sábado, 2 de abril de 2011

Debandada dos patrícios

Direto das Blas:
Não se contentam em ser católicos não praticantes. A designação é insuficiente para lhes satisfazer a coerência. O batismo está lá, neles, como um vírus informático que a par e passo vai criando incompatibilidades com o sistema de valores que professam. É como se a água benta, que lhes jogaram sobre a cabeça em bebés, se tivesse entranhado e fizesse um curto-circuito interior sempre que a Igreja fala sobre o uso do preservativo ou a interrupção da gravidez ou os casos de pedofilia que envolvem membros do clero. O choque ganha dimensão de falência sistémica quando o Vaticano diz falar por todos os católicos - e todos os batizados são contabilizados como tal.
"Falar em meu nome? Em meu nome não", protesta João Pedro Martins, que aos 38 anos tomou a decisão de anular o seu batismo. Foi durante a visita do Papa Bento XVI a Portugal. "Viram o circo ridículo, a ostentação, o palco? Parecia o Bono". O pedido para a paróquia de S. Vicente de Paulo, em Lisboa, seguiu a 13 de maio - "A data não foi escolhida de propósito, nunca quis ofender ninguém. Mas sou ateu e sentia-me como se fosse do FCP e continuasse a pagar as quotas do Benfica".
A resposta tardou. Três semanas passadas e um completo silêncio, João reenviou o pedido. Dias depois, na volta do correio, recebeu uma cópia da sua certidão de batismo com a adenda a confirmar a apostasia (assim se chama a anulação): "Abandonou a Igreja Católica por ato formal".
Ricardo Silvestre, fundador da Associação Ateísta Portuguesa, filmou e colocou no YouTube o seu processo de desvinculação da Igreja Católica
Engenheiro informático - a maioria dos apóstatas tem formação superior -, João Pedro tinha tudo para ser um crente cumpridor. Foi batizado com dois meses, andou numa escola católica até à 4ª classe, fez a primeira comunhão e o crisma. As dúvidas chegaram aos 12 anos. Devorador de livros de divulgação científica, tinha dificuldade em encaixar naquelas teorias uma entidade divina. O crisma já foi feito com beicinho cerrado e cara de mau.
Com os estudos a progredir nas matemáticas, a crença logo passou a indiferença, transformando-se depois na atual certeza de que "Deus simplesmente não existe". Rui não entra numa Igreja nem para casamentos, não celebra o Natal - "Mas no dia a dia o que me chateia mesmo é ver o poder da Igreja sobre o Estado... laico".
Foi buscar as regras do desbatismo - em latim actus formalis defectionis ab ecclesia catholica - ao grupo do Facebook 'Apostasia: como abandonar formalmente a Igreja Católica' . A página tem menos de um ano e 3 mil membros, cerca de uma centena com o processo em curso ou concluído e milhares interessados em saber como se faz. São aliás os únicos números nacionais sobre a matéria.
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) não confirma nem desmente que existam casos. "Não temos estatísticas. Creio que, a haver, não surge com grande dimensão. Talvez possa acontecer em parte devido a seitas que incentivam católicos a integrarem os seus grupos religiosos. Mas cada um é livre de seguir o caminho que deseja, mesmo se por vezes os métodos não respeitem a sua liberdade", diz o padre Manuel Barbosa, diretor do secretariado geral da CEP.
Foi o professor universitário Rui Correia Gonçalves que criou o grupo no Facebook em meados de 2010. "Percebi que poucas pessoas conheciam a possibilidade do abandono formal da Igreja Católica, incluindo os próprios párocos", conta. A lecionar Direito da União Europeia na Universidade de Londres, há muito que não se revê na ideologia. "Não hei de morrer sem ser excomungado", dizia desde a adolescência. Faz agora um ano que deixou de constar como católico.
"Lembro-me que em criança a história dos pecados mortais fazia-me muita confusão. Era guloso e não percebia como é que comer muitos bolos era atentatório para Deus! E depois, quem comia muitos bolos mas se confessava ia para o Céu e os que não rezavam, como eu, iam para as profundezas de Lúcifer", recorda. A paixão por História levou-o a estudar a génese da Igreja, e o que encontrou só o afastou mais: "A Inquisição, o silêncio do Vaticano sobre o Holocausto, o tratamento de inferioridade dado às mulheres, o menosprezo pelos homossexuais...".
Rui permaneceu cristão. A parte católica apagou-a com a ajuda da mãe que, de visita a Moçambique, onde o professor nasceu e foi batizado, tratou do processo de apostasia. "Não foi uma surpresa para ela. Quando se pertence a um clube há que aceitar as suas regras ou então abandoná-lo".
No grupo do Facebook quase todos os dias há mais um anúncio de desvinculação. "Sou a excomungada mais feliz do mundo", postou E.C., uma engenheira civil de Lisboa, vegan, ateia no meio de uma família católica praticante. "Não pedi para ser batizada e isso basta. Tenho-me por uma pessoa racional e ética, o que é incompatível com qualquer religião. Além disso, a Igreja Católica funciona como uma empresa, usufrui de benefícios com base no número de crentes, e a melhor maneira de agir é não lhe dar lucro. Eu sei que sou só uma, mas por vezes conseguem-se grandes mudanças com pequenas escolhas", explicou ao Expresso.[AEIOU]

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