Por Duda Quiroga e Maíra Santafé.
A prova era para professores e professoras e apresentou uma série de questões carregadas de misoginia, além de preconceitos que reforçam um estereótipo de mulher antiquado, retrógrado e inaceitável em pleno século XXI.
É necessário denunciar ao Ministério Público o que se passou nessa prova. É inacreditável pensar que uma instituição como a Fundação Getúlio Vargas possa fazer provas de concurso público e apresentar questões como essas.
É preciso que haja uma investigação e uma proibição de novas provas como essa para qualquer certame.
A mais agressiva de todas as questões certamente é a que, no enunciado, diz:
Módulo “conhecimentos básicos da língua portuguesa”
“Assinale a frase que não contém uma crítica ao fato de a mulher falar demais”
Respostas:
Há mulheres que, quando mentem, dizem a verdade.
A língua é a última coisa que morre em uma mulher.
Há mil invenções para fazer as mulheres falarem, e nem uma só para as fazer calar.
A língua da mulher não cala nem depois de cortada.
Gosto de mulheres jovens, suas histórias são menores.
Imagine se uma de nós, mulheres, está fazendo a prova e se depara com uma questão dessas. Revolta? Repulsa? Como conter a indignação e seguir fazendo a prova, afinal, há um objetivo maior: passar no concurso e lecionar na rede municipal. Mas aí você se depara com uma nova questão:
“As frases a seguir mostram uma comparação. Assinale aquela em que a comparação é explicada.”
As mulheres são como robôs: têm no cérebro uma célula a menos e, no coração, uma célula a mais. A mulher é como um defeito da natureza.
Que tipo de profissional se espera selecionar com uma questão dessas?
Infelizmente, não parou por aí as questões que procuram coisificar as mulheres, reduzindo-as quase a objetos. Veja outro exemplo:
“Assinale a frase que mostra um jogo de palavras em sua construção.”
Uma das respostas:
Há dois tipos de esposas: a que arruma a casa e a que se arruma.
Já seria inaceitável para qualquer concurso, mas a FGV e a prefeitura de Macaé foram ainda mais longe: aplicaram uma prova com questões misóginas para pessoas que vão lecionar.
A prova não desvalorizava apenas nós, mulheres, mas a própria profissão de professor(a). Certamente todo profissional da educação que se preza luta pela valorização do magistério. Qual não deve ter sido a frustração de encontrar, numa prova, a desconstrução da carreira, como em uma das respostas de outra questão da prova, veja a seguir:
“As frases a seguir mostram um termo na forma diminutiva. Assinale a frase em que esse diminutivo tem o valor de intensidade.”
Uma das respostas:
O melhor método de educação para uma criancinha é arranjar-lhe uma boa mãe.
Segundo publicação na página do Superior Tribunal de Justiça (STJ), “as provas buscam não apenas aferir o conhecimento individual, mas também permitir que a administração selecione aqueles que se mostrarem mais qualificados para assumir determinada função pública”.
Na mesma publicação, o STJ enfatiza que, pelo grau de relevância e em respeito ao princípio da isonomia, “a prova não pode ser realizada de forma livre e indiscriminada pela banca examinadora, devendo seguir, em especial, as regras e o conteúdo previstos no edital do concurso”.
Se a prova é construída por diversas pessoas e deve seguir o edital, a situação é ainda mais grave. Como questões como essas passaram pelo crivo da banca examinadora da FGV?
Diante disso, é fundamental que haja uma investigação sobre como esta prova foi construída, inclusive para que não exista a possibilidade de mais provas com esse tipo de conteúdo misógino ou com outros preconceitos serem aplicadas, seja em concursos públicos, seja nas salas de aula.
Nossa luta é todo dia.
Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/prova-da-fgv-em-macae-e-repleta-de-misoginia/
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