O assunto surgiu no café da manhã, lendo matéria da Folha de S. Paulo sobre mais um engano da Secretaria de Educação do Estado de S. Paulo. Segundo a notícia, ora tratada como escândalo (chamada de primeira página e manchete no Caderno Cotidiano destacam distribuição pelo Estado de material com sexo e palavrões), ora, acho, nas devidas proporções (trata-se de um livro entre quase mil), o governo distribuiu material condenável, porque "traz palavrões e temas sexuais".
A Secretaria alega que é apenas um livro entre muitos e que se destinaria a adolescentes e adultos. E que foi parar nas mãos de alunos de terceira série por engano. Convenhamos que a Secretaria tem se enganado demais. E eles falam que se distinguem pela capacidade de gestão!!
O livro contém 10 histórias em quadrinhos tratando de temas de futebol. O jornal mostra pequenas cenas, como o "diálogo" entre um atacante e um zagueiro: o atacante miúdo (um estereótipo) provoca um zagueirão gigantesco (outro) perguntando: "Para visitar tua mãe tem que pagar entrada?". Há outras amostras, todas mais ou menos do mesmo estilo.
Minha opinião? Pode ter havido alguma inadequação, mas acho que escandalizar-se com o fato é puritanismo besta! Andei escrevendo aqui, há algum tempo, sobre a relevância de discutir na escola, entre outros materiais, piadas preconceituosas, mesmo as mais complicadas, as racistas. Não acho que analisar e discutir piada racista ou machista em sala de aula seja equivalente a fazer pregação de racismo e machismo. Fazer de conta que esconder tais discursos dos alunos os convence a serem mais democráticos e justos ou defensores dos direitos humanos é uma balela. "Limpar" os livros didáticos ou a lista de leituras produz apenas um efeito: a escola parece desligada da realidade. Depois se queixam dos alunos desinteressados.
Na escola, livros com sexo e palavrões são censurados. Mas basta o toque da sineta do intervalo para que se ouça de tudo. O pátio parece uma arquibancada. E qual é mesmo o problema com palavrões e cenas de sexo? Por que não ler e discutir? Queremos que a escola seja um lugar especial, de maior "pureza" e correção, uma espécie de espaço ideal, no qual os jovens estejam protegidos dos males do mundo? Pois então, realidade neles. É claro que a escola não se vai defender determinados comportamentos. Mas acho que esconder fatos não adianta. O verdadeiro diferencial da escola deveriam ser os debates conduzidos por professores com boa cabeça. Nada de censura farisaica.
Autor: Prof. Sírio Possenti em coluna no Terra Magazine
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