segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Mulheres na caça

A polícia do Zimbábue acredita que uma quadrilha nacional de mulheres esteja atacando homens sexualmente para retirar seu sêmen para o uso em rituais que supostamente trariam prosperidade.
Nesta segunda-feira, três mulheres supostamente ligadas à gangue começam a ser julgadas na capital do Zimbábue, Harare. Esse foi o primeiro caso de prisões de acusadas, mais de um ano após os primeiros relatos sobre o caso, que chocaram o país.
Uma suposta vítima, que pediu anonimato, relatou sua experiência à TV do país em julho. Ele disse ter sido atacado após aceitar uma carona de um grupo de três mulheres em Harare.
'Uma das mulheres jogou água na minha cara e elas me injetaram algo que me deu um forte desejo sexual', contou.
'Elas pararam o carro e me forçaram a manter relações sexuais com cada uma delas diversas vezes, usando preservativos', disse.
'Quando elas terminaram, me deixaram totalmente nu no meio do mato. Algumas pessoas me ajudaram a chamar a polícia, que me levou ao hospital para tratar dos efeitos dessa droga que elas haviam dado para mim, porque o forte desejo sexual continuava', afirmou. 
As mulheres presas foram indiciadas por 17 acusações de ataque indecente agravado - já que a lei do Zimbábue (assim como a do Brasil) não considera estupro uma mulher forçar um homem a manter relações sexuais.
Elas foram detidas no início do mês na cidade de Gweru, a 275 quilômetros a sudoeste de Harare, após policiais terem encontrado 31 preservativos usados no carro em que elas viajavam.
As mulheres negam as acusações, dizendo que são prostitutas e que não haviam jogado fora os preservativos porque estavam muito ocupadas.
Após serem soltas sob fiança, elas foram confrontadas e ameaçadas por uma multidão. Elas dizem que têm sido forçadas a permanecer dentro de casa desde então, para evitar a atenção indesejada.
O porta-voz da polícia Andrew Phiri disse à BBC acreditar que as mulheres pertencem a uma gangue que atua em todo o país.
'Nós recebemos relatos de diferentes cidades e províncias do país, de que isso está acontecendo nas estradas', disse.
'Ainda temos de descobrir por que isso está acontecendo. Ouvimos especulações de que está ligado a rituais', afirmou.
Acredita-se que o sêmen seja usado em rituais para trazer sucesso nos negócios e há até mesmo rumores de que o sêmen tem sido vendido para outros países.
Mas o professor universitário Claude Mararikei, especialista em sociologia e cultura, afirmou à BBC que o uso do sêmen 'está na área de rituais e magia, que é quase uma sociedade secreta'.
'Até mesmo pesquisadores não querem entrar nessa área porque você pode não sair vivo depois de publicar qualquer coisa que descubra', disse.
Fonte: G1 Mundo
Nota: Texto sublinhado pelo Fauno. Apenas quando homem ataca uma mulher é estupro pela lei, mas para a sociedade machista o homem deve ser um predador sexual. Tem gente aqui no Brasil [e em outros países] querendo proibir o sacrifício religioso animal, só faltam criar um grupo de defesa masculina contra a violência feminina ou quererem proibir a "extração" ilegal de semen humano. Queridas bruxas, se precisarem, titio Bode tem bastante para dar.

domingo, 27 de novembro de 2011

A invenção do natal

Embora tradicionalmente a data represente a celebração do nascimento de Jesus, o festejo do Natal precede o próprio Cristianismo. Não há uma data exata definida, mas há relatos históricos de que as comemorações antecedem de 2 a 4 mil anos o nascimento de Jesus. "A origem do Natal é muito vaga", afirma Jany Canela, mestre em educação e graduada em História pela Universidade de São Paulo. "Na verdade, é sabido que muitos rituais e festas do Cristianismo eram originalmente tradições pagãs reunidas de maneira a incorporar também a cultura popular", afirma Jany.
Muitos antes do nascimento de Jesus, um antigo festival na Mesopotâmia, chamado Zagmuk, simbolizava a passagem de um ano para outro. As comemorações duravam 12 dias e a tradição dizia que, por conta do solstício de inverno (que marca a noite mais longa do ano), os monstros do caos ficavam furiosos. Para lutar contra eles, o rei deveria morrer no fim do ano e, ao lado do deus Marduk, ajudá-lo nessa batalha.
Para poupar o rei, um criminoso era vestido com suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto e levando todos os pecados do povo consigo. "Os povos antigos sempre realizaram festas de celebração em deferência aos marcos de transição da natureza, como as estações ou períodos representativos de mudanças importantes, entre eles o solstício (em dezembro) e o equinócio (em março)", explica Jany.
Um ritual semelhante, chamado de Sacae, era realizado pelos persas e babilônios. Sob os mesmos pilares da luta contra a escuridão, a versão também contava com escravos tomando lugar de seus mestres. "Por conta da relação luz/escuridão trazida pela simbologia do solstício, a teoria mais difundida sobre o Natal associa a data a esse período, em que alguns povos passavam a noite em vigília com tochas acesas para garantir que o sol nascesse e imperasse sobre a escuridão", afirma a historiadora.
Os gregos: homenagem a Saturno
A Grécia antiga também incorporou os rituais estabelecidos pelos mesopotâmios ao celebrar a luta de Zeus contra o titã Cronos. O costume alcançou os romanos, que passaram a realizar a Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de janeiro, comemorando o solstício do inverno. De acordo com os cálculos do povo, o dia 25 era a data em que o sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar a crescer e trazer vida às coisas da Terra.
Durante o dia 25 de dezembro, conhecido como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, não havia trabalho nem aulas e eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares com amigos, além de que as árvores verdes eram ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas para espantar os maus espíritos da escuridão.
O Cristianismo
Segundo o Cristianismo, Maria deu à luz o filho de Deus, chamado Jesus, em um estábulo em Belém. No dia 25 de dezembro, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura (objeto usado para alimentar os animais). No entanto, a data exata do nascimento é polêmica.
Cross Content
Especial para o Terra
Nada de novo sob o sol. Nesta época do ano aparecem artigos e notícias divulgando aquilo que nós sabemos desde criancinhas.

Deuses não são para serem interpretados

Eu encontrei uma curiosa reflexão na SW, por parte de Herne, sobre a estranha mania de pagãos/bruxos/wiccanos acharem que os Deuses são como livros, estão abertos a "interpretação".
A “interpretação” não é apenas um exercício racional, mas antes de mais nada uma postura cultural. Explico: interpretamos as coisas (fatos, histórias, ritos, atos, etc) a partir de um conjunto de idéias que já trazemos em nós. Esse conjunto é sempre dado pela sociedade em que somos criados e introjetados através da educação (formal e informal). Ou seja: a cultura nos dota com óculos através dos quais vemos o mundo (e que também nos faz cegos para o que não conseguem passar por eles). Esse é o principal desafio dos antropólogos e etnólogos: conseguir tirar esses óculos e tentar vestir os óculos da outra cultura para poder vê-la a partir de si mesma e, então, tentar uma tradução dos significados daquela cultura para uma linguagem da nossa cultura, tornando-a compreensível para nós.
O sagrado de um povo também sofre essa “deformação”: acabamos por olhá-lo com os óculos de nossa cultura e o INTERPRETAMOS a partir do nosso conjunto de idéias. Para nós, por exemplo, é estranho que hindus passem fome com aquele imenso rebanho de vacas... mas eles nos olham horrorizados pela na falta estupidez e selvageria por comermos carne bovina no cotidiano. Nós os INTERPRETAMOS como atrasados; eles nos INTERPRETAM como selvagens abomináveis. Muitos acham abomináveis os costumes religiosos africanos e afro-brasileiros de sacrificar animais aos seus orixás... eles acham engraçado (e estranho) como essas pessoas têm tanto medo da morte e não compreendem que a essência do animal sacrificado, longe de ser violentada, foi elevada.
Não creio que Baal, Lucifer, Lillith se “transforme” naquilo que as pessoas pensam deles. Eles são o que são. A questão está – como colocou o Rufus – na INTERPRETAÇÃO que se faz desses (e outros deuses) a partir de critérios éticos, morais, sociais... enfim, culturais por outros povos. E eles continuam interpretados como “maus, perigosos, não-confiáveis” não porque o são ou se tornaram, mas porque estão sendo olhados com óculos estranhos àquela cultura.
Deixa te dar um exemplo: Pachamama é INTERPRETADA pelos ocidentais como uma DEUSA. E, quando se usa esse conceito, se traz à consciência todas as características desenvolvidas pelas culturas daquela região do planeta. Muitos de nós, inclusive, ainda pensamos em Deuses e Deusas dentro daqueles mesmos critérios cristãos: seres onipotentes, onipresentes, oniscientes, que controlam ou têm poder para interferir na nossa vida, para o bem ou para o mal... e isso se traduz na instituição da monarquia e/ou da concentração (e, as vezes, centralização) de poder nas mãos de uma pessoa. Essa idéia para os povos indígenas sul-americanos é totalmente estranha. Pachamama, Inti, Ñanderu, Mama Quilla... não são “deuses”, mas Espíritos que não tem poderes, mas capacidades... como nós, humanos, também temos capacidades. Particularmente é estranha essa idéia de que eles podem intervir na nossa vida, sobretudo para castigar. No conceito guarani, um “deus” que faça qualquer tipo de mal a uma pessoa simplesmente não é um deus! E por “qualquer tipo de mal” não estou falando só do castigo, mas até das idéias de “lei tríplice”, “cagada mágica”, “trapaça”, etc. E tudo isso se traduz na falta de instituições e papéis sociais que concentrem poder.
Muitas vezes, estamos com os olhos tão viciados pela nossa própria cultura que simplesmente não conseguirmos ver nada além dela. E acabamos interpretando erroneamente as coisas. Inclusive, os Deuses de outros povos.
Quanto à questão do "trabalho mágico reunindo pessoas com visões diferentes sobre o(s) Deus(es) que serão celebrados"... há muita coisa a se pensar.
Primeiro: será mesmo que os Deuses atendem a qualquer "chamado"? De qualquer pessoa? Você atenderia? Digo: se um estranho passa por você na rua e, todo sorridente, te convida a ir numa festa na casa dele, você iria??? Se te oferecesse comida, você comeria??? Se te oferecesse flores, você aceitaria??? E de te pedisse "favores especiais", você atenderia??? Por que achamos que os Deuses são mais ingênuos que nós?
Baal, Lúcife, Lillith não são órfãos de povo! Eles fazem parte de um contexto e só nesse contexto eles podem ser entendidos a ponto de serem chamados de forma que eles próprios compreendam. E atendam. Há formas, ritos, rituais, simbolos, odores, cores, palavras, idiomas etc, etc que eles reconhecem como sendo do seu "grupo". E para se ter ciência de todas essas informações, é preciso aprender de quem sabe. É preciso ser INTRODUZIDO naquele contexto sagrado, saber caminhar por aquele ambiente... e, então, ir se tornando conhecido (e reconhecido) pelos Deuses.
A partir desse ponto de vista, acho impossível que duas pessoas com visões antagônicas de um Deus ou Deusa possam fazer alguma coisa juntos. Ou melhor: possam fazer algo que realmente seja reconhecido por esse Deus ou Deusa a ponto de atender ao chamado.
Ver tal reflexão na comunidade pagã brasileira é um alívio, diante da Casa de Mãe Joana que é divulgado pela internet.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sacerdócio e confrarias religiosas

O culto público, sob o controle do Estado, era efetuado por certo número de oficiantes e confrarias religiosas. Na época da monarquia, o rei ocupava o primeiro posto na hierarquia sacerdotal: era o rex sacrorum. Infelizmente, pouco se sabe sobre a maneira como eram celebrados os ofícios. Sabe-se no entanto que, na Regia, a casa do rei, praticavam-se três categorias de ritos: destinados a Júpiter (ou a Juno e a Jano), a Marte e a uma deusa da abundância agrícola, Ops Consina. Desse modo, a casa do rei era o lugar de encontro, e o rei, o agente de síntese das três funções fundamentais que, como em breve veremos, eram adminstrados separadamente pelos flamines maiores. É lícito supor que, já na época pré-romana, o rex tinha a seu lado um corpo de sacerdotes. Contudo, a religião romana caracteriza-se por uma tendência ao fracionamento e à especialização. Em Roma, cada sacerdote, cada colégio ou sodalidade tinha sua competência específica.
Depos do rex vinham, na hierarquia sacerdotal, os 15 flamines, em primeiro lugar os flâmines maiores: os de Júpiter (flamines Dialis), de Marte e de Quirino. Os flâmines não formavam uma casta; além disso, não constituíam sequer um colégio; cada flâmine era autônomo e ligado a uma divindade da qual tirava seu nome. A instituição é por certo arcaica; os flâmines distinguem-se por seu costume ritual e por um grande número de proibições.
Para os flâmines de Marte e Quirino, as obrigações e proibições eram menos severas.
São poucas as informações que temos sobre a origem do colégio pontifical. O colégio compreendia, além dos pontífices, o rex sacrorum e os flâmines maiores. Ao lado do flamen Dialis, o pontifex desempenhava, no círculo sagrado do rei, uma função complementar. Os fLãmines exerciam seus ofícios de certa forma "fora da história"; efetuavam regularmente as cerimônias prescritas, mas não tinham o poder de interpretar nem de resolver situações inéditas. A despeito de sua intimidade com os deuses celestes, o flamen Dialis não traduzia a vontade do Céu, responsabilidade afeta aos áugures. Por outro lado, o colégio dos pontifices, mas precisamente o pontifex maximus, de quem os outros eram apenas o prolongamento, dispunha ao mesmo tempo de liberdade e de iniciativa. Comparecia às reuniões em que se decidiam sobre os atos religiosos, respondia pelos cultos sem titulares e fiscalizava as festas. No tempo da República, incumbia ao pontifex maximus criar os flâmines maiores e as vestais sobre os quais possuíam poderes disciplinares e ser o conselheiro, por vezes o representante destas últimas.
As seis vestais estavam vinculadas ao colégio pontifical. Escolhidas pelo sumo pontífice entre os seis e os doze anos de idade, as vestais eram ordenadas por um período de 30 anos. Protegiam o povo romano alimentando o fogo da cidade, que tinha a obrigação de nunca deixar se extinguir. Sua força religiosa dependia da virgindade: se uma vestal incorresse em falta contra a castidade, era enterrada viva num túmulo subterrâneo, e seu parceiro era supliciado.
O colégio augural era tão antigo e tão independente quanto o colégio dos pontifices. Mas o segredo da discilpina foi bem guardado. Sabe-se apenas que o áugure não era convocado para desvendar o futuro. Seu papel limitava-se a esclarecer se este ou aquele projto era fas. Entretanto, já no fim da realeza, os romanos começaram a consultar outros especialistas.
Além destes colégios, o culto público compreendia muitos grupos fechados ou sodalidades, cada qual especializado numa técnica religiosa particular. Os 20 Fetiales sacralizavam as declarações de guerra e os tratados de paz. Os salii, dançarinos de Marte e de Quirino, em grupos que contavam com 12 membros cada um, atuavam em março e em outubro, sempre que se dava a passagem da paz à guerra e da guerrra à paz. Os Frates Arvales protegiam os campos cultivados. A confraria dos Luperci celebrava, em 15 de fevereiro, os Lupercalia.
Tanto no culto público quanto no privado, o sacrifício consistia na oferenda de determinada matéria alimentar: primícias de cereais, uva, vinho doce e principalmente vítimas animais. Com exceção do cavalo de outubro, o sacrifício das vítimas animais obedecia à mesma encenação. Efetuavam-se libações preliminares sobre o lar portátil (foculus), que representava o foculus do sacrificante, e situava-se em frente ao templo, ao lado do altar. Em seguida, o sacrificante imolava simbolicamente a vítima, passando a faca sacrifical sobre o corpo, da cabeça até a cauda. Nos primeiros tempos, ele abatia o animal, mas no ritual clássico essa tarefa era desempenhada por certos sacerdotes (victimarii). A parte reservada aos deuses - fígado, pulmão, coração e alguns outros pedaços - era queimada sobre o altar. A carne era consumida pelo sacrificante e por seus companheiros no culto privado, e pelo corpo de sacerdotes nos sacrifícios celebrados em favor do Estado.
Autor: Mircea Eliade em "História das Crenças e das Idéias Religiosas II", pg 112 - 115, Editora Zahar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O culto privado

Até o fim do paganismo, o culto privado - dirigido pelo pater familias - manteve sua autonomia e importância ao lado do culto público, efetuado por profissionais subordinados ao estado Ao contrário do culto público, que sofreu contínuas modificações, o culto doméstico, realizado em volta do lar, não parece ter mudado muito durante os 12 séculos da história romana. Trata-se certamente de de um sistema cultural arcaico, pois é encontrado em outros povos indo-europeus. Tal como na Índia ariana, o fogo doméstico constituía o centro do culto: eram-lhe oferecidos sacrifícios alimentares quitidianos, flores três vezes por mês etc. O culto endereçava-se aos penates e aos lares, personificações mítico-rituais dos antepassados, e aos genius, espécie de "duplo" que protegia o indivíduo. As crises deflagradas pelo nascimento, pelo matrimônio e pela morte exigiam ritos de passagem específicos regidos por certos espíritos e divindade menores. A cerimônia religiosa do casamento processava-se sob os auspícios das divindades ctonianas e domésticas e de Juno com protetora do juramento conjugal, e comportava sacrifícios e passeios ao redor do lar.
Os ritos funerários, que terminavam no nono dia após o enterro ou inumação, prolongavam-se no culto regular dos "pais defuntos" (divi parentes) ou manes. Duas festas eram-lhe consagradas: os Parentalia, em fevereiro, e os Lemuria, em maio. Durante as primeiras, os magistrados não ostentavam suas insígnias, os templos eram fechados, os fogos extintos sobre os altares, e não se contraía casamento. Os mortos retornavam à terra e se serviam do alimento depositado sobre os túmulos. Mas era sobretudo a pietas que apaziguava os antepassados (animas placare paternas). Como no antigo calendário romano fereveiro era o último mês do ano, ele compartia a condição fluída, "caótica", que caracterizava esses intervalos entre dois ciclos temporais. Estando suspensas as normas, os mortos podiam retornar à terra. Era ainda em fevereiro que se desenrolava o ritual dos Lupercalia, purificações coletivas que preparavam a renovação universal simbolizada pelo "ano-novo".
Durante os três dias dos Lemuria, os mortos (lemures) retornavam e visitavam as casas de seus descendentes. A fim de apaziguá-los e de impedir que arrastassem consigo alguns vivos, o chefe da família enchia a boca de favas pretas e, enquanto cuspia, pronunciava nove vezes as seguintes palavras: "Com estas favas redimo a mim e os meus." Finalmente, fazendo barulho com um objeto de bronze para amedrontar as sombras, repetia nove vezes: "Manes de meus pais,afastem-se daqui!" A recondução ritual dos ortos, depois de suas visitas periódicas à terra, é uma cerimônia amplamente difundida no mundo.
Lembremos também outro rito relacionado aos manes: a devotio. O ritual da devotio ilustra uma concepção arcaica do sacrifício humano como "homicídio criador". Trata-se, em suma, de uma transferência ritual da vida sacrificada em favor da operação que acaba de ser empreendida.
Desconhecem-se as representações do reino dos mortos próprias dos anitgos habitantes do Lácio; as que nos foram transmitidas refletem a influência das concepções gregas e etruscas. É muito provável que a mitologia funerária arcaica dos latinos fosse um prolongamento das tradições neolíticas européias. Por outro lado, as concepçoes do outro mundo compartilhadas pelos troncos rurais itálicos foram modificadas de modo bastante superficial pelas influências ulteriores, gregas, etruscas e helenísticas. Em contrapartida, os infernos evocados por Virgílio, o simbolismo funerário dos sarcófagos da época imperial, as concepções de origem oriental e pitagórica da imortalidade celeste se tornarão extremamente populares em Roma e nas outras cidades do império a partir do século I AC.
Autor: Mircea Eliade, em "História das Crenças e Idéias Religiosas II", pg 110 - 112, Editora Zahar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Caracteres específicos da religiosidade romana

A disposição e o vivíssimos interesse pelas realidades imediatas, tanto cósmicas como históricas, não demoram a aparecer na atitude dos romanos em relação a anomalias, acidentes ou inovações. Para os romanos, como também para as sociedades rurais em geral, a norma ideal manifestava-se na regularidade do ciclo anual, na sequência ordenada das estações. Toda inovação radical equivalia a um ataque à norma; em última análise, implicava o risco de um retorno ao caos. De modo semelhante, toda anomalia - prodígios, fenômenos insólitos - denunciava uma crise nas relações entre os deuses e os homens. Os prodígios proclamavam o descontentamento ou até a cólera dos deuses. Os fenômenos aberrantes equivaliam a manifestações enigmáticas dos deuses; de certo rpisma, eles constituíam "teofanias negativas".
Para os romanos, a significação precisa dos prodígios não era evidente; tinha de ser decifrada pelos profissionais do culto, o que explica a importância apreciável das técnicas divinatórias e o respeito mesclado de temor que desfrutavam os arúspices etruscos e, mais tarde, os LIvros Siblilinos e outras coleções oraculares. A diviniação consistia em interpretar os presságios vistos (auspicia) ou ouvidos (omnia). Somente os magistrados e os chefes militares estavam autorizados a explicá-los. Mas os romanos haviam guardado para si o direito de recusar os presságios. Uma vez decifrado o sentido do prodígio, procedia-se a lustrações e a outros ritos de purificação, pois estas "teofanias negativas" haviam denunciado a presença de determinada mácula, e era importante que ela fosse cuidadosamente afastada.
A primeira vista, o medo desmedido dos prodígios e das máculas poderia ser interpretado como um terror pela superstição. Trata-se, no entanto, de um tipo particular de experiência religiosa, poruqe é por meio de tais manifestações insólitas que se estabelece o diálogo entre so deuses e os homens. Essa atitude diante do sagrado é consequência direta da valorização religiosa das realidades naturais, das atividades humanas e dos acontecimentos históricos, em suma, do concreto, do particular e do imediato. A proliferação dos ritos constitui aspecto desse comportamento. Já que a vontade divina se manifesta hic e nunc, numa série ilimitada de sinais e incidentes insólitos, importa saber que ritual será o mais eficaz. A necessidade de reconhecer até nas minúncias as manifestações específicas a todas as entidades divinas encorajou um processo bastante complexo de personificação. As múltiplas epifanias de uma divindade, assim como suas diferentes funções, tendem a distinguir-se como "pessoas" autônomas.
Em certos casos, essas personificações não chegam a libertar uma verdadeira figura divina. São sucessivamente evocadas, mas sempre em grupo.
O gênio religioso romano distingue-se pelo pragmatismo, pela busca da eficácia e sobretudo pela "sacralização" das coletividades orgânicas: família, gens, pátria. A famosa disciplina romana, a fidelidade aos compromissos (fides), a dedicação ao Estado, o prestígio do direito traduzem-se pela depreciação da pessoa humana: o indivíduo contava tão somente na medida em que pertence a seu grupo. Só mais tarde, sob a influência da filosofia grega e dos cultos orientais da salvação, os romanos descobriram a iportância religiosa da pessoa.
O caráter social da religiosidade romana, em primeiro lugar a importância atribuída às relações com o outro, é claramen5e expresso pelo termo pietas. Apesar de suas ligações com o verbo piare (apaziguar, apagar uma falta, conjurar um mau presságio, etc), a pietas designa a observação escrupulosa dos ritos, mas também o respeito aos relacionamentos naturais entre os seres humanos. Para um filho, a pietas consiste em obedecer o pai; a desobediência equivale a um ato mostruoso, contrário à ordem natual, e o culpado deve espiar essa falta com a própria morte. Ao lado da pietas com relação aos deuses, existe a pietas com os membros dos grupos a que se pertence, a cidade e finalmente todos os seres humanos. O "direito das gentes" (ius gentium) prescrevia os deveres mesmo com relação aos estrangeiros. Essa concepção desabrocha plenamente sob a influência da filosofia helênica, quando se estabeleceu com clareza a concepção da humanitas, a idéia de que o simples fato de pertencer á espécie humana constituía um verdadeiro parentesco, análogo àquele que ligava os membros de uma mesma gens ou cidade e criava deveres de solidariedade, amizade ou pelo menos de respeito. As ideologias humanitaristas dos séculos XVIII e XIX nada mais fazem do que retomar e elaborar, ainda que a dessacralizando, a velha concepção da pietas romana.
Autor: Mircea Eliade, em "A História das Crenças e das Idéias Religiosas II", pg108 - 110, Editora Zahar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A privatização da "liberdade religiosa"

Pontífice visita agora berço do Vodu e deve pedir respeito a crenças tradicionais, mas rejeição à bruxaria.
O papa Bento XVI pediu neste sábado, de forma contundente, que os líderes africanos não tirem a esperança de seu povo.
"Não desliguem suas populações de seu futuro mutilando seu presente", disse o papa.
As declarações foram feitas em Cotonou, na República do Benin, durante o segundo dia da visita do papa à África, perante uma plateia composta por líderes políticos, econômicos e religiosos do pequeno país do Oeste do continente, assim como representantes de nações vizinhas.
Usando uma linguagem excepcionalmente dura, segundo analistas, ele pediu que as autoridades africanas acabem com a corrupção.
"Adotem uma posição ética corajosa em relação a suas responsabilidades", disse o pontífice.
"Há escândalos e injustiças demais, corrupção e ganância demais, erros e mentiras demais, violência demais, o que leva a miséria e morte".
"Todo povo quer entender as escolhas políticas e econômicas feitas em seu nome".
"Eles percebem a manipulação e sua vingança é às vezes violenta. Eles querem participação em boa governança. Sabemos que nenhum regime político é ideal e que nenhuma escolha econômica é neutra. Mas estes devem sempre servir ao bem comum. Enfrentamos demandas legítimas, presentes em todos os países, por uma maior dignidade e sobretudo por uma maior humanidade".
Vodu
Mais tarde, o papa vai emitir uma orientação do Vaticano sobre como a Igreja Católica da África deve lidar com as tensões entre muçulmanos e cristãos e com a competição dos movimentos evangélicos, cujos cultos dinâmicos vêm atraindos mais fiéis.
O documento – a ser assinado na cidade de Ouidah, o berço simbólico do Vodu – deve pedir reconciliação, paz e justiça. O papa deve pregar ainda o reconhecimento de elementos de culturas e religiões tradicionais, se eles forem compatíveis com os ensinamentos da Igreja.
O pontífice vai, no entanto, alertar que as pessoas devem rejeitar a magia e bruxaria, condenados pela Igreja por seus "efeitos negativos nas famílias e na sociedade".
A África é o continente em que a fé católica cresce mais rapidamente no mundo, mas no Benin o Vodu é uma religião oficial e muitos dos que são cristãos ou muçulmanos incorporam alguns elementos do Vodu em suas crenças, especialmente em momentos de crise.
"O Vodu é mais que uma crença, é um estilo de vida, incluindo cultura, filosofia, língua, arte, música, dança e medicina. Os líderes do Vodu pedem aos deuses que intervenham em nome das pessoas comuns, mas os moradores locais frisam que isso não tem qualquer ligação com feitiçaria ou magia negra. As pessoas aqui não espetam agulhas em bonecos para causar problemas para seus inimigos, como se vê em alguns filmes ocidentais", explica a repórter da BBC África Virgile Ahissou.
Reportagem da BBC.
Divulgação pela União Wicca.
Nota: Em diversos textos neste blog eu denunciei o péssimo hábito da Igreja e seus representantes falarem em "liberdade religiosa", sempre em causa própria.

Corte eclesiástica


Um tema de grande relevância nacional permanece ausente dos debates da grande mídia e da sociedade brasileira. Trata-se das relações entre as religiões e o estado laico, que tem chamado a atenção dos estudiosos pelo avanço crescente dos interesses e grupos religiosos sobre os poderes legislativos e executivos, configurando demandas religiosas como políticas de Estado.
Não bastassem os casos de rivalidade e intolerância religiosa registrados em vários estados, especialmente de grupos evangélicos – mais especificamente neopentecostais – contra praticantes de umbanda e candomblé, conforme registrou a revista Istoé, edição nº 2191, de 4 de novembro; despontam grandes preocupações com a questão do ensino religioso na escola pública. O Acordo Brasil-Vaticano (2010), ao determinar que o ensino religioso deva ser “católico e de outras confissões religiosas”, provocou ação de inconstitucionalidade pela Procuradoria Geral da União. Já o Conselho Nacional de Educação enviou comissão ao Supremo Tribunal Federal (STF) reforçando o pedido de suspensão dos efeitos do acordo sobre o ensino religioso, que deixa de ser não-confessional para se tornar ensino de religião.
Outra situação relacionada à questão, mas de profunda gravidade, diz respeito à proposta de Emenda Constitucional (PEC 99, 19/10/2011), do deputado João Campos (PSDB-GO), que: “Acrescenta ao art. 103, da Constituição Federal, o inciso X, que dispõe sobre a capacidade postulatória das associações religiosas para propor ação de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade de leis ou atos normativos, perante a Constituição Federal”. Noutras palavras, um conjunto de entidades representativas da igreja católica e de diversas igrejas evangélicas, citadas na proposta, formaria uma corte eclesiástica acima do Congresso Nacional e do STF, com poderes de referendar ou não as leis do País.
A proposta tanto tem de ousada quanto de perigosa. A julgar pelas últimas investidas clericais contra o estado laico, esboça-se não apenas o sepultamento do mesmo, da cidadania e da democracia, como a germinação obscurantista de uma teocracia.
Reportagem de O Povo Online.
Texto divulgado pela União Wicca.
Nota: E ainda tem pagão, bruxo e wiccano que fica lado a lado com essa gente nas caminhadas pela liberdade religiosa.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Francês aciona a justiça para ser desbatizado

René Lebouvier fez uma solicitação incomum e seu processo contra a Igreja Católica será agora julgada por um tribunal. O resultado jurídico de sua denúncia poderá provocar uma brecha numa tradição que persiste desde o século 16: a manutenção do registro de batismo de parte da instituição católica.
O tribunal ordenou à diocese de Coutances e Avranches que "tome as medidas para o cancelamento definitivo dos registros de batismo, onde há menção que René Lebouvier foi batizado em 9 de agosto de 1940".
Baseada no "direito ao respeito da vida privada", a justiça francesa exige que esta anulação seja efetuada "usando como meio, a cobertura do escrito com tinta preta indelével, num prazo de 30 dias, sob pena de multa diária de 15 euros por descumprimento".  Embora o registro não seja público pode ser acessado por terceiros e isso "fere o direito do indivíduo", esclarece a sentença.
Contestando a decisão, o bispo de Coutances e Avranches, Don Stanislas Lalanne, entrou com um apelo. "O batismo constitui um evento de caráter público. É um ato consumado, faz parte da história e não pode ser cancelado." A Igreja também afirma respeitar a vontade dos pais que quiseram batizar o seu filho.
O registro mostra que René Lebouvier foi batizado quando tinha dois dias. Usando argumentos teológicos, a Igreja católica argumentou que "o batismo é o ato fundador de um novo nascimento na fé. É possível alguém cancelar o ato histórico do nascimento de uma pessoa?".
René Lebouvier não se importa muito com isso. O aposentado se considera um "livre pensador" e diz não odiar a Igreja. Mas insiste: "Todos os membros de minha família são católicos e nos damos bem. Casei na primeira vez diante do padre de minha aldeia em 1962, assisti a funerais na igreja, e até frequento os almoços promovidos por eles para os anciãos!".
Aos 71 anos, Lebouvier explica por que tomou essa decisão só agora, perto do fim da vida. Ele recebeu, alguns anos atrás, um certificado de "desbatismo", emitido por uma associação de livres pensadores. Decidiu então iniciar o caminho para se desvincular formalmente do grupo de católicos fiéis da sua cidade. "Fiz isso para ser honesto com os católicos fiéis. Eu não era mais católico há muito tempo, portanto era uma coisa lógica. Mas quando o pároco me disse que não poderiam tirar meu nome dos registros, só podiam escrever o adendo: "Renegou o batismo em tal dia. Aquilo me deixou inquieto", lembra ele.
Em 2009, Lebouvier ouviu as afirmações do Papa condenando o preservativo "enquanto os africanos morrem de AIDS" e soube da excomunhão de uma mãe e dos médicos brasileiros que concordaram em fazer um aborto de uma menina de 9 anos que engravidou depois de ter sido violentada. Aquilo lhe fez perder a cabeça. "Naquela altura, disse a mim mesmo que não queria ter mais nada com essa instituição. Até porque a Igreja avalia o número de seus fiéis pelos registros de batismo", observa o aposentado, desejoso de se ver livre o quanto antes de seus laços com a instituição.
Para o Vaticano, esse tipo de pedido é considerado um "ato de apostasia, de heresia ou de cisma" e pode resultar na condenação eterna do requerente. René Lebouvier afirma que não pensa nisso e tem o apoio da Federação Nacional do Livre Pensamento, que acompanhou o processo e pôs o seu advogado à disposição do aposentado.
Para a Igreja Católica, é difícil avaliar as consequências desse caso. Se a justiça facilitar e obrigar que o "desbatismo" seja reconhecido oficialmente, quantos mais farão o mesmo tipo de pedido?  Alguns bispos temem que isso se torne prática comum numa França que vê o declínio constante do número dos batizados no país há diversas décadas.
Em 2009 foram batizadas 316.286 pessoas, sendo que 295.582 eram crianças menores de 7 anos. Dez anos antes mais de 400.000 crianças receberam o sacramento batismal.
Mesmo tendo perdido no primeiro julgamento, a diocese recorreu do veredito e o processo deve se estender por mais algum tempo. O procedimento para "sair da Igreja" é longo e complexo, mesmo assim há cerca de mil pedidos deste tipo por ano no país. Percebe-se que há "picos de insatisfação" após algumas posições consideradas polêmicas são anunciadas pelo Vaticano. Nos últimos anos, as revelações de escândalos de pedofilia acentuaram o fenômeno.
Traduzido e Adaptado por Gospel Prime de Le Monde.
Nota: Na minha opinião, peticionar pelo desbatismo é coadunar com o poder da Igreja.

domingo, 20 de novembro de 2011

Altar de Larouco

Da página «Portugal Romano» do Facebook:
Altar de Penascrita e desenho do lugar de Culto – Ao Deus Larouco, companheiro de Júpiter, atribuída pelos soldados da Legião VII Gemina Pia Felix (Vilar de Perdizes).
Afloramento granítico, trabalhado para altar rupestre, composto por três degraus encimados por mais três entalhes na rocha, em forma de "E" deitado. Na superfície sobressai uma cavidade rectangular, e rasgos lineares. Esta cavidade é, interpretada por alguns autores como sendo o "foculus". Numa das faces do altar existe uma inscrição consagrada a Deus Larouco, companheiro de Júpiter, atribuída pelos soldados da Legião VII Gemina. De referir a semelhança a outros dois altares aparecidos nas imediações, um deles consagrado ao Deus Larouco e outro a Júpiter. Segundo a interpretação feita por Rodrigues Colmenero, através da leitura de alguns excertos: trata-se de uma santuário, dedicado a:
Larouco, Companheiro de Júpiter - I(ovis) Soc(io) Larouco.
Pelos soldados da legião VII Gemina- La[roc]vo......M(ilites) Leg(ionis) VII P(iae) F(elicis) (centuriae.....?).
No restante ainda se verificam outros caracteres, embora indecifráveis. Trata-se, neste caso de um topónimo, onde o nome da montanha é referido. No Outono e no Inverno a serra está quase sempre encoberta, de tal modo que é possível supor que o santuário da Pena Escrita, situado no altiplano abrigado (altitude 827 metros) congregasse rituais de culto nas estações mais agrestes quando o cume do Larouco é assolado por ventos fortes, cortantes e frios, ou por nevões persistentes.
Texto divulgado pelo Caturo, publicado no blog Gladius.

Nudez em protesto

Um grupo de mulheres israelenses resolveu tirar a roupa para demonstrar apoio à egípcia Aliaa Magda Elmahdy, que provocou polêmica ao publicar fotos nuas de si mesma em um blog na internet.
Neste sábado, quarenta israelenses se reuniram em Tel Aviv para uma foto na qual aparecem nuas atrás de uma faixa que diz: "Amor sem fronteiras". Uma das mulheres também segura um cartaz em inglês que diz: "Mostre que você não tem medo".
Aliaa Magda Elmahdy, uma ativista de 20 anos, disse ter publicado as fotos para defender a igualdade sexual e da liberdade de expressão no Egito. A iniciativa, porém, publicou choque no país religioso conservador, onde a maior parte das mulheres muçulmanas cobre o corpo e o rosto, e onde mesmo os homens raramente mostram seque os joelhos em público.
A polêmica alimentou sentimentos conservadores islâmicos que, segundo muitos egípcios, podem prejudicar as chances dos liberais nas eleições parlamentares do país, cuja primeira fase começa no dia 28 de novembro.
"Muitos movimentos no Egito, principalmente os movimentos islâmicos, estão tentando se beneficiar da situação", disse Emad Gad, um candidato parlamentar do esquerdista Partido Social Democrático Egípcio. "Eles dizem: 'Nós temos que proteger a nossa sociedade de coisas como essa e, se os liberais ganharem, então essa mulher se tornará um modelo para todas as mulheres egípcias."
Ativistas liberais rapidamente negaram qualquer ligação com ela. Após relatos indicando que Elmahdy é membro do Movimento da Juventude 6 de abril – um grupo importante na revolta que depôs o ex-presidente Hosni Mubarak em janeiro – seu porta-voz, Tarek al-Kholi, disse ao canal de notícias Al Arabiya que "o grupo não tem membros que se envolvem em tal comportamento".
Elmahdy, cujo namorado passou quatro anos na prisão por escritos considerados blasfêmicos ao Islã e Mubarak, publicou as fotos com um comunicado declarando-as um ato de rebelião contra a cultura conservadora e os "complexos sexuais" do Egito, tudo isso no espírito da revolução.
Desde que foram publicadas no domingo, as fotos nuas foram vistas mais de 1,6 milhão de vezes e já atraíram mais de 2 mil comentários, embora muitos sejam bastante críticos. "Liberdade", escreveu um detrator, "não é o mesmo que degradação e prostituição."
Com informações do New York Times
Reportagem: Ultimo Segundo
Nota: Aqui neste blog, em outros textos, deixa-se transparecer a estranha dualidade da nudez [especialmente a feminina].

sábado, 19 de novembro de 2011

Bons vizinhos

OUIDAH, Benin — "Não existe mais de um Deus, o Deus que está aqui também é o de lá", comenta o velho diante de um templo vodu e apontando para a basílica mais à frente: em Ouidah, uma cidade litorânea de Benin, "espíritos" e a fé católica convivem como bons vizinhos, o que não impede algumas tensões.
"É o mesmo Deus", insiste Agbotabatoh Dah Deh, antes da visita do Papa Bento XVI a Benin a partir desta sexta-feira, numa viagem que prosseguirá até domingo.
"Estamos prontos para receber o Papa", afirma à AFP, solene. Túnica surrada e bengala na mão, ele faz parte da família que cuida do templo vodu do píton.
Em frente, a basílica passa por obras de reforma: os operários dão as últimas pinceladas antes da chegada do Papa, sábado, à cidade de Ouidah. Ele vai assinar, aí, a exortação apostólica saída do Sínodo sobre a África de 2009, antes de concluir, domingo, na capital, Cotonou, sua visita de três dias.
Agbotabatoh fala, também, com gravidade, dos sacrifícios - boi, galinha - feitos junto a uma velha árvore próxima em honra de "ma wu", Deus supremo vodu e de outras divindades. O velho fica como se fosse na própria casa, na "câmara" de serpentes "sagradas" onde vivem 30 pítons, com pelo menos um metro, cada. "Não existe nada sem Deus", afirma ele, acariciando um dos répteis em seus ombros.
De um total de 9 milhões de habitantes em Benin, os animistas são considerados mais numerosos, à frente dos católicos.
No pátio de uma linda casa, junto a uma estrada de terra, o pequeno amontoado de ferragens, a alguns passos de um mausoléu decorado com cruzes cristãs, representa "Ogoun": deus do ferro, ele "protege dos perigos", explica o mestre vodu, Magloire Fadjikpé.
Quando este velho militar precisa pegar a estrada, ele joga água ou óleo no fetiche, para ganhar os favores da divindade. Mas ele próprio reza pela manhã e à noite, recitando orações católicas e não perde a missa, aos domingos.
"Confundimos" vodu e catolicismo, explica ele. "Adoramos o mesmo Deus".
"Os padres nos dizem sempre que não podemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo", lamenta, no entanto. "Eles esquecem que nós adorávamos o vodu antes da chegada dos missionários", há exatamente 150 anos.
Nos Dez Mandamentos lemos que "adorarás o Senhor teu Deus e a ele só", comenta Séverin Adantonon, um homem sorridente, de 50 anos, encarregado, em Ouidah, da Renovação Carismática. Esta corrente católica militante não acredita no sincretismo amplamente propagado.
"Cada um deve guardar sua identidade", afirma. Assume sem complexos o fato de ter querido levar adeptos do vodu a frequentarem apenas a igreja de "Jesus".
"Mas é muito difícil: essa opção quer dizer não aos pais" que iniciaram os filhos na religião tradicional, admite.
A Renovação Carismática organiza "preces de libertação", espécies de exorcismo, comenta Séverin, evocando "problemas" ligados ao culto dos fetiches: crianças são privadas de educação e confinadas em "conventos de fetiches" (locais secretos de iniciação), onde as tatuagens vodus feitas sem cuidados maiores podem favorecer a transmissão do vírus da Aids.
Mas "a hostilidade não falta" em relação aos evangelizadores, conta ele: "dizem-nos que a fé católica é uma religião importada".
Expoente da sociedade civil local, e ex-ministro, Roger Gbégnonvi destaca que, apesar de tudo, a coexistência é "pacífica" na cidade, também conhecida por ter sido ponto de partida do tráfico de escravos para o Novo Mundo.
"Eu fui criado no catolicismo desde o ventre de minha mãe", confia o ex-seminarista que não tem qualquer ligação com o vodu: "para 99% dos habitantes, pareço um pouco estranho!"
Fonte: AFP

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vivendo em Aliança

Calma, caros diletos e eventuais leitores, este escritor pagão não se converteu. Este é um ensaio feito para explorar alguns termos e conceitos wiccanos.
Comecemos com as lendas e textos da Idade Média que nos contam das assembléas das bruxas.
Quando Gardner organizou a estrutura da Wicca, ele denominou de "coven" às reuniões do seu grupo.
O termo "coven" provém do latim "covenire", que significa exatamente reunião, assembléia.
Existe também o termo "covenant" que significa contrato, acordo, pacto, aliança.
O conceito de "fazer uma aliança com Deus" foi e é muito difundido e propagandeado por padres e pastores.
Nos textos dos processos do Santo Ofício era muito comum a acusação de que as bruxas tinham feito um pacto com o Diabo.
Na visão teológica católica, hereges e bruxas eram, por natureza, adoradores do Diabo e, portanto, faziam tudo às avessas da Santa Doutrina Cristã.
Ao pleitear por seu ingresso, o neófito, depois de passar pelo treinamento formal e a transmissão oral da tradição, deve fazer um voto, um juramento, ["oath"] tal como está implicito ao se firmar um contrato ou se estabelcer um acordo.
Parece-me que este é o verdadeiro sentido do termo "coven", a saber, equiparando com o termo "covenant", o neófito não empenha sua palavra unicamente para ingressar como membro de uma assembléia, mas também celebra um pacto, uma aliança, com o Deus e a Deusa [divindades específicas] cultuados pelo grupo, ato que se consuma na iniciação e ao se proferir o voto, o juramento, diante daqueles que serão sua família e diante dos Deuses.
Para uma vida em comum, especialmente no que diz respeito ao meio pagão, bruxo e wiccano, fica bastante explicito as condições, o que contrasta com os conceitos populistas divulgados pela internet. Viver em aliança, com uma comunidade, com os Deuses, requer um compromisso sincero, profundo e honesto, não há espaço para agendas pessoais nem conflitos entre egos.
Assim como no casamento, onde o anel é o símbolo da aliança, no coven, a ação cerimonial de lançar o círculo é o ato sagrado em que se reencena nosso compromisso com os nossos iguais, preservando a tradição e servindo a Deuses específicos. Qualquer coisa abaixo ou menor do que isto é simplesmente alimentar a vaidade, a presunção e a arrogância do líder carismático, do vigarista disfarçado de guru, do estelionatário travestido de sacerdote.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Contra o preconceito sexual e gastronômico

O restaurante das irmãs Carla e Mar Morales, no bairro de Barracas, em Buenos Aires, seria apenas mais um na capital argentina a servir a parrilla, a versão local do churrasco, a não ser por um detalhe incomum: as proprietárias são transexuais e pretendem formar uma equipe formada majoritariamente por transexuais, como forma de ajudá-los contra o preconceito.
Carla, de 31 anos, e Mar, de 26, contaram à BBC Brasil que sentiam dificuldade para encontrar emprego. Além de gerar o próprio trabalho, elas resolveram dar oportunidades para outros transexuais.
'Nós temos aparência feminina, mas quando mostrávamos o documento com nomes de homens, desistiam de nos contratar', disse Carla.
As duas nasceram na província argentina de Salta, no norte do país, e mudaram-se há poucos anos para Buenos Aires, onde abriram há dois meses o restaurante Transeúntes.
A churrascaria é gerenciada pelas irmãs e possui dois funcionários, como contou Carla, um 'transexual masculino e uma heterossexual, que é a cozinheira'.
Educação
Carla estuda desenho de moda na Universidade de Buenos Aires (UBA) e Mar é atriz de teatro.
'Acho que a educação é muito importante. Mas eu tenho curso de bolos e doces e não conseguia emprego por preconceito. Fiquei muito tempo parada. Um dia quando um rapaz 'trans' me pediu ajuda para conseguir emprego surgiu então a ideia do restaurante', disse.
Ela afirmou esperar que o restaurante cresça, que possa contratar mais gente, e que seu 'sonho' é que um dia 'vários lugares no mundo' tenham um restaurante como o delas.
'Mas nosso objetivo não é formar uma ilha para os transgêneros (transexuais). Mas o contrário, que o restaurante seja uma forma de inclusão dos transexuais', disse.
Carla contou que o restaurante tem um público eclético, pessoas de diferentes sexos que trabalham nos escritórios do bairro de Barracas, no sul da cidade de Buenos Aires.
'Atendemos nas mesas do salão principal cerca de vinte pessoas por dia. Mas temos um pátio para os que nos contratam para eventos sociais', disse. Ela afirmou que jamais percebeu preconceito dos clientes ou dos vizinhos desde que abriu o restaurante. 'Temos casa cheia quase todos os dias, de segunda à sexta', disse.
Identidade
Carla entrou com ação na Justiça argentina para mudar seu nome nos documentos. Ela disse que prefere não revelar seu nome de batismo, que aparece na certidão de nascimento e no documento de identidade.
'Ah, não, eu sou Carla Morales. E tenho esperanças de que a lei de identidade de gênero saia antes que a decisão sobre a minha ação na Justiça', afirmou.
Recentemente, deputados argentinos apresentaram projeto de lei para estabelecer a identidade de gênero, já debatido e aprovado nas comissões da Câmara.
Assessores do deputado Miguel Angel Barrios, do Partido Socialista (PS), explicaram à BBC Brasil que antes de ser lei, o projeto final ainda deverá ser aprovado no plenário da casa, depois enviado para o Senado e ser sancionado pela presidente Cristina Kirchner.
No Uruguai, a chamada lei de 'identidade de gênero', que permite a mudança nos documentos, foi aprovada durante o governo do ex-presidente Tabaré Vázquez, em 2009.
Fonte: G1 Mundo
Nota: Pior que o preconceito contra a sexualidade é o preconceito gastronômico. Vegans me enjoam com sua vongogelização.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ser gay é pecado?

Reportagem de Cynara Menezes, publicada no Carta Capital.
Em seu programa de tevê e nos cultos, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, um dos maiores porta-vozes do conservadorismo religioso no País, costuma repetir a ladainha: "Homossexualidade na Bíblia é pecado. Pode tentar, forçar, mas é pecado". Mas será mesmo pecado ser gay? Não, contestam, baseados na interpretação da mesma Bíblia, sacerdotes cristãos, tanto católicos quanto evangélicos. Para eles, a mensagem de Jesus era de inclusão: se fosse hoje que viesse à Terra, o filho de Deus teria recebido os homossexuais de braços abertos.
"Orientação sexual não é o que vai definir a nossa salvação", afirma o bispo primaz da Igreja Anglicana no Brasil, dom Maurício Andrade. "É muito provável que as pessoas homoafetivas fossem acolhidas por Jesus. O Evangelho que ele pregou foi de contracultura e inclusão dos marginalizados", opina. Segundo o bispo, ao mesmo tempo que não há nenhuma menção à homossexualidade no Novo Testamento, há várias passagens que demonstram a pregação de Jesus pela inclusão. Não só o conhecido "quem nunca pecou que atire a primeira pedra" à adúltera Maria Madalena.
No Evangelho de João, capítulo 4, Jesus está a caminho da Galileia, partindo de Jerusalém. Cansado, decide descansar ao lado de um velho poço, em plena região da Samaria, cujos habitantes eram desprezados pelos judeus. E inicia conversação com uma mulher samaritana que vinha buscar água, e lhe oferece a salvação da alma, para espanto de seus próprios apóstolos, que a consideravam ímpia. Também quando Jesus vai à casa de Zaqueu, o coletor de impostos decidido a passar a noite lá, os discípulos murmuram entre si que se hospedaria "com homem pecador". Mas Jesus não só o faz como também oferece a Zaqueu, homem rico tido como ladrão, a salvação. "Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão."
"Jesus inaugura o momento da Graça, os Evangelhos atualizam vários trechos do Velho Testamento. Ou alguém pode imaginar apedrejar pessoas hoje em dia?", questiona dom Maurício, para quem a interpretação da Bíblia deve se basear no tripé tradição, razão e experiência cotidiana. "Quem interpreta que a Bíblia condena a homoafetividade está sendo literalista. Cada texto bíblico está inserido num contexto político, histórico e cultural, não pode ser transportado automaticamente para os dias de hoje. Além disso, a Igreja tem de dar resposta aos anseios da sociedade, senão estaremos falando com nós mesmos."
Também anglicano, o arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984, lançou em março deste ano o livro Deus Não É Cristão e Outras Provocações, que traz um texto sobre a inclusão dos cidadãos LGBT à Igreja e à sociedade. Para Tutu, a perseguição contra os homossexuais é uma das maiores injustiças do mundo atual, comparável ao apartheid contra o qual lutou na África do Sul. "O Jesus que adoro provavelmente não colabora com os que vilipendiam e perseguem uma minoria já oprimida", escreveu. "Todo ser humano é precioso. Somos todos parte da família de Deus. Mas no mundo inteiro, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros são perseguidos. Nós os tratamos como párias e os fazemos duvidar que também sejam filhos de Deus. Uma blasfêmia: nós os culpamos pelo que são."
Nos Estados Unidos, a Igreja Anglicana foi a primeira a ordenar um bispo homossexual, em 2004. "Não por ser gay, mas porque a Igreja reconheceu o serviço e o ministério dele", alerta dom Maurício. Foi com base na demanda crescente de respostas por parte dos fiéis homossexuais ou com -parentes e amigos gays que os anglicanos começaram a rever suas posturas, a partir de 1997. No ano seguinte, foi feita uma recomendação para que os homoafetivos fossem escutados, embora a união de pessoas do mesmo sexo ainda fosse condenada e que se rejeitasse a prática homossexual como "incompatível" com as Escrituras.
No Brasil, onde possui mais de 60 mil seguidores, a Igreja Episcopal Anglicana realizou em 2001 a primeira consulta nacional sobre sexualidade, quando seus fiéis decidiram rejeitar "o princípio da exclusão, implícito na ética do pecado e da impureza", e fazer uma declaração pública em favor da inclusividade como "essência do ministério encarnado de Jesus". Em maio deste ano, os anglicanos divulgaram uma carta de apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo, baseados não só na defesa da separação entre Estado e Igreja como no reconhecimento de que as relações homoafetivas "são parte do jeito de ser da sociedade e do ser humano".
Com o reconhecimento pelo Superior Tribunal de Justiça, em 25 de outubro, da união civil de duas lésbicas, é possível que a intolerância religiosa contra os homossexuais volte a se acirrar. No Twitter, Malafaia atiçava os seguidores a enviar e-mails aos juízes do Tribunal pedindo a rejeição do recurso. Em vão: a união entre as duas mulheres gaúchas, juntas há cinco anos, ganhou por 4 votos a 1.
A partir da primeira decisão do STF, foi criada, informalmente até agora, uma frente religiosa pela diversidade sexual, que reúne integrantes de diversas igrejas: batistas, metodistas, anglicanos, luteranos, presbiterianos, católicos e pentecostais. Coordenador do grupo, o metodista Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde, Alexandre Padilha) diz que a homossexualidade é hoje um dos temas que mais dividem as igrejas, tanto evangélicas quanto católicas. "Quem alimenta o preconceito são as lideranças. Os fiéis manifestam dificuldade em obter respostas, porque no convívio com amigos, colegas ou mesmo parentes que sejam homossexuais não veem diferença."
Mais: segundo Padilha, a proporção de homossexuais entre os evangélicos é bastante similar à da sociedade brasileira como um todo. Sua convicção vem da pesquisa O Crente e o Sexo, do Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã, entidade que possui o maior banco de dados com e-mails de evangélicos brasileiros – mais de 1,6 milhão. Na pesquisa, foram ouvidos pela internet 6.721 solteiros evangélicos de todo o País, entre 16 e 60 anos. Os resultados, divulgados em junho deste ano: 5,02% dos evangélicos tiveram uma experiência homossexual e 10,69% disseram desejar experimentar ter relações com pessoas do mesmo sexo.
Uma pesquisa feita em 2009 pelo Ministério da Saúde com os brasileiros em geral apontou que 7,6% das pessoas- entre 15 e 64 anos haviam tido relações com o mesmo sexo na vida. Quer dizer, a diferença entre os hábitos sexuais dos crentes e do resto da população é quase nula. "A questão não é teológica", argumenta Padilha. "O que existe é que esse tema tem sido utilizado politicamente pela direita brasileira. Como não existe mais o comunismo, conseguem manipular a opinião pública assim. Eles têm o direito de expressar opiniões, mas não se pode impor ao Estado conceitos de pecado que não dizem respeito aos que professam outras religiões, ou nenhuma."
De acordo com historiadores, a posição religiosa em relação à homossexualidade mudou ao longo dos séculos: de mais tolerante para menos. O americano John Boswell, pesquisador da Universidade Yale que morreu de Aids- aos 47 anos em 1994 e que dedicou a vida acadêmica a investigar a homossexualidade relacionada ao cristianismo, afirmava que a Igreja Católica não condenou as relações entre o mesmo sexo até o século XII. Ao contrário: o historiador, contestado por alguns e aclamado por outros, revelou no livro O Casamento entre Semelhantes – Uniões entre pessoas do mesmo sexo na Europa pré-moderna (1994) a existência de manuscritos que comprovam a celebração de rituais matrimoniais religiosos durante toda a Idade Média por sacerdotes católicos e ortodoxos para consagrar uniões homossexuais.
Nos 80 manuscritos descobertos por Boswell sobre as bodas gays entre os primeiros cristãos, invocava-se como protetores os santos católicos Sérgio e Baco, tidos como homossexuais. Celebrados no dia 7 de outubro, São Sérgio e São Baco aparecem juntos em toda a iconografia religiosa a partir do século IV depois de Cristo e atualmente são objeto de homenagem de vários artistas plásticos ligados ao movimento LGBT. Soldados do imperador romano Maximiano, foram ambos martirizados por se recusar a entrar em um templo e adorar Júpiter. Baco, flagelado com chicotadas, morreu primeiro. Uma crônica, provavelmente do século- X, conta que Sérgio "com o coração enfermo pela perda de Baco, chorava e gritava: 'te separaram de mim, foste ao Céu e me deixaste só na Terra, sem companhia nem consolo'".
Em fevereiro deste ano, o pesquisador e professor de Literatura Carlos Callón, da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, foi premiado pelo ensaio Amigos e Sodomitas: A configuração da homossexualidade na Idade Média, onde conta a história de Pedro Díaz e Muño Vandilaz, protagonistas do primeiro matrimônio homossexual da Galícia, em 16 de abril de 1061. No documento, o casal compromete-se a morar juntos e se cuidar mutuamente "todos os dias e todas as noites, para sempre". Segundo Callón, há muitos relatos semelhantes, inclusive com rituais religiosos similares aos heterossexuais, com a diferença de que as bênçãos faziam alusão ao salmo 133 ("Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos"), ao amor de Jesus e João ou a São Sérgio e São Baco.
"Trato também na pesquisa de como na lírica ou na prosa galego-portuguesa medievais aparecem alguns exemplos de relações entre homens", diz o professor. "As relações homossexuais são documentáveis em todas as épocas, o que houve foi um processo de adulteração, de falsificação da história, para nos fazer pensar que não." Outro dado importante ressaltado pelo pesquisador é que a perseguição contra os homossexuais vem originalmente do Estado. Só mais tarde a Igreja se converteria na principal fonte do preconceito.
"Os traços básicos do preconceito contra a homossexualidade tiveram sua origem na Baixa Idade Média, entre os séculos XI e XIV. É nessa altura que emerge a intolerância homofóbica, desconhecida na Antiguidade. Inventa-se o pecado da sodomia, inexistente nos mil primeiros anos do cristianismo, a englobar todo o sexo não reprodutivo, mas tendo como principal expoente as relações entre homens ou entre mulheres. Com o tempo, passará a ser o seu único significado", explica Callón.
De fato, a palavra "sodomia" para designar o coito anal em geral e as relações homossexuais em particular, e ao que tudo indica foi introduzida na Bíblia por seu primeiro tradutor ao inglês, o britânico John Wycliffe (1320-1384). Wycliffe traduziu o termo grego arsenokoitai como "pecado de Sodoma". Daí a utilização da palavra "sodomita" para designar os gays, o que acabou veiculando-os para sempre com o relato bíblico das pecadoras cidades de Sodoma e Gomorra, destruídas por Deus com fogo e enxofre para punir a imoralidade de seus habitantes. Mas o significado real de arsenokoitai (literalmente, a junção das palavras "macho" e "cama") é ainda hoje alvo de controvérsia.
O próprio termo "homossexual" para designar as pessoas que preferem se relacionar com outras do mesmo sexo é recente: só passou a existir a partir do século XIX. A versão revisada em inglês da Bíblia, de 1946, é a primeira a utilizá-lo. Isto significa que as menções à "homossexualidade", "sodomia" e "sodomitas" nas escrituras seriam mais uma questão de interpretação do que propriamente de tradução.
"A Bíblia, infelizmente, tem sido usada para defender quaisquer posicionamentos, desde a escravidão (sobram textos que legitimam a escravatura) ao genocídio", opina o pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda de São Paulo, protestante. "Como o sexo é uma pulsão fundamental da existência, o controle sobre essa pulsão mantém um fascínio enorme sobre quem procura preservar o poder. Assim, o celibato católico e a rígida norma puritana não passam de mecanismos de controle. O uso casuístico das Escrituras na defesa de posturas consideradas conservadoras ou 'ortodoxas' não passam, como dizia Michel Foucault, de instrumentos de dominação."
"Um teólogo que eu admiro muito, Carlos Mesters, costuma dizer que a Bíblia é uma flor sem defesa. Dependendo da mão e da intencionalidade de quem a usa, a posição mais castradora ou a mais libertadora pode ser defendida usando-a", concorda a pastora Odja Barros, presidente da Aliança de Batistas do Brasil, espécie de dissidência da Igreja Batista que aceita homossexuais entre seus integrantes – são seis igrejas no País. Tudo começou há cinco anos, conta Odja, quando se colocou diante de sua igreja, em Maceió, o desafio: um homossexual converteu-se e não queria abrir mão de seu gênero. Foi uma pequena revolução. Alguns integrantes deixaram a Igreja, outros se juntaram a ela, e houve fiéis que, animados, também resolveram se revelar homossexuais. "Em todas as comunidades evangélicas existem gays, mas são reprimidos", afirma a pastora.
Um dos pontos principais para a compreensão da questão à luz da Bíblia, de acordo com Odja Barros, é desconstruir as leituras mais hegemônicas, patriarcais, que afetam a vida não só dos gays, como das mulheres. Há trechos, por exemplo, que justificam a submissão e a violência contra a mulher. A própria Odja só se tornou pastora graças a essa releitura. "As pessoas vêm me dizer que sou feminista, que sou moderna, mas me sinto muito fiel a algo -muito -antigo, que é a defesa da dignidade do ser humano sobre todas as coisas. O Evangelho tem a ver com esses valores", argumenta. "A sociedade caminhou mais rápido e é um desafio à Igreja, quando deveria ser o contrário."
Entre os católicos, curiosamente, a homossexualidade não é vetada a partir da Bíblia, mas a partir da concepção de que seria antinatural, ou seja, fora do objetivo da procriação. É assim, até hoje, que prega a Igreja, daí a condenação também ao uso de contraceptivos como a camisinha. Tudo isso vem de uma época em que se conhecia muito pouco de biologia. A descoberta do clitóris como fonte do prazer feminino, por exemplo, é do século XVI. O ovário, que sacramentou a diferença entre homem e mulher, só foi descoberto no século XVIII. Até então, pensava-se que a mulher era um homem em desvantagem, um corpo masculino "castrado".
"Além disso, hoje temos conhecimento de uma gama impressionante de comportamentos sexuais entre os animais, o que inclui homossexualidade e hermafroditismo", defende o padre católico James Alison, britânico radicado em São Paulo. Homossexual assumido, Alison conta que se situa numa espécie de "buraco negro" em que se encontram, segundo ele, muitos padres católicos gays: sem função como párocos, não estão subordinados a bispos e, por isso mesmo, escapam de sanções da Igreja. O padre, que vive como teólogo, compara a homossexualidade a ser canhoto. Ou seja, um porcentual- da população nasceria -homossexual, assim como nascem pessoas que escrevem com a mão esquerda. "Aproximadamente 9,5% das pessoas são canhotas e isso também já foi considerado uma patologia."
Alison conta que a Igreja Católica faz um malabarismo ideológico para sustentar a proibição de ser homossexual-, pois no ensino teológico do Vaticano o fato em si não é considerado pecado. "Eles dizem que 'enquanto a inclinação homossexual não seja em si um pecado, é uma tendência para atos intrinsecamente maus', uma coisa confusa e insustentável a essa altura." O padre acredita, porém, que a aceitação da homossexualidade pelos católicos melhorou sob Bento XVI. "Neste tema, os prudentes calam e os burros gritam. João Paulo II promovia os gritões. Hoje a tendência é prudência. Já não se veem bispos falando publicamente que é uma patologia. Se a Igreja reconhecer que não há patologia, será natural reconhecer a homossexualidade. É um lado bom de Ratzinger, mas tudo isso ocorre caladamente, nos bastidores da Igreja."
Para o padre, a falta de discussão no catolicismo sobre a homossexualidade "emburreceu" as pessoas para o debate em torno da pedofilia, que tanto tem causado danos à imagem da Igreja nos últimos anos. Daí a reação lenta diante das denúncias. E também se tornou um obstáculo à evangelização. "A homofobia instintiva já não é mais realidade, há cada vez mais solidariedade fraterna concreta. Muitos jovens são por natureza gay friendly. E se perguntam: por que seguir Jesus se tenho de odiar os gays?"

domingo, 13 de novembro de 2011

Mulheres oprimidas pelo patriarcado

A jornalista, poeta e tradutora libanesa Joumana Haddad não conhecia a febre nacional em torno das mulheres-fruta, personagens criadas nos bailes funks do Rio de Janeiro. Achou curiosa a existência da mulher maçã, melancia, melão. Depois da iniciação no mundo dessas neo-celebs, ela disse: "isso também existe no Líbano".
"Para mim, as mulheres que usam burca na Arábia são iguais a essas mulheres-fruta. Ambas são oprimidas pelo patriarcalismo. As primeiras são obrigadas pelas autoridades machistas a usar véu para serem canceladas, apagadas, como se não existissem. As outras são tratadas como acessório pelos homens. Os dois tipos são exemplo da Sherazade que eu matei", explicou.
Calma. O "assassinato" foi no campo das ideias. Joumana é autora do livro "Eu matei Sherazade – confissões de uma árabe enfurecida", lançado no começo deste ano no Brasil. Em 'As Mil e uma Noites', clássico da literatura árabe, Sherazade precisa contar histórias todos os dias ao rei para evitar a morte. "Ela teve que negociar pela vida, direito que todos têm", falou.
Ao matar a heroína, Joumana manda a mensagem de que as mulheres não podem abrir mão dos seus direitos básicos, assumir o papel de vítima e, sim, resistir, se rebelar contra essa postura. Com sinceridade e explosão, a libanesa relata na obra o significado da mulher árabe nos dias de hoje. E é sobre isso que ela vai conversar com o correspondente estrangeiro Silio Boccanera na segunda-feira (14), às 19h, em um painel da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em Olinda.
Na entrevista concedida ao G1, no hotel onde está hospedada no Sítio Histórico da cidade, ela admite que não programou nada para falar, apenas aguarda as perguntas sobre o tema da mesa: "Quem é a nova mulher árabe". "Apenas sei quem ela deveria ser: livre e corajosa. Hoje, esse tipo é minoria não só no meu país. Visitei muitos lugares e vi mulheres igualmente submissas. E essas precisam daquelas que lutam por mudança", afirmou.
Mudança é uma palavra de que Joumana gosta. Uma das primeiras aconteceu aos 19 anos, quando escolheu um homem para casar e se livrar da criação estreita ditada pelo pai. "Posso dizer que eu usei o meu marido. O casamento foi algo totalmente racional, planejado, eu não o amava", confessou. Hoje, aos 41 anos, está separada, vive com os dois filhos e conta com total apoio dos pais.
E as críticas e ameaças que recebe de todos os lados por viver em constante manifesto pela liberdade não a intimidam, apenas deixam-na preocupada com a segurança da família. O auge da perseguição dos "covardes", como define, foi quando lançou, em 2009, a revista Jasad (Corpo, em árabe), que aborda assuntos relacionados à sexualidade. O projeto sofre com a falta de recursos, como se ninguém no Oriente Médio quisesse vincular sua imagem à publicação. Mesmo assim, Joumana persiste no projeto. Os poemas de cunho erótico que publica também incomodam muita gente. "Mas eu sei ser má", brinca.
Joumana é contra as religiões monoteístas, que, para ela, são a base das sociedades patriarcais. Prefere acreditar na energia espiritual do mundo. Pós-feminista, também critica a primeira fase do movimento, que via os homens como inimigos e ignorava a feminilidade. "Todo mundo acha que intelectual tem que ser velha, mal vestida, feia. Cuido do lado interno tanto quanto do externo", falou, cruzando as pernas e evidenciando a fenda do vestido estampado.
Em sua primeira visita ao Brasil, a escritora disse que já se identificou muito com o país e espera conhecer as mulheres além dos clichês. "Conheço as que Jorge Amado descreveu. Sei que são mágicas, loucas, sensíveis, guerreiras, reais e irreais, apaixonadas. Tudo é paixão aqui", comentou. Com a boca rosada, lindos cabelos cacheados e caráter forte, é Joumana quem vai despertar paixões por aqui.
Fonte: G1 Fliporto

sábado, 12 de novembro de 2011

Ação de inconstitucionalidade

Comissão do Conselho Nacional de Educação vai pedir ao Supremo Tribunal Federal que invalide tratado do governo com Vaticano.
Reportagem de Priscilla Borges [iG].
Uma comissão de representantes do Conselho Nacional de Educação (CNE) vai se reunir, no próximo dia 22, com oministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito para discutir um tema espinhoso e polêmico: o Ensino religioso.
A oferta de aulas sobre o tema nas escolas públicas do País é obrigatória de acordo com as leis brasileiras. Na teoria, o conteúdo não pode professar dogmas de nenhuma religião e deve ser dado por professores das redes.
Na prática, as escolas não seguem as regras definidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Não há orientações claras sobre como o tema deve ser tratado, tampouco professores preparados para ensiná-lo. Quando a escola oferece ensino religioso, termina por fazer catequese de alguma religião – de modo geral as cristãs. Por conta dessas indefinições, os conselheiros criaram uma comissão que vai elaborar orientações nacionais sobre o assunto.
Depois de algumas reuniões com estudiosos – nenhum representante de religiões foi convidado a participar das discussões para que não ficassem tendenciosas –, os conselheiros decidiram ir além. Vão expor ao ministro Ayres Brito suas preocupações com um acordo estabelecido em 2009 entre o governo brasileiro e o Vaticano, no qual o Brasil concorda que o ensino religioso deve ser dado por representantes da Igreja Católica ou de outras religiões.
O ministro será responsável por analisar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pela Procuradoria Geral da União contra esse acordo no ano passado. A ação defende que o STF suspenda a “eficácia de qualquer interpretação que autorize a prática do ensino religioso das escolas públicas que não se paute pelo modelo não-confessional” e não permita que representantes de qualquer religião sejam responsáveis por esse conteúdo nas escolas.
César Callegari, presidente da comissão que discute o tema no CNE, concorda com a PGR. “Estamos preocupados com os problemas que o acordo pode trazer. Devemos fazer de tudo para que a laicidade do Estado seja protegida”, afirma o conselheiro. Para ele, o acordo deve ser revisto. “Não se pode aceitar proselitismo no ensino religioso e esse conteúdo só pode ser dado por professores capacitados”, defende.
Segundo o conselheiro, o primeiro documento do CNE com orientações gerais sobre o tema está quase pronto. O texto, porém, só deve ser apresentado à sociedade, em audiência pública a ser marcada no início do ano que vem. Ele acredita que a sociedade ainda não resolveu um conflito que deveria ser a preocupação anterior a essa discussão sobre quem deve se responsabilizar pela educação religiosa das crianças: se a Igreja, as famílias ou as escolas.
“Mas não está na ordem do dia a possibilidade de uma revisão do texto da Constituição Federal, que determina a oferta de ensino religioso nas escolas. O que precisamos é garantir o cumprimento do que está na lei de maneira adequada”, analisa Callegari. Para ele, outro aspecto muito importante a ser definido é a garantia de outras atividades aos alunos que não desejarem assistir a essas aulas – eles não são obrigados a frequentar essas aulas.
Minorias atendidas
No Rio de Janeiro, onde lei municipal aprovada recentemente definiu a oferta de disciplina sobre o tema a partir de 2012, quem não quiser assistir às aulas de ensino religioso – que deverá contemplar as doutrinas católica, evangélica/protestante, afrobrasileiras, espírita, orientais, judaica e islâmica – será matriculado na disciplina Educação para Valores. Inicialmente, a medida valerá apenas para as escolas de turno integral.
Para Antonio Costa Neto, pesquisador do tema na rede pública do Distrito Federal, o mais importante é garantir que as minorias sejam atendidas nessas normas. Antonio diz que a diversidade religiosa afrobrasileira não é contemplada nas aulas, nem na formação dos professores, o que prejudica as ações para combate ao preconceito racial. Durante o mestrado, ele fez um levantamento nas escolas do DF e identificou que, assim como no resto do País, a abordagem do assunto ainda é confessional.
“Atuar com a disciplina ensino religioso no âmbito das relações étnico-raciais para combater o racismo é uma oportunidade muito boa de êxito. No entanto, as religiões afrobrasileiras não têm sido contempladas e os professores não recebem formação adequada”, lamenta. Por conta disso, Antonio abriu uma representação junto à Secretaria de Educação do DF para questionar como o tema está sendo tratado nas escolas da capital federal.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios também manifestou interesse no tema e pediu explicações ao governo local. Nenhum dos dois obteve respostas concretas ainda. O MPDFT pediu explicações à Secretaria de Educação no mês passado e aguarda a manifestação do órgão. Na opinião da promotora de Defesa da Educação do DF, Márcia da Rocha, esse é um tema importante, mas cujo debate ainda não foi amadurecido pela população. Ela acredita que a sociedade ainda não sabe se gostaria e que tipo de educação religiosa deve haver no País.
Fonte: blog do Carmadélio

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Igreja evangélica faz conferência e culto... pagãos!

A Igreja Luterana Ebenézer, em São Francisco, nos Estados Unidos, realizará a "Conferência Anual de Fé e Feminismo", e entre os palestrantes estará presente Loreon Vigne, Sacerdotisa da deusa da fertilidade egipícia Ísis. Entre os ensinamentos de Loreon, está uma prática da Nova Era: a "meditação dirigida". O anúncio do evento atraiu inúmeras críticas.
Loreon Vigne dirige um templo pagão fundado por ela em 1978 em Geyserville, no estado da Califórnia. "Para mim, Ísis é a Mãe Natureza, que abrange tudo com suas asas. É uma deusa alada, que abrange todos os outros deuses, de todas as culturas do mundo", explica Vigne.
A igreja Ebenézer tem o apelido "Herchurch" (significa "A igreja dela", em inglês) e é conhecida por cultuar deus como se fosse uma mulher. No site da igreja, existe uma declaração em que são defendidas as práticas: "Somos uma comunidade diversificada, alicerçada na tradição cristã, com o propósito de recriar a imagem do divino como mulher. Nossas orações e nossa liturgia feminista remontam à tradição de invocar nomes como Mãe, Shaddai, Sophia, Ventre, Geradora, Aquela Que É. Isso só é possível por nossa uma visão renovada da natureza do Evangelho, guiados pela elevada sabedoria de Jesus".
A palestrante do evento afirma que "a meditação dirigida é aquele momento em que todos os participantes fecham os olhos e você os conduz em uma jornada espiritual. Já levei pessoas a rever suas vidas passadas no Egito, cultura que dominava todos os segredos. Seu principal conceito era conheça a si mesmo, seu coração, sua alma e seu propósito divino". Vigne ainda faz uma crítica aos cristãos que são contrários à aproximação com outras religiões: "Acredito que as pessoas se cansem dessas igrejas normais, que estabelecem um tipo de religião organizada. Eu sempre brinco que a minha religião é desorganizada", afirma a Sacerdotisa.
Uma outra palestrante, Megan Rohrer, é uma pastora luterana transsexual. Segundo o Gospel Prime, para ela, a tendência de se fazer fusões religiosas só tende a crescer. "Acredito que o mundo está muito mais interessado na conexão entre as religiões do que na exclusividade. Não é algo assim tão incomum. O cristianismo foi fundado durante um período que viu o nascimento de muitas coisas", afirma Megan. Sobre a possível rejeição de cristãos mais tradicionais, ela argumenta que "os cristãos que reclamam disso provavelmente não sabem o que é o paganismo. Qualquer coisa que seja diferente do que sua igreja ensine é contra os caminhos de Deus. Isso é algo muito limitado".
Entre os luteranos contrários a esse tipo de evento, o Pastor Dan Skogen foi enfático: "Não se pode inventar esse tipo de coisa!" Ele afirmou ainda estar cansado da "constante zombaria contra a Palavra de Deus". A Igreja Evangélica Luterana da América (ELCA), que hoje reúne perto de 4,2 milhões de membros, em 10 mil igrejas historicamente é reconhecida como tradicional. Skogen é um dos líderes mais indignados com essas circunstâncias e afirma que atualmente a igreja "aceita e promove a falsa ideia de que a salvação é assegurada a essas pessoas que não têm fé em Cristo. É aceitável que eles tragam adoradores de Isis para uma conferência? É um grande afastamento do ensinamento da igreja cristã! Deus deixou claro em Êxodo 20:3: 'Não terás outros deuses diante de mim'. Mesmo assim, essa igreja traz seguidores de outros deuses para falar e ensinar do púlpito!", esbravejou o Pastor.
Fonte: Gospel Mais
Uma igreja luterana da Califórnia está sendo duramente criticada depois de organizar uma conferência que irá apresentar "meditações dirigidas", uma prática associada à Nova Era . O maior problema para os cristãos é saber que isso será dirigido por uma "sacerdotisa" da deusa da fertilidade egípcia Ísis.
A Conferência Anual de Fé e Feminismo será realizada pela quinta vez entre os dias 11 e 13 de novembro. A responsável pelo evento, Igreja Luterana Ebenézer, da cidade de São Francisco, carrega um curioso apelido: herchurch [igreja dela]. O motivo é que ela expressa a identidade feminina de deus, a deusa-mãe.
Loreon Vigne, autointitulada alta-sacerdotisa do Oásis de Isis, um templo pagão fundado por ela 1978 na cidade de Geyserville, Califórnia.
Em entrevista recente, Vigne explica sua fé assim: "Para mim, Isis é a Mãe Natureza, que  abrange tudo com suas asas. É uma deusa alada, que abrange todos os outros deuses, de todas as culturas do mundo".
Falando sobre sua participação num evento realizado em uma igreja cristã, ela ressalta: "A meditação dirigida é aquele momento em que todos os participantes fecham os olhos e você os conduz em uma jornada espiritual. Já levei pessoas a rever suas vidas passadas no Egito, cultura que dominava todos os segredos. Seu principal conceito era conheça a si mesmo, seu coração, sua alma e seu propósito divino". Ela defende um sistema de crenças baseado no conceito egípcio de equilíbrio, formado por 42 leis ou 42 ideais. "É como se fossem os 10 Mandamentos, mas com um conceito mais positivo. "Não matarás", por exemplo, é substituído por "Considere todas as vidas como sagradas".
Vigne planeja levar outras sacerdotisas à conferência para ajudá-la a fazer as invocações, cânticos e meditações. Segundo o site do Oásis de Ísis, além de louvar a antiga deusa pagã, a equipe também faz massagens terapêuticas, leituras de tarô e astrologia.
Vigne explica que hoje há milhares de seguidores de Isis em todo o mundo. "Acredito que as pessoas se cansem dessas igrejas normais, que estabelecem um tipo de religião organizada. Eu sempre brinco que a minha religião é desorganizada".
Contudo, o evento da igreja luterana não agradou a muitos membros da denominação. O pastor Dan Skogen, de Marion, Iowa, é um dos mais indignados com essa invocação de divindades pagãs em um templo cristão.
"Não se pode inventar esse tipo de coisa!", protestou ele, que se descreve como um luterano cansado de ver a "constante zombaria contra a Palavra de Deus" por parte da Igreja Evangélica Luterana da América (ELCA), que hoje reúne perto de 4,2 milhões de membros, em 10 mil igrejas.
Skogen não aceita o fato de que a liderança da ELCA "aceita e promove a falsa ideia de que a salvação é assegurada a essas pessoas que não têm fé em Cristo. É aceitável que eles tragam adoradores de Isis para uma conferência. É um grande afastamento do ensinamento da igreja cristã. Deus deixou claro em Êxodo 20:3: 'Não terás outros deuses diante de mim'. Mesmo assim, essa igreja traz seguidores de outros deuses para falar e ensinar do púlpito!"
Outra palestrante do evento é Megan Rohrer, primeira pastora luterana assumidamente transgênero. "Acredito que o mundo está muito mais interessado na conexão entre as religiões do que na exclusividade", afirma Rohrer. "Não é algo assim tão incomum. O cristianismo foi fundado durante um período que viu o nascimento de muitas coisas".
Embora admita que seja normal a preocupação de alguns com essa mistura de paganismo e cristianismo, ela afirma: "Os cristãos que reclamam disso provavelmente não sabem o que é o paganismo. Qualquer coisa que seja diferente do que sua igreja ensine é contra os caminhos de Deus. Isso é algo muito limitado", acrescenta.
Não é a primeira vez que essa igreja luterana de São Francisco, é criticada por divulgar  ensinamentos que contrariam a teologia cristã.
No site da igreja é possível ler: "Somos uma comunidade diversificada,  alicerçada na tradição cristã, com o propósito de recriar a imagem do divino como mulher. Nossas orações e nossa liturgia feminista remontam à tradição de invocar nomes como Mãe, Shaddai, Sophia, Ventre, Geradora, Aquela Que É. Isso só é possível por nossa uma visão renovada da natureza do Evangelho, guiados pela elevada sabedoria de Jesus".
A pastora Rohrer afirma que sua igreja está "criando uma economia caridosa para um mundo onde a identidade de todos possa ser sustentada em sua integridade, oferecendo espaços de atuação para todos os seres humanos".
Fonte: Gospel Mais

O herói católico

O diário do Vaticano escreve que o recém estreado filme de Steven Spielberg sobre Tintin recupera para a actualidade o personagem criado em 1929 pelo belga Georges Remi Hergé (1907-1983), considerado pelo "Dictionnaire amoureux di catholicisme" um cavaleiro "imaculado, atraído pelo mistério e pela protecção dos mais fracos". Segundo Tillinac, Tintin não é um católico que possa ser identificado como tal, uma vez que nunca reza perante a ameaça da morte e nunca aparece numa igreja.
Apenas em duas ocasiões, escreveu o autor, se lhe escapa um "Deus o tenha" quando é informado da morte de vilão japonês n'"O Lótus Azul", a quinta das suas aventuras. "Apesar disso, Tintin é um herói do catolicismo, impregnado dos ideais dos escuteiros, que tiveram grande importância na formação de Hergé como demonstram as suas primeiras histórias", escreveu Tillinac. Tintin, assegurou, tem uma profissão que legitima as suas viagens pelo mundo e domina a arte da camuflagem que o converte "num anjo ou quase".
No estudo sobre Tintin, o escritor sublinha que o personagem é curioso, aventureiro e prestável e que parece ter vindo à Terra para defender as viúvas e os órfãos. "Tintin é um herói sobrenatural que se move em cenários realistas. As pessoas que lhe são próximas caem em tentações - o whisky, para o capitão Haddock, os osso, para o cão Milu -, mas no momento certo enchem-se de coragem e são salvos por um fundo de honra, como o professor Girassol, intransigente com os direitos humanos", escreveu.
No estudo aprofundado sobre o personagem, Tillinac afirma que Tintin é um cavaleiro ocidental dos tempos modernos, um coração sem mácula e um corpo invulnerável, que atravessa a humanidade como um meteorito para salvar inocentes e vencer o mal. Tintin é o "anjo guardião dos valores cristãos que o Ocodente constantemente renega ou ridiculariza", escreve o escritor francês.
Nota: Recentemente Homer Simpson foi elogiado pelo Vaticano. Agora Tintin, um personagem que é conhecido também por representar o colonialismo e o racismo, é eleito "herói católico". A Igreja escolheu bem seus ícones pop.