domingo, 4 de abril de 2010

Cerveja, mulher, propaganda

Uma combinação explosiva, um recurso pobre da Propaganda, um caso de sexismo, um caso de falso moralismo, um caso de censura, de liberdade de expressão ou algo mais?
Com atraso, mas não esquecido, eis o comentário que este pagão que vos escreve tem a dizer sobre a proibição do comercial da cerveja Devassa com Paris Hilton.
A Schincariol lançou um comercial, divulgado em rede de televisão, para divulgar a creveja Devassa, com ninguém menos que Paris Hilton como protagonista.
Não muito depois, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres pediu ao Conar para que a divulgação fosse suspensa, sob a alegação de que a propaganda era "sexista".
Como eu sou formado em Comunicação Social com habilitação em Propaganda e Marketing é necessário dizer que a proibição [vista como "censura"] apenas funcionou como combustível para a divulgação do produto. O que se pode notar e comentar são as reações à proibição, ora definindo como "falso moralismo" ora como "cerceamento ao direito de liberdade de expressão".
Mas a questão não é essa. Paris Hilton não fez uma declaração em prol de uma vida sexualmente ativa e saudável. A propaganda intensificou ela como um personagem, não como mulher e a vinculou a um produto, relegando sua humanidade, sua feminilidade, sua sensualidade e sexualidade a um mero objeto. A propaganda fetichizou o produto [cerveja] para que seus consumidores [o público "masculino"] tivessem a consolação de que estavam bebendo [usando, "comendo"] a personagem, a mulher e tudo aquilo que ela representa [riqueza, posição social, domínio, controle]. Ao identificar a mulher com uma cerveja, a propaganda dá uma justificativa [uma desculpa] à violência contra a mulher, à discriminação de gêneros, à coisificação da mulher que, como uma cerveja, deve ser usada ["comida"] e jogada fora.
O que podemos discutir se a medida é suficiente, em um país marcantemente machista, patriarcal; onde a violência física e sexual contra a mulher é tolerada; onde a cultura de massas vendem idéias sobre amor, relacionamentos e sexo, quando a prática é outra; onde a Midia intensifica, elogia e patrocina essa vida sexual platônica doentia; onde uma mulher que tem uma vida sexualmente ativa e saudável é ainda vista como "devassa". Nisso, a propaganda não ajudou em coisa alguma.

1 comentários:

Adília disse...

De fato como bem diz, a violência sexual inscreve-se num caldo cultural em que o sexismo é o ingrediente determinante e este passa pela coisificação e consequente inferiorização das mulheres. Há situações em que a violência se torna obvia e brutal mas no fundo ela está sempre escondida e pronta a despoletar na primeira oportunidade. Mais uma vez se constata que as próprias mulheres se tornam cumplices do sistema que as oprime, seja por ambição material ou inconsciencia.