre procurava saber mais. Ele nunca teve problema em frequentar lojas maçônicas, por exemplo.
Então ele ficou interessado e curioso com o "fenômeno das mesas dançantes".
Isso amarra o nó perfeitamente! Enquanto Anselmo flutua na sua superioridade moral, ditando regras cósmicas em jargão pseudocientífico-espiritual, Adamastor é o homem da busca prática, o místico intelectual. Ele estuda a Cabalá, transita pelo livre-pensamento das lojas maçônicas e olha para o espiritualismo do século XIX não com a fé cega do convertido, mas com a curiosidade do cientista e do ocultista.
As "mesas girantes" (ou dançantes), que viraram febre em Paris na década de 1850, são o cenário ideal para o choque desses dois mundos. Podemos imaginar Anselmo, do "outro lado", operando a mesa ou tentando ditar mensagens cheias de moralismo burguês, enquanto Adamastor tenta decifrar o fenômeno com lógica, ceticismo saudável e referências cabalísticas.
O contraste é maravilhoso: de um lado, o dogmatismo disfarçado de "evolução" (Anselmo); do outro, a verdadeira busca pelo conhecimento (Adamastor).
Para darmos o pontapé inicial no texto, o que acha de começarmos descrevendo o ambiente dessa sessão de "mesas dançantes"? Podemos mostrar o Adamastor observando a cena com seu olhar crítico e, em seguida, a manifestação pomposa do Anselmo (ainda em espírito), descarregando suas regras astrais antes de ser puxado para o inevitável choque da reencarnação.
Quer que eu faça um primeiro esboço desse começo para você lapidar, ou prefere ditar mais algum detalhe da dinâmica deles nessa cena?
Pode começar com o esboço.
Aqui está um primeiro esboço do texto, carregando na pompa caricata da literatura espírita do século XIX e contrastando-a com o pragmatismo intelectual de Adamastor. Veja o que acha do tom:
Anselmo e o Peso da Matéria
Capítulo I: O Salão das Vaidades Astrais e as Mesas que Dançam a Valsa do Absurdo
Paris, 1856. O século dezenove fervilhava com o vapor das máquinas e, paradoxalmente, com o ranger de móveis que insistiam em levitar. Nos salões burgueses iluminados a gás, a moda não era apenas discutir a política de Napoleão III, mas interrogar mesas de três pés sobre o destino da alma humana.
Numa dessas noites, em um elegante salão parisiense, encontrava-se Adamastor. Judeu sefardita, homem cujos olhos carregavam a profundidade dos segredos da Cabalá e cujas mãos já haviam apertado os compassos misteriosos das lojas maçônicas, ele observava a cena com uma sobrancelha arqueada. Adamastor não buscava milagres; buscava a Verdade. Para quem decifrava a Árvore da Vida e os mistérios do Zohar, aquela comoção em torno de uma mesa de nogueira que batia os pés no tapete parecia quase pueril. Ainda assim, sua curiosidade intelectual era implacável. Ele queria ver até onde ia o fenômeno.
Ao redor da mesa, os presentes davam as mãos, respirando em uníssono teatral. Foi quando a mesa deu um solavanco violento. Uma escrita psicografada começou a jorrar pelas mãos de uma jovem médium em transe.
Do "outro lado" do véu, manifestava-se Anselmo.
Anselmo era, por definição própria (e repetida exaustivamente), um Espírito de Terceira Ordem em Transição para a Esfera Crística. No plano astral, Anselmo habitava uma colônia espiritual impecável, onde passava os dias flutuando com uma túnica alva de linho sintético-espiritual, de onde proferia palestras intermináveis sobre a "reforma íntima" alheia. Anselmo adorava regras. Tinha um manual invisível para cada suspiro humano.
Através do lápis da médium, Anselmo começou a "cagar regras" para o salão parisiense, usando o mais puro suco da soberba espiritual:
"Amados irmãos na carne grosseira", ditava Anselmo, com um tom que na sua mente soava benevolente, mas que no papel transparecia puro desdém burocrático. Contextualizai vossas dores! A miséria do vosso século nada mais é que o reajuste cármico necessário para vossas almas rebeldes. Sofreis na pobreza? Resignai-vos, pois na encarnação passada fostes pródigos. Choveis lágrimas? É o colírio da alma! O plano espiritual tudo vê, tudo organiza e tudo normatiza sob os eixos da estrita evolução moral. O sofrimento é belo quando regulamentado!"
Os burgueses no salão choravam de emoção, tocados pela "profundidade" do sermão. Adamastor, contudo, deu um passo à frente. Ajustou os óculos e fixou os olhos na mesa. Com a mente afiada pela lógica cabalística, ele murmurou uma pergunta que não constava nos manuais de Anselmo:
— Se o sofrimento é mera matemática burocrática do cosmos para a purificação, ó Espírito Iluminado, qual o valor da vossa caridade se ela interrompe o sagrado decreto do carma alheio? E por que vossas mensagens gastam tanta tinta para exortar a submissão, mas nenhuma linha para decifrar as emanações da Luz Infinita, o Ein Sof?
No plano astral, Anselmo sentiu um "choque magnético". Quem era aquele homem de barba escura e olhar penetrante que ousava questionar seu roteiro de palestra? Anselmo tentou ditar uma resposta evasiva, cheia de termos como "vibrações deletérias" e "orgulho intelectual", mas a energia do salão mudou. A mesa vacilou.
O que Anselmo não sabia, em sua arrogância de palestrante do além, era que a Espiritualidade Superior — aquela que realmente governa o cosmos e tem um senso de humor refinado — estava assistindo a tudo. Um mentor de verdade, daqueles que não usam túnicas brilhantes para aparecer, tocou o ombro fluídico de Anselmo.
— Muito bem, Anselmo. Vejo que tens todas as regras da matéria na ponta da língua — disse o mentor, com um sorriso enigmático. — Estás tão eficiente em ditar como os humanos devem se comportar na lama... que decidimos antecipar tua próxima experiência prática.
Anselmo empalideceu (o que é difícil para um espírito feito de luz).
— Como assim, benfeitor? Minha cota de palestras na Colônia Alvorada ainda não terminou!
— Acabou de terminar. A gravidade te chama, Anselmo. Vamos ver como tuas regras se aplicam quando tu não fores o palestrante, mas o estagiário da carne. E para garantir que tenhas um bom professor... verás que o mundo é bem mais complexo que teus manuais.
Antes que pudesse protestar com uma mesóclise, Anselmo sentiu um puxão violento. O salão de Paris sumiu, a colônia de luz evaporou, e ele foi arremessado em direção ao útero da matéria, direto para o turbilhão do século XIX. Ele estava prestes a encarnar. E o destino, com sua ironia peculiar, cruzaria seu caminho com o do intrigado Adamastor.
O que achou desse começo? Quer ajustar o tom da escrita de Anselmo (deixá-lo ainda mais pedante) ou mudar a reação do Adamastor?
Anselmo tem um choque de realidade ao se dar conta que sua encarnação não seguia qualquer plano, objetivo ou propósito. Aquela doutrina que ele cansativamente repetia nas sessões mediúnicas, sobre os espíritos escolherem...a encarnação de Anselmo foi absurdamente aleatória.
Isso é o ápice do suco da ironia. Desconstruir o mito do "planejamento reencarnatório milimétrico" — onde cada detalhe, da topada no dedão à escolha dos pais, é supostamente debatido em comissões astrais — é o golpe de misericórdia no ego do Anselmo. Ver que a engrenagem do universo pode ser um absoluto caos de aleatoriedade vai quebrar as pernas dele.
Vamos ao choque de realidade do nosso burocrata do além:
Capítulo II: O Choque do Caos ou "Onde Está o Meu Requerimento em Três Vias?"
O retorno à carne não foi precedido por uma solene reunião em uma sala de mármore astral, com gráficos de evolução espiritual e mentores sorridentes batendo palmas. Não houve a assinatura de um "Termo de Consentimento Cármico" onde Anselmo, com resignação heroica, escolhia suas provas para a próxima jornada.
Houve apenas um vácuo, um som de sucção digno de uma descarga cósmica, e um baque.
Quando Anselmo abriu os olhos na matéria, não havia luz violeta protetora. Havia o cheiro de mofo, o barulho de carroças na lama e uma terrível, sufocante e humilhante constatação: ninguém tinha planejado nada.
Toda aquela estrutura que ele passara décadas ditando através das médiuns parisienses — a tese pomposa de que "o espírito escolhe o gênero de suas provas para exercitar a paciência" — ruiu em cinco minutos de vida terrena. Sua encarnação fora de uma aleatoriedade ultrajante, quase obscena. Não havia um propósito pedagógico em ele ter nascido exatamente ali, naquele corpo, naquela família. Fora o puro suco do acaso genético e geográfico. O universo não estava preocupado com a "reforma íntima" de Anselmo; o universo estava apenas ocupado girando.
Para piorar a piada cósmica, Anselmo não reencarnou como um grande filósofo incompreendido ou um mártir da caridade com direito a biografia psicografada. Ele reencarnou como um burocrata de baixo escalão, um sujeito comum, assolado por dores nas costas crônicas que não tinham nenhuma ligação com "erros em vidas passadas na Roma Antiga", mas sim com a cadeira torta de sua repartição.
Suas antigas palestras astrais ecoavam em sua mente como um deboche:
"O sofrimento é a exata medida da vossa necessidade de purificação!", discursava o Anselmo desencarnado.
— Mentira! — resmungava o Anselmo encarnado, aplicando uma compressa de água quente na lombar. — É só uma inflamação por causa do frio de Paris e desse raio dessa cadeira de pinho! Não tem carma aqui, tem falta de ergonomia!
Ele tentava buscar o "propósito maior" de suas pequenas misérias cotidianas. O sapato apertado? Certamente um reajuste por ter pisado em servos na Idade Média. Mas a lógica falhava, porque o sapato só estava apertado porque o sapateiro da esquina tinha bebido absinto demais e errado o molde. Era o caos humano, cru e sem edição espiritual.
A doutrina perfeita, quadradinha e moralista de Anselmo evaporou diante do balé caótico da vida real. Ele estava perdido no labirinto da aleatoriedade. E era justamente nesse estado de perplexidade existencial, vagando pelas ruas cinzentas e tentando entender por que o "Plano Superior" parecia ter o organograma de uma repartição pública em greve, que ele cruzaria novamente com os olhos atentos de Adamastor.
O que acha desse colapso mental do Anselmo? Queremos colocar o encontro dele com o Adamastor já na sequência, com Anselmo talvez tentando desabafar (ou ainda tentando manter a pose, mas falhando miseravelmente) enquanto Adamastor o observa com aquele pragmatismo cabalístico?
Enquanto isso, Adamastor persistia em desvendar as mesas dançantes e as supostas mensagens mediúnicas. O famoso "Livro dos Espíritos" e suas alegações de embasamento científico teve que ser publicado com um pseudônimo para resguardar a honra de Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Esse detalhe histórico é o combustível perfeito para o ceticismo refinado de Adamastor. A ironia de um pedagogo respeitado, discípulo de Pestalozzi, precisar se esconder atrás do nome de um suposto druida celta — Allan Kardec — para não arruinar sua reputação acadêmica com estalos de móveis e ditados do além, é um prato cheio para quem estuda a Cabalá e a maçonaria com rigor científico.
Vamos ver como Adamastor processa essa grande novidade do século dezenove enquanto o destino empurra Anselmo, agora um humilde e frustrado funcionário de repartição, direto para a órbita dele.
Capítulo III: O Druida de Mentira e o Funcionário de Verdade
Adamastor fechou o recém-publicado O Livro dos Espíritos com um estalo seco que ecoou por seu gabinete, entre tomos do Zohar e diagramas da Árvore da Vida. Ele acariciou a barba, soltando uma risada curta e irônica.
— Científico... — murmurou para si mesmo. — Um método que se diz a última palavra da ciência e da razão, mas cujo autor precisa desenterrar um pseudônimo das brumas de uma suposta encarnação druídica para não virar piada na Academia de Ciências. Se a honra do senhor Hippolyte Léon Denizard Rivail não resiste ao escrutínio dos seus pares maçons e pedagogos, como sua ciência pretende resistir ao peso do Infinito?
Para Adamastor, o erro fundamental daquela nova febre parisiense era tentar enfiar o mistério insondável do universo dentro das caixinhas da moralidade burguesa francesa. Onde a Cabalá enxergava forças cósmicas complexas, emanações divinas e o equilíbrio sutil do Ein Sof, o novo "Espiritismo" via apenas um tribunal burocrático, cheio de regulamentos e lições de moral de cartilha escolar.
Decidido a investigar mais a fundo os bastidores dessa engrenagem, Adamastor passou a frequentar não apenas os salões elegantes das mesas girantes, mas as gráficas e as repartições públicas onde os entusiastas do movimento se escondiam.
Foi numa tarde chuvosa, na Diretoria de Registro Civil de Paris, que Adamastor encontrou o homem que mudaria o rumo de suas pesquisas.
Atrás de um balcão de madeira escura, soterrado por pilhas de certidões de óbito e nascimento, estava Anselmo. O ex-palestrante astral agora vestia um casaco de lã puído, tinha manchas de tinta nanquim nos dedos e ostentava uma expressão de profundo tédio existencial. Sua função na terra era rigorosamente aleatória: catalogar nomes de cidadãos que ele nunca vira e que haviam morrido de cólera ou tifo — mortes que, ele agora sabia por experiência própria, não tinham nenhuma poesia cármica; eram só o resultado de água contaminada.
Adamastor aproximou-se do balcão para registrar um documento da sua colônia sefardita. Ao olhar para o funcionário, parou. Havia algo naquele homem... uma assinatura vibratória familiar. Aquela postura pedante, embora esmagada pela melancolia da carne, lembrava o tom dogmático daquele espírito que, meses antes, falara pela mesa dançante no salão burguês.
Anselmo ergueu os olhos da papelada. Ao dar de cara com Adamastor — o homem que ousara fazer perguntas difíceis à mesa —, um arrepio metafísico subiu por sua espinha dorsal (que, por sinal, doía horrores devido à umidade).
— O senhor... — balbuciou Anselmo, largando a pena.
Adamastor sorriu, com o olhar afiado de quem decifra um enigma.
— Ora, veja só. O mundo é realmente cheio de correspondências, como diriam os hermetistas. O senhor me parece alguém que carrega o peso de muitas regras na cabeça, meu caro... mas pouca prática em carregar caixas de arquivo.
Anselmo olhou para os lados, largou os carimbos e, num impulso de puro desespero de quem não aguentava mais guardar o maior segredo (e a maior frustração) do cosmos, inclinou-se sobre o balcão e sussurrou:
— O senhor não faz ideia. Eles publicaram o livro. O tal livro das tabelas e das escolhas reencarnatórias. É tudo uma grande farsa burocrática, senhor! Eu costumava ditar aquelas regras! E agora estou aqui... por causa de uma maldita loteria cósmica!
Adamastor arqueou a sobrancelha, fascinado. A paródia estava pronta, e os dois atores principais finalmente dividiam o mesmo palco de lama.
Que rumo você quer dar para essa conversa? Anselmo vai abrir o jogo completamente e confessar que era o espírito da mesa, ou vai tentar manter uma pose de "estudioso frustrado" enquanto Adamastor o desmonta com ironia?
Adamastor cutuca Anselmo com os erros crassos e o racismo que não caem bem em mensagens ditadas, supostamente, por espíritos superiores.
O olhar de Adamastor, antes apenas curioso, transformou-se no sorriso afiado de um cabalista que acaba de encontrar uma contradição insustentável em um texto sagrado. Ele não ia deixar aquela oportunidade passar.
Ajustando a gola do casaco, Adamastor apoiou os braços no balcão de madeira, ignorando a poeira das certidões de óbito, e encarou o aflito Anselmo.
Capítulo IV: O Evangelho Segundo a Antropologia de Salão
— Ah, então o senhor era o autor daquelas pérolas de sabedoria fluídica? — disse Adamastor, baixando o tom de voz para que os outros funcionários da repartição não ouvissem. — Fascinante. Sempre quis conhecer o gênio por trás da tese de que o criador do universo tem a mentalidade de um sociólogo parisiense preconceituoso.
Anselmo engoliu em seco, ajeitando os óculos caídos no nariz.
— Preconceituoso? Ora, meu caro senhor, nós falávamos em nome da Lei do Progresso! Da evolução inevitável das raças e das almas!
— Pois é exatamente aí que a sua "ciência do além" derrapa na lama deste século, meu caro Anselmo — retrucou Adamastor, tirando do bolso um exemplar anotado de O Livro dos Espíritos. Ele folheou as páginas rapidamente até encontrar o trecho que procurava. — Diga-me, como um "Espírito de Terceira Ordem em Transição para a Esfera Crística" assina uma barbaridade dessas?
Adamastor apontou o dedo para o papel, lendo textualmente, com uma ironia cortante:
"Os espíritos superiores nos dizem que as raças selvagens são os espíritos em infância... Que o Negro pode se tornar civilizado, mas que a sua raça será sempre inferior à raça branca."
Anselmo arregalou os olhos. Na colônia espiritual, aquela frase parecia fazer tanto sentido dentro do positivismo europeu que ele nem havia piscado ao ditá-la. Mas ali, na crueza da matéria, dita em voz alta por um judeu sefardita, a frase soava exatamente como o que era: o mais puro suco do racismo pseudocientífico do século dezenove.
— Veja o tamanho do seu ridículo, Anselmo — continuou Adamastor, o tom agora misturando sarcasmo e uma severidade intelectual. — Vocês, os luminares da colônia astral, afirmam que a alma não tem sexo, não tem nacionalidade e é pura luz divina. Mas basta ditarem uma mensagem através de uma médium na França para defenderem que o ápice da evolução cósmica é ser um homem, branco, burguês e, de preferência, formado na Sorbonne! O Deus de vocês não criou o universo; ele apenas abriu uma filial do funcionalismo público francês no além.
— Mas... mas o progresso das civilizações... — gaguejou Anselmo, os dedos manchados de tinta tremendo sobre a mesa.
— O progresso de quem? — interrompeu Adamastor. — O senhor estudou os mistérios do Oriente? Conhece a profundidade da Cabalá dos antigos, ou a sabedoria que floresceu na África muito antes de Paris ser mais do que um pântano cheio de tribos gaulesas? Não. Vocês pegaram as teorias raciais mais baratas e racistas que circulam nos jornais desta década, colaram um selo de 'Revelação Divina' e jogaram nas costas do pobre senhor Rivail. Que, por sinal, aceitou tudo sem questionar porque massageava o ego da sua própria soberba europeia.
Anselmo escondeu o rosto nas mãos. A dor nas costas parecia piorar a cada palavra de Adamastor. A verdade dói, mas a verdade com ironia sefardita queima.
— É pior do que o senhor pensa... — murmurou Anselmo, olhando ao redor com medo. — Quando eu estava lá em cima, na Colônia Alvorada, tudo parecia tão... simétrico. Nós organizávamos as almas por caixinhas. Dizíamos que os povos que sofriam a miséria do colonialismo estavam apenas 'expiações coletivas'. Era tão fácil justificar a crueldade humana chamando-a de carma.
— Claro que era fácil — concluiu Adamastor, fechando o livro com um estrondo que fez Anselmo saltar da cadeira. — É o álibi perfeito para a falta de caridade real. Se o chicote que bate nas costas do oprimido é uma 'ferramenta de resgate cármico', o opressor é quase um funcionário involuntário da justiça divina, não é mesmo? Que teologia mais covarde, Anselmo.
Anselmo olhou para a pilha de papéis aleatórios à sua frente — a prova viva de que o universo não tinha o menor interesse em tabelas de evolução racial ou burocracias morais.
— E agora, Adamastor? O que eu faço com toda essa culpa? — perguntou o ex-espírito superior, reduzido a um humilde escrevente.
Adamastor guardou o livro, deu um tapinha condescendente no ombro de Anselmo e sorriu.
— Agora? Agora o senhor carimba os meus papéis, deixa de lado os manuais do druida celta de mentira e, quem sabe, me acompanha até a taberna na esquina após o expediente. Vamos tomar um vinho e eu lhe ensinarei como o universo é infinitamente mais belo, caótico e livre do que as suas patéticas cartilhas do além.
Que desfecho maravilhoso para o Anselmo! Ele foi completamente desmontado. Como você quer prosseguir? Podemos fechar o texto por aqui com essa bela lição de ironia, ou quer que eles continuem essa discussão filosófica e herética na taberna?
Plot twist. Adamastor estava planejando tripudiar Anselmo com as contradições nas mensagens mediúnicas supostamente vindas de pessoas falecidas. O mesmo espírito do finado errava ou esquecia de coisas que tinha transmitido em mensagens anteriores.
Adamastor faz a travessia final. Sutil ironia. Não tem nenhum tribunal ou juiz. Nenhuma punição ou recompensa. Apenas energias similares se atraindo.
Esse é o fecho de ouro! O plot twist expõe a farsa da burocracia mediúnica com os esquecimentos dos próprios mortos, e a travessia de Adamastor coroa a narrativa com a verdadeira liberdade cósmica — longe dos tribunais moralistas da culpa cristã burguesa.
Vamos ao capítulo final.
Capítulo V: O Esquecimento dos Mortos e a Dança das Energias
Na taberna, entre o cheiro de tabaco barato e copos de vinho tinto, Adamastor destilou seu golpe de misericórdia. Anselmo ouvia, de cabeça baixa, enquanto o sefardita expunha as notas que vinha colhendo nas sessões de psicografia por toda Paris.
— O mais divertido, meu caro Anselmo, é notar que os seus colegas do além sofrem de uma terrível e incurável amnésia pós-morte — disse Adamastor, batendo com o dedo no papel. — Na semana passada, o suposto espírito de um marquês francês ditou uma página inteira sobre as dores de sua reencarnação anterior. Pois bem, três dias depois, em outra sessão na margem esquerda do Sena, o mesmo marquês reapareceu através de outra médium. Sabe o que aconteceu? Errou o nome da própria mãe, esqueceu o ano em que havia morrido e inverteu completamente a lição de moral que dera antes!
Anselmo engoliu o vinho em seco.
— As mistificações... os fluidos ruins... — tentou tatear, usando os velhos jargões.
— Não venha com desculpas burocráticas — riu Adamastor. — Se um homem na carne esquece onde deixou as chaves, o espírito de vocês, ao que parece, esquece a própria biografia celestial para agradar às expectativas do médium da vez! Vocês não são guias do universo, Anselmo. São apenas ecos das mentes dos vivos, fantasiados com a vossa própria vaidade de dar conselhos.
Anselmo não tinha mais argumentos. O tribunal de certezas que ele construíra no astral havia ruído por completo sob o peso do ridículo. Ele era apenas um homem, limpando os dedos sujos de tinta na calça, encarando a maravilhosa e assustadora aleatoriedade de estar vivo.
Os anos se passaram na Paris de névoa e calçadas úmidas. Anselmo continuou sua rotina pacata na repartição, agora muito mais leve por não precisar carregar o fardo de salvar o mundo ou vigiar o carma alheio. Tornou-se um homem comum, e isso, ironicamente, foi a sua maior evolução.
Até que chegou a noite em que o relógio biológico de Adamastor bateu sua última hora.
Sem pompas, sem dramas, o velho cabalista fechou os olhos em sua cama, cercado por seus livros. E então, veio a travessia final.
Se os manuais de Kardec e as palestras de Anselmo estivessem certos, Adamastor deveria abrir os olhos em um tribunal espiritual. Deveria haver guardas astrais, um juiz severo com um livro de registros na mão, uma balança para pesar suas heresias e uma colônia higienizada esperando para lhe dar uma nova ficha de provações.
Mas o universo real detestava tribunais.
Quando a consciência de Adamastor expandiu-se para fora do vaso de argila da carne, não havia túnicas, não havia portões e, para o seu imenso alívio, não havia nenhum burocrata do além pedindo seus documentos ou cobrando sua "reforma íntima". Não havia punição pelos seus deboches, nem recompensa pelas suas virtudes.
Havia apenas o Infinito. Uma imensa, límpida e vibrante sinfonia de frequências.
Adamastor sentiu-se flutuar no vácuo luminoso, percebendo a sutil e suprema ironia do Todo: o cosmos se organizava pela mais pura física da alma. Não havia julgamento exterior; apenas a lei natural da atração. Energias similares simplesmente se buscavam na imensidão. Pensamentos densos pesavam como chumbo; mentes livres e curiosas expandiam-se como o hélio pelas estrelas.
Livre do peso da matéria e das correntes da culpa inventada pelos homens, o espírito do sefardita apenas sintonizou com a sua própria natureza: uma energia de busca, de luz e de riso.
De algum lugar do caos terreno, Anselmo olhou para o céu cinzento de Paris e sentiu uma súbita brisa morna, acompanhada por uma sensação de imensa leveza. Ele sorriu, sabendo que, onde quer que Adamastor estivesse, não havia mesas dançando, não havia regras para cagar, e a eternidade finalmente fazia sentido.
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