segunda-feira, 7 de março de 2011

Carta aberta para Sandy

Este blog é pagão, destesta a Polícia Ideológica do Politicamente Correto, se empenha na promoção da reconsagração do amor, do prazer, do desejo e do sexo. Este blog não comemora o carnaval midiático, que serve apenas para divulgar o sexismo. Este blog também tem espaço para política e propaganda, como os diletos e eventuais leitores devem ter acompanhado.
Considere, dileto e eventual leitor, como sendo este texto um parêntesis, um intervalo, um feriado, para que eu possa celebrar o carnaval como deve ser comemorado, comentando a minha profunda preocupação. Toda a luta das mulheres, como a de Simone de Beauvoir, foram em vão. O que se propaga e se divulga, ainda é o mesmo sexismo, machismo e supremacia patriarcal. Por palavras  ou ações de mulheres.
Como entender a declaração de Deborah Secco, ao falar de seu último trabalho, o filme "Bruna Surfistinha", dizendo que esta é a "personagem de sua vida"? O que há de bom nesta personagem? Será que esta é a glamourização midiática da prostituta que a Disney [ainda] não fez?
Como entender a participação da cantora Sandy no comercial da cerveja Devassa, antes protagonizada por Paris Hilton, um paradoxo denunciado aqui? O que há de bom na personificação? Não se pode ter um lado relaxado, descontraído, sem ter que recorrer à cerveja? A Sandy não pode ser mulher e fazer o que bem entender sem ter que recorrer à ingestão de uma bebida alcoólica? A Sandy tem consciência que fez uma propaganda que contradiz esta postura?
Nest sentido, achei muito pertinente a crítica do Roupas no Varal, no texto "Carta Aberta para Sandy".
Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.
Foi a época da “garota sandy“: uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.
A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.
Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.
Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)
Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.
Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.
O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.
Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.
E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.
Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.
As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.
Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?
Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.

2 comentários:

Hamanndah disse...

Massa,massa mesmo.

Bjs
Hamanndah

Lua d'Inverno disse...

Adorei! A autora tá super de parabéns!