domingo, 18 de abril de 2010

Até quando a Igreja vai fingir?

Silêncio que abala a credibilidade.
A Igreja Católica sofre uma das maiores crises morais e de credibilidade da história moderna. Ainda assim, a responsabilidade por essa situação não recai sobre os milhões de fiéis espalhados por todo o mundo, que sofrem na própria carne o impacto da atitude de hipocrisia revelada pelas autoridades do Vaticano. O peso da responsabilidade sobre a omertà - o acobertamento de milhares de delitos cometidos por sacerdotes e bispos em todo o mundo contra meninos e adolescentes - recai fundamentalmente sobre a figura do papa atual, Bento XVI, o teólogo alemão Joseph Ratzinger. Antes de chegar ao papado, ele foi responsável, como prefeito da Congregação da Fé, pelo acobertamento dos crimes de pedofilia.
Essa responsabilidade, no entanto, não recai somente sobre ele, mas também sobre alguns de seus antecessores e sobre toda a instituição do poder central da Igreja. Basta recordar que existe na Igreja - só agora sabemos disso - um sigilo papal que impede sacerdotes e bispos de denunciar às autoridades civis os casos de pedofilia. Assim, estava garantida a impunidade penal dos religiosos pedófilos. Mais ainda: aqueles que tomem conhecimento de casos de pedofilia dentro da Igreja estão impedidos de denunciá-los.
Um documento pontifical determina que aqueles que ficarem sabendo do sigilo papal devem prestar um juramento que segue a seguinte fórmula: "Eu, tocando com as próprias mãos os sacrossantos evangelhos de Deus, prometo guardar fielmente o sigilo papal, de maneira que sob nenhuma forma, nenhum pretexto, seja por um bem maior, seja por motivo urgentíssimo e gravíssimo, me seja lícito violar o sigilo já mencionado. Que Deus me ajude e me ajudem estes santos evangelhos que toco com as próprias mãos".
O filósofo italiano Flores D’Arcais, editor da revista Micromega, qualifica esse juramento como fórmula solene e terrível que nos exime de qualquer comentário.
Para defender-se da terrível onda de acusações de crimes contra os inocentes cometidos pelo clero católico, o Vaticano tem sido muito torpe. Primeiro, afirmou que o crime de pedofilia não é exclusividade dos religiosos. É verdade. Também há pedófilos entre os casados. A Igreja, ainda assim, esquece que a instituição do celibato obrigatório - que não tem nenhum fundamento bíblico, já que os apóstolos eram casados, e certamente o próprio Jesus era casado, assim como todos os primeiros bispos do cristianismo e os primeiros papas - é um dos multiplicadores dos desvios sexuais do clero. O que o papa ainda espera para eliminá-la?
O Vaticano quis se defender afirmando que há relação entre homossexualismo e pedofilia, uma autêntica aberração que ofende todo um segmento da população e não tem o menor fundamento científico.
Quis distinguir no crime de pedofilia a diferença entre pecado - que a Igreja perdoa com a penitência de um Pai Nosso rezado - e crime perante a Justiça. Para a Igreja, o caso seria apenas pecado. Por que então a Igreja considera o aborto e a eutanásia crimes que devem ser punidos pelas autoridades civis, por exemplo?
No terrível juramento do sigilo papal, aquele que o recita é lembrado de que o faz com as mãos sobre os evangelhos de Jesus. É curioso que a Igreja, que diz inspirar-se nas chamadas sagradas escrituras, se esqueça do único momento em que o pacífico Profeta de Nazaré, que pede a seus apóstolos que embainhem a espada e se deixem matar sem se defender, expressa sua ira: é para pedir a pena de morte para quem fizer mal a um menino. E há mal maior que violentar sexualmente um menor? El Roto, ilustrador do jornal El País, publicou um desenho chocante: entregamos nossos filhos à Igreja para que cuide de suas almas sem saber que ela quer na verdade apoderar-se de seus corpos.
O texto no qual Jesus pede a pena de morte para quem violentar um menor está nos três evangelhos chamados sinóticos (Mateus, 18:5; Marcos, 9:42; e Lucas, 9:46). No evangelho de Mateus, depois de identificar a si mesmo com os meninos inocentes, Jesus pronuncia a terrível sentença de morte: "Quem quer que faça mal a um desses pequeninos merece que lhe pendurem no pescoço uma pedra de moinho e o afundem nas profundezas do mar".
Por que não distribuir em todo o mundo católico cartazes com essas tremendas palavras de condenação de Jesus contra os pedófilos? Por que os padres e bispos não as leem nas igrejas?
A Igreja quer continuar minimizando os abusos contra menores cometidos por seu clero. De nada adiantará. Queiram ou não, essa pedra de moinho atada ao pescoço de cada pedófilo da Igreja será a condenação implacável da sociedade pelo grande escândalo de terem abusado de menores dos quais eles próprios deveriam ser os melhores guardiães e defensores.
A última defesa indefensável do Vaticano contra os abusos que estão vindo à tona é afirmar que o mais importante é manter a própria instituição em segurança. Trata-se do princípio de lavar a roupa suja em casa. Nada mais distante da doutrina de Jesus. Os responsáveis pela igreja judaica de seu tempo, que se arrogavam o direito de decidir sobre a consciência do povo, são descritos por ele, no evangelho de Mateus, como "sepulcros caiados que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão". Jesus, com palavras que não poderiam ser mais atuais, lhes diz: "Por fora, pareceis justos diante dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e podridão". Jesus insiste: "Limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de cobiça e maldade". E sentencia: "Como escapareis da condenação do inferno?"
Esse castigo está aí, visível, ameaçador, atual. Significa, entre outras coisas, o abandono da Igreja por parte daqueles que, se as hierarquias não tomarem medidas críveis, poderão confiar cada vez menos em sua inocência.
Autor: Juan Arias. Fonte: Estadão
Epístola da desobediência
Veneráveis bispos:
Joseph Ratzinger, atual papa Bento XVI, e eu éramos os mais jovens teólogos no Concílio Vaticano II (1962-1965). Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em plena atividade. Sempre entendi meu trabalho teológico como um serviço prestado à Igreja Católica Romana. Por essa razão, por ocasião do quinto aniversário da eleição do papa Bento XVI, faço este apelo a vocês numa carta aberta. Ao fazê-lo, sou motivado por meu profundo respeito por minha Igreja, que agora se encontra envolvida na pior crise de credibilidade desde a Reforma. Queiram me desculpar pela forma de carta aberta. Infelizmente, não tenho outro meio para alcançá-los.
Minhas esperanças e as de tantos católicos de que o papa pudesse encontrar seu caminho para promover uma renovação em curso da Igreja e uma reaproximação ecumênica no espírito do Concílio Vaticano II infelizmente não se confirmaram.
Seu pontificado mais perdeu que aproveitou oportunidades. Perdeu-se a oportunidade de reaproximação com as igrejas protestantes; de uma reconciliação duradoura com os judeus - em vez disso, recolocou bispos notoriamente antissemitas e cismáticos em comunhão com a Igreja; de um diálogo com muçulmanos numa atmosfera de confiança mútua; de reconciliação com os povos indígenas colonizados da América Latina; de ajudar os povos da África permitindo o uso do controle da natalidade para combater a superpopulação e preservativos para combater a disseminação do HIV. Perdeu-se a oportunidade de fazer do espírito do Concílio Vaticano II a bússola de toda a Igreja Católica.
Este último ponto, respeitáveis bispos, é o mais sério de todos. Por diversas vezes, este papa acrescentou qualificativos aos textos conciliares e os interpretou contra o espírito dos padres do Concílio:
- Trouxe os bispos da tradicionalista Sociedade Pio X de volta à Igreja sem nenhuma precondição;
- Promove a Missa Tridentina medieval por todos os meios possíveis;
- Recusa-se a pôr em vigor a reaproximação com a Igreja Anglicana, exposta em documentos oficiais pela Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana;
- Reforçou ativamente as forças anticonciliares na Igreja nomeando funcionários reacionários para postos-chave na Cúria, enquanto nomeava bispos reacionários por todo o mundo.
O papa Bento XVI parece cada vez mais afastado da vasta maioria dos membros da Igreja que presta cada vez menos atenção a Roma e, na melhor hipótese, se identifica somente com seu pároco ou bispo local.
Sei que muitos de vocês estão aflitos com essa situação. Em sua política anticonciliar, o papa recebe pleno apoio da Cúria Romana. A Cúria é competente para reprimir críticas no episcopado e na Igreja como um todo e para desacreditar críticos por todos os meios a sua disposição. Com a volta à pompa e ao espetáculo absorvendo a atenção da mídia, as forças reacionárias em Roma tentaram nos apresentar como uma Igreja forte chefiada por um "Vigário de Cristo" absoluto que combina os poderes legislativo, executivo e judiciário da Igreja em suas mãos apenas. Mas a política de restauração de Bento fracassou. Todos os seus aparecimentos espetaculares, viagens demonstrativas e declarações públicas não conseguiram influenciar as opiniões da maioria dos católicos em questões controversas. Isso é particularmente verdadeiro com respeito a questões de moralidade sexual. Mesmo os encontros papais com a juventude, frequentados sobretudo por grupos carismáticos conservadores, não conseguiram conter a drenagem dos que saem da Igreja nem atrair mais vocações para o sacerdócio.
Vocês em particular, como bispos, têm razões para um profundo pesar: dezenas de milhares de padres renunciaram ao ministério desde o Concílio Vaticano II, a maioria em razão da regra do celibato. Vocações para o sacerdócio, mas também para ordens religiosas, irmandades e irmandades laicas estão em queda - não só quantitativamente como qualitativamente. A resignação e a frustração estão se espalhando rapidamente tanto pelo clero como pelos leigos atuantes. Muitos sentem que foram abandonados com suas necessidades pessoais e muitos estão profundamente deprimidos com a situação da Igreja. Em muitas de suas dioceses é a mesma história: igrejas cada vez mais vazias, seminários vazios e paróquias vazias. Em muitos países, em razão da falta de padres, cada vez mais paróquias estão sendo fundidas, com frequência contra a vontade de seus membros, em "unidades pastorais" maiores em que os poucos pastores sobreviventes ficam absolutamente sobrecarregados. Isso é antes uma falsa reforma da Igreja que uma reforma de fato!
E agora, por cima dessas crises, surge um escândalo que clama ao céu - a revelação do abuso clerical de milhares de crianças e adolescentes, primeiro nos Estados Unidos, depois na Irlanda, e agora na Alemanha e outros países. E para piorar as coisas, o tratamento dado a esses casos deu lugar a uma crise de liderança sem precedente e um colapso da confiança na liderança da Igreja.
As consequências de todos esses escândalos para a reputação da Igreja Católica são desastrosas. Líderes importantes da Igreja já admitiram isso. Numerosos pastores e educadores inocentes e comprometidos estão sofrendo com o estigma da suspeita que agora se estende sobre a Igreja.
Vocês, reverendos bispos, precisam enfrentar a questão: que acontecerá com nossa Igreja e suas dioceses no futuro? Não é minha intenção esboçar um novo programa de reforma da Igreja. Isso eu já fiz muitas vezes tanto antes como depois do Concílio. Desejo apenas lhes apresentar seis propostas que estou convencido de que são apoiadas por milhões de católicos que não têm voz na atual situação.
1. Não se calem: mantendo o silêncio ante tantas ofensas graves vocês também se mancham com a culpa. Quando sentirem que certas leis, diretrizes e medidas são contraproducentes, vocês devem dizê-lo em público. Enviem a Roma não profissões de sua devoção, mas apelos em favor da reforma!
2. Comecem a reforma: muitos na Igreja e no episcopado se queixam de Roma, mas eles próprios não fazem nada. Quando pessoas não frequentam mais a igreja numa diocese, quando o público é mantido na ignorância sobre as necessidades do mundo, quando a cooperação ecumênica é reduzida ao mínimo, então a culpa não pode ser simplesmente atribuída a Roma. Quer sejam bispos, padres, leigos ou leigas - todos podem fazer algo pela renovação da Igreja dentro da própria esfera de influência, seja ela grande ou pequena. Muitas das grandes realizações que ocorreram nas paróquias individuais e na Igreja em geral devem sua origem à iniciativa de um indivíduo ou de um pequeno grupo. Como bispos, vocês deveriam apoiar essas iniciativas e, especialmente considerando a situação presente, deveriam responder às justas queixas dos fiéis.
3. Ajam de maneira colegiada: após debates acalorados e contra a persistente oposição da Cúria, o Concílio Vaticano II decretou a colegialidade do papa e dos bispos. Ele o fez no sentido dos Atos dos Apóstolos, em que Pedro não agia sozinho sem o colégio dos apóstolos. Na era pós-conciliar, porém, o papa e a Cúria ignoraram esse decreto. Dois anos apenas após o Concílio, o papa Paulo VI emitiu sua encíclica defendendo a controversa lei do celibato sem nenhuma consulta aos bispos. Desde então, a política papal e o magistério papal continuaram agindo da velha maneira não colegial. Mesmo em matérias litúrgicas, o papa governa como um autocrata sobre e contra os bispos. Ele fica feliz de se cercar deles desde que não sejam mais que figurantes no palco, sem nenhuma voz nem direito de voto. É por isso que, veneráveis bispos, vocês não deveriam agir sozinhos, mas na comunidade dos outros bispos, dos padres e dos homens e mulheres que constituem a Igreja.
4. A obediência incondicional só é devida a Deus: embora em sua consagração episcopal vocês tenham tido de fazer um juramento de obediência ao papa, sabem que a obediência incondicional não deve jamais ser prestada a nenhuma autoridade humana; ela só é devida a Deus. Por essa razão, vocês não deveriam se sentir impedidos por seu juramento de falar a verdade sobre a crise atual que enfrentam a Igreja, sua dioceses e seu país. Seu modelo deveria ser o apóstolo Paulo, que ousava discordar de Pedro como em "resisti-lhe francamente, porque era censurável"! (Gálatas 2:11). Pressionar as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser permissível e até necessário quando elas não se colocam à altura do espírito do Evangelho e de sua missão. O uso do vernáculo na liturgia, as mudanças dos regulamentos que governam casamentos mistos, a afirmação de tolerância, democracia e direitos humanos, a abertura para uma atitude ecumênica, e muitas outras reformas do Vaticano II só foram alcançados pela pressão tenaz de baixo para cima.
5. Trabalhem por soluções regionais: o Vaticano com frequência tem feito ouvidos surdos a demandas bem fundamentadas do episcopado, dos padres e da laicidade. Isso é mais razão ainda para se buscar soluções regionais sábias. Como todos vocês sabem, a regra do celibato, que foi herdade da Idade Média, representa um problema particularmente delicado. No contexto atual do escândalo dos abusos sexuais, a prática tem sido cada vez mais posta em questão. Contra a vontade expressa de Roma, uma mudança pareceria pouco possível; mas não há razão para uma resignação passiva. Quando um padre, após considerações maduras, deseja se casar, não há razão porque ele deva renunciar automaticamente a seu ministério quando seu bispo e sua paróquia ficarem do seu lado. Conferências episcopais individuais poderiam tomar a frente com soluções regionais. Seria melhor, porém, buscar uma solução para toda a Igreja, portanto.
6. Peçam um concílio: assim como a conquista da reforma litúrgica, liberdade religiosa, ecumenismo e diálogo entre religiões requereu um concílio ecumênico, agora é necessário um concílio para resolver a escalada de problemas que pede uma reforma. No século anterior à Reforma, o Concílio de Constança decretou que concílios deveriam ser realizados a cada cinco anos. Mas a Cúria Romana conseguiu contornar essa decisão. Está fora de dúvida que a Cúria, temendo uma limitação de seu poder, faria qualquer coisa a seu alcance para impedir a realização de um concílio na presente situação. Assim, cabe a vocês promoverem o apelo por um concílio ou ao menos por uma assembleia representativa de bispos.
Com a Igreja em crise profunda, este é meu apelo a vocês, veneráveis bispos: ponham em ação a autoridade episcopal que foi reafirmada pelo Concílio Vaticano II. Nesta situação urgente, os olhos do mundo estão voltados para vocês. Incontáveis pessoas perderam sua confiança na Igreja Católica. Somente admitindo aberta e honestamente esses problemas e realizando resolutamente as reformas necessárias a confiança poderá ser recuperada. Com o devido respeito, eu lhes rogo que façam a sua parte - com seus colegas bispos até onde for possível, mas também sozinhos se preciso for - no "destemor" apostólico (Atos 4:29, 31). Deem a seus fiéis sinais de esperança e encorajamento e deem a nossa Igreja uma perspectiva para o futuro.
Autor: Hans Kung. Fonte: Estadão
Nota da casa: Enquanto isso, alguns padres e católicos continuam tentanto ocultar e negar a responsabilidade da Igreja: "Não convém cobrar da Igreja o mesmo método e o mesmo poder do ordenamento civil." Não se está pedindo isso da Igreja. O que nós pedimos é um mínimo de coerência. Quem se arroga autoridade moral deve ser o primeiro a observá-la. Chega de hipocrisia, de dissimulação, de falsidade, de prepotência, de presunção.

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