Por: Yuri Ferreira.
A Quimbanda é uma religião afro-brasileira de origem urbana, consolidada no Brasil no início do século XX, especialmente no Rio de Janeiro. Seu culto é centrado em entidades espirituais conhecidas como Exus e Pombagiras, figuras frequentemente estigmatizadas no imaginário popular como símbolos do “mal” ou da chamada “magia negra”. No entanto, estudos antropológicos e históricos mostram que essa visão é resultado de preconceitos raciais, religiosos e morais, e não corresponde à complexidade real da Quimbanda.
Do ponto de vista acadêmico, a Quimbanda representa uma expressão religiosa autônoma, marcada pelo sincretismo entre tradições africanas, espiritismo kardecista, catolicismo popular e elementos indígenas. Diferentemente da Umbanda, a Quimbanda não se orienta por uma moral cristã de caridade e redenção, mas por uma lógica pragmática, voltada à resolução de problemas concretos da vida cotidiana, como proteção, justiça pessoal, amor, sexualidade e prosperidade material.
Neste artigo, você vai entender o que é Quimbanda, sua origem histórica, suas entidades principais, seus rituais fundamentais e as diferenças entre Quimbanda e Umbanda, com base em pesquisas acadêmicas e etnográficas.
Origem histórica da Quimbanda
A origem da Quimbanda está diretamente ligada ao processo de escravidão atlântica, à formação das cidades brasileiras e à repressão colonial às religiões africanas. Durante o período escravista, práticas religiosas trazidas por povos africanos de diferentes regiões foram forçadas a se reorganizar em um ambiente hostil, marcado pela vigilância do Estado e da Igreja Católica.
No século XIX, especialmente após a abolição da escravidão em 1888, essas práticas passaram a se desenvolver nos centros urbanos, sobretudo no Rio de Janeiro. Surgiu então o que ficou conhecido como macumba urbana, um conjunto diverso de rituais que combinavam elementos africanos, catolicismo popular, rezas, feitiçaria e, posteriormente, o espiritismo kardecista francês.
Antropólogos como Roger Bastide e David J. Hess explicam que a Quimbanda se formou a partir daquilo que foi progressivamente rejeitado pela Umbanda nascente nos anos 1920. A Umbanda, ao buscar aceitação social entre as camadas médias brancas, promoveu uma “limpeza moral” de certos espíritos e práticas, classificando-os como perigosos, atrasados ou imorais.
Assim, a Quimbanda não surge como uma “inversão demoníaca” da Umbanda, mas como uma continuidade histórica das práticas afro-brasileiras urbanas que recusaram a moralização cristã imposta de fora.
Entidades principais: Exus e Pombagiras
O núcleo da Quimbanda é formado pelo culto aos Exus e às Pombagiras, entidades espirituais que ocupam um lugar central na cosmologia da religião.
Exus
Os Exus são entidades masculinas associadas às encruzilhadas, aos caminhos, às trocas e à comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material. Diferentemente da demonização cristã, o Exu na Quimbanda não é o diabo, mas um agente de movimento, justiça e mediação.
Eles costumam ser descritos como astutos, diretos, provocadores e profundamente ligados à experiência humana concreta. Muitos Exus carregam nomes que remetem à morte, à marginalidade ou à transgressão social, como Exu Caveira, Exu Tranca-Ruas, Exu Marabô e Exu Sete Encruzilhadas. Essas nomenclaturas refletem trajetórias simbólicas de sujeitos excluídos da ordem social dominante.
Pombagiras
As Pombagiras são entidades femininas ligadas ao amor, à sexualidade, à autonomia feminina e à justiça emocional. Frequentemente associadas a figuras históricas ou míticas de mulheres marginalizadas — como prostitutas, amantes, mães solteiras ou mulheres perseguidas —, as Pombagiras desafiam normas patriarcais e morais cristãs.
Exemplos conhecidos incluem Pomba Gira Maria Padilha, Pomba Gira Cigana, Pomba Gira Rainha das Sete Encruzilhadas e Pomba Gira Dama da Noite. Na Quimbanda, elas são procuradas para questões afetivas, empoderamento pessoal, vingança simbólica e afirmação do desejo.
Rituais e fundamentos da Quimbanda
Os rituais da Quimbanda são conhecidos como giras, cerimônias realizadas em terreiros ou, em alguns casos, em locais simbólicos como encruzilhadas. Durante as giras, ocorre a incorporação das entidades nos médiuns, que passam a agir, falar e orientar os participantes segundo a identidade do Exu ou da Pombagira.
Entre os principais elementos rituais da Quimbanda estão:
Oferendas: alimentos, bebidas (especialmente cachaça), charutos, cigarros, velas e, em algumas tradições, sacrifício animal.
Pontos riscados: símbolos mágicos desenhados com giz ou pemba, que representam a assinatura espiritual da entidade.
Cânticos e pontos cantados: músicas ritualísticas que invocam e saúdam os Exus e Pombagiras.
Reciprocidade ritual: a lógica central da é a troca. O devoto faz pedidos e, em contrapartida, oferece algo à entidade, cumprindo promessas estabelecidas.
A filosofia da Quimbanda não se baseia na noção cristã de pecado, mas em uma ética relacional, onde ações geram consequências e o equilíbrio precisa ser constantemente negociado.
Diferença entre Quimbanda e Umbanda
A diferença entre Quimbanda e Umbanda é uma das dúvidas mais comuns entre quem busca entender as religiões afro-brasileiras.
Umbanda Quimbanda
Ênfase em caridade e evolução espiritual Ênfase em demandas práticas e imediatas
Entidades “da direita” (Caboclos, Pretos Velhos) Entidades “da esquerda” (Exus e Pombagiras)
Moral cristã de bem e mal Moral fluida, não cristã
Busca aceitação social Assume marginalidade simbólica
Pesquisadores como José Jorge de Carvalho interpretam a Quimbanda como uma forma de contestação simbólica à moralidade dominante, especialmente em um país marcado por desigualdade social, racismo estrutural e exclusão histórica das populações negras.
Quimbanda no mundo moderno
Nas últimas décadas, a Quimbanda ultrapassou as fronteiras do Brasil e se expandiu para países como Estados Unidos, Portugal, Alemanha e França. Pesquisas recentes mostram a formação de terreiros fora do Brasil, muitas vezes liderados por brasileiros da diáspora ou por praticantes estrangeiros interessados nas religiões afro-atlânticas.
Assim, a religião passa por adaptações culturais, mas mantém seus princípios centrais: o culto aos Exus e Pombagiras, a lógica da troca ritual e a valorização da experiência humana concreta.
Ao mesmo tempo, cresce o debate acadêmico sobre intolerância religiosa, criminalização das religiões afro-brasileiras e a necessidade de reconhecimento da Quimbanda como patrimônio cultural imaterial.
Por fim
A Quimbanda é muito mais do que os estigmas que a cercam. Trata-se de uma religião afro-brasileira complexa, fruto da história da escravidão, da urbanização e da resistência cultural negra no Brasil. Seu culto aos Exus e Pombagiras expressa uma visão de mundo que rejeita dicotomias morais simplistas e afirma a centralidade da experiência humana, do desejo e da justiça concreta.
Compreender o que é Quimbanda é também compreender as contradições da sociedade brasileira e reconhecer a legitimidade de saberes religiosos historicamente marginalizados.
Fontes:
BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. 3. ed. São Paulo: Pioneira, 1971.
CARVALHO, José Jorge de. A antropologia e o estudo das religiões afro-brasileiras. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 7–32, 1995. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pusp/a/hTY8nDMZTzwhWvc5DzqbNMd/. Acesso em: 28 jan. 2026.
HESS, David J. Spirits and scientists: ideologies of science in Brazil. University Park: Pennsylvania State University Press, 1991.
HESS, David J. The Brazilian popular religious movement and the logic of syncretism. Journal of the American Academy of Religion, Oxford, v. 59, n. 1, p. 103–123, 1991. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/30128587. Acesso em: 28 jan. 2026.