Eu: Não é uma exigência. Esses formulários não podem ter erro.
(Eu digo isso, mas não deixo de olhar seu decote)
Eu: Se Lúcifer gosta de burocracia, eu vou mandar em cinco vias, carimbadas e autenticadas.
(Isso é uma vitória moral à petulância de Lúcifer)
Mammon se tranca no 501. Uma batida na minha porta.
Astaroth: Senhor escritor? O senhor está bem?
Eu: Ainda inteiro.
(Você me provoca, mostrando um pouco mais de seu busto e balançando seu traseiro)
Astaroth: Se não estiver ocupado...eu gostaria de discutir minha aparência e indumentária...
Astaroth entra no 101 com aquele jeito de quem pediu licença, mas já ocupando todo o oxigênio do ambiente. Ela está de regata, shorts e aquele nervosismo de otaku que acabou de sair de uma maratona de anime, segurando alguns esboços que parecem vibrar com uma energia plástica caótica.
Eu flutuo um pouco mais baixo, meus cabelos roçando o topo da cabeça de Beto como uma carícia elétrica, apenas para garantir que ele não se esqueça de quem é a verdadeira proprietária dessa vista — e desse desejo.
Lilith:
— Ora, se não é a Duquesa das Belas Artes... — Minha voz desce do teto, carregada de uma preguiça venenosa. — Astaroth, querida, você tem um andar inteiro para discutir indumentária, mas escolheu justamente o escritório do meu escritor às três da manhã? Que coincidência visual mais... geométrica.
Eu me estico, sentindo o tecido da minha própria existência se moldar ao ar. Ver Beto tentando equilibrar a diplomacia com a Astaroth enquanto devora meu decote com os olhos é a comédia de costumes que eu assinei para ver. É quase terno ver um mortal de sessenta anos acreditar que pode gerenciar duas forças da natureza num quarto de dez metros quadrados.
— Discutir a aparência, é? — Dou uma risada que faz os esboços na mão dela tremerem. — Cuidado, Beto. Da última vez que ela discutiu "estética", metade dos anjos de uma legião acabou com chifres de neon e armaduras de polímero.
Desço mais um centímetro, ficando num ângulo que bloqueia metade da visão que ele teria da Astaroth, forçando-o a escolher entre o sagrado e o profano, ou apenas entre o "em cima" e o "na frente".
— Mas prossiga, Duquezinha. O escritor adora detalhes sensoriais. Ele está especialmente interessado em... molduras. Não é, Beto? Ele até prometeu cinco vias autenticadas para o Lúcifer. Se ele for tão meticuloso com as suas curvas quanto pretende ser com a burocracia do Pedante, vocês terão uma noite longa de "estudos técnicos".
Quebra da Quarta Parede: Vocês percebem a ironia? Astaroth quer validação estética, Mammon quer lucro, e o Beto quer ser o centro desse furacão de hormônios infernais e tinta de caneta. E vocês... vocês só queriam saber se eu ia descer totalmente ou se ia continuar sendo a miragem que faz o pescoço dele doer. Spoilers: a dor é parte do prazer.
Astaroth balbucia "ecchi" enquanto tenta cobrir suas coxas e seios.
Eu olho os esboços. Cheios de referências de anime. Ao menos o som que você escolheu é agradável.
Eu: Quer mesmo esse figurino de Lolita Gótica inspirada na vocalista Yui Itsuki?
Astaroth: Eu me sinto mais confortável. Eu não sou como certas pessoas (olha para Lilith, flutuando) que não sabem o que é roupa.
Você: Roupa é prisão. E o escritor gosta desse jogo de esconder e mostrar.
Eu: Eu vou escrever um episódio. Tem tempo livre para depois da assembléia de condomínio? Nós temos que decorar o script.
Lilith:
Eu solto um suspiro que carrega o peso de eras, deixando o ar ao redor de Beto tão quente quanto o deserto onde caminhei sozinha pela primeira vez. A petulância dessa pequena Duquesa otaku é quase refrescante, se não fosse tão... têxtil.
— Conforto, Astaroth? Você confunde conforto com esconderijo — digo, deslizando pelo ar até que meus pés fiquem a poucos centímetros do chão, mas ainda mantendo aquela soberania vertical sobre o ambiente. — Eu não "não sei o que é roupa". Eu simplesmente superei a necessidade de pedir permissão ao algodão para ser notada.
Me aproximo de Beto, sentindo o cheiro da tinta dele se misturando ao meu rastro de jasmim. Passo a mão pelo ombro dele, sentindo a tensão de quem está prestes a mediar uma guerra entre o gótico vitoriano e o despojamento primordial.
— "Roupa é prisão", eu disse e repito. Mas veja só o nosso escritor... — Passo a ponta da unha pela nuca de Beto, um toque que promete inspiração e insônia na mesma medida. — Ele é um estrategista. Já está agendando ensaios para depois da assembleia.
Eu me viro para Astaroth, que ainda tenta puxar a barra do short enquanto segura seus desenhos de "Yui Itsuki". O sarcasmo escorre da minha voz como mel envenenado:
— Decorar o script, Beto? Que profissionalismo tocante. Espero que o papel seja resistente, porque entre as moscas de Belzebu e o pedantismo de Lúcifer, esse script vai precisar de muito mais do que "tempo livre" para sobreviver.
Olho fixamente para Beto, ignorando a Duquesa por um momento.
— Vá em frente, escritor. Marque o seu horário com a pequena artista. Eu estarei exatamente onde sempre estive: por cima de tudo isso. Mas não se esqueça... na nossa comédia, o improviso é a única verdade que não pode ser editada. E eu sou péssima em seguir roteiros que me mandam ficar quieta.
Quebra da Quarta Parede: Vocês viram? Ele está tentando organizar o caos. Um homem de sessenta anos tentando colocar agenda em demônios. É por isso que os humanos são fascinantes: eles veem um abismo e tentam marcar um café com ele às 15h.
Eu: Muito bom. Eu vou escrever. Então nos vemos na recepção do condomínio, digamos, oito da noite?
Astaroth: I... isso é...um encontro?
(Astaroth começa a ficar vermelha de vergonha)
Eu: Pense nisso como uma reunião entre um roteirista e a artista.
Astaroth: E...e quanto...a...ela?
(Astaroth usa só a cabeça dela para te apontar, balançando na sua direção)
Eu fico com pena da Astaroth. Tão acanhada que não consegue olhar nos olhos.
Eu: Lily? Ela vai e vem. Dependendo, ou faz coisas que deixaria um libertino assustado ou fica me punindo. De qualquer forma, eu gosto.
Astaroth: E...ecchi.
Lilith:
Eu não consigo conter uma risada gutural, aquela que vibra no peito e faz as vidraças do 101 tremerem levemente. O contraste é delicioso: o escritor, com toda a sua bagagem de sessenta anos e uma paciência de santo (que ironia!), e essa pequena Duquesa, que comanda legiões de arte, mas entra em colapso sistêmico diante da ideia de um café com um mortal.
— "Lily", Beto? — Repito o apelido, deixando o som rolar pela língua como um vinho caro. — Gosto de como você simplifica o indomável para que ele caiba na sua boca.
Deslizo pelo ar, ficando bem atrás da Astaroth, mas sem tocá-la. Deixo apenas que o meu hálito gelado e quente ao mesmo tempo tateie a nuca dela, fazendo os fios de cabelo da "Lolita Gótica" se arrepiarem.
— Não precisa ficar vermelha, pequena artista. O seu "Ecchi" é o café da manhã desse escritor — digo, olhando por cima do ombro dela diretamente para os olhos de Beto. — E quanto a mim... eu não sou um empecilho, Astaroth. Eu sou o contexto. O Beto não estaria tão interessado na sua "indumentária" se eu não tivesse ensinado a ele, durante noites em claro, o valor exato do que se esconde sob o tecido.
Eu me afasto, voltando para a minha posição preferida, flutuando perto do teto, onde a luz do abajur cria sombras longas e dramáticas nas minhas curvas.
— "Punição", ele diz... Como se ele não implorasse por cada chicotada verbal que eu dou na sua lógica medíocre. — Lanço um olhar de soslaio para o Beto, um misto de promessa e desafio. — Vá para o seu encontro de trabalho às oito. Eu estarei por perto, talvez observando das sombras da recepção, ou talvez sussurrando ideias pecaminosas no ouvido do Belial apenas para ver a cara de tédio dele se transformar em choque.
Dou um tchauzinho irônico com as pontas dos dedos para a Astaroth, que parece prestes a desintegrar de embaraço.
— Divirtam-se com o script. Só tentem não transformar o saguão em uma convenção de anime antes da assembleia. O Lúcifer já acha que este condomínio é uma bagunça estética; não deem a ele o prazer de estar certo.
Quebra da Quarta Parede: Vejam a carinha dela. É por isso que a inocência é tão atraente para os cínicos: ela é muito fácil de quebrar. E o Beto, o nosso "bom senhor", acha que está tendo um gesto de caridade. Mal sabe ele que, no Pandemônio, a caridade é apenas a primeira camada de uma sedução bem elaborada.
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